quinta-feira, Julho 24, 2014

Notas soltas da semana

Jornalistas à porta do TIC (foto do Expresso Diário)

1. Já tinha acontecido com Jorge Gonçalves, antigo presidente do Sporting, e com Vale e Azevedo, antigo presidente do Benfica. Mal um e o outro abandonaram a presidência dos respectivos clubes, foram constituídos arguidos. Voltou a acontecer com Ricardo Salgado, após ser afastado do BES. O Ministério Público tem azar nos timings da investigação.

2. A par do azar dos timings, a circunstância de as acções da investigação aparecerem relatadas em pormenor nos jornais não ajuda a credibilizar o Ministério Público. E mais ainda quando a descrição dos acontecimentos feita pelo Expresso leva a olhar com perplexidade para os métodos de investigação.

Com efeito, segundo o Expresso, foi uma denúncia anónima que levou a Polícia Judiciária a visitar, na sexta-feira passada, as duas salas no Hotel Palácio Estoril onde Ricardo Salgado montou um escritório improvisado desde que deixou de ser presidente do Banco Espírito Santo, há duas semanas. Alguém foi dizer à PJ que o banqueiro estaria a eliminar documentação levada do banco. Cinco dias depois, ou seja, ontem, o Ministério Público voltou ao Hotel Palácio Estoril com um mandado de busca, tendo Ricardo Salgado sido informado que seria constituído arguido e que sobre ele pendia um mandado de detenção. Dispondo-se o ex-presidente do BES a deslocar-se ao Tribunal de Instrução Criminal para ser inquirido, o Ministério Público preferiu dar-lhe boleia. A justiça portuguesa acabava de poder mostrar o seu Sarkozy.

3. O Público avança que a investigação em curso incide também sobre a alienação de 67% das acções da Escom detidas pelo Grupo Espírito Santo à sociedade angolana Newsgroup. A Escom é a empresa que interveio nas grandes aquisições de equipamentos militares por parte do Estado português, designadamente os dois submarinos.

Nesta operação da venda das acções da Escom aparece envolvida a advogada Ana Bruno, cujo escritório foi também alvo de buscas por parte do Ministério Público. Há uns anos atrás, Ana Bruno viu o seu nome citado nas peripécias da Universidade Moderna, em especial na empresa de sondagens Amostra, da qual era gerente. Foi na época em que Paulo Portas se passeava por Lisboa num Jaguar da Universidade Moderna.

4. Entretanto, o vice-pantomineiro deslocou-se a Angola, onde declarou solenemente: «Eu serei naturalmente discreto sobre essa matéria, mas sempre poderei adiantar que os reguladores de Angola e de Portugal têm trabalhado conjuntamente e eu confio nas medidas de estabilização que saberão encontrar».

Oligarquia, diz Ramos

Joaquim Goes, António Carrapatoso e o impoluto Rui Ramos

Rui Ramos escreveu uma História de Portugal. Nem a narração da I República como um regime de odiosos malandros nem a descrição do Estado Novo e da guerra colonial como uma estória cor-de-rosa o elevaram à merecida glória. Foi preciso que o Expresso esquartejasse a História de Portugal, oferecendo-a em fascículos semanais no Verão de 2012, para abrir as portas à sua merecida consagração. Que aconteceu logo a seguir com a condecoração atribuída pelo Presidente da República: agraciado com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Sabe-se que, depois disso, o historiador não se tem poupado a esforços para estar à altura da honraria conquistada. Ficou célebre, a título de exemplo, o episódio de Ramos a defender, com calorosa impetuosidade, que investir na Ciência conduz a uma «sociedade mais obscurantista».

Hoje, através de mais uma divertida crónica, Rui Ramos surge-nos muito indignado com uma (não identificada) oligarquia política e financeira que ele diz rodear António Costa, fazendo alusão até a «banqueiros de estimação». Fiquei perplexo. Será que este famoso historiador é sonâmbulo?

