sexta-feira, abril 04, 2014

"Em vez de estarmos a criticar a Alemanha,
vamos fazer como a Alemanha fez"

• Pedro Silva Pereira, Falar claro:
    «A meta inicial do programa de assistência financeira, recorde-se, era chegar ao fim de 2013 com uma dívida pública de 115,3% do PIB e já em trajectória descendente. Segundo o INE, o resultado foi este: a dívida disparou de 94% (em 2010) para 129% do PIB (em 2013) e continua a piorar. Em suma: após três anos de trabalhos forçados e recessão, a dívida pública, em vez de diminuir, aumentou 51 mil milhões de euros (!) e já ultrapassa os 213 mil milhões. Moral da história: assim não vamos lá.

    Os dados oficiais revelados pelo INE nas duas últimas semanas vieram desmentir frontalmente a teoria do "sucesso do ajustamento": o que temos é mais pobreza e mais dívida pública. Apesar disso, há quem insista em ignorar os factos e teime em branquear o falhanço: "Felizmente, está a valer a pena", comentou na sua recente entrevista ao Expresso o ainda Presidente da Comissão Europeia e ex-líder do PSD, Durão Barroso. E não fez a coisa por menos no apoio ao seu partido em vésperas de eleições: os resultados de Portugal, disse ele, "são extraordinários". Mais: "foi correcto não fazer um ajustamento demasiadamente gradual", garantiu ele. Dito isto, que não é pouco, Durão Barroso enunciou ainda de forma clara a linha de rumo que deve guiar doravante Portugal, a Europa e talvez o Mundo: "Em vez de estarmos a criticar a Alemanha, vamos fazer como a Alemanha fez". E nesta frase notável resumiu toda uma escola de pensamento.

    O problema é mesmo este: a direita sustenta que a austeridade foi boa e purificadora, penalizando de forma justiceira os preguiçosos da periferia europeia que teimavam em viver acima das suas possibilidades, ao mesmo tempo que beneficiava muito merecidamente as finanças da Alemanha (que anunciou ter ganho 41 mil milhões de euros só graças ao impacto da crise das dívidas soberanas nos mercados financeiros). A esta luz, a divergência económico-social, que ameaça gravemente o projecto europeu, não é entendida como um dano colateral da zona euro e da política de austeridade. Pelo contrário, é um objectivo saudável a prosseguir com firmeza e a aprofundar com determinação.

    Por estranho que pareça, é embalada por esta perigosa visão das coisas e empolgada pelo seu "sucesso" imaginário que a direita se propõe seguir em frente, continuando a trilhar o mesmo caminho de austeridade nos próximos anos. Na prática, como já se percebeu, isto significa transformar os cortes provisórios em definitivos e, mais do que isso, fazer da austeridade um modo de vida, sem horizonte nem ambição. É esse o futuro deprimente que nos espera se nada mudar.

    Dizem-nos, é claro, que não há nada para decidir porque não há alternativa, nem para a Europa nem para Portugal. Que este caminho, ditado pelos mercados, é inevitável e que nos resta aceitar obedientemente o nosso destino subalterno, elogiando quem manda para colher recompensas. Mas a verdade é outra: o futuro do projecto europeu depende da escolha democrática dos cidadãos.

    E é possível construir democraticamente uma mudança política que faça a diferença na resposta da União Europeia a esta crise e que dê lugar a uma política orçamental e de gestão da dívida compatível com uma verdadeira agenda de crescimento, de emprego e de coesão. Tal como é possível uma outra atitude de Portugal na Europa, que recuse a subserviência e seja capaz de construir novas alianças em defesa do interesse nacional. Ao contrário do que dizem os que nos acenam permanentemente com inevitabilidades, há uma escolha democrática para fazer. Agora. E é melhor falar claro antes que seja tarde.»

