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sexta-feira, outubro 30, 2015

Direito de difamar


• Fernanda Câncio, Direito de difamar:
    «Na semana passada, uma manchete do Correio da Manhã asseverava que numa conversa telefónica comigo após a detenção de Carlos Santos Silva a respetiva mulher me tinha dito, "sem margem para dúvidas", que o dinheiro nas contas do marido era na verdade de Sócrates. Sabendo que nunca tal conversa tinha ocorrido, fiz uma declaração pública acusando o Correio da Manhã (e a CMTV, que repetiu, em peça televisiva, as mesmas imputações) de difundir uma falsidade e anunciando ir exigir ao MP (o que já fiz) acesso direto às escutas em que sou interveniente - convém lembrar que o processo ainda está em segredo para quem, como eu, não é arguido nem assistente.

    Em resposta, a direção do CM exarou um revelador comunicado. Em vez de sustentar o que publicou e prová-lo, faz uma declaração genérica: "As escutas e os factos que o CM tem noticiado foram validados pelo juiz de instrução por serem determinantes na produção de prova no processo." Vale a pena olhar bem para esta frase: o que nela se lê, textualmente, é que o que o CM publica é validado por um juiz - no caso, Carlos Alexandre. Uma espécie, então, de censura prévia, e da qual ainda por cima a direção do CM se gabaria ao público?

    A ideia é risível, mas é aquela que o CM quer fazer passar. A de que se confunde em tudo com a justiça e está por ela "autorizado" - para tal se fez "assistente" no processo, pervertendo quer a figura do assistente quer a deontologia jornalística - funcionando como seu braço armado. Ora sucede que o CM engana os seus leitores, como a CMTV engana os seus espectadores, ao dar a entender que tem acesso direto e autorizado às "escutas" e "factos". Nesta fase, o que está de escutas no processo são resumos interpretativos, não as conversas ipsis verbis, e os "factos" são igualmente interpretações, ou seja, opiniões e perspectivas, da acusação. Que por sua vez o CM "interpreta" e falseia a seu bel-prazer, como no caso da conversa aludida. Falseamento tão óbvio que não existe em toda a peça publicada uma frase entre aspas com o conteúdo que o CM coloca em manchete, e por um motivo muito simples: tal frase não existe. De resto, a ausência de rigor é tal que o CM não diz sequer quem estava sob escuta: as duas interlocutoras? Uma só delas? Qual? Não interessa; para o CM é igual: vai tudo corrido a suspeito.

    Perante isto, que pode alguém fazer? Como se defende? Num Estado de direito democrático, recorre aos tribunais. Além de ações criminais e cíveis, interpus uma ação para tutela dos direitos de personalidade com vista a proibir que estes e outros meios continuem a invocar gratuitamente o meu nome e a minha qualidade de jornalista do DN em peças sobre o processo Marquês, transformando meras relações pessoais numa espécie de "suspeição por contaminação". Previsivelmente, serei acusada de "censura" e de "constrangimento ao exercício do direito de informar." É que, parece, há quem considere que é mais grave tentar impedir crimes do que cometê-los.»

quarta-feira, outubro 28, 2015

Estado de direito em laboração

Um tribunal deu razão a uma providência cautelar requerida pela defesa de José Sócrates e proibiu os títulos do grupo Cofina de divulgarem elementos soltos do processo em investigação. O comunicado da defesa de Sócrates pode ser lido aqui.

ADENDA — A resposta da Cofina não se fez esperar: «A CMTV (canal 8 do Meo) realiza na tarde desta quarta-feira uma emissão especial contínua sobre este assunto, durante a qual serão ouvidos os portugueses e as opiniões da sociedade civil.» Tudo leva a crer que esta compartimentação entre «portugueses» e «sociedade civil», aparentemente uma contradição nos termos, corresponda a uma dada realidade. Talvez a «sociedade civil» seja a que vai assistir à tal «emissão especial contínua», uma expressão de gosto duvidoso.

