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quinta-feira, outubro 29, 2015

O superior interesse nacional


      «Como sabem nunca tive nem tenho qualquer interesse pessoal, desde o primeiro dia do meu mandato até ao último dia do meu mandato, guiar-me-ei sempre, sempre, sempre pelo superior interesse nacional».

O presidente da República arrasta consigo a ideia de que ele, talvez só ele, sabe interpretar o que significa o «interesse nacional», ou melhor, o «superior interesse nacional». Todas as ideologias e as políticas, excepto as suas, são obstáculos a essa ideia difusa de «interesse nacional» que tem conduzido o país, como está à vista, ao pugresso.

Mas o que verdadeiramente chamou a minha atenção é esta enfática declaração de Cavaco Silva: «Como sabem nunca tive nem tenho qualquer interesse pessoal». Deduz-se que, por exemplo, Cavaco Silva não teve «qualquer interesse pessoal» na «inventona de Belém». Ou que, por exemplo, não teve «qualquer interesse pessoal» na manutenção, contra tudo e contra todos, de Dias Loureiro no Conselho de Estado. Ou que, por exemplo, não teve «qualquer interesse pessoal» quando optou pelas duas pensões de reforma que aufere (do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações) em detrimento do vencimento de presidente da República. Ou que, por exemplo, não teve «qualquer interesse pessoal» quando as únicas críticas feitas ao governo de Passos & Portas (colóquio em Florença, discurso sobre a espiral recessiva, etc.) coincidiram com os cortes nas pensões, momento em que se lastimou que poderia não conseguir pagar as suas despesas com rendimentos superiores a dez mil euros mensais. É, de facto, um homem muito desprendido.

quinta-feira, outubro 22, 2015

O golpista

Homem forte do presidente encomendou 'caso das escutas'

Preparado ao longo de um ano em Belém, o caso das escutas (ou inventona de Belém, como ficou conhecido o golpe) foi lançado nas vésperas das eleições legislativas de 2009. A seguir à vitória de Sócrates, Cavaco Silva apelou a um «sobressalto cívico».

Seis anos depois, Belém desencadeia um novo golpe: apela à rebelião dos deputados do PS e deixa a pairar a ameaça de suspender a democracia durante seis nove meses.

É este homem perigoso que se alçou à chefia do Estado que alguns qualificam como «institucionalista».

sexta-feira, setembro 11, 2015

«Deixa-me cá estar calado, que ele ainda fala da inventona de Belém»

A preparar-se para a travessia do deserto

Para o debate que se seguiu ao confronto entre António Costa e Passos Coelho, a RTP convidou Augusto Santos Silva, Nuno Morais Sarmento, André Macedo e José Manuel Fernandes. A páginas tantas, Augusto Santos Silva fez questão de dizer que não era isento nem imparcial na apreciação que fazia e que entendia, aliás, que nenhum dos presentes o era. De imediato, André Macedo, director do DN, fez questão de afirmar que ele era. José Manuel Fernandes, chairman do blogue Observador, manteve-se em silêncio. Num silêncio esclarecedor.

domingo, agosto 23, 2015

Uma campanha tóxica


Manuel Carvalho escreve hoje um artigo no Público, no qual procura mostrar como Passos Coelho, desde que o terrível Ângelo o lançou para estas altas cavalarias, recorreu sempre a campanhas de contra-informação para desgastar os seus adversários (internos e externos). Trata-se de um depoimento relevante, tanto mais que Manuel Carvalho — tendo feito parte, sob o inesquecível comando de José Manuel Fernandes, da direcção do Público que se prestou a assumir a autoria material da abjecta inventona de Belém — terá conhecimento (por dentro) de como estas coisas se fazem.