A balada de Wall Street

• Fernanda Câncio, A balada de Wall Street:
    «(…) Tudo tão joia que o WSJ, mais uma vez alinhado com o Governo, associa a recuperação da economia portuguesa prevista pelo Banco de Portugal ao "aumento das exportações desde 2008" e ao seu peso relativo no PIB (que o PIB tenha encolhido não interessa nada). "Ao mesmo tempo", diz, "o desemprego caiu para 15%, muito alto ainda mas com redução suficiente para possibilitar a animação da procura interna." Confrontado com o facto de, ao contrário, as análises do BdP atribuírem o reavivar da economia à procura interna, Nixon nega ter atribuído o efeito às exportações e aconselha à releitura do seu texto. Releia-se, sim. Por exemplo o final: "Muito depende da capacidade de os três principais partidos portugueses serem capazes de assegurar que manterão a estratégia que já deu resultados positivos. Quanto maior o comprometimento, mais suaves as condições. Claro, se o compromisso fosse realmente credível, Portugal talvez não precisasse de uma rede de segurança." Houvesse dúvidas de que esta peça do WSJ, despudoradamente baseada na propaganda do Governo e da troika, visa certificar "o sucesso" do "ajustamento português" e pressionar o PS, ei-las desvanecidas. Só falta mesmo perceber o que está o Journal a fazer no título da publicação.»

Que se lixem as eleições?

• Daniel Oliveira, Que se lixem as eleições?:
    «(...) Agora vêm as Europeias. Ao contrário das Autárquicas, não são os lugares dos outros que estão em perigo (os eurodeputados a eleger são pouco mais de meia dúzia). É o seu, dos seus ministros e dos seus protegidos. Porque as Europeias são, tradicionalmente, muito mais do que as Autárquicas, um teste ao governo. Porque estas acontecem a um ano das legislativas. Porque é agora que entramos no ano de todos os perigos para Pedro Passos Coelho. As eleições já o preocupam. Mas a estratégia não é aprender com erros ou ouvir as críticas. É a de sempre: prometer muito, prometer tudo. Depois logo se vê. É exatamente o que Passos Coelho fez nas últimas eleições legislativas. O que me espanta é que, depois de conhecerem a divergência absoluta entre o prometido antes de ir a votos e o feito depois de chegar ao governo, ainda houvesse quem acreditasse que Passos se estava mesmo a lixar para as eleições.»

quinta-feira, abril 03, 2014

Entrevista do chinês:
a prova de que a mentira e a calúnia moldaram o PSD [4]


Depois de Vítor Constâncio, Teixeira dos Santos também desmentiu Barroso, confirmando o que havia sido dito aqui.

A causa das cousas: quantitative easing


Os juros da dívida portuguesa a cinco e a dez anos desceram para mínimos de 2009. Caro leitor, se pensa que é devido à austeridade, está enganado. Perante o «longo período de inflação baixa» que varre a zona euro, o BCE anunciou que, não tendo muita margem para descer mais a taxa de juro de referência, está disposto a recorrer a «todos os instrumentos dentro do mandato, incluindo o quantitative easing» (compra de dívida pública e privada). Mario Draghi explica aqui o que está em causa.

Portas: "Excluídos do RSI tinham mais de 100 mil euros no banco"


Será verdade o que o vice-pantomineiro disse, que, de resto, provocou uma reacção imediata de Pedro Marques (cf. vídeo)? A falsidade está desmontada aqui.

«Et François Hollande espère peut-être faire renaître l’espoir
qu’il avait suscité en Europe du Sud»

Le Monde, edição de amanhã
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Precisamos de confronto de ideias,
dispensamos a demagogia e a propaganda

