sexta-feira, Outubro 31, 2014

Leituras

• Fernanda Câncio, Boas todos os dias:
    «(…) O que os dois vídeos demonstram é que o chamado "piropo de rua" é uma forma de agressão e portanto - não tenhamos medo das palavras - de intimidação e dominação das mulheres. De lhes tornar claro que na rua não estão seguras; que a rua não é delas; que se "habilitam". E isto desde meninas, e à bruta, para aprenderem (aprendermos) a lição. (…)»
• Ferreira Fernandes, Para Passos pôr e repor é um supor:
    «Confusão!, queixavam-se os jornais online. Referiam-se ao discurso inicial de Passos Coelho, ontem no Parlamento, sobre a reposição dos salários da função pública - que seria integral em 2016, disse ele -, e que, pouco depois, o próprio primeiro-ministro modificou para uma reposição gradual de 20% a partir de 2016. Confusão coisa nenhuma! O que houve foi a preguiça habitual dos jornalistas que não souberam ouvir Passos Coelho. Felizmente estava lá eu. Aqui vos deixo as palavras límpidas do orador: (…)»
• Francisco Proença de Carvalho, A lição de Carmona:
    «(…) esta forma de fazer política subverte, profundamente, a democracia, deixando-a facilmente à mercê de boatos e rumores transformados em crime por um qualquer procurador da república e das suas eventuais motivações políticas. Pelos vistos, à data, Marques Mendes não tinha os poderes de adivinhação que hoje demonstra ter. Se assim fosse, talvez não tivesse cometido esta injustiça para com os titulares de cargos públicos que deveria ter protegido.

    Mais do que isso, aparentou não perceber os perigos que a sua teoria poderia trazer para o exercício da política e para a limpeza democrática que pensava estar a defender. Apesar de estarem na moda, não se espera um pedido de desculpas a estas vítimas do populismo. Os danos que sofreram são inapagáveis, mas pelo menos que a sociedade aprenda alguma coisa com estes exemplos.»

quinta-feira, Outubro 30, 2014

Se falar em público, não beba

Afinal, ao contrário do que o ufano ministro da Economia disse na Cidade do México, Portugal não subiu no ranking do Doing Business 2015caiu. Vale a pena rever a bazófia que se apoderou de Pires de Lima quando um qualquer impedido lhe fez chegar às mãos uns dados mutilados do relatório. Fazer política com a espuma dos dias — como é apanágio do CDS-PP — expõe os seus autores a situações ridículas como esta.

Os amanhãs que cantam do pantomineiro-mor


O alegado primeiro-ministro não se coibiu de mentir repetidamente para se alçar a São Bento. Depois, continuou igual a si próprio. Todos os anos, o pantomineiro-mor anuncia o fim do calvário da política de «ir além da troika», como a imagem supra documenta. Eis os links para as peças reproduzidas na imagem:

Da série "Frases que impõem respeito" [884]


Senhor Presidente, não dê ouvidos a Ascenso. Não se deixe pressionar. Não condecore Sócrates. É que ele não merece tamanha nódoa no seu currículo.
      Augusto Santos Silva, no Facebook, aconselhando Cavaco Silva a ignorar a reclamação de Ascenso Simões

Homem prevenido

Aguiar-Branco diz que a Colômbia é um mercado «importantíssimo» para empresas portuguesas de Defesa. Talvez por isso a JPAB foi à frente. Saber entrelaçar o presente com o futuro é um dom. E nem todos o têm.

Ver a fábrica de turbinas eólicas por um canudo

Hoje no Diário Económico

Coube à Miss Swaps procurar justificar a excitação com que o Governo — e, em particular, Paulo Portas — recebeu a proposta da China Three Gorges (CTG) para a aquisição da participação do Estado na EDP. A futura ministra das Finanças fez saber então que a proposta do Estado chinês era «irrecusável», não apenas pelo montante avançado como também porque traria outros benefícios para a economia portuguesa, como «a criação de uma fábrica de turbinas eólicas em Portugal, o que gerará exportações anuais da ordem dos 500 milhões.»

