domingo, Abril 20, 2014

Sempre em pé

Prosperou a aviar recados contra o «situacionismo». Esteve para desempenhar missão idêntica em São Bento, mas um dos que já vinham da São Caetano espevitou-se: — Ou eu ou ele. Sem saber ler nem escrever, foi depositado na administração do Instituto Camões. Na barafunda de uma das incontáveis remodelações, infiltrou-se no Governo. A carreira de ajudante teve a duração de um meteorito. Que fazer de um cadáver adiado? Içado para a presidência de uma instituição financeira, é barrado pela CRESAP, que só lhe reconhece capacidade e habilitações para relações públicas. Aceita a desgraduação: fica como administrador com o pelouro das relações públicas, com a piedosa recomendação de se atirar aos estudos. Qualquer um ficaria acabrunhado, evitando expor-se. Sendo um tanto atrevidote, lança-se para fora de pé. Trata-se, como se percebeu, do FAL, que, hoje, leva mais uma tareia:
    «(…) para quem possa ser mais propenso a imprudências, como contar com cargos antes de lhe serem atribuídos ou anunciar aumentos de capital antes destes serem aprovados, aqui fica um ditado popular suavizado: é melhor não contar com o ovo no rabo da galinha. Ou neste caso: é melhor não contar com os resultados – que sinceramente espero que venham a aparecer – quando eles ainda só estão… na boca do jornalista.»

Reescrever a história do CDS-PP

Da vida efémera das borboletas

— Aqui o meu vizinho amuou. Ao princípio, estranha-se, depois entranha-se. O Paulo há-de explicar-lhe.

• Ferreira Fernandes, Maria Luís e Lima com açúcar e desafeto:
    «(…) Um colunista de opinião argumentaria sobre a contradição entre A (Albuquerque) e B (Lima) e mostrava como essas notícias confirmam o que já fora escrito por Bertrand de Jouvenel no magistral Essai de Politique Pure. Mas eu sou mero cronista, mais terra-a-terra. Sou colecionador de borboletas e o mais alto que vou nem sou eu, é a rede, caçando lepidópteros que voam por aí. O conflito no interior do Governo por causa das taxas sobre o excesso açúcar não me escapa, como não escapa aos opinion makers. Mas numa crónica (nas minhas, pelo menos) não se sobe acima da chinela. Lembro a taxa da Albuquerque só porque ela ilustra o sugar de néctar, tão próprio das borboletas. Lembro o suicídio da coligação de Lima, por evocar a vida efémera das borboletas. Se a vida (a crónica do quotidiano) fala por si, porque hei de eu aborrecer-vos com a minha opinião?»

Leituras

sábado, Abril 19, 2014

Provedor do telespectador da RTP
deixa voz do Governo em palpos de aranha


Hoje, no programa Voz do Cidadão, o provedor do telespectador da RTP, Jaime Fernandes, não deixou margem para hesitações: A Opinião de José Sócrates «deverá regressar à sua forma original ou, caso contrário, deixa de fazer sentido na televisão pública».

Depois de muitos telespectadores se terem queixado da condução do programa por conduta de José Rodrigues dos Santos, o provedor justificou a sua posição com o facto de o programa ter sido anunciado como de opinião, o que «pressupõe que o comentador faça as considerações que entende sobre temas da actualidade sem necessitar de contraditório», o qual terá de acontecer «em espaços distintos da programação, de debate ou de entrevista».

Assunto arrumado? Não, a voz do Governo — José Manuel Portugal, recentemente empossado como director de informação da RTP — não faz tenção de retirar o rottweiler de cena: estão a ser equacionadas hipóteses, mas «não há qualquer definição».

E, aparentemente perdido na maquinação que o Governo lhe impingiu, sai-se com esta pérola, como um capataz a dar ordens a serventes: «Tenho que me sentar com o engenheiro José Sócrates e com Dr. Morais Sarmento para definirmos em conjunto o que vai acontecer, mas para já fica tudo igual». Alguém imagina José Sócrates a sentar-se obedientemente em frente do tal José Manuel Portugal para ouvir o sermão que o Governo lhe encomendou?

(Fico à espera que a RTP coloque no site a edição de hoje do programa do provedor do telespectador para voltar ao assunto.)

Ai querem agora um cluster da mobilidade eléctrica?

Pouco tempo após tomar posse, o Álvaro cometeu a proeza de fazer o país perder a fábrica de pilhas para carros eléctricos da Nissan, projecto conquistado pelo anterior governo e que envolvia um investimento de cerca de 160 milhões de euros e a criação de 200 postos de trabalho directos. Deleitado, Passos Coelho foi assistindo à destruição de tudo o que o Governo de Sócrates havia feito, designadamente na mobilidade eléctrica e nas energias renováveis.