• Francisco Assis, Precisamos de confronto de ideias, dispensamos a demagogia e a propaganda:
    «(…) o candidato que encabeça a coligação da direita nas eleições para o Parlamento Europeu, conhecido pelo seu fervor federalista, cometeu uma derrapagem desta natureza. Confesso a minha absoluta estupefacção. Ao solicitar ao líder do PS que estabelecesse uma preferência entre um inexistente candidato português e um concreto candidato alemão à presidência da Comissão, Paulo Rangel cometeu um erro duplamente grave: ofendeu os princípios fundadores do projecto europeu e consagrou uma tese que só pode prejudicar os países de média dimensão, como é o caso de Portugal. Uma campanha eleitoral não pode ser confundida com a silly season e nenhum nervosismo político autoriza o relaxamento das convicções. Vivemos um tempo em que o principal perigo em que a Europa incorre é o da subordinação das clivagens ideológico-políticas que a percorrem a supostas linhas de fractura histórico-geográficas que a organizariam estrutural e perenemente. A vingar esta última perspectiva o projecto europeu estaria condenado ao descalabro. Não é difícil percebermos porquê. Uma linha divisória dessa natureza pressuporia um confronto de carácter quase antropológico assente em oposições que relevariam menos do político e resultariam mais de outras dimensões de tipo religioso, étnico, ou, numa formulação extrema, mesmo racial. Daí que seja absolutamente imprescindível proceder à valorização do combate entre perspectivas doutrinárias e políticas de âmbito europeu inscritas na matriz moderna e contemporânea do debate de ideias. Isso não é sequer muito difícil, tendo em conta a forma como já se verifica o agrupamento dos deputados em função da pertença a famílias políticas distintas no hemiciclo de Estrasburgo.»

E pur si muove!


Soube-se ontem que o BPI vendeu de metade da posição detida em dívida pública de médio e longo prazo de Portugal e Itália, no valor nominal de 850 milhões de euros e 487,5 milhões de euros, respectivamente. O presidente do BPI justificou a operação com a circunstância de uma eventual nova crise poder provocar a queda do valor dos títulos, obrigando a «um aumento de capital só por causa da flutuação dos preços, mesmo que a dívida fosse paga quando chegasse à maturidade, em 2019».

Perante a alienação dos títulos e o fecho dos swaps de cobertura de risco de variação das taxas de juro, operação que se traduziu numa menos-valia de 102 milhões de euros depois de impostos, é difícil não admitir que as instituições financeiras se estão a antecipar a uma reestruturação da dívida no contexto europeu. Depois da reestruturação da dívida grega, o BPI parece querer atenuar as perdas que então sofreu.

O crescimento da pobreza em Portugal

• Valter Lemos, O crescimento da pobreza em Portugal:
    «(…) é profundamente lamentável é que todos esses que vêem as suas condições de vida degradar-se, os que não conseguem ganhar o sustento da família, os que engrossam estas estatísticas da iniquidade social, não tenham sequer uma palavra de quem dirige o país. Do governo já não esperaríamos, dada a inqualificável insensibilidade social que Passos Coelho e Paulo Portas e os seus ministros têm demonstrado. Mas, mais uma vez, Cavaco Silva ficou mudo e quedo perante estes pesados sinais de agravamento da falta de coesão social e de sofrimento de milhões de portugueses. Perante tal situação não podemos deixar de ser assaltados por uma questão: para que serve afinal este presidente da República? Porque discursou aos portugueses em 2011 dizendo-lhes que havia limites para os sacrifícios? Ou afinal não estava a falar para estes portugueses?»

quarta-feira, abril 02, 2014

As saídas limpas saem muito caras


O programa de assistência económica e financeira tem um objectivo primordial: o regresso de Portugal aos mercados. É preferível esperar pela conclusão do programa para avaliar os resultados, muito embora a simples observação de que estamos em presença de um país destroçado leve qualquer pessoa a inquietar-se quando se vê o Governo a falar de sucesso. Sucesso com quê?

Em todo o caso, uma coisa é certa: a saída formal da troika está a sair muito cara. A almofada financeira que o Governo está a constituir custou ao Estado, em 2013, 435 milhões de euros em juros. Vamos aguardar para saber em que condições é que se dá o regresso (ou não) aos mercados.

Viagens na Minha Terra

O dia das mentiras é quando o Governo quiser

O Marcelo de que se fala hoje


Temos o ex-futuro candidato, o político, o comentador, o jurisconsulto, o professor. Daquele que se fala hoje é do jurisconsulto. Por causa disto.

Da luta ideológica nas universidades


A edição de amanhã do diário Le Monde dá conta de um debate importante que ocorre neste momento em França sobre o ensino da economia: Profs d’économie: néoclassiques 1 – hétérodoxes 0.