Entregue à CTG a participação do Estado na EDP, nunca mais se ouviu falar da fábrica de turbinas eólicas. Entretanto, Lu Chun, que substituiu Cao Guangjing na presidência da CTG, está de visita a Portugal, tendo tido encontros com Cavaco Silva e Passos Coelho. Das notícias plantadas sobre a visita de Lu Chun (e os encontros que manteve com Cavaco e Passos), nem uma breve alusão sobre a criação da fábrica de turbinas eólicas. Porquê?

Quem pagou a ida ao México dos jornalistas
(«patéticos» e «preguiçosos», por definição)?

    «1. Cansado de tanto pessimismo, fico sempre hipercontente com qualquer sinal de desafogo.

    2. Por isso, a evidência de que as televisões, mais não sei quantas rádios, acompanharam a visita do vice-primeiro ministro e do ministro da Economia ao México (ao que pude ver, para manobrar uma máquina, saltar num estaleiro e assim apoiar as empresas, além de jantar ao que constava com metade do PIB mexicano), encheu-me ontem de alegria.

    3. É que afinal têm dinheiro para colocar os seus jornalistas perto dos acontecimentos que contam. Ora bem, para quem, como eu, ainda antes da troica, ouviu tantos lamentos sobre a penúria dos media, isto só pode representar um suplemento de alma.

    4. A não ser... A não ser que a expedição tenha sido proporcionada pelo Governo e custeada pelo défice.

    5. Não, não pode ser. Cruzes canhoto. Raiaria a obscenidade, não? Tantos cortes no rendimento mínimo, tanta contenção recomendada ao Estado. Não pode ser. À cautela, algum jornalista poderia fazer o obséquio de nos informar sobre o assunto? Só para eu ficar mais descansado.»

O CC errou


Precipitei-me ao dizer aqui que Paulo Portas tinha ido dar um passeio ao México só para anunciar um projecto turístico da Mota-Engil que já havia sido contratado há um mês… em Lisboa, no Hotel Ritz, onde, de resto, Sua Excelência o Presidente da República fez prova de vida. Terei sido induzido em erro pelo próprio show off do vice-pantomineiro na Cidade do México.

Paulo Portas fez mais, de facto. Foi testemunha da assinatura de mais um contrato da JP Couto, avaliado em 1,2 mil milhões de dólares, para exportação de computadores para o sector da educação. Destes computadores:

Atrofia municipal

• Luís Toscano, Atrofia municipal:
    «(…) parece haver uma clara tentativa de aplicar um conjunto de restrições, tanto financeiras e administrativas, às câmaras que recorram ao fundo. Vejamos. Todos os municípios que recorrerem ao fundo ficam obrigados a cobrar as taxas máximas de IMI, IRS ou derrama! Terão de "propor, adotar e contratualizar com o fundo um programa de ajustamento municipal com um conjunto de medidas", sujeitando-se à monitorização das suas finanças pelo fundo e submetendo-se " a regras rigorosas de responsabilização em caso de incumprimento" segundo o secretário de Estado da Administração Local. E ficam ainda impossibilitadas de recorrer a fundos comunitários, isto é, de recorrer a um dos poucos sítios onde há dinheiro para investimento! E sem investimento não se cria emprego, não se fixa população nem se gera riqueza. (…)»

quarta-feira, Outubro 29, 2014

Festa brava


Passos Coelho não terá gostado que, no domingo, Paulo Portas o tivesse pressionado para não adiar demasiado a decisão de o PSD e o CDS se apresentarem coligados nas próximas eleições legislativas. A bordoada que Passos Coelho lhe infligiu foi de caixão à cova. Nunca se vira uma reacção assim entre membros de um governo, para mais sendo um o (alegado) primeiro-ministro e o outro o vice-primeiro-ministro.

