quarta-feira, Outubro 01, 2014

A direita não perdoa a Sócrates a redistribuição da riqueza


Justiça social em Portugal tem vindo a descer desde 2011: um estudo da fundação alemã Bertelsmann, que comparou vários indicadores estatísticos de cada país da União Europeia, conclui que, nos últimos anos, a injustiça social tem vindo a aumentar em geral.

Escavar mais devagar ou parar de escavar?


Declaração política do PS a cargo de Ana Catarina Mendes

«O PS não é pela austeridade feita mais devagar, mas pela saída rápida do ciclo de austeridade que levou ao empobrecimento e à recessão.»

Ida ao pote: as gerações vindouras que a paguem

Salário mínimo «temporário»


Pedido de esclarecimento de João Galamba,
no âmbito de uma declaração política do CDS-PP no parlamento (hoje)

Passos e a degradação das instituições

Passos Coelho envolveu a Assembleia da República no caso Tecnoforma, obrigando o secretário-geral do parlamento a faltar à verdade e a meter os pés pelas mãos.

Passos Coelho envolveu a Procuradoria-Geral da República no caso Tecnoforma, forçando-a a dar um despacho simpático em 24 horas, aparentemente após ter dado uma vista de olhos à contabilidade da Tecnoforma, mas sem pôr o nariz nas contas da «ONG» nem do off-shore que a última edição do Expresso sustenta existir.

Passos Coelho envolveu o Presidente da República no caso Tecnoforma, constrangendo-o a vir a público afirmar que, segundo lhe contaram, o alegado primeiro-ministro havia dado explicações cabais na Assembleia da República sobre a «ONG».

Não satisfeita com os tratos de polé que o Estado de direito tem sofrido, eis que a direita política transforma agora o governador do Banco de Portugal — como se isso fosse compatível com as funções de supervisão — num caixeiro-viajante do sistema financeiro. Quem nos acode?

Constança Cunha e Sá na TVI 24

Salário mínimo «temporário»: há aqui uma malabarice.

É já amanhã

2 de Outubro - 2 de Novembro

Sala do Veado
Museu Nacional de História Natural e da Ciência
Rua da Escola Politécnica 56/58 - 1250 -102 Lisboa

De 3ª a 6ª feira -10h00 às 17h00
Fim de semana - 11h00 às 18h00
Encerra à 2ª feira e nos feriados

«Do desperdício de fundos comunitários
aos abusos das redes de influência,
das escapatórias fiscais
às mentiras e encobrimentos»

• Rui Tavares, A mulher de César, morta e enterrada:
    «(…) Nos anos 90, Pedro Passos Coelho já colaborava com a Tecnoforma, a ponto de ser fundador e presidente da ONG da empresa. Este facto foi omitido das declarações à Assembleia da República, de que Passos Coelho era deputado. Não se sabe que fazia esta ONG; aparentemente, em três anos, nada. O máximo de que Passos Coelho se lembra é de uma universidade em Cabo Verde que nunca chegou a acontecer. Na sua biografia política, Passos Coelho não diz nada sobre o Conselho Português Para a Cooperação, que galhardamente dirigia. É legítimo dizer que a sigla CPPC, da caridosa organização, significava sobretudo "Cooperar com o Pedro Passos Coelho". E, claro, com o inenarrável Miguel Relvas: o episódio da formação de inexistentes funcionários para semi-existentes aeródromos da zona centro, com o qual a Tecnoforma pôs uns milhões comunitários ao bolso, seria hilariante se não fosse trágico. É inevitável olhar para aquela cultura empresarial e política e ver nela o catálogo dos nossos mais vergonhosos erros: do desperdício de fundos comunitários aos abusos das redes de influência, das escapatórias fiscais às mentiras e encobrimentos. Passos Coelhos foi comparticipante, voluntário e autor de toda essa vergonha.

    Pedro Passos Coelho colaborou com uma empresa sem comunicar tal facto ao parlamento, participou de ações dessa empresa que se destinava a obter fundos comunitários para projetos inexistentes ou, na melhor das hipóteses, semi-existentes, e foi presidente de uma ONG de cooperação que nunca cooperou nada que se visse, e que provavelmente nunca teve tal intenção. E isso sem entrar na questão ainda por responder de quanto dinheiro recebeu ele, direta ou indiretamente, por trabalho que parece ter sido pouco mais do que nada. (…)»

O colapso silenciado

Público, 28.09.2014 (clique na imagem para a ampliar)

terça-feira, Setembro 30, 2014

A forcinha que chega de Bruxelas


O aumento do salário mínimo foi aprovado atabalhoadamente e de supetão. Depois de o Governo andar a arrastar os pés, havia urgência. Vinha a caminho o homem que defendia o aumento do salário mínimo para 522 euros, fazendo valer o acordo estabelecido na concertação social.