Estão a ser questionados os métodos de selecção e recrutamento dos professores, que permitiram ao pensamento neoclássico tornar-se dominante nas universidades. Para isso contribuiu um filtro determinante nas provas de acesso: “La bibliométrie, c'est-à-dire le nombre et l'impact des publications et des citations des articles du candidat, est déterminante. Les revues scientifiques sont elles-mêmes savamment classées par le CNRS en quatre catégories, dont la plus prestigieuse est nommée «1», voire «1*». On n'y trouve que des revues de pensée néoclassique. «Il faut publier dans des revues économétriques que personne ne lit, alors que l'écriture d'un livre, même s'il a un retentissement important, ne compte pour rien», déplore M. Batifoulier, qui a choisi de médiatiser son cas et de le porter en justice. Dans sa décision du 28 novembre 2013, le Conseil d'Etat a rejeté sa requête en annulation, estimant que, le formalisme de la procédure ayant été respecté, «il n'appartient pas au juge de contrôler l'appréciation faite par un jury de la valeur des candidats».”

Isto explica o recrutamento preferencial dos professores que se atêm à teoria neoclássica, como se pode ver pela infografia acima reproduzida.

No país das maravilhas

Rapinado aqui

Das causas do desemprego, da pobreza e da desgraça das famílias

Já alguma vez se questionou porque é que, tendo Portugal um desemprego estratosférico, as pessoas não reagem? Isabel Jonet estudou o problema e explica a principal causa: “o pior inimigo dos desempregados são as redes sociais. Muitas vezes as pessoas ficam desempregadas e ficam dias e dias inteiros agarradas ao Facebook, ou agarradas a jogos, agarradas a amigos que não existem e vivem uma vida que é uma total ilusão”.

Carta aberta em defesa de Constâncio


A carta aberta que Artur Santos Silva, Rui Vilar, José Silva Lopes, Teodora Cardoso e Miguel Beleza decidiram publicar é importante a vários títulos, designadamente quanto aos seguintes dois:
    1. Ao contrário do que refere o Público na primeira página, a carta não se circunscreve ao caso BPN nem aos mais recentes casos que abalaram a banca;
    2. A carta torna inteligível que a supervisão bancária é uma função distinta da investigação criminal, pondo a ridículo o comportamento de uns tantos canastrões da direita que não se coíbem de andar por aí a fazer tristes figuras.

Hoje no Público (clique na imagem para a ampliar)
Partilha de Nuno Oliveira

O corte unilateral nos rendimentos de centenas de milhares
não travou o crescimento da dívida,
apenas destruiu economia e empobreceu os portugueses

• Pedro Nuno Santos, Agora, os cidadãos:
    «(…) Cansado e descrente no programa de ajustamento que Passos, Portas e Rangel defendem, o povo português percebeu que só com a reestruturação de uma dívida impagável se conseguirá acabar com a desculpa que a direita usa para continuar a impor ao país a sua agenda liberal e austeritária, perceberam que só reduzindo a dívida e a austeridade se conseguirá desbloquear o crescimento da economia e iniciar a recuperação económica. Não é a honestidade do povo português que está em causa mas sim assumir a incapacidade objectiva de virmos a pagar a divida na sua totalidade, não porque não queremos mas porque não é possível. Não se trata de nos dividirmos entre os que querem pagar e os que não querem, trata-se sim de fazer uma escolha e o governo já a fez: para não falhar um único cêntimo com os credores internacionais decidiu "não pagar" parte dos salários e das pensões aos trabalhadores do sector público e aos pensionistas. O problema da estratégia do governo é que o corte unilateral nos rendimentos de centenas de milhares de portugueses não travou o crescimento da dívida apenas destruiu economia e empobreceu os portugueses.»

Pós-troika: rotundo falhanço se não apostar na produtividade,
na melhoria da justiça e no estancamento da emigração jovem


• Manuel Pinho, Por que razão a economia não cresce?:
    «(…) Como estamos? Estamos muito mal. De acordo com as estimativas de Paul De Grauwe, Portugal tem o stock de capital por trabalhador mais baixo, de longe, entre os países da zona euro. O stock de capital é inferior à Grécia, cerca de metade da Espanha e menos de um terço do que na Alemanha e na Holanda. Como seria possível o trabalhador português produzir o mesmo que o alemão ou holandês com apenas um terço do stock de capital? A causa desta situação desoladora é, globalmente, as empresas e o Estado terem investido tão pouco, e nalguns casos tão mal.