Ora Ramos é um dos três organizadores dos movimentos Compromisso Portugal e Mais Sociedade, ao lado de António Carrapatoso e de Joaquim Goes, o administrador do BES que Ricardo Salgado gostaria de ver a ocupar o seu cargo no banco. Que está a fazer o impoluto Rui Ramos ao lado do oligarca Joaquim Goes?

quarta-feira, Julho 23, 2014

As últimas de Crato ou Crato nas últimas


Ontem na TVI 24, Augusto Santos Silva analisou também os últimos passos de Nuno Crato relativamente à avaliação dos professores e à actuação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Eis dois vídeos que captam parte das suas declarações:

O BES, as tias da Comporta, o povo e o duplo padrão moral


Augusto Santos Silva na TVI 24 (ontem)
Via canal no Youtube do Sítio com vista sobre a cidade

O poder da informação

Manuel Monteiro escreve um artigo que merece reflexão. É sobre o poder de J. Edgar Hoover, que dirigiu durante 48 anos o FBI: «Seria importante conhecer, por exemplo, em que medida a informação por si recolhida, permitindo-lhe aceder aos segredos de muitos dos seus adversários, ou potenciais adversários, não impediu a acção que estes poderiam ter desenvolvido contra si. Como seria importante entender quantos compromissos foram alcançados e silêncios garantidos, para que essa informação não fosse divulgada.»

Mas Manuel Monteiro vai mais longe, colocando a hipótese de casos como o de Hoover poderem ocorrer «na actual política portuguesa», admitindo que, «se isso foi assim num país de grandes dimensões, mais facilmente o será num país de poucos milhões.»

Sobre os balanços dos bancos portugueses

• Pedro Nuno Santos, Preparemo-nos:
    «(…) O que já não se podia ignorar, por razões de seriedade técnica e política, era o impacto de uma reestruturação, com a dimensão da que precisamos, nos balanços dos bancos portugueses e a necessidade de estudar e apresentar uma resposta para esse problema. Não há reestruturações "sem espinhas" e já quase todos sabemos que a vamos ter de fazer. Preparemo-nos, então!»

terça-feira, Julho 22, 2014

Atracção pelo abismo


«O BES informa que a sua Comissão Executiva contratou o Deutsche Bank como conselheiro financeiro para avaliar a potencial optimização da estrutura do seu balanço», lê-se num comunicado de duas linhas divulgado esta tarde pelo banco.

Compreende-se que Vítor Bento sinta necessidade de ser assessorado. O próprio CEO do BES confessava, há cerca de dois anos, as suas limitações quanto ao conhecimento aprofundado que tinha sobre a banca: «A área onde estou é marginal à banca. É mais uma actividade de tecnologias de informação que trabalha para a banca do que bancária.»

Em todo o caso, Vítor Bento tinha a obrigação de fazer o que muita gente já terá feito neste momento: procurar no Google referências sobre o Deutsche Bank. Experimente o leitor fazer uma pesquisa no Google Search: «Deutsche Bank supervision fraud». Há coisas espantosas, não há?

FMI a declarar o óbito da estratégia
do governo de Passos & Portas


Seis técnicos do FMI — num estudo a que o Jornal de Negócios faz hoje alusão — avaliaram os resultados dos processos de «ajustamento». As conclusões são o que já se sabia, mas que o Governo negava. Suprema ironia: a estratégia de «ir além da troika» é chumbada no seio do FMI.

No que respeita a Portugal, sustenta o documento que a devastação levada a cabo pelo Governo irá implicar uma deterioração do nível de crescimento máximo que o país poderá atingir no futuro.

Com efeito, conclui-se no estudo que a transformação estrutural da economia não ocorreu:
    • O número de trabalhadores empregados no sector transaccionável caiu mais do que no sector não transaccionável;
    • O Valor Acrescentado Bruto (a produção subtraída dos custos) sofreu uma quebra idêntica em ambos os sectores, o que indicia que não se verificou qualquer transformação.

As conclusões ainda são mais demolidoras em relação às exportações. O documento refere que Portugal não teve ganhos de competitividade nesta área. Assim sendo, os «grandes défices da conta corrente» contraíram-se em grande medida devido à quebra das importações.

Por outras palavras, os equilíbrios externos foram conseguidos em grande medida à custa de desequilíbrios internos, o que não será sustentável a prazo: «Os passivos líquidos externos permanecem elevados (implicando pagamentos líquidos de rendimentos ao exterior mais elevados), e o progresso no reequilíbrio externo chegou à custa do equilíbrio interno, com destaque para taxas de desemprego muito mais elevadas».

Foi nisto que deu o «milagre económico» de que fala o Governo, em particular o ministro Pires de Lima. A única vez que Passos Coelho cumpriu o que prometera está à vista de todos: «nós sabemos que só vamos sair desta situação empobrecendo - em termos relativos, em termos absolutos até, na medida em que o nosso Produto Interno Bruto (PIB) está a cair». Mas só o anunciou após as eleições de 2011.

