domingo, julho 05, 2015

Da série "Frases que impõem respeito" [931]


O governo português vai ter de explicar ao seu povo porque não lutou pelos direitos das pessoas, como lutou o nosso aqui na Grécia. Vai ter de explicar porque disse que sim a tudo, porque nunca fez frente à UE.
      Stavros Stellas, um grego que saiu à rua para festejar a vitória do «não», segurando na mão uma bandeira de Portugal, porque Grécia e Portugal, diz, atravessam o mesmo problema

«Ora aí está uma boa pergunta»

    «1. Hoje, entre as 21h45 e as 22h30 (de acordo com a informação que recebi), estarei num debate sobre o resultado do referendo grego, na TVI 24. Já imagino as vossas perguntas:

    2. Como é isso possível? Ora, porque fui convidado.

    3. Mas convidado por quem? Ora, por quem de direito na própria TVI24.

    4. Mas porque disse que sim? Ora, porque tenho uma relação contratual com a TVI24 até ao fim de julho e faço agora o que sempre fiz no seu decurso: participar em todos os momentos adicionais para que sou preciso e que fazem sentido.

    5. Mas, então, é ao mesmo tempo afastado da estação, por rescisão unilateral do contrato, e solicitado para mais participações? Ora aí está uma boa pergunta.»

De novo sobre os critérios editoriais do Expresso

Ontem no Expresso (p. 10)
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Para quem quiser saber o que o PSD, o CDS e o Presidente da República querem que se saiba, não há nada como ler o Expresso. Está lá o essencial, às vezes com um arrebatamento que nos faz crer que as folhas partidárias não fariam melhor.

Não é assim com o PS. O semanário não publica as posições de António Costa, mas está a habituar-se a publicar o que a coligação de direita diz (e quer que se diga) sobre o PS. Aconteceu ontem a propósito dos caminhos a trilhar pela União Europeia na sequência da situação grega.

Com efeito, pode concordar-se ou discordar-se das posições de António Costa, mas a verdade é que António Costa tem mantido uma visão coerente sobre a Europa — e em particular sobre a necessidade de mudança de políticas em relação aos países periféricos —, defendendo uma convergência de posições e não rupturas que podem enfraquecer as opções negociais. Veja-se, a título de exemplo, o que disse o secretário-geral do PS ao Público em 5 de Março:
    «Sempre tenho dito que numa Europa a 28 ninguém pode antecipar ou prometer um resultado. Temos sido bem avisados em não nos amarrarmos a uma única solução, porque quando se vai para uma mesa de negociações tem de se ter claro qual é o objectivo, mas tem de se ter a disponibilidade de trabalhar com as diferentes variáveis e encontrar as melhores soluções para alcançar esse objectivo.»

Esta passagem da entrevista de António Costa é suficiente para concluir que, na hipótese mais benigna, a jornalista do Expresso não faz o trabalho de casa. E, ironia das ironias, conhecidos os resultados do referendo grego, é capaz de não ser Passos Coelho, com as suas posições submissas, quem possa «arrecadar ganhos com a Grécia» (aceitando pôr as coisas nestes termos bizarros).

Asfixia antidemocrática


    «O arbitrário afastamento de Augusto Santos Silva do comentário político da TVI24, uma das poucas vozes da área do PS com presença regular (aliás de grande qualidade) no comentário politico nas televisões, vem acentuar o monopólio da direita na comunicação social. Já era assim nos canais de sinal aberto. É cada vez mais assim nos canais de assinatura.

    A poucos meses das eleições, o principal meio de difusão de ideias e argumentos políticos faz ostensiva campanha pela direita. Quando está em causa uma óbvia violação do mais elementar equilíbrio político e dos direitos da oposição, nem a autoridade reguladora nem o Presidente da República cuidam de emitir uma palavra em favor do pluralismo político nos media e do respeito pelas regras do debate democrático

Pela sua saúde

«Os índios nunca podem saber mais do que o chefe»


• João Caraça, O fim da Comissão Europeia:
    «(…) Qualquer que seja o resultado do referendo na Grécia, sobrará sempre o problema da Comissão Europeia: para que vai servir no futuro? Os fundos que redistribui são claramente insuficientes (dez vezes menos) para fazer convergir as regiões menos avançadas com as mais desenvolvidas; as políticas que promove têm um contributo indefinível para a competitividade da economia europeia; a ideia mais ridente de futuro que nos transmite é a de alimentar negociações e barganhas políticas contínuas e infinitas até altas horas da madrugada.

