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sábado, setembro 26, 2015

Contra os «salvadores à custa da opressão»,
D. Januário apela ao voto em António Costa

Hoje no Expresso

É lamentável que o Expresso, sempre atulhado de lixo, não tenha arranjado espaço para publicar na íntegra a poderosa e, ao mesmo tempo, comovente carta do bispo emérito das Forças Armadas.

É também de estranhar que, pelo facto de não ter uma posição servil perante o governo mais reaccionário após o 25 de Abril, o Expresso apelide D. Januário Torgal Ferreira de «bispo vermelho». Esse não era o epíteto com que a direita mimoseava o antigo bispo de Setúbal, D. Manuel Martins? O diabo está nos detalhes.

quarta-feira, setembro 16, 2015

Da série "Frases que impõem respeito" [944]


Estaremos perdidos se a coligação continuar à frente do país. (...) Claro que vou votar em António Costa.

domingo, abril 19, 2015

Aborto e eleições

• Fernanda Palma, Aborto e eleições:
    «Deverá a neocriminalização do aborto ser discutida na próxima campanha eleitoral e remetida para o plano das opções partidárias? Por razões políticas, éticas e de bom senso, impõe-se uma resposta negativa. Não será prudente associar a questão às opções partidárias e torná-la um critério de escolha de uma maioria e de um governo, anulando o debate sobre alternativas e soluções para a política geral do País.

    Dada a sua importância para a definição do sentido da vida, a questão do aborto é tão profunda que nada mais se poderia discutir ou então seria banalizada pelos partidos conforme as conveniências, para conquistar o eleitorado. É verdade que a criminalização do aborto tem uma dimensão política – tal como a eutanásia –, mas isso não significa que deva fazer parte de um "pacote". Merece um tratamento por si.

    Por outro lado, tem havido uma visão transversal que separa a questão penal do plano ético e religioso. A tese moderada que prevaleceu na resposta ao referendo e na jurisprudência do Tribunal Constitucional apenas indica que a criminalização não é a solução necessária para o aborto praticado nas primeiras dez semanas de gravidez. Porém, isso não significa que o Direito não deva proteger a vida nessa fase.

    Seria pouco transparente que a questão do aborto, não tendo assumido nenhum protagonismo durante a legislatura, viesse tornar-se prioritária neste momento, perante a possibilidade de uma alteração política. E seria especialmente grave que a campanha eleitoral servisse para uma abordagem confessional, com as Igrejas a participarem na disputa, gerando ódios partidários e promovendo a desintegração dos fiéis.

    No plano ético, seria injusto (sobretudo para os mais atingidos pela austeridade, que podem passar por situações de grave conflito) considerar decisivas razões de oportunidade, como o financiamento do serviço nacional de saúde ou a quebra da natalidade. As questões da ética da vida merecem ser debatidas durante toda a legislatura e não à porta de eleições. Seja qual for a posição que se perfilhe sobre elas.»

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

You'll Never Walk Alone

• Ferreira Fernandes, Esta crónica não é sobre um milagre:
    « Foi a 21 de dezembro passado. Os estádios de futebol são lugares comuns, de gente junta. Nenhum o proclama tão bem como o Liverpool, que no portão de entrada de Anfield tem escrito a ferro forjado: "You'll Never Walk Alone." Nunca caminharás sozinho. O hino do clube diz o mesmo: "No fim da tempestade/ Há um céu dourado/ E a doce canção prateada de uma cotovia..." Nunca caminharás sozinho. É isso o futebol, um sentimento de pertença. Naquele tempo, caminhava-se para o Natal e o Liverpool não ia bem. Um comportamento mediano nos dez últimos jogos, quatro vitórias, dois empates, quatro derrotas, a última, pesada, contra o rival Manchester United, mas o que mais doía para quem já foi glorioso era mesmo a mediania - até o lugar na tabela era no meio, um insulto. Naquele domingo, o Liverpool recebia o Arsenal, outro grande. E foi então que na bancada se ergueu um vulto de toga branca, barba farta e cabelos longos apanhados por uma coroa de espinhos. O "Jesus Cristo", segurando um cartaz dirigido ao treinador do clube ("Brendan, protejo-te!"), abençoou com o gesto das igrejas cristãs antigas, três dedos juntos pela Santíssima Trindade. E Jesus salvou: desde esse dia, nos dez jogos até hoje, o Liverpool nunca mais perdeu. Claro, eu não acredito em milagres. O meu ponto é outro: um homem fazendo de Jesus, desenhadinho como Jesus, ergueu-se entre cristãos, que sorriam. Ninguém se sentiu ofendido. O que eu quero dizer é que esse é o meu campeonato.»