Da série “Post-it”


Portugal foi o terceiro país da UE onde a dívida pública mais aumentou: no primeiro trimestre deste ano, a dívida pública chegou a 132,9% do PIB.

«Estou vivo»


O alegado primeiro-ministro fez uma visita de Estado ao longínquo Sri Lanka para aparentemente pagar uma dívida de gratidão a Fernando Nobre. Foi o sítio mais próximo onde o malogrado candidato a presidente da Assembleia da República entendeu ser necessário montar um projecto da celebérrima AMI. Nobre aproveitou a ocasião para afirmar que continua pronto para as curvas: «Estou vivo».

Imagine-se o que aconteceria se Passos Coelho ainda por cá andasse quando a questão das eleições presidenciais efectivamente se colocar.

Assim vai a lipoaspiração do Estado

1. O Governo extinguiu os governos civis. Agora, entrega uns milhões de euros, a um colaborador de Passos Coelho na Tecnoforma, para preservar o espólio.

2. O Governo anunciou há três anos a extinção da Empresa de Meios Aéreos (EMA), criada em 2007 para gerir as dez aeronaves do Estado adquiridas para o combate aos incêndios. O ministro Miguel Macedo explicou que a medida permitiria poupar cerca de 8 milhões de euros aos cofres do Estado. Quase três anos depois, a empresa não só ainda não foi extinta como gastou 10,9 milhões de euros na aquisição de bens e serviços.

Em sete décadas

Fonte
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A Opinião de José Sócrates


A emissão de 20 de Julho de A Opinião de José Sócrates pode ser vista no site da RTP ou nesta reprodução de Miguel Ângelo. Eis uma passagem sobre o silêncio de António José Seguro perante o discurso da direita acerca das origens da crise:
    José Sócrates — Eu gostaria naturalmente de ver o meu partido olhar para trás e dizer “bom, nós tivemos um governo do Partido Socialista que sempre reduziu as desigualdades, que sempre reduziu a pobreza, em particular nos idosos, que fez o complemento solidário para idosos.” Foi o Governo que mais investiu na Ciência, que mais investiu na Tecnologia, que mais investiu nas energias renováveis.

    João Adelino Faria — Acha que o seu partido não tem feito justiça a isso?

    José Sócrates — Não, o meu partido tem o dever de olhar para a frente e não estar preso, digamos assim, ao que se fez no passado, porque tem a obrigação — isto faz parte da natureza humana e da natureza política — de fazer melhor. Agora, o problema coloca-se no campo político desta forma: há uma patranha que a direita conta a propósito das origens da crise que não é verdadeira e o silêncio do PS contribui para que essa mistificação possa perdurar. Isso é uma mistificação histórica. Em primeiro lugar, a origem desta crise não foi o endividamento dos Estados.

    João Adelino Faria — Acha que o seu partido ajudou a direita?

    José Sócrates — Vamos lá ver, de forma inconsciente certamente, não com intenção, o silêncio do Partido Socialista levou a que essa narrativa da direita passasse sem contraposição. É uma mentira histórica que a crise tenha começado com as dívidas dos Estados. Não, começou com a crise nos sistemas financeiros que obrigou os Estados a gastarem mais e a endividarem-se mais. Porque, em 2008, a dívida portuguesa era de 60%, igual à da Alemanha. Hoje, a dívida da Alemanha, a da Itália, a da Inglaterra são muito superiores. (…) Todos os Estados foram obrigados a gastar mais por causa da crise, mas foi a crise que provocou o aumento da dívida, não foi o aumento da dívida dos Estados que provocou a crise.

O problema do PS é político,
por mais que o queiram converter numa novela

• Sérgio Sousa Pinto, O problema do PS é político, por mais que o queiram converter numa novela:
    «(…) A chorosa novelização do problema político do Partido Socialista não resiste aos factos, duros como punhos, de três anos de oposição medíocre, hesitante e no geral errática e inepta. Esse é o problema. Puramente político.

    O novo PS do "eu quero", "eu avisei" e dos "eus" em geral estava geneticamente condenado por um erro de análise: concordava com a teoria da direita sobre as causas da crise e, logo, com muito da sua terapêutica. Foi assim que os rombos inaugurais infligidos no contrato social europeu, também vigente em Portugal, foram acompanhados do lado do PS pela tese da "dose" de austeridade. Esta última era excessiva, asseverava o PS, com milimétrico sentido de medida.