«Deve ou não um jornal constituir-se em assistente para depois divulgar, sem contradita, as peças do processo que lhe aprouver?»

Luísa Meireles, no Expresso:
    «"A mordaça", titula hoje o Correio da Manhã: "Sócrates tenta silenciar CM". É a notícia de ontem à noite, já o jornal estava no fecho. É uma ordem judicial, resultante de uma providência cautelar interposta pela defesa do ex-primeiro-ministro, em virtude da qual todos os órgãos de comunicação do grupo Cofina (onde se inclui não só o Correio da Manhã, como a Sábado ou o Jornal de Negócios) estão proibidos de dar notícias sobre o processo de Sócrates, conhecido como a Operação Marquês. O Correio da Manhã tem feito sucessivas manchetes com o caso desde que o processo deixou de estar em segredo de justiça, promete resistir e, a nós leitores, cabe refletir. Deve ou não um jornal constituir-se em assistente para depois divulgar, sem contradita, as peças do processo que lhe aprouver? Aqui no Expresso, pensa-se que não, mas o debate não é pacífico no meio.»

sexta-feira, outubro 23, 2015

Directamente do WC

• Ferreira Fernandes, Entretanto, diretamente do WC:
    «Eu tenho um excelente amigo que tem o hábito de me atender o telefone com um: "Olá, amor." Não gosto. Mais, engalinho. Raramente saudei assim e nunca o fiz sem fortes motivações afetivas. E, julgo, tive sempre o escrúpulo de guardar a palavra para situações íntimas. Do tipo: "Isso é só um pardal, amor", quando a minha filha, 2 anos, olhava para um galho, no Jardim Zoológico, em vez de ver a girafa. Calculem como eu me sentiria se, um dia, pelo aleatório que é isso de escutar telefonemas, pelo irresponsável que é isso de magistrados alimentarem pombos e pela pulhice que é a de alguns jornais fazerem manchetes com o que os pombos sujam os beirais, se o meu nome aparecesse num título: "Olá, amor!"... Ontem, um homem que fez uma carreira com - e digo a palavra muito usada e pouco acertada, mas nele completamente adequada -, com classe, António Guterres, apareceu na capa dum jornal, como tendo dito a alguém: "Arranjaste um bom tacho." A conversa telefónica era completamente privada. De um para um. Um abuso, portanto. Eu diria o mesmo, um abuso, se, em vez de "arranjaste um bom tacho", se estampasse nos quiosques uma manchete dizendo: "Olá!", com o complemento de informação de que António Guterres disse-o a Angelina Jolie, num telefonema privado. Como o jornal em questão é o mais vendido em Portugal, pode parecer que nos é natural que esse abuso passe por natural. Lamento confirmá-lo: é, para muitos é mesmo natural.»

quinta-feira, outubro 22, 2015

Ó Carlinhos, qual é (exactamente) o problema?

Hoje no Diário de Notícias

José Sócrates deixou de ser primeiro-ministro em Junho de 2011. Em consequência, os seus assessores passaram à categoria de «ex-assessores» ou «antigos colaboradores». Cada um seguiu a sua vida.

De Sócrates sabe-se que fez um mestrado em Paris. Sabe-se também que arranjou emprego como consultor da Octapharma para a América Latina.

As escutas da Operação Marquês permitem-nos agora saber mais sobre a sua vida privada. Tendo-se consumido na governação do país, Sócrates não cuidou de estabelecer uma rede de contactos. Quando precisou de agendar reuniões no âmbito da sua actividade profissional, recorreu por isso a ex-assessores, que, pelo que se deduz, tinham ido trabalhar para o estrangeiro.

Estas reuniões de um ex-primeiro-ministro, agendadas por ex-assessores, mereceram a atenção da investigação — e, hoje, do Diário de Notícias: «a capacidade de contactos privilegiados deste antigo colaborador facilitava o trabalho de José Sócrates nos mercados da América Latina». Ou seja, Sócrates, já não sendo primeiro-ministro, é suspeito de… exercer uma actividade profissional. À primeira vista, o Diário de Notícias acharia melhor que Sócrates recebesse um salário e ficasse a banhos em Copacabana.