Que resposta deu o pantomineiro-mor ao vice-pantomineiro? Esta: «Eu não vou introduzir a questão da coligação no debate político. Acho que ela vem completamente a destempo». E ainda deu a estocada final: «Eu agora estou concentrado na questão orçamental, em reformas importantes que levámos ao parlamento: a reforma da fiscalidade verde, a reforma do IRS. Há outras reformas importantes que têm de andar e que terão de ter desenvolvimento até ao final do ano, nomeadamente ao nível da reforma do Estado».

Paulo Portas, que tinha montado o seu circo na Cidade do México, reagiu com um ar transtornado [vídeo]: «Elas [as reformas] estão presentes [sic] no Orçamento [do Estado]. Quando estou fora de Portugal a defender as empresas, as marcas e produtos, ou seja, a bandeira de Portugal, nunca faço comentários sobre política interna». E ainda balbuciou: «Estou aqui como vice-primeiro-ministro e não como líder partidário».

Temos, portanto, um primeiro-ministro que manda o seu vice-primeiro-ministro trabalhar, que faça a reforma do Estado de que foi incumbido (e não fez) e, se se portar bem, lá para o Verão terá uma conversa com ele. E temos um vice-primeiro-ministro que replica, prevenindo o primeiro-ministro de que, estando no México em funções oficiais, não entra na politiquice interna fomentada pelo (alegado) primeiro-ministro.

Em Belém, assiste-se a tudo isto como se o funcionamento das instituições democráticas estivesse plenamente assegurado.

A despedida das despedidas

— Angela, saí melhor do que a encomenda, não?

OPA sobre a UGT


O 36.º aniversário da UGT foi comemorado com um seminário internacional, no qual falaram cinco membros do Governo: o alegado primeiro-ministro, dois ministros e dois secretários de Estado, para além de outros ex-ministros e ex-secretários de Estado do PSD. Não será de mais? Podiam ao menos disfarçar um bocadinho...

Paulo Portas: — Ó Eng. Mota, posso dizer
que o investimento no México foi arranjado por mim?

Protocolo de investimento da Mota-Engil com as empresas mexicanas
Servicios en Construcciones Técnicas Geoplasa
e Importaciones Marktorne, assinado em Setembro

O último grande evento do CDS-PP no estrangeiro, custeado como os anteriores por dinheiros públicos, foi preparado ao milímetro. Paulo Portas fretou um avião para transportar uma vasta comitiva até à Cidade do México. Deu boleia a um enxame de jornalistas para que os ecos do evento atravessassem o Atlântico. Moveu mundos e fundos para poder tirar uma selfie com Carlos Slim, considerado o homem mais rico do mundo.

A coisa não correu lá muito bem. O vice-pantomineiro regressa a Lisboa quase de mãos a abanar. Sem investimentos cá e lá. Para dissimular o fracasso, Portas pôs-se a fazer propaganda a um projecto turístico da Mota-Engil, cujo protocolo de investimento foi assinado há um mês… em Lisboa.

Parece confirmar-se a lei de Murphy: anything that can go wrong will go wrong. A verdade é que até Carlos Slim faltou ao jantar com Paulo Portas e nem se deu ao trabalho de justificar a ausência. Resignado ante a impossibilidade de tirar uma selfie com Slim, Paulo Portas ainda balbuciou que o multimilionário não esteve no jantar «por acaso». Aconteceu tudo por acaso. Menos as despesas à conta do erário público.

No Blasfémias II

    «EXORCIZAR FANTASMAS ?| De vez em quando passo os olhos pelo Observador - esse "santuário" online da direita à portuguesa. Li os últimos dois textos de opinião publicados hoje. Um de Gabriel Mithá Ribeiro; o outro de Maria João Marques. Ambos acusam a "esquerda" de qualquer coisa. O primeiro termina assim "Mais ou menos como no tempo de Salazar". O segundo termina assim: "Já Salazar pensava assim." Estarão a cumprir um "protocolo de estilo" ou a exorcizar os seus fantasmas?»