    Veio o Orçamento do Estado para 2012. O PS absteve-se. Porquê? Porque não era fácil distanciar-se de políticas com as quais no essencial, naquela fase, concordava. Era a época da discreta lua-de-mel entre o Governo e a direção do PS. Acresce que a cúpula da UGT e a "linha mole" do seu secretário-geral fizeram uma OPA sobre a direção do PS. A UGT que tinha oferecido ao Governo - no momento mais aceso da agressão aos trabalhadores por conta de outrem e aos reformados - um acordo de concertação que, até a data, nunca chegou a denunciar. Imagino que a conversão do PS à "moderação" e ao "sentido de responsabilidade" tenha abrilhantado a UGT aos olhos do Governo. Lembro-me de que na votação me levantei no plenário para denunciar esta traição ao mundo do trabalho. Terá sido outro caso que os cientistas do ego avaliarão.

    Digno também de ser recordado é o episódio do pedido de fiscalização sucessiva da constitucionalidade de certas disposições do Orçamento, designadamente a matéria dos cortes nas pensões e da supressão dos subsídios de férias e de Natal. A direção do partido foi frontalmente contrária a essa iniciativa e exerceu tal pressão sobre os deputados do PS, que houve que procurar algumas assinaturas na bancada do Bloco. Sem a firmeza intransigente de uns quantos deputados socialistas nunca teria havido intervenção do Tribunal Constitucional, que o deserto político acabaria por converter na principal esperança da oposição social ao Governo.

    Entrámos, então, no ciclo da abstenção violenta, de que nunca mais saímos. Depois, veio o acordo de regime patrocinado por Cavaco Silva. O precioso convénio amarraria o PS ao programa austeritário, a troco de eleições antecipadas, que o PS putativamente venceria, prolongando-se o convénio num bloco central capitaneado pelo líder do PS e primeiro-ministro - e ungido pelo Presidente. Mas Mário Soares - sozinho - deitou o sonho ao fundo.

    Será ainda preciso recordar outro momento alto do desnorte socialista: o único entendimento que o PS considerou irrecusável com a direita, em três anos, foi o desagravamento da tributação sobre os lucros das empresas. (…)»

BES

Leituras

segunda-feira, Julho 21, 2014

Da série "Frases que impõem respeito" [860]


Quero fazer-vos uma pergunta e quero que me respondam com sinceridade: quem assim vos fala é um líder fraco?

Avivar a memória de Portas


Paulo Portas afirmou, neste fim-de-semana, que «o CDS sempre contribuiu para a governabilidade do país nos tempos mais difíceis. Nas três vezes em que o fez, a casa estava a arder e era preciso arrumá-la». O que há de verdade nestas declarações do vice-pantomineiro? Confirma-se que o CDS esteve coligado com o PSD três vezes. Quanto ao mais, veja-se:

A primeira AD tinha um sonho: uma maioria, um governo e um presidente. Um tal Aníbal Cavaco e Silva (o e caiu mais tarde), que andava pelo Terreiro do Paço, decidiu colaborar na empreitada. Saiu no final de 1980, depois de devorar as divisas do Banco de Portugal. João Salgueiro, que lhe sucedeu no cargo de ministro das Finanças, teve de avisar Balsemão. A AD chegava ao fim. Coube ao governo do bloco central chamar o FMI.

A segunda coligação do CDS com o PSD fez-se já com o vice-pantomineiro no Governo, primeiro em parceria com Barroso, depois com Santana Lopes. Legou um défice de 6,8% (contas de Bagão Félix apresentadas num conselho de ministros em Évora), mais dois submarinos.

A terceira coligação do CDS com o PSD fez-se para chumbar o PEC IV e abrir as fronteiras à troika — estratégia para virar do avesso o regime democrático. Tudo o que se pode dizer é que só um farsante como Paulo Portas pode ter o desplante de falar de um país devastado como se nada tivesse acontecido nestes três últimos anos.

A massa crítica do passismo


O nome de Fernando Sousa diz ao leitor alguma coisa? Não? Num excelente trabalho no Diário de Notícias, Miguel Marujo faz a apresentação:
    «Fernando de Sousa foi levado por Passos para a Tecnoforma, como revelou a 8 de maio o antigo dono desta empresa, Fernando Madeira, à revista Sábado. Nos anos 90, o então deputado e hoje líder social-democrata foi convidado por este empresário para apoiar a Tecnoforma na criação de uma organização não governamental que explorasse "as facilidades de financiamento" da Europa, em projetos de formação profissional.