    São os governos nacionais que são responsáveis pelos problemas dos Estados membros. Foi o que a crise ‘grega’ definitivamente a todos mostrou. A Comissão está para além dos governos dos países membros e a sua utilidade, para a grande maioria dos cidadãos europeus é, neste momento, nula. A globalização, ‘arma’ americana contra a guerra-fria (que acabou por vencer) vai desmantelando as organizações que dela nasceram: a CEE (que se empinou até se transmutar em UE) é um desses casos. Os índios nunca podem saber mais do que o chefe.»

«Não se deve apenas olhar para a Grécia
através do microscópio do FMI»

• Jacques Delors , Pascal Lamy e António Vitorino, UE e Grécia: mudar de óculos e continuar a odisseia:
    «(…) O drama grego não é nem será apenas nacional: tem e terá consequências no conjunto da Europa, da qual a Grécia faz parte integrante pela sua história, mas também pela sua geografia.

    Não se trata, pois, de perder tempo a medir as consequências económicas e financeiras mais ou menos limitadas de uma saída da Grécia da união monetária: trata-se de apreender a evolução da Grécia, numa perspectiva geopolítica, como um problema europeu que se manterá.

    Não se deve apenas olhar para a Grécia através do microscópio do FMI, é necessário olhar mas com "óculos onusianos", isto é, vermos que é um país que faz parte dos Balcãs cuja instabilidade não precisa de ser encorajada nestes tempos de guerra na Ucrânia e na Síria e, também, com o desafio terrorista — sem esquecer a crise migratória. Se continuarmos a insistir numa visão financeira, é indispensável sublinhar que a crise de liquidez actual da Grécia é consequência de uma crise de solvência, que por seu turno não é mais do que o sintoma de males bastante mais profundos: os que estão ligados às fraquezas de uma economia e de um Estado que é preciso reconstruir em todos os seus domínios, na base de reformas profundas, administrativas, judiciais, educativas, fiscais.

    Cabe à União Europeia assumir a sua parte nesta reconstrução, propondo à Grécia um plano global de três componentes. De um lado, uma ajuda financeira razoável para permitir à Grécia restaurar a solvabilidade no curto prazo. Do outro, uma mobilização de instrumentos da UE para reanimar a economia grega (fundos estruturais e de coesão, empréstimos do BEI, contribuições do Plano Juncker) e, portanto, o seu regresso ao crescimento, que reduzirá por si só o rácio dívida/PIB do país. Finalmente, colocando na ordem do dia, rapidamente, a avaliação do peso da dívida grega e das dívidas dos outros países “sob programa” num quadro europeu, desde que os compromissos com as reformas sejam mantidos. Só um tal plano global parece capaz de abrir perspectivas de esperança e de mobilização para o povo grego e para as suas autoridades, e, consequentemente, levá-los a um esforço de reconstrução de que o país precisa e do qual a União beneficiará. (…)»

sábado, julho 04, 2015

19-1≠18

Hoje no Expresso
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A locomotiva europeia

Hoje no Expresso (via Nuno Oliveira)

Um saneamento insólito


augusto+santos+silva

    «(...) o saneamento de Santos Silva do seu espaço na TVI – a crer nas notícias – é uma punição por delito de opinião. Independentemente de se concordar ou não com o formato, é para mim inesperado que o caso tenha acontecido numa estação de televisão em que pontificam dois jornalistas como José Alberto de Carvalho e Judite de Sousa. Não creio que o novo director de Informação – Sérgio Figueiredo (que não conheço) – pudesse tomar tal decisão sem o apoio do anterior director, que agora tem funções mais elevadas na hierarquia da estação.

    Santos Silva é um intelectual da política, dotado de uma inteligência fulgurante e de um verbo fácil, irónico e, não raras vezes, provocador. As suas opiniões, muitas vezes sofisticadas, irritam os adversários políticos, precisamente pela pertinência e acuidade do seu discurso. Profundo conhecedor dos meandros da política e da governação, foi várias vezes ministro, desconstrói com facilidade e conhecimento o discurso oficial e os argumentos da direita.