Se queres conhecer o partido do contribuinte,
mete-lhe o fisco na mão


A Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais foi confiada ao partido do contribuinte, que se vem destacando não apenas pelos consecutivos aumentos (enormes) de impostos (sobre os trabalhadores e consumidores), mas também pela selvajaria como trata os contribuintes que, devido à crise ou até à ignorância da lei, são apanhados nas malhas do fisco.

O Diário Económico relata hoje uma situação chocante. Uma viúva, que vive com três dos seus seis filhos e duas netas, vai ver a sua casa ser leiloada para pagar uma dívida de 1.900 euros ao fisco. A dívida resulta de ter enviado para a sucata dois carros e não ter dado conhecimento do abate à Autoridade Tributária. O fisco continuou a liquidar o imposto único de circulação (500 euros), a que acrescem juros e coimas.

A contribuinte em causa, que esteve desempregada e, na hora actual, aufere o salário mínimo, tem feito entregas semanais no serviço de Finanças da sua residência, de 50 ou 100 euros, conforme pode. É pouco para saciar o valete que o partido do contribuinte colocou na Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais. Agora, fica sem a casa onde vive. É o «visto familiar» numa das suas múltiplas formas.

Viagens na Minha Terra

Um ministro excitado com o modelo de salários baixos



O CDS-PP não será um partido «sexy», como António Pires de Lima pretendia que conseguisse ser, mas é com certeza um partido excitado, um partido que se alvoroça com pouco. Na Cidade do México, o ministro da Economia apareceu ensoberbecido por o ranking do Doing Business 2015 colocar Portugal em 25.º lugar.

A subida no ranking deve-se a dois factores: por um lado, à redução do IRC, o imposto sobre os lucros das empresas (p. 56); por outro lado, à flexibilização do mercado de trabalho, tendo sido levadas em conta as medidas que cortam as indemnizações por despedimento e o aumento da duração máxima dos contratos a termo (p. 57). Em todos os outros itens considerados (desde a simplificação de procedimentos à protecção dos investidores minoritários), o país não revelou melhorias — ou até piorou. Neste contexto, o júbilo de Pires de Lima fica a dever-se exclusivamente à perda dos direitos laborais e à transferência de rendimentos do trabalho para o capital.

Quando o ministro da Economia aparece tão excitado com o ranking — em que Portugal, repita-se, apenas subiu naqueles dois factores —, o que ele está a transmitir é o lema da sua governação: a escravatura é o limite. Assim sendo, não será um motivo de regozijo Portugal aparecer à frente de países como a Holanda, a França, a Espanha, a Itália ou o Japão. É tão-só querer competir no mercado global através de salários baixos.

Lutar contra a desigualdade

• Alexandre Abreu, Brasil: a escolha sensata:
    «(…) convém não esquecer que estamos a falar daquele que foi conhecido durante muito tempo como o campeão mundial da desigualdade - um país que conheceu durante décadas uma polarização extrema entre uma vasta maioria indigente e uma riquíssima elite extrovertida. E convém ter presente que contra esse pano de fundo, as conquistas sociais dos mandatos presidenciais do PT são nada menos que espantosas : a pobreza extrema reduziu-se de 15,2% para 5,3% da população; as despesas sociais aumentaram consistentemente, de 13% para 16% do PIB num contexto em que o próprio PIB cresceu de forma notável; e uns espantosos 31,5 milhões de pessoas saíram da situação de pobreza.

    O salário mínimo, em termos ajustados à inflação, aumentou 76% entre 2003 e 2014. O desemprego caiu de 13% para os actuais 5%. A desigualdade reduziu-se de forma sustentada ao longo do período, assente na redução da proporção dos ganhos do crescimento económico capturada pelos estratos de mais elevado rendimento. E tudo isto teve lugar a par de um desempenho económico global muito acima do medíocre crescimento verificado durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso. Nos últimos doze anos, o Brasil cresceu muito e foram sobretudo os mais pobres quem beneficiou. São muito poucos os países de que se pode dizer isso. (…)»

terça-feira, Outubro 28, 2014

Da série "Frases que impõem respeito" [883]


Não sei se não condecorar [José Sócrates] não será a melhor Ordem que lhe pode atribuir.
      Capoulas Santos (ontem no i), sobre o comportamento do rancoroso, mesquinho e medíocre Cavaco Silva, lembrando que «convém perguntar a Sócrates se estaria interessado», e não deixando de sublinhar que «não é coisa que preocupe o PS», porque «os méritos de José Sócrates não é o Presidente que os atribui»

Nem prémio, nem livro


Estória deliciosa protagonizada por um vice-presidente do PSD.