Ó Carlinhos, o ex-primeiro-ministro José Sócrates é suspeito (como o título da notícia sugere) — mas pode-se saber exactamente de quê? Coisas escusadas dão rédea solta ao desatino. Ou à pulhice.

ADENDA
    1. Está esgotado o enredo do telelixo do Correio da Manha. A suspeita do dia é a reprodução de uma conversa por telefone, na qual António Guterres, depois de José Sócrates lhe explicar as condições do seu emprego, exclama: «Arranjaste um bom tacho». É crime?

    2. Sabe-se que Sócrates se inscreveu para fazer o doutoramento na Science Po, em Paris. O i vasculhou o processo e afiança a pés juntos que o seu propósito seria doutorar-se em Nova Iorque. O delírio é do i ou da investigação? Seja em Paris, Nova Iorque ou Pyongyang, é crime?

Fernanda Câncio sobre as falsidades do Correio da Manha


«Esclarecimento público

Confrontada com os relatos veiculados ontem e hoje pelo Correio da Manhã e pelo canal de televisão CMTV, e que tiveram ressonância noutros órgãos de comunicação social, a propósito do Processo denominado “Marquês” e que me envolvem, não posso deixar de deixar pública nota do seguinte:

1. É falso que em conversas mantidas telefonicamente com Inês do Rosário, na sequência da detenção de José Sócrates e Carlos Santos Silva, e que teriam sido escutadas no âmbito do processo, esta me tenha comunicado que determinado montante existente nas contas de Carlos Santos Silva pertencia na verdade a José Sócrates. Esta imputação só pode resultar da imaginação doentia e enviesada de quem ocupa no processo a posição de acusador, público ou privado;

2. Sendo absolutamente difamatória e ultrajante, esta imputação será objecto de reacção pelas vias judiciais e desde já irei, como é meu direito (nº 9 do artigo 86º do Código de Processo Penal), exigir o acesso às gravações das conversas em causa;

3. A divulgação de elementos do processo, como é alegado que é feito nas peças em questão, constitui a prática manifesta, e confessada, do crime de violação do segredo de justiça, pelo que se espera que o detentor da ação penal aja em conformidade, nomeadamente determinando de imediato injunções com vista a evitar a repetição da prática do crime, uma vez que é evidente que tal conduta se repetirá;

4. A divulgação de elementos do processo, como é alegado que é feito nas peças em questão, constitui uma conduta que põe em causa o Estado de Direito, uma vez que é assumidamente contra a lei e tem na base uma verdadeira subversão das regras processuais. Com efeito, esta conduta resulta do facto de os funcionários do Correio da Manhã e CMTV se terem constituído Assistentes no processo e terem usado essa posição processual para acederem aos elementos do processo que depois divulgam nos órgãos de comunicação de que fazem parte;

5. Para além do mais, o facto de as peças serem da autoria de quem tem no processo a posição de Assistente significa que é o Assistente que, embora na veste de “jornalista”, dá a notícia. Ora, tal conduta é atentatória dos deveres deontológicos mais elementares, nomeadamente o de informar com rigor e isenção, não se valendo da sua condição para noticiar assuntos em que tenha interesse (cfr. Código Deontológico dos Jornalistas e artigo 14.º da Lei n.º 1/99, de 13 de Janeiro – Estatuto dos Jornalistas).

6. Em face deste atropelo grosseiro da deontologia profissional e da lei, espera-se que os órgãos competentes em matéria de fiscalização do cumprimento das regras deontológicas dos jornalistas – ou seja, a Comissão da Carteira de Jornalista e o Conselho Deontológico do Sindicato de Jornalistas – actuem de forma a sancionar e a pôr cobro a estes comportamentos por parte de pessoas detentoras de carteira profissional de jornalista, sob pena de o jornalismo se tornar uma profissão sem regras e sem qualquer tipo de ética.

