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segunda-feira, agosto 31, 2015

A vitória da culpa

Expresso, edição de 29 de Agosto
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sábado, outubro 18, 2014

O que é a social-democracia nos tempos que correm?

• Augusto Santos Silva, Que estás a fazer no Governo, Gabriel?:
    «(…) Não te maço com pormenores. Mutualização parcial da dívida, "project bonds", redução de juros e alongamento de prazos para os maiores devedores, intervenção mais ativa do BCE no controlo da especulação financeira, injeção de liquidez na economia, investimentos nacionais e europeus em grandes projetos de redes, subida de escala do orçamento comunitário - são tantas as maneiras de atacar o problema que há de ser certamente possível construir uma solução razoável, exequível e em que convirjam os diversos interesses. E, sim, com obrigação de reformar - mas no que importa, como o Fisco, a regulação e a tecnologia, e não apenas para enfraquecer o trabalho e desproteger os vulneráveis.

    Não podemos é continuar como estamos, Gabriel. Tudo parado às ordens do teu colega das Finanças, com a notável e valiosa exceção de Draghi, e vocês a perderem vapor a olhos vistos, e o euro a caminhar para uma nova crise.

    Mudar depende muito de ti. Um político ambicioso não se conforma com a possibilidade de estar num governo para nada. Conto com a tua ambição.»

quarta-feira, setembro 17, 2014

Crime: criar o Estado Social

• Rui Tavares, Por que podem eles, e nós não?:
    «Quando Léon Blum foi preso — a 15 de setembro de 1940, fez anos há dias —, a acusação que a direita pétainista fez a este antigo primeiro-ministro da Frente Popular foi, basicamente, a de ter ampliado o estado social.

    É difícil acreditar, mas Blum foi considerado culpado de ter instituído a semana das 40 horas de trabalho, ter criado as férias pagas, ter aceitado a atividade sindical e permitido propaganda política aos trabalhadores. Com estes quatro “crimes” (a que se juntou um quinto, o de ter nacionalizado a indústria de armamento) Blum foi entregue aos alemães e preso em Buchenwald. Como, além de socialista, era judeu, passou a menos de dois dedos da morte.

    Criar o estado social só foi possível após uma luta difícil, prolongada e muitas vezes arriscada. As oportunidades de conquistar avanços não eram muitas e dependiam de uma unidade difícil de alcançar. Mas as suas conquistas, depois de obtidas, são extremamente populares. Hoje só é possível atacar o estado social pela calada, quando se proclama a sua defesa em público. (…)»

quarta-feira, julho 02, 2014

O PS face à Europa

• Pedro Nuno Santos, A direita do PS:
    «(…) Defender abstenções nos orçamentos de estado de um governo “extremista, radical e liberal”, que “destrói valores civilizacionais” – expressões usadas pelo Partido Socialista nas últimas eleições europeias –, não sendo cinismo só pode ser expressão da assimilação da tese da direita sobre a crise e das suas soluções para a mesma. Privilegiar acordos com o PSD e o CDS é ignorar a derrota histórica que o povo português quis infligir a esses dois partidos, levando-os de novo para o governo pela mão do PS; por outro lado é desistir de construir uma verdadeira alternativa política. Têm razão os que lembram que não houve no passado, no que respeita à construção europeia, grandes divergências com o centro-direita, só que é precisamente nesse tema que a social-democracia se tem de distanciar desse campo ideológico. Na actual configuração, a zona euro é uma construção liberal e monetarista que torna impossível e inviável o projecto social-democrata. Se pretendermos defender o Estado social, proteger os rendimentos dos cidadãos, promover a igualdade e industrializar a Europa teremos de romper com a direita precisamente onde houve consenso durante demasiado tempo – o projecto europeu.»

domingo, junho 22, 2014

«Já só falta levar a António José Seguro um desenho...»