Alguma coisa ainda resistiu ao tsunami dos estarolas. É com base no que sobrou da sanha destruidora do apatetado Álvaro que, subitamente, como quem chega de Marte, Moreira da Silva diz que quer criar cluster português da mobilidade eléctrica. É preciso topete. Já agora, para que tudo bata certo, espera-se que seja adjudicado ao Rodrigo (por ajuste directo) a campanha de promoção do cluster dos carros eléctricos. Que sejam todos a dar uma volta de 180º.

Até tu, Luisinho?

O alegado primeiro-ministro está tão embrenhado a fazer sangue que nem se lembra que há um governo a «precisar» de coordenação:

«A gente vê como uma chiclete
Que se prova, mastiga e deita fora, se demora»


«Especulação» é o último grito da moda no léxico governamental. Foi o termo usado pelo alegado primeiro-ministro quando pretendeu abafar o anúncio da mutilação das pensões feito pelo ajudante da Miss Swaps em off. Coube agora a vez ao «soldado disciplinado» Pires recorrer à nova técnica de comunicação governamental para reagir ao lançamento de um novo imposto sobre os «produtos que têm efeitos nocivos para a saúde».

Eis a sucessão de declarações:
    • No dia 16 de Abril, a Miss Swaps afirmou no briefing do Conselho de Ministros extraordinário: «poderão ser equacionados contributos adicionais do lado da receita, designadamente na indústria farmacêutica, ou de tributação sobre produtos que têm efeitos nocivos para a saúde»;
    • No dia 17 de Abril, o tenebroso secretário de Estado de Estado adjunto do ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa, confirmou que, ao fim de três anos, o Governo acabara de descobrir que há «produtos que têm efeitos nocivos para a saúde», pelo que há que tributá-los mais: «Na linha do que se faz noutros países, ponderando os seus exemplos, queremos criar condições para que haja menor propensão para o consumo de produtos associados a riscos específicos para a saúde, melhorar os hábitos de consumo das pessoas»;
    • No dia 18 de Abril, ou seja, dois dias depois das declarações da Miss Swaps, o «soldado disciplinado» Pires reagiu, quase deixando subentendido que terá havido um outro Conselho de Ministros extraordinário para o qual o CDS-PP não fora convidado: «Não há taxa. É uma ficção, um fantasma que nunca foi discutido em Conselho de Ministros e cuja especulação só prejudica o funcionamento da economia».

O «soldado disciplinado» Pires, que se rendera sem condições na questão do IVA da restauração, vê agora estar a ser preparado um agravamento da tributação sobre a restauração. O que se ouviu da sua parte não foi um rugido de oposição, foi um gemido de resignação: «nunca foi discutido em Conselho de Ministros».

Condenado a ser a muleta do Governo (e mais cedo ou mais tarde descartável), o futuro do partido unipessoal de Paulo Portas faz lembrar a «Chiclete» dos Táxi: «A gente vê como uma chiclete/ Que se prova, mastiga e deita fora, se demora». Ocorreram nas últimas semanas vários episódios que confirmam que, ao recuar na demissão «irrevogável» em Julho do ano passado, Paulo Portas ficou desarmado e que a sua permanência no Governo já nem como «um acto de dissimulação» se pode caracterizar. Foi apenas um acto de rendição.

Repare-se nesta sequência de episódios:
    1. Passos Coelho vai, no dia 12 de Abril, a Valpaços, acompanhado por Agostinho Branquinho, secretário de Estado da Segurança Social, onde anuncia uma «(contra-)revolução» na segurança social, a qual nesse mesmo dia não foi confirmada à TSF por Mota Soares, que é, até ver, o ministro da pasta. Esta situação só pode ter uma leitura: o ministro da Segurança Social foi posto à margem deste processo, sendo entregue pelo alegado primeiro-ministro a gestão e a distribuição dos dinheiros da segurança social ao apparatchik laranja Agostinho Branquinho, com os perigos a que Pedro Adão e Silva chama a atenção aqui.

    2. A mutilação das pensões está a ser maquinada no Terreiro do Paço, com Mota Soares, que apenas esteve presente a uma reunião do grupo de trabalho, colocado novamente à margem do processo.

    3. Paulo Portas voltou a meter a viola no saco na questão da descida do IRS em 2015: ainda teve um arroubo com a cena de ler o guião da «reforma» do Estado no telemóvel, mas lá teve de fazer um comunicado quase clandestino a sustentar que não tinha divergências com a dupla Passos Coelho e Miss Swaps.

A própria encenação de um segundo acto com a reformulação do borrão da «reforma» do Estado não correu bem a Paulo Portas.

Ao CDS-PP exige-se-lhe, na hora actual, que levante apenas o braço nas votações no parlamento, dando-se-lhe em troca uns lugares no aparelho do Estado e um monte de honrarias ao chefe, como se se tratasse de um general graduado do Burkina Faso. Até o partido do táxi tinha outra dignidade.