    Passos, "que abria as portas todas", rodeou-se de "pessoas com influência", como descreveu Fernando Madeira, para avançar com o Centro Português para a Cooperação, incluindo Marques Mendes, Ângelo Correia, Vasco Rato e Fernando de Sousa, à época deputado do PS. "O Pedro dava-se muito bem com ele", recordou agora o empresário reformado. Hoje, Fernando de Sousa dirige o Cepese.»

Acontece que o Cepese, antes de concluídos os procedimentos legais, foi contemplado com um contrato público no valor de 2,5 milhões de euros, para promover a seguinte ciclópica tarefa: «selecção, eliminação e inventariação das fontes documentais existentes nos Governos Civis». Já em 2012, o actual governo havia posto à disposição do Cepese 74 mil euros para «serviços de programação de pacotes de software».

Foi-se a Tecnoforma, ficaram os colaboradores.

Sendero Luminoso


      «Não estamos aqui por minha causa. Estamos aqui por Portugal. Precisamos de vós para combater aquilo que certas cortes de Lisboa acham melhor para o País. É inaceitável que a corte de Lisboa decida nos gabinetes, a régua e esquadro, como o país deve ser administrado.»

Os empolgantes discursos — e as acções de guerrilha nas zonas subjugadas (cf. vídeo) — de António José Seguro revelam estar em adiantado estado de preparação o derrube das Cortes de Lisboa.

Permanece apenas uma dúvida: os discursos são escritos por quem? Será que, depois de João Cardoso Rosas, cabe a Henrique Raposo a função de speech writer? A avaliar pelo que escreve na última edição do Expresso, parece que sim: «Tenho uma confissão a fazer: rendo-me à corte lisboeta, essa magnífica trupe que nos apascenta e que, de forma objetiva, vive acima do bem e do mal.»

ADENDA — O post do Vega9000, Louvor das Cortes de Lisboa, do qual retirei a citação de António José Seguro, é de leitura obrigatória.

BES, supervisão bancária, troika, Governo, austeridade…


João Galamba escreve hoje no Expresso e no Diário Económico:

O BES é um problema, mas não é o problema.:
    «Com a crise financeira de 2008, um grupo económico que detinha o controlo de um banco passou a usar esse banco (o seu balanço e os dos seus clientes) para se financiar e evitar decretar falência. Não há uma única referência a este facto nas doze avaliações do programa de ajustamento que Portugal completou (com enorme sucesso) em maio passado. Aparentemente, não se tratava de um problema da economia e do sector financeiro que carecesse qualquer tipo de "ajustamento".

    No discurso da troika e do governo português, o problema da banca resumia-se à exposição à dívida pública e a um volume de crédito excessivo ao sector não transacionável, em particular ao sector imobiliário. Bastava reforçar os rácios de capital e reduzir os rácios de alavancagem para garantir a solidez do sector. Assegurado esse feito, foi decretado o sucesso. O sector estava sólido, reformado e pronto a contribuir para a retoma da economia. (…)»
Evitar labirintos:
    «(…) Há críticas que podem e devem ser feitas aos supervisores - não se percebe como é que o BdP deixou que a exposição do BES ao GES, entre 2011 e 2013, aumentasse como aumentou; e, sobretudo, não se percebe porque demorou tanto a resolver o problema da substituição da administração do BES. Tudo isto agravou o problema, é certo; mas, para ser justo, o principal problema não é tanto o que o supervisor fez, e se fez bem ou mal. O principal problema, a meu ver, é mais profundo: o caso BES põe-nos em contacto com os limites e insuficiências do actual modelo de supervisão, sobretudo quando aplicado a estruturas labirínticas e opacas como as do grupo Espírito Santo.»