Recomenda-se a leitura do artigo a todos aqueles que têm uma visão idílica do funcionamento da democracia e se abespinham quando a crispação ocupa o espaço reservado ao debate de boas maneiras. Se se sentem incomodados quando, perante a profunda degradação das condições de vida da maioria da população, se exerce o direito à indignação, ao menos saibam estar à altura de dar resposta a estas manobras subterrâneas palidamente descritas por Manuel Carvalho. Eis o artigo na íntegra, intitulado Uma campanha tóxica:
    «Estamos a um mês e meio das eleições legislativas e António Costa e o PS continuam a lutar em vão para sair do buraco defensivo onde a imparável máquina de comunicação e de contra comunicação do PSD e do CDS os confinou. Os socialistas e o seu líder não perceberam ainda que os seus adversários políticos estão há anos a aprender a usar as redes sociais para armadilhar as campanhas e desta vez estão a conseguir resultados demolidores. Nos casos dos cartazes ou na história dos empregos que serão criados por um eventual governo do PS, bastou o lançamento de rápidas medidas de contra-resposta baseadas em mensagens básicas e potencialmente polémicas para alastrarem pelo Facebook ou pelo Twitter para que os socialistas acabassem acossados por pedidos de desculpas ou em explicações destinadas a conter os danos.

    No final do dia, já ninguém se lembrava das mensagens originais – o que sobrava era a espuma da sua demolição. Há mais de um mês que o PSD e o CDS estão a conseguir abater todas as iniciativas de campanha do PS ainda antes de levantarem voo.

    Bem se sabe que muita da responsabilidade por este estado atarantado e reactivo dos socialistas se deve a um interminável rol de culpas próprias — o caso dos cartazes do desemprego é mais do que “aselhice”, é pura e simples incompetência que, essa sim, merece censura e valoração política. Mas há no geral a ideia de que o PS está a ser arrasado por uma campanha tóxica que dissolve todas as acções de campanha num eficaz batido com os temperos da demagogia, do primarismo argumentativo e da manipulação. O admirável mundo novo de comunicação que começou a ser ensaiado nas primárias do PSD em 2009 e que se qualificou em 2011 chega a estas eleições num formidável grau de aprimoramento.

    Os “marqueteiros” brasileiros, que à custa de cortinas de fumo foram capazes de eleger uma presidente, Dilma Rousseff, sem que ela sequer se tivesse dado ao trabalho de apresentar um programa de governo andam por aí. Depois, na rectaguarda, nos gabinetes dos ministros, concentra-se uma tropa de reserva jovem, frenética, imersa dos pés à cabeça no mundo da net e imbuída de um messianismo que não olha a meios para erigir um país novo. Contra este saber, competência e mobilização, Edson Ataíde parece um aprendiz da idade da pedra e Vieira da Silva ou Ferro Rodrigues locomotivas do tempo do vapor. De pouco adianta fazer contas, gizar programas ou estudar propostas. Eles lá estão para as embrulhar numa fórmula devastadora que as reduzirá a uma anedota, mesmo que para lá chegar seja necessário mentir. Pela primeira vez, estas eleições arriscam-se a ser dominadas pelo império das redes sociais e só o PS e o seu líder (que só há semanas abriu uma conta no Twitter) parecem não ter percebido os impactes deste pouco admirável mundo novo.

    Vejam-se os casos dos cartazes, em especial o que ostentava uma infeliz imagem entre o zen e o profético. A facilidade com que esse cartaz foi ridicularizado pode ser justificada pela sua lamentável falta de gosto, mas para que essa consciência se tivesse generalizado ao ponto de o PS se sentir na obrigação de o retirar foi essencial a colocação nas redes sociais de uma bateria de posts que, pelo seu teor, quase forçavam os utentes do Facebook a gozá-los, a ridicularizá-los e a partilhá-los. Veja-se ainda como o caso das simulações de Mário Centeno sobre os 207 mil empregos foram transformados numa promessa de Costa através da colagem a uma declaração na qual José Sócrates aparecia a prometer 150 mil empregos. Saber o que em rigor foi dito não passou de um vago detalhe da comunicação. À noite, as televisões deliciavam-se a comparar Costa a Sócrates.

