segunda-feira, Setembro 01, 2014

Sucedem-se os milagres em Braga

António Costa e a besta

O Município de Lisboa viveu tempos atribulados quando a Câmara era presidida por Santana Lopes e, depois, por Carmona Rodrigues, que esmagou, sem saber ler nem escrever, um Carrilho que confundiu o mundo da Caras com a Madragoa. As trapalhadas em torno dos terrenos da antiga Feira Popular e do Parque Mayer arrastaram-se anos a fio e provocaram a queda do executivo camarário presidido por Carmona Rodrigues.

Após ter vencido as eleições intercalares de 2007, António Costa procurou arranjar uma solução para a herança que recebeu dos executivos santanistas. Chegou finalmente a acordo com a Bragaparques em Janeiro de 2014, restituindo à empresa 101,6 milhões de euros que ela despendeu com a aquisição de ambos os espaços.

Hoje, mais de oito meses depois de aprovado o acordo, o Correio da Manha chama, sem vir a propósito de nada, o assunto à primeira página, assim a modos de que prepara o leitor para mais um extraordinário exclusivo à moda da casa: abeirando-se de uma janela dos Paços do Concelho, António Costa terá desatado a lançar sacos de notas para as mãos do tal Névoa — como se o santanismo nunca tivesse existido.

A «notícia» do Correio da Manha surge um dia depois de António Costa ter suspendido a sua colaboração no pasquim durante a campanha interna no PS. Escrevia ontem o próximo secretário-geral do PS: «Mas mesmo não utilizando esta página como plataforma de campanha, não quero sujeitar o jornal à suspeição de parcialidade. Estou reconhecido ao diretor pelo convite para escrever no jornal mais lido em Portugal e pela forma como nos temos relacionado. Mas é importante para todos que conservemos as distâncias que garantem a independência mútua.»

A reacção do pasquim não poderia ter sido mais fulminante: não se importa de se sujeitar à «suspeição de parcialidade». Assume-a. A besta não pode ser tratada com paninhos quentes. É uma lição para António Costa.

Schäuble e Maria Luís, a mesma luta


• João Galamba, Schäuble e Maria Luís, a mesma luta:
    «Maria Luís Albuquerque não percebe que vivemos uma crise que é da exclusiva responsabilidade de quem, como ela, insiste em pôr em prática políticas que são tão absurdas e irracionais que até o BCE as contesta.

    No seu discurso em Jackson Hole, Mario Draghi fez aquilo que nenhum presidente do BCE havia feito até hoje: disse que a eficácia da política monetária depende da política orçamental e falou da importância da procura agregada - um conceito keynesiano que Frankfurt tende a desprezar. Na actual conjuntura económica - marcada por desemprego elevado, baixo investimento e crescimento baixo ou mesmo nulo - os países da zona euro devem explorar toda a flexibilidade dos tratados e pôr a política orçamental ao serviço da economia, isto é, os países da zona euro devem abandonar o dogma austeritário e pensar em políticas amigas da economia e do emprego. Com as cautelas que um presidente do BCE não pode deixar de ter, foi isto que Draghi disse no encontro mundial de banqueiros centrais.

    Como não podia deixar de ser, as reacções dos sacerdotes da austeridade não se fizeram esperar. Schäuble, ainda não refeito do choque, disse que Draghi tinha sido mal-interpretado. Maria Luís Albuquerque fez exactamente o mesmo. Para Maria Luís Albuquerque, a flexibilização das regras orçamentais é um erro, sobretudo para um país como Portugal, que tem uma dívida pública e privada muito elevada. Mostrando que não aprendeu nada, a ministra das finanças continua a achar que se reduz a dívida com austeridade.

    Sim, a ministra das finanças de um dos países que mais tem sofrido com a viragem austeritária e pré-keynesiana que se impôs na Europa aquando da crise grega (Maio 2010), ao invés de ver no discurso de Draghi uma oportunidade, tratou-o como uma ameaça que tinha de ser imediatamente travada. Não é a primeira vez que isto acontece. Depois da polémica em torno dos multiplicadores orçamentais, que mostrava que os efeitos negativos da austeridade tinham sido grosseiramente subestimados, o Governo português volta a mostrar que não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade (para pôr em causa as políticas que objectivamente prejudicam o interesse nacional).