Leituras

sexta-feira, Abril 18, 2014

Barroso rima com mentiroso


Um dos vários aspectos em que Barroso não reprimiu, na entrevista ao Expresso, a sua irresistível propensão para fugir a sete pés à verdade dos factos aconteceu quando o ainda presidente da Comissão Europeia afirmou que não havia aconselhado Portugal a fazer investimento público, incluindo o recurso a PPP, quando rebentou a crise em 2008. O Expresso reconstitui hoje os factos e revela que Barroso mentiu:
    «O plano de Barroso de combate à crise financeira de 2008 acabou por ser aprovado no início de 2009, só que pouco tempo mais tarde, já em 2010, foi abandonado subitamente com o eclodir da crise das dívidas públicas, que começou por apanhar a Grécia e alastrou pela UE, provocando ainda o resgate da Irlanda nesse ano e o de Portugal na primavera, seguinte. Quando a Europa de Barroso decidiu tirar o pé do acelerador do investimento, Sócrates defendeu que isso era um enorme erro e passou a dizer amiúde que "o mundo mudou". A versão dos acontecimentos nunca será coincidente, mas o incentivo ao investimento por parte da Comissão é absolutamente inequívoco.»

Está aqui a comunicação da Comissão Europeia para o Conselho Europeu, assinada por Barroso a 26 de Novembro de 2008, a propor a adopção do «Plano de relançamento da economia europeia».

Este canastrão, que anda por aí de comício em comício, tem em muito má conta o povo português, quando pensa que pode mentir e passar incólume.

ADENDA — A Shyznogud reproduz extractos da notícia do Expresso.

Quantos portugueses se arrependeram do voto dado em 2011?

Hoje no Expresso/Economia (via Nuno Oliveira)
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Uma campanha alegre¹



O dia 16 de Abril representa um marco histórico: Portugal entra para o restrito clube dos países que possuem drones. Pode haver portugueses a morrer por falta de cuidados de saúde, mas o Governo orgulha-se de ter adquirido veículos aéreos não tripulados de comando remoto. São os submarinos-que-se-arranjam-em-tempos-de-austeridade.

A cerimónia de entrega do primeiro veículo aéreo não tripulado de comando remoto, que contou com a presença do ministro da Defesa, correu como o vídeo supra mostra. Não fosse o encerramento dos Estaleiros de Viana do Castelo, bem poderia ser este um bom retrato da passagem de Aguiar-Branco pela pasta da Defesa Nacional: quando se suplicava que o drone levantasse voo, ele teimou em deitar-se e afundar-se em águas lamacentas. Não há controlo remoto que lhe valha.

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¹ Eça antecipou, em 1871, a cerimónia abrilhantada por Aguiar-Branco em Uma campanha alegre, XVIII – A marinha e as colónias.

De novo acima do paralelo 38

Miguel Tiago (à esq.), que trocou a luta de massas pela luta individual

Em 2003, ficou famosa a declaração de Bernardino Soares: «Tenho dúvidas de que a Coreia do Norte não seja uma democracia». Hoje, o Expresso dá conta de que Miguel Tiago, outro deputado do PCP, se envolveu numa acalorada conversita no Facebook, fazendo finca-pé de que na praça de Tiananmen não ocorreu um «massacre» há 25 anos (ou, para se ser mais rigoroso, não existe «uma única prova» de que tivesse ocorrido).

O que surpreende não é a cegueira de que enfermam alguns excelsos dirigentes do PCP. O que surpreende é que o próprio PCP não se coíba de revelar que se revê no programa e na praxis de partidos como o Partido dos Trabalhadores da Coreia ou o Partido Comunista da China, considerando-os, por isso, partidos irmãos. Dá má fama ao socialismo. E creio ter efeitos bem mais perniciosos do que «a cassete dos EUA sobre a China».

Estado social:
os cortes que não passam pelo Tribunal Constitucional

Hoje no Expresso

O Governo decidiu, através de uma simples portaria assinada por um simples secretário de Estado, fazer uma profunda alteração da rede hospitalar pública, fazendo crer que está apenas a «categorizar os serviços e estabelecimentos do Serviço Nacional de Saúde (SNS)». José Neves, director da cirurgia cardíaca do Hospital de Santa Cruz, escreve hoje um artigo no Expresso, no qual lança um grito de denúncia de mais um passo no desmantelamento do SNS — no caso analisado, o Hospital de Santa Cruz e o Centro Hospitalar de Gaia, estabelecimentos de excelência no domínio da cirurgia cardiotorácica, que «operam anualmente cerca de mil e de 900 doentes respectivamente e fazem mais de dois mil cateterismos cada» (cerca de 25% da actividade do país).

Diz José Neves:
    «Ao extinguir dois serviços de cirurgia é impossível aos outros quatro centros absorverem esta atividade. Nos últimos anos a diminuição do valor pago por doente e o limite orçamental imposto a cada hospital têm impedido o aumento da atividade cirúrgica nos centros públicos. O tempo de espera para cirurgia cardíaca está entre três e seis meses para casos eletivos. O Governo não quer ou não pode assegurar o atual nível de serviços de saúde. Mas a cirurgia cardíaca nas instituições privadas tem preços superiores a dez mil euros, que quase sempre excede o limite dos seguros privados e torna pesada a franquia de 20% da ADSE. A população está dependente deste serviço público com impacto imediato na duração e na qualidade de vida. Vai-se limitar o acesso dos portugueses à saúde na cirurgia cardíaca!»