    Não precisamos de puxar muito pela cabeça para perceber que esta estratégia baseada no ardil tem tradições e experiência. Vale a pena recordar a reveladora entrevista de Fernando Moreira de Sá a Miguel Carvalho, da Visão, em 2013, no qual este especialista em comunicação explicava como um grupo de bloguers arrolado por Miguel Relvas se entreteve a “derreter” Manuela Ferreira quando foi líder do PSD, como as suas campanhas negras derrotaram Paulo Rangel nas eleições internas que se seguiram ou como trabalharam nos bastidores para levar Passos Coelho ao poder. A sua receita era bem simples e é impossível não a pressentir nestas semanas de arranque das legislativas. “Se deixarmos uma informação sobre o caso Freeport num perfil falso e se ele for sendo partilhado, daqui a pouco já estão pessoas reais a fazer daquilo uma coisa do outro mundo”, notava Fernando Moreira de Sá.

    Antes do debate entre Passos e Paulo Rangel, dizia Sá, “já tínhamos tweets preparados para complicar a vida do Rangel. Nos primeiros minutos começámos a tuitar como se não houvesse amanhã. Ao fim de cinco minutos riamos até às lágrimas! Até opinion makers repetiam o que nós dizíamos”. Convém notar que pelo menos 11 destes operacionais, entre eles o ex-ministro Álvaro Santos Pereira ou o influente deputado Carlos Abreu Amorim, acabaram por ver a sua acção premiada com belos cargos no Governo ou na Assembleia.

    Muitos dirão que aquilo que está a acontecer é uma decorrência lógica do avanço tecnológico e no modo como os cidadãos o ajustam ao seu quotidiano. É também pertinente verificar que, se o PSD e o CDS são muito mais competentes a adaptar-se a este novo mundo e a jogá-lo em favor dos seus interesses, isso só diz bem da sua competência. É verdade, mas apenas e se encararmos as eleições legislativas como um braço de ferro entre inimigos figadais, uma espécie de luta mortal onde só não vale arrancar olhos. O que está em causa, porém, é muito mais do que isso.

    Neste clima propenso ao truque e à redução da política ao grau zero da substância, o PS e António Costa não são as únicas entidades desarmadas pela surpresa e eficácia das realidades artificiais na campanha. Também o jornalismo tem pela frente um árduo desafio neste tempo em que, como muito bem escreveu Paulo Ferreira, no Observador, “os alinhamentos e a edição são, cada vez mais, feitos fora das redacções, em milhões de computadores ligados em rede e têm o ‘like’ como unidade de medida”. A reflexão sobre a pertinência, o interesse público ou a verosimilhança de determinadas informações está a perder-se na maré de posts sobre epifenómenos que são giros e suscitam reacções larvares de recusa e desdém no Facebook. David Pontes deixou no JN o registo dessa dificuldade: “As redacções dos jornais, diariamente bombardeadas por tretas”, vão ter de lidar com um “combate desigual contra um sistema montado para comunicar tretas”. A primeira forma de o travar é encarando-o de frente. Deixar que a campanha soçobre às receitas dos “marqueteiros” e dos seus homens de mão nas redes sociais é péssimo. Vai ser um combate feio, mas não se pode recusá-lo.»

segunda-feira, novembro 10, 2014

A fotógrafa estava lá

Está aberta a campanha eleitoral, que, por decisão do Presidente da República, vai durar quase um ano. No dia 7 de Novembro, Passos Coelho jantou com militantes do PSD em Lisboa. A fotógrafa estava lá:


Fig. 1 — Fernando Lima, assessor político na esquálida Casa Civil do Presidente da República e autor material da inventona de Belém, surgiu em grande forma, até custando a crer que, parecendo concentradíssimo, possa estar a recolher elementos sobre os militantes presentes para a elaboração dos seus famosos dossiês, como acontecia em relação aos membros do gabinete do anterior primeiro-ministro.


Fig. 2 — Passos Coelho dá início a mais um dos seus didácticos discursos, observando-se que, de imediato, os militantes se levantam e curvam a cabeça em sinal de solene respeito pelo líder, que, depois de se alçar a São Bento, prometeu empobrecer o país (e está a cumprir sem hesitações).