    As suas críticas à instabilidade horária do programa são pertinentes e representam respeito pelo telespectador, que tem o direito de ver respeitados os horários dos programas, desde logo pela TVI. Aliás, o contrato com os colaboradores deveria prever penalizações para alterações aos horários estabelecidos.

    A ser verdade que Santos Silva foi “despedido” por criticar o desrespeito dos horários do programa está criada uma situação grave para uma estação de televisão que está obrigada a respeitar a liberdade de expressão, incluindo a dos colaboradores que contrata.

    Aguardam-se pois, explicações da própria TVI sobre as causas do saneamento de Augusto Santos Silva.»

PROTAL, VALE DO LOBO - A VERDADE E OS FACTOS


    CONVITE


    PROTAL, VALE DO LOBO - A VERDADE E OS FACTOS


    Os advogados do Engenheiro José Sócrates convidam para participar numa Sessão Pública que se realiza na próxima segunda-feira, 6 de Julho, às 21H, na Sala Bruxelas, do Hotel Altis, na Rua Castilho, em Lisboa, para debater o PROT Algarve 2, com intervenção de diversos especialistas entre os quais estará presente o Senhor Professor Nunes Correia (Ex-Ministro do Ambiente do Governo do PS do Eng. José Sócrates), o Senhor Professor Doutor Miguel Prata Roque e o Senhor Eng. Luís Gomes, actual Presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António.

    O assunto interessará, em particular, a estudiosos de temas de ordenamento territorial, especialmente do Algarve; a quem tem seguido os assuntos relacionados com o processo movido ao Engenheiro José Sócrates; e, em geral, a todos os que queiram conhecer os caminhos, métodos e processos atuais da administração da justiça em Portugal.

    Participe.

    Lisboa, 3 de Julho de 2015

    João Araújo e Pedro Delille

    (via Ivanilda Barros Nunes)

O Estado laranja debruado a azul


Um assalto consumado ao longo de quatro anos: a reportagem no Sexta às 9 (3 de Julho de 2015 | Episódio 23).

UNESCO


• Francisco Seixas da Costa, UNESCO:
    «Em 2012, o Governo decidiu que a nossa missão junto da UNESCO deixaria de ter um embaixador dedicado exclusivamente à organização, como sempre aconteceu, e que o lugar passaria a ser exercido, cumulativamente, pelo embaixador em França.

    Várias vozes se ouviram contra esta decisão, demonstrando a insensatez da mesma, num tempo em que o país comemorava ainda a elevação do fado a "património imaterial" da UNESCO, quando aí levávamos a cabo uma delicada negociação para a compatibilização da construção da Barragem de Foz Tua com o estatuto do Alto Douro Vinhateiro como "património material", além de outros dossiês complexos.

    Portugal enfraqueceria assim uma das frentes de defesa e promoção da língua portuguesa, numa organização a que o Brasil ou Angola dedicavam embaixadores e uma crescente atenção, onde o modelo cumulativo de representação só era seguido por um grupo reduzidíssimo de pequenos países da UE. O acompanhamento das questões do mar, a que Portugal dedicava uma atenção pelo menos retórica, ficaria igualmente debilitado por este gesto.

    O credenciado diplomata que ocupava o posto da UNESCO estava nele há menos de um ano e teve de ser transferido para outro destino. Mudar um embaixador é caro, envolve encargos, significa a perda de uma rede de contactos. Encerrar a residência de uma embaixada também, com finalização de contratos, despedimento e indemnização de pessoal, transporte de mobiliário, etc. Mas a decisão cumpriu-se, claro. E o embaixador em França (que, por acaso, era eu) assumiu as novas tarefas. A UNESCO não gostou e fez-nos sentir isso.

    Passaram três anos. Foi agora anunciado que o Governo decidiu recolocar um embaixador junto da UNESCO. A questão, que fique claro, não está na pessoa escolhida, está na incoerência entre as duas decisões. Lá vamos ter que realugar uma casa, mobilá-la, contratar pessoal e toda a panóplia de passos necessários à instalação do novo chefe da missão.

