D. Manuel Clemente, o novo bispo de Lisboa e representante máximo da Igreja Católica portuguesa, tomou posse da pior maneira possível — e contrariando a mensagem do novo Papa dos pobres. No Mosteiro dos Jerónimos, perante uma plateia de que estavam ausentes pobres, desempregados, pensionistas, excluídos sociais e povo em geral, D. Manuel Clemente fez uma homilia para o povo do bairro do Restelo e arredores, que não lhe regateou palmas.
Mas tudo ficou mais às claras quando
esse povo aplaudiu efusivamente Cavaco, Passos & Portas, os reconhecidos responsáveis pelo estado em que o país está e protagonistas recentes da mais vergonhosa ópera-bufa do regime democrático. As palmas da naftalina do Restelo — e não do povo de Deus, que está muito distante dos meios palacianos que D. Manuel Clemente frequenta — significaram um suspiro de alívio.
Com a continuação do governo de Passos & Portas (ou vice-versa), apadrinhado por Cavaco, está garantido que serão os mesmos a continuar a suportar os sacrifícios: os malvados funcionários públicos, os pensionistas e reformados pobres que se obstinam a não morrer cedo (como seria seu
dever) e esses vis beneficiários do subsídio de desemprego e do rendimento social de inserção. Em contrapartida, continuarão a ser poupados os banqueiros, os empresários especialistas em falências fraudulentas e essa tropa fandanga que se anda a locupletar sem vergonha no sector empresarial do Estado, mesmo quando ele é vendido a retalho aos chineses, brasileiros e angolanos — gente temente a Deus que venera com igual fervor o poder temporal e o poder espiritual.
A cena triste do patriarca a receber palmas em conjunto com Cavaco, Passos & Portas lembra inevitavelmente uma cena já perdida nas brumas do tempo. Após a II Guerra Mundial, Cerejeira, acompanhado dos mais altos dignitários do Estado Novo, incluindo o piedoso Dr. Salazar, inaugurou o Cristo-Rei, manifestando gratidão a Deus por ter poupado Portugal aos horrores da guerra e mandou os presentes ajoelharem-se em respeito ao poder espiritual, representado por ele próprio, e ao poder temporal, representado por Salazar e Tomás.
O discurso, felizmente,
não está perdido. Pretende D. Manuel Clemente retomar essa
tradição ou quer alinhar com o bispo de Roma, naquilo que parece ser o caminho da simplicidade e da defesa dos pobres?
Se o seu caminho é o segundo, talvez se deva
abster de declarações infelizes a favor da legitimidade democrática do Governo. Para isso, já nos basta o manequim da Rua Augusta.