quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Leituras

Não há coincidências?

Da série "Frases que impõem respeito" [760]


O Governo faz lembrar o meteorologista que diz que vai chover quando lá fora já chove copiosamente.
        Bagão Félix, que acusa o Governo de "falhar quase todas as previsões" e diz que "há aqui um pouco de teimosia do Governo" porque "insistiu na recessão de 1% quando já se percebia que seria muito mais", pelo que o "Orçamento do Estado para 2013 com menos de um mês de vida, e com receitas ficais e despesas sociais claramente sobrestimadas, já está a ser revisto"

Da série “A fenomenologia do ser”: ignorância ou dogmatismo? [28]


Se em PPC a velocidade de compreensão é inversamente proporcional à velocidade de expressão, já em V. Gaspar a velocidade de compreensão tende a ser igual à velocidade de expressão.

Só assim se explica a lentidão que PPC e VG têm revelado no que toca a compreenderem os efeitos recessivos do catecismo ideológico que os inspira e que têm aplicado com o zelo típico dos prosélitos.

O problema de todos os prosélitos é, evidentemente, o dogmatismo. O dogmatismo, esse aleijão intelectual que alimenta em todos os fanáticos a ilusão de que a doutrina revelada é sempre alheia aos erros e aos fracassos, os quais, por consequência, só podem advir do facto de o catecismo não estar a ser aplicado com o necessário zelo e vigor.

Talvez a palavra autêntica dos amados mestres destes ultraliberais analfabetos que nos (des)governam os ilumine:
    And economic collapse often has the character of a cumulative process. Let it go beyond a certain point, and it will tend for a time to gain strength from its own development as its effects spread and return to intensify the process of collapse.
      Milton Friedman and Anna Schwartz, A Monetary History of the United States, 1867-1960. Princeton University Press, 1993, p. 419.

O Governo pagou, a “sociedade civil” papagueou


Estão recordados da conferência “Pensar o futuro – Um Estado para a sociedade”, na qual a “sociedade civil” iria dar os seus contributos, à porta fechada, para a “refundação” do Estado, ou seja, para o corte de quatro mil milhões de euros? Pois bem, muito embora a “sociedade civil” tenha ocupado um edifício público para a realização da conferência — o Palácio Foz —, a conferência teve um custo de 11 mil euros, suportados integralmente pelo Governo, ou seja, por si, caro leitor contribuinte.

O Moedinhas, secretário de Estado adjunto do (alegado) primeiro-ministro entende que é a coisa mais natural do mundo que as travessuras da “sociedade civil” tenham o respaldo do Governo.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Viagens na Minha Terra

E quem diz ambientalistas, diz sindicato dos magistrados do Ministério Público, sindicatos dos professores e…

Augusto Santos Silva no Facebook:
    '1. Às vezes dão-me umas angústias totalmente absurdas. A de hoje tem a ver com o nosso ambientalismo.
    2. De facto, que é feito dos ecologistas e das suas associações, que nunca mais ouvi falar deles? Dantes tão pressurosos em denunciar poluições, lixos, desrespeitos pela natureza, violações das Diretivas, atrasos nos PROTs, violações da REN, da RAN e já não sei que mais - e agora tão calados, tão mortiços, tão invisíveis?
    3. Terão hibernado? Então, porque não acordam, agora que se já sente um cheirinho de primavera?
    4. Adorarão a ministra do Ambiente, subscreverão a sua política? Então, porque se acanham de dizê-lo?
    5. Ou pertencerão à longa lista daqueles que só verdadeiramente se excitam quando é a esquerda que está no governo?'

Da série “A Fenomenologia do Ser”: Ignorância ou má-fé? [27]

    O chefe do Governo defendeu que "o nosso Estado social não é suficientemente eficaz", exemplificando com o facto de a taxa de pobreza: “antes das transferências sociais, a taxa é inferior à média europeia, mas após as transferências sociais a taxa cai menos do que noutros países, de tal forma que se torna superior à média europeia". […] E deu um exemplo para demonstrar que o Estado social não funciona como deveria. “A taxa de pobreza é inferior à média europeia”, antes de se considerar as prestações sociais. “Mas depois das transferências sociais, a taxa cai menos do que noutros países, de tal forma que se torna superior à média europeia. O que devemos concluir? O nosso Estado social não é suficientemente eficaz. Não faz o que deveria fazer.

Haja alguém com um mínimo de paciência ou com uma réstia de compaixão que explique a este pobre ignorante, e vagamente estúpido, que não só não tem razão como nem sequer sabe ler os dados disponíveis.