    Quando vemos Maria Luís Albuquerque dizer que "enfrentámos ao longo deste três anos a maior crise dos últimos 80 anos" percebemos melhor o que se passa. Mais do que o dogmatismo ideológico de Vítor Gaspar, a actual ministra das finanças decidiu apagar da sua memória a verdadeira crise, a que começou em 2007/8, e inventou outra, que terá começado algures em Junho de 2011. Maria Luís Albuquerque não percebe que vivemos uma crise que é da exclusiva responsabilidade de quem, como ela, insiste em pôr em prática políticas que são tão absurdas e irracionais que até o BCE as contesta. Numa coisa Maria Luís tem razão: há, de facto, uma enorme crise que começou em 2011. Foi a crise que este Governo fabricou ao instalar-se e que só acabará quando a actual maioria sair de cena.»

Da série "Frases que impõem respeito" [867]


Houve clientes que foram convencidos a investir no BES por causa das declarações de Cavaco.
      Miguel Reis, que defende uma investigação policial à actuação de Carlos Costa, do Presidente da República e da ministra das Finanças por terem garantido até ao fim que o banco dirigido por Ricardo Salgado era sólido, já depois do último aumento de capital

Leituras

• António Correia de Campos, Língua bífida:
    «(…) Draghi partiu da análise dos percursos quase opostos do desemprego nos dois lados do Atlântico, afirmando que a procura agregada, estimulada pelas políticas monetária e orçamental é essencial para reduzir o desemprego na Europa; que a crise das dívidas soberanas se deveu em grande medida ao facto de o banco central não actuar como credor de último recurso dos governos, ao contrário do que acontece no Japão e nos EUA; remata com a recomendação de políticas orçamentais menos restritivas ao nível da Zona Euro, afirmando haver espaço para tal. (…)»
• Tomás Vasques, A verdade é como o azeite:
    «(…) O que testemunha ainda mais a hecatombe da estratégia deste governo é o paradoxo de se vangloriar da ligeira melhoria de indicadores económicos que resultam, exactamente, de situações a que se opõe ferozmente, umas, que condena por razões ideológicas, outras; ou, ainda, que lhe são completamente estranhas. No primeiro caso, estão as decisões do Tribunal Constitucional que, ao impedir cortes de salários, de pensões de reformas e de viuvez, de subsídios de desemprego e de doença, permitiu que as famílias fossem menos espoliadas, facilitando o consumo interno que nos retirou da recessão. No segundo caso, está o emprego privado subsidiado, através de estágios, que tem produzido resultados positivos. Segundo o semanário "Expresso", 60% dos novos empregos são subsidiados pelo Estado. Isto deve arrepiar os mentores neoliberais do governo, mas no meio do naufrágio, em desespero, e com eleições à vista, até a medidas "socializantes" se agarram. No terceiro caso, estão as situações em que o governo é completamente alheio, como por exemplo, os excelentes resultados obtidos pelo turismo, os quais resultam em parte da insegurança provocada por conflitos, alguns de grande violência, em destinos habituais de europeus no Norte de África e Médio Oriente. (…)»

domingo, Agosto 31, 2014

Gente de bem não é com certeza



«Sim, é espantoso. É a palavra certa.» Foi a reacção de Paulo Otero, professor catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa, quando confrontado por Fernanda Câncio sobre a mais recente golpada constitucional levada a cabo pelo Governo. Conta-se em poucas palavras.

Em Abril de 2013, o Tribunal Constitucional considerou inconstitucionais os cortes dos subsídios de desemprego e doença previstos no Orçamento do Estado para 2013, que foram devolvidos. Mas em Maio o Governo aprovava o 1.º Orçamento Rectificativo do ano, reintroduzindo os mesmos cortes, apenas alterando o universo de aplicação: passariam a incidir em valores acima de 419,22 euros.

Como a oposição se esqueceu de pedir a fiscalização sucessiva desta medida, o Governo aproveitou esta distracção para exigir em Setembro aos beneficiários das duas prestações a restituição da quantia relativa aos cortes correspondentes às prestações pagas desde a data da entrada em vigor do Orçamento Rectificativo (25 de Julho).