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Da série “Correio da Manha:
«a realidade é uma cena que a nós não nos assiste!»”


    «Faro, 08 fev 2015 (Ecclesia) – A Diocese do Algarve reagiu hoje em comunicado a uma notícia veiculada pelo ‘Correio de Manhã’ sobre um alegado membro do clero local, com o nome de João Daniel Madja, explicando que nenhum padre com esse nome está ao serviço da Igreja Católica.

    A notícia tinha como título ‘Padre acusado de violação’, acusando um suposto sacerdote num caso de violação ocorrido em Espanha.

    A Diocese do Algarve esclarece que não houve, “nos últimos anos, um presbítero com esse nome a exercer algum ministério mandatado pelo bispo da Diocese do Algarve”.

    O comunicado enviado à Agência ECCLESIA acrescenta que a diocese esclarece que “o pároco das Paróquias de Vila do Bispo, Sagres e Raposeira é o padre Jesus Lorenzo Jora Ejocha”, natural da Guiné-Equatorial, confundido na notícia com João Daniel Madja.

    O Anuário da Igreja Católica em Portugal não inclui nenhum sacerdote com este último nome e a Diocese do Algarve “desconhece, ainda, que haja alguém com esse nome a residir no concelho de Vila do Bispo”.»

quarta-feira, abril 16, 2014

Dívida: um debate moral


• Pedro Nuno Santos, Dívida: um debate moral:
    «Os adversários da reestruturação da dívida pública têm travado o seu combate no plano económico e moral, mas é sobretudo neste último que têm tido mais sucesso. No plano económico, os partidários da reestruturação/renegociação da dívida ganharam de forma inequívoca; mas no plano moral, grande parte deles acabou por se colocar à defesa - ou porque aceitam as premissas da direita, ou porque desistiram de as confrontar.

    1. A direita alimenta a ideia da culpa - "a dívida é consequência dos portugueses terem vivido acima das suas possibilidades e do despesismo" - e a esquerda desistiu de explicar as consequências assimétricas do processo de integração europeia, desde a adesão ao euro, até ao alargamento a leste e à liberalização do comércio com a China.

    2. A direita defende que, ao contrário deles, a esquerda não quer pagar o que deve; já a esquerda refere poucas vezes que não se trata de nos dividirmos entre os que querem pagar e os que não querem, trata-se sim de fazer uma escolha. E o governo já a fez - para não falhar um único cêntimo com os credores internacionais, decidiu "não pagar" parte dos salários e das pensões aos trabalhadores do sector público e aos pensionistas.

    3. A direita fala dos credores como beneméritos, aos quais não é justo imputar perdas; a esquerda não tem explicado que os nossos credores não nos "emprestaram dinheiro", fizeram um investimento financeiro em títulos de dívida pública e que, como qualquer outro investimento com risco, pode correr mal, não porque o povo português seja desonesto, mas porque o país enfrentou uma crise profunda, com consequências incontornáveis na sua capacidade de pagar. Em qualquer investimento que corre mal há perdas para o devedor e para o credor, porque haveria de ser diferente no investimento em títulos de dívida pública?