    Ao senhor presidente da República, a quem parece que cabe a última palavra sobre a nomeação dos embaixadores, não terá por acaso ocorrido perguntar ao Governo por que motivo a solidez das razões que levaram a retirar o embaixador em 2012 (com a sua anuência) parece estarem infirmadas em 2015? Mudou o ministro? Ora essa! Então as decisões não são do Governo e esse não é o mesmo? E, no Governo, não é hoje vice-primeiro-ministro a pessoa que, em 2012, era o ministro dos Negócios Estrangeiros?

    Fica a ideia de que se anda a brincar com o dinheiro e com a dignidade do Estado.»

Grécia

O Bloco Central em edição especial com Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais, e Ricardo Paes Mamede, professor no Departamento de Economia Política do ISCTE, que se juntam aos comentadores residentes Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes, para debater a situação grega — sob a batuta clarividente de Paulo Tavares.

sexta-feira, julho 03, 2015

«Andas à procura de emprego
e a pedir à Virgem para não encontrares!»


Habituámo-nos a ver Cavaco Silva como o porta-voz do Governo. Mas nos últimos tempos o Presidente da República decidiu ir mais longe, ocupando o lugar do Dr. Relvas que o ministro Maduro não foi capaz de preencher: o de caceteiro de serviço. Ninguém se expôs tanto, em Portugal ou na Europa, como Cavaco em relação à Grécia (19-1=18).

Cavaco terá por isso surpreendido algumas almas mais inocentes ao requerer ao Tribunal Constitucional a fiscalização preventiva de normas do diploma sobre o «enriquecimento injustificado», demarcando-se aparentemente dos propósitos da coligação de direita.

Acontece que a iniciativa da coligação de direita é apenas um expediente populista para desviar as atenções dos desmandos cometidos nos últimos quatro anos (aflorados pelo Tribunal de Contas na auditoria à enxurrada de privatizações). O advogado Magalhães e Silva desmonta de uma forma simples o faz-de-conta da direita:
    «Basta ler o acórdão do Tribunal Constitucional que reprovou a lei anterior para se concluir que, também esta, vai ser reprovada. O que o PSD/CDS bem sabem.

    Esta teimosia lembra-me a observação que, a propósito do tema, farei pela enésima vez e que assente como luva à atitude parlamentar da coligação.

    No célebre filme de Ettore Scola, a avó, interpelando o neto desempregado, atira-lhe o escárnio: "Andas à procura de emprego e a pedir à Virgem para não encontrares!"»

Não significa isto que não possam ser criados crimes para combater a corrupção. Veja-se o que escrevi há mais de quatro anos:
    «1. O direito criminal português baseia-se num princípio de culpa que tem de estar vertido num facto concreto que é imputado a alguém. No enriquecimento ilícito, esse facto é pressuposto, mas não é exigida a sua concreta prova.

    2. Realmente, o enriquecimento ilícito é uma forma indirecta de punir aquilo que se presume ser corrupção. É sintomático que os arautos desta solução a apresentem como uma solução nova para punir a corrupção.

    3. Mas aqui é que está o busílis, porque como todos sabemos a presunção de inocência e o in dubio pro reo são princípios constitucionais que não podem ser ignorados. Ao pretender punir a corrupção sem a provar, o legislador estaria a consagrar uma inconstitucionalidade.

    4. Invoca-se muitas vezes a imoralidade de alguém aparecer com uma fortuna inexplicada sem que o Estado nada possa fazer. Mas não é assim. É possível criar crimes, que já existem, que obriguem a apresentar declarações de património, devidamente fundamentadas, punindo aqueles que as não apresentarem ou as não fundamentarem.

    5. Uma solução que viole os princípios constitucionais, mesmo pelos «melhores» motivos, arrisca-se sempre a instaurar um clima de injustiça e perseguição baseada nas aparências. É nestas épocas que não nos podemos esquecer que Portugal foi um dos países europeus em que a Inquisição foi mais forte e a polícia política (a PIDE) mais activa.