Tudo se precipitou. Houve um encontro secreto entre o alegado primeiro-ministro e o secretário-geral da UGT. A segurança social — que se dizia não ter capacidade para pagar pensões — suporta uma parte dos custos dos empresários com a TSU. Até o presidente do Conselho de Concertação Social teve de fazer notar o seu incómodo com tanta informalidade para aprovar o «entendimento».

O diploma que aprova o aumento para 505 euros estabelece que o acordo vigora entre 1 de Outubro de 2014 e 31 de Dezembro de 2015, mas nem uma palavra acrescenta sobre o que acontecerá depois. Bruxelas veio fazer luz sobre esta «lacuna» da lei: o aumento é «temporário». Como quem pisca o olho ao Governo: — Vá lá, a direita que ganhe as eleições e depois regressa-se aos 485 euros. Esta gente é perigosa.

O reencontro do PS consigo próprio


António Costa: «Tive a honra de o Dr. Eduardo Ferro Rodrigues aceitar o meu convite para ser o próximo líder parlamentar». Se a direita estava à espera que António Costa escolhesse um político sem passado, enganou-se redondamente. É o reencontro do PS consigo próprio.

Bruxelas vale bem um acto de contrição

«Muitas vezes estive em desacordo com a troika», disse hoje em Bruxelas aquele que era conhecido no seio do Governo como o grilo falante da troika. Que desplante. Carlos Moedas fez parte de um governo que, desde o primeiro dia, assumiu como estratégia «ir além da troika». Mas Carlos Moedas disse mais: «Sou uma pessoa que apresenta resultados». É público que todas as metas acordadas no memorando falharam e que a troika foi esticando os prazos e as previsões para acomodar o falhanço. Não deixa, em todo o caso, de ser confrangedor ver Moedas a saltar à má fila do barco de Passos, Gaspar & Miss Swaps.

Liderança tricéfala

A UDP/PC(R) era um grupo que se inspirava no «modelo albanês». A Política XXI resultava de uma dissidência do PCP: lia Marx (A Ideologia Alemã é o limite), mas abjurava Lenine. O trotskismo era recordado através da LCI e da Ruptura/FER. Juntaram os trapinhos numa união de facto: o Bloco de Esquerda.

As questões «fracturantes» foram o tónico para comover as classes médias das Avenidas Novas. Mas a crise do euro e a posição do BE face ao PEC IV revelaram que se aproximava o fim de um ciclo. Francisco Louçã antecipou o esgotamento e procurou resguardar-se através da liderança bicéfala.

Entretanto, outros o perceberam: a Ruptura/FER foi à sua vida recauchutada sob a designação de Movimento Alternativa Socialista e os dissidentes do PCP reanimaram o Fórum Manifesto. O último acto da desagregação do BE traduz-se na candidatura de Pedro Filipe Soares à liderança do BE, que transforma as fracturas internas em fracturas expostas.

Neste momento, parece claro que, de um lado, estarão os que entendem ser possível modificar, em conjunto com outros países da periferia, a arquitectura disfuncional do euro; do outro, estarão os que defendem a saída do euro. Se Francisco Louçã balança entre estas duas posições, Luís Fazenda poderá vir a sentar-se no futuro ao lado de Heloísa Apolónia.

Numa livraria perto de si

Vivemos tempos em que, não raras vezes, os intervenientes na vida pública se escondem atrás de perdas de memória para impedir que se conheçam situações em que estão envolvidos. Não é o caso do CC, que teve agora um esquecimento involuntário, embora imperdoável.

Aconteceu com a apresentação da última obra de Eduardo Pitta, cuja apresentação decorreu na passada sexta-feira: Pompas Fúnebres. Poderá encontrá-lo numa livraria perto de si.

segunda-feira, Setembro 29, 2014

Qual é a pressa? [II Acto]


Maria de Belém, não se pode marcar para mais cedo a reunião da comissão nacional do PS?

