Segunda-feira, Maio 12, 2008

Ainda sobre a “agenda progressista” para a tributação dos bancos





Tropecei num dos pontos da “agenda progressista” enunciada por João Rodrigues: “bancos a pagar IRC como as outras empresas (e não uns vergonhosos 13%)”. A resposta telegráfica veio de Nuno Teles (suponho que um parceiro de blogue) na caixa de comentários deste post: a percentagem fora achada numa notícia do DN, que reproduz um trabalho da Associação Portuguesa de Bancos (APB).

Convém perceber do que se fala. As empresas têm de fechar as contas até ao final de Março, dispondo de mais dois meses para preparar a declaração de IRC que são obrigadas a apresentar ao fisco (até ao final do mês de Maio, portanto).

Assim sendo, ainda não há (nem poderia haver) dados que permitam concluir que, em 2007, a taxa efectiva de IRC foi de “uns vergonhosos 13%”. De resto, se Nuno Teles (e João Rodrigues) tivesse lido com atenção a notícia que cita, desconfiaria da imprecisão de linguagem adoptada para transmitir tal conclusão.

Há três noções de natureza diferente que não devem ser confundidas: “lucro contabilístico”, “lucro tributável” e “matéria colectável”. Ao resultado do exercício há que acrescer as variações patrimoniais positivas e deduzir as variações negativas, assim como acrescer custos não aceites em termos fiscais e deduzir mais-valias contabilísticas, benefícios fiscais, etc..

A taxa efectiva de IRC corresponde a uma relação de cujo numerador consta o IRC liquidado e a tributação autónoma e do denominador a matéria colectável e os benefícios por dedução ao rendimento.

O trabalho da APB, no momento em que é feito, reproduz a óptica contabilística, que é posteriormente sujeita, para efeitos fiscais, a várias correcções (tanto pelas empresas como pelo próprio fisco).

Não tendo sido criados, entretanto, benefícios fiscais com impacto relevante e, na maioria dos casos, estando no essencial absorvidos os efeitos das fusões, não há nenhuma razão para que a taxa efectiva de IRC sofra uma alteração significativa.

Por isso, o mais provável é que a taxa efectiva das instituições financeiras (bancos e seguradoras) não tenha sofrido variações significativas em 2006, nem as venha a sentir em 2007.

Da série “Ninguém me olha a pensar que minto”¹ [3]




Ontem, numa entrevista ao JN, Manuela Ferreira Leite disse:
    JN — Votou Santana Lopes em 2005?
    Ferreira Leite — Obviamente que não lhe respondo.
Hoje, após uma intempestiva reacção de Santana Lopes, Manuela Ferreira Leite deu o dito por não dito:
    O dr. Santana Lopes deve ser a única pessoa do país que tem dúvidas que eu algum dia não votei no PSD.”
___________
¹ Expresso de 3 de Maio.

Os princípios também se abatem

À medida que a campanha avança, o liberalismo de Pedro Marques Lopes vai dando lugar às “preocupações sociais” de Marco António Costa:
    Expresso — Que papel reserva ao Estado?
    Passos Coelho — Deve exercer uma função social na Saúde, Educação, Segurança Social e Cultura.
[Entrevista de 10 de Maio]

Estratégia made in Marmeleira


«Duarte», o Dirigente Clandestino



Manuela Ferreira Leite fala de "desvio populista no PSD" e repudia divisionismos. Já se consegue perceber quem é o estratega da campanha.

Isto não vai acabar bem [3]

Em entrevista ao Rádio Clube esta manhã, Santana Lopes defendeu que Ferreira Leite deveria abandonar a corrida pela liderança, uma vez que é impensável que um candidato a líder admita que não votou PSD numa eleição nacional.

Por outro lado, Santana considera que Passos Coelho deve primeiro gerir alguma coisa antes de tentar gerir o país e deixou um recado a Luís Felipe Menezes: antes de decidir quem apoia, é bom que veja quem apoia.

♪ Spiritualized




Soul On Fire

Domingo, Maio 11, 2008

Trotsky revisitado

Francisco Louçã tem um método infalível (não revelado) para distinguir os sindicatos: “Sabe porque é que não vai ter o acordo dos sindicatos sérios e comprometidos com os trabalhadores? Por uma razão: é que os trabalhadores sabem que o Senhor não mantém a palavra.” Esta citação do debate pode ser confirmada no YouTube (e já provocou reacções de sindicatos):





Estranhamente, estas palavras de Louçã não constam da transcrição do Diário da Assembleia. Uma vez que Trotsky também levou sumiço da história oficial da União Soviética, será que algo idêntico aconteceu agora com as palavras de Louçã? Primeiro como tragédia, agora como comédia?

