domingo, Julho 27, 2014

Uma justiça de pelourinho

• Pedro Adão e Silva, UMA JUSTIÇA DE PELOURINHO [ontem no Expresso]:

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Promiscuidade, diz ele


      É mau quando a política se mistura com os negócios. Se alguém se queixa da PT a Marques Mendes, é porque tem esperança que este interceda junto da empresa. E se este intercede, como fez, enquanto é líder da oposição, dá poucas garantias de separar águas se um dia chegar a governar. E dizer que é normal agrava tudo.
        Público, sobre um negócio entre a Portugal Telecom e a Fix (de que a principal accionista é a Paínhas, SA, que contribuía para o ganha-pão de Marques Mendes)

A propósito dos acontecimentos que envolvem a família Espírito Santo, Luís Marques Mendes falou ontem na SIC sobre «a promiscuidade entre política e negócios». Que topete.


O Luisinho, tendo crescido a transportar cheques do conselho de ministros de Cavaco para o Portugal profundo, viveu sempre encostado a padrinhos que misturavam política e… negócios, de que são casos públicos e notórios Isaltino Morais, que cuidava da sua sobrevivência quando o PSD estava na oposição, e Joaquim Coimbra, o homem da indústria farmacêutica e do BPN (e ex-accionista do Sol), que veio a substituir o antigo presidente da Câmara de Oeiras nas funções de babá.

De resto, não são tão raros os episódios que os media relatam sobre as trapalhadas em que o Luisinho aparece envolvido. Basta ter paciência para seguir este link.

Como se isto não bastasse, o Luisinho já não deve abrir um Código Civil há mais de 30 anos. Que faz ele num escritório de advocacia senão exercer aquela profissão de desgaste rápido que Miguel Relvas crismou de «facilitador»? É preciso um enorme descaramento para se expor assim na televisão.

Plano tecnológico dos estarolas

Indústrias de ponta: «As rendas de bilros têm feito um excelente trabalho nesse âmbito.»

O secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, disse que hoje "é importante trabalhar na actualização e renovação do artesanato português", área que considera com "potencial de desenvolvimento económico" para o país.

Sugestão à TVI:
fazer um best of das declarações de Marcelo sobre o caso BES


Miguel Pais do Amaral (MPA), chairman da Media Capital (TVI), deu uma entrevista ao Dinheiro Vivo, na qual, ao fazer alusão ao caso BES, compromete as aspirações de Marcelo a se alçar a Belém:
    MPA — (…) E por último, há os impactos políticos. Isto poderá ter um impacto nas legislativas, porque se não houver crescimento poderá alterar a relação de forças entre os principais partidos. E também porque se sabe que há alguns ministros que eram muito próximos do presidente da comissão executiva do BES [liderada até há uma semana por Ricardo Salgado] e essa proximidade poderá ser negativa.

    DV — Está a falar de que ministros?
    MPA — Não lhe vou dizer. E depois há um potencial impacto nas presidenciais, porque há um putativo candidato conservador, que toda a gente sabe qual é. Ele e a sua companheira eram os melhores amigos do casal Salgado. Viajavam juntos, passavam férias juntos.

    DV — Está a falar de Marcelo Rebelo de Sousa?
    MPA — Sim, como é óbvio. Logo, se Ricardo Salgado não sair bem desta situação e, neste momento, quando se ouve a CNBC e a Bloomberg fala-se de fraude... Obviamente que não vou dizer que há fraude.

Hoje, depois de tudo o que se sabe sobre o caso BES, não sei isso se não compromete a carreira de Marcelo como comentador. Seria empolgante e teria certamente uma audiência invulgar a emissão de um programa com extractos das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o caso BES ao longo dos últimos meses. Assim a modos como uma festa de homenagem (e de despedida), à imagem da que foi feita a Deco na sexta-feira.

ADENDA — Diz-se que o Blasfémias II foi criado com a missão impossível de pôr Barroso na grelha de partida para Belém. Por isso, o Blasfémias II não poderia deixar de dar destaque às declarações de Miguel Pais do Amaral sobre Marcelo. Todos os seus extraordinários cronistas compreenderam o objectivo (salvo Paulo de Almeida Sande, que vai com o passo trocado na parada).