    Para onde vamos? Vamos de mal a pior. O stockde capital é o resultado de anos e anos de investimento, que devia estar a aumentar, mas tem vindo a cair a pique. Em 2013, a FBCF foi, a preços constantes, a menor dos últimos 25 anos, 60% do registado em 2008 e pouco mais de metade de quando Portugal aderiu ao euro. Uma catástrofe!

    A queda a pique do investimento contraria a ideia de que ele depende fundamentalmente do nível das taxas de juros, porque elas baixaram fortemente desde a adesão ao euro e, além disso, o crédito bancário às empresas foi muito abundante.


    Por outro lado, invocar por tudo e por nada os custos de contexto como explicação para a queda do investimento é mais um mito, uma vez que o ambiente de negócio (custos de contexto) melhorou muito, em parte devido ao Simplex e à agilização da negociação dos projetos apoiados por fundos comunitários, de tal maneira que Portugal está atualmente à frente da Suíça e da Dinamarca no ranking Doing Business do Banco Mundial.

    Apesar de não ser simples de explicar, a queda do investimento não é uma inevitabilidade e vale a pena olhar para o período em que duplicou o número de hotéis de cinco estrelas e foi possível mobilizar projetos de investimento como a refinaria da Galp em Sines, a fábrica de papel da Portucel em Setúbal, o projeto da Embraer em Évora, a fábrica de mobiliário da Ikea em Paços de Ferreira, a de turbinas eólicas da Enercom em Viana do Castelo, etc. Não há qualquer razão para que este ritmo de investimento, que em larga medida explica o recente aumento das exportações e das receitas do turismo, tenha sido interrompido, é necessário que se mantenha uma forte dinâmica do investimento ano após ano.


    Também há duas questões relativamente ao nível de qualificação da força de trabalho, como estamos e para onde vamos?

    Onde estamos? Muito mal. A nova geração de portugueses tem um nível de educação relativamente próximo da média do que se verifica nos países mais desenvolvidos, o que explica a sua relativa facilidade em emigrar, porém as gerações mais velhas têm qualificações muito baixas. Apenas 35% dos portugueses com mais de 25 anos terminaram o 2.º ciclo de escolaridade, o que compara com 86% na Alemanha, 84% na Finlândia e 72% em França. Na realidade, de acordo com os dados da OCDE, em Portugal o nível médio de qualificações dos adultos será bastante inferior ao de países que são mais pobres, por exemplo Chile, México e Argentina.

    Para onde vamos? De mal a pior por duas razões principais. Primeiro, foram interrompidas as políticas de qualificação dos adultos com um baixo nível de escolaridade, por exemplo o programa Novas Oportunidades. Porquê? Segundo, os jovens foram aconselhados a emigrar. (...)»

terça-feira, abril 01, 2014

Constâncio contradiz Barroso


Vítor Constâncio contradisse o que Barroso declarou ao Expresso, sustentando que nunca foi convocado por Durão Barroso entre 2002 e 2004 para falar especificamente sobre o BPN. Com efeito, Constâncio assegura que apenas falou com Barroso uma vez sobre o BPN (e não três vezes, como diz Barroso) e que se tratou de «uma conversa geral»: «Depois de tantos anos, não recordo qualquer convocação exclusivamente sobre o BPN. Recordo apenas uma conversa geral em que se falou de preocupações com o BPN, mas nada de muito concreto».

Das declarações de Vítor Constâncio em Atenas, à margem da reunião do Ecofin, importa reter: «Sobre esta questão, o ponto mais importante é de que nunca recebi qualquer informação sobre possíveis irregularidades concretas no BPN». Mais: «Apenas em 2008, (…) uma carta anónima revelando conhecimento interno do BPN permitiu iniciar a investigação que conduziu pouco depois à confissão pela então recente gestão de que existiam duas contabilidades, sendo uma secreta para esconder irregularidades e perdas».