Para onde irá a seguir o celebérrimo Franquelim…


… exonerado, a seu pedido, do cargo de vogal da comissão instaladora da Instituição Financeira de Desenvolvimento, para o qual tinha sido designado por despacho de Sua Excelência o (alegado) Primeiro-ministro?

domingo, Julho 20, 2014

«A pior solução, em termos de justiça e eficiência,
é a austeridade – que é a orientação que está a ser seguida»


        «Que há uma reemergência clara da desigualdade depois dos anos 1980 e que isso foi devido a mudanças políticas nas últimas décadas devido à política fiscal e à finança. O peso das fortunas privadas no início do século XXI parece estar na iminência de regressar aos níveis elevados do século XIX. O rácio do capital em relação ao rendimento nacional caiu quase 2/3 entre 1914 e 1945 e, depois, mais do que duplicou entre 1945 e 2012. Em 2010, aquele rácio regressou aos níveis anteriores à 1ª Guerra Mundial, ou mesmo ultrapassou-os se for medido em relação ao rendimento disponível das famílias.»

Uma entrevista de Jorge Nascimento Rodrigues a Thomas Piketty — a cuja principal obra José Sócrates fez hoje alusão na RTP — pode ser lida aqui.

ADENDA — A brilhante recensão de João Constâncio pode ser relida através deste link.

E as primárias aqui tão perto

Manuel Alegre: «Não basta apregoar a ética. É preciso cumpri-la

Cristina Martins, que foi coordenadora da secção do PS da Sé Nova, em Coimbra, foi expulsa do PS, porque denunciou a existência de inscrições de militantes com «moradas que não existem», «moradas erradas» e «duplas filiações», entre outros casos.

Cristina Martins, que era também a antiga responsável pela entrada de novos militantes na Federação Distrital de Coimbra, disse que alertou o secretário-geral António José Seguro, apresentou queixa à Comissão de Jurisdição Federativa e à Comissão Nacional de Jurisdição (CNJ) e entregou cópias das fichas de inscrição alegadamente falsas a dirigentes do PS e ao presidente da CNJ, Ramos Preto. «Nunca obtive uma resposta», disse a militante do PS.

As manifestações de apoio a Cristina Martins não se fizeram esperar. António Campos, fundador do PS, afirmou que os «princípios fundamentais da ética, da liberdade e do funcionamento normal da democracia estão em causa» com este processo. Manuel Alegre corroborou a opinião de António Campos: «Estou muito incomodado e considero, tal como António Campos, que há neste assunto um problema de ética. Não basta apregoar a ética. É preciso cumpri-la. Esta situação tem de ser repensada e esclarecida para salvaguarda do bom nome do PS de Coimbra».

São estes os cadernos eleitorais que vão servir para a realização das eleições primárias?

sábado, Julho 19, 2014

A Opinião de José Sócrates regressa amanhã

      «A verdade é que o Partido Socialista é um grande partido popular. O Partido Socialista não pode ser conduzido como se fosse um barco de recreio. É um porta-aviões e, portanto, umas guinadas mesmo em nome de uma vontade de originalidade, de avanço democrático, tudo isso me parece, muitas vezes, falsas medidas inovadoras que poucos resultados trazem.»
        José Sócrates, sobre as eleições primárias


A última emissão pode ser vista aqui.

Epitáfio de Crato


Augusto Santos Silva escreve hoje sobre a obra de Nuno Crato no Ministério da Educação e Ciência: Destruir, diz ele. De leitura obrigatória.

«Não é fácil perceber o porquê de todo este tempo para intervir»

Hoje no Expresso
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Em defesa das tradições democráticas do PS

• Edmundo Pedro, Em defesa das tradições democráticas do PS (hoje no Expresso):
    «(…) O atual líder do PS fez aprovar no último congresso uma alteração aos estatutos no sentido de alargar de dois para quatro anos o espaço que medeia entre estas reuniões magnas. Essa norma diminui, na minha opinião, a intervenção dos militantes nos destinos partidários. Atinge, portanto, a democracia interna do PS.

    O caso mais recente de atentado à democracia interna foi a convocação de eleições para a escolha do candidato a primeiro-ministro, com a participação dos seus "simpatizantes". Este tipo de eleições não está consagrado na lei fundamental do PS.

    A recusa do atual secretário-geral em aceitar uma comissão paritária destinada a garantir a seriedade do ato eleitoral, com o pretexto de que o PS possui órgãos próprios para este efeito, é de molde a suscitar a suspeita de que não pretende uma decisão isenta. Esta decisão não contribui para a total transparência do ato eleitoral proposto.

    Toda a gente sabe que a chamada comissão de jurisdição (ou "comissão de conflitos") é constituída por militantes da sua inteira confiança. Não garante, portanto, a imparcialidade das suas decisões.