Estima-se que o Governo de Passos & Portas sujou as mãos por um montante que andará nos 32 milhões de euros.

Entretanto, os mesmos cortes foram inscritos no Orçamento do Estado para 2014, tendo sido declarados inconstitucionais. Espera-se que a oposição esteja agora atenta, não vá a direita ter introduzido à sorrelfa no 2.º Orçamento Rectificativo para 2014 os mesmos cortes.

ADENDA — O artigo de Fernanda Câncio pode ser lido aqui (cortesia da Shyznogud).

Ética na política: a vez de Fafe

Militante? Quem, eu? Há mais de cinco anos que não pagava quotas...
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Da série "Frases que impõem respeito" [866]

O único argumento que Seguro não usa: que daria melhor primeiro-ministro para o país.
      Nuno Oliveira, no Twitter, fazendo parte «Da série Presume-se porque não cola»

“Estado judaico”, uma moderna democracia liberal?

• António Guerreiro, O preço de ser Israel:
    «(…) A dessionização de Israel, a separação da religião e do Estado, é um programa que já foi proposto por alguns críticos judeus do sionismo, que entendem que na base do problema e da guerra sem solução está o facto de o Estado ter sido fundado sobre um direito de sangue, reivindicando-se como “Estado judaico”, o que é pelo menos cinquenta por cento incompatível com uma moderna democracia liberal, se aceitarmos que é acertada a fórmula que um político israelita opositor do regime encontrou para o definir: “um Estado democrático para os Judeus e judeu para os Árabes”. Uma outra divisão cheia de consequências – das muitas com que o sionismo e o Estado de Israel têm sido obrigados a confrontar-se - foi uma vez formulada por Hannah Arendt: “Na Palestina temos uma nação judaica, na diáspora um povo judeu”.»

Exército intervém…


… para assegurar entrada em funcionamento do mapa judiciário de Paula Teixeira da Cruz.

sábado, Agosto 30, 2014

O «banco bom» vai apresentar-nos
o célebre «Jacinto Leite Capelo Rego»?


Paulo Pena escreve sobre a audição de Ana Gomes na comissão de inquérito das contrapartidas: Durante quatro horas, o Parlamento pareceu um tribunal americano. É de leitura obrigatória.

O depoimento de Ana Gomes coloca algumas questões que talvez um dia possam ser esclarecidas, designadamente as seguintes:
    • Qual «é o envolvimento do [ex-]primeiro-ministro Durão Barroso» no processo de compra do submarinos, tendo em consideração os encontros de Barroso e do seu colaborador próximo Mário David com o ex-cônsul honorário português, em Munique, Jurgen Adolff, condenado por corrupção na Alemanha (que, de resto, foi designado cônsul honorário por Durão Barroso)?

    • Porque é que, tendo sido aprovada em 2004, a lei de financiamento dos partidos só entrou em vigor, a pedido de Durão Barroso (era, salvo erro, José Luís Arnault o responsável pelas finanças do PSD), a 1 de Janeiro de 2005, após a aquisição dos submarinos?

Ana Gomes revelou o seu espanto na Assembleia da República por haver «alemães condenados na Alemanha por corromperem pessoas em Portugal», mas em Portugal «não se sabe quem são os corrompidos», a não ser que estão em causa «titulares de cargos públicos».

Valha-nos que a eurodeputada não encerrou o seu depoimento sem deixar uma pista para solucionar o caso: «A falência do Grupo Espírito Santo pode ser uma grande oportunidade para esta comissão apurar quem são os beneficiários últimos dos fundos que receberam pagamentos da Escom UK.» É que foi através de dois off-shores do BES que terá passado o dinheiro da filial inglesa da Escom.

Estará para breve a apresentação à sociedade do célebre «Jacinto Leite Capelo Rego»? Ana Gomes não parece confiante: «Pode não tardar aí um despacho de arquivamento por prescrição», referindo-se ao processo principal, o das suspeitas de corrupção, tráfico de influências e financiamentos partidários ilícitos resultantes da aquisição dos dois submarinos, em 2004.

Que querem, tal como eu, os meus amigos trabalham com swaps?