Novas da União Europeia


A alternativa ao Estado social: Euthanasia could be option for poor, says Lithuanian health minister. Continua ministra.

Terra pouco Santa

• Azeredo Lopes, Terra pouco Santa:
    «(…) se é evidente que Israel pode tentar impedir que esses ataques continuem (porque nem ao ocupante se pode pedir que se suicide e nada faça para proteger os seus cidadãos), não pode é apresentar-se como agredido e acobertar-se no conforto da legítima defesa. Porque Israel, goste ou não goste, é o infrator originário. (…)»

Mais Sociedade

Passos Coelho, Jaime Ramos e Alberto João Jardim (foto daqui)

Jaime Ramos vende prédios à Fundação PSD de que é administrador.

Uma agenda para a década

• António Costa, Uma agenda para a década:
    «(…) É claro que parte importante da solução dos nossos problemas exige uma mudança na Europa. É necessário corrigir as deficiências que a crise evidenciou da união monetária, compensar os efeitos assimétricos que o euro tem nas diferentes economias, recuperar os danos sociais e económicos provocados pelo ajustamento, encontrar um novo equilíbrio na gestão dos nossos compromissos que favoreça o crescimento sustentável, a criação de emprego, o controlo do défice e a redução da dívida.

    É preciso romper com a visão do curto prazo, com o ciclo vicioso e precário em que o Governo se bloqueou e bloqueou o país, subindo impostos para aumentar a receita ou cortando salários e pensões para baixar a despesa. Portugal precisa de reunir vontades, construir compromissos, mobilizar energias, em torno de uma nova agenda mobilizadora, que garanta consistência, durabilidade e estabilidade. (…)»

A Reforma do IRS

• António Carlos dos Santos, A Reforma do IRS: entre o princípio do prazer e o princípio da realidade:
    «(…) Segunda: ao contrário do que decorre do despacho de constituição da comissão, o anteprojecto não visa o fomento da mobilidade social (a mobilidade social, se ascendente, implicaria uma redefinição da progressividade do imposto, eventualmente acompanhada da introdução de um imposto negativo). Visa sim conseguir uma maior mobilidade do factor trabalho, o que é manifestamente outra coisa.

    Terceira: o estudo é omisso em relação à quantificação da despesa fiscal inerente às propostas. Com excepção da despesa prevista com a introdução do quociente familiar em vez do quociente conjugal (velha reivindicação do CDS-PP, cujo custo, sem compensações, é avaliado em 301,6 milhões de euros), outras medidas susceptíveis de conduzir a perdas de receita ou quebras de tesouraria, como o alargamento do âmbito dos vales sociais de educação, a dedução global de valor fixo ou mesmo as tabelas de retenção na fonte, não apresentam qualquer estimativa dessa perda. O que suscita uma dúvida: tem o decisor político em mente reduzir os níveis de tributação em IRS ou apenas apresentar um futuro programa eleitoral? Ou espera poder usar para esse efeito recursos financeiros propiciados pela Reforma da Fiscalidade Verde? (…)»

Voz autorizada da Academia
(ou os efeitos secundários dos derivados)

Rapinado daqui

Descoberto por Mário Crespo, fala de tudo na SIC Notícias, sempre a favor dos ventos que sopram na sociedade. Trata-se de João Duque, que se comporta como um gastrenterologista que discorre, com um desconcertante à-vontade, sobre ginecologia, otorrinolaringologia ou endocrinologia. Sendo a área da gestão a sua especialidade, nem assim qualquer problema da economia é para ele um bico-de-obra. Mas é como especialista em gestão que faz o sublime panegírico de Ricardo Salgado que a imagem documenta.

ADENDA — Leia-se, em complemento, o discurso de apresentação do Padrinho do Doutoramento Honoris Causa pela Universidade Técnica de Lisboa de Ricardo do Espírito Santo Salgado.