    Tudo isto configura uma deriva antidemocrática contrária à tradição do PS enquanto paradigma do regime instaurado a seguir ao 25 de Abril. Este assunto não interessa só aos militantes do PS. O facto de as eleições propostas envolverem os simpatizantes do partido implica que estes tenham conhecimento destas matérias. Daí a necessidade de uma discussão pública. (…)»

Da multiplicação dos pães como critério supremo


O Expresso Diário não prescinde também de uma coluna de «Altos e Baixos». Ontem, lá no cume da coluna, aparecia Carlos Slim, por ter voltado a ser considerado o homem mais rico do mundo pela Forbes. Isto ajuda-nos a perceber o quadro no qual Martim Silva, o autor da peça, faz as suas análises da política portuguesa.

sexta-feira, Julho 18, 2014

Entreposto comercial


Vários sinais indiciam que Carlos Costa, correndo agora atrás do prejuízo, está na situação do sapateiro que decide ir além do chinelo.

O caso mais recente foi hoje noticiado. O governador do Banco de Portugal terá aceitado ser um entreposto comercial, ao qual potenciais interessados em investir no BES se dirigem para dar conta das suas intenções. Aparentemente, esta notícia pretende transmitir a ideia de que estamos em presença de um governador diligente.

Acontece que a imprensa estrangeira desmente que os investidores estejam a bater à porta do governador. Diz-se que é o governador que, numa espécie de road show, anda a contactar investidores: El Banco de Portugal sondea el interés del Santander y otros bancos en el BES.

Depois de ter sido noticiado que o governador tem reuniões diárias com a administração do BES, agora sabe-se que faz diligências para a captação de investidores. Quando «chegar a hora» da supervisão bancária se pronunciar, quem estará em condições de o fazer?

João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)


Morreu hoje João Ubaldo Ribeiro. A sua última crónica n’O Globo, que seria publicada no dia 20 de Julho, pode ser lida aqui.

Notícias da retoma

BES e GES, governador do Banco de Portugal e Governo

Pedro Adão e Silva e Maria João Gago, co-autora de O Último Banqueiro: Ascensão e Queda de Ricardo Salgado, comentam na SIC Notícias o caso BES, em particular o papel do governador do Banco de Portugal na sua qualidade de supervisor bancário:

Entre o "máximo" de flexibilidade de que fala Juncker
e o "máximo" de austeridade em que insiste Merkel,
há uma escolha para fazer e um dos dois triunfará

• Pedro Silva Pereira Tudo ou nada:
    «Sob pressão dos socialistas europeus e do primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, o novo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, reconheceu esta semana, diante do Parlamento Europeu, que é preciso aproveitar "ao máximo" a flexibilidade permitida pelas regras orçamentais europeias. É uma boa notícia: o centro-direita está dividido como nunca quanto à austeridade e Ângela Merkel está cada vez mais isolada.

    Quatro aspectos merecem especial destaque no importante documento programático de orientação política, intitulado "um novo começo para a Europa", que Juncker apresentou esta semana no Parlamento Europeu. Em primeiro lugar, o reconhecimento, preto no branco, e logo na primeira frase do documento, da verdade elementar que por cá muitos ridiculamente se esforçam por esconder: "A Europa sofreu, nos últimos anos, a pior crise económica e financeira desde a Segunda Guerra Mundial". Depois, o anúncio de que será apresentado, nos primeiros três meses de mandato da nova Comissão, conforme era exigência dos socialistas, um plano de investimento público e privado para o crescimento e o emprego no valor de 300 mil milhões de euros nos próximos três anos. Em terceiro lugar, a identificação de um conjunto certeiro de prioridades de investimento (que não podem deixar de fazer lembrar o nosso Plano Tecnológico, lamentavelmente interrompido pelo Governo actual): educação, investigação e inovação; novas tecnologias; redes de banda larga e mercado único digital; redes de energia, energias renováveis e eficiência energética; infra-estruturas de transporte; sectores industriais estratégicos e combate à burocracia. Finalmente, como acima referido, o anúncio de que serão divulgadas "orientações concretas" no sentido de aproveitar "ao máximo" (sic) a flexibilidade permitida pelas regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento, de modo a favorecer a "utilização dos orçamentos nacionais a favor do crescimento e do investimento".