Lisboa, 21 de Outubro de 2015

Fernanda Câncio»

terça-feira, outubro 20, 2015

Branco é, galinha o põe

1. Duas publicações da Newshold (Sol e i) e outras duas da Cofina (Correio da Manha e Sábado) constituíram-se assistentes no processo da Operação Marquês. Poderão por isso ter acesso aos autos do processo.

Acontece que, 24 horas após ter caído o segredo de justiça interno, o Correio da Manha enche duas páginas com flocos pitorescos do processo. Não podendo a defesa dos arguidos nem os assistentes divulgar a matéria a que tiveram acesso, estamos em presença de uma violação do segredo de justiça. Que é crime público.

Ora, tendo hoje sido questionada sobre o processo, a procuradora-geral da República não se mostrou incomodada com mais esta violação grosseira. Vivemos tempos difíceis: depois de um presidente da República que faz diariamente questão de exibir que não é isento, temos uma procuradora-geral a seguir as suas pisadas.

2. Na sua doentia perseguição a José Sócrates, o Correio da Manha acaba inadvertidamente por revelar que o processo é uma mão cheia de nada. E que, afinal, mesmo quando acompanhado por Carlos Santos Silva, José Sócrates paga as suas próprias contas:

segunda-feira, outubro 19, 2015

Agora é que vale, diz o Correio da Manha

Hoje no Correio da Manha
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O Correio da Manha oferece-nos uma peculiar interpretação das consequências do fim do segredo de justiça interno: «Abriu a 'caixa de Pandora' da investigação, permitindo que a partir de agora se discuta na praça pública todas as diligências judiciais.» Pode ser o resultado de uma leitura apressada das leis por parte de um estagiário.

Mas dei comigo a pensar: o relato enfurecido das «diligências judiciais» feito ao longo de meses assentou em rumores, aliás contraditórios entre si, transmitidos numa esquina esconsa ao lusco-fusco?

quinta-feira, setembro 17, 2015

Aviso ao marqueteiro: calma, meu...

• Ferreira Fernandes, Aviso ao marqueteiro: calma, meu...:
    «(…) E, por cá, há lançadores de lama? Haverá, mas isto é um país de pegadores de cernelha. Assim, temos a especialidade de brandos costumes onde a lama se atira de ricochete. Há um fantasma, que não serve para ser atacado, mas para fazer de lama. Então, há que expô-lo, gritá-lo, levar-lhe pizas a casa. O mais recente episódio (e não será o último) foi inventar o fantasma num anúncio duma universidade brasileira. Qualquer marqueteiro saberia fazer o truque e com quem. Mas já roça o insulto pensar que aquilo, e agora, convence muitos portugueses.»

segunda-feira, setembro 14, 2015

«Esta campanha é marcada por um défice de pluralismo»


• Estrela Serrano, DESAFIOS PARA ANTÓNIO COSTA:
    «(…) O debate decorreu, é preciso lembrá-lo, num ambiente mediático hostil a António Costa e ao PS, dominado por fait-divers alimentados nas redes sociais por ativistas da coligação especialistas em perfis falsos e na propagação de mensagens destrutivas para abafarem a discussão das propostas do PS e esconderam o vazio absoluto das suas.

    Esta campanha é marcada por um défice de pluralismo, patente no facto de as televisões privadas de sinal aberto - SIC e TVI – manterem em exclusividade e sem contraditório, em horário nobre, dois comentadores políticos, ex-líderes do PSD, clara e assumidamente apoiantes da candidatura da coligação PAF, um dos quais protocandidato às eleições presidenciais, o que cria um ambiente de promiscuidade inaceitável em democracia. (…)»

segunda-feira, agosto 24, 2015

PSD/CDS: «esperar que os "likes" e os "shares" façam o seu caminho»