A mim falta-me a paciência porque a estupidez é apenas a hipótese benigna.

O que aqui está em causa, como já esteve no caso do panfleto encomendado ao fmi, é a apresentação maliciosa dos dados e a deturpação premeditada de factos para efeitos políticos.

Gente de carácter defende os seus valores e as suas convicções, sejam elas o estado mínimo, a privatização da segurança social, o que seja, com coragem, com frontalidade, com argumentos sérios, com hombridade e não com recurso a deturpações grosseiras dos factos e dos dados. Infelizmente, o que temos, hoje, na governação do País é gente destituída de carácter e sem hombridade.

Aqui ficam os dados para que cada um julgue por si próprio:
    “A taxa de risco de pobreza em Portugal antes de efectuadas as transferências sociais para as famílias era de 25,4%, no ano de 2010. Após essas transferências monetárias, a taxa de risco de pobreza situou-se em 18,0%. Isto significa que as transferências de rendimento do Estado para as famílias diminuíram em 7,4 pontos percentuais e 29,1% o valor deste indicador. A taxa de risco de pobreza antes e após as transferências sociais era mais elevada em Portugal face ao registado em termos médios nos países da UE-27. Por outro lado, o impacto das transferências sociais na mitigação da amplitude desse indicador foi menor em Portugal face ao verificado em termos médios no conjunto de países da União.

    […]

    A taxa de risco de pobreza antes e após as transferências sociais em Portugal tem vindo a diminuir desde 2001, embora de forma não linear. Se em 2001 a taxa de risco de pobreza em Portugal após efectuadas as transferências sociais era de cerca de 20%, em 2010 esse valor é 2 pontos percentuais inferior. Comparando os valores de Portugal e da UE-27, verifica-se que enquanto em 2004 a taxa de risco de pobreza após efectuadas as transferências sociais em Portugal era três pontos percentuais superior ao resultado médio nos países da União, no ano de 2010 essa diferença diminui para 1,1 pontos percentuais.”

O que escondem os custos do Estado Social

• João Pinto e Castro, A maldição do estado social:
    ‘(…) se as forças políticas e os governos se aferrarem a regras arbitrárias e irracionais do tipo: "o custo da educação não pode ultrapassar 5% do produto" ou "a despesa pública deve situar-se abaixo dos 50% do produto", estarão a criar artificialmente um problema, onde nenhum existe. E a essa fábula que se pode com propriedade chamar "a maldição do estado social".

    No seu recente e inspirador livro, The Cost Disease", William Baumol lança este aviso: "Se os governos não forem persuadidos por estas ideias, os cidadãos poderão ver ser-lhes negados saúde, educação e outros benefícios porque 'parecem' ser inacessíveis, quando de facto não o são." E acrescenta: "A continuação do crescimento da produtividade geral permitirá que a família típica continue a desfrutar de uma abundância de bens; porém, se o estado reagir de forma inapropriada, os cidadãos poderão ser penalizados por uma forte degradação dos serviços públicos em áreas como a recolha de lixo."’

Água contaminada

• Paulo Morais, Água contaminada :
    ‘Os concessionários, além do mais, estarão sempre em posição dominante, exercendo uma chantagem permanente sobre as entidades públicas. Por razões sociais e políticas, nunca será permitido a estes serviços desintegrarem-se. Os privados têm assim cobertos todos os riscos e podem desbaratar quaisquer recursos. A privatização do negócio da água é uma catástrofe anunciada.’

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Um exemplo

Um homem que, para se dedicar inteiramente à causa pública, não hesita em alienar o seu património.

Viagens na Minha Terra

A promessa de Passos Coelho

"Bloqueio total"

João Ferreira do Amaral, na palestra inaugural da conferência "Economia Portuguesa: Propostas com Futuro", que hoje decorre na Fundação Calouste Gulbenkian:
    'Nós não podemos imaginar que estes programas que estamos a prosseguir vão dar resultado. Pelo contrário, vamos por uma situação de ausência de saídas, de um bloqueio total.'