Fig. 3 — O minino, que havia resistido à arenga de um cacique local (vide Fig. 1), não suportou ouvir as palavras do líder e deixou-se cair nos braços de Hipnos.

terça-feira, junho 10, 2014

Cavaco no dia da raça

Pode acontecer a qualquer um. O Presidente da República sentiu-se indisposto quando discursava nas comemorações do 10 de Junho e a cerimónia foi interrompida durante cerca de meia hora. Tal como o Porfírio diz, acho lamentáveis as paródias sobre o seu desfalecimento, assim como o uso desbragado de imagens do momento. Posto isto, umas breves notas:
    1. Após se ter recomposto, o apressado retomar da leitura do discurso, sem uma palavra para os que aguardavam o seu regresso ao púlpito, revela-nos a essência da personagem: alguém que não tem poder de encaixe e cujas decisões são fortemente condicionadas por esta falha estrutural.

    2. A selecção dos agraciados e condecorados diz muito sobre Cavaco Silva: por um lado, as preferências, as amizades, os agradecimentos pelo apoio à carreira do político há mais tempo na activo não foram, mais uma vez, esquecidos; por outro lado, a visão de que tudo o que conta no mundo da economia são os empresários e os gestores.

    3. A insistência num acordo — «o tempo de diálogo que se estende agora até à discussão do próximo Orçamento do Estado» — com uma direita que quer virar do avesso o regime democrático (e pela qual Cavaco Silva tomou partido) revela que o esgotamento do Governo é também acompanhado pelo esgotamento do Presidente da República.

    4. Fernando Lima, o assessor da inventona de Belém, esteve em lugar de destaque, mesmo atrás do Comandante Supremo das Forças Armadas, na tribuna das cerimónias militares.

    É tudo o que captei no dia raça.

terça-feira, abril 22, 2014

Um modelo de hipocrisia


    «[São as empresas] e não as intrigas, as agressividades, as crispações, os insultos entre agentes políticos, que promovem o crescimento económico, a criação de emprego e a conquista de novos mercados.»

Este homem — que antipatiza com intrigas — não impediu a inventona de Belém, uma intriga que efectivamente configurou um atentado contra o Estado de direito.

Este homem — que se mostra contra as agressividades, as crispações, os insultos entre agentes políticos — está a desmentir os discursos e as declarações avulsas que ele próprio fez até conseguir instalar a direita no poder, tendo chegado a convocar os jovens para manifestações entretanto marcadas.

sexta-feira, março 28, 2014

Inventona de Belém


A imagem acima reproduz um extracto da arenga hoje escrevinhada pelo pequeno grande arquitecto. Até este zeloso ideólogo da direita acaba por escrever direito por linhas tortas, reconhecendo ter ocorrido um grave atentado contra o Estado de direito, desencadeado a partir de Belém.

segunda-feira, março 24, 2014

No 104.º aniversário da República


      «É pois motivo de júbilo para os portugueses assinalar-se a maioridade de S.A.R. o senhor D. Afonso, príncipe da Beira, digno representante, com seu pai, de toda a nação portuguesa. As celebrações iniciam-se amanhã dia 25 de Março com uma missa de acção de graças na Igreja da Encarnação (ao Chiado). Trata-se da comemoração da promessa da continuidade na direcção dos nossos filhos e netos, duma noção de pátria que é acima de tudo espaço, tempo e uma alma enorme de 900 anos.»
        João Távora, no i


Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael teve uma oportunidade única para mostrar que estava entre os vivos — demarcando-se da praxis de Belém. Aconteceu aquando da conspiração congeminada na Presidência da República que ficou conhecida como a inventona de Belém. Então, o pretendente ao trono fez-se desentendido. Quer agora ser levado a sério?

quarta-feira, março 12, 2014

Lembram-se de quando Sócrates o apelidou
de «a mão escondida atrás dos arbustos»¹?

Sintonia total

1. O Orçamento Rectificativo foi promulgado pelo Presidente da República, dando assim luz verde ao corte das pensões acima de mil euros brutos.

2. A correspondente de Belém no Expresso informa de que os dois consultores de Cavaco que assinaram o manifesto pela reestruturação da dívida acabaram de ser exonerados. Vale a pena recordar a posição que o Presidente da República tomou em relação a outros membros da sua Casa Civil:
Quem alimentava ilusões sobre o consenso defendido por Cavaco tem aqui a resposta: o Presidente da República quer um consenso em torno da estratégia do Governo, ou seja, para prosseguir o objectivo de degradar o Estado social, entregar a segurança social ao capital financeiro, alargar a precariedade laboral e impor a redução dos custos do trabalho.

