quinta-feira, abril 30, 2015

Descaramento sem limites


As rendas de que a EDP beneficia permitiram que ela obtivesse, no exercício de 2014, lucros no montante de 1.040 milhões de euros (mais 4% do que no ano anterior). Apesar do bodo aos ricos em que se transformou a reforma do IRC, o alegado primeiro-ministro não se coibiu, ainda assim, de elogiar a EDP e a generalidade das grandes empresas e do sector financeiro pelos «sacrifícios adicionais» que fizeram nos últimos anos.

Cuidado com este homem. Ele é suficientemente descarado para nos tentar vender, com o ar mais sereno deste mundo, o cavalo de D. José no Terreiro do Paço.

Parar de escavar o buraco


Eduardo Ferro Rodrigues, em entrevista ao Acção Socialista (1.ª parte), conduzida por Fernanda Freitas e Adelino Gomes: “Política de austeridade tem de terminar”.

Limpinho, limpinho…


A resposta à carta do PSD por parte do grupo de economistas que elaborou o documento Uma Década para Portugal pode ser lida aqui. O PSD não merece esta resposta cordata e tão profunda. Valha-nos que a comissão política laranja vai ter que meter explicador para a entender — e a verdade é que neste momento não se vê nenhum economista conhecido a chegar-se à frente para dar a mão aos estarolas.

Da série "Frases que impõem respeito" [911]


Que política é esta que depois da crise nos anuncia mais crise, uma crise crónica que priva os cidadãos de futuro, que os faz desconfiar das instituições e da capacidade do Estado democrático para defender o bem público e o interesse colectivo?

«Um suave colorido obsessivo, outras vezes depressivo
e, outras ainda, controladamente agressivo»


Agora, já se percebe por que razão o Prof. Marcelo recomendou o livro de um psiquiatra sobre Rui Rio — e por que José António Lima, na fanzine da Newshold, dá destaque ao assunto, não vá ter escapado a alguém a recomendação do «cata-vento».

Bons modos

— Já solicitei aos portugueses a redução do seu nível de vida
e vejam lá que foi aprovado por unanimidade e aclamação.

    «O Governo decidiu enviar a Bruxelas uma versão do Programa de Estabilidade diferente da que foi discutida no Parlamento.

    Uma das alterações é um monumento à novilíngua de George Orwell: os sacrifícios que tinham sido exigidos aos portugueses passaram a ser sacrifícios solicitados aos portugueses.

    Afinal não houve cortes em nada: os funcionários públicos, os pensionistas, os utentes dos serviços públicos, etc. foram apenas simpaticamente convidados pela maioria a reduzir o seu nível de vida.

    É ler para crer:

    No ponto II.2.1.2 Estratégia Orçamental 2015-2019 do Programa de Estabilidade:

    Versão discutida na Assembleia da República:
      A estratégia orçamental apresentada mantém o mesmo sentido de responsabilidade dos últimos quatro anos – respeitando o enquadramento europeu aplicável e o princípio de sustentabilidade das finanças públicas –, e permite o desagravamento gradual dos sacrifícios exigidos aos Portugueses.

    Versão final, remetida para Bruxelas:
      A estratégia orçamental apresentada mantém o mesmo sentido de responsabilidade dos últimos quatro anos – respeitando o enquadramento europeu aplicável e o princípio de sustentabilidade das finanças públicas –, e permite o desagravamento gradual dos sacrifícios solicitados aos Portugueses.»

Dar uma lição à periferia


    «Fontes oficiais da zona euro disseram à Reuters que o Eurogrupo pretende obrigar a Grécia a pagar "um custo político", o que é esta quarta-feira destacado pelo jornal grego "Protothema".»

Isto anda tudo ligado


Ontem, o Presidente da República distinguiu a Obra Diocesana de Promoção Social com o título de Membro Honorário da Ordem de Mérito. Hoje, a Polícia Judiciária tem em curso uma operação para detectar utentes fantasma na citada Obra Diocesana. Está em causa a obtenção fraudulenta de financiamento do Instituto da Segurança Social. O ministro Mota Soares, enquanto troca o Estado social pelo assistencialismo, nunca se lembrou de que é preciso exercer um controlo apertado das transferências de dinheiros públicos?

Acerca do regular funcionamento das instituições democráticas

quarta-feira, abril 29, 2015

A «economia real» de Portas


Já foi um homem obcecado com os pescadores, os lavradores, os deficientes das Forças Armadas, os espoliados, os pensionistas, os contribuintes, etc., etc. A vida política de Paulo Portas foi mudando tanto que, entretanto, se transformou num especialista da «economia real». Na imagem acima, que reproduz o momento da venda da participação do Estado na EDP, lá está Paulo Portas em contacto com a «economia real» — a tal em que os custos da energia, de acordo com o presidente do grupo PSA Peugeot Citröen, são 40% mais elevados do que em França.

Foi para o Governo um murro no estômago que, no documento Uma Década para Portugal, tenha sido proposta a eliminação da redução da taxa do IRC, drenando a diferença para o financiamento da segurança social («IRC social»). António Costa explica por que preferiu diminuir a a contribuição das empresas para a segurança social a baixar a taxa do IRC: «Quando trocamos a descida do IRC por uma alteração da contribuição para a Segurança Social por parte das empresas, estamos a tomar uma medida que em vez de beneficiar só cento e poucas mil empresas beneficia 700 mil empresas – e beneficia sobretudo as pequenas e médias, afinal aquelas que mais necessitam de apoio e também aquelas que mais precisam de possuir melhores condições financeiras para acompanharem o esforço de vencer a crise».

Naturalmente, os problemas aflitivos com que se debatem as pequenas e médias empresas não fazem parte das preocupações de Paulo Portas. O vice-pantomineiro é apenas um especialista da «economia real» que a imagem acima tão bem traduz.

Vice-presidentes à beira de um ataque de nervos

O documento Uma década para Portugal endoidou o PSD, designadamente a sua comissão política nacional. O vice-presidente Matos Correia, ainda não tinha acabado a sessão de apresentação do documento, já estava a desancar no documento, embora tivesse reconhecido que não o havia lido. A seguir, foi o vice-presidente Marco António a querer incumbir órgãos do Estado de avaliar os programas dos partidos políticos. Finalmente, é o vice-presidente Carlos Carreiras a dar um ar da sua graça.