«A "linha dura" fez tudo o que estava ao seu alcance
para impedir um acordo que pudesse legitimar a afirmação
de uma alternativa ao pensamento dominante»


• Pedro Silva Pereira, A culpa:
    «Confirmado o referendo em Atenas e suspensas as negociações em Bruxelas, nunca esteve tão eminente o pior dos cenários para o povo grego é para a zona euro: a saída desordenada da Grécia. Na lógica simplista da política prevalecente nas modernas sociedades mediáticas, um desastre de tamanhas proporções precisa, obviamente, de um culpado, alguém a quem possam ser imputadas responsabilidades pelas consequências da ruptura a que se chegou. Ao que parece, o candidato natural é Alex Tsipras. Mas nem sempre o que parece é.

    Sem dúvida, Tsipras fez mais do que o suficiente para partilhar pesadas responsabilidades. Oriundo de uma formação política radical, o jovem primeiro-ministro grego subiu na vida política vendendo ilusões e prometendo o que não podia cumprir. Apostou tudo numa atitude negocial de confrontação - e falhou. O seu falhanço, como se vislumbra já, não é coisa pouca: implica o caos no sistema financeiro e no funcionamento da economia e do Estado. Ao longo de meia dúzia de meses, Tsipras tardou em apresentar propostas convincentes e acabou, no final, por ser forçado a consentir em quase tudo o que antes dizia rejeitar: primeiro, o agravamento da austeridade (via enorme aumento de impostos) e, depois, o pedido de um terceiro resgate. Como se não bastasse, foi dele a iniciativa de abandonar unilateralmente as negociações (que depois, desesperadamente, tentou retomar) e foi dele a ideia de convocar este bizarro referendo (enquanto ainda mantinha uma intensa troca de cartas com propostas negociais). Entretanto, o seu ministro das Finanças, Varoufakis, acenava aos eleitores com a derradeira ilusão, anunciando o propósito de regressar na segunda-feira à mesa das negociações como se nada fosse, mas em posição reforçada por um "grande não", para fechar "rapidamente" (!) um acordo imaginário, sabe-se lá com quem. Embora convocado em nome da democracia, este apressado referendo decorre sob pressupostos de tal modo falsos e em condições de tamanha anormalidade que só pode constituir um monumental equívoco democrático.

    Dito isto, que é tudo verdade, é preciso dizer também que seria um gravíssimo erro esconder as responsabilidades maiores dos credores por trás das responsabilidades do Syriza e da sua liderança. Desde logo, convém recordar que as "instituições" são responsáveis por terem imposto à Grécia e aos seus sucessivos governos uma política de austeridade errada e absolutamente devastadora, que agravou em muito o problema da dívida pública ao mesmo tempo que retirava à economia a capacidade para gerar a riqueza necessária para que essa dívida pudesse ser paga. Nesse ponto - que é o ponto essencial e que deveria inspirar não apenas um acordo mas um acordo diferente - era Tsipras que tinha razão. Sucede que as "instituições" se recusaram sempre a reconhecer o fracasso da política de austeridade e a necessidade de construir uma solução para a dívida pública grega. Pelo contrário, preferiram teimar na fracassada receita austeritária, sempre fiéis à inspiração alemã e correspondendo às inqualificáveis exigências de governos como os de Portugal e de Espanha.

    Em bom rigor, porém, também não foi a insistência na austeridade que impediu a conclusão deste acordo. De facto, não pode contar-se a história destas tumultuosas negociações ignorando um facto essencial: no início da semana passada, o Governo grego apresentou uma proposta que foi efusivamente saudada pelos parceiros europeus como "credível" e em que Tsipras cedia praticamente em toda a linha (a ponto de deixar em risco a sua própria sobrevivência política). Como aqui escrevi há oito dias, quando ainda subsistia a esperança num acordo, "depois de todas as cedências feitas pelo Governo grego, já não será possível responsabilizar o Syriza pelo falhanço das negociações". Foi o que escrevi e mantenho. Está por explicar a razão pela qual essa proposta, dita "credível", não chegou, aos olhos do FMI e das "instituições", para servir de base a um acordo que poupasse a Grécia e a zona euro ao cenário de catástrofe que agora se anuncia.