    Como disse o arcebispo Silvano Tomasi, Observador Permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas, ainda em 2012: "A dívida externa é só um sintoma da falta de justiça no fluxo de capitais mundiais" e "A riqueza e a dívida devem servir o bem comum. Quando se viola a justiça, a riqueza e a dívida tornam-se instrumentos de exploração".»

sexta-feira, março 14, 2014

«O Papa colocou questões e mandou ouvir o povo»

• Pedro Silva Pereira, À direita do Papa:
    «O Papa Francisco completa esta semana o primeiro ano de um pontificado surpreendente. À força de gestos, medidas cirúrgicas e exortações, já logrou uma proeza notável: fez renascer a esperança na renovação da Igreja Católica. As correntes conservadoras, dentro e fora da Igreja, tentam disfarçar o incómodo. Dizem que é tudo uma questão de estilo. Que é preciso perceber - ou seja, relativizar - a linguagem colorida da América Latina. Que é apenas um cristão simples, de sabedoria jesuíta e espírito franciscano. Que tudo se resume à sua maneira de ser e ao "ajustamento", aliás necessário, na gestão do Vaticano. Fazem notar, sobretudo, que nada mudou. E garantem que nada vai mudar. Oxalá Francisco os decepcione.

    Vasco Pulido Valente, esse, não desiludiu: o Papa "não traz nada de novo ao catolicismo", escreveu ele. "O que ele trouxe de novo está mais no espectáculo do que na substância" (Público, 2-2-14). Também José Manuel Fernandes (JMF), depois de ouvir o Papa dizer "nunca fui de direita" e proclamar que "esta economia mata", achou melhor advertir: "Não se iludam, o Papa Francisco não é de esquerda: é apenas católico" (Público, 17-1-14). E recordou, como se fosse uma novidade, que a opção pelos pobres está desde sempre "no coração do cristianismo", tal como o "primado da pessoa humana sobre a economia", que o Papa assume na Exortação Evangelii Gaudium (EG), consta da doutrina social da Igreja desde a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, em 1891. Concedendo que o Papa regista os limites da economia de mercado "em termos que um economista liberal não faria", JMF esforça-se por inserir a Exortação do Papa na "evolução da doutrina da Igreja", um processo que "foi muito bem descrito por Michael Novak no seu A Ética Católica e o Espírito do Capitalismo e esta exortação apostólica não representa qualquer inversão de percurso".

    A referência a Michael Novak, um pensador católico norte-americano, antigo conselheiro de Ronald Reagan e defensor da conciliação entre catolicismo e capitalismo, é muito oportuna. O único problema é que Novak não está de acordo. Em entrevista ao jornal La Stampa (21-9-13), Michael Novak perdeu a paciência com este Papa dos pobres que teve o atrevimento de denunciar a "obsessão" (sic) com que muitos na Igreja tratam as questões da moral sexual: "Francisco não se dá conta dos danos que faz", comentou Novak. Ele quer apenas mudar "o tom" da Igreja mas "o efeito corre o risco de ser prejudicial". E o pior, antevê Novak, ainda está para vir: "A esquerda vai-se sentir encorajada a pressionar por mudanças da doutrina".

    Ao clamor dos críticos respondeu o Cardeal de Munique, Reinhard Marx, conselheiro do Papa, no seu notável artigo "Para lá do Capitalismo", publicado no L'Ossveratore Romano (10-2-14). Aí recordou que o debate sobre o capitalismo é imposto pela "crise catastrófica" provocada pelo capitalismo financeiro que se desenvolveu, a partir dos anos 90, ao abrigo de uma desregulação apoiada pelo "mainstream" dos economistas, para quem o "conceito de economia social de mercado já era uma aberração socialista". Agora que "velhos demónios ressurgem nas suas aberrações em direcção ao capitalismo primitivo", escreveu o Cardeal, é preciso lembrar que a ideia de que os mercados geram o bem através da concorrência é apenas uma afirmação "ideológica". Pelo contrário, "o capitalismo não deve ser o modelo da sociedade porque não leva em consideração o destino individual dos fracos e dos pobres".