No panfleto que hoje publica no i, que termina com um vigoroso «Viva Portugal», Carlos Carreiras parece ter perdido o tino. Na linguagem requintada a que nos habituou, diz ele que o PS «é um albergue espanhol» e que o governo PSD/CDS, o tal que foi «além da troika», «corporiza o novo bloco central, do centro-esquerda ao centro-direita». Deslumbrado com as suas próprias opiniões, Carreiras leva o país a soltar uma gargalhada:
    «Impõe-se a pergunta: qual é o cenário macropolítico [sic] de Costa? Com quem se coliga – com o PCP, com o BE, com o Livre, com todos? – para dar ao país a estabilidade que a coligação PSD/CDS oferece?»

É certo que não é de bom tom estragar um momento de humor, sobretudo quando é notoriamente involuntário. Mas a verdade é que, estando a coligação de direita atrás do PS em todas as sondagens, os portugueses gostariam de poder devolver a pergunta ao vice-presidente Carreiras: a direita de Passos Coelho & Portas coliga-se com quem para fazer maioria?

A construção de uma alternativa


• João Galamba, A construção de uma alternativa:
    «Sim, há mesmo alternativa. A pedido do Secretário-Geral do Partido Socialista (PS), um grupo de 12 economistas elaborou um documento com o objetivo de mostrar que é possível fazer diferente, e fazer melhor, do que a atual maioria.

    Sim, é possível acelerar o crescimento da economia; sim, é possível criar mais e melhores empregos; sim, é possível combater a pobreza e as desigualdades; sim, é possível preservar e melhorar os serviços públicos; sim, é possível investir na modernização e na capacitação dos nossos recursos, apostando num modelo de desenvolvimento que não dependa da precariedade e dos baixos salários para aumentar a competitividade do país. Sim, é mesmo possível apresentar uma alternativa às políticas que têm vindo a ser seguidas nos últimos anos. E tudo isto sem pôr em causa a participação de Portugal no projeto europeu e na moeda única.

    O grupo de economistas recorreu a modelos e instrumentos de análise reconhecidos internacionalmente (multiplicadores, elasticidades, etc.) para, partindo do cenário base da Comissão Europeia para a economia portuguesa, estimar o impacto que um conjunto de medidas, coerentes e complementares entre si, têm em variáveis como o PIB, o emprego, o investimento, o défice público e dívida públicas, o défice externo, etc. Num trabalho que durou mais de 4 meses, e que se pretendeu sério e rigoroso, estamos confiantes que demos um forte contributo para elevar e credibilizar o debate sobre políticas públicas.

    Face ao cenário da Comissão Europeia, propomos um conjunto de medidas para dinamizar a atividade económica e a criação de emprego: reposição dos mínimos sociais (abonos, RSI e CSI); reposição integral dos cortes salariais e da sobretaxa em dois anos; redução da TSU paga pelos trabalhadores em 4pp; complemento salarial para trabalhadores pobres. Todas estas medidas aumentam o rendimento disponível das famílias e contribuem para dinamizar a procura interna. Para além destes estímulos à procura, e porque não há crescimento sustentável assente apenas no consumo privado, também propomos o reforço do investimento (público e privado) modernizador na ciência, na inovação e nas qualificações. Ao contrário da posição da maioria, reconhecemos que não é possível dinamizar o investimento privado sem estímulos à procura e sem travar os cortes radicais e irracionais no investimento público. E também reconhecemos que não há desenvolvimento sem uma verdadeira aposta nos principais bloqueios estruturais do país.

    Para além do crescimento da economia e do emprego, importa apostar no combate a um dos principais problemas da economia portuguesa: precariedade, subemprego e baixos salários. Por isso, e ao mesmo tempo que se aposta na dinamização da atividade económica, também é fundamental apostar na criação de emprego estável e de qualidade. Para tal, oneramos o trabalho precário, limitando o uso dos contratos a prazo e aumentando a TSU para empresas com elevada rotatividade de trabalhadores (o que onera a Segurança Social), e descemos a TSU paga pelas empresas, mas apenas nos contratos permanentes. Onerar o trabalho precário, desonerar o emprego permanente, em conjunto com todas as outras propostas, permite dar mais incentivos ao emprego estável. O aumento do volume e da qualidade do emprego são o maior contributo que se pode dar para a sustentabilidade da Segurança Social. Para além das receitas criadas pelo aumento do volume e da qualidade do emprego, também importa diversificar as fontes de financiamento do sistema previdencial da Segurança Social. Isso será feito pela não descida da taxa de IRC e consignação da respetiva receita para o sistema de pensões (IRC social) e pela criação de um imposto sucessório (para valores acima de 1 milhão de euros).

    As propostas apresentadas não são, como é evidente, propostas fechadas - podem e devem ser debatidas; podem e devem ser melhoradas; e, também, podem e devem ser complementadas por outras. Mas as propostas apresentadas, bem como todo o trabalho em torno do cálculo dos seus impactos no PIB, no emprego e no défice, deixam-nos confiantes na existência de uma alternativa séria e credível às políticas da atual maioria. Era esse o nosso objetivo. Consideramos tê-lo cumprido.»

«A bem da maluquice total»

«Concordo com a ideia de submeter o cenário macroeconómico dos peritos do PS à avaliação da UTAO. Na mesma linha, proponho que a proposta de revisão constitucional do Observador seja submetida o quanto antes à fiscalização prévia do Tribunal Constitucional (antes que acabem com ela). A bem da maluquice total.»

Linchamentos: se ocorrerem, paciência

      Paula Teixeira da Cruz: — Não há nenhuma notícia de linchamentos populares.
      Manuel Acácio: — Mas na Inglaterra há.
      Paula Teixeira da Cruz: — Não quer dizer que não haja um caso ou outro.
          Hoje na TSF (por volta do minuto 10), sobre a lista de abusadores sexuais de menores

A Comissão Nacional da Protecção de Dados arrasa lista de agressores sexuais de menores. Não obstante este parecer contrário à alteração do Código Penal, e outros pareceres (no mesmo sentido) elaborados por diversas entidades, a maioria de direita vai fazer aprovar a proposta de lei que cria a lista de abusadores sexuais de menores que já cumpriram a pena a que foram condenados. Não vá o diabo tecê-las, a direcção da bancada parlamentar do PSD impôs disciplina de voto. Paula Teixeira da Cruz é capaz de conseguir cometer a proeza de não deixar pedra sobre pedra no edifício da Justiça.