O Hospital de Santa Cruz não tem tido défices. Mas, ao acabar a cirurgia cardiotorácica e os cateterismos de intervenção, o hospital fica esvaziado e inviável. A atividade remanescente terá de ser deslocada. Ou vende-se ou vai-se fechar o hospital, diz José Neves. Ou dá-se.

Os cortes temporários nos salários e pensões duraram três anos
e os definitivos só vão durar dois anos?


• Pedro Sousa Carvalho, Sem gordura, sal e açúcar é intragável:
    «Maria Luís Albuquerque e Pedro Passos Coelho apresentaram esta semana as medidas com que o Governo pretende reduzir o défice no próximo ano de 4% para 2,5%. Uma receita de austeridade que visa cortar na gordura do Estado, que põe os portugueses a consumir menos sal e açúcar e que deixa os funcionários públicos e pensionistas a cozinhar em lume brando até ao final do mês, altura em que serão anunciados os cortes definitivos nos salários e pensões. E, para acompanhar, uma dose q.b. de contradições.

    Primeira contradição. Em Abril de 2011, a poucos meses de ser eleito primeiro-ministro, Passos Coelho fez a seguinte promessa: "Eu posso garantir-vos, não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro, mas temos de ser efectivos a cortar nas gorduras." Precisamente três anos depois, e muitos cortes de salários mais tarde, eis que o Governo vem apresentar um ambicioso plano para cortar naquilo que se convencionou chamar "gorduras do Estado". Do pacote de 1,4 mil milhões de euros de medidas anunciadas para 2015, a grande fatia (1,2 mil milhões de euros) tem a ver com emagrecer a máquina do Estado. A intenção é boa, mas já vem com três anos de atraso.

    Na entrevista que deu à SIC, o primeiro-ministro argumenta que de 2011 a 2013 já tinha cortado 1,6 mil milhões de euros de gorduras do Estado. Ontem, o Jornal de Negócios lembrava, e bem, que as contas de Passos Coelho estão inflacionadas pelos submarinos de Paulo Portas, ou seja, sem o efeito contabilístico do Arpão e do Tridente, o corte de gorduras fica-se pelos 754 milhões de euros. Se em três anos cortou 754 milhões, como é que num só ano irá cortar 1,2 mil milhões? Como o Governo se limitou a atirar o número para cima da mesa, sem explicar onde vai cortar, ficamos na mesma.

    Segunda contradição. Maria Luís Albuquerque diz que o Governo está a pensar criar uma taxa para penalizar o consumo de produtos nocivos à saúde, ou seja, aqueles que têm alto teor de sal ou demasiado açúcar. Só que a ministra condiciona a aplicação desta medida à necessidade de reduzir as dívidas acumuladas no sector da saúde. Mas o secretário de Estado da Saúde, Fernando Leal da Costa, disse ontem ao PÚBLICO que o objectivo da taxa é melhorar os hábitos de consumo das pessoas. Ora bem, se o Governo conseguir reduzir as dívidas na Saúde, deixará então de se preocupar com a saúde dos portugueses? É o que se chama disfarçar uma medida economicista com uma medida de saúde pública.

    Terceira contradição. O Governo anunciou também a intenção de criar uma taxa para a indústria farmacêutica. Mas pelos vistos Paulo Macedo faz depender a aplicação dessa taxa à negociação entre o Ministério da Saúde e a Apifarma para redução dos preços dos medicamentos hospitalares. O Governo quer aplicar aos laboratórios uma taxa como fez com a banca, telecomunicações e energia, ou simplesmente está a chantagear a indústria para chegar a um acordo sobre a redução das despesas com medicamentos?

    Quarta contradição. O Governo já tinha anunciado a intenção de transformar os cortes temporários nas pensões e nos salários da função pública em cortes definitivos. Ficou a promessa de Passos Coelho de desvendar até ao final deste mês o que vai acontecer ao rendimento desses dois grupos que têm sido particularmente fustigados pelos cortes. Para os pensionistas, a ideia é substituir a contribuição extraordinária de solidariedade (CES) por uma nova fórmula de cálculo das pensões que vai implicar reformas mais baixas no futuro e, supostamente, para todo o sempre. Para os trabalhadores do Estado a ideia é criar uma nova tabela remuneratória única e proceder a um corte nos suplementos para substituir os cortes temporários de 2,5% a 12% que estão actualmente em vigor. Mas eis que na entrevista que deu à SIC o primeiro-ministro veio dizer que o Governo afinal vai "ter de desonerar os salários e pensões", "possivelmente em 2016". A ver se nos entendemos. Então o Governo faz cortes temporários que duram três anos e agora promete que vai fazer cortes definitivos e permanentes que só vão durar dois anos?