    É verdade que Francisco não introduziu nenhuma ruptura nos princípios da doutrina social da Igreja. A sua diferença está em não se ficar pelos princípios e fazer uma acentuação nova na questão das desigualdades que desautoriza frontalmente a ideologia neoliberal. Como ele próprio explicou, "não podemos evitar de ser concretos (...) para que os grandes princípios sociais não se fiquem em meras generalidades que não interpelam ninguém. É preciso tirar consequências práticas" (EG, nº 182).

    E foi lapidar: "A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar (...). Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais" (EG, nº 202). Em pleno debate sobre a "austeridade expansionista", o Papa notou que "alguns defendem ainda as teorias da recaída favorável que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social". A estes, o Papa deu uma resposta dura: "Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante" (EG, nº 54). E para que nenhum neoliberal se pudesse fazer desentendido, acrescentou: "Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo (...) requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos (...) que supere o mero assistencialismo" (EG, nº 204). Perante isto, não ver neste pronunciamento senão a mera reafirmação de velhos princípios gerais é mais do que cegueira: é uma forma como outra qualquer de minimizar e combater a mensagem do Papa.

    É noutro terreno, todavia, que se joga o desafio maior deste pontificado: as questões da moral sexual e da família, onde se acumulam bloqueios absurdos na comunicação entre a Igreja e o Mundo. Também aqui Francisco não perdeu tempo. Com lucidez, convocou para Roma um Sínodo sobre a família. E fez o que nunca tinha sido feito: mandou ouvir o povo. "Ainda não mudou nada", lembrarão os conservadores. E têm razão. A única certeza, por agora, é que o Papa colocou questões e mandou ouvir o povo. Mas qualquer mudança tinha de começar assim.»

sexta-feira, março 07, 2014

Natalidade e propaganda

• Pedro Silva Pereira, Natalidade e propaganda:
    «Depois de ter conduzido, com o silêncio cúmplice da Igreja, a mais violenta política contra a família e a natalidade de que há memória no Portugal democrático, o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas quer agora convencer-nos de que está muito preocupado com a queda brutal no número de nascimentos. Mas o velho truque da nomeação de um grupo de trabalho já não engana ninguém.

    A situação é dramática. O número anual de nascimentos, que tinha aumentado entre 2009 e 2010 de 99 mil para 101 mil, caiu abruptamente nos últimos três anos para menos de 80 mil (96 mil em 2011; 89 mil em 2012 e cerca de 79 mil em 2013). Temos agora, portanto, menos vinte mil nascimentos por ano do que havia em 2010 - uma quebra brutal de 20% desde que a direita chegou ao poder. O problema estrutural não é de agora mas nunca tinha ocorrido uma redução tão rápida e tão abrupta da natalidade. E os primeiros dados de 2014 mostram que a situação continua a agravar-se.

    Evidentemente, não é preciso nenhum grupo de trabalho para explicar as razões desta tragédia. A decisão do Governo de aplicar o dobro (!) da austeridade que estava prevista no Memorando inicial da ‘troika' arrastou o País para uma situação inédita de três anos de profunda recessão (-1,3% em 2011, -3,2% em 2012 e -1,4% em 2013) e para níveis de desemprego nunca vistos e muito superiores ao previsto (16,3% e 875 mil desempregados na média anual de 2013). O desemprego juvenil disparou e muitas dezenas de milhares de jovens (em idade fértil) foram simplesmente escorraçados para a emigração, enquanto a imigração decrescia e deixava de compensar as fragilidades nacionais ao nível da natalidade.