Carta de Sócrates


José Sócrates escreveu uma carta a António Campos, que pode ser lida aqui. A SIC dá o seguinte título à notícia em que divulga a carta: «José Sócrates admite que pode ser condenado». Li a carta e parece abusiva essa conclusão. O leitor poderá ajuizar se esse título, replicado por outros órgãos de comunicação social, reproduz o teor da carta.

Pires de Lima, o politiqueiro das taxinhas

• Daniel Oliveira, Pires de Lima, o politiqueiro das taxinhas [originalmente no Expresso Diário]:
    «(…) Este tipo de taxas, que existem, e com valores muitíssimo mais altos, em imensas cidades com grande afluência de turistas, é não só aceitável como recomendável. A alternativa é pôr os munícipes de Lisboa a pagar, sem apoio das empresas que mais lucram com o turismo, os custos públicos desta atividade. A atividade turística, que beneficiou, entre outras coisas, da trágica crise portuguesa, que reduziu os custos dos serviços, aguenta perfeitamente uma taxa com efeitos marginais. Na realidade, a ANA aguentou e nem se queixou.

    Perante esta proposta, o ministro Pires de Lima foi insistente no ataque ao que chamou, numa performance viral, de “taxas e taxinhas”. E voltou vezes sem conta ao tema. Sempre que lhe deram oportunidade para o fazer, na realidade. Segundo o ministro da Economia, estas taxas eram um ataque à nossa principal atividade exportadora em crescimento rápido: o turismo. O que não deixa de ser hilariante, quando é dito por um membro de um governo que atirou o IVA, incluindo o da restauração, para a estratosfera. A esta crítica, Pires de Lima responde que o seu ministério não criou taxas ou aumentou impostos. Como se o governo fosse uma manta de retalhos e não um único órgão político.

    Recentemente, Rui Moreira não descartou a possibilidade do Porto seguir o exemplo de Lisboa. Explicou, numa entrevista ao “Jornal de Notícias”, que a coisa existe noutras cidades e tem como função cobrir o “impacto da pegada turística”, que representa uma enorme sobrecarga nas infraestruturas urbanas. O presidente da Câmara Municipal do Porto apenas quer ver como a coisa corre na capital.

    Perante isto, foi, na altura, pedida uma reação a Pires de Lima, que fez da guerra às taxas para o turismo, em Lisboa, uma autêntica cruzada. E, extraordinariamente, a resposta foi lacónica: “não quero fazer comentários”. As taxas deixaram de o indignar. Como a política deve ser uma coisa séria, Pires de Lima tem de explicar a razão para ter passado da gritaria histérica para o silêncio absoluto. Ou passou a concordar com as taxas e taxinhas e devia dividir essa sua conversão com o povo; ou as taxas são más em Lisboa e indiferentes no Porto; ou elas eram importantes porque estavam a ser propostas pelo líder do principal partido da oposição e deixaram de ser importantes quando foram propostas por um autarca independente eleito com o apoio do partido do ministro da Economia. Com todas as discordâncias que tenho com Pires de Lima, achava, antes dele ser ministro, que era intelectualmente honesto. Este e outros episódios acabaram por revelar o pior dos politiqueiros.»

Um luxo inesperado

Hoje no Público (via Nuno Oliveira)
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E auditar os líderes que mentiram, pode?

• Ferreira Fernandes, E auditar os líderes que mentiram, pode?:
    «O PS tem um programa económico para as eleições. Ele diz que vai burilar e só quando disser "este é o nosso programa" é que será o seu programa eleitoral (e, sabemos todos, de todos os programas, de todos os partidos, quanto isso é volúvel). Agora, Marco António, do PSD, quer que especialistas de apoio parlamentar façam uma auditoria ao programa do PS. Isso só pode ser uma chicana própria da época pré-eleitoral. Porque a ser mais que um truque, seria um golpe de Estado. Seria pôr a Assembleia da República e qualquer das suas comissões a dar bitaites aos programas eleitorais. Está-lhes a dar forte, aos políticos! (…) É sempre politicamente aliciante ser sujeito a um exame em que se pode passar. Ora, o problema não é de circunstância, é de princípio: quem garante que, amanhã, com outro Parlamento, não se manda uma comissão auditar, por exemplo, as siglas? "Verde", quão verde? Do "centro", mesmo?... Ou auditar líderes: esse mentiu da outra vez, não pode ser cabeça de lista.»

terça-feira, abril 28, 2015

«Chegar ao fim da linha»

    «AINDA ESTOU DE BOCA ABERTA | Leio no JN que o Conselho de Finanças Públicas "não exclui a possibilidade de avaliar cenários macroeconómicos e propostas orçamentais dos vários partidos". Um organismo técnico a "avaliar" as propostas dos partidos políticos (sob a capa de "avaliar os cenários macroeconómicos e propostas orçamentais que os sustentam") não é meio caminho para a destruição da democracia: é chegar ao fim da linha. Estou a imaginar Teodora Cardoso, em conferência de imprensa, a ler um relatório que rejeita as propostas eleitorais do PCP porque a fundamentação "macroeconómica e as propostas orçamentais" são insuficientes. E poucos se indignam com estas aberrações.»

Induzir em erro


    «O Jornal de Negócios confunde redução de litigância laboral com proibição de litigância laboral. E até faz capa com isso e tudo.»

A pergunta sem resposta por parte da ministra das Finanças:
corte de 600 milhões de euros nas pensões


António Costa comunicou hoje que a carta enviada por Marco António Costa terá uma resposta imediata: «Amanhã [quarta-feira] responderemos. Nenhuma carta ficará sem resposta e essa [do PSD] também terá resposta.» O secretário-geral do PS não esclareceu no entanto se, juntamente com a resposta, irá enviar um explicador para desfazer completamente as dúvidas suscitadas pelo inefável companheiro Marco António.

Importa contudo chamar a atenção para a circunstância de que, antes de Marco António se abalançar a redigir a missiva, os deputados João Galamba e Vieira da Silva já tinham colocado, ao abrigo da Constituição e do Regimento da Assembleia da República, uma pergunta à ministra das Finanças, a qual continua a aguardar resposta. Ei-la:
    Pergunta

    Destinatário: Senhora Ministra de Estado e das Finanças

    Assunto: Programa de Estabilidade 2015-2019: contenção do crescimento das prestações sociais por via de redução de 600 milhões de euros no sistema de pensões

    Exma. Senhora Presidente da Assembleia da República,

    O Governo apresenta no Programa de Estabilidade 2015-2019 [P.E.] as suas medidas para os próximos anos, insistindo em medidas de caráter regressivo, para além de apenas prever a reposição integral das medidas extraordinárias implementadas durante o PAEF para o ano de 2019.