    Quinta contradição. Na mesma entrevista à SIC, confrontado com a intenção já anunciada por Paulo Portas de baixar o IRS em 2015, ano de eleições, Passos Coelho vem dizer que "não há nenhuma promessa para baixar o IRS". Menos de 24 horas depois, eis que Paulo Portas aparece para dizer, citando o guião da reforma da sua autoria, que "o Governo tem consciência da necessidade de criar condições para começar a inverter a trajectória de agravamento do IRS. O início desse processo deverá ter lugar ainda nesta legislatura". É impressão minha ou o líder do CDS-PP está a dizer precisamente o contrário do primeiro-ministro? Afinal em quem é que vamos acreditar? No primeiro? Ou no seu vice?

    Depois de cozinhar todas estas contradições, sem sal, sem açúcar, e sem gorduras, chega-se à conclusão de que o discurso do Governo está a ficar meio intragável e difícil de digerir.»

Passos teve «infelicidades verbais várias» na entrevista à SIC,
segundo um ministro (Expresso) [2]

Hoje no Expresso (via Nuno Oliveira)
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Passos teve «infelicidades verbais várias» na entrevista à SIC,
segundo um ministro (Expresso) [1]


• Fernanda Câncio, Passos, o cristalino:
    «"Vamos ter no que respeita a salários e a pensões no futuro de os desonerar. Isso é claro. Possivelmente em 2016." 15/4/2014

    "O que é importante as pessoas terem como garantia, para saberem com o que contam, é que não alargaremos estes cortes. Isso é inequívoco." 15/4/2014

    "Estas medidas que são de facto temporárias vão ter de permanecer mais algum tempo." 15/4/2014

    "Teremos até ao fim deste ano de substituir estas medidas por outras que vigorem daqui para a frente. À medida que ultrapassamos a situação de emergência essas medidas têm de ser de substituídas por outras que não são de emergência." 15/4/2014

    "Às vezes por facilidade fala-se de medidas definitivas. Ora isso não faz sentido." 15/4/2014

    "Alargámos aquele corte de salários que já vinha do tempo do engenheiro Sócrates um pouco acima da taxa dos 10% até aos 12% - começámos um pouco mais em baixo, nos 2,5% e depois até aos 12%." 15/4/2014

    [Sócrates efetuou um corte médio de 5%, iniciado em 3,5% nos 1500 euros, sendo de 10% a partir dos 5000; o atual corte inicia-se com 2,5% nos 675, é de 8,61% nos 1500, de 10% nos 1800 e de 12% a partir dos 2000.]

    "Os 15% de pensionistas que são abrangidos pela CES a partir de 1350 euros têm uma taxa mais progressiva." 15/4/2014 [Aplica-se este ano a partir dos mil euros.]

    "A ideia de que estamos aqui a esconder essas medidas e que de facto o que vamos fazer depois é aumentar os cortes sobre as pensões e sobre os salários, isso não corresponde à realidade e não há nenhuma razão para estar a criar nas pessoas essa ansiedade." 15/4/2014

    "A redução nunca será tão grande como é hoje, mas terá de continuar a existir uma redução da pensão." 15/4/2014

    "Não faz sentido fazer especulação sobre um eventual corte permanente nas pensões. O debate devia ser mais sereno e informado e os membros do Governo deveriam contribuir para isso." 27/3/2014

    "Se eu tivesse já a medida duradoura para poder apresentar, apresentava-a já aqui." 15/4/2014

    "Há uma tentativa de criar uma ansiedade desnecessária junto das pessoas mas não é o Governo que a está a criar." 15/4/2014

    "A partir de 2015 iniciaremos a reposição gradual (...) dos cortes nos salários da função pública efetivados em 2011. O Documento de Estratégia Orçamental hoje aprovado não prevê mais medidas de austeridade (...) até 2016." 30/4/2012

    "O Governo já disse que não é possível repor o nível de salários e pensões como eles estavam em 2010." 15/4/2014

    "Os cortes salariais assumidos este ano são temporários. Mas não podemos regressar ao nível salarial de 2011." 5/3/2014

    "Não quero contribuir para criar nenhuma ideia incorrecta face àquilo que o Governo virá a decidir." 15/4/2014»

quinta-feira, Abril 17, 2014

Gorduras do Estado: das mistificações de Passos


Foi o Nuno Pires que chamou à minha atenção para a notícia do Jornal de Negócios: «Às vezes criam-se ideias que não são correctas», afirmou, na terça-feira, Passos Coelho, em entrevista à SIC. O alegado primeiro-ministro argumentava que o Governo tem trabalho feito no corte de consumos intermédios, referindo uma redução de 1,6 mil milhões de euros no Estado — as tão faladas gorduras. E dizia mais o pantomineiro-mor: «Muitas vezes diz-se 'mas só agora é que estão a prestar atenção aos consumos intermédios? O que andaram a fazer nestes três anos?' Em 2010 gastávamos 8,9 mil milhões de euros em consumos intermédios.»