O procurador-geral da República ainda não disse se pretende instaurar um inquérito sobre o estranho caso que envolve Louçã. A única pista disponível é a de que a transcrição das intervenções no Parlamento são corrigidas pelos seus autores antes do envio para publicação no Diário da Assembleia. Vamos aguardar.

"Agenda progressista"

Na troca de ideias com Rui Pena Pires sobre o financiamento das universidades, João Rodrigues elenca um conjunto de propostas sobre a fiscalidade que, suponho, não anda longe das que o BE vem apresentando nesta matéria.

Num dos pontos do que apelida de “agenda progressista”, João Rodrigues afirma: “bancos a pagar IRC como as outras empresas (e não uns vergonhosos 13%)”.

A taxa efectiva de IRC das instituições financeiras (bancos e seguradoras) não é, nem de perto nem de longe, os “vergonhosos 13%” referidos por João Rodrigues.

É cedo para se conhecerem os resultados de 2007 e os de 2006 ainda não constam do site do fisco. Mas é de admitir, não tendo havido alterações legislativas significativas, que a taxa efectiva de IRC de 2006 não seja muito diferente da que se verificou em 2005.

Eis as taxas efectivas de IRC das instituições financeiras nos três últimos anos:
    • Em 2003, 23 por cento;
    • Em 2004, 18 por cento;
    • Em 2005, 20 por cento.
É de notar que o Governo de Durão Barroso baixou a taxa nominal de IRC em 2004 (artigo 30º da Lei n.º 107-B/2003, de 31 de Dezembro): passou de 30 para 25 por cento. Significa que, entre a taxa nominal e a taxa efectiva, houve uma diferença de sete por cento em 2003, igualmente sete por cento de diferença em 2004 e de cinco por cento em 2005.

Acresce que a taxa efectiva das instituições financeiras em 2005 (20 por cento) é superior à taxa efectiva global (17 por cento). São as instituições financeiras favorecidas em termos fiscais, como sustentam repetidamente o PCP ou o BE?

___________
Nota — A discussão dos outros pontos da “agenda progressista” enunciada por João Rodrigues fica para outra oportunidade, embora adiante que nem todas me pareçam ser suficientemente consistentes.

Da série "Frases que impõem respeito" [156]




    “Obviamente que não lhe respondo.”

A cara de Passos Coelho no Porto

O Expresso entrevista Passos Coelho esta semana. Uma envergonhada chamada de primeira página que contrasta com a da edição anterior, na qual sobressaía na capa uma imensa Ferreira Leite num hotel de charme.

Há uma ou outra resposta de Passos Coelho a que valerá a pena voltar. Hoje chamo a atenção para o que diz o candidato sobre o “caso Câncio”: “O PSD fez, nesse caso, uma tristíssima figura.

Deve ser por ter feito “uma tristíssima figura” que Agostinho Branquinho foi agora escolhido para mandatário de Passos Coelho para o distrito do Porto.

ADENDA — No Público de 10 de Maio, Branquinho autocritica-se: “A opinião do meu partido nem sempre tem sido a minha, apesar de ter tido de a defender”. Bem vistas as coisas, mais uma “tristíssima figura”.

O partido dos donos da bola

É preferível não falar dos dirigentes dos clubes, porque a “clubite” cega. Mas basta olhar para a Federação e para a Liga: quem é que vemos, nos últimos 20 ou 30 anos, a gerir o “desporto-rei”? Estes senhores:








E, ligando a televisão, quem são os comentadores (alguns dos quais também andaram pela Federação e pela Liga) que vêm fazendo a apologia do futebol apodrecido que hoje está à vista de todos? Estes senhores:







Todos estes senhores têm em comum a circunstância de serem militantes do PSD. Não venham com a conversa de que o PSD é o partido que melhor espelha o povo português. Não pode ser.

♪ Beach House




You Came To Me

Sábado, Maio 10, 2008

Nunca vi nada assim.

Eu também não.

E a "acumulação primitiva" não conta?