«O trabalho, isto é, o trabalhador tornou-se um descartável»

• Augusto Santos Silva, Stabat mater:
    «(…) A questão é que o mercado de trabalho não é - não deveria ser - um mercado de produtos. O trabalho humano não é igual a uma máquina que se compra quando é precisa, se gasta até ao limite e se deita fora no fim, para comprar outra. O trabalho é uma condição necessária da dignidade pessoal.

    Aregulação social do capitalismo sempre procurou enquadrar esta questão. As comunidades tradicionais desamparadas pelo Estado amorteciam os efeitos de baixos salários ou desemprego através da pequena agricultura complementar ou de outras atividades económicas informais. O modelo japonês garantia uma fortíssima proteção ao núcleo duro dos trabalhadores ligados a grandes empresas como a famílias, à custa de um largo segmento exterior desprotegido, composto por mulheres ou trabalhadores precários e desqualificados. Mas os europeus conseguiram ir mais longe na regulação democrática da economia e fizeram questão de incluir a relação salarial no coração moral e na base institucional da sociedade de bem-estar.

    Isto, que duas gerações sucessivas do pós-guerra puderam considerar um adquirido civilizacional, encontra-se hoje em causa. Duas empresas fundem-se e todo o mundo acha normal que o resultado imediato seja um despedimento massivo. A fábrica precisa ocasionalmente de aumentar a produção e emprega, deixa de precisar e despede. Pagando as indemnizações devidas, cumprindo a lei aplicável. Mas para todos os efeitos o trabalho, isto é, o trabalhador tornou-se um descartável. Volta a ser o jornaleiro engajado e excluído ao ritmo de cada dia, agora com subsídios e indemnizações. Não tardará muito e a Europa achará inevitável o que vê nos filmes americanos: despedido na hora, alguém pega na sua caixa de papelão e abandona o posto, enche a carrinha com uns tantos trapos e leva a família para mil quilómetros mais além, pode passar de um bom emprego para debaixo da ponte que poucos ligam e, se for ao contrário, se da rua sair para a riqueza, terá Hollywood a celebrá-lo. Cada qual que se amanhe. (…)»

BES

sexta-feira, Julho 25, 2014

Não somos a Irlanda, nem a Espanha, nem mesmo a Grécia

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A ONU calculou o Índice de Desenvolvimento Humano de 2013 e acaba de o publicar no Relatório do Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas. Este índice é calculado com base em três dimensões do desenvolvimento humano: uma vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente. Para isso, são tidos em conta factores como a esperança média de vida, os anos de escolaridade de cada cidadão e o Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Portugal ocupava em 2009 o 34.º lugar. Agora, está na 41.ª posição, sendo um dos países da Europa em pior situação. A passagem da troika não explica tudo, uma vez que a Irlanda está em 11.º, a Espanha em 27.º e a Grécia em 29.º.

Anda por aí

Hoje no Sol

Confirma-se o que se suspeitava. Depois da troika se ter retirado oficialmente, o Moedinhas ficou de mãos a abanar. Até «a segurança pessoal do meu Gabinete», no louvor de Moedinhas a um agente da PSP, se retirou. O alegado primeiro-ministro não tem funções para lhe atribuir. Está, por isso, no banco de suplentes à espera de uma oportunidade para dar o seu melhor. Pode ser que, se a Miss Swaps fugir à hecatombe da execução orçamental, possa ser chamado à primeira equipa. Assim se arranja um ministro das Finanças no governo de Passos Coelho.

Orçamento do Estado para 2016 elaborado pela oposição?

A central de propaganda do Governo vende hoje ao semanário do pequeno grande arquitecto um «argumento» de peso (pág. 9) para Passos Coelho não aceitar a antecipação das eleições legislativas: «precisamente a possibilidade de apresentar um Orçamento do Estado para 2016 que alivie as bolsas dos portugueses.»

Sendo a central de propaganda chefiada pelos constitucionalistas Maduro & Lomba, não saberão eles que o Orçamento do Estado para 2016 será elaborado pelo Governo que suceder ao dos estarolas?