Viagens na Minha Terra

«Se os factos não se encaixam na teoria, mude a teoria»

«Se os factos não se encaixam na teoria, mude a teoria», diz o velho ditado. Mas, muitas vezes, é mais fácil manter a teoria e mudar os factos, como parecem acreditar ser possível Angela Merkel e outros líderes europeus pró-austeridade. Com os factos à frente do nariz, eles continuam a negar a realidade. É mais ou menos nestes termos que começa um artigo de Joseph Stiglitz intitulado Europe’s Austerity Disaster. Vale muito a pena lê-lo.

Perguntar não ofende

No discurso de vitória, António Costa não deixou de saudar todos os militantes e simpatizantes que participaram nas eleições primárias: «estas eleições não foram a derrota de ninguém, mas a vitória de todos os militantes e simpatizantes do PS». Por outras palavras, o próximo secretário-geral do PS respeita as opções tomadas por cada um e conta com todos para as batalhas que se avizinham. Ainda assim, os jornais põem em relevo a circunstância de António Costa não ter feito uma referência expressa ao líder demissionário. Depois de uma campanha que teve momentos tão baixos, não é de enaltecer que haja na política quem recuse assumir posições hipócritas?

Moralizar acima das suas possibilidades

• João Galamba, Moralizar acima das suas possibilidades:
    «Para além de saber se Passos Coelho recebeu ou não via "despesas de representação", há outro tema sobre o qual já sabemos o suficiente e que mostra que o primeiro-ministro andou a discursar claramente acima das suas possibilidades. Falo da criação do próprio Centro Português de Cooperação (CPPC), a Organização Não Governamental (ONG) que tinha como mecenas a empresa Tecnoforma.

    Ao que sabemos, Passos foi um dos principais impulsionadores da criação desta ONG, que também terá tido a participação do Conselheiro de Estado Marques Mendes. Mas a CPPC não era como a ILGA, ou como os Médicos Sem Fronteiras, ou como a Unicef, como descaradamente tentou sugerir Passos Coelho nas suas explicações ao Parlamento. A CPPC era uma ONG de fachada, criada (literalmente) junto da Tecnoforma e que se dedicava a sacar fundos europeus. Quem o diz não sou eu, é o ex-dono da Tecnoforma: "Aquilo que ela devia fazer era simples: nos projectos que visassem as áreas da formação profissional, ela tentava arranjar os financiamentos para esses projectos. Depois, para implementar esses projectos, a ONG socorria-se da Tecnoforma para fornecer o know-how". Ou seja, a CPC, sob a capa da ajuda ao desenvolvimento e cooperação com os PALOP, servia para angariar negócios para a Tecnoforma. Passos Coelho, à semelhança de Relvas, era um facilitador.

    Independentemente das discussões em torno das despesas de representação e da exclusividade do então deputado Pedro Passos Coelho, sabemos exactamente o que fazia o actual primeiro-ministro na CPPC. Quando Passos Coelho fala de um passado de desperdícios e da irresponsabilidade na utilização de fundos europeus, quando Passos Coelho denuncia a existência de empresas penduradas no Estado, quando Passos Coelho fala de um certo Portugal que importa deixar para trás, uma coisa sabemos: Passos está a generalizar a partir da sua própria experiência pessoal

Sucata política

• António Correia de Campos, Sucata política:
    «Num dos dias da semana passada, Passos Coelho surpreendeu com a declaração de que esteve ao lado do Serviço Nacional de Saúde (SNS) no seu momento mais difícil. Não se sabia que tinha havido um recente “momento difícil”, nem que Passos Coelho tinha estado à cabeceira do doente.

    O SNS nos seus 35 anos de vida passou por momentos bem mais difíceis, o principal dos quais foi a revogação da orgânica proposta pela lei que o criou em 1979, praticada por um governo da AD em 1982 e depois anulada por decisão da então Comissão Constitucional. A decisão levou a repor em vigor a anterior legislação. Mais tarde, a regulamentação da lei de bases por Leonor Beleza (1990) e depois o regulamento do SNS de Arlindo de Carvalho (1993) foram momentos difíceis, afinal vencidos com bom senso. No final da década de 1990, a concentração de recursos na educação levou à penúria orçamental na saúde, prejudicando a racionalidade da gestão, aumentando o endividamento, fazendo perder eficiência ao sistema. O padrão continuou na primeira metade da primeira década do novo século, com rectificativos e novos e insuficientes orçamentos iniciais. O ciclo só foi quebrado em 2005 e anos seguintes com dotações orçamentais quase coincidentes com a despesa real, o que permitia impor regras de cumprimento financeiro estrito e eficiente. (…)»

O dia um do ano eleitoral

• José Pacheco Pereira, O dia um do ano eleitoral:
    «1. Hoje começa o ano eleitoral de 2015. O PS passou a partido de oposição.