Entrevista de Fernando Moreira de Sá à Visão, em 2013


• José Mendes, A hora dos jornalistas:
    «(…) Neste novo mundo, que de resto já se anunciava há bons anos, os partidos da coligação PSD/CDS assumiram a liderança. Dominam, como nenhuma outra força política em Portugal, as redes sociais, que frequentemente convertem em plataformas de anticampanha, as tais que visam destruir a campanha, tal como nos sugere a física. O perdedor maior é o Partido Socialista, que, a cada tentativa para agendar o debate político que interessa aos portugueses, é de imediato manietado pela ativação da máquina dos partidos do Governo, que logo dispara os seus tweets, posts, SMS, MMS e outras munições no sentido de neutralizar o conteúdo e fazer derivar o foco para o acessório, o pitoresco, o polémico, enfim, o "fait-divers". Depois é dar um empurrãozinho e esperar que os "likes" e os "shares" façam o seu caminho. Lá pelas 20 horas de cada dia, os telejornais darão credibilidade à história. É certo que os próprios socialistas pouco têm ajudado o seu líder, numa espécie de ajuste de contas que, juízos de valor à parte, se joga no momento e no tempo errados. E assim vemos, por exemplo, que a cara que aparece nos cartazes se antecipa no alinhamento noticioso às propostas, às políticas e aos números do desemprego. (…)»

domingo, agosto 23, 2015

Uma campanha tóxica


Manuel Carvalho escreve hoje um artigo no Público, no qual procura mostrar como Passos Coelho, desde que o terrível Ângelo o lançou para estas altas cavalarias, recorreu sempre a campanhas de contra-informação para desgastar os seus adversários (internos e externos). Trata-se de um depoimento relevante, tanto mais que Manuel Carvalho — tendo feito parte, sob o inesquecível comando de José Manuel Fernandes, da direcção do Público que se prestou a assumir a autoria material da abjecta inventona de Belém — terá conhecimento (por dentro) de como estas coisas se fazem.

Recomenda-se a leitura do artigo a todos aqueles que têm uma visão idílica do funcionamento da democracia e se abespinham quando a crispação ocupa o espaço reservado ao debate de boas maneiras. Se se sentem incomodados quando, perante a profunda degradação das condições de vida da maioria da população, se exerce o direito à indignação, ao menos saibam estar à altura de dar resposta a estas manobras subterrâneas palidamente descritas por Manuel Carvalho. Eis o artigo na íntegra, intitulado Uma campanha tóxica:
    «Estamos a um mês e meio das eleições legislativas e António Costa e o PS continuam a lutar em vão para sair do buraco defensivo onde a imparável máquina de comunicação e de contra comunicação do PSD e do CDS os confinou. Os socialistas e o seu líder não perceberam ainda que os seus adversários políticos estão há anos a aprender a usar as redes sociais para armadilhar as campanhas e desta vez estão a conseguir resultados demolidores. Nos casos dos cartazes ou na história dos empregos que serão criados por um eventual governo do PS, bastou o lançamento de rápidas medidas de contra-resposta baseadas em mensagens básicas e potencialmente polémicas para alastrarem pelo Facebook ou pelo Twitter para que os socialistas acabassem acossados por pedidos de desculpas ou em explicações destinadas a conter os danos.

    No final do dia, já ninguém se lembrava das mensagens originais – o que sobrava era a espuma da sua demolição. Há mais de um mês que o PSD e o CDS estão a conseguir abater todas as iniciativas de campanha do PS ainda antes de levantarem voo.

    Bem se sabe que muita da responsabilidade por este estado atarantado e reactivo dos socialistas se deve a um interminável rol de culpas próprias — o caso dos cartazes do desemprego é mais do que “aselhice”, é pura e simples incompetência que, essa sim, merece censura e valoração política. Mas há no geral a ideia de que o PS está a ser arrasado por uma campanha tóxica que dissolve todas as acções de campanha num eficaz batido com os temperos da demagogia, do primarismo argumentativo e da manipulação. O admirável mundo novo de comunicação que começou a ser ensaiado nas primárias do PSD em 2009 e que se qualificou em 2011 chega a estas eleições num formidável grau de aprimoramento.