Relatos da implosão

— Ó Crato, a tua implosão nem as universidades poupou?

Não foi um, nem dois, nem três… Foram 15. Todos os reitores das universidades públicas e da Universidade Católica. O Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) arrasou a avaliação que a Fundação para a Ciência e a Tecnologia está a fazer aos centros de investigação do país. Numa carta enviada a Nuno Crato, o CRUP sustenta que já não é mais possível dar o «benefício da dúvida» ao actual processo de avaliação. Mais: «Para que um sistema de avaliação seja capaz de promover a excelência tem de, ele próprio, ser pelo menos excelente, se não excepcional. Não é o caso.»

Depois de uma explicação do que está em causa, o CRUP diz recusar «a morte de quase 50% do tecido científico português». É esta a herança que Crato vai deixar ao próximo governo.

Dois em um


Há múltiplos sinais de que o Governo e a maioria de direita estão a queimar o governador do Banco de Portugal em lume brando. A passagem acima reproduzida (extraída da peça do Diário Económico referida no post anterior) confirma que assim é. Afinal, trata-se, por um lado, de atirar as responsabilidades da trapalhada do BES para Carlos Costa e, por outro lado, de pôr em evidência que, ao aproximar-se o fim do seu mandato, é inevitável encontrar outra personalidade para ocupar o cargo. A direita quer nomear um schäubliano antes de ser apeada.

Com que então a imitar a Miss Swaps, Senhor Governador?


Hoje no Diário Económico

A trapalhada (para dizer o mínimo) em torno da resolução do BES adensa-se. A Direcção-Geral da Concorrência (DGComp) da Comissão Europeia abriu o processo que levou à autorização da utilização de dinheiros públicos no dia 30 de Julho, quarta-feira. Enquanto o Governo e o Banco de Portugal se entretinham a congeminar a operação, sem que a CMVM tivesse sido informada, as acções do BES desvalorizaram entre os dias 31 de Julho e 1 de Agosto mais de 65% e «só nos últimos 42 minutos antes da suspensão da cotação foram transaccionadas em bolsa nada menos do que 80 milhões de acções!» Por isso, a CMVM está a investigar se houve quem estivesse a par do que estava em preparação (para além de Marques Mendes, que antecipou, a 2 de Agosto, a solução que viria a ser divulgada no dia seguinte).

Acontece que, no dia 8 de Outubro, o governador do Banco de Portugal e a Miss Swaps foram ouvidos na Assembleia da República. Ambos negaram que tivesse sido informada a DGComp no dia 30 de Julho. Este departamento chegou a retirar (tendo depois voltado a colocar) do site a informação que publicara no dia 30.

As declarações de Carlos Costa no parlamento não poderiam ter sido mais peremptórias: «A notícia resulta da consulta das pastas da DGComp e só pode ser explicada pela DGComp. O Banco de Portugal não se corresponde com a DGComp». O governador afirmou ainda: «Não há nenhuma comunicação do lado português» naquela data. «Do Banco de Portugal não houve, mas tenho quase a certeza que não houve do lado português».

Hoje, o Diário Económico revela que o Banco de Portugal emitiu um comunicado, no qual confessa que «[n]o caso específico do BES, foi estabelecido um contacto informal a nível técnico com a DG-COMP, no dia 30 de Julho à tarde, por causa da dimensão dos resultados negativos que iriam ser anunciados pelo BES nesse dia.» Em português, isto significa que o governador do Banco de Portugal faltou à verdade quando declarou no parlamento que «[n]ão há nenhuma comunicação do lado português» naquela data. Houve. E o Banco de Portugal está em maus lençóis.