‘Os “panhonhas” estão a destruir um país que estava a conseguir atingir níveis de civilização inimagináveis em 1974’

• Ana Sá Lopes, Os panhonhas e Cia. irresponsável:
    ‘António Correia de Campos, ex-ministro da Saúde de Sócrates, definiu prodigiosamente, na edição de sábado do i, a atitude do governo português perante a troika. Em entrevista à jornalista Rita Tavares, Correia de Campos admite que “a troika precisa de nós”, mas “tem pela frente uns panhonhas que são os nossos actuais governantes, que não são capazes de bater o pé”. É impossível contestar o argumento de que o governo português tem gerido a sua relação com a Europa utilizando – ainda por cima como estratégia mais ou menos publicamente assumida – o método “panhonhas”. (…)

    Os “panhonhas” estão a destruir um país que estava a conseguir atingir níveis de civilização inimagináveis em 1974. (…)’

“Tive esperança no jogo de cintura de Portas”

• António Correia de Campos, Novos cavaleiros da esperança [hoje no Público]:
    ‘Há gestos que não entendo em políticos inteligentes e experientes: o contentamento de Paulo Portas com a redução assustadora das verbas da Política Agrícola Comum, em nome da teoria do mal menor. Portugal estava em riscos de perder 900 milhões, na proposta do Conselho Europeu, formalizada por Van Rompuy. A perspectiva de podermos receber, em troca, por debaixo da mesa, um cheque de cerca de 400 milhões, para contentar os “pequenitos”, dilui toda a nossa capacidade reivindicativa, encolhe-nos a um canto da sala das negociações, enfraquece-nos como Estado-nação. Tidos como fáceis de contentar, vulnerabiliza-nos. (…) Ao cantarmos vitória dentro do país, damos a Bruxelas o sinal de que ainda pode comprimir o bónus. Numa fase tão precoce das negociações a três, a partir de agora com o Parlamento, sabendo que este pretende lutar bravamente por uma solução mais generosa, estamos a enfraquecer a sua posição e a sapar o seu apoio. Não consigo entender. Tive esperança no jogo de cintura de Portas. Estou a perdê-la.’

Limites da indecência


• António Marinho e Pinto, Limites da indecência:
    ‘(…) O que tem de espantoso (mais) este processo disciplinar é ter sido instaurado por eu ter criticado a ministra da Justiça num programa de televisão, chamando-lhe barata tonta. Os aliados da ministra dentro da Ordem dos Advogados são, de facto, incansáveis e, incentivados pelo aparente marasmo de uma classe que tudo parece disposta a suportar, julgam não haver quaisquer limites para a indecência (…).’

domingo, fevereiro 17, 2013

A “refundação” reforma do Estado segundo o guião de Portas

Sábado, 14.02.2013, pág. 18

Uma história que justifica um minuto de atenção. Consta que Paulo Portas e Jorge Braga de Macedo nutrem um pelo outro um ódio visceral. Quando a direita se alçou ao poder, estas duas personagens voltaram a cruzar-se: o Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), de que Braga de Macedo é, vá-se lá saber porquê, presidente, estava na dependência do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Para evitar que um dos seus gurus fosse trucidado por Paulo Portas, Passos Coelho introduziu uma norma na lei orgânica do Governo para colocar o IICT na dependência da Presidência do Conselho de Ministros (cf. artigo 10.º, n.º 4). Não se conformando com esta alteração, Portas reclamou a tutela do IICT. Quando o conseguiu, Portas começou a reivindicar a demissão de Braga de Macedo, exigência reforçada pela circunstância de este guru de Passos Coelho ter sido um dos contemplados com a sinecura da EDP (Catroga, Cardona, Teixeira Pinto, Ilídio Pinho…).

Parece que Portas vai finalmente afastar Braga de Macedo, mesmo que para isso tenha de extinguir o IICT, uma instituição com 130 anos que tem um arquivo único no mundo.

É o suficiente para ter uma ideia do que virá a ser o guião de Portas para a “refundação” reforma do Estado (e para se perceber como o alegado primeiro-ministro sucumbiu perante as investidas de Portas, acabando por deixar trucidar um dos homens que lhe explicavam os meandros das leis da economia).

Em complemento — A medicina tropical já não mora na Junqueira.