Passos Coelho esqueceu-se de um pormenor: havia sido contabilizado em 2010 o pagamento em falta dos submarinos de Paulo Portas (880 milhões de euros), montante esse que empolou os consumos intermédios desse ano, mas já não influenciou as contas dos anos seguintes. Assim sendo, todas as avarias do Governo resumiram-se a uma lipoaspiração no valor de 754 milhões de euros — tendo-se o Governo vingado sobre os trabalhadores do Estado e os pensionistas.

Gabriel García Márquez (1927-2014)

Duche frio

Le Monde, amanhã

“(…) L’Europe cristallise d’autant plus les critiques que la majorité a l’impression de s’être fait flouer. Après les municipales, François Hollande avait laissé entendre qu’il ferait desserrer l’étau budgétaireet, danssondiscoursdepolitiquegénérale, Manuel Valls entretenait l’espoir sur l’objectif de 3% de déficiten2015. Douche froide. Non seulement le premier ministre a promis, lundi à Berlin, de respecter les 3% mais, en plus il n’a même pas pu demander de délai supplémentaire.

(…)

En face, la résistance s’organise. A une demi-heure des questions au gouvernement, mercredi après midi, l’ordre du jour est bousculé pour laisser le président de groupe PS, Bruno Le Roux, monter au front et poser la première question. «Députés dela majorité, Monsieur le premier ministre, nous vous soutenons pour refuser l’austérité et les coupes aveugles et porter, comme vous le faites, une nouvelle ambition», déclame l’élu de Seine-Saint-Denis, timidement applaudi par les siens. La veille, déjà, le secrétaire d’Etat aux relations avec le Parlement, Jean-Marie Le Guen, avait fait la leçon aux députés en les appelant à la «responsabilité».

Au milieu du champ de bataille, le président de l’Assemblée, Claude Bartolone, «joue le grand frère, en nous recommandant le calme et la patience», raconte un député, et la toute nouvelle rapporteuse du budget, Valérie Rabault, vit son baptême du feu. «Le point qui peut faire discussion est le report de la revalorisation des retraites, notamment pour les plus modestes», se borne-t-elle à dire quand son collègue de la com mission des finances, Pierre-Alain Muet, rejette le paquet global. «50 milliards d’euros de réduction en trois ans, c’est trop!», assure-t-il, appuyé par Laurent Baumel, selon qui ces mesures «montrent qu’on ne peut pas faire 50 milliards d’euros d’économies sans toucher à notre modèle social». (…)”

Oito meses em banho-maria


Lido hoje no i:
    «Foi preciso esperar quase oito meses para que a primeira conversa telefónica entre Pedro Passos Coelho e o presidente do BESI (Banco Espírito Santo Investimento), José Maria Ricciardi, escutada durante a investigação do caso Monte Branco, chegasse às mãos de um juiz. Até então, esta primeira conversa, registada em Janeiro de 2012, tal como as outras cinco gravações¹ de telefonemas entre Ricciardi e o primeiro-ministro, tidas em Fevereiro e Julho de 2012, terão tido todas o mesmo destino: terão ficado "em banho-maria" no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), então liderado por Cândida Almeida.»

Tenho uma explicação para a circunstância de Cândida Almeida — a fazer fé no i — ter deixado as escutas telefónicas oito meses em banho-maria: a procuradora-geral adjunta estava a preparar, completamente absorvida, a comunicação que iria fazer, nesse ano, na «universidade» de Verão do PSD. E a verdade é que, apesar desta prolongada reflexão, a coisa não lhe saiu lá muito bem em Castelo de Vide.

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¹ Dez gravações, corrigiu o Expresso.

10 telefonemas 10


      — Tá, Pedro?
      — É o Zé Maria, por causa do pote…
      — À décima vez, não havia de conhecer a tua voz?

José Maria Ricciardi disse ter tido duas conversas ao telefone com Pedro Passos Coelho, mas sabe-se agora que há registos de «dez escutas telefónicas». Segundo o Expresso, «as escutas estão relacionadas com alegados crimes de tráfico de influências, corrupção e informação privilegiada no caso das privatizações da REN e da EDP.» Como sempre, o gabinete do alegado primeiro-ministro não se pronuncia.

Tendo caído sobre isto um estranho manto de silêncio, nem a ministra da Justiça nos pode valer, apesar de ter garantido ter acabado «o tempo de impunidade».

ADENDA — A boutique financeira Perella Weinberg, que parece ter sido muito falada nos dez telefonemas entre Passos Coelho e Ricciardi, volta a ser escolhida pelo Governo para a privatização dos 11% que o Estado ainda detém na REN, «a rede de todas as redes», hoje decidida pelo Conselho de Ministros.

Oitenta portugueses no corredor da morte¹

Hoje no DN (clique na imagem para a ampliar)

¹ Expressão rapinada a Francisco Fortunato, no Facebook.

Maçães, Lomba, Rangel...