    A verdade é que, do princípio ao fim, a "linha dura" fez tudo o que estava ao seu alcance para impedir um acordo que pudesse legitimar a afirmação de uma alternativa ao pensamento dominante. Conseguiu. Aliás, conseguiria sempre. Porque sempre teve a faca e o queijo na mão.»

19-1 = 31

• João Quadros, 19-1 = 31:
    «(…) Cavaco Silva é o nosso Dalai Lama: uma pessoa incapaz de, apesar da idade, deixar de usar roupa laranja e que procura o lado metafísico da existência. Estou convencido de que os desmaios eram acessos de meditação e o sorriso das vacas, bucolismo transcendental.

    Repare, o estimado leitor, que Aníbal não está preocupado com a Grécia mas a China está... Isto demonstra a dimensão do nível de relaxamento a que chegou o nosso PR. Estamos a falar de chineses que dominam estas técnicas e que são conhecidos pela paciência. Estou convencido de que Aníbal podia andar descalço sobre a Grécia em chamas que não sentiria dor; nem a sua nem a dos outros. (…)»

Nove mitos sobre a crise grega

James K. Galbraith: 9 myths about the Greek crisis

«O nosso Mr. Chance»

• António Guerreiro, De Bruxelas, o desespero:
    «(…) Se ao menos Cavaco Silva estivesse pura e simplesmente a fazer uma conta de diminuir quando disse: “Espero que a Grécia não saia, mas se sair ficam 18 países”, o nosso Mr. Chance teria a possibilidade de ser interpretado como a voz mais sábia e esotérica do coro. (…) Enquanto toda a atenção estava concentrada nas cimeiras europeias, Obama fazia um discurso em louvor do reverendo Pinckney, uma das nove pessoas atingidas mortalmente pelo jovem racista que entrou numa igreja metodista em Charleston. É um discurso notável, improvisado ao longo de mais de trinta minutos, em que o Presidente dos Estados Unidos acaba por cantar, inesperadamente, o Amazing Grace. Se um só dirigente europeu fosse capaz de recitar, numa cimeira, a “Ode à Alegria”, Schiller erguia-se do túmulo e toda a Europa, de Weimar para leste e para Oeste, retomava a sua “tarefa infinita”.»

Ainda as campanhas sujas contra Sócrates

quinta-feira, julho 02, 2015

António Costa à conversa com a redacção do Jornal de Negócios


António Costa foi prestar provas perante a redacção do Jornal de Negócios. Eis uma passagem para estimular a leitura da peça:
    «"Os poderes do Presidente da República, nos termos da Constituição, também estão muito claramente definidos". É assim que responde quando questionado sobre a legitimidade de Cavaco Silva de não dar posse a um governo minoritário. O Presidente declarou que o futuro governo não pode deixar de ter o apoio maioritário da Assembleia. Costa não desarma: "O actual Presidente sabe do que fala porque foi o primeiro-ministro que tomou posse com o pior resultado eleitoral (29,5%). Sabe bem que a ausência de maioria é um factor de instabilidade. Presumo que seja com base na sua própria má experiência pessoal que perceba que não é recomendável haver um governo minoritário". Por isso, Costa garante que se baterá por uma maioria e deixa o apelo a Cavaco Silva para que contribua para ela. "O senhor Presidente da República até pode ajudar a que haja um Governo maioritário. O voto também é livre para ele".»

Tratado sobre a promiscuidade


Jorge Bravo é economista. Na sua carteira de clientes, destacam-se os fundos de pensões e dos seguros, que há vários anos vêm defendendo um reforço dos descontos para os sistemas privados e que são parte interessada nas políticas públicas para a Segurança Social.

Como se vê, Jorge Bravo reúne as condições para ser o autor de um programa eleitoral que justifique a ida ao pote na área da Segurança Social. O PSD escolheu-o por isso para colaborar na elaboração do seu programa eleitoral (aqui e aqui).

Mas como a vida custa a (quase) todos, o Governo pagou a Jorge Bravo para que ele defenda que a Segurança Social é insustentável. Desta vez, saíram dos cofres do Estado 75 mil euros. Mas, já em 2013, Jorge Bravo, quando a direita procurava justificar os cortes nas pensões da Caixa Geral de Aposentações (e que foram chumbados pelo Tribunal Constitucional), recebeu do Governo 40 mil euros para fabricar um papel a atestar a insustentabilidade da Segurança Social.