Benchmarking

A Direcção de António José Seguro interage muito bem com o Sol. Por isso, este prestigiado semanário dava ontem conta de que Seguro usa técnica de Obama na campanha das eleições primárias.

Mas, hoje, soube-se que o ainda secretário-geral do PS tem procurado aprender com outros mestres da política, como o confirma «uma fonte da campanha de Seguro» (de novo ao semanário superiormente dirigido pelo pequeno grande arquitecto): «Temos estudos que mostram que a táctica que Menezes usou para chegar à liderança do PSD é mais eficaz do que fazer números mediáticos».

Visita de charme


Tinha aqui feito alusão ao facto de Paulo Portas ter dado um saltinho a Luanda. No entanto, não tinha conseguido perceber o motivo da visita. Não há nada como o Sol para desfazer as dúvidas: «Portas em visita de charme». A última visita de charme do Governo estivera a cargo de Rui Machete e acabou como se sabe.

Olhar para a floresta e não ver as árvores


Francisco Louçã tem sido incansável na denúncia de quadros do BES que passaram pela política ou de políticos que passaram pelo BES. Nem os gestores públicos do período em que o BES esteve nacionalizado foram esquecidos. O ex-coordenador do Bloco de Esquerda, que com a sua permanência em palco tem subalternizado as vozes de João Semedo e Catarina Martins, extrai a seguinte conclusão: «Este é o retrato da casta que governa e ele era mesmo o Dono Disto Tudo.» Não sei se este juízo não provocará o ciúme ou a ira de outros grupos económicos, mas não deixará, depois de devidamente traduzido, de provocar uma reacção de alívio por parte de Wolfgang Schäuble.

Acresce que, na sofreguidão de meter o PSD, o CDS e o PS no mesmo saco, Francisco Louçã faz questão de não distinguir que a imensa maioria das «conexões» a que se refere tem a ver com o PSD.

Mas o que parece imperdoável é que Francisco Louçã tenha centrado a sua atenção na arraia miúda, desprezando as ligações ao BES e a Ricardo Salgado de altas figuras do Estado português e da Comissão Europeia. Veja-se:
    Durão Barroso foi, no período entre o fim do último governo de Cavaco Silva e a sua eleição para presidente do PSD, «consultor» do BES;
    Passos Coelho, quando decidiu trabalhar, foi colocado na Fomentinvest, sociedade de que um dos accionistas é precisamente o Grupo Espírito Santo;
    Cavaco Silva foi convidado a candidatar-se à presidência da República num jantar em casa de Ricardo Salgado, no qual estiveram presentes Durão Barroso, Marcelo Rebelo de Sousa e a sua milenar companheira, também ela administradora não executiva do BES.

Tendo Francisco Louçã anunciado que esta noite falará da «rede de conexões do BES com os governos», espera-se que este singelo contributo o possa ajudar a recentrar o tema.

É já amanhã

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«Uma nova modalidade de deliberação:
a "aprovação por unanimidade mas sem aclamação unânime"»


• Pedro Silva Pereira, Unanimidade sem aclamação:
    «O facto político é este: no ano da graça de 2014, Cavaco Silva, Passos Coelho e Rui Machete atravessaram meio mundo para ir a Díli aprovar, em nome de Portugal, a entrada da Guiné Equatorial na CPLP. A encenação do embaraço português, embora caricata, não constará da acta final da cimeira. Tendo decidido ceder a todas as pressões e viabilizar a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, o Governo e a Presidência da República esforçaram-se por fazer passar na comunicação social, estranhamente com algum sucesso, uma estratégia de despudorada desresponsabilização assente em três argumentos, todos eles falaciosos.