    Sintomaticamente, estes promissores compromissos políticos foram assumidos na mesma semana em que Ângela Merkel emitia uma mensagem em sentido rigorosamente contrário, a pretexto da crise no Grupo Espírito Santo: "O exemplo de um banco português mostrou-nos nos últimos dias como os mercados se agitam, como a incerteza volta rapidamente e como ainda é frágil a construção do euro (...). Se nos afastarmos agora das regras, por exemplo ao nível do Pacto de Estabilidade e Crescimento, e de tudo (sic) o que fizemos para estabilizar o euro, podemos muito rapidamente entrar numa situação em que nos começamos a afundar". Indiferente aos sinais de fracasso e ao enorme retrocesso económico e social dos últimos anos, Merkel parece disposta a insistir na receita errada da austeridade para superar a óbvia fragilidade da recuperação verificada nos mercados em vez de fazer, finalmente, o que deve ser feito: reforçar as razões de confiança na capacidade de crescimento da economia e instituir os mecanismos ainda em falta para defender capazmente a zona euro da especulação financeira nos mercados de dívida soberana.

    Já não é possível disfarçar: há hoje dois discursos políticos conflituantes no interior do próprio centro-direita. Entre o tudo e o nada, entre o "máximo" de flexibilidade de que fala Juncker e o "máximo" de austeridade em que insiste Merkel, há uma escolha para fazer e um dos dois triunfará. Desse confronto depende o sucesso da viragem prometida pelo novo líder da Comissão e, consequentemente, o futuro da convergência política com a família socialista europeia que está a usar toda a sua influência para impulsionar este movimento de mudança.»

«Não se percebe o que o Banco de Portugal
andou a fazer este tempo todo»

Ontem, na TVI 24, Constança Cunha e Sá criticou a atuação tardia do Banco de Portugal em relação à crise no Banco Espírito Santo (BES), afirmando que o governador não pode ser visto como um «herói», uma vez que, há pelo menos «um ano», que algo deveria ter sido feito (vídeo).

quinta-feira, Julho 17, 2014

Deambulações de Seguro pelo mundo da finança

«Os reguladores falharam completamente»…


… é a opinião de um «accionista importante», segundo o Wall Street Journal.

Ideias feitas que a direita impõe


Vi agora a entrevista que Jorge Coelho, presidente da comissão eleitoral das primárias do PS, deu ontem a Paulo Magalhães. Este funcionário da TVI 24 não é capaz de colocar questões fora do quadro mental que a direita estabelece: «O país já fez as pazes com o Eng. José Sócrates?» Jorge Coelho embalou no formato pré-determinado: «Não sei. Isso é um problema que o país é que sabe, não sou eu. Isso é mais um problema no campo da psicologia política do que doutro campo…»

Ora, ao fim de três anos de o Governo de Passos & Portas ter posto o país a ferro e fogo, o PS ganhou as eleições europeias com 31 por cento dos votos.

Acontece que os Governos de José Sócrates foram fustigados por duas crises de enorme impacto: a maior crise internacional dos últimos 80 anos, que viria a desencadear uma outra crise — a das dívidas soberanas — em todos os países periféricos da zona euro.

Apesar destes dois sucessivos ciclones, apesar de Passos Coelho ter sido levado num andor para São Bento numa procissão que tinha à frente o abade de Belém, apesar de várias campanhas sujas concertadas, apesar de tudo isto, o PS obteve nas eleições legislativas de 2011 um resultado que ficou a dois pontos percentuais — 29 por cento — da glosada vitória do PS nas eleições europeias.

Será que então se pode dizer que o país está zangado com o sistema político?

ADENDA — O leitor Manuel Azevedo acrescenta, na caixa de comentários deste post, esta nota relevante: «O PS em 2011 obteve menos 2% do que nas europeias de 2014, mas conseguiu quase 550.000 votos a mais...»

Acerca do dom da ubiquidade

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Há uma associação que dá pelo nome de Renovação Comunista. Quando há eleições, sai da clandestinidade e faz prova de vida. Aconteceu agora com as eleições primárias do PS.

Com efeito, Carlos Luís Figueira, membro destacado da coisa, apareceu no comício de Faro de António José Seguro, dando-lhe o seu apoio por ser «um homem sério, capaz de honrar os compromissos que assume».

Acontece que Carlos Luís Figueira é muito generoso na distribuição dos seus afectos. Já em 2005 havia assumido a chefia do gabinete da presidência da Câmara de Vila Real de Santo António, então ganha pelo santanista Luís Gomes, que é hoje em dia também presidente do PSD-Algarve. Certamente por ser igualmente «um homem sério, capaz de honrar os compromissos que assume».