• Francisco Assis, Dois pequenos génios condenados à incompreensão:
    «1. A qualidade de um governo mede-se, em grande parte, pelo nível intelectual e político dos secretários de Estado que o integram. É como o teste do algodão: nunca engana.

    Bruno Maçães e Pedro Lomba são o espelho do executivo que temos: ideologicamente primário, tecnocraticamente incompetente, politicamente inexistente. (…) A questão é outra: um membro do Governo deveria ser obrigado a possuir competências e qualificações que estas duas personagens obviamente não têm. Nisso são iguais ao resto do Governo que integram. Um especializou-se em escrever tweets patetas num inglês próprio de quem nunca leu Shakespeare, nem sequer em tradução portuguesa; o outro fala de História com a ligeireza própria de um pequeno apparatchik ligeiramente alfabetizado. (…) Pedro Lomba, num peculiar acesso de insanidade, lembrou-se, qual hermeneuta genial, de atribuir ao presente Governo o estatuto de verdadeiro intérprete do espírito original do 25 de Abril. Pelos vistos, a acreditar em tão sofisticada análise histórica, os capitães de Abril, contrariamente ao que a direita sempre afirmou sobre os mesmos, não passavam de dilectos discípulos de Friedrich Hayek e Milton Friedman, valorosos antecessores de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher, inesperados precursores do pensamento neoliberal na sua formulação mais extremista. Naquela madrugada Salgueiro Maia teria em vista a instauração em território luso do modelo de organização económica que Pinochet tinha instaurado alguns meses antes no recôndito Chile. Foi pena Friedman não se ter apercebido disso. Teria mandado os “Chicago boys” directamente para a Portela. Sempre evitaria a perniciosa associação do seu pensamento a uma tenebrosa ditadura de direita. Contudo, apesar do prémio Nobel, a imaginação de Friedman fica a léguas da prodigiosa capacidade inventiva de Pedro Lomba. Este não faz a coisa por menos: eis finalmente um governo que quase 40 anos depois da Revolução de Abril a reconcilia com os seus propósitos iniciais. Tanto tempo perdido, tanto Estado social indevido, tanta igualdade ilegítima, tanta liberdade desperdiçada, tantas vidas inutilmente realizadas. Afinal de contas, tudo se resumia a uma verdade mais simples: o 25 de Abril fez-se para que os portugueses vivessem pior, a liberdade então reencontrada só poderia ter sentido se fosse a condição para a consolidação de profundas desigualdades então já verificadas, a única coisa que importava era libertar o capitalismo mais radical das limitações próprias de um sistema politicamente autoritário. Pedro Lomba nunca chega a ser trágico – limita-se a navegar entre o patético e o ridículo. Infelizmente, ele é hoje mais do que ele próprio: é um dos rostos de um governo despudoradamente ignorante e aviltantemente sectário. Bruno Maçães parece ser homem de outra cepa. Foi a Atenas mascarado de pequeno alemão, empenhado em dar lições a um povo que já conhece a democracia há mais de dois mil anos. Maçães escreve em inglês e pensa com a densidade própria de um robot tecnocrático dos tempos contemporâneos. Aqui há dias, num desses lampejos geniais que só está ao alcance das mentes verdadeiramente simples, atacou a herança socialista que identificou com 35 dos últimos 40 anos da nossa vida colectiva nacional. Como Pacheco Pereira, esse estranho homem de ideias, se atreveu a recordar, os socialistas não governaram tanto tempo no nosso país. (…) Até que um dia surgiu, desse assombroso nevoeiro de que emergem os nossos heróis imaginados, um homem destinado a romper com tudo, a assumir como destino a indómita tarefa do empobrecimento nacional. Pedro Passos Coelho tornou-se o D. Sebastião destas mentes propensas a cair no abismo de uma paixão ideológica a raiar a obsessão. Claro que o líder, mau grado o que vai afirmando, se empenha sempre em denegar os seus propósitos essenciais em períodos pré-eleitorais. Nisso Passos Coelho é menos do que um político vulgar. Transforma-se num lamentável demagogo. Nessas ocasiões os seus prestimosos secretários de Estado olham para o lado. Eles têm outra dimensão: estão destinados a dar lições de História aos portugueses e explicações de ética política aos gregos. No fundo, Bruno Maçães e Pedro Lomba são dois pequenos génios condenados à incompreensão. Como podem ser torpes as democracias e ingratos os povos.

    2. Paulo Rangel parece um disco riscado. Uma só palavra – despesismo. Uma só obsessão o PS. Uma só ilusão – a ideia de que os portugueses ainda se deixam enganar. Por trás disto tudo anuncia-se uma inesperada evidência: a cultura pode combinar com a demagogia, o talento pode estar ao serviço do extremismo. Quando assim é, tudo se torna mais perigoso. Paulo Rangel, diga-se em nome da verdade, é um dos melhores intelectos da direita portuguesa. O que o torna não necessariamente no adversário mais temível. Os espíritos mais débeis são sempre melhores soldados no exército dos extremistas dogmáticos. Por muito que tente, aulo Rangel será sempre uma longínqua imitação de um pobre secretário de Estado do presente Governo.»