• Teresa de Sousa, Os socialistas europeus, de Renzi a Costa:
    «(…) já só falta levar a António José Seguro um desenho que lhe explique que o seu tempo acabou. Já muita gente tinha percebido que não tinha condições para liderar o PS. A forma como encarou o desafio de Costa foi a prova definitiva. Um líder diria, pura e simplesmente, “vamos a isso”. Precisamente aquilo que ele teima em não dizer, invocando os estatutos a torto e a direito, enquanto os seus próximos se dedicam a uma campanha contra Costa que de decente ou de político não tem nada. Por mais que o secretário-geral socialista eleve o tom de voz e faça cara de mau, não consegue mudar a ideia que as pessoas têm dele. O seu passado e o seu caminho para a liderança nunca saíram para a luz do dia. Nunca enfrentou um combate político a sério. Escudou-se no aparelho e nos estatutos. Quando se viu desafiado, mandou os seus próximos acusar Costa de traição, apresentando-o como vítima (o que não é propriamente a matéria de que se fazem os líderes) ou de ser o novo Sócrates. O problema é que isso já não colhe. Deixar o PS a desgastar-se numa luta interna sem qualquer propósito é um preço que não lhe será perdoado. (…)»

quarta-feira, junho 04, 2014

O desafio socialista

• Pedro Nuno Santos, O desafio socialista:
    «(…) Em Portugal ganhámos as eleições europeias, mas quando analisamos friamente que de 2011 para 2014, um período de enorme sofrimento para os portugueses, o Partido Socialista subiu pouco mais de 3 pontos percentuais – de 28%, nas legislativas de 2011, para 31,4%, nas europeias de 2014 – só nos podemos preocupar. E muito. A direita unida cai 22,7 p.p. – de 50,4% (PSD + CDS nas legislativas de 2011), para 27,7% (coligação PSD/CDS nas europeias) – enquanto o PS sobe apenas 3 p.p. Pior que a curta vitória nas europeias é verificar que a uma queda absurda da direita portuguesa não correspondeu sequer uma subida razoável do Partido Socialista. Estamos a falhar. (…)»

segunda-feira, maio 26, 2014

Encruzilhadas da social-democracia europeia

• João Galamba, Encruzilhadas da social-democracia europeia:
    «(…) No contexto europeu, não podemos dizer que o PS fique mal na fotografia. Não só venceu, como tem uma percentagem de votos superior à média dos partidos da mesma família política. Mas isto diz-nos mais sobre a crise da social-democracia europeia do que sobre a vitória do PS.

    Em Portugal, PSD e CDS foram rejeitados por uma enorme maioria do eleitorado. E o PS fez história ao ter vencido a direita coligada. Mas não podemos dizer que o PS tenha tido uma vitória histórica, longe disso.

    É hoje evidente que existe um largo consenso na sociedade portuguesa de que o país precisa de uma mudança. Mas, olhando para os resultados destas eleições, também parece evidente que o PS ainda não está em posição liderar essa grande maioria, sobretudo quando os partidos que mais crescem - o PCP e o MPT - são, de forma diferente, anti-poder, e portanto anti-PS.

    O país rejeita o governo e deseja uma alternativa. Mas ainda não acredita que essa alternativa exista. Se estes resultados se repetissem nas legislativas, o país que rejeita o governo ficaria condenado a vê-lo regressar, aliado ao PS, num bloco central frágil e inconsistente, que só poderia ter efeitos negativos para a democracia portuguesa. E que teria certamente resultados desastrosos para o PS.»

segunda-feira, janeiro 20, 2014

Beco sem saída

• João Galamba, Beco sem saída:
    ‘A somar à irrelevância na política europeia, cujo consenso austeritário tinha prometido combater mas que se mantém totalmente inalterado, na frente doméstica Hollande anunciou que vai cortar na despesa pública para abrir espaço à redução de impostos das empresas: "Chegou o tempo de resolver o principal problema de França: a sua produção. Sim, disse bem, a produção. Temos de produzir mais, temos de produzir melhor. É sobre a oferta que temos de agir. Sobre a oferta! Isto não é contraditório com a procura. Na verdade, a oferta cria procura". Isto não é um mero recuo ou uma inflexão, é a total capitulação de Hollande.