A Miss Swaps poderia recrutar na Lusíada, mas aí sair-lhe-ia na rifa provavelmente gente do calibre do alegado primeiro-ministro. A nova discípula de Schäuble sabe o que a casa gasta. Virou-se, portanto, para os seus contactos do tempo dos swaps da Refer, gente que aparentemente tem a obrigação de conhecer o cálculo actuarial.

Escolheu Joaquim Pais Jorge e a coisa não correu lá muito bem. Voltou a recorrer aos derivados e estampou-se de novo: Governo nomeia gestor dos swaps para fiscalizar contas das empresas públicas. Mas, tal como acontecera com Joaquim Pais Jorge, a mais recente aquisição do Ministério das Finanças foi apresentada à sociedade com um curriculum rasurado. Tem as impressões digitais da Miss Swaps, que não costuma, para usar uma apreciação feita por Rui Rio à inquilina do Terreiro do Paço, dizer «a verdade toda».

O "Keynes" de Frankfurt e os patetas do comentariato luso

• Jorge Nascimento Rodrigues (no Facebook), O "Keynes" de Frankfurt e os patetas do comentariato luso:
    «Há para aí um grupo de patetas -- para usar um eufemismo -- que volta e meia se assanha contra uns fantasmas "keynesianos".

    Quando Olivier do FMI veio revelar o que diziam os famosos "multiplicadores", os patetas engoliram em seco e fizeram o possível para enterrar o primeiro sinal de que a "austeridade expansionista" era um logro intelectual e uma guerra contra a economia. Continuaram a esgrimir panelas contra os moinhos do "keynesianismo".

    Mesmo depois do próprio Rogoff ter insistido que as conclusões do seu artigo inicial com Reinhart sobre um alegado "teto" vermelho de dívida nos famosos 90% do PIB (que empurraria para a recessão económica, diria o padrão do estudo empírico) já tinham sido por eles dois retificadas, os patetas continuaram com o mantra do rácio. Ainda por cima quando este, depois da milagrosa cura de austeridade, ter... subido para novos máximos históricos em Portugal (vamos a ver em quanto ficam a dívida bruta e a líquida na segunda feira quando o BdP divulgar o final de julho).

    Agora que Mr Draghi veio dizer fora de portas, a curtir no resort de Jackson Hole, que a política orçamental na zona euro seguida desde 2010 "esteve menos disponível e foi menos eficaz especialmente se comparada com outras grandes economias desenvolvidas" e a exigir que as baterias sejam viradas para "o estímulo da procura agregada" (usado em subtítulo inclusive) e que é menos arriscado em tempos "anormais" fazer demasiado do que pouco, os patetas levantaram-se qual Quixote - sem a grandeza deste - contra o keynesianismo.

    Draghi, tal como a Madame Lagarde do FMI, não são keynesianos, nem velhos, nem cristãos-novos, nem mesmo "bastardos" como chamava Joan Robinson a alguns contemporâneos que se penduraram no John Maynard depois de morto. Mas percebem os dois de "procura agregada" (essa coisa que o Maynard resolveu transformar em objeto de política em tempos "anormais"), uma coisa que os patetas do comentariato não entendem ou fingem não entender, o que é pior.

    O "Keynes" de Frankfurt apenas disse o óbvio. Mesmo que o ruído Schaübliano, de que estavam a "empolar" o italiano, tenha trazido o clube dos amigos do austerismo para a ribalta de novo contra os moinhos keynesianos.

    Draghi e Lagarde querem que a Europa ataque o problema da "procura agregada". Ponto. Empurram Jean-Claude Juncker para a fogueira e o Jean-Baptiste Hollande (um pateta que nem é carne nem peixe, que ainda acredita numa alegada "lei" de Say, do seu conterrâneo Jean-Baptiste, temperada com algum keynesianismo de algibeira).

    Draghi e Lagarde sabem que a política monetária do BCE caminha para se esgotar e que o FMI não é pai-natal, para mais com a Madame em apuros "legais" em França e os emergentes a cobiçar-lhe o lugar.

    Por isso, os dois preferem trocar o austerismo (sem o nomear) por um "estímulo da procura agregada", que deixe de fora da barrela de água suja aquilo de que eles gostam de facto - as tais de reformas estruturais no mercado laboral e na concorrência. O resto é fralda descartável. Só os descartáveis ainda não o entenderam mesmo.»