    No P.E. 2015-2019 destaca-se a “introdução de uma medida para a sustentabilidade da Segurança Social (cerca de 600 milhões de euros)” que, conforme refletido no referido documento, esta medida tem como objetivo a “contenção do crescimento das prestações sociais”, ou seja, a redução da despesa com as pensões em pagamento:

    “Tratando-se de uma matéria que exige um amplo consenso social e político, é imperativo que a solução encontrada resulte de um debate alargado, envolvendo a sociedade civil e necessariamente todos os partidos do arco da governabilidade. Assim, não se apresenta de momento o detalhe da medida a aplicar, definindo-se apenas uma obrigação de resultado de obter impacto positivo na ordem dos 600 milhões de euros no sistema de pensões, independentemente da combinação de medidas de redução de despesa ou de acréscimo de receita que venha a ser definida”.

    Ainda de acordo com o P.E. esta medida, entre outras, parece encontrar-se evidenciada na previsão da conta das Administrações Públicas (Quadro II.7 do referido relatório). Até porque estão sinalizadas no P.E. outras medidas, que visam uma redução da carga fiscal e contributiva sobre o trabalho; a introdução do plafonamento na segurança social para as gerações mais novas e a reorganização administrativa do Estado, sobre as quais o Governo assume a intenção de vir a utilizar a flexibilidade permitida pelas cláusulas das reformas estruturais e do investimento.

    Contudo, e apesar da clareza com que a “medida para a sustentabilidade da Segurança Social” é apresentada no relatório relativamente ao impacto definido de, cerca de 600 milhões de euros, a senhora Ministra das Finanças, em intervenção no plenário no dia 22 de abril, no âmbito do debate do Programa de Estabilidade 2015-2019 e do Programa Nacional de Reformas 2015, afirmou que: “não é um corte. É um impacto positivo nas contas da Segurança Social na ordem dos 600 milhões de euros".

    Estamos perante uma contradição, entre o que consta no P.E. e aquelas que foram as declarações da senhora Ministra das Finanças, pelo que importa clarificar um conjunto de dúvidas relacionadas com o P.E. e com a quantificação e estimação do seu impacto.

    Assim e ao abrigo do disposto na alínea d) do artigo 156.º da Constituição da República Portuguesa, e da alínea d) do n.º 1 do art.º 4.º do Regimento da Assembleia da República, vêm os signatários, através de V. Exa, perguntar à Senhora Ministra de Estado e das Finanças:
      1. Se a medida supracitada não é um corte de pensões, de acordo com as palavras da senhora Ministra das Finanças, mas uma medida a “definir”, podendo ter impactos na despesa e/ou na receita, em que termos e com que pressupostos o Governo considerou esta medida nas projeções incluídas no P.E.?

      2. Quais os impacto global da medida referida no ponto anterior, por ano (2015-2019), e quais o impacto líquido da mesma estimado para cada uma desses anos?

      3. Sendo que esta é uma medida que visa reduzir a despesa, logo o défice, tem necessariamente impacto no cenário macroeconómico, contudo das declarações da Ministra das Finanças surgem dúvidas. O impacto desta medida encontra-se contemplado na projeção da conta das Administrações Públicas? E encontra-se igualmente contemplado o seu impacto no cenário macroeconómico? Ou o seu impacto não se encontra refletido no P.E.? E nesse caso, o Governo informou a Comissão Europeia?

    Lisboa, 23 de abril de 2015

    Os Deputados,

    João Galamba
    Vieira da Silva

Sabia que...


Piketty em Lisboa


Passagem da entrevista de Thomas Piketty ao Público:
    O que irá acontecer a seguir?
    O que vai acontecer é que as dívidas públicas da Grécia, Portugal e Itália vão ter de ser reestruturadas. É tão simples quanto isso. As pessoas agora dizem que não, mas é sempre assim na história da dívida pública: as pessoas dizem que não a uma reestruturação de dívida, mas depois ela acontece.

    Discutiu a reestruturação de dívida nos encontros que teve aqui em Portugal, por exemplo com António Costa?
    Esse foi um dos temas discutidos, entre outros.

    Que questões é que lhe colocaram?
    Eu não estou aqui em Portugal para dar lições sobre aquilo que deve ser feito. Estou aqui para aprender coisas sobre Portugal. Acima de tudo, ouvi o que tinham para me dizer. Falaram-me do programa que apresentaram para as eleições. Parece-me ter medidas muito razoáveis.

    Quais?
    A redução das contribuições nos salários parece-me fazer sentido e também estão a pensar criar um imposto sobre as heranças mais elevadas. Não digo que tenha de haver um imposto muito pesado, mas penso que esta medida vai no sentido certo. Se se recebe 100 mil euros com o trabalho, paga-se impostos. Não faz sentido receber um milhão, 10 milhões de euros sem trabalhar e não pagar nada.

Fora do mundo

    «É nestas alturas que me sinto fora do mundo:
      1. Pergunta dos entrevistadores do "Público" (hoje, 28.04, p. 4) para Thomas Piketty: "É visto como o economista de esquerda (...). Como académico não o incomoda ter esse rótulo?".

      2. Resposta do entrevistado: "O meu livro não é para a esquerda ou para a direita. (...) Nunca pertenci a um partido político".

      3. Pressuposto da pergunta: ser de esquerda (ou de direita) mancha a reputação de uma académico - não sei, talvez por não ser "científico".

      4. O que a resposta aceita: sim, é melhor não andar misturado com essa gente da política.

      5. Qualquer dia, ainda vou para algum museu de relíquias - dos tempos em que os entrevistadores não faziam perguntas estúpidas e os entrevistados não as aceitavam.»

Ousar arriscar


• Hugo Mendes, Ousar arriscar:
    «Quando o Partido Socialista pediu a realização de um estudo com um cenário macroeconómico para os próximos 4 anos partiu da constatação de um duplo problema:
      (i) o problema de credibilidade das propostas políticas: depois do que se passou nas eleições de 2011, com a fraudulenta campanha montada pelo PSD, era essencial encontrar uma forma de credibilizar as propostas da governação para o país, e em particular, as propostas de política alternativa que o PS tem defendido. A apresentação de um documento de elevada exigência técnica como este honra a discussão pública e qualifica a democracia portuguesa.