    Os “marqueteiros” brasileiros, que à custa de cortinas de fumo foram capazes de eleger uma presidente, Dilma Rousseff, sem que ela sequer se tivesse dado ao trabalho de apresentar um programa de governo andam por aí. Depois, na rectaguarda, nos gabinetes dos ministros, concentra-se uma tropa de reserva jovem, frenética, imersa dos pés à cabeça no mundo da net e imbuída de um messianismo que não olha a meios para erigir um país novo. Contra este saber, competência e mobilização, Edson Ataíde parece um aprendiz da idade da pedra e Vieira da Silva ou Ferro Rodrigues locomotivas do tempo do vapor. De pouco adianta fazer contas, gizar programas ou estudar propostas. Eles lá estão para as embrulhar numa fórmula devastadora que as reduzirá a uma anedota, mesmo que para lá chegar seja necessário mentir. Pela primeira vez, estas eleições arriscam-se a ser dominadas pelo império das redes sociais e só o PS e o seu líder (que só há semanas abriu uma conta no Twitter) parecem não ter percebido os impactes deste pouco admirável mundo novo.

    Vejam-se os casos dos cartazes, em especial o que ostentava uma infeliz imagem entre o zen e o profético. A facilidade com que esse cartaz foi ridicularizado pode ser justificada pela sua lamentável falta de gosto, mas para que essa consciência se tivesse generalizado ao ponto de o PS se sentir na obrigação de o retirar foi essencial a colocação nas redes sociais de uma bateria de posts que, pelo seu teor, quase forçavam os utentes do Facebook a gozá-los, a ridicularizá-los e a partilhá-los. Veja-se ainda como o caso das simulações de Mário Centeno sobre os 207 mil empregos foram transformados numa promessa de Costa através da colagem a uma declaração na qual José Sócrates aparecia a prometer 150 mil empregos. Saber o que em rigor foi dito não passou de um vago detalhe da comunicação. À noite, as televisões deliciavam-se a comparar Costa a Sócrates.

    Não precisamos de puxar muito pela cabeça para perceber que esta estratégia baseada no ardil tem tradições e experiência. Vale a pena recordar a reveladora entrevista de Fernando Moreira de Sá a Miguel Carvalho, da Visão, em 2013, no qual este especialista em comunicação explicava como um grupo de bloguers arrolado por Miguel Relvas se entreteve a “derreter” Manuela Ferreira quando foi líder do PSD, como as suas campanhas negras derrotaram Paulo Rangel nas eleições internas que se seguiram ou como trabalharam nos bastidores para levar Passos Coelho ao poder. A sua receita era bem simples e é impossível não a pressentir nestas semanas de arranque das legislativas. “Se deixarmos uma informação sobre o caso Freeport num perfil falso e se ele for sendo partilhado, daqui a pouco já estão pessoas reais a fazer daquilo uma coisa do outro mundo”, notava Fernando Moreira de Sá.

    Antes do debate entre Passos e Paulo Rangel, dizia Sá, “já tínhamos tweets preparados para complicar a vida do Rangel. Nos primeiros minutos começámos a tuitar como se não houvesse amanhã. Ao fim de cinco minutos riamos até às lágrimas! Até opinion makers repetiam o que nós dizíamos”. Convém notar que pelo menos 11 destes operacionais, entre eles o ex-ministro Álvaro Santos Pereira ou o influente deputado Carlos Abreu Amorim, acabaram por ver a sua acção premiada com belos cargos no Governo ou na Assembleia.

    Muitos dirão que aquilo que está a acontecer é uma decorrência lógica do avanço tecnológico e no modo como os cidadãos o ajustam ao seu quotidiano. É também pertinente verificar que, se o PSD e o CDS são muito mais competentes a adaptar-se a este novo mundo e a jogá-lo em favor dos seus interesses, isso só diz bem da sua competência. É verdade, mas apenas e se encararmos as eleições legislativas como um braço de ferro entre inimigos figadais, uma espécie de luta mortal onde só não vale arrancar olhos. O que está em causa, porém, é muito mais do que isso.