De resto, Vítor Constâncio recorda ainda: «Nada sobre o BPN foi, porém, ignorado. Fomos sempre muito activos em investigar qualquer preocupação com o BPN, que foi o banco do sistema mais vezes inspeccionado pelos serviços do Banco de Portugal, conduzindo a aumentos de capital acima do mínimo regulamentar, mais provisões e também a impedir a abertura do capital em Bolsa».

«Entrevista de emboscada»


A ATV - Associação de Telespectadores pediu ao provedor do telespectador da RTP um parecer sobre a forma como decorreu a emissão de 23 de Março do espaço de comentário de José Sócrates, por entender que a mesma envolveu «matéria que prefigura uma quebra grosseira e deliberada da ética e deontologia por parte do jornalista José Rodrigues dos Santos».

Recorda a ATV que o espaço de comentário de José Sócrates «é um programa de comentário político à actualidade da semana», à semelhança dos que existem com Marcelo Rebelo de Sousa na TVI e de Marques Mendes na SIC.

O provedor do telespectador da RTP, Jaime Fernandes, confirmou ao Expresso a recepção da queixa da ATV e revelou também que já tinha recebido muitas outras queixas sobre a condução do programa de opinião de José Sócrates.

A opinião pública não é, de facto, a opinião publicada.

Disparar sobre o subalterno


Num artigo na edição de hoje do Público (intitulado Os jornalistas não podem ser cúmplices de encobrimento), José Vítor Malheiros analisa as relações entre o jornalismo e o poder político, tendo como pano de fundo o «briefing informal» que a Miss Swaps terá encomendado ao pobre secretário de Estado da Administração Pública, para assim pôr em sentido todos aqueles que, no Governo e na maioria parlamentar, estão atemorizados com a provável hecatombe da direita nas próximas eleições para o Parlamento Europeu. Vale a pena ler o artigo.

Sublinho apenas um ponto. A dado passo, José Vítor Malheiros enfatiza a circunstância de Passos Coelho ter desmentido o secretário de Estado, quando afirmou que o que brotou do «briefing informal» era mera especulação: «Ao desmentir o secretário de Estado, Passos Coelho desvinculou os jornalistas de qualquer promessa de confidencialidade que tivessem feito.»

Sendo assim, é estranho que o comunicado conjunto dos directores dos órgãos de comunicação que se fizeram representar no «briefing informal» — acima reproduzido — tivesse feito fogo sobre Marques Guedes, o clarividente ministro que quis instituir o Dia Nacional do Cão, e tivesse poupado Passos Coelho, que foi o primeiro governante (ou coisa assim) a pôr em causa as manchetes dos jornais.

E vamos a caminho da 11.ª (?) remodelação?

O Tribunal de Contas realizou uma «auditoria ao estatuto remuneratório dos membros dos órgãos da AMISM (Associação de Municípios da Ilha de São Miguel)», através da qual detectou que vários presidentes de câmara e vereadores de autarquias que integram esta associação receberam quase 400 mil euros a título de senhas de presença, por deliberação da assembleia intermunicipal.

Todos estes pagamentos são ilegais por contrariarem o Estatuto dos Eleitos Locais, que estabelece que os autarcas em regime de permanência não podem ser remunerados pelo exercício de outras funções públicas.

Entre os contemplados, encontra-se a actual secretária de Estado da Defesa, Berta Cabral, tão efusivamente cumprimentada por Cavaco Silva na tomada de posse, como a fotografia supra mostra. Berta Cabral tem condições para continuar a passar revista às tropas depois de ter recebido ilegalmente 19.250 euros?

Abriu outra vez a caça ao Constâncio

• Nicolau Santos, Abriu outra vez a caça ao Constâncio:
    «Bastou Durão Barroso ter dito em entrevisto ao Expresso e à SIC que, quando era primeiro-ministro de Portugal, chamou três vezes Vítor Constâncio a São Bento, para "saber se aquilo que se "dizia do BPN era verdade", para se alvoraçarem de novo as almas que querem ver o ex-governador do Banco de Portugal condenado pelo caso BPN.