    Por seu turno, o desequilíbrio introduzido nas relações laborais, incluindo no próprio Estado, agravou a precariedade e a insegurança, promoveu uma forte redução dos salários, fez aumentar os horários de trabalho, forçou a mobilidade geográfica e complicou, por todos os meios, a conciliação entre a vida profissional e a vida familiar. A programação do futuro e o planeamento familiar responsável tornaram-se simplesmente impossíveis para a maior parte dos jovens. Como se não bastasse, as famílias foram sobrecarregadas como nunca com impostos e por toda a espécie de taxas e contribuições, ao mesmo tempo que viam cortadas as prestações sociais e a margem de apoio ainda disponível nos rendimentos familiares. O crédito à habitação tornou-se quase proibitivo e o custo das rendas subiu para valores insuportáveis. Tudo se conjugou contra a família, tudo se conjugou contra a natalidade.

    A verdade é que a política do Governo, excedendo em todas as frentes as exigências da ‘troika' e ultrapassando pela direita as próprias pretensões do patronato, foi uma política de pura agressão contra a família e contra a natalidade, que deixará marcas profundas por muitos anos. Não é preciso nenhum grupo de trabalho para nos explicar esta evidência e menos ainda para nos vender a ilusão de que o problema se resolve mantendo o essencial desta política apenas corrigida por meia dúzia de remendos.

    Agora que as eleições se aproximam, o Governo parece convencido de que chegou o tempo de toda a propaganda e de todas as encenações. Pelo que se vê, a imaginação não tem limites: aumentaram os impostos mas querem baixá-los; cortaram salários mas pensam subi-los; pararam os investimentos mas juram fazê-los; mandaram os jovens emigrar mas pretendem-nos de volta; atacaram a natalidade mas querem que as famílias tenham mais filhos. Por cada fracasso, uma promessa. Por cada promessa, um grupo de trabalho. Entretanto, é claro, pedem a confiança e o voto dos portugueses. Outra vez. É mesmo a primeira bola a sair do saco.»

sexta-feira, janeiro 31, 2014

O narcotráfico da direita

Entrevista de Passos Coelho ao i em 2010

• Fernanda Câncio, O narcotráfico da direita:
    ‘(…) que leva dois Governos de direita, com a popularidade em frangalhos, a fazer propostas destas, contrárias ao interesse da maioria dos cidadãos e controversas dentro dos próprios partidos, em países submetidos a brutais medidas de austeridade? Convicção ideológica? Se no caso do Governo espanhol é admissível, no do PSD português, cujo presidente e atual primeiro-ministro já defendeu publicamente não só a adoção por casais do mesmo sexo como reputou de inconstitucional a sua proibição (já referendar uma inconstitucionalidade, pelos vistos, não acha inconstitucional), é claro que não. Que vantagem viram então nestas manobras?

    Óbvio: (…)’

sábado, dezembro 28, 2013

Todos os caminhos vão dar a Roma ao Estado Social?

É manifesto que as posições defendidas pelo Papa Francisco têm causado um indisfarçavel desconforto em largos sectores. Hoje, por exemplo, o professor de Economia Luís Cabral, no Expresso/Economia, procura demonstrar que não há nada de novo na Exortação Apostólica A alegria do Evangelho: “o Papa Francisco referiu-se mais uma vez à economia, condenando o modelo do capitalismo desenfreado”. E para os mais cépticos, lança este argumento demolidor (que dissipa as dúvidas sobre as fontes do conhecimento da nossa elite económica): “Felizmente, Henrique Monteiro e outras vozes de bom senso esclareceram este ponto simples mas importante: a condenação do capitalismo selvagem já lá está nos escritos de Leão XIII (que, para os que não se lembram, viveu no século XIX).

É estranho que este professor de Economia não tenha reparado que os escritos de Leão XIII e de Francisco sobre o “capitalismo selvagem” ou o “capitalismo desenfreado” tenham sido publicados nos momentos históricos em que ocorrem transformações profundas na natureza do capitalismo.

Luís Cabral começa por circunscrever a exortação do Papa Francisco à “economia”, depois concede que não traz novidades em relação à Doutrina Social da Igreja e, finalmente, virando a essência das suas palavras do avesso, remata que “João Paulo II e Bento XVI também foram claros ao afirmar que não há garantia alguma de que a concorrência desenfreada leve à justiça social.