_________
¹ Cf. aqui.

terça-feira, janeiro 28, 2014

Como se desmontam ideias feitas?


Cavaco Silva como Presidente da República:
debate na RTP Informação em 23 de Janeiro,
com a participação de Pedro Silva Pereira,
Nuno Saraiva, Raúl Vaz e José Matos Correia
(reproduzido antes aqui)

    A propósito dos constantes apelos do Presidente da República ao consenso entre os partidos políticos, que fez Cavaco perante a completa marginalização a que foi votado o PS ao longo das dez revisões do memorando de entendimento (em que o Governo decidiu “ir além da troika”)? [ao minuto 6:45]

    Como é que se pode sustentar que a Presidência da República promoveu um golpe de Estado por despeito pela aprovação do Estatuto dos Açores, quando a inventona de Belém foi perpetrada antes dessa aprovação? [ao minuto 22: 52]

    O défice orçamental de 2010 foi apurado pelo INE e pelo Eurostat antes da assinatura do memorando de entendimento ou, como diz o actual governo, foi descoberto um desvio colossal que não se conhecia? [23:33]

sábado, dezembro 28, 2013

As pessoas continuam a não ser números

Hoje no Expresso
Hoje no DN
Clique nas imagens para as ampliar

É muito provável que o Tribunal Constitucional venha a travar os cortes nos salários dos trabalhadores do Estado (com um acréscimo significativo de funcionários abrangidos), nas pensões de sobrevivência e nos complementos às pensões atribuídas a antigos trabalhadores das empresas públicas, mecanismo criado em 1973 e utilizado pelos sucessivos conselhos de administração para rejuvenescer os quadros de pessoal (cortes estes que chegam a atingir 60% do montante bruto total auferido).

Enquanto Fernando Lima (o da inventona de Belém) não escrever o segundo tomo de O Meu Tempo com Cavaco Silva, não se saberá o que consta da espantosa análise custo-benefício da Lei do Orçamento do Estado. Mas não será arriscado concluir que os efeitos brutais destes cortes na vida das famílias não tiveram uma ponderação muito elevada na análise do Presidente da República.

Dando de barato que cumprir e fazer cumprir a Constituição da República não é algo que tire o sono a Cavaco Silva, o que é que poderá ter conduzido à decisão de não pedir a fiscalização preventiva? A inexistência de uma política orçamental estabilizada não favorece com certeza o regresso aos mercados nem a preparação de um programa de transição. Em lugar de a curto prazo o país ter um orçamento do Estado, a decisão de não pedir a fiscalização preventiva faz com que só lá para a Primavera seja fechado o processo orçamental.

O Presidente da República e o Governo estarão convencidos de que, em vésperas do abandono formal da troika, é mais fácil criar um ambiente hostil ao Tribunal Constitucional em ordem a levá-lo a vergar? A indigência dos recortes acima reproduzidos mostra que se trata de uma tarefa complicada.

quinta-feira, novembro 21, 2013

Estórias dos hooligans da São Caetano [3]

Presidência do Conselho de Ministros:
aqui o Dr. Relvas promovia “encontros de blogueres «da corda»

    “A contra-informação era a praia do grupo [de Passos Coelho] à volta de Sócrates. Tínhamos nick names para as redes sociais, perfis falsos no Facebook e por aí adiante, mas éramos uns meninos do coro comparados com os tipos dele. Não há virgens nisto: em qualquer campanha eleitoral, existem centenas de perfis falsos, mas perfis com «vida», que incluem fotografias de «família», «clube de futebol», «gostos», etc. O segredo é ir pedindo «amizade» a pessoas da política e alargar os círculos de «amigos». Se deixarmos uma informação sobre o caso Freeport num perfil falso e ele for sendo partilhado, daqui a pouco já estão pessoas reais a fazer daquilo uma coisa do outro mundo.”
      Fernando Moreira de Sá à Visão

No meio em que se move, Fernando Moreira de Sá olha à sua volta e vê serem concebidas as mais sórdidas campanhas contra os adversários políticos. Não tendo sido provavelmente bafejado pela Mãe Natureza, este mentecapto extraiu a conclusão de que participar em tramóias é a coisa mais natural do mundo e, portanto, não resiste a aparecer a vangloriar-se das façanhas em que toma parte.