    E assim o deputado do PSD, Duarte Marques, enviou um requerimento ao actual governador do Banco de Portugal para saber se Constâncio "estava alertado para o caso há mais tempo do que se falou".

    Eu admito que duas comissões parlamentares de inquérito não tenham chegado para resolver a magna questão de saber exatamente em que dia e a que hora Vítor Constâncio soube que o BPN era um caso de polícia. Admito mesmo que Duarte Marques tenha ouvido e lido tudo o que lá foi dito, incluindo o questionário de mais de doze horas a que foi submetido Constâncio - e não tenha encontrado resposta para esta questão que tanto o angustia. Mas já me custa muito a perceber porque é que este aperto no coração que assola o deputado Duarte Marques não o leva a fazer outras perguntas.

    Por exemplo, será que o deputado Duarte Marques considera mais grave a actuação do polícia ou dos ladrões? Será que o deputado Duarte Marques se atiça contra Constâncio por este ser do PS e nada diz sobre o facto dos responsáveis do caso de polícia em que se tornou o BPN serem todos do PSD? Porque será que o deputado Duarte Marques não se indigna com a forma afável, quase galhofeira, com que Oliveira Costa foi recebido nas comissões parlamentares, ao contrário da agressividade com que Constâncio foi confrontado? Porque será que Duarte Marques não requere que Dias Loureiro seja ouvido no parlamento? Ou Joaquim Coimbra? Ou Rui Machete? Ou mesmo Cavaco Silva? Porque será que o deputado Duarte Marques não se indigna com o facto de estar a caminho a prescrição do processo contra Oliveira Costa?

    Não. Para o deputado Duarte Marques (e seguramente para o eurodeputado do CDS, Nuno Melo), o que importa é saber se Constâncio sabia ou não sabia do caso BPN, umas horas, uns dias ou uns meses antes do que disse. Isso é que é importante. Isso é que conta. Porque se isso for provado, o culpado de tudo o que se passou no BPN é Constâncio. Os senhores Oliveira Costa, Caprichoso, Fantasia e todos os que fizeram negócios mentirosos com créditos que nunca pagaram do BPN (por acaso todos figuras gradas do cavaquismo) são uns santos e umas vítimas. Funcionasse a supervisão do Banco de Portugal e eles não teriam sido tentados pelo pecado da ganância.

    E assim, enquanto se crucifixa Constâncio, prescrevem os crimes dos que transformaram o BPN numa colossal factura de mais de 6000 milhões de euros que os contribuintes portugueses andam a pagar com língua de palmo. O problema do deputado Duarte Marques é que estamos a empobrecer materialmente mas mantemos alguma sanidade mental. E que percebemos muito bem os objectivos que o deputado Duarte Marques pretende atingir. Mas, infelizmente para o deputado Duarte Marques, não se consegue tapar o sol com uma peneira. E só os tolos ficam a olhar para o dedo quando se aponta a lua.»

Assim vai a dívida

Cavaco, Passos, Portas, governador…

Mário Soares, hoje no DN:
    «Subitamente, o Presidente da República começou a ter - e a falar - ideias diferentes e a tentar mostrar que não depende da dupla (sem acordo) Passos Coelho-Paulo Portas. Criticou os salários baixos como se tivesse descoberto a pólvora e acha que os empresários devem investir nos trabalhadores. Dos bancos não falou, mas devem ter-lhe dito que um Governo corrupto e que está a destruir a classe média não é nada bom para eles porque os pobres que ainda têm dinheiro escondem-no debaixo do colchão e os mais ricos transferem-no para o estrangeiro.

    O Banco de Portugal que reflita e deixe de fazer o jogo do Governo, como estranhamente tem feito até aqui. O Governo não se entende e está perdido neste final de março. É uma questão de semanas... E depois é que se vai perceber o que tem feito ao dinheiro e o que quer fazer para lá da troika.»