Eduardo dos Santos desafia ao combate à corrupção e tráfico de influências em conferência do MPLA. Nós por cá já sabíamos, através de um eufórico Jerónimo de Sousa, que se vivem novos tempos em Angola.

Admitindo que a situação está diferente em Angola, convém sublinhar que o secretário-geral do PCP põe uma pedra sobre o passado, ou seja, não fala da “acumulação primitiva”, que o velho Marx descrevia assim:
    “(…) a acumulação do capital pressupõe a mais-valia, a mais-valia a produção capitalista, e esta a existência de grandes quantidades de capital e de força de trabalho nas mãos dos produtores de mercadorias. Todo esse movimento tem assim a aparência de um círculo vicioso do qual só poderemos escapar admitindo uma acumulação primitiva, anterior à acumulação capitalista (‘previous accumulation’, segundo Adam Smith), uma acumulação que não decorre do modo capitalista de produção, mas é o seu ponto de partida.

    Essa acumulação primitiva desempenha na economia política um papel análogo ao do pecado original na teologia. Adão mordeu a maçã e, por isso, o pecado contaminou a humanidade inteira.”
Mas a maçã de José Eduardo dos Santos agora não interessa nada, pois não?

Buscar forças no estrangeiro

A vitória de Berlusconni (escrito com dois “n”, depois corrigido) deu um suplemento de alma a Santanna:
    Berlusconi ganhou!Berlusconni venceu! (…) Ganhou mais um populista, demagogo, direitista...Como será possível? Não existirão lá comentadores esclarecidos? Aqui há um ano, ou menos, em Itália, e sobre Itália, dizia- se que não havia alternativa de direita. Pois lá está, outra vez. Como devem ficar confusos. Acima de tudo, há que felicitar Silvio Berlusconi pela sua enorme capacidade de resistir, de acreditar, de ultrapassar obstáculos, de lutar, de ressurgir das derrotas, de vencer os seus adversários, de calar tanto detractor.
Mas, havendo o perigo de a espuma se dissolver com o tempo, Santanna precisa de, periodicamente, recarregar baterias. Foi abastecer-se ao outro lado do Atlântico com “Barack Obama, esse, [que] está já quase candidato”:
    É essa a força de umas primárias, especialmente quando clarificadoras e bem disputadas: dão uma grande força, legitimidade e poder de mobilização a quem ganha para depois poder derrotar o adversário externo.”
Que político irá Santana invocar no dia 31 de Maio (se lá chegar)?

♪ Russian Red




Cigarettes

Sexta-feira, Maio 09, 2008

Há muita falta de memória na política e nos políticos¹

Para Pedro Marques Lopes, “a decisão que o PSD tome no dia 31 de Maio condicionará o peso de forças partidárias que não se reconhecem no modelo democrático liberal ocidental. Falamos do BE e do PCP que segundo as ultimas sondagens, juntos, atingem mais de 18% do eleitorado”.

Sem pôr em causa o pressuposto, convém lembrar (a Pedro Marques Lopes, mas não só) que, segundo os resultados das últimas eleições legislativas, já o BE e o PCP, juntos, atingiam perto de 15 por cento do eleitorado (estamos, portanto, ainda dentro da margem de erro).

A coisa foi de tal maneira que o Dr. Portas se demitiu logo ali, lembrando que em “nenhum país civilizado do mundo a diferença entre os trotskistas e democratas-cristãos é de um por cento”.

___________
¹ Jorge Coelho, presidente do conselho de administração da Mota-Engil.

Da série “Reviver o Passado na São Caetano” [4]




Vale a pena acompanhar o noticiário da candidatura de Manuela Ferreira Leite e reencontrar aquele estilo digno e educado que a modernidade mediática frequentemente esquece.

Dois exemplos, apenas para começar: “O distinto jurista Paulo Mota Pinto é a figura que candidatura Manuela Ferreira Leite escolheu…”; ou “o conhecido militante do PSD e distinto Presidente da Câmara Municipal do Porto apelou a que todos tenham noção da enorme responsabilidade que recai nos ombros dos militantes do PSD nestas directas”.

Segue-se a notícia «Carlos Pinto: “Há uma necessidade urgente de liderança”». Acontece que este companheiro é beirão e, como tal, não é “conhecido” nem “distinto”; é apenas “O emblemático Presidente da Câmara Municipal da Covilhã”, que “manifesta publicamente o seu apoio a Manuela Ferreira Leite” e “é muito claro na assunção desta posição”.