O drama e os equívocos

Hoje no Expresso (via Nuno Oliveira)
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Curiosidade


      «Não é que eu seja machista mas, pelo sim pelo não, dou graças a Deus por me ter chamado para a única profissão que elas nunca poderão exercer!»

Não sei se Portocarrero de Almada entrou no i pela quota do Opus Dei ou pela da Causa Real. Pode ser que um dia Ana Sá Lopes explique os critérios editoriais adoptados por esta publicação da Newshold.

Gorduras do Estado para maquilhar o desemprego

Hoje no Expresso (via Nuno Oliveira)
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Novo blogue


Um blogue que fazia falta.

sexta-feira, Agosto 29, 2014

Quanto custa uma quinzena
"num rés-do-chão arrendado" na Manta Rota?

Festeja-se o quê?


Segundo o Eurostat, o desemprego desceu em Julho. Está em 14 por cento, sendo Portugal ainda um dos países com desemprego mais elevado. Na senda de Mota Soares, o secretário-geral da UGT congratulou-se com o resultado, muito embora tenha referido os efeitos da sazonalidade (turismo) e da emigração. Poderia ter feito também alusão ao facto de haver 162 mil desempregados «ocupados» em estágios dos centros de emprego (mais 48 mil do que há um ano). Poderia ter lembrado que os desempregados que não estão inscritos há algum tempo no IEFP deixam de ser considerados desempregados. Poderia ter recordado que mais de metade dos desempregados já não têm protecção social e que o valor médio por mês do subsídio de desemprego é muito baixo (460 euros). Poderia, enfim, ter sublinhado que, afastados os artifícios das estatísticas, Portugal confronta-se com mais de um milhão de desempregados. E que a estagnação económica não permite ver uma luz ao fundo do túnel.

Viagens na Minha Terra

António Costa na RTP


A entrevista de ontem pode ser vista aqui.

O Novo Banco do Estado

• Carlos Costa Pina, O Novo Banco do Estado:
    «Têm razão os que dizem que o BES não é comparável ao BPN. É pior: na dimensão relativa dos dois bancos e, logo, nos seus efeitos. Mas também no contexto. Não estamos agora, como estávamos em 2008, em plena crise financeira internacional, com bancos a falir e a serem nacionalizados ou intervencionados nos dois lados do atlântico. Não tínhamos os instrumentos entretanto criados na UE por impulso do G20. Não beneficiávamos dos resultados dos "stress tests" feitos aos principais bancos. Não beneficiávamos dos exercícios de supervisão reforçada feitos nos bancos depois da crise internacional com a presença de peritos estrangeiros.

    Não terão sido os alegados factos novos ocorridos no segundo trimestre a determinar a solução, sob pena de ter sido construída de modo apressado. Tudo indica que a mesma estava a ser preparada há algum tempo, mas permitindo os danos da exposição internacional e ganhos e perdas especulativos assentes em vendas a descoberto ("short-selling") económica e socialmente danosas. (…)»

Da série "Frases que impõem respeito" [865]


O doutor Paulo Portas ameaçou-me com um processo. E eu fiquei à espera. Até hoje. Já lá vão três anos.
        Ana Gomes, ontem no parlamento, em resposta a uma deputada do CDS que a acusava de estar a difamar Portas, por o envolver no caso dos submarinos

Quem pagou as quotas?
Ou foram as dívidas saldadas administrativamente?

• Capoulas Santos, Outra leitura sobre a credibilidade e a transparência do PS:
    «(…) A ter sido notícia, o triste episódio de Braga, deveria tê-lo sido apenas através de um simples e objectivo comunicado de imprensa da direcção do PS, a anunciar que, após rápida averiguação dos factos, tinha sido identificado quem efectuou os pagamentos, por que motivos o fez, qual o seu montante e origem, assim como a confirmação ou desmentido de que tal montante havia sido efectivamente depositado na conta do PS. E, caso se confirmasse a suspeição de algum ilícito, o anúncio de que tinham sido accionados os procedimentos disciplinares e judicias aplicáveis.