      (ii) o problema da crise profunda que o país atravessa: desde 2000, Portugal viveu duas vagas de ajustamento. A primeira resultou da criação do euro, do alargamento europeu a Leste e da entrada da China na economia global; e a segunda, da Grande Recessão de 2008-9, que o programa da troika reforçou em 2011. Hoje, apesar do fim da recessão técnica, a crise social e económica ainda se mantém, e este é o ponto de partida de qualquer futuro governo que queira arriscar tirar o país da estagnação.

    Porém, não há risco politico sem controvérsia. Nas medidas avançadas no relatório, por exemplo, as alterações à TSU têm gerado amplo debate. Muitos, da esquerda à direita, discordam do uso da TSU para fins de política económica, e algumas das dúvidas serão legítimas face ao desenho concreto da proposta avançada.

    Porém, a questão mais ampla a que temos de responder é esta: pode um país que não tem política monetária, não tem política cambial, não tem política aduaneira, quase não tem política industrial e cada vez tem menos espaço para política orçamental excluir definitivamente a TSU do leque de instrumentos de política económica? Pode um país dar-se ao luxo de recusar mobilizar a margem orçamental adicional que a TSU lhe confere para aumentar o rendimento dos trabalhadores numa economia com 14% de desemprego e que dificilmente terá aumentos salariais nos próximos anos? Ou para, no domínio laboral, combater a precariedade que marca a experiência dos mais jovens, penalizando os contratos a prazo em relação aos permanentes?

    Não haverá espaço para qualquer estratégia de desenvolvimento se, face aos constrangimentos externos, decidirmos atar as nossas mãos. “Atar as mãos” da política é um velho projecto da direita - aliás traduzido nas novas regras orçamentais da UE. Porém, o argumento das “mãos atadas” também serve quem, à esquerda, defende que nada é possível fazer sem reestruturar a dívida e recuperar instrumentos de política, se necessário à custa de uma confrontação europeia.

    Ora, a estratégia avançada neste relatório não é mais arriscada do que a proposta pelo PSD/CDS que, com cortes imediatos nas pensões a pagamento, desemprego acima dos 10% em 2019, e o contínuo enfraquecimento do Estado e da Segurança Social, pretende apenas gerir a estagnação. E dificilmente os riscos serão maiores dos que resultariam de um choque frontal com a UE, com efeitos previsíveis (veja-se o que aconteceu à estratégia do governo grego) e outros imprevisíveis, e portanto geradores de incerteza radical.

    A atual arquitectura da zona euro coloca sérios entraves ao desenvolvimento dos países do Sul da Europa, mas a obrigação do PS, ao mesmo tempo que batalha na frente europeia para construir alianças que possam alterar as regras do jogo, é procurar uma estratégia nacional para fazer face à crise. Apesar do relatório apresentado ser um contributo fundamental, essa responsabilidade recai agora sobre o documento que representa o efectivo compromisso com os portugueses: o programa eleitoral do Partido Socialista.»

Caloteiro de Gaia enche o peito para enfrentar os 12 economistas



Não deveria ser Marco António Costa a escrever uma carta a António Costa, porque, até Outubro, Passos Coelho é que é o líder do PSD. Sabendo-se no entanto que a carta sugere que a UTAO e o Conselho das Finanças Públicas avaliem o documento Uma Década para Portugal, extravasando os limites que a lei lhes impõe, Passos Coelho preferiu resguardar-se, atirando para a frente o descredibilizado Marco António, por sinal o vice-presidente de Menezes na Câmara de Gaia que, tendo o pelouro das finanças, abandonou o município com uma dívida colossal.

No vídeo que acima se reproduz, João Galamba mostra-se totalmente aberto a que Uma Década para Portugal seja discutido e avaliado, mas sublinha que seria importante que o mesmo acontecesse com o Programa de Estabilidade do Governo, que não exibe os cálculos para as projecções que apresenta, designadamente quanto ao corte de 600 milhões de euros nas pensões de reforma.

A divulgação de Uma Década para Portugal teve um efeito imediato: a maioria de direita já não governa, tendo sido forçada a assumir-se como oposição — ainda que, como se vê pelo teor da carta, tenha colocado os meios do Estado ao serviço do PSD e do CDS para tentar balbuciar uma resposta ao documento elaborado pelos 12 economistas.

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Notícias relacionadas:

Um mau discurso

Escolha clara


• Augusto Santos Silva, Escolha clara:
    «O pânico que a apresentação do cenário macroeconómico preparado por um grupo de destacados economistas, a pedido do PS, provocou nas hostes da direita tem uma bem simples explicação: a clareza e a consistência da alternativa proposta. Qualquer eleição requer a possibilidade de escolher entre alternativas reais. Pois bem: o PS acaba de dar um enorme contributo para a existência de tais alternativas.

    Em primeiro lugar, o exercício feito mostra que o mesmo quadro geral de conformação com as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento permite desenhar políticas bem diversas. Má notícia para todos quantos, à esquerda e à direita do PS, faziam crer que para romper com a política do Governo PSD/CDS era necessário romper com o euro. Não: a alternativa que existe e faz sentido é a alternativa entre diferentes maneiras de encarar a relação entre a consolidação orçamental e o crescimento económico.

    Em segundo lugar, esta relação é que é a divergência fundamental entre a posição do PS e a atitude do Governo, claramente vertida no Programa de Estabilidade discutido no Parlamento na semana passada. O nosso cenário macroeconómico comprova que não só é possível aliar a consolidação orçamental com o crescimento económico como que essa é a melhor maneira de fazer baixar o défice e a dívida. Com a reposição mais rápida dos salários, com a eliminação mais rápida da sobretaxa do IRS, com a baixa do IVA da restauração e outras medidas de melhoria do rendimento dos trabalhadores e das condições de atividade das pequenas e médias empresas, obtém-se bem melhores resultados, quer no crescimento do produto, quer na redução do desemprego, quer no valor final, para o período 2015-19, do défice e da dívida.

    Em terceiro lugar, não é uma fatalidade necessária cortar nos apoios às famílias e regredir na política social. O que foi feito, entre 2011 e 2015, neste campo – com consequências terríveis para Portugal, como mostra, por exemplo, o aumento da emigração, das desigualdades e do risco de pobreza – resulta apenas da opção política de Passos Coelho e de Paulo Portas de “ir além da troica”. O cenário apresentado ao PS demonstra que é possível repor os mínimos sociais e criar novas medidas de política expressamente dirigidas para complementar rendimentos dos chamados trabalhadores pobres.