Ele lembrar-se-á que os funcionários e os amigos de um companheiro de partido — Aníbal Cavaco Silva — conceberam e executaram a inventona de Belém, para assim procurarem alçar a malograda Dr.ª Manuela a São Bento nas eleições legislativas de 2009.

Ele terá ouvido falar que ficou provado em tribunal que o caso Freeport foi montado por militantes com relevância no PSD (e no CDS), sem que isso tivesse afectado a vida desses companheiros de partido, que continuam a andar por aí.

Ele deverá ter tido também um “gozo tremendo” com a campanha lançada contra Sócrates pela equipa de marketing de Santana Lopes, relatada por quem assistiu a essa miserável operação:
    “Esta é a pequena história do meu fracasso no marketing político. Em 2004 eu trabalhava para a agência que viria a fazer a campanha que opôs Santana Lopes a José Sócrates (legislativas de 2005). Para os profissionais brasileiros vale tudo quando se está em campanha, e nesse tudo coube a criação do blogue Portugays onde mais do que se insinuou a homossexualidade do candidato socialista. Não satisfeitos com isto, que a imprensa portuguesa da altura ainda mal espiolhava a blogosfera como depois veio a fazer, um dos marqueteiros melhor relacionados com os jornais do Brasil pediu a um camarada que colocasse uma notícia dando conta da alegada ligação entre Sócrates e Diogo Infante que, como é óbvio, passou para a imprensa deste lado do Atlântico.”

Tendo observado que as sucessivas direcções do PSD nunca condenaram publicamente esta forma de fazer política, antes mantiveram um silêncio que sugere uma concordância tácita com estes métodos criminosos, Moreira de Sá e outros grunhos concluíram que tinham a bênção das altas instâncias do PSD, tanto mais que, antes das eleições legislativas, se reuniam com Passos Coelho e recebiam orientações escritas sobre o que deviam privilegiar nas suas actividades de hooliganismo e, depois das eleições, eram convocados pelo Dr. Relvas para “encontro de blogueres «da corda», na Presidência do Conselho de Ministros”.

Dito isto, não é extraordinário que, salvo um ou outro artigo de opinião, os media não tenham pegado nesta multifacetada tramóia para levar ao poder Passos Coelho? E que o Ministério Público não tenha encontrado matéria para investigação?

quarta-feira, setembro 11, 2013

Angola e o círculo do Presidente

Um dia, quando alguém se dispuser a estudar os principais episódios da História de Angola, é natural que recorra às fontes que melhor conheçam o passado e o presente de Angola. Nesse sentido, os investimentos angolanos na comunicação social portuguesa parecem ter um objectivo preciso: reescrever a História.

Compreende-se por isso que capitais angolanos, na sequência de outras aquisições na área da comunicação social, adquiram uma participação relevante na Controlinveste, a holding que detém o JN, o DN, a TSF e O Jogo. Trata-se de um negócio que constava estar a ser intermediado pelo Dr. Relvas antes de ser substituído pelo ministro Maduro.

Ao lado de José Mosquito, que representa os capitais angolanos, aparece Luís Montez. Falando-se na substituição de João Marcelino na direcção do DN, estará na forja o regresso de Fernando Lima, o arquitecto da inventona de Belém, ao cabeçalho do DN?

sexta-feira, maio 24, 2013

O Zé Manel anda por aí

O Zé Manel Fernandes descobriu, por estes dias, que não sente afeição por “políticos-comentadores” e ocupa uma página do Público a maçar os leitores com a sua mais recente aversão. O Zé Manel tem preferência por “políticos-comentadores” bacteriologicamente puros: limpinhos, limpinhos, limpinhos. Claro, como ele próprio, que não se coibiu de utilizar o jornal que dirigia para o colocar ao serviço da inventona de Belém.

Uma leitura em diagonal da sua fastienta prosa revela que o Zé Manel tem um certo bichinho pela televisão. Só isso explica que, quando é preciso preencher um buraco na programação, ele aceite de imediato fazer de “comentador”, seja em que canal for. E fá-lo de borla, como se fosse o único.