    É assim, e só assim, que um partido transparente funciona.

    E é assim, e só assim, que um partido se credibiliza perante uma sociedade cada vez mais desconfiada sobre o funcionamento e o financiamento dos partidos.

    Lamento por isso profundamente, e não posso, por isso, deixar de reagir, que o artigo de Miguel Laranjeiro, pretenda justificar como actos aparentemente normais, e sem necessidade de esclarecimento e eventual punição, acontecimentos graves que destroem a imagem do PS e que, a permanecerem ocultos, transformam o PS perante a opinião pública num partido opaco e com uma credibilidade cuja recuperação será ainda mais difícil no futuro.

    Apelo por isso a Miguel Laranjeiro que volte urgentemente ao tema para esclarecer as dúvidas que persistem, e incomodam todos os socialistas preocupados com a transparência e a credibilidade do PS, e incomodam igualmente muitos portugueses, filiados, ou não, noutros partidos, não menos preocupados com o nosso sistema partidário que, pese embora as suas imperfeições é o melhor garante do funcionamento da democracia de que beneficiamos há quarenta anos, que tanto custou a conquistar, e que, nos tempos de chumbo que vivemos, é mais necessário do que nunca fortalecer.»

O "esquecimento" da existência de rendimentos de capital

• Fernanda Câncio, Trapalhada estrutural:
    «(…) Não há, certamente, leis perfeitas, e o problema das chamadas rendas antigas arrastou-se tanto tempo e criou tantos vícios de pensamento e prática que nenhuma solução será isenta de críticas e falhas. Mas a atrapalhada incompetência desta, mais o seu "esquecimento" da existência de rendimentos de capital é bem a marca de um Governo que, perante um problema, parece só ser capaz de piorar.»

Vaga de fundo


Álvaro Beleza revela no Facebook imagens do enorme apoio que a candidatura de António José Seguro está a suscitar no Porto.

quinta-feira, Agosto 28, 2014

Quebra-cabeças de Verão


Rui Peres Jorge fez um apanhado do importante discurso que Mario Draghi proferiu em Jackson Hole. O impacto do discurso de Draghi pode ser medido pela quantidade de reacções que gerou, como é possível observar através deste link facultado por Rui Peres Jorge.

Wolfgang Schäuble veio a correr sustentar que as palavras de Mario Draghi foram mal interpretadas. Adivinhe quem se juntou de imediato ao ministro das Finanças alemão, procurando distanciar-se de uma estratégia que poderá permitir tirar Portugal do atoleiro:
    • Jean-Claude Juncker?
    • Durão Barroso?
    • Herman Van Rompuy?
    • Miss Swaps?
    • Jeroen Dijsselbloem?
    • Olli Rehn?
A resposta certa está aqui.

De mentira em mentira


Ainda sou do tempo em que o alegado primeiro-ministro assegurava que o Estado não interviria no BES: «Não há nenhuma razão que aponte para que haja uma necessidade de intervenção do Estado num banco que tem capitais próprios sólidos, que apresenta uma margem confortável para fazer face a todas as contingências, mesmo que elas se revelem absolutamente adversas, o que não acontecerá com certeza». Dias depois, a Miss Swaps confirmava a garantia dada por Passos Coelho: «Cabe aos privados resolver os seus problemas».

Acontece que o Estado interveio no BES. À grande e à francesa: 3,9 mil milhões de euros.

Hoje, como quem nos prepara para o pior, a Miss Swaps deixou cair, com uma enorme candura, que a intervenção do Estado no BES pode vir a ser considerada por Bruxelas uma «operação que tem impacto no défice». Pois, está em causa dinheiro do Estado.

Ouviste, Paulinho?


Folga orçamental? Miss Swaps: “Não consigo ver onde”, num devastador uppercut que atinge em cheio Paulo Portas.

À atenção de Jorge Coelho

Site do PS, há momentos
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António Costa criou um site para a campanha das «eleições primárias»: Mobilizar Portugal. António José Seguro não precisa…

Da série "Frases que impõem respeito" [864]


O carisma, o espírito e a capacidade de liderança não se explicam, sentem-se. Esse sentimento transmite-se para as pessoas e traduz-se em confiança.