    Em primeiro lugar, o argumento do costume: este processo "já vinha de trás". Entendamo-nos: o que realmente "vinha de trás" não era nenhuma decisão política final mas apenas o pedido formal da Guiné Equatorial, que levou à atribuição de um mero estatuto de "observador" e à fixação, em 2010, com a participação do Governo anterior e o acompanhamento do actual Presidente da República, de um muito exigente roteiro de requisitos para uma eventual adesão, quer no domínio da valorização da língua portuguesa, quer sobretudo em matéria de democratização do regime e de respeito pelos direitos humanos. Assim sendo, a avaliação da suficiência dos progressos efectuados pela Guiné Equatorial, ao longo dos três últimos anos, em todas estas frentes, incluindo no que se refere ao respeito efectivo pelos princípios do Estado de Direito, é da inteira responsabilidade do Governo e do Presidente actuais. Como é sua a responsabilidade pela decisão final que acaba de ser tomada.

    Em segundo lugar, o argumento extraordinário de que Portugal, sobretudo na sua condição de antiga potência colonial, "não podia ficar isolado" e "não é dono da CPLP". Evidentemente, não é disso que se trata: ninguém é dono da CPLP, a não ser os seus Estados-membros, nos termos dos respectivos estatutos. O que sucede; e é aliás frequente neste tipo de organizações internacionais, é que a adesão de um novo Estado, qualquer que ele seja, depende de uma decisão que tem obrigatoriamente de ser proferida por unanimidade. Isto significa que na decisão colectiva a posição de todos e de cada um dos Estados-membros tem de ser devidamente respeitada. Falemos, pois, com clareza: a verdade é que o Presidente da República e o Governo português, ao decidirem como decidiram, fizeram uma escolha política que podiam não ter feito. E essa escolha é inteiramente sua.

    O terceiro argumento é, de entre todos, o mais bizarro e resume-se nisto: Portugal participou activamente no consenso favorável à entrada da Guiné Equatorial na CPLP mas, ao contrário dos outros, "não escondeu o seu embaraço". Sublinhou-se até que o Presidente Cavaco Silva, que chefiou a delegação portuguesa, "não aplaudiu" o ditador Teodoro Odiang, sugerindo uma nova modalidade de deliberação: a "aprovação por unanimidade mas sem aclamação unânime".

    Mais: Portugal fez constar que só aceitou que Odiang participasse na sessão de abertura, antes mesmo de ser formalmente decidida a adesão da Guiné Equatorial, "para não criar um incidente protocolar" aos nossos amigos timorenses e contribuir assim para que a cimeira de Díli fosse aquilo que o Presidente e o Governo português garantem, apesar de tudo, que foi: "um sucesso". Eis a verdadeira história do contributo de Portugal para o alegado "sucesso" de uma cimeira no fim da qual só há uma certeza: a CPLP já não é o que era.»

Quem ganhou e quem perdeu
com a troika e com o governo de Passos Coelho?

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• Paulo Trigo Pereira, Quem ganhou e quem perdeu com a troika e com o governo de Passos Coelho?:
    «(…) Existe um conjunto de confusões, mitos e falácias em torno do Estado que importa desfazer e para isso é conveniente conhecer alguns números. Olhar para o passado recente (2010-2013) ajuda a esclarecer o impacto da crise, da troika e das opções políticas do governo de Passos Coelho. A primeira grande confusão, deliberada ou inocente, é entre despesa do Estado e despesa no Estado.

    A tabela anexa esclarece a estrutura da despesa do Estado, que era de cerca de 50 mil milhões de euros em 2010, mas em que a despesa no Estado (soma de pessoal, outras despesas correntes e despesas de capital líquidas de transferências) corresponde apenas a 31% deste valor. O remanescente são juros e transferências directas para a sociedade (empresas e famílias) e para dentro das administrações públicas (administração regional e local, FSA e segurança social), uma parcela significativa das quais vai também parar às famílias através das prestações sociais pagas pela segurança social ou de serviços de saúde e educação prestados às famílias. (…)»

Leituras

quinta-feira, Julho 24, 2014

Notas soltas da semana

Jornalistas à porta do TIC (foto do Expresso Diário)

1. Já tinha acontecido com Jorge Gonçalves, antigo presidente do Sporting, e com Vale e Azevedo, antigo presidente do Benfica. Mal um e o outro abandonaram a presidência dos respectivos clubes, foram constituídos arguidos. Voltou a acontecer com Ricardo Salgado, após ser afastado do BES. O Ministério Público tem azar nos timings da investigação.