Não menos interessante é o texto sobre a “reunião de Torres Novas”. Há ali qualquer coisa que nos reenvia para os jantares de João Carlos Espada e Lord Plant na High Table de Oxford: “Ontem à noite, os militantes do distrito de Santarém reuniram-se em Torres Novas para ouvir e interpelar Manuela Ferreira Leite. Num salutar e dinâmico convívio, a troca fácil de ideias e a discussão franca e aberta foram as marcas dominantes… Determinada, séria e responsável, Manuela Ferreira Leite abdica do discurso fácil falando dos reais problemas do País, mostrando uma indiscutível perseverança em políticas correctas recusando o politicamente correcto.

Depois destes exemplos, o CC sugere apenas uma correcção. Na notícia “A preferida dos portugueses”, onde se lê “Tendo apresentado a sua candidatura há uma semana, Manuela Ferreira Leite já é a preferida dos portugueses para liderar o PSD”, deve ler-se “tendo apresentado a sua candidatura há uma semana, ainda é a preferida dos portugueses para liderar o PSD”.

Leituras

Da série "Frases que impõem respeito" [155]

    «O "sub-prime" (crédito à habitação de alto risco) é "uma das melhores inovações dos últimos anos"».

Os conselhos de ministros no princípio do século




A realidade ultrapassa sempre a imaginação: Bagão a contar anedotas, salvo as involuntárias, já custa a acreditar; mas vir a saber-se que Ferreira Leite se divertia a ouvi-las parece uma história de ficção.

A verdade é que Bagão Félix, desenterrado hoje pelo semanário gratuito Sexta, garante que os conselhos de ministros do Governo PSD/CDS-PP eram muito animados e nem se dava conta das horas a passar:
    “Nos conselhos de ministros, [Ferreira Leite] era das pessoas mais bem-dispostas. Eu contava algumas anedotas e ela era das que se ria com mais vontade. Ao contrário do que se pensa, é muito mais solta, doce, até.”

Ser, em Lisboa, o partido da vespa




Promessa do reeleito presidente da distrital de Lisboa do CDS-PP: "Vamos também centrar-nos nas próximas eleições autárquicas que serão uma oportunidade para o CDS recuperar o vereador que perdeu nas anteriores eleições". Um objectivo ambicioso, sem dúvida. Toca a trabalhar.

PS — Depois de ter abandonado todos os cargos na sequência das eleições para a Câmara de Lisboa (3,7 por cento dos votos), Telmo Correia regressa de pantufas, substituindo João Rebelo na presidência da mesa distrital. Que andará a fazer Rebelo para não ter tempo para se manter nesse cargo decorativo?

♪ The National




Slow Show



Eles vão andar por aí. Lá iremos, no Domingo, a Lisboa, à Aula Magna, para rever o John Lennon, desta vez na bateria (como as imagens o comprovam).

Quinta-feira, Maio 08, 2008

O menino-guerreiro na festa de anos do “menino PSD”


Menino-guerreiro canta os “parabéns” ao “menino PSD”



Cunha Vaz afirmou, na célebre entrevista ao Público, que os jornais económicos são mais rigorosos do que os generalistas. Podem ser ou não — mas serão certamente mais minuciosos. Veja-se como o Diário Económico descreveu ontem a apresentação da candidatura de Santana Lopes [“Um espectáculo chamado Santana Lopes”]:
    «A festa foi preparada ao pormenor: havia música, bolo e até se cantou. Faltaram as palmas.

    O cenário no pátio da sede do PSD era este: cerca de oitenta pessoas, vestidas com a roupa de domingo, uns quantos jovens a distribuir panfletos e bandeiras, a brigada do costume — Miguel Almeida, Pedro Pinto e Rui Gomes da Silva — espalhada pela multidão e Maria José Valério, de cabelo verde, com uma t-shirt a dizer "Meu querido Dr. Pedro Santana Lopes" e um fio ao pescoço com a fotografia de Carlos Cruz. Nas colunas, em bom som, ouvia-se o seguinte: "Ele sabe o que quer. Ele sabe ouvir. Mas não hesita em decidir." Ele, Santana, está de volta.