Mas a verdade é que a exortação do Papa Francisco é uma pedrada no charco. Luís Cabral reconhece que há “um estilo diferente de falar, há um[a] ênfase diferente em várias ideias, há talvez uma maior sentido de urgência nas intervenções do Papa Francisco. E esse sentido de urgência tem razão de ser: não é que o capitalismo seja mais selvagem do que era nos séculos XIX ou XX: o que se passa é que as desigualdades criadas pela economia de mercado são potencialmente maiores hoje do que eram há algumas décadas; mais do que nunca, a economia moderna caracteriza-se pelo que Robert Frank chama a ‘winner-take-all society’.

Talvez o que tenha deixado mais incomodado Luís Cabral é ele pressentir que as palavras do Papa Francisco possam ter aberto a porta a que o bebé seja atirado fora com a água do banho: “O commentariat de esquerda descobriu aqui uma oportunidade única: ‘Agora, até a Igreja condena a economia de mercado’, é a ideia que mais se lê nos blogues e páginas de opinião.

Para evitar a consumação do desastre que antevê, Luís Cabral propõe: mais “justiça judicial” e “um Estado mais preocupado em fornecer meios do que em fornecer bens e serviços”. É impressão minha ou todos os caminhos (que nos propõem) vão dar a Roma ao (desmantelamento do) Estado Social?

sábado, novembro 30, 2013

O Papa Francisco e a Igreja portuguesa


• Mário Soares, O Papa Francisco e a Igreja portuguesa:
    ‘(…) a Igreja portuguesa tem mantido um silêncio inaceitável, tal como o actual patriarca, em relação ao Papa. Parece que não gosta dele ou mesmo que o detesta.

    Prefere a corrupção e a imoralidade, que reinava no Vaticano, à solidariedade do Papa que respeita os pobres? Que patriarca é este que há meses não fala e, em especial, de Sua Santidade. Aliás, quando era bispo fazia-se passar por um homem desempoeirado e progressista – que afinal não é; tendo em conta o que não diz agora, parece que nunca foi.’

terça-feira, novembro 26, 2013

A palavra a Paulo Portas


Depois de Mário Soares, o Papa Francisco a apelar à violência:
    “Enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade social, na sociedade e entre vários povos, será impossível erradicar a violência. Acusamos os pobres [...] da violência, mas, sem igualdade de oportunidades, as diferentes formas de agressão e de guerra encontrarão terreno fértil que, tarde ou cedo, provocará a explosão”.

quarta-feira, novembro 06, 2013

“Os portugueses querem agora mudar de rumo”

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), fundada em 1919, realizou em Lisboa a Conferência de Alto Nível “Enfrentar a Crise do Emprego em Portugal: que caminhos para o futuro?”, na qual apresentou um relatório intitulado ENFRENTAR A CRISE DO EMPREGO EM PORTUGAL. Este organismo da ONU propôs um conjunto de soluções para o país, que se pode resumir numa frase: Portugal precisa de mudar de política. Ouça-se esta pequena entrevista dada pelo director-geral da OIT, que engloba representantes dos governos, dos trabalhadores e dos empregadores de mais de 180 países:


Outras leituras:
ADENDA: Ao contrário da Igreja portuguesa, o Vaticano está preocupado com política de devastação em curso.

quarta-feira, julho 10, 2013

“Palmas polémicas” [2]

Povo laranja: Cavaco e Passos aplaudidos de pé; Portas, esse, não

    ‘Tudo na cerimónia dos Jerónimos soava a falsa inocência e a um falso desejo de redenção. Como se todos tivessem ido pedir a Deus que fizesse desaparecer a última semana. O beijo de Maria a Cavaco, que o Presidente recebe com surpresa, os apertos de mão forçados, os sorrisos, os olhares que se desviam, os guiões da cerimónia transformados em abanicos…

    Um teatro do absurdo com uma missa em pano de fundo e as paredes grossas de um mosteiro que não deixaram entrar o calor mas conservaram a realidade do lado de fora.