    2. Porque é que eu digo que o PS não tem sido um partido de oposição, mesmo apesar do radicalismo verbal do seu antigo secretário-geral? Por coisas como esta: na última semana antes das eleições primárias, houve um encontro secreto entre o secretário-geral da UGT e o primeiro-ministro. Segundo diz o oráculo governamental, Passos Coelho convenceu o secretário-geral da UGT a aceitar o acordo sobre o salário mínimo. Tudo quanto é ministro, do primeiro ao último, incluindo o ministro-viajante Paulo Portas foi lá à concertação social (que eles desprezam todos os dias, a não ser quando têm a UGT no bolso) para marcar a grande vitória do governo. As fontes do governo diziam que era fundamental haver um acordo antes do final do processo eleitoral no PS. Percebe-se porquê. O secretário-geral da UGT é um dos principais executantes da política de Seguro, de que foi um dos mais activos apoiantes, prestou-se ao timing propagandístico do governo e à substância de um acordo que fragiliza a segurança social, a mesma que o governo usa como pretexto para as suas previsões neo-malthusianas. É mais um exemplo do que aconteceu nos últimos três anos. (…)»

domingo, Setembro 28, 2014

«O primeiro dos últimos dias da actual maioria»


António Costa afirmou hoje que a vitória nas primárias do PS representa «o primeiro dia de uma nova maioria de Governo» e, em simultâneo, «o primeiro dos últimos dias da actual maioria» [vídeo].

António Costa: «Este cravo é vosso»

Está uma noite linda

Logo à noite, há mais


Temas da Opinião de José Sócrates no dia 21 de Setembro 2014: pedidos de desculpa dos ministros da Justiça e da Educação, situações estranhas no Novo Banco e reforma eleitoral de Seguro caída do céu. Pode ver ou (re)ver no site da RTP ou aqui (via Miguel Ângelo).

Levados ao engano

Jorge Nuno Pinto da Costa: «Nunca tive, em 50 anos que joguei na bolsa, uma acção do BES. Vi as acções descer e ouvi o primeiro-ministro dizer que o BES era um banco seguro, que tinha uma almofada para pagar o dobro das dívidas que tinha. E quando ouvi o Presidente da República, mais palavra menos palavra, a dizer o mesmo, eu, que confiava no que eles diziam, pela primeira vez, e como muita gente, fui comprar acções do BES». Resultado: «Senti-me vigarizado. Foram-me ao bolso». E Pinto da Costa acrescenta: «Agora, não faço ideia se o Presidente da República e o primeiro-ministro vão indemnizar os que enganaram.»

O que aconteceu a Pinto da Costa aconteceu também a muitos milhares de pequenos accionistas. O regime democrático sempre teve uma especial atenção para com os pequenos aforradores. Miguel Cadilhe dava, há tempos, vários exemplos desta «tradição ou princípio geral que decorre de simples e enraizadas considerações de natureza social e política»:
    «Temos vários exemplos dessa discriminação a favor dos pequenos: a lei das indemnizações, subsequente às nacionalizações de 1975, estabelece taxas de juro crescentes em função dos montantes a pagar a cada indemnizando; as leis das reprivatizações, de 1988 e 1990, consagram uma quota-parte para os pequenos subscritores; junto do BdP, o "Fundo de Garantia de Depósitos" abriga os pequenos depositantes até 100 mil euros; junto da CMVM, o "Sistema de Indemnização aos Investidores" abriga os pequenos investidores até 25 mil euros; etc.»

Com este governo, não esquecendo aquela mão que está escondida atrás do arbusto, não há tradição que resista. Passos & Portas deixarão um país virado do avesso.

Da série "Frases que impõem respeito" [875] (número duplo)


Tem a certeza de que eu fui membro disso? Com franqueza, nem me lembrava disso e não faço ideia de quais eram os seus objectivos.

Ai que engraçado! Então, sem querer, ou por querer, eu estou ligado à Tecnoforma. Olhe que engraçado. Não tem graça nenhuma, mas é a vida!