A história da história da crise

• Tiago Barbosa Ribeiro, A história da história da crise:
    «Esta semana mostrou até ao osso como os liberais conseguiram difundir ideias tão simples quanto falsas sobre as origens da nossa crise. Invariavelmente, a história começa assim: há uns anos, não muitos, os socialistas governaram o país. Ah, foi um banzé desgraçado. Gastaram dinheiro a rodos e a dívida subiu. Pronto. (O facto de terem conseguido o défice mais baixo da história portuguesa não conta. Nem a crise das dívidas soberanas. Nem o estouro financeiro internacional. Nem os investimentos para superar os verdadeiros atrasos estruturais do país: educação, qualificações, tecnologia. “Psst”.).»

quarta-feira, Abril 16, 2014

O ABC da economia portuguesa


Excelente intervenção de Pedro Nuno Santos
na audição do ministro da Economia no parlamento

Já não há detidos no caso do banco do PSD

SIC-Notícias

ADENDA:
    Expresso: «Duarte Lima vai hoje deixar de usar a pulseira eletrónica, segundo revela ao Expresso o seu advogado Rogério Alves. O ex-deputado do PSD, um dos seis arguidos em julgamento no processo relacionado com aquisição de terrenos no concelho de Oeiras, através de empréstimo concedido pelo BPN, "foi ontem notificado", assegura o ex-bastonário da Ordem dos Advogados, sem adiantar mais pormenores.»

    SIC-Notícias: «A decisão foi tomada fora do âmbito da revisão habitual das medidas de coação e sem ser a pedido formal do arguido.»

Entrevista de Passos Coelho

Rapinado a Mariana Pessoa

Se não assistiu à entrevista de Passos (que foi a segunda menos vista desde que chegou a São Bento), a TVI 24 (vídeo) dá-lhe uma excelente perspectiva do que aconteceu:
    • Primeiramente, com Filipe Santos Costa, que deixou David Dinis às aranhas para amortecer a indigência habitual do alegado primeiro-ministro; e
    • Em seguida, com Augusto Santos Silva, que dedicou uma boa parte do seu espaço de opinião a explicar em pormenor o que está em causa no saque das pensões de reforma, fazendo-nos ver para lá da poeira que resulta do confuso debate entre Roma e os Hunos.
Vale muito a pena (re)ver o programa Política Mesmo de ontem.

A morte que está na televisão

• João Lopes, A morte que está na televisão:
    «(…) É, isso sim, a ideologia populista de um jornalismo que José Alberto Carvalho representa com evidente felicidade e pureza de espírito. O seu modo de estar e fazer televisão envolve, afinal, um imenso poder cultural - estas palavras são apenas para lembrar que ainda há minorias.»

Dívida: um debate moral


• Pedro Nuno Santos, Dívida: um debate moral:
    «Os adversários da reestruturação da dívida pública têm travado o seu combate no plano económico e moral, mas é sobretudo neste último que têm tido mais sucesso. No plano económico, os partidários da reestruturação/renegociação da dívida ganharam de forma inequívoca; mas no plano moral, grande parte deles acabou por se colocar à defesa - ou porque aceitam as premissas da direita, ou porque desistiram de as confrontar.

    1. A direita alimenta a ideia da culpa - "a dívida é consequência dos portugueses terem vivido acima das suas possibilidades e do despesismo" - e a esquerda desistiu de explicar as consequências assimétricas do processo de integração europeia, desde a adesão ao euro, até ao alargamento a leste e à liberalização do comércio com a China.

    2. A direita defende que, ao contrário deles, a esquerda não quer pagar o que deve; já a esquerda refere poucas vezes que não se trata de nos dividirmos entre os que querem pagar e os que não querem, trata-se sim de fazer uma escolha. E o governo já a fez - para não falhar um único cêntimo com os credores internacionais, decidiu "não pagar" parte dos salários e das pensões aos trabalhadores do sector público e aos pensionistas.

    3. A direita fala dos credores como beneméritos, aos quais não é justo imputar perdas; a esquerda não tem explicado que os nossos credores não nos "emprestaram dinheiro", fizeram um investimento financeiro em títulos de dívida pública e que, como qualquer outro investimento com risco, pode correr mal, não porque o povo português seja desonesto, mas porque o país enfrentou uma crise profunda, com consequências incontornáveis na sua capacidade de pagar. Em qualquer investimento que corre mal há perdas para o devedor e para o credor, porque haveria de ser diferente no investimento em títulos de dívida pública?

    Como disse o arcebispo Silvano Tomasi, Observador Permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas, ainda em 2012: "A dívida externa é só um sintoma da falta de justiça no fluxo de capitais mundiais" e "A riqueza e a dívida devem servir o bem comum. Quando se viola a justiça, a riqueza e a dívida tornam-se instrumentos de exploração".»