    Neste clima propenso ao truque e à redução da política ao grau zero da substância, o PS e António Costa não são as únicas entidades desarmadas pela surpresa e eficácia das realidades artificiais na campanha. Também o jornalismo tem pela frente um árduo desafio neste tempo em que, como muito bem escreveu Paulo Ferreira, no Observador, “os alinhamentos e a edição são, cada vez mais, feitos fora das redacções, em milhões de computadores ligados em rede e têm o ‘like’ como unidade de medida”. A reflexão sobre a pertinência, o interesse público ou a verosimilhança de determinadas informações está a perder-se na maré de posts sobre epifenómenos que são giros e suscitam reacções larvares de recusa e desdém no Facebook. David Pontes deixou no JN o registo dessa dificuldade: “As redacções dos jornais, diariamente bombardeadas por tretas”, vão ter de lidar com um “combate desigual contra um sistema montado para comunicar tretas”. A primeira forma de o travar é encarando-o de frente. Deixar que a campanha soçobre às receitas dos “marqueteiros” e dos seus homens de mão nas redes sociais é péssimo. Vai ser um combate feio, mas não se pode recusá-lo.»

sexta-feira, maio 29, 2015

As campanhas sujas fazem-se assim

    «Ora bem, já deviam estar admirados de eu ter passado dois dias sem resmungar com o que leio na imprensa. Vamos lá a uma fácil, mas absolutamente necessária:
      1. O Diário de Notícias titula hoje, na p. 14: 'Centeno colaborou em estudo que fala em corte de pensões. PS incomodado'.

      2. Qual é o estudo? É o estudo de Pais Antunes, ex-secretário de Estado do PSD, feito para a Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, que o tornou público.

      3. Então, qual foi a colaboração de Centeno? Leia-se a própria notícia do DN: a) Pais Antunes diz que é o autor do texto, que só o vincula a ele; b) que, para fazê-lo, consultou várias pessoas, entre as quais Centeno. (Portanto, para o DN: se um jornalista do DN falar comigo sobre o que eu acho que vai acontecer amanhã e depois publicar uma notícia defendendo que amanhã é o dia de ontem, eu sou co-responsável por esse seu golpe de génio).

      4. O 'Diário Económico' de hoje é mais preciso. Pais Antunes escreveu, num parágrafo de apresentação do seu relatório, que ele é da sua 'exclusiva responsabilidade', sendo 'injusto' atribuí-la a qualquer das pessoas com as quais só 'brevemente' trocou ideias. Este parágrafo, diz o DE, foi retirado da versão final publicitada pela Câmara de Comércio.

      5. Amigos, vamos lá a ver: como qualificam tudo isto? Talvez trafulhice fosse uma palavra adequada.»

    «Ainda o debate sobre a Segurança Social

    Há um estudo, da autoria de Paes Antunes, que parece que propõe a redução do valor médio das pensões em pagamento. O ex-secretário de Estado da Segurança Social do Governo de Durão Barroso é o coordenador do estudo e o único autor das propostas.

    Paes Antunes conversou com várias pessoas durante a elaboração do estudo. Também conversou com Mário Centeno, coordenador do estudo dos economistas para o PS. Paes Antunes diz que nem falou sobre Segurança Social com Mário Centeno. E Paes Antunes repete que as propostas são suas e só suas. E (repito eu) que com Mário Centeno nem sequer falou de Segurança Social.

    E, contudo, há quem queira aproveitar isto para baralhar a posição de Centeno - e do PS - sobre a Segurança Social. Posição que o PS e António Costa já deixaram muito clara: o PS garante as pensões já formadas, as pensões em pagamento e a proteção da confiança para os pensionistas futuros.

    Debate é debate, terrorismo é terrorismo. Pelos vistos, quem não aguenta o debate opta por mudar para o estilo terrorismo. É pena.»