    Finalmente, ficam claras as diferenças ideológicas fundamentais. PSD e CDS querem aproveitar qualquer folga para reduzir os impostos pagos pelas empresas, libertá-las sem quaisquer condições de parte da TSU que pagam e eliminar rapidamente as taxas extraordinárias aplicadas nos setores protegidos. O PS prefere reduzir a carga fiscal sobre o trabalho, reforçar o financiamento da segurança social e premiar as empresas que empregam de forma duradoura, penalizando as que abusam da rotação da sua mão-de-obra.

    Tudo o que está no cenário pode e deve ser discutido. Ele não é o ponto de chegada, mas o ponto de partida. Mas uma coisa mudou radicalmente: o nível de exigência colocado no debate político-eleitoral. E esse é mais um mérito do Partido Socialista.»

Actuar simultaneamente nas condições de oferta e de procura


• Manuel Caldeira Cabral, Actuar simultaneamente nas condições de oferta e de procura:
    «O documento "Uma década para Portugal", do grupo de trabalho em que participei, tem tanto medidas do lado da oferta como do lado da procura, incluindo medidas com efeito mais imediato, que deverão permitir acelerar a retoma e medidas que visam melhorar as condições de crescimento de longo prazo da economia portuguesa.

    No debate, alguns salientaram mais uns aspectos do que outros. Muitos defenderam como óbvio que ouse opta por privilegiar as condições de oferta e as empresas (por exemplo, comprimindo os custos salariais) ou se opta por proteger e repor os rendimentos dos trabalhadores, e que ou se opta pelo curto prazo ou pelo longo. Esta visão insere-se bem na forma como foi guiada muita da discussão pública nos últimos três anos, em que prevaleceram ideias de que só enfraquecendo as instituições públicas se pode conseguir que o sector privado prospere, ou a de que só empobrecendo (baixando salários) é possível ter empresas mais competitivas, e assim maior crescimento das exportações e do investimento privado.

    Nestes anos, os salários baixaram muito (especialmente em 2012 e 2013), as instituições públicas foram enfraquecidas, por cortes, mas também por perda de autonomia e aumento de burocracia, mas isso não impediu que o investimento privado caísse fortemente, e não dê até agora sinais claros de recuperação, nem colocou as exportações a crescer a maior ritmo, mas antes a desacelerar conseguindo em 2014 o pior crescimento desde 2009.

    O nosso documento nega esta visão maniqueísta, salientando que para criar confiança nos investidores é necessário dar melhores condições de investimento às empresas (com incentivos do lado da oferta), mas simultaneamente dar perspectivas de uma retoma mais forte do crescimento. Defendemos também que a competitividade das empresas e de uma economia não depende apenas do custo dos seus factores, mas também da sua capacidade tecnológica e de criar valor pela inovação e da qualidade das suas instituições públicas e privadas.

    Muitas empresas produtoras de bens transaccionáveis começam a vender para o mercado interno e têm neste uma importante base. Sem sinais de melhoria sólidos, podem continuar a adiar investimentos e contratações, como têm feito, o que se acabará por reflectir na sua capacidade de produzir bens para exportação ou para concorrer com importações.

    É também por isso que as medidas de incentivo ao investimento só são eficazes se houver uma aceleração da retoma. Daí que as medidas com efeito mais imediato de recuperação do rendimento (baixa da TSU para os trabalhadores, reposição de salários na função pública, redução da sobretaxa de IRS) surjam simultaneamente com medidas de apoio à oferta (como a redução da TSU para as empresas, que apoia mais empresas criadoras de emprego e beneficia menos as empresas mais lucrativas) e de estímulo ao investimento e de reforço da competitividade das empresas (crédito fiscal ao investimento, aceleração da execução dos fundos comunitários, reforço do financiamento a instituições de apoio à inovação e internacionalização, formação e colocação de recursos qualificados na área da internacionalização).

    As medidas, que reflectem a urgência da retoma, para estancar a saída de trabalhadores, são coerentes com as medidas de médio prazo que se centram na redução da fiscalidade sobre os factores e ao mesmo tempo no aumento da produtividade, pela melhoria dos recursos humanos, da tecnologia e da criação de valor pela inovação.

    O documento apresenta uma estratégia coerente de competitividade e crescimento, porque parte da defesa do reforço da competitividade baseado na criação de valor, no aumento da produtividade e no aumento dos factores de produção (pela qualificação e atracção dos recursos humanos, e pelo aumento do investimento), e pela melhoria e valorização dos recursos e instituições que temos, e não de uma estratégia de competitividade exclusivamente assente na diminuição de custos laborais, que podendo ter efeitos marginais na competitividade de curto prazo, não é, nem pode ser uma estratégia de crescimento, pois assenta na necessidade de empobrecimento para manter a competitividade. (…)»

segunda-feira, abril 27, 2015

Zero

A coisa está feia no Ministério da Administração Interna:

Costa e Piketty contra a austeridade


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Bilhim no mundo dos estarolas

A Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CreSap) foi apresentada com pompa e circunstância pelo alegado primeiro-ministro. Era o ovo de Colombo para afugentar boys & girls do aparelho do Estado. Para a dirigir, foi escolhido João Bilhim, um professor universitário. Depois é o que sabe: quando a direita não consegue impor um dos seus, evita os concursos, nomeando-os à margem da lei. Perante este avassalador assalto aos cargos da administração pública (como não acontecera desta forma tão descarada nem nos tempos do «Estado laranja» de Cavaco), que faz João Bilhim? Aparece, de vez em quando, nos jornais a dar conta de que sente «muito desconforto» e «tristeza» com a situação. E lá continua.

O anúncio da socratização do Grupo Lena
é manifestamente exagerado

A primeira vez que ouvi falar do Grupo Lena foi quando esta construtora se abalançou a lançar o i. Seria um jornal ao serviço do PS — embora a escolha de Martim Avillez Figueiredo para director e o recrutamento dos jornalistas a dedo tivessem desfeito num instante o rumor. Depois, perdi o rasto ao Grupo Lena, já que a Mota-Engil é que era apontada como a «construtora do regime».