    De repente, o hino do partido. Toda a gente se cala e olha na direcção da porta do palacete. Sai um anão. Passam uns segundos. Sai o menino guerreiro. "Santana, Santana", gritam empolgados alguns, enquanto outros, mais comedidos, limitam-se às palmas.

    São 18h46 - o discurso vai começar com dezasseis minutos de atraso. Mas primeiro, falta aquecer a plateia. O mandatário da candidatura, Arlindo Carvalho, dá um jeito. "É sempre assim, só à última da hora é que escolhem o mandatário. Depois vem um caramelo qualquer que ninguém conhece", comenta Tomasini, militante de 73 anos, com um amigo. Segue-se, por fim, Santana.

    "A nossa razão tem o mesmo nome que o nosso objectivo: Portugal, ambição nacional." Era um bom soundbite. Mas ninguém bateu palmas. O candidato respira fundo, e duas páginas à frente tenta outra vez: "Comigo, o PSD será o partido da nova ambição nacional". Silêncio.

    O primeiro aplauso só surge aos onze minutos (de um discurso de vinte), quando alguém, sozinho, o incita ferozmente lá no fundo. Acaba por contagiar uma multidão, que não esperava receber duas surpresas no final: cantar com o antigo primeiro-ministro os parabéns ao partido e dividir com ele uma fatia de bolo de anos. Os jotas, menos entusiasmados com o brinde, preferiram ficar lá fora a rodear o ídolo. E voltar à carga: "Ninguém pára o Santana, ninguém pára o Santana oé ô".»

Da série "Frases que impõem respeito" [154 – Número duplo]

    "Sou muito amigo do dr. Almeida Rodrigues, já trabalhei com ele várias vezes, mas também sou procurador-geral adjunto com dez anos de cargo e por uma questão de estatuto não podia ficar" [na dependência hierárquica de um polícia].

    "Se eu ficasse, seria mal visto pelos meus colegas do Ministério Público".
      Baltasar Pinto, director nacional adjunto da Polícia Judiciária, em declarações ao JN

Histórias à antiga portuguesa que já não animam a imprensa

A Quercus não se pode queixar de não ter boa imprensa. Qualquer suspiro de Francisco Ferreira tem direito a parangonas, todos os desaires arrumam-se nuns fugazes telexes.

Talvez a história mais surpreendente seja a que o Expresso contava na sua edição de 25 de Abril: a angariação de financiamentos para a Quercus é feita através de um intermediário, o Sr. Marcos Bartilotti, que cobra comissões “de 10% a 15%”. O Núcleo de Lisboa lembrou-se de pedir aos tribunais a sua opinião e a direcção nacional da Quercus cortou o mal pela raiz: demitiu o Núcleo. Há mais demissões, sócios que falam que nunca viram “um clima de medo como aquele que se vive agora”, documentos em parte incerta e dirigentes que também são contratados pela Quercus no âmbito das suas actividades profissionais.

Como se vê, uma história com os ingredientes necessários para ser uma boa história à antiga portuguesa. Estava eu ansioso que a imprensa desenvolvesse o folhetim, mas chego à conclusão de que já mais ninguém se diverte a ler o Expresso.

♪ Ray LaMontagne




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Quarta-feira, Maio 07, 2008

Carro, motorista e secretária justificam este despautério?

Santos Cabral, juiz conselheiro e ex-director nacional da PJ, considera que Almeida Rodrigues “tem todas as condições para dirigir e fazer singrar a Judiciária, num momento algo conturbado na vida da instituição”.

O presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses não pensa assim e passou o dia a falar para tudo o que é microfone. Numa reacção típica de um corporativismo desvairado, António Martins vê a escolha de um alto quadro da PJ para dirigir a instituição como uma forma de a politizar.

Convém avisar o dirigente sindical de que a PJ sempre foi um serviço na dependência do Ministério da Justiça — e que a independência dos juízes e a autonomia dos procuradores resultam da posição que lhes é conferida no âmbito do aparelho judiciário (e não fora dele). Ou no CEJ aplicam-lhes os santos óleos que os tornam a eles, e só a eles, imaculados?

De resto, António Martins deveria evitar meter-se por esses atalhos. Ele foi adjunto de Fernando Negrão quando o actual deputado e vereador do PSD era director nacional da PJ. E todos nos lembramos como acabou aquela liderança bicéfala. O editorial de hoje do Público recorda-o: “Fernando Negrão cessou funções devido ao caso da Universidade Moderna e, igualmente, à revelação de escutas de conversas com uma jornalista.”