    Um partido que para sobreviver adere às teses dos seus adversários não terá nunca grande futuro, porque os eleitores preferem o original à cópia; quem procurou no PSF uma alternativa às atuais políticas, não tardará muito em olhar para outro lado, provavelmente para a FN, que tem sabido falar para a tradicional base de apoio dos socialistas e que já lidera as sondagens.

    Ninguém questiona que a economia e o Estado francês têm problemas que carecem de reformas. O problema do Presidente francês é outro: pior que não ter ideias próprias é optar pelas ideias erradas dos adversários. Se o desafio é produzir mais e melhor, não se percebe em que medida é que reforçar a austeridade, cortando na despesa pública e aumentando o IVA, e baixar as contribuições sociais de todas as empresas resolve o problema: a austeridade deprime a procura, que já é hoje, segundo os próprios empresários franceses, a principal limitação à actividade das empresas, e a redução dos custos de todas as empresas só leva a mais produção, investimento e emprego se as empresas tiveram a quem vender os seus produtos, algo que a austeridade trata de garantir que não acontecerá.

    A social-democracia europeia tem de perceber que não poderá ter sucesso enquanto não contestar a política da direita que aposta na compressão da procura interna e na redução dos custos das empresas como via única para a prosperidade. Este não é, em rigor, um problema francês: é um problema europeu. O problema de Hollande é não perceber isto e escolher aderir às políticas que estão a condenar a Europa (e a França) ao definhamento económico, a um crescente descontentamento social e a uma frustração política explosiva.

    A resposta da social-democracia não pode ser a de aderir a este suicídio colectivo, mas sim o de procurar enfrentar o problema na sua raiz, que é a de uma estratégia europeia que insiste em tratar a maior zona económica do planeta como se esta fosse uma pequena economia aberta, que pode sacrificar o mercado interno e o poder dos seus cidadãos no altar das exportações. Esta estratégia pode ter resultado para a Alemanha isoladamente, mas não poderá nunca ser generalizada: se todos os países tentarem comprimir a procura e baixar os seus custos de produção, o resultado final será mais recessão em todo o lado e ganhos de competitividade nulos, porque, quando todos fazem o mesmo, ninguém ganha.’

domingo, janeiro 19, 2014

“A supply-side voodoo and ideological convergence”


É de leitura obrigatória o artigo de Wolfgang Münchau no Financial Times: The real scandal is France’s stagnant economic thinking. Münchau desfaz Hollande. Em suma: é um presidente zombie que decidiu aderir a um pensamento zombie (lei de say). Quando Münchau, que não é de esquerda, diz isto, algo de muito trágico se passa com a social-democracia.

Creio que o Diário Económico costuma publicar os artigos de Münchau (à terça-feira). Se não o fizer, procurarei reproduzir alguns extractos.

segunda-feira, setembro 23, 2013

As duas grandes ambiguidades do SPD

Le Monde, edição de amanhã (clique na imagem para a ampliar)

sábado, junho 22, 2013

E agora?


Um texto do jornalista Valdemar Cruz no Expresso sobre a mais recente obra de Pedro Adão e Silva, a ser apresentada na próxima terça-feira:
    ‘Portugal vive hoje vários paradoxos. Submetido a experiências de "capitalismo científico", mergulhado em programas de assistência financeira, vê-se refém de uma agenda ideológica que de outra forma não seria politicamente viável, e assiste ao insucesso de sempre da ideia de austeridade expansionista. Não obstante a evidência do falhanço, as avaliações da troika ao cumprimento do memorando mantêm-se positivas. Mesmo perante este cenário, florescem as teses dos desvios morais dos países da periferia, que apenas seriam resolúveis através de rebuscados processos de expiação, materializados no modo como têm sido equacionadas as saídas para a crise. Estas são algumas das constatações do sociólogo Pedro Adão e Silva, um "reformador progressista", como lhe chama Jorge Sampaio, que, posto perante tais dilemas contrapõe ao "Que fazer?", de inspiração leninista, um "E agora?", no título do livro onde surgem aquelas e outras reflexões sobre "a crise do euro, as falsas reformas e o futuro de Portugal".

    Construído a partir de versões alteradas, revistas e editadas de textos escritos na última década, o livro inