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segunda-feira, abril 13, 2015

«Pôr pensamentos no lugar dos cálculos»

• Wolfgang Münchau, A macroeconomia precisa de novos instrumentos para desafiar o consenso:
    «(...) E quanto aos rebeldes? Um detrator precoce foi Hyman Minsky, que desenvolveu um quadro sobre como compreender uma crise moderna nas décadas de 1980 e 1990. Minsky foi banido pelo poder estabelecido. Os atuais desafiadores do consenso, tal como Minsky antes deles, permanecem nas antecâmaras desse debate, no Twitter e nos blogues, fora das revistas tradicionais e das universidades de topo.

    Irão ser bem-sucedidos? Da mesma forma que nenhum desses modelos tem a esperança de predizer o nosso futuro, também eu não consigo predizer o futuro da macroeconomia em si. Tendo seguido o debate desde há muito tempo, o meu palpite é que, ao contrário do que acontece na matemática, o desafio ganhador virá de fora da disciplina e irá ser brutal.»

segunda-feira, março 23, 2015

Desinvestir no futuro

• João Galamba, Desinvestir no futuro:
    «Na economia da escola tio Patinhas em que vive Passos Coelho, ter os "cofres cheios" é um feito económico que devemos celebrar.

    Não se percebe bem o que é que há para celebrar. Os excedentes não são poupança gerada, são dívida. Aparentemente, há dívida boa, que é esta que alimenta os cofres de tesouro, e há dívida má, que é a que serve para encher os bolsos de portugueses de saúde ou de educação.

    A questão relevante não é saber se temos os cofres mais ou menos cheios do que em 2011; é saber se, no actual contexto social, económico e financeiro do país e da Europa faz sentido ter excedentes de tesouraria tão elevados. A constituição de excedentes de tesouraria deve ser visto como uma forma peculiar de investimento (público). E deve ser avaliado enquanto tal.

    Em vez de aplicar recursos públicos em saúde, em ciência, em educação ou em infra-estruturas, o Estado decide investir em depósitos bancários. Estes depósitos não criam emprego, não dinamizam a economia, não melhoram a coesão social. E já não rendem juros: no caso dos montantes depositados junto do Eurosistema, os juros até são negativos, cabendo ao Estado pagar uma taxa negativa de 0.2%.

    A única coisa positiva do investimento em excedentes de tesouraria é o facto de ser um seguro de liquidez: se tudo correr mal, Portugal pode passar um ano sem ir ao mercado da dívida. Portugal não está mais solvente, está apenas mais líquido. Isto tem valor? Tem, claro. Mas, como os recursos são escassos, ter valor, por si só, não chega. Qualquer decisão sobre aplicação de recursos públicos, venham eles de impostos, de dívida ou de transferências de capital, deve ser devidamente avaliada e comparada com alternativas. E a liquidez, no momento actual, não tem assim tanto valor. Com o BCE empenhado num vasto programa de Quantitative Easing, não parece que a situação se vá alterar.

    Num contexto em que o investimento, depois de cair 30% em três anos, recuando a níveis dos anos 80, cresce apenas 2.3% em 2014, praticamente um terço do que havia caído em 2013, investir mais de 20 mil milhões de euros em depósitos e continuar diabolizar o termo investimento público não parece fazer grande sentido. Sobretudo porque este governo não investe necessariamente menos; apenas investe noutras coisas.

    Mais ou menos avessos ao risco, mais ou menos cautelosos, mais ou menos confiantes na manutenção do actual contexto de excesso de liquidez e taxas de juro historicamente baixas, todos concordarão que, no contexto actual, facilmente se encontram formas mais equilibradas de aplicar os recursos públicos existentes.

    No curto prazo, a opção de cortar no investimento público (tradicional) e investir em excedentes de tesouraria é negativa em termos sociais, económicos, orçamentais e financeiros. No longo prazo, não parece ser melhor: o Estado gasta cerca dez vezes mais a comprar um seguro contra um futuro incerto do que a investir na construção desse mesmo futuro. É uma escolha que ilustra muito bem o programa de desinvestimento deste governo

sexta-feira, dezembro 19, 2014

O "bloqueio"

• Pedro Bacelar de Vasconcelos, O "bloqueio":
    «(…) Apesar de ser um pequeno país de 11 milhões de habitantes e de enfrentar uma situação económica muito difícil, dramaticamente agravada pelas sanções impostas pelos EUA, surpreendentemente, Cuba conseguiu manter os mais elevados níveis de educação dos seus cidadãos e construiu um sistema de saúde exemplar cuja competência e eficácia as Nações Unidas não se inibem de reconhecer e recomendar. Aqui temos um excelente tema de reflexão! Que nos sirva de contraponto para interpretar o "bloqueio" decretado noutras latitudes contra os gastos públicos na educação e na saúde, a pretexto de rigorosos constrangimentos orçamentais e da "vontade" anónima dos mercados financeiros.»

terça-feira, outubro 21, 2014

Manifesto dos 74 em plenário da Assembleia da República


    «Informamos que o debate em plenário da Assembleia da República, da petição do “Manifesto dos 74 - Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente” será na próxima 4ª feira, 22 às 15:30 horas.

    Em Abril passado, na sequência do “Manifesto dos 74”, apresentámos uma petição à Assembleia da República, que foi subscrita, num curto espaço de tempo, por mais de 36 mil cidadãos.

    Como se referia quer no texto do Manifesto inicial, quer no da Petição, há hoje um consenso alargado na sociedade portuguesa que reconhece que nenhuma estratégia de combate à crise que enfrentamos será eficaz, se não assentar também na identificação das condições a que deve obedecer um processo de reestruturação da divida, no âmbito europeu.

    Temos razões acrescidas para crer que uma deliberação da Assembleia da República sobre tais condições não será um factor de fragilidade para o País. Pelo contrário, reforçará a legitimidade das instituições democráticas e a posição negocial do Estado Português junto das instâncias europeias.

    Cada grupo parlamentar terá três minutos de tempo de palavra e a votação será feita no dia seguinte, 5ª, 23 também a partir das 15:00 horas.

    O plenário é aberto ao público.

    Vimos, por isso, apelar a que, enquanto Cidadão, venha participar em mais este momento importante de um processo fundamental para o futuro do País, assistindo à discussão no Parlamento.»

quarta-feira, outubro 15, 2014

Pior a emenda que o soneto

É uma questão séria: saber se houve ocultação de informação ao mercado no caso que culminou com a resolução do BES. A Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia deu a notícia a 30 de Julho. O governador do Banco de Portugal comunicou-a ao país em 3 de Agosto. Entre um dia e o outro, e até na semana que precedeu a operação, vários investidores se desembaraçaram de muitos milhões de acções do BES.

Tarde e a más horas, a CMVM foi informada da situação. E suspendeu a negociação descontrolada em bolsa quando as acções já se tinham desvalorizado 65% entre 31 de Julho e 1 de Agosto e nos últimos 42 minutos antes da suspensão foram transaccionadas em bolsa nada menos do que 80 milhões de acções.

A circunstância de a Direcção-Geral da Concorrência ter estado ao corrente da operação antes da CMVM põe em xeque as autoridades nacionais — o Governo e o Banco de Portugal. Daí que a Direcção-Geral da Concorrência se venha pautando por um comportamento ridículo, ora atendo-se à realidade, ora procurando camuflar o conhecimento antecipado da resolução do BES.

A informação constante, a 30 de Julho, no site da Direcção-Geral da Concorrência era esta:


Posteriormente, quando o Diário Económico revelou a informação constante do site, a Direcção-Geral da Concorrência alterou o que nele constava (para mais tarde voltar à informação inicial), assumindo a data de 3 de Agosto:


É caso para dizer que foi pior a emenda que o soneto.

sexta-feira, outubro 10, 2014

Ocultação de informação ao mercado?


A CMVM quer saber quando o Governo avisou Bruxelas sobre o BES (vide vídeo). Com efeito, o presidente da CMVM, Carlos Tavares, suspeita de possíveis fugas de informação nos dias que antecederam a resolução do BES e deverá investigar pormenores do processo de notificação à Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia.

Está em causa apurar se houve uma fuga de informação que tenha permitido a prática de crimes de inside trading e contribuído para a queda de 65% das acções do BES entre 30 de Julho e 1 de Agosto.

quinta-feira, outubro 09, 2014

Há algures um haríolo

Ontem no Diário Económico

No dia 28 de Julho, o Expresso Diário noticia a existência de imparidades adicionais que viriam a elevar os prejuízos do BES no primeiro semestre para cerca de três mil milhões de euros. Na noite de dia 30, a CMVM anuncia que os prejuízos do BES atingiam 3,6 milhões de euros. Entre 30 de Julho e 1 de Agosto, o BES perdeu 65,4% do seu valor em bolsa, com a cotação das acções a cair de 35 para 12 cêntimos.

Sucederam-se os acontecimentos:
    • No dia 31 de Julho, o Governo muda a lei para permitir a resolução, diploma publicado no Diário da República no dia seguinte;
    • Ainda a 1 de Agosto, o Banco de Portugal avança com a resolução e a CMVM suspende a negociação das acções do BES;
    • No dia seguinte, Marques Mendes comunica ao país, de forma pormenorizada, o plano gizado pelas autoridades;
    • Finalmente, a 3 de Agosto, o governador do Banco de Portugal aparece na televisão para confirmar e comentar a comunicação de Marques Mendes, o oráculo do Governo.

Nunca se deveria permitir que a realidade estragasse uma boa história. Acontece que tudo leva a crer que, durante estes estes, houve fugas de informação que permitiram que a «boa história» só tivesse sido contada a alguns grandes investidores (e só a estes), que assim puderam pôr a salvo as suas aplicações. É do que desconfia a CMVM.

Mas, diz-se, não há crimes perfeitos — e assim parece. É que, a 30 de Julho, a Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia noticiava a decisão de avançar com a resolução do BES. Foi neste ínterim que a praça de Lisboa esteve a saque — sem que a CMVM tivesse sido informada. Veja-se a prova de que, antes sequer da divulgação dos resultados semestrais do BES, já a Direcção-Geral da Concorrência publicitava na Internet a intervenção no BES que só seria formalmente comunicada quatro dias depois:


Ontem, João Galamba aproveitou as audições do governador do Banco de Portugal e da Miss Swaps para os questionar acerca das contradições do processo de resolução do BES:

O governador do Banco de Portugal e a Miss Swaps negaram na Assembleia da República que Bruxelas tivesse sido previamente informada da decisão tomada de avançar com a resolução. Mas Carlos Costa teve o cuidado de frisar que o Banco de Portugal não se corresponde com a Direcção-Geral da Concorrência, chamando assim implicitamente a atenção para a circunstância de o Ministério das Finanças ser o interlocutor daquele serviço da Comissão Europeia.

Durante a manhã de ontem, um porta-voz de Bruxelas, metendo os pés pelas mãos, veio afirmar que, de facto, este departamento da Comissão Europeia começou a «monitorizar» a situação do BES a 30 de Julho, apesar de o pedido de intervenção ter chegado no dia 3 de Agosto. Esta bizarra comunicação autodestrói-se: a CMVM só divulgou os resultados do BES na noite de 30 de Julho, o que levaria à conclusão de que, até pela diferença horária, em Bruxelas ou se fazem turnos de 24 horas ou ninguém dorme.

Sob o título de É mentira!, uma peça do Diário Económico desmonta hoje a inaceitável cedência da Comissão Europeia às pressões do Governo português para esconder a trapalhada da resolução do BES. Eis um extracto:
    «A Comissão Europeia mentiu de forma descarada sobre o processo de notificação europeia que antecedeu a resolução do BES no dia 3 de Agosto na reacção à manchete do Diário Económico de ontem. A primeira notificação chegou a Bruxelas, à direcção-geral da concorrência, no dia 30 de Outubro, dois dias antes da suspensão das acções do BES, ou seja, a Comissão não está a desmentir o Económico, está a mentir aos milhares e milhares de investidores que perderam centenas de milhões naquelas 48 horas.

    A resposta da Comissão não é apenas uma mentira, é um insulto à inteligência e não convence ninguém, sobretudo os que acreditaram que o mercado de capitais português é um sítio bem frequentado. Já desconfiávamos, ficamos agora a saber que as próprias autoridades europeias também têm pouco respeito pelos que aforram através de investimento em acções ou obrigações. Serão especuladores, portanto, sem direitos.

    A Comissão deu cobertura às iniciativas do Governo e do Banco de Portugal, mas escolheu o pior caminho para as fazer. É claro que houve uma notificação preliminar à Comissão no dia 30 de Julho, é também claro que a aprovação formal ocorreu no dia 3 de Agosto. O que nos disse, afinal, a Comissão? Depois da resposta de Carlos Costa, segundo a qual alguém deveria dar explicações sobre as datas que estão no 'site' da Comissão, depois da ministra das Finanças 'atirar' a responsabilidade e as respostas sobre o dia 30 para Bruxelas, lá veio o favor: a Comissão, por auto-recreação preventiva, decidiu notificar-se a si própria na quarta-feira, dia 30 de Julho, por uma decisão que jura não conhecer, a intervenção do Estado no BES no domingo seguinte, dia 3 de Agosto. Portanto, adivinhou, e pena é que os milhares e milhares de investidores que perderam milhões também não tivessem adivinhado que a Comissão iria 'apadrinhar' a resolução do banco.

    Prefiro acreditar - e acredito - na tese de que a Comissão Europeia está a mentir, e a prestar-se a este lindo papel. A alternativa é pior, a falta de respeito pelo Estado português, pelos portugueses e pelos investidores, portugueses e estrangeiros. A data de 30 de Outubro não surge do nada, não surge de uma informação oficiosa, está num documento oficial da Comissão Europeia que o Económico revelou na edição de ontem. Ou seja, para acreditar na tese da Comissão, que deixa tantas e tantas perguntas por responder, tenho também de acreditar que Portugal voltou a ser um espaço de experimentalismo europeu. Só nos faltava mesmo uma Comissão Europeia que toma a liberdade de interpretar o que se deve seguir à apresentação dos prejuízos de um banco privado. (…)»

E assim continuam à espera de resposta várias questões:
    • A Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia divulga publicamente uma decisão que não havia sido tomada?
    • Luís Marques Mendes andou escondido na mala de mão da Miss Swaps enquanto decorria o processo de resolução do BES?
    • Os grandes investidores que deram à sola a tempo recorreram a bruxarias?
    • Quem é responsável pela ocultação de informação ao mercado?

sexta-feira, outubro 03, 2014

Segredos do resgate financeiro

• Pedro Bacelar de Vasconcelos, Segredos do resgate financeiro:
    «(…) O que fica claramente demonstrado, sem contestação - apesar de todos os entraves levantados à divulgação dos nomes dos "beneficiários" - é que foram os bancos alemães, franceses e ingleses os reais destinatários dos resgates das dívidas soberanas e que os investidores que provocaram a crise financeira internacional, motivados por intuitos especulativos com base numa deficiente avaliação dos riscos existentes, puderam apesar de tudo recuperar os seus créditos à custa dos contribuintes dos países endividados. O que o ministro das Finanças alemão não conseguiu refutar é que, ao contrário da ideia de que seriam os contribuintes alemães que estão a "ajudar" os países endividados, efetivamente, são os cidadãos destes países quem está a pagar as dívidas dos seus bancos, a pretexto da necessidade de evitar a qualquer custo aquilo que designam como um "risco sistémico" que ficou por demonstrar: que a insolvência de um banco fatalmente arrastaria, como as pedras do "dominó", a falência de todos os outros. (…)»

sexta-feira, setembro 12, 2014

Crítica da razão impura

• João Caraça, Crítica da razão impura:
    «(…) No meio disto tudo, quem eram os Espírito Santos? Ninguém, tal como o romeiro da célebre peça de Almeida Garrett. Uns desenraizados, vivendo (estes sim) acima das suas possibilidades, apenas porque nos anos 1980 a CIA e um ex-embaixador americano entenderam que o governo português devia trazer uns cacos das antigas elites financeiras da paróquia para legitimar a reprivatização da banca. Sem controlo de qualidade. Claro que ia dar asneira. Uma má educação sai sempre cara. (…)»

segunda-feira, agosto 25, 2014

O BCE virou keynesiano?

• Rui Peres Jorge, O BCE virou keynesiano?:
    «Mario Draghi fez um discurso notável na sexta-feira. Chegou com dois anos de atraso, mas quando está em causa um desastre como o que vivemos na Zona Euro, mais vale tarde do que nunca. O aviso é claro: os políticos não se devem inebriar pelas baixas taxas de juro dos últimos meses, nem delas vender uma ilusão de sucesso. A verdade é que sete anos depois do início da crise, a recessão na Zona Euro continua e o elevado desemprego está a destruir o potencial de crescimento e a corroer perigosamente a confiança dos europeus na moeda única. Mais grave para o BCE é que até já os mercados duvidam que consiga garantir a inflação de 2% para que está mandatado. (…)»

sexta-feira, agosto 08, 2014

Reguladores em guerra aberta

O governador do Banco de Portugal sugeriu ontem que o presidente da CMVM tinha toda a informação, e até mais (sobre as contas), e que se alguém agiu tarde, não suspendendo as acções, foi a CMVM. Este comunicado de Carlos Tavares é a resposta.

quinta-feira, agosto 07, 2014

Muito importante


Entrevista de Pedro Silva Pereira à SIC Notícias sobre o caso BES (vídeo), a que a TSF faz alusão aqui.

(Se, entretanto, for colocado o vídeo no Youtube, reproduzi-lo-ei.)

sábado, agosto 02, 2014

quinta-feira, julho 31, 2014

O que explica o que está hoje a acontecer ao BES? (2)


Outra maneira de falar do que está a acontecer com o BES: o GES, um conglomerado luxemburguês, vampiriza banco lusitano, arrastando-o consigo para o abismo.