E o Natal cada vez mais próximo

Nuno Crato já não dá a cara. Também não dá a cara o inenarrável ajudante João Casanova de Almeida — que havia sido chefe de gabinete da não menos inenarrável Mariana Cascais, quando esta militante do CDS ocupou a mesma pasta na anterior encarnação da coligação de direita, da qual foi afastada após múltiplas gaffes. Agora, o Governo procura dourar o pandemónio nas escolas públicas através de comunicados.

Mas a realidade impõe-se: a confusão na colocação dos professores continua. Com efeito, estão ainda por preencher:
    • 128 horários completos — a que há a juntar outros 96 que estão em processo de aceitação por parte dos candidatos seleccionados; e
    • 160 horários incompletos — a que há a juntar outros 89 que se encontram em processo de aceitação.

Tendo o 1.º período lectivo 13 semanas, a situação descrita ocorre quando está em curso a 7.ª semana de aulas. Provavelmente, Crato nem dá por isso.

Que topete, Manuel Alegre!

Hoje no Correio da Manha

De facto, como o Correio da Manha hoje sublinha, é preciso muita falta de vergonha por parte de Manuel Alegre para ter a ousadia de defender que José Sócrates deve ser condecorado por ter sido primeiro-ministro durante seis anos. Mas aonde é que já chegámos para fazer uma afronta deste calibre ao país e a Sua Excelência o Presidente da República?!

Mais notícias da redução de impostos no OE-2015

O que os testes de stress não captam

Banqueiros à saída da São Caetano (em 13/10/2010)

• João Galamba, Os testes de stresse:
    «Apesar do percalço BCP, que não tem grande importância, os outros dois bancos portugueses incluídos nos testes de stresse do Banco Central Europeu - Caixa Geral de Depósitos e BPI - passaram com distinção. Quererá isto dizer que o sector financeiro português está sólido? (…)»

Os dias do fim

• Mário Soares, O petróleo em queda:
    «(…) a grande maioria dos portugueses, de todas as profissões, ricos e pobres, e mesmo da classe média, que está a desaparecer, estão contra o governo. Ninguém de boa-fé o tolera. Há ministros que revelam ser incapazes - como são os caso do da Educação, da Justiça, da Defesa, da Saúde e de alguns mais. Não vale a pena continuar. Os dois primeiros citados são inaceitáveis. Ninguém os leva a sério. No entanto, mesmo no caso da Educação e da Justiça, que terão querido demitir-se, Passos Coelho quis que ficassem. Porquê? Ninguém o pode explicar. Talvez porque o primeiro-ministro saiba que não pode durar muito tempo, não chegará a uns meses e acha que não vale a pena. As vaias a que é submetido todos os dias, ouve-as como se não fosse nada com ele...

    Deve ser o mesmo juízo que fazem o Presidente da República e o inqualificável presidente do Banco de Portugal. É certo que todos têm culpas no cartório e vão acabar mal... Mas Portugal está infelizmente a ficar cada vez pior. (…)»

Crime, disse ela

• Luís Menezes Leitão, Crime, disse ela:
    «A ministra da Justiça não consegue manifestamente assumir as responsabilidades pelo caos que causou em todos os tribunais do país. É, no entanto, evidente que essas responsabilidades são exclusivamente suas. Em primeiro lugar, a sua reforma do mapa judiciário é um disparate do princípio ao fim, tendo-se pretendido transpor o modelo da organização judiciária holandesa para um país com uma dimensão três vezes superior. O resultado vai ser os tribunais desaparecerem de grande parte de território, colocando-se as populações a 100 km dos mesmos, ao mesmo tempo que se abandonam tribunais em funcionamento para os substituir por contentores. Mas, como se isto não bastasse, a ministra decidiu fazer a migração de 3,5 milhões de processos de uma só vez nas vésperas da abertura dos tribunais. Qualquer pessoa via que isto só podia correr mal, como efectivamente correu.