Jorge Bravo conseguiu uma proeza de se lhe tirar o chapéu: é pago pelos fundos privados de pensões e dos seguros para defender os seus interesses; é também pago pelo Governo para defender os interesses desses fundos privados e reproduzi-los no programa eleitoral do PSD e do CDS (cujo parto, aliás, está a revelar-se uma empreitada ciclópica); e, apesar destes antecedentes, anda pelas televisões a defender o desmantelamento da Segurança Social, sendo apresentado como economista independente.

Sobre o afastamento de Augusto Santos Silva da TVI 24

Francisco Seixas da Costa reage ao afastamento de Augusto Santos Silva da TVI 24 num post intitulado Notas para dois amigos, que se reproduz:

                     

Caro Sérgio

Com a vida a ocupar-nos as agendas, ainda não falámos desde que trocámos mensagens por ocasião da tua nomeação para diretor de informação da TVI. E, podes crer, não é com gosto que esta minha nota, que tem de ser pública, seja para lamentar a decisão de afastamento do Augusto Santos Silva da sua "coluna" de comentário semanal. Sei que as coisas às vezes são mais complexas do que parecem. Por isso, por não conhecer os detalhes da decisão, imagino que eles possam eventualmente ser mais esclarecedores do que aquilo que já veio a público. Mas, para já, e antes que esses possíveis factos sejam conhecidos, apenas me posso pronunciar sobre os resultados. E esses são claros: o pluralismo dentro das nossas televisões sofreu um imenso "trambolhão" e, até ver, isso foi da tua responsabilidade pessoal. Sentir-me-ia mal se não to dissesse. Já nos conhecemos há muito tempo e, como sabes, nunca me dei ao luxo de esconder o que penso. Principalmente aos amigos, como tu és.

Um forte abraço

Francisco


                    


Caro Augusto

Agora que o teu mano-a-mano com o Paulo Magalhães saiu de cena, quero deixar-te um abraço de gratidão. Ao longo de muito tempo, foste capaz de dar voz a uma visão das coisas que, estando muitas vezes bem longe de ir com "l'air du temps", era importante que fosse conhecida. Só aos patetas soava como uma visão partidária oficiosa. É de quem te não conhece! A tua palavra, serena, inteligente e acutilante, com a dignidade de quem pensa sempre pela sua cabeça e sabe, como poucos, exprimir organizadamente as ideias, vai fazer falta nas noites da TVI 24, e digo-o agora mesmo ao Sérgio Figueiredo. Alguns, claro!, estão a exultar já, pelo mundo das "redes sociais", com a tua saída de cena. Não imaginam que é o maior elogio que te podem fazer! 

Um solidário abraço do

Francisco

É hoje

Assim percebe-se melhor

Adiar o início das aulas para não se notar
a barracada na colocação de professores

— Ó Nuno, evita a barracada da colocação de professores. Adia o início das aulas.

• Valter Lemos, Os cortes no ano letivo:
    «O ano letivo vai começar mais tarde. Poderia haver uma explicação para isso, mas não há. O ministro Crato veio dizer que era para a duração dos períodos letivos se aproximar mais. A explicação se não fosse ridícula era estúpida, porque como se sabe é a mobilidade da Páscoa que determina a alteração da duração dos períodos letivos e como a Páscoa muda todos os anos, a explicação do ministro implicava que o início do ano letivo passava a mudar todos aos anos, o que, a ser verdade, significaria uma entropia total nos ritmos das famílias.