2. A par do azar dos timings, a circunstância de as acções da investigação aparecerem relatadas em pormenor nos jornais não ajuda a credibilizar o Ministério Público. E mais ainda quando a descrição dos acontecimentos feita pelo Expresso leva a olhar com perplexidade para os métodos de investigação.

Com efeito, segundo o Expresso, foi uma denúncia anónima que levou a Polícia Judiciária a visitar, na sexta-feira passada, as duas salas no Hotel Palácio Estoril onde Ricardo Salgado montou um escritório improvisado desde que deixou de ser presidente do Banco Espírito Santo, há duas semanas. Alguém foi dizer à PJ que o banqueiro estaria a eliminar documentação levada do banco. Cinco dias depois, ou seja, ontem, o Ministério Público voltou ao Hotel Palácio Estoril com um mandado de busca, tendo Ricardo Salgado sido informado que seria constituído arguido e que sobre ele pendia um mandado de detenção. Dispondo-se o ex-presidente do BES a deslocar-se ao Tribunal de Instrução Criminal para ser inquirido, o Ministério Público preferiu dar-lhe boleia. A justiça portuguesa acabava de poder mostrar o seu Sarkozy.

3. O Público avança que a investigação em curso incide também sobre a alienação de 67% das acções da Escom detidas pelo Grupo Espírito Santo à sociedade angolana Newsgroup. A Escom é a empresa que interveio nas grandes aquisições de equipamentos militares por parte do Estado português, designadamente os dois submarinos.

Nesta operação da venda das acções da Escom aparece envolvida a advogada Ana Bruno, cujo escritório foi também alvo de buscas por parte do Ministério Público. Há uns anos atrás, Ana Bruno viu o seu nome citado nas peripécias da Universidade Moderna, em especial na empresa de sondagens Amostra, da qual era gerente. Foi na época em que Paulo Portas se passeava por Lisboa num Jaguar da Universidade Moderna.

4. Entretanto, o vice-pantomineiro deslocou-se a Angola, onde declarou solenemente: «Eu serei naturalmente discreto sobre essa matéria, mas sempre poderei adiantar que os reguladores de Angola e de Portugal têm trabalhado conjuntamente e eu confio nas medidas de estabilização que saberão encontrar».

Oligarquia, diz Ramos

Joaquim Goes, António Carrapatoso e o impoluto Rui Ramos

Rui Ramos escreveu uma História de Portugal. Nem a narração da I República como um regime de odiosos malandros nem a descrição do Estado Novo e da guerra colonial como uma estória cor-de-rosa o elevaram à merecida glória. Foi preciso que o Expresso esquartejasse a História de Portugal, oferecendo-a em fascículos semanais no Verão de 2012, para abrir as portas à sua merecida consagração. Que aconteceu logo a seguir com a condecoração atribuída pelo Presidente da República: agraciado com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Sabe-se que, depois disso, o historiador não se tem poupado a esforços para estar à altura da honraria conquistada. Ficou célebre, a título de exemplo, o episódio de Ramos a defender, com calorosa impetuosidade, que investir na Ciência conduz a uma «sociedade mais obscurantista».

Hoje, através de mais uma divertida crónica, Rui Ramos surge-nos muito indignado com uma (não identificada) oligarquia política e financeira que ele diz rodear António Costa, fazendo alusão até a «banqueiros de estimação». Fiquei perplexo. Será que este famoso historiador é sonâmbulo?