Há remédio para as brancas

• Pedro Marques Lopes, Na terra das avestruzes:
    «(…) Não é que não estejamos demasiado familiarizados com a falta de memória de Passos Coelho, mas precisar de uma semana para se lembrar de que, durante três anos, não lhe foi paga uma quantia, que a esmagadoríssima maioria da população portuguesa não consegue arrecadar numa vida inteira, é, digamos, algo que permite recomendar uma caixa inteira de Memofante. (…)»
• João Quadros, O EDT (esquecido disto tudo):
    «A pergunta era simples, recebeu Pedro Passos Coelho algum vencimento pelo seu cargo de presidente da CPPC ligada à empresa Tecnoforma, entre 1997 e 1999? A resposta do PM não lembraria a uma personagem da série House of Cards: "É à PGR que compete esclarecer se isto envolve algum ilícito ou não. Peço que investiguem...". O nosso PM, como não se lembra, pede à PGR que verifique se não houve trafulhice.

    É extraordinário este pedido de Passos Coelho. Em vez de dizer: "se eu pedi exclusividade é porque não recebi, não sou aldrabão!". Diz: "eu pedi exclusividade, mas como não podemos confiar em mim, porque eu podia estar a aldrabar, peço que vão ver se gamei". Numa frase: "Já não me lembro se sou aldrabão e se tenho condições para aqui estar, a polícia que me diga se sou um gatuno".

    Para começar, tudo indica que temos aqui um Passos Coelho a viver acima das nossas possibilidades, a misturar política com negócios e a subsistir de subsídios sacados ao Estado! O horror! Agora, a verdadeira razão porque Passos não responde à pergunta, com um sim ou não, é porque sabe que se disser sim, está tramado porque não declarou às finanças e recebeu subsídio que não devia. Se disser não, vai aparecer um documento que prova o contrário, e está acabado.

    Ele quer evitar ambas as vergonhas e responde - nim. Mas está só a adiar o fim. (…)»

sábado, Setembro 27, 2014

O pecado original: a constituição da «ONG»


Andamos todos entretidos a discutir o montante das «despesas de representação» que Passos Coelho auferiu na «ONG». Mas há um pecado prévio: a constituição da própria «ONG».

As organizações não governamentais (ONG) são instituições, sem fins lucrativos, constituídas de forma autónoma, destinadas a desenvolver acções de solidariedade no campo das políticas públicas. O ex-dono da Tecnoforma afirmou que a constituição da «ONG» foi um mero expediente a que ele e Passos Coelho recorreram para facilitar o acesso a fundos comunitários.

Ora a primeira questão que o alegado primeiro-ministro tem de esclarecer é o seu envolvimento neste manhoso expediente, a ponto de se ter tornado o presidente da «ONG».

A entrevista do ex-dono da Tecnoforma à Sábado põe em evidência que o alegado primeiro-ministro ainda tem muito por esclarecer. Eis algumas passagens:
    - O que é que lhe disse [a Passos Coelho] que pretendia com o tal Centro Português para a Cooperação?
    - O objectivo era explorar as facilidades de financiamentos da União Europeia para projectos em Angola ou nos PALOPs [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa].

    - Mas a ONG era uma organização de solidariedade ou uma forma expedita de conseguir negócios para a Tecnoforma?
    - Aquilo que ela devia fazer era simples: nos projectos que visassem as áreas da formação profissional, ela tentava arranjar os financiamentos para esses projectos. Depois, para implementar esses projectos, a ONG socorria-se da Tecnoforma para fornecer o know-how.

    - Ou seja, a ONG contratava depois a Tecnoforma para fazer na prática os tais projectos.
    - Sim, naquilo que fosse do âmbito da Tecnoforma.

    - Mas Passos Coelho disse ao Público que encarou com "seriedade o propósito" de ajudar a "criar uma ONG com a finalidade de promover a cooperação" entre Portugal e os PALOPs.
    - Só posso dizer que ele foi receptivo ao que ouviu e disse logo que tínhamos de arranjar estas e aquelas pessoas e arranjou. Arranjou pessoas que eu não conhecia.

    - Que género de pessoas eram essas?
    - Pessoas com influência.

    (…)

    - No seu entender, Pedro Passos Coelho queria no CPPC gente com influência para quê?
    - Que pudessem de facto, sei lá, movimentar, abrir ou facilitar a vinda de projectos para a ONG no âmbito da formação profissional e dos recursos humanos e que depois esses projectos pudessem ter a participação da Tecnoforma.