    A ministra da Justiça está, no entanto, acima das pessoas comuns. Por isso, para ela, o colapso do Citius correspondeu afinal ao enredo de um romance policial, em que a suspeita principal foi injustamente acusada, havendo mentes malignas por trás desta história, que são os verdadeiros culpados da situação. E, como a ministra já há muito declarou que ninguém está acima da lei e que terminou o tempo da impunidade, lá pediu à PGR que investigue o hediondo crime cometido no Citius. Aguardemos então que surja um Hercule Poirot que ponha a funcionar as suas células cinzentas para descobrir o culpado. Por mim, aposto que foi o mordomo.»

segunda-feira, Outubro 27, 2014

À atenção da comissão parlamentar de inquérito ao BES e da CMVM

O que escondem os sermões do Sr. Pingo Doce?

      1. Qual é que acha que é a diferença entre os salários dos presidentes executivos (CEO) das empresas e os dos trabalhadores não qualificados?
      2. E qual deveria ser, na sua opinião, essa diferença?

A Harvard Business School publicou um estudo intitulado How Much (More) Should CEOs Make? A Universal Desire for More Equal Pay, que analisa a percepção das pessoas em relação à desigualdade de salários praticada nas grandes empresas, comparando-a com a realidade. Foi feito um inquérito em 40 países com base nas duas perguntas acima reproduzidas.

O estudo em causa teve em conta três aspectos distintos:
    • O que as pessoas entendem aceitável que os CEO possam auferir como remuneração;
    • O que as pessoas julgam ser o salário dos CEO;
    • As remunerações efectivas dos CEO.

A infografia compara estas três questões diferentes:


A que se deve a discrepância entre a percepção das pessoas e a realidade? O Público socorre-se de um post de Paul Krugman para a explicar. Para o Nobel da Economia, a diferença entre a percepção e a realidade deve-se ao facto de os mais ricos entre os ricos serem virtualmente «invisíveis» para o resto da população, uma vez que «estão totalmente afastados das vidas das pessoas comuns». «Nós até podemos ver, e sentirmo-nos incomodados com jovens universitários a conduzirem carros de luxo. Mas não vemos gestores de fundos a irem do trabalho para as suas enormes mansões nos Hamptons de helicóptero». Krugman defende que é essa «invisibilidade» que evita que o protesto contra as desigualdades, que diz serem crescentes, seja maior.

ADENDA — Veja-se o que diz o Público sobre a situação em Portugal:
    «Portugal não foge à regra que se regista em todos os países. As pessoas defendem que a diferença de salários entre CEO e trabalhadores não qualificados deveria significar que os primeiros ganhariam cinco vezes mais do que os segundos, mas a realidade a que se assiste nas grandes empresas é a de que, em média, os CEO ganham 53 vezes mais.

    Nos resultados apresentados pelas empresas do PSI 20 esse tipo de diferença já era notória. Comparando os salários auferidos pelos preseidentes executivos e o salário médio dos trabalhadores da sua empresa encontram-se em alguns casos diferenças ainda mais significativas. Pedro Soares dos Santos ganhou 108 vezes mais do que a média dos restantes trabalhadores da Jerónimo Martins em 2013. Paulo Azevedo mais 92 vezes na Sonae. Estes foram os dois gestores em que a diferença foi maior, um facto explicado pelos seus grupos terem um peso muito significativo do comércio a retalho onde, em média, se praticam salários mais baixos.»

Da propaganda à indigência

Hoje no Correio da Manha

Sobe – Regressa o calor, regressam os incêndios, regressam as promessas. Continua a propaganda do Governo.
Desce – Não fosse ter deixado «a filha mais nova só e dependente da ajuda do Estado», ainda seria condecorado pelo Correio da Manha.