Ora Ramos é um dos três organizadores dos movimentos Compromisso Portugal e Mais Sociedade, ao lado de António Carrapatoso e de Joaquim Goes, o administrador do BES que Ricardo Salgado gostaria de ver a ocupar o seu cargo no banco. Que está a fazer o impoluto Rui Ramos ao lado do oligarca Joaquim Goes?

quarta-feira, Julho 23, 2014

As últimas de Crato ou Crato nas últimas


Ontem na TVI 24, Augusto Santos Silva analisou também os últimos passos de Nuno Crato relativamente à avaliação dos professores e à actuação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Eis dois vídeos que captam parte das suas declarações:

O BES, as tias da Comporta, o povo e o duplo padrão moral


Augusto Santos Silva na TVI 24 (ontem)
Via canal no Youtube do Sítio com vista sobre a cidade

O poder da informação

Manuel Monteiro escreve um artigo que merece reflexão. É sobre o poder de J. Edgar Hoover, que dirigiu durante 48 anos o FBI: «Seria importante conhecer, por exemplo, em que medida a informação por si recolhida, permitindo-lhe aceder aos segredos de muitos dos seus adversários, ou potenciais adversários, não impediu a acção que estes poderiam ter desenvolvido contra si. Como seria importante entender quantos compromissos foram alcançados e silêncios garantidos, para que essa informação não fosse divulgada.»

Mas Manuel Monteiro vai mais longe, colocando a hipótese de casos como o de Hoover poderem ocorrer «na actual política portuguesa», admitindo que, «se isso foi assim num país de grandes dimensões, mais facilmente o será num país de poucos milhões.»

Sobre os balanços dos bancos portugueses

• Pedro Nuno Santos, Preparemo-nos:
    «(…) O que já não se podia ignorar, por razões de seriedade técnica e política, era o impacto de uma reestruturação, com a dimensão da que precisamos, nos balanços dos bancos portugueses e a necessidade de estudar e apresentar uma resposta para esse problema. Não há reestruturações "sem espinhas" e já quase todos sabemos que a vamos ter de fazer. Preparemo-nos, então!»

terça-feira, Julho 22, 2014

Atracção pelo abismo


«O BES informa que a sua Comissão Executiva contratou o Deutsche Bank como conselheiro financeiro para avaliar a potencial optimização da estrutura do seu balanço», lê-se num comunicado de duas linhas divulgado esta tarde pelo banco.

Compreende-se que Vítor Bento sinta necessidade de ser assessorado. O próprio CEO do BES confessava, há cerca de dois anos, as suas limitações quanto ao conhecimento aprofundado que tinha sobre a banca: «A área onde estou é marginal à banca. É mais uma actividade de tecnologias de informação que trabalha para a banca do que bancária.»

Em todo o caso, Vítor Bento tinha a obrigação de fazer o que muita gente já terá feito neste momento: procurar no Google referências sobre o Deutsche Bank. Experimente o leitor fazer uma pesquisa no Google Search: «Deutsche Bank supervision fraud». Há coisas espantosas, não há?

FMI a declarar o óbito da estratégia
do governo de Passos & Portas


Seis técnicos do FMI — num estudo a que o Jornal de Negócios faz hoje alusão — avaliaram os resultados dos processos de «ajustamento». As conclusões são o que já se sabia, mas que o Governo negava. Suprema ironia: a estratégia de «ir além da troika» é chumbada no seio do FMI.

No que respeita a Portugal, sustenta o documento que a devastação levada a cabo pelo Governo irá implicar uma deterioração do nível de crescimento máximo que o país poderá atingir no futuro.

Com efeito, conclui-se no estudo que a transformação estrutural da economia não ocorreu:
    • O número de trabalhadores empregados no sector transaccionável caiu mais do que no sector não transaccionável;
    • O Valor Acrescentado Bruto (a produção subtraída dos custos) sofreu uma quebra idêntica em ambos os sectores, o que indicia que não se verificou qualquer transformação.

As conclusões ainda são mais demolidoras em relação às exportações. O documento refere que Portugal não teve ganhos de competitividade nesta área. Assim sendo, os «grandes défices da conta corrente» contraíram-se em grande medida devido à quebra das importações.

Por outras palavras, os equilíbrios externos foram conseguidos em grande medida à custa de desequilíbrios internos, o que não será sustentável a prazo: «Os passivos líquidos externos permanecem elevados (implicando pagamentos líquidos de rendimentos ao exterior mais elevados), e o progresso no reequilíbrio externo chegou à custa do equilíbrio interno, com destaque para taxas de desemprego muito mais elevadas».