Mas o que me deixou curioso foi a circunstância de o Zé Manel querer enfiar as “elites portuguesas” na caixinha que mudou o mundo. Pensei logo num acto de gentileza para com os seus colegas da fundação Pingo Doce. Mas a verdade é que o Zé só elogiou Medina Carreira, esse novo taumaturgo da economia. Aguarde-se, porque o Zé Manel há-de voltar ao local do crime.

Cavaco (2)


Aníbal António Cavaco Silva viu a Casa Civil da Presidência da República ser desmascarada por promover a inventona das escutas, talvez a mais forte acusação que se possa fazer a um Presidente da República num Estado de direito — e calou-se.

Aníbal António Cavaco Silva viu o seu nome envolvido noutras fantasias e realidades do cavaquismo — e, tanto quanto se sabe, engoliu em seco.

Aníbal António Cavaco Silva foi hoje comparado a Beppe Grillo — e amuou.

Estranhos são os critérios por que se rege o Presidente.

quinta-feira, maio 02, 2013

O caminho suicidário do Presidente da República

• Francisco Assis, O caminho suicidário do Presidente da República [hoje no Público]:
    ‘1.Quando um político decide dedicar-se ao singular exercício da interpretação de si próprio, é sinal de que algo correu mal na declaração anterior. Quando esse político é o próprio Presidente da República e a declaração em causa corresponde ao discurso proferido perante o Parlamento na sessão solene do 25 de Abril, a coisa assume proporções especialmente relevantes. Aníbal Cavaco Silva cometeu um erro crasso naquela manhã - identificou-se superlativamente com a figura do primeiro-ministro, ao ponto de se parecer mais com Pedro Passos Coelho do que o próprio. Alguém o deveria ter advertido para os riscos do culto da heteronomia. Há muito que sabemos que este prazer está vedado aos políticos.

    Lembremos essa infausta manhã presidencial. Depois de ter ouvido um brilhante discurso de Alberto Costa, e uma interessante reflexão filosófica de Assunção Esteves, o locatário de Belém optou pela mais inesperada das vias, a da colagem quase acrítica ao executivo. As reacções desmentem qualquer ambiguidade: a direita, eufórica, aplaudiu de pé; a esquerda, estupefacta, permaneceu silenciosa e sentada. A hipocrisia ausentou-se do hemiciclo naquele instante, uns e outros exprimiram genuinamente o que sentiam. Cavaco tinha acabado de retroceder no tempo e de se autolimitar no espaço, abdicando incompreensivelmente de uma maior latitude de intervenção política. Comportamento estranho num homem que tinha todas as condições para se elevar acima das contingências da política quotidiana. É verdade que o Presidente já tinha uma mancha no seu percurso - o discurso da sua segunda tomada de posse¹. Só que então havia a explicação do ressentimento, na sequência de uma campanha em que tinha sido questionada a sua integridade pessoal. Se já então a dimensão passional parecia sobrelevar toda e qualquer outra preocupação, subsistia ainda uma razão conjecturável. Agora, contudo, já não se consegue antever facilmente um motivo razoável para que o Presidente da República enverede por tão suicidário caminho. Esperemos que este comportamento não seja o resultado de uma reacção instintiva ao regresso de José Sócrates ao espaço mediático nacional. Seria muito mau se assim fosse. A última coisa de que precisamos é de um Presidente da República incapaz de superar uma tentação de tipo pavloviano.