    - Volto a perguntar, Passos Coelho sabia que esta ONG era criada com esse intuito?
    - Tanto é assim, que eu cheguei a ir com ele a Bruxelas para um encontro com o comissário europeu João de Deus Pinheiro [militante do PSD, ex-ministro da Educação e dos Negócios Estrangeiros em três governos de Cavaco Silva e Comissário Europeu entre 1993/2000].

    (…)

    - Quando convidou Passos Coelho para presidir à ONC prometeu-lhe um ordenado, uma avença ou qualquer outro pagamento?

    - Vou pedir-lhe para parar a gravação.

    Reinício da gravação (13 minutos depois).

    - Pedro Passos Coelho era remunerado pela ONG ou pela Tecnoforma?
    - Eu não me recordo de remunerações, não me recordo. Só posso dizer que as despesas que envolviam os custos do CPPC eram todas pagas pela Tecnoforma.

    - Ele não tinha remuneração oficial, é isso?
    - Não havia contrato nem nada.

    - O que não quer dizer que não lhe pagasse.
    - Eh pá, isso já não me recordo. É um bocado arriscado estar-lhe a dizer e era grave.

    (…)

    - Mas pode dizer-me quem financiava o CPPC?
    - Vinha tudo da Tecnoforma.

    - O CPPC tinha um orçamento anual formal?
    - A Tecnoforma pagava as despesas que aparecessem. As instalações do CPPC eram também na Tecnoforma, pois ficavam na sede da empresa, no Pragal [Almada].

    (…)

    - Passos Coelho era o seu lobista de serviço?
    - Não gosto da expressão.

    - Não gosta porque não gosta ou não gosta porque não corresponde à realidade, àquilo que acha que ele fazia?
    - Não sei, não sei responder.

Ó Felícia, conte-nos tudo tintim por tintim

Felícia Cabrita, a jornalista do outrora luminoso Sol que adivinhou o mistério do estripador de Lisboa (vídeo), escreveu uma assombrosa biografia de Pedro Passos Coelho, um homem invulgar: «Quem o conhece garante que não aceita meias verdades, que gosta de surpreender os adversários, que é um líder frio e determinado (…). Os tempos não são fáceis, mas as suas ideias são claras. Quer o melhor para o país.»

Com certeza que a indómita investigadora sabe tudo sobre o escândalo que deixou o Governo à beira da implosão. Se, porventura, não descreveu na sua obra os mais ínfimos pormenores da «ONG» CPPC (Cantinho de Pedro Passos Coelho), foi para não encarecer o produto. Ó Felícia, conte-nos agora tudo tintim por tintim — numa segunda edição revista e ampliada da admirável biografia que em boa hora nos ofereceu.

Porque hoje é Sábado…


… é possível antecipar que Luís Marques Mendes irá explicar tudo sobre a «ONG» e a Tecnoforma — ele que, na passada semana, disse na SIC que Pedro Passos Coelho não ligava nenhuma ao dinheiro (e esqueceu-se de dizer se ele próprio ligava).

Eis um extracto da entrevista dada por Fernando Madeira, ex-dono da Tecnoforma/«ONG», à revista Sábado, em 7 de Maio de 2014:
    - Ou seja, a ONG contratava depois a Tecnoforma para fazer na prática os tais projectos.
    - Sim, naquilo que fosse do âmbito da Tecnoforma.

    - Mas Passos Coelho disse ao Público que encarou com "seriedade o propósito" de ajudar a "criar uma ONG com a finalidade de promover a cooperação" entre Portugal e os PALOPs. - Só posso dizer que ele foi receptivo ao que ouviu e disse logo que tínhamos de arranjar estas e aquelas pessoas e arranjou. Arranjou pessoas que eu não conhecia.

    - Que género de pessoas eram essas?
    - Pessoas com influência.

    - Refere-se aos fundadores, àqueles que fizeram parte dos órgãos sociais da CPPC? Está a falar do então líder parlamentar do PSD, Luís Marques Mendes, e dos também sociais-democratas Ângelo Correia e Vasco Rato [nomeado recentemente pelo Governo para presidir à Fundação Luso-Americana]?
    - Sim, sim. E do PS, mas era só um, o então deputado Fernando de Sousa. O Pedro dava-se muito bem com ele. Acho que foi o escolhido para presidir à assembleia-geral do CPPC.

Começar a construir a casa pelo tecto

Hoje no Expresso (via Nuno Oliveira)
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