É mais fácil enganar as pessoas
do que convencê-las de que foram enganadas

• Manuel Pinho, O maior inimigo da verdade:
    «(…) No que respeita à economia, todos sabemos que o maior inimigo da verdade não é a mentira, são os mitos com base nos quais se cria um diagnóstico errado da situação, o que naturalmente conduz a um tratamento errado. Todos conhecemos o discurso de que a zona euro serve da mesma forma os interesses de todos os participantes e estava a funcionar muito bem até à crise provocada pela Grécia, que a recessão é o melhor remédio para baixar a dívida pública nos países atingidos pela crise, que em Portugal se trabalha pouco e o Estado gasta muito e que a solução consiste em cortar as despesas sociais "insustentáveis" e fazer reformas estruturais.

    1- O euro serve da mesma forma todos os países que a ele aderiram. Não, da mesma forma que no passado o padrão dólar deu um privilégio exorbitante aos Estados Unidos, o euro serve, acima de tudo, os interesses da Alemanha porque lhe assegura uma taxa de câmbio hiperdesvalorizada, cujo resultado é um excedente da balança de pagamentos superior ao da China.


    2 - A recessão é o melhor remédio para baixar a dívida pública. Não, a figura mostra que a dívida pública aumentou em 26 p.p. na zona euro e 33 p.p. nos Estados Unidos. Nos países do euro em crise, o aumento foi superior: 79 p.p. na Irlanda, 63 na Grécia, 54 em Espanha e 56 p.p. em Portugal.


    3 - Trabalha-se menos nos países do sul da Europa. Não, os trabalhadores portugueses não são preguiçosos uma vez que trabalham, em média, 20% mais horas/ano do que os alemães, os holandeses e os franceses.


    4 - A raiz dos problemas é o peso excessivo da despesa pública. Não é, nem foi.

    Primeiro, se olharmos para os valores dos últimos 60 anos verifica-se que a despesa pública foi, de uma forma geral, menor do que na Alemanha, na França e na Suécia, por exemplo. Segundo, os valores de 2013 mostram que em Portugal o peso da despesa pública está na média da UE e da zona euro, sendo semelhante à da Holanda e da Áustria, mas muito inferior à da Bélgica, Finlândia e França.


    5 - Vivemos num país onde existem poucas desigualdades, o que justifica plenamente o ataque cerrado ao Estado social. Não, Portugal é um país relativamente pobre e com uma enorme desigualdade na distribuição de rendimentos, tal como medida pelo coeficiente de Gini, por exemplo. Em 2005-2010, os indicadores de desigualdade estavam a evoluir no bom sentido, porém, estão a piorar desde então. É preciso muita imaginação para atribuir as culpas da crise aos benefícios sociais das viúvas, pensionistas e polícias e aos salários excessivos pagos aos funcionários públicos e militares.


    6 - A solução mágica passa por reformas estruturais. Só faltava mesmo a OCDE vir agora dizer no seu Relatório sobre Reformas Económicas, 2014 que de acordo com o indicador PRM (product market regulation) Portugal está no top 10 mundial dos países em que há menos barreiras à concorrência, estando mais bem colocado do que, por exemplo, o Canadá, o Luxemburgo, a Espanha, a França e a Suécia). Em termos de barreiras ao empreendedorismo, está em 7.º lugar, à frente da Alemanha e do Reino Unido e tem o 4.º mercado da energia menos regulamentado na OCDE, sendo apenas ultrapassado pelo Reino Unido, pela Espanha e pela Alemanha!


    O PIB em 2013 está ao mesmo nível do de 2001. Por definição, o crescimento do PIB é igual à soma do crescimento da produtividade (produto por trabalhador) e do crescimento do número de trabalhadores. O nível de vida em Portugal é baixo porque, como mostra a figura abaixo, a produtividade do trabalho é perto de metade do registado na Holanda, Alemanha, Bélgica e França e o crescimento da economia é baixo porque a produtividade tem crescido muito aquém do necessário. É uma questão de aritmética, não é de teoria económica.

    Porque é que a produtividade é tão baixa? Também sobre a produtividade há muitas opiniões com base em mitos. Como disse Mark Twain, é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas. Enterremos os mitos, melhorar a produtividade tem de ser o tema central de qualquer discussão séria sobre a economia.»

Primeiras leituras

1 de Abril (de 2011)


Dia das Mentiras