Entretanto, o Grupo Lena volta a estar na ribalta. Mas, a crer nos números, é manifestamente exagerada esta atenção que suscita. Com efeito, a construtora publicou um conjunto de dados que não permite concluir ter sido bafejada pela sorte de ter José Sócrates como primeiro-ministro. Veja-se:
    • A primeira participação em PPP do Grupo Lena foi em 1998, com a AEA, um investimento superior a 415 milhões de euros numa participação inicial de 12,5%;
    • A segunda PPP foi a BRISAL, constituída em 2004, um investimento de 600 milhões de euros numa participação de 5%;
    • A única participação em PPP no período de 2005 a 2011 foi de 6,8% na AEBT, a 7ª participação mais baixa em 8 empresas accionistas;
    • No TGV (ELOS) o Grupo Lena tem uma participação residual de 13% em nove empresas participantes;
    • Das 332 escolas inicialmente previstas para as três fases do programa Parque Escolar, apenas foram lançados 205 concursos públicos em duas fases, tendo o Grupo Lena vencido sete (em que apresentou o preço mais baixo). E na primeira fase não ganhou nenhum concurso.

Acrescenta o Expresso que a quota de mercado de obras públicas nos governos de Sócrates foi de 1,2%, contra 1,8% nos governos anteriores. E que, na carteira de 4,1 mil milhões de euros de obras, Portugal pesa 1%.

Uma alternativa para Portugal

• João Galamba, Uma alternativa para Portugal:
    O grupo de 12 economistas responsáveis por "Uma Década para Portugal" procurou realizar um trabalho sério e rigoroso, que, partindo de um diagnóstico realista sobre a actual situação económica do país - e atendendo aos nossos bloqueios estruturais e aos (péssimos) resultados das políticas dos últimos 4 anos demonstrasse que há uma alternativa à estratégia da actual maioria. Partindo de um cenário base, que é o da Comissão Europeia, e, através de técnicas convencionais reconhecidas internacionalmente (multiplicadores, etc), estimou os impactos que um conjunto de políticas têm sobre as principais variáveis económicas e orçamentais.

    O resultado a que chegámos mostra que, sim; há mesmo alternativas: é possível ter um PIB maior e mais sustentável; é possível ter mais e melhor emprego; é possível ter menos pobreza e menos desigualdades; é possível ter melhores serviços públicos - e tudo isto sem pôr em causa a nossa participação na construção do projecto europeu.

    Para ter mais crescimento e mais emprego importa acelerar a recuperação de rendimentos dos portugueses. É por isso que foi dada prioridade à reposição dos mínimos sociais (abonos, CSI e RSI), à reposição integral dos cortes salariais da função pública, ao fim da sobretaxa, à redução da TSU de todos os trabalhadores e ao complemento salarial para trabalhadores pobres. Estas cinco medidas tornam possível aquilo que a própria maioria prevê no seu cenário macroeconómico mas não consegue justificar: um crescimento sustentado do consumo privado. Ao contrário da maioria, nós temos políticas que explicam por que razão o consumo privado cresce.

    Em simultâneo, e porque sabemos que um crescimento assente exclusivamente no consumo privado não é sustentável, propomos um reforço do investimento (público e, por arrastamento, privado) com a aceleração dos fundos europeus. O objectivo deste reforço do investimento é duplo: no curto prazo, maximizar e complementar o efeito expansionista do aumento do rendimento das famílias; no longo prazo, contribuir para superar os principais bloqueios estruturais do país e, por essa via, tornar a economia portuguesa mais competitiva. Apostamos no crescimento e no emprego (de qualidade); apostamos no investimento em qualificações, ciência e inovação, não apostamos no desinvestimento, na desqualificação, na precariedade e no empobrecimento.

    Nenhuma estratégia que aposte no crescimento, no emprego e na qualificação da economia portuguesa pode ter sucesso se conviver com os níveis actuais de precariedade. Ao contrário do que pretende a actual maioria, a precariedade laboral, o subemprego e os baixos salários não são sinónimo de flexibilidade e competitividade; são a marca do nosso atraso económico e um entrave a qualquer estratégia de crescimento sustentável. É por essa razão que, para além de todos os estímulos económicos que pretendem aumentar o volume de emprego, também importa investir na qualidade e estabilidade desse mesmo emprego. A penalização (em sede de TSU) das empresas que recorrem a trabalho precário e apostam na elevada rotatividade dos trabalhadores, o contrato para a equidade laborai (que mantém todos os direitos existentes dos trabalhadores) e a redução da TSU paga pela entidade empregadora pelos empregos com contrato permanente são prova disso mesmo: tornam o trabalho precário menos atrativo para as empresas. As propostas apresentadas procuram responder, em conjunto, aos principais desafios da economia portuguesa, mas não são propostas fechadas, podendo sempre ser melhoradas. Há uma aposta clara na sustentabilidade futura da Segurança Social, porque não haverá pensões no futuro se não houver mais e melhor emprego. Não há cortes nas pensões em pagamento, não há aposta nos baixos salários, não há aumento da idade de reforma e não se viola a Constituição. Não se trata de insistir numa lógica sacrificial (falhada). Assume-se riscos, é certo, mas não são riscos maiores do que aqueles que já existem hoje e que estão associados a não fazer nada.

    Há uma aposta clara na sustentabilidade futura da Segurança Social, porque não haverá pensões no futuro se não houver mais e melhor emprego.»

O documento que fez estremecer o Governo

• António Correia de Campos, A Década:
    «(…) A Década varreu, de uma assentada, vários mitos: o de que o PS não tinha programa e teria dificuldades em o preparar; o de não haver alternativa à austeridade, tal como a troika e os seus seguidores aditivados haviam interiorizado; o de que o debate eleitoral seria à volta de “mais do mesmo”, assemelhando-se as políticas e programas de esquerda e direita como gémeos univitelinos; o de que as medidas de política apenas se analisam pelo seu custo orçamental, em soma algébrica de cortes e aumentos; e que tendo o PSD deitado a toalha ao chão na reforma de Segurança Social, nenhum partido se atreveria a nela tocar. Desde terça-feira passada tudo mudou.

    (…)

    E o Governo, como reagiu? A quente, sem ler o documento, postulando aquilo que ele não continha. . Preparou um argumentário negativo. Enterrou-se. Filho da austeridade receia a orfandade, reagindo com comentários entre a desacreditação e a ironia. Pede o consenso do PS para um corte de 600 milhões em pensões, por não saber como os encontrar, perdido no labirinto austeritário. Não se viu ainda uma refutação substantiva e quando se atiram números eles são como chapadas de cimento a uma parede não descascada. Não pegam. Nem sequer dão sinal de terem lido bem o texto e de tentarem compreender as contas. E depois, exibir o fantasma de 2011 começa a cansar.»