Costa ou Seguro?

Paulo Pedroso em entrevista à Visão (hoje)

Draghi prestes a esgotar meios legais para resolver crise do euro

• Wolfgang Münchau, Draghi prestes a esgotar meios legais para resolver crise do euro:
    «(…) desconfio que o BCE não vai fazer nada disto. Pelo contrário, vai continuar a apontar o dedo aos governos da zona euro por não implementarem as reformas estruturais e, muito provavelmente, a zona euro vai tornar-se numa espécie de Japão. Mas com uma diferença: enquanto os países cujas políticas falham não têm alternativa, os Estados- membros de uma união monetária podem procurar outras soluções.

    Ao falhar a meta de inflação, o BCE está a dar aos Estados-membros um bom motivo para saírem da zona euro, uma vez que podem ter um banco central melhor. Recomendação: é fundamental que o BCE evite isso a todo o custo.»

quarta-feira, Agosto 27, 2014

Pôr Seguro a dizer o que lhe vai no bestunto

Tendo descoberto recentemente que a «economia precisa de um motor», António José Seguro apresentou em Maio «um plano de reindustrialização», do qual consta «um terceiro [eixo] mais inovador que tem a ver com a revolução industrial da era digital 4.0» para tirar partido da «vantagem competitiva» do país: «O custo de investigação e desenvolvimento em Portugal é, em média, um terço da Alemanha.» Aproveitar os baixos salários como na Índia.

É assim que se inicia a entrevista de António José Seguro ao Diário Económico. Ele avisa logo os leitores que, «se estão à procura de um mágico, saio já de cena». Mas não sai. Fica para defender o Tratado Orçamental e «pagar cada cêntimo» em dívida. E se pede «mais tempo não é por ser laxista ou por achar que, ganhando tempo, aldrabamos os credores.» Para isso, o ainda secretário-geral do PS garante, a par da criação de «condições para que a economia gere receitas que vão chegar também ao próprio Estado», «mão de ferro na gestão da despesa». E a verdade é que a autodenominada «mão de ferro» se faz já sentir: questionado sobre «a possibilidade de aumentar impostos ou de fazer cortes salariais», Seguro garante que não aumentará impostos, mas nem uma palavra pronuncia sobre os cortes salariais.

Ressalta da entrevista que Seguro se revelou sempre disponível para colaborar com o Governo: «há mais de três anos, em Julho de 2011, disse-lhe que havia um universo de temas onde era desejável uma convergência.» Exemplifica: «disse sempre que estávamos disponíveis para acelerar o processo de convergência entre a Caixa Geral de Aposentações e a Segurança Social

É dado na entrevista um outro exemplo do desejo de cooperar com o Governo: «recordo que, em Novembro de 2011, quando o primeiro-ministro descobriu o desvio colossal, disse-lhe que estava disponível para acompanhar cada cêntimo desse desvio». Perante a perplexidade dos próprios jornalistas de economia que o entrevistam — «E existia esse desvio colossal?» —, Seguro reproduziu a falsidade de Passos Coelho (da qual até Vítor Gaspar se demarcou): «Fizemos duas reuniões, mas não certificámos o novo valor, apesar de haver uma diferença em relação às contas de Abril.» Convém avivar a memória de Seguro, advertindo-o de que o único desvio após a aprovação das contas portuguesas por Bruxelas se ficou a dever à ocultação do buraco da Madeira por parte de Alberto João Jardim.

Erro colossal cometeu Passos Coelho ao não ter percebido a comoção que se apoderava de Seguro quando era chamado a São Bento.

Mas esta sintonia com o Governo de Passos & Portas não resulta de o país passar por uma situação complicada. Tem raízes mais profundas. Tal como a direita, Seguro fala da «década perdida», ignorando que o crescimento foi interrompido pela maior crise dos últimos 80 anos (para não falar do progressos no âmbito da educação e da saúde e da diminuição das desigualdades): «se olharmos para a última década, vemos que o crescimento económico foi anémico.» E também como a direita faz, Seguro atribui às «políticas expansionistas», e não à crise internacional, os problemas de consolidação orçamental, omitindo que foi o Governo do PS que obteve o mais baixo défice da democracia portuguesa.