«O OE-2015 vangloria-se de devolver pensões e salários,
mas jura querer regressar aos cortes estruturais
na despesa pública (leia-se salários e pensões)»

Da série "Frases que impõem respeito" [882]


Vejam lá que Passos Coelho hoje criticou os jornalistas e comentadores porque não apoiam mais o Governo e a sua política e os seus êxitos. É o que se chama ser pobre a mal agradecido, um Governo que tem tido os apoios da comunicação social dominante, que tem tido os apoios que são conhecidos e vir agora fazer esta afirmação.

domingo, Outubro 26, 2014

Dilma

Para quando a publicação do 1.º tomo dos discursos de Passos?

Estava ontem a ouvir Passos Coelho a discursar nas jornadas parlamentares da direita e a minha atenção estava centrada na oratória do alegado primeiro-ministro. Ele proferiu sucessivas mentiras sobre a situação da economia e das finanças públicas, mas é o estilo muito peculiar que chega para compor a personagem: «Chega a ser patético verificar a dificuldade de gente que se diz independente tem de assumir que errou, que foi preguiçosa, que não leu, que não estudou, não comparou, que não se interessou, a não ser em causar uma boa impressão de dizer ‘Maria vai com as outras’, o que toda gente diz porque fica bem». No fundo, quando Passos Coelho abre a boca, a forma abafa a substância: «Pena que para neste exercício de coerência muitos sejam preguiçosos e às vezes orgulhosos. Têm-se dito no debate público inverdades como punhos».

Não se pode dizer que o PSD não fez um esforço notável para escolher uma personalidade que estivesse à altura dos seus pergaminhos. Justificar-se-ia com certeza que o pensamento, ou melhor, a forma singular de Passos Coelho se exprimir pudesse ser conhecido além-fronteiras. Embora muitas das expressões a que recorre o alegado primeiro-ministro não se revelem de tradução fácil noutras línguas, seria certamente um êxito planetário a publicação dos seus discursos (ainda mais se fossem acompanhados de um CD com os vídeos). Churchill muito ficou a dever o Nobel da Literatura aos seus muito bem preparados discursos. Quem sabe se…

Perguntar não ofende

Simulações feitas pela PwC revelam que as novas regras do IRS penalizam famílias sem filhos a partir dos 800 euros. Exactamente o contrário do que o Governo andou proclamar nos dias que se seguiram à apresentação do Orçamento do Estado para 2015 e da reforma da tributação das pessoas singulares. Apanhado em contrapé, o alegado primeiro-ministro tirou da cartola a cláusula de salvaguarda.

Verifica-se, através das simulações da PwC, que a adopção da cláusula de salvaguarda vai ter um efeito significativo na receita prevista para o IRS no Orçamento do Estado para 2015. Como vai o Governo colmatar o desvio?

Passos: elogio a Sócrates antes da saída de sendeiro

1. O Governo fez constar que iria fazer voz grossa no Conselho Europeu. Estava em causa o pacote Clima Energia da União Europeia 2030, havendo uma forte resistência da França à proposta portuguesa de que fossem contempladas metas vinculativas para a interligação das redes eléctricas da Península Ibérica com o resto da Europa.

Passos Coelho chegou ao Conselho Europeu a ameaçar que vetaria as conclusões, em matéria de política climática e energética, se as reivindicações de Portugal não fossem aceites. O alegado primeiro-ministro perdeu em toda a linha, como Tiago Antunes explica aqui.

2. Acontece que o brilharete que o alegado primeiro-ministro desperdiçou assenta nas energias renováveis, lançadas pelos governos de José Sócrates. Dê-se a palavra a Passos Coelho: «Depois das reformas estruturais que fizemos em Portugal e dos esforços para reduzir os gases com efeitos de estufa, o aumento das energias renováveis para produzir energia eléctrica era importante para podermos exportar». Para que não restassem dúvidas, Passos Coelho acrescenta: «Nós fizemos esforços muito grandes do ponto de vista estrutural para poder ter uma energia mais competitiva e estamos alinhados com a ideia de ter um mercado interno de energia que possa funcionar plenamente».

Mais uma involuntária vénia à «década perdida».