    O ministro, uma vez mais, se prestou a um papel ridículo e tentou fazer de parvos todos os pais e os portugueses em geral. Toda a gente percebeu que a decisão se deve somente ao facto do governo ter medo das asneiras que têm marcado a colocação de professores nas mãos deste ministro e deste governo. A história diz-nos que governos do PSD/CDS não são capazes de dar conta do recado na colocação de professores. Em 2004/2005 no governo Santana Lopes/Paulo Portas foi o descalabro total. O governo seguinte teve que resolver esses problemas e estabilizar a colocação de professores. Nos anos seguintes não voltou a haver problemas. Os professores foram colocados sempre a tempo e horas para o início do ano letivo, introduziu-se a colocação por três e anos e depois por quatro anos, introduziu-se a renovação automática dos contratos, etc. Veio novo governo PSD/CDS e o “rigoroso” ministro Crato e voltámos à incompetência na gestão dos concursos, aos atrasos nas colocações e aos problemas de arranque do ano letivo. (…)»

quarta-feira, julho 01, 2015

Os sete pecados capitais do Governo



    1 - Mentira eleitoral com a promessa de não subir os impostos que subiu e não cortar os salários e as pensões que veio a cortar
    2 - Aumento do desemprego, da precariedade e da emigração
    3 - Asfixia da classe média, em particular com o enorme aumento de impostos
    4 - Aumento da pobreza e das desigualdades
    5 - Abandono da prioridade ao Conhecimento (desinvestimento na educação, na ciência e na cultura)
    6 - Ataque aos serviços públicos (em particular, na Saúde e na Justiça) e incompetência na sua gestão, de que são bem exemplo o caos na abertura do último ano lectivo e no processo de transferência dos tribunais
    7 - Quebra de mais de 25% no investimento público e privado

O insólito critério do Expresso

Expresso, 20.06.2015

O Expresso é um órgão de comunicação social muito peculiar. A par das páginas e páginas de palha que suponho que ninguém leia, o semanário tem correspondentes acreditados junto do PSD, do CDS e do Presidente da República.

Relativamente à área do PS, o caso muda de figura, havendo um critério insólito. Com efeito, há também uma correspondente acreditada junto do que se convencionou chamar de segurismo, que representava, nas directas de há um ano, um terço dos militantes e simpatizantes socialistas. Já em relação ao PS propriamente dito, as notícias parecem ser tratadas pelo jornalista de turno.

Veja-se o que aconteceu nas últimas duas edições do Expresso:

Na edição de 20 de Junho, há uma entrevista a Francisco Assis (p. 12) e uma reportagem sobre a vida de António José Seguro nas Caldas da Rainha (p. 14). A correspondente do segurismo acolhe ainda uma pequena intriga sobre a constituição das listas de deputados à Assembleia da República (p. 7). Finalmente, há uma peça, elaborada pelo correspondente do CDS, sobre o entendimento entre o PS e o partido de Portas para a redução do IVA e do IRS nos Açores, deixando-se subentendido que se a receita não é aplicada no Continente é por imposição do outro partido da coligação de direita.

Na edição de 27 de Julho, por um triz o Expresso não se esquecia do PS. Lá surge na p. 12, que reparte com o Livre. Aí, a correspondente do segurismo é chamada a ensaiar a candidatura da Maria de Belém à presidência da República, apresentando-a já como a segunda mulher em 30 anos que o faz. E na p. 14 surge uma pequena nota, redigida pelo jornalista de turno, sobre a constituição da direcção de campanha do PS. E é tudo.

Se este é o critério adoptado em relação ao PS, não se entende por que não é adoptado o mesmo critério em relação ao PSD e ao CDS. José Eduardo Martins, do PSD, e José Ribeiro e Castro, do CDS, não insurgem contra a desigualdade de tratamento em relação ao segurismo?

«Talvez me saísse melhor se arriscasse a parede»


Martin Wolf escreve um artigo sobre a situação grega no Financial Times, reproduzido no Diário de Notícias. Eis uma passagem:
    «(…) A extensão do resgate não ofereceu uma saída plausível para a recuperação: ele deixou um excesso de dívida demasiado grande e, mais importante ainda, exigiu demasiada austeridade a curto prazo. Dado o retrocesso recente, parece exigir uma mudança de um saldo orçamental primário (antes dos juros) de perto de zero neste ano, para um superavit de 3,5% do produto interno bruto em 2018. Alcançar este resultado poderá exigir medidas orçamentais que atingiriam o equivalente a 7% do PIB e contrairiam a economia em 10%. (…)»

Vale do Lobo


Nunes Correia, ministro do Ambiente no Governo de Sócrates (no primeiro, entre 2005 e 2009), esclarece as questões sobre as suspeitas em torno de Vale do Lobo (vídeo).