    Ao mesmo tempo que o país assistia a este discurso, o executivo dava sinais de adesão à paixão pela heteronomia. Provavelmente cansado de ser apenas ele próprio, o primeiro-ministro desdobra-se agora nas figuras de Vítor Gaspar e Poiares Maduro, com nítido prejuízo para esse grande mestre da heterodoxia enquanto propaganda chamado Paulo Portas. De um momento para o outro o Governo passou a proclamar as virtudes do consenso e a apelar à participação do principal partido da oposição na busca de entendimentos que postula de imprescindíveis. Há, porém, qualquer coisa de pouco fiável neste discurso. A realidade teima em desmenti-lo. Ouvimos Miguel Maduro e ficamos com a sensação de que ele não passa de uma espécie de superstrutura de um executivo que continua a ter em Vítor Gaspar a infra-estrutura determinante, para utilizarmos de uma forma simplista e metafórica algumas categorias elementares do pensamento marxista. Maduro entoará hinos a uma Europa onírica que alguma esquerda aprecia, Gaspar imporá as receitas que a liderança germânica preconiza. Maduro apregoará, Gaspar decidirá. Maduro desempenhará na perfeição a tarefa de um magistral relações-públicas, Gaspar continuará a mandar no Governo. Do ponto de vista da imagem política, a solução não é má: ambos são brilhantes, inquestionavelmente inteligentes, situando-se muito acima da média da sofrível vida política portuguesa. Do ponto de vista da ética, já é muito mais questionável. No plano dos resultados os efeitos antevêem-se catastróficos.’

________
¹ Em rigor, Cavaco não tem “uma mancha no seu percurso”. O seu percurso é todo ele uma mancha. Não é possível esquecer tudo o que Cavaco fez contra os Governos de Sócrates, designadamente a inventona das escutas, que configura uma tentativa de golpe de Estado.

domingo, abril 28, 2013

Os homens do (homem do) Presidente

Fernando Lima — esse mesmo, o da inventona das escutas — foi alçado a director do DN no consulado de Barroso. O pessoal então recrutado ainda por lá anda.

Hoje, na Varejeira Vespa, essa gente faz uma esforçada prova de vida. Com efeito, alguém que se faz passar por jornalista mostra-se profundamente melindrado por João Galamba ter escrito que Cavaco “endoidou”. Como se estivesse a redigir uma resposta de desagravo, o ressentido jornalista socorre-se, à falta de melhor, das palavras da sagaz deputada Francisca Almeida. Para quem é, bacalhau basta.

sexta-feira, abril 26, 2013

A mão atrás do arbusto: entre o passado e o presente [2]


Já homem feito, Cavaco teve um comportamento ignóbil na PIDE, ao intuir que a polícia política do Estado Novo poderia não ver com bons olhos que ele se relacionasse com o sogro, por este se ter casado de novo. Some-se a isto os negócios nunca cabalmente esclarecidos do BPN e da permuta das moradias; o estranho caso da sisa; o rol de amigos ou pessoas próximas que traiu quando precisou de salvar a pele (incluindo a própria Dr.ª Manuela, que, após ter sido abortada a inventona das escutas, se viu abandonada à sua sorte pelos homens do Presidente) — e ter-se-á um esboço do carácter de Cavaco.

Por outro lado, é este Cavaco que não hesita, enquanto ministro das Finanças (segunda escolha), em utilizar o Orçamento do Estado para ganhar as eleições, escapando-se após a morte de Sá Carneiro ao ver que a falta de liquidez conduziria ao pedido de “ajuda” externa (com a vinda do FMI). É também este Cavaco que, como “bom aluno” da Europa, destruiu a indústria portuguesa, desbaratou os dinheiros do FSE e deu um aumento desmesurado aos funcionários públicos para ganhar as eleições legislativas de 1991 (para uns anos depois vir bramir contra o “monstro”).

Poderia não haver ilusões sobre o perfil do político há mais tempo em funções no país ou sobre o seu carácter. Mas aproveitar a circunstância de ocupar a chefia do Estado para lançar um golpe contra outro órgão de soberania nunca tinha ocorrido no regime democrático. Aconteceu com Cavaco, revelando que não desistira de liderar a direita em Portugal e que não olharia a meios para o conseguir.

A mão atrás do arbusto: entre o passado e o presente [1]


Havia, em primeiro lugar, que tomar o poder no PSD. O cavaquismo saiu em peso à rua e apeou de uma penada um líder que já se confundia com John Wayne. Já o assalto a São Bento surgiu como uma empreitada bem mais espinhosa, porque a malograda Dr.ª Manuela, por muitas campanhas sujas que tivessem sido feitas, não subia nem uma décima nas sondagens. Foi então que o Presidente da República, através do seu braço direito, ensaiou um golpe sul-americano nas vésperas das eleições legislativas de 2009: a inventona das escutas.