Da série "Frases que impõem respeito" [759]


Está a enterrar o país.
        Militante laranja, dirigindo-se a Passos Coelho, numa iniciativa do PSD (vídeo)

O país da "selecção natural"

• Teresa de Sousa, O país da "selecção natural" [hoje no Público]:
    ‘Muita gente avisou que a receita da troika destruiria sectores inteiros da economia, como a construção ou a restauração e o pequeno comércio, atirando para o desemprego milhares de pessoas que dificilmente encontrariam emprego noutros sectores. Mas esse foi um aviso que o Governo sempre ignorou, não por ser autista ou arrogante, mas porque os livros por onde estudaram os seus ministros ou a ideologia que beberam manifestamente em excesso lhes dizia que essa era a parte da economia que deveria ser rapidamente sacrificada. O destino das pessoas que trabalhavam nesses sectores, geralmente pouco qualificadas, não foi problema que valesse a pena equacionar. Na sexta-feira, para que não houvesse dúvidas, Passos Coelho explicou, com imensa candura, que já está feita a "selecção natural das empresas que podem melhor sobreviver". Não mencionou o segundo efeito dessa "selecção natural" que se traduzirá, segundo as contas do FMI, num desemprego estrutural de 14%, ou seja, na "selecção natural" das pessoas de carne e osso cujas qualificações dificilmente lhes permitirão regressar ao mercado de trabalho.’

Os atrasos dos juízes

• Fernanda Palma, Os atrasos dos juízes:
    ‘(...) pior ainda do que a morosidade processual seria a precipitação e a arbitrariedade no julgamento dos processos. Sem pactuar com atrasos injustificados e violações grosseiras do dever de zelo, devemos reconhecer que a "pressa" é má conselheira. Julgamentos "sumários" e sentenças irrecorríveis estão na origem de conhecidas iniquidades.

    Por esta razão, é muitíssimo duvidosa, por exemplo, a solução de alargar o processo sumário a todos os crimes. Pode um crime com a gravidade do homicídio qualificado, por exemplo, ser julgado sem fase de inquérito e por um só juiz, mesmo que haja flagrante delito – que, entre nós, abrange detenções feitas por quaisquer pessoas em flagrante delito presumido?’

Não, não aguentamos

• Pedro Marques Lopes, Não, não aguentamos:
    ‘(…) o Governo acredita que destruindo o actual tecido económico, provocando a maior recessão da nossa história recente, atirando milhões para o desemprego, dum momento para o outro e duma forma radical, resultará num país novo, dinâmico, exportador, empreendedor. Sem preguiçosos e sem os mandriões que viviam à custa dos subsídios de desemprego e dos rendimentos de inserção.

    Não é só uma revolução económica que está em marcha, é sobretudo uma revolução social. O Governo e os loucos europeus apostaram na revolução, no mais puro radicalismo ideológico. Resolveram testar meia dúzia de princípios ideológicos colados com cuspo e decidiram tornar uma geração praticamente inteira num exército de inúteis, de gente dispensável, de pessoas que não encaixam, que viverão à margem.’

sábado, fevereiro 16, 2013

Ah, já podiam ter dito que a “refundação” reforma do Estado não tem nada a ver com o corte as “poupanças” de 4.000 milhões

A ideia foi minha, ouviram!?

O PS mostra-se disponível para discutir a reforma do Estado, mas não aceita iniciar a discussão com uma meta fixada de quatro mil milhões de euros para o corte das despesas as poupanças do Estado. Pois muito bem: a direita, que é muito prática, adapta a estratégia de desmantelamento do Estado Social.

Assim, o ministro das Finanças passou, ontem à tarde, pela Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública e ensaiou um novo discurso: “Reforma do Estado e cortes de quatro mil milhões de euros estão relacionados, mas são coisas diferentes.” Gaspar fica com a responsabilidade de fazer o corte as poupanças, mas recusa-se a revelar aos representantes do povo português as medidas que constam da folha de Excel sem antes obter a concordância dos representantes dos credores externos: “Não vou fazer qualquer comentário, nem agora para a semana, sobre temas que estarão a ser discutidos no quadro do 7.º exame regular.

Também ontem, mas à noite, o alegado primeiro-ministro desvenda a outra parte do plano. A “refundação” reforma do Estado fica a cargo do ministro que tutela os Negócios Estrangeiros: “O Governo irá apresentar um guião dessa discussão muito proximamente. O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros ficou com o encargo de apresentar perante o Governo e o país esse documento de guião de toda a discussão para a reforma do Estado.

Aqui chegados, Gaspar, com a sua folha de Excel, é incumbido de cortar poupar e Portas, amarrado curto para prevenir estados de alma patrióticos, é incumbido de fundamentar os cortes as poupanças. E que faz o PS, estando em causa a “refundação” do Estado Social (por mais que Passos Coelho procure meter no mesmo saco as funções de soberania, como o “modelo das forças de segurança e das forças armadas”)?