Balcanização em curso

O Cavaquistão desintegra-se.

“Bando de loucos”

Desabafo de Ribau Esteves sobre as sucessivas multas aplicadas ao PSD pelo estado das contas apresentadas ao Tribunal Constitucional: “o PSD bateu mais uma vez o seu recorde de multa, que ano após ano vai crescendo”. Como é que este partido quer gerir o país, não sendo capaz de gerir a sua própria casa?

Da série “Ninguém me olha a pensar que minto”¹ [2]




              «“[Vou fazer uma campanha] Pela positiva, simples, directa, objectiva, sem responder a ataques de ninguém, até porque eu nestas eleições não tenho adversários, tenho companheiros de partido” – afirmou Ferreira Leite


Da entrevista ao Expresso (de 3 de Maio):
    — Passos Coelho tem cartazes muito apelativos…
    — Quando se tem dinheiro é assim...
___________
¹ Expresso de 3 de Maio.

Da série “Ninguém me olha a pensar que minto”¹ [1]




Da entrevista ao Expresso (de 3 de Maio):
    — Falou com Cavaco antes de avançar?
    — Não. Não misturamos questões políticas e pessoais. A última coisa que me passaria pela cabeça era criar constrangimentos ao professor Cavaco.
___________
¹ Expresso de 3 de Maio.

O monstro e a credibilidade















Muitos tentaram, vários ficaram pelo caminho. Já que falamos de credibilidade, este deveria ser (hoje) o tema de debate na campanha interna do PSD: a Comissão Europeia «considera que Lisboa reduziu o desequilíbrio orçamental para um valor abaixo do limite de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) de uma "forma credível e sustentada".»

♪ The Last Shadow Puppets





My Mistakes Were Made For You

Terça-feira, Maio 06, 2008

O comentário político a quem o trabalha

Na entrevista a Judite de Sousa, Santana Lopes tirou um coelho da cartola: se Marcelo se tivesse candidatado a presidente do PSD, ele teria ficado no aconchego do lar. Hoje, Marcelo retribui: “Santana seria o meu candidato a Lisboa”.

Como refere o Diário Económico, Marcelo vem mudando de opinião sobre Santana à velocidade da luz no púlpito que a RTP lhe oferece (e ainda lhe paga):
    «Há menos de um ano, o comentador vaticinava um caminho distinto do que hoje traça a Santana Lopes. Em Agosto, em entrevista ao Diário Económico, Marcelo via em Santana “vontade de voltar ao protagonismo” e, “depois de um brutal insucesso eleitoral, a opção lógica apontaria para uma candidatura presidencial”. Caminho este que tem sido apontado para o próprio comentador, ainda mais depois de se ter recusado a disputar estas directas no PSD. Nessa mesma altura, Marcelo dizia que um regresso de Santana à liderança “seria o pandemónio e o paraíso de Sócrates”. Para o PSD, “seria dilacerante. Um filme de terror que não desejo”.»
Um comentador ao rubro — que não gosta especialmente de Lisboa.

“Anacrónico”

Pode ser uma tomada de posição “bem intencionada”, mas parece uma postura “anacrónica”: um vogal do Conselho Regulador da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) não deveria abster-se de andar pelos jornais a mandar postas de pescada?

Pois o da concorrência é que está na política activa




Desde ontem que os media nos matraqueiam com “o apoio público do militante número um do PSD” a Manuela Ferreira Leite, que no entanto só esta noite… será divulgado.

Não sei se os leitores têm presente, mas o tal “militante número um do PSD” possui um império de comunicação social, que utiliza a seu bel-prazer. Há dias, a SIC e o Expresso manipularam — aliás, de uma forma grosseira — a leitura dos resultados de uma sondagem sobre as eleições directas no PSD.

O Expresso já ensaiara a estratégia de se mostrar abertamente ao lado de Ferreira Leite. Na penúltima semana (25 de Abril), coloca Santana em manchete num imenso fundo negro, na qual surge em letras garrafais: “Voltou!”. Na última semana (3 de Maio), aparece Ferreira Leite a fazer pose num hotel de charme.

Francisco Pinto Balsemão, o “militante n.º 1”, preside à Impresa e à Controljornal e, estando sempre a apregoar que se encontra desligado da política, intervém constantemente — para além daquele divertido hobby de que não abre mão: a coordenação da revisão do programa do PSD, uma espécie de obra de Santa Engrácia.