    Ali um regime e um governo tiveram a ilusão de existir. E, como noutros tempos, foram pedir a Deus a legitimação que perderam.

    Um aplauso fez-se ouvir. Mas não era Deus. Era o medo.’

“Palmas polémicas” [1]

Todos iguais perante Deus

Tudo o que se passou no Mosteiro dos Jerónimos foi estranho. Mas o mais estranho foi a complacência de D. Manuel III — o II foi Cerejeira — perante o desrespeito ocorrido num espaço de culto. Será que, tendo compreendido esta “atitude espontânea”, D. Manuel Clemente vai aceitar todas as manifestações que possam vir a ocorrer no futuro nas casas de Deus? Ao permitir esta mistura confusa e desordenada entre o poder espiritual e o poder temporal, não está D. Manuel Clemente a provocar reacções como as que ocorreram na I República?

terça-feira, julho 09, 2013

Da série "Frases que impõem respeito" [812]


Ninguém fica bem na fotografia quando o povo português fica pior.

segunda-feira, julho 08, 2013

Naftalina de Deus


D. Manuel Clemente, o novo bispo de Lisboa e representante máximo da Igreja Católica portuguesa, tomou posse da pior maneira possível — e contrariando a mensagem do novo Papa dos pobres. No Mosteiro dos Jerónimos, perante uma plateia de que estavam ausentes pobres, desempregados, pensionistas, excluídos sociais e povo em geral, D. Manuel Clemente fez uma homilia para o povo do bairro do Restelo e arredores, que não lhe regateou palmas.

Mas tudo ficou mais às claras quando esse povo aplaudiu efusivamente Cavaco, Passos & Portas, os reconhecidos responsáveis pelo estado em que o país está e protagonistas recentes da mais vergonhosa ópera-bufa do regime democrático. As palmas da naftalina do Restelo — e não do povo de Deus, que está muito distante dos meios palacianos que D. Manuel Clemente frequenta — significaram um suspiro de alívio.

Com a continuação do governo de Passos & Portas (ou vice-versa), apadrinhado por Cavaco, está garantido que serão os mesmos a continuar a suportar os sacrifícios: os malvados funcionários públicos, os pensionistas e reformados pobres que se obstinam a não morrer cedo (como seria seu dever) e esses vis beneficiários do subsídio de desemprego e do rendimento social de inserção. Em contrapartida, continuarão a ser poupados os banqueiros, os empresários especialistas em falências fraudulentas e essa tropa fandanga que se anda a locupletar sem vergonha no sector empresarial do Estado, mesmo quando ele é vendido a retalho aos chineses, brasileiros e angolanos — gente temente a Deus que venera com igual fervor o poder temporal e o poder espiritual.


A cena triste do patriarca a receber palmas em conjunto com Cavaco, Passos & Portas lembra inevitavelmente uma cena já perdida nas brumas do tempo. Após a II Guerra Mundial, Cerejeira, acompanhado dos mais altos dignitários do Estado Novo, incluindo o piedoso Dr. Salazar, inaugurou o Cristo-Rei, manifestando gratidão a Deus por ter poupado Portugal aos horrores da guerra e mandou os presentes ajoelharem-se em respeito ao poder espiritual, representado por ele próprio, e ao poder temporal, representado por Salazar e Tomás.

O discurso, felizmente, não está perdido. Pretende D. Manuel Clemente retomar essa tradição ou quer alinhar com o bispo de Roma, naquilo que parece ser o caminho da simplicidade e da defesa dos pobres?

Se o seu caminho é o segundo, talvez se deva abster de declarações infelizes a favor da legitimidade democrática do Governo. Para isso, já nos basta o manequim da Rua Augusta.