Incertezas no Terreiro do Paço

Hoje no Público
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• Paulo Trigo Pereira, Qual será o défice real em 2015?:
    «Aquando da apresentação do Orçamento de Estado 2015, o Governo apresentou as suas projeções para o saldo orçamental deste ano como sendo de 2,7% do PIB. Pouco tempo depois os relatórios da Comissão Europeia, do FMI, e do ISEG/IPP (Budget Watch) apontavam para que sem medidas extraordinárias adicionais o défice será entre 3,2% e 3,3%, ou seja, que haverá um défice excessivo.

    (…)

    A metodologia que tenho utilizado aqui para estimar o défice real, é fácil de entender, embora difícil de implementar. Trata-se de analisar os desvios da nossa estimativa da execução orçamental em relação ao previsto no OE2015 a partir das principais rúbricas das receitas (os seis principais impostos, e as contribuições para a CGA e Segurança Social) e das principais despesas (pessoal do Estado e dos FSA pensões da CGA e Segurança Social, subsídio de desemprego) e outras despesas que não têm tanta relevância económica, mas que têm muita relevância social (RSI, CSI, subsídio a crianças e jovens). Esse desvio é negativo (-0,54% do PIB ou seja quase mil milhões de euros) pelo que partindo do saldo inscrito no OE2015 (-2,7%) obtém-se uma previsão de défice de 3,24% do PIB, assumindo que o desvio em contabilidade pública (em que são registados os dados) é idêntico ao em contabilidade nacional (que é relevante para Bruxelas e para nós). (…)»

domingo, abril 26, 2015

Na segunda-feira, às 18H30

Da série "Frases que impõem respeito" [910]

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Ele [Cavaco Silva] primeiro deu prémios a ex-inspectores da PIDE que torturavam, que massacravam, que matavam, que prendiam, e recusa prémios a quem lutou realmente pelo país? Onde é que está a coerência dele?

Nós aqui [no Luxemburgo] temos uma ideia diferente da situação em que Portugal está: sabemos que Portugal não está bem, mas não temos consciência de que está tão mal.

Da asfixia democrática

    «1. Entre as perguntas dirigidas, direta ou indiretamente, a Mário Centeno, ao longo do dia de ontem [22 de Abril], a que mais me perturbou foi esta, a propósito da intenção de repor os vencimentos ao nível de 2010, em dois anos: "então a ideia é dar mais dinheiro às pessoas"?

    2. Dar mais dinheiro? Qual dar mais dinheiro?

    3. A verdade é que se trata de cortes nos salários, justificados por circunstâncias excecionais, que supostamente já passaram - não foi "limpa" a nossa saída do resgate?

    4. Se há coisa que carateriza o relatório apresentado ao PS pelo grupo de economistas não é o esbanjamento, mas sim a prudência e o gradualismo.

    5. Mas os termos em que são mediaticamente tratados os temas da eliminação da sobretaxa, da reposição dos salários ou da reposição dos mínimos sociais, dizem muito sobre a hegemonia de que goza atualmente, no espaço público, a linha política do que se lixe o mexilhão.»

«Tributo às gerações futuras»


«Devemos ter consciência do que custou a liberdade», disse ontem o presidente da Câmara de Lisboa na inauguração do Museu do Aljube - Resistência e Liberdade. Na intervenção que fez, Fernando Medina afirmou que o museu é «uma homenagem às vítimas do fascismo» e é também «uma homenagem à resistência e à liberdade», através da «transformação de um espaço de escuridão e dor num espaço de luz e vida».

O novo museu, que ocupa as antigas instalações da tenebrosa cadeia onde se encarceraram sucessivas gerações de presos políticos, dispõe de quatro pisos para expor o seu espólio documental. Com arquitectura de Manuel Graça Dias e desenho museológico de Henrique Cayatte:
    • O primeiro piso evoca aspectos da história de Portugal entre 1890 e 1976, nomeadamente, as lutas sociais e políticas do final da Monarquia e da Primeira República, a ascensão do fascismo e o carácter ideológico e repressivo do Estado Novo e o combate da resistência clandestina;
    • O segundo piso documenta a organização da resistência e os métodos da repressão, podendo ver-se os "curros", exíguas celas onde eram mantidos os presos;
    • O terceiro piso expõe a dimensão colonialista do regime fascista e a brutalidade da sua acção nas ex-colónias;
    • No último piso, um auditório e uma cafetaria complementam a oferta do museu, que disporá ainda de um serviço educativo para visitas didácticas.

Vieira da Silva fala de «Uma Década para Portugal»

Entrevista a Vieira da Silva, da qual se reproduzem algumas passagens:
    «Creio que o exercício é suficientemente sólido. Podemos compreender a dimensão do efeito positivo que ali temos se nos lembrarmos do efeito negativo que tiveram na economia medidas de natureza oposta que surpreenderam até os seus autores.»

    «Nós estamos a reivindicar uma atitude diferente por parte da Europa, mas não estamos a ameaçar com a saída do euro. Não queremos um caminho de tal forma alternativo que a sua decorrência seja que, se ele não existir, estejamos logo fora do projeto europeu.»

    «O projeto europeu corre sérios riscos e grande parte dos riscos vem da forma como tem sido gerido. Mas também creio que os custos de qualquer rutura são inaceitáveis – para Portugal, mas também para a Europa. Com quem vamos dialogar sabe bem a diferença da nossa atitude. As entidades europeias são aliás muito mais flexíveis nos factos do que nós poderemos supor.»

O ministro da Economia faz um excelente exercício
daquela prática dupla de enganar em casa e mentir fora

Hoje no Público

«Apesar de ter servido em governos do Partido Socialista»

Hoje no Público (via Nuno Oliveira)
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sábado, abril 25, 2015

Mudar de vida

Hoje no Expresso
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Alternativa

Hoje no Expresso/Economia (via Nuno Oliveira)
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25 de Abril

• Fernando Teixeira dos Santos, 25 de Abril:
    «(…) Há estudos que mostram que o nosso PIB é hoje superior em 21% ao que seria se tivéssemos ficado fora da UE. (…)»

sexta-feira, abril 24, 2015

Cofres cheios, dizem eles


Défice orçamental pior que há um ano. Mas, como saem em Outubro, os outros que corrijam. Essa é que é essa.