Foi nisto que deu o «milagre económico» de que fala o Governo, em particular o ministro Pires de Lima. A única vez que Passos Coelho cumpriu o que prometera está à vista de todos: «nós sabemos que só vamos sair desta situação empobrecendo - em termos relativos, em termos absolutos até, na medida em que o nosso Produto Interno Bruto (PIB) está a cair». Mas só o anunciou após as eleições de 2011.

Da série “Post-it”


Portugal foi o terceiro país da UE onde a dívida pública mais aumentou: no primeiro trimestre deste ano, a dívida pública chegou a 132,9% do PIB.

«Estou vivo»


O alegado primeiro-ministro fez uma visita de Estado ao longínquo Sri Lanka para aparentemente pagar uma dívida de gratidão a Fernando Nobre. Foi o sítio mais próximo onde o malogrado candidato a presidente da Assembleia da República entendeu ser necessário montar um projecto da celebérrima AMI. Nobre aproveitou a ocasião para afirmar que continua pronto para as curvas: «Estou vivo».

Imagine-se o que aconteceria se Passos Coelho ainda por cá andasse quando a questão das eleições presidenciais efectivamente se colocar.

Assim vai a lipoaspiração do Estado

1. O Governo extinguiu os governos civis. Agora, entrega uns milhões de euros, a um colaborador de Passos Coelho na Tecnoforma, para preservar o espólio.

2. O Governo anunciou há três anos a extinção da Empresa de Meios Aéreos (EMA), criada em 2007 para gerir as dez aeronaves do Estado adquiridas para o combate aos incêndios. O ministro Miguel Macedo explicou que a medida permitiria poupar cerca de 8 milhões de euros aos cofres do Estado. Quase três anos depois, a empresa não só ainda não foi extinta como gastou 10,9 milhões de euros na aquisição de bens e serviços.

Em sete décadas

Fonte
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A Opinião de José Sócrates


A emissão de 20 de Julho de A Opinião de José Sócrates pode ser vista no site da RTP ou nesta reprodução de Miguel Ângelo. Eis uma passagem sobre o silêncio de António José Seguro perante o discurso da direita acerca das origens da crise:
    José Sócrates — Eu gostaria naturalmente de ver o meu partido olhar para trás e dizer “bom, nós tivemos um governo do Partido Socialista que sempre reduziu as desigualdades, que sempre reduziu a pobreza, em particular nos idosos, que fez o complemento solidário para idosos.” Foi o Governo que mais investiu na Ciência, que mais investiu na Tecnologia, que mais investiu nas energias renováveis.

    João Adelino Faria — Acha que o seu partido não tem feito justiça a isso?

    José Sócrates — Não, o meu partido tem o dever de olhar para a frente e não estar preso, digamos assim, ao que se fez no passado, porque tem a obrigação — isto faz parte da natureza humana e da natureza política — de fazer melhor. Agora, o problema coloca-se no campo político desta forma: há uma patranha que a direita conta a propósito das origens da crise que não é verdadeira e o silêncio do PS contribui para que essa mistificação possa perdurar. Isso é uma mistificação histórica. Em primeiro lugar, a origem desta crise não foi o endividamento dos Estados.

    João Adelino Faria — Acha que o seu partido ajudou a direita?

    José Sócrates — Vamos lá ver, de forma inconsciente certamente, não com intenção, o silêncio do Partido Socialista levou a que essa narrativa da direita passasse sem contraposição. É uma mentira histórica que a crise tenha começado com as dívidas dos Estados. Não, começou com a crise nos sistemas financeiros que obrigou os Estados a gastarem mais e a endividarem-se mais. Porque, em 2008, a dívida portuguesa era de 60%, igual à da Alemanha. Hoje, a dívida da Alemanha, a da Itália, a da Inglaterra são muito superiores. (…) Todos os Estados foram obrigados a gastar mais por causa da crise, mas foi a crise que provocou o aumento da dívida, não foi o aumento da dívida dos Estados que provocou a crise.