António José Seguro tem uma narrativa colada com cuspo. Sobre qualquer tema, não está em condições de responder a uma segunda pergunta. Acontece, por exemplo, com a reforma do Estado. Embatucou quando confrontado com a reforma das autarquias locais.

Mas há «temas» em que António José Seguro muda subtilmente de posição como se tivesse sempre defendido o que agora proclama. Em relação à populista reforma do sistema eleitoral, introduz hoje o «círculo de âmbito nacional» de que se esquecera de falar antes. Em relação à política europeia, com a derrocada de Hollande, muda o foco de alianças que alinhavara aquando de uma badalada visita ao Palácio do Eliseu: «Portugal precisa de aliados em todas as famílias políticas

E em relação a outros «temas», Seguro diz agora que disse o que ninguém ouviu: «É sabido [sic] que, na altura certa, chamei a atenção para muitos erros que o anterior Governo estava a fazer.» Deve ter acontecido por estar sentado na sexta fila do hemiciclo.

Quando se esperaria de António José Seguro um discurso que mobilizasse o eleitorado para uma maioria sólida, eis que o ainda secretário-geral do PS se satisfaz se conseguir promover um governo de coligação: «a responsabilidade do líder do partido mais votado é procurar no Parlamento as condições para obter uma coligação de Governo

António Costa deu ontem uma entrevista ao Diário Económico. Hoje foi a vez de António José Seguro. Quem ler ambas as entrevistas não pode continuar a sustentar não haver diferenças entre Costa e Seguro. Não é apenas a capacidade de liderança que os distingue. Um tem lastro, o outro não. Um fez um diagnóstico da crise ancorado numa análise séria da realidade, o outro deambula ao sabor das conveniências da direita. Um tem um conjunto articulado de propostas, o outro traz umas ideias desirmanadas pescadas aqui e acolá. Diria que é quase ofensivo compará-los.

As primárias no PS, a reforma institucional e a ideologia

• André Freire, As primárias no PS, a reforma institucional e a ideologia:
    «(…) qualquer líder que fosse tinha também o compromisso assumido por Sócrates para com os seus eleitores de que não acompanharia medidas (do PSD) além do acordo da Troika (de 2011) para ganhar alguma margem de manobra face ao governo. Por tudo isso, e tendo em conta que a direita tem governado sempre muito além do que estava no memorando (nos cortes de salários e pensões, no aumento da jornada de trabalho, nos cortes na educação e na saúde, na promoção da desregulação no mercado de trabalho, etc.), é curiosa a tibieza da oposição do PS, sob a batuta de Seguro, ao governo: até ao final de 2012 o PS aprovou (58,3%) ou absteve-se (25,0%) na esmagadora maioria das votações das propostas da direita no Parlamento. É certo que a partir da manifestação face à TSU, em Setembro de 2012, o PS começou a divergir mais (votando contra os orçamentos, encabeçando pedidos de fiscalização constitucional, etc.) mas, mesmo assim, continuou sempre disponível para entendimentos com o governo (no corte na despesa pública, que depois não se concretizou, ou na reforma do IRC, fazendo recair os custos do ajustamento quase só sobre os assalariados e pensionistas, em sede fiscal). Ou seja, perante um governo e uma maioria que têm governado em violação dos compromissos eleitorais assumidos, contra a Constituição e com resultados desastrosos (a divida pública está quase em 140% do PIB, apesar de todos os cortes de salários e de pensões e da venda de «n» empresas públicas, muitas delas bastante lucrativas), o PS liderado por Seguro foi incapaz de se diferenciar claramente da direita. Portanto, em matéria de posicionamento ideológico do PS, sob a batuta de Seguro, e da sua capacidade de fazer oposição, estamos conversados. (…) Mais, até a narrativa sobre a genealogia da crise (defendida pela direita nacional e europeia), que punha a sílaba tónica das causas da crise em fatores domésticos (ou seja, no PS sob a batuta de José Sócrates) e que tem sido desmentida por vários académicos (Mark Blyth, Philipe Legrain, Wofgang Streecht, Paul de Grauwe), o PS de AJS pareceu ter «comprado»… Caso contrário, como explicar o apagamento do partido nos últimos três anos? (…)»