É claro que Pina Moura é que está na política activa — tão activa que recrutou VPV para fazer companhia aos Morangos com Açúcar.

Leituras

• Pedro Adão e Silva, A indefinição do PSD:
    “(…) escrevi (…) que o não posicionamento ideológico tinha sido, durante muito tempo, uma vantagem comparativa para o PSD. Isto porque plasticidade ideológica combinada com prática de poder fez do PSD “o mais português dos partidos portugueses”. Mas o que foi vantagem deixou de o ser. Sem poder nacional desde 1995 — exceptuando a traumática experiência Durão/Portas/Santana — e com o PS de Sócrates a ocupar o espaço da eficácia reformista e da cultura de poder outrora associada aos sociais democratas, o PSD deveria procurar pôr fim ao tempo da indefinição e procurar diferenciar a sua oferta eleitoral da do PS. Contudo, os sinais das primeiras semanas de campanha interna não apontam nesse sentido.”
• Wolfgang Munchau, Pessimismo para quê?:
    “Fiquei surpreendido com as últimas projecções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o crescimento da zona euro, na medida em que apontam para uma ligeira recessão nos EUA, com uma taxa de crescimento anual positiva de 0,5% para este ano, e para uma forte contracção no crescimento da zona euro em 2007, de 2,6% para 1,4%.

    Isto é, para mim, um verdadeiro quebra-cabeças. Por duas razões. Primeiro, a desaceleração nos EUA foi provocada por uma grave recessão imobiliária e por um forte aperto nas condições de crédito. Ora, não é este o cenário que se vive na zona euro, apesar de se verificarem algumas desacelerações regionais, designadamente em Espanha. Segundo, as notícias económicas na zona euro têm sido melhores do que o esperado, ainda que o seu dinamismo não tenha sido totalmente compreendido.”

BES e PCP juntos contra Geldof




Bob Geldof afirmou hoje, numa conferência sobre desenvolvimento sustentável organizada pelo BES e pelo Expresso, que Angola é um país "gerido por criminosos". O banco de Ricardo Salgado saltou que nem uma mola: “O Grupo Banco Espírito Santo vem, formal e inequivocamente, declarar que é totalmente alheio e não se identifica com as afirmações injuriosas que Bob Geldof proferiu esta tarde num evento Expresso/BES relativamente ao Estado de Angola”.

Suspeito que Ricardo Salgado se anda a informar no Avante!.

O próximo

Está renhida a votação aqui ao lado, com Santana à frente por uma cabeça. É verdade, uma cabeça. Quem diria, hã?

♪ Bob Dylan





Sara

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Quem será o próximo Presidente do PSD?

No nosso último inquérito perguntámos-lhe: "Quantos partidos liderados por actuais dirigentes do PSD concorrerão às eleições legislativas de 2009?"

Dos 605 respondentes, uma clara maioria de 53% acha que serão dois, embora 26% de optimistas acreditem que poderá ser só um. Temos ainda 15% a apostar em três e 6% em mais.

Concluída esta sondagem, queremos agora saber a sua opinião sobre quem será o próximo Presidente do PSD. Como de costume, pode votar aí na coluna da direita.

Antecipando a claustrofobia democrática em 2009






Santana Lopes confidenciou que não mais se iria queixar da comunicação social — mas eis que, logo ao virar da esquina, aí está ele a revelar-se ressentido com o que lê sobre si.

A verdade é que a forma como o Expresso, a SIC e a Renascença divulgaram os resultados da sondagem sobre as eleições no PSD foi absolutamente deplorável: os sucessivos comentários não tinham nada a ver com os números apresentados. Santana, que não tem o dom da escrita, nem conseguiu explicar bem até onde chegou a deturpação dos factos.

O comprometimento quase obsceno dos media com uma das candidaturas, a de Ferreira Leite, permite antever o que vai ocorrer em 2009. O Público já não está só.

Da série "Frases que impõem respeito" [153]



    “(…) as fotos não devem ter ficado muito boas, ou então Pacheco Pereira já se arrependeu de dar a cara por uma candidata que ameaça demitir-se se sentir que não tem condições para derrotar José Sócrates.”
      Gracinha de Sousa Botelho no 24 Horas

Isto não vai acabar bem [2]