Da série "Frases que impõem respeito" [758]

Esse processo, em termos naturais, está concluído. É importante que o país tenha essa percepção. Essa selecção sobre¹ as empresas que tinham melhores condições para resistir, para sobreviver, para serem mais competitivas — seja no mercado externo, seja no mercado interno —, essa selecção está grandemente feita._______
¹ Clara Ferreira Alves analisa o uso das preposições por parte do alegado primeiro-ministro na revista da edição de hoje do Expresso.
² Paulo Pinto comenta estas palavras de Passos Coelho num post intitulado Darwinismo Laranja.

Ainda que mal pergunte… [136]

Já se sabe a que instituição de solidariedade social vai ser doada a indemnização de 730 mil euros por difamação?

A desfazer-se no ar

• Pedro Adão e Silva, A desfazer-se no ar [hoje no Expresso]:
    ‘"Tudo o que é sólido desfaz-se no ar", avisava Karl Marx. Naturalmente que a asserção também se tornou válida para o marxismo. Mas, por agora, pensemos no sistema partidário português, naquilo que tem de mais sólido. Também neste caso, o risco de se desfazer no ar não deve ser menosprezado. Bem pelo contrário.

    Os dois partidos que alternaram no poder durante os 38 anos de democracia, PS e PSD, têm ancoragens ideológicas e bases eleitorais de apoio bem distintas, mas partilham um conjunto de semelhanças. A primeira das quais é terem sido construídos de cima para baixo, sem movimento, respondendo a uma necessidade funcional da democracia; depois, o poder, quer no Governo quer nas autarquias locais, foi um instrumento privilegiado para criar uma base militante e para a reprodução do poder interno. Não menos importante, a sua legitimidade junto dos portugueses assentou, no essencial, em dois fatores, em importante medida também partilhados: a melhoria das condições materiais com a democracia e a pertença de Portugal à União Europeia.

    No fundo, a falta de enraizamento social dos partidos do bloco central foi compensada por dois tipos de legitimação. Uma que se prendeu com a construção de um Estado social, com acesso universal à saúde e à educação (o que permitiu trajetórias de mobilidade social ascendente) e com um conjunto de benefícios sociais que tomaram a sociedade portuguesa menos pobre. Já a segunda fonte de legitimidade do PS e do PSD remete para o empenho que colocaram no projeto europeu e para os benefícios objetivos que o país teve com a pertença à União Europeia.

    Chegados aqui, não é difícil perceber que podemos estar perante um sério problema. Os partidos portugueses tornaram-se sólidos muito por força do Estado social e da integração europeia. Ora se as fontes de legitimidade são postas em causa, arrastadas pelo empobrecimento e pela desorientação política europeia, o mais natural é que os partidos se possam também desfazer no ar.

    Neste contexto, como se não bastasse o facto de os pilares em que assentaram os partidos que governaram em Portugal estarem a abalar, a sensação com que se fica é que, além da incapacidade de se repensarem programaticamente, se encontram manietados por uma oligarquia interna. (…)’

O corte dos € 4.000.000.000

• Maria Manuel Leitão Marques, A reforma do Estado [hoje no Expresso]:
    ‘(…) o que de essencial parece estar por trás do atual discurso, pode não ser a reforma do Estado, mas sim, como foi dito, a sua refundação. Ela passa por subir ou introduzir taxas para certos serviços públicos (como a educação), numa primeira fase; torná-los competitivos (em preços para os utentes) com o sector privado, numa segunda fase, fazendo assim saltar do sector público quem os pode pagar no privado; e por fim acabar com o seu modelo de prestação atual, deixando os serviços públicos para indigentes e cavando o fosso entre ricos e pobres, devido à desigualdade estrutural que tal modelo gera. Nada que não fizesse parte dos planos deste Governo, com a crise ou sem ela. Por muito que o 'gato' tente esconder-se por trás de um relatório, o seu 'rabo' tem estado sempre de fora.’

O que o ministro da propaganda tem a dizer ao país perante a tragédia do desemprego e o aumento da miséria: “Estamos muito felizes”

Hoje no Correio da Manha

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Da série “A Fenomenologia do Ser”¹: estupidez ou má-fé? [26]

Que temos um PM impreparado e vagamente ignorante já não é surpresa para ninguém. Mas verificar, cinco anos passados sobre a crise de 2008/2009, que ainda insiste em contar uma versão falsa, rotundamente falsa, desse período histórico é algo que já releva ou da estupidez ou da má-fé. Dois quadros, dos muitos que podem ser retirados das dezenas de estudos científicos entretanto publicados, e que desmentem as afirmações hoje proferidas na Assembleia da República por PPC.

Sabine Le Bayon, Portugal: englué dans la recession.
Revue de l’OFCE/Prévisions–125 (2012). Observatoire français des conjonctures économiques (OFCE).

KLAUS ARMINGEON, The Politics of Fiscal Responses to the Crisis of 2008–2009.
Governance. Vol. 25, No. 4. October 2012 (pp. 543–565). © 2012 Wiley Periodicals, Inc.

Passos resolveu reagir a tudo isto com uma enervante tranquilidade, própria de quem não tenciona tomar nenhuma medida para enfrentar o problema


      "Os números hoje divulgados são números preocupantes, estão razoavelmente em linha com as previsões do Governo".
        Passos Coelho, quando foram divulgados os dados sobre a tragédia do desemprego

• Pedro Silva Pereira, Razoavelmente em linha:
    ‘O Governo tentou desmentir a espiral recessiva mas a espiral recessiva encarregou-se de desmentir o Governo. Ao contrário das falhadas previsões de Gaspar, os números do INE não enganam: em 2012, a recessão em Portugal agravou-se para o dobro (-1,6% em 2011 e -3,2% em 2012). E não vamos ficar por aqui. Ao que se percebe, o Governo, apesar de todas evidências, insiste em manter a sua opção por uma austeridade "além da troika" e isso, evidentemente, terá um preço: vamos para o terceiro ano de uma recessão profunda, sem precedentes na história da democracia portuguesa. Nunca aconteceu uma coisa destas.

    Vale a pena consultar os registos. Desde a normalização democrática, em 1976, até à crise internacional de 2008-2009, Portugal viveu 4 anos de recessão económica: em 1983 e 1984 (no Governo do Bloco Central, com Mário Soares), em 1993 (com Cavaco Silva) e em 2003 (com Durão Barroso e Paulo Portas). Destes, o pior registo foi o alcançado por Cavaco Silva em 1993, com uma quebra de -2% do PIB. Depois disso, a economia portuguesa só voltou a recuar em 2009, durante a recessão global que por essa altura atingiu todos os países. Sujeita a condições externas anormalmente severas, a economia portuguesa caiu então -2,9% (estava Sócrates no Governo), para recuperar logo em 2010, ano em que já cresceu 1,9%.

    Estes dados ajudam-nos a colocar em perspectiva a gravidade da situação actual: depois de já ter sofrido uma queda acentuada em 2011, a economia portuguesa caiu em 2012 mais do que em qualquer outro ano na história da democracia portuguesa, incluindo o ano da maior recessão global dos últimos 80 anos. E vai cair ainda mais. É obra!

    Os efeitos desta situação sobre o emprego são dramáticos. Como revelou o INE esta semana, no último trimestre de 2012 a taxa de desemprego atingiu o valor impensável de 16,9%, furando a estimativa do Governo para a média anual de 2012 (que se fixou nos 15,7%, acima dos 15,5% previstos por Vítor Gaspar). Pior: este valor compromete desde já a previsão do Governo para a taxa média anual de desemprego de 2013 (16,4%), na base da qual foram calculados os encargos com subsídios de desemprego na elaboração do Orçamento deste ano.

    Também aqui vale a pena consultar os registos. Convirá lembrar que ainda há pouco, em Junho de 2011, quando o actual Governo entrou em funções, a taxa de desemprego estava em 12,1%, contabilizando-se 675 mil desempregados. Agora, apenas um ano e meio depois, a taxa de desemprego disparou para os 16,9%, registando-se 923 mil desempregados. Nunca se viu nada assim: uma subida de 4,8 p.p. na taxa de desemprego e um aumento de 248 mil desempregados em apenas dezasseis meses!

    O mesmo se diga do número de pessoas com emprego. Esse número era de 4893 mil em Junho de 2011 e passou para apenas 4531 mil no final de 2012. Contas feitas, a economia portuguesa registou uma destruição líquida de emprego de 362 mil postos de trabalho em apenas ano e meio!

    Para espanto do País, o Primeiro-Ministro resolveu reagir a tudo isto com uma enervante tranquilidade, própria de quem não tenciona tomar nenhuma medida para enfrentar o problema: "isto ainda vai piorar", garantiu ele, não fosse alguém embandeirar em arco. E acrescentou: está tudo "razoavelmente em linha" com as previsões do Governo. Só nos faltava mais esta: o comboio descarrilou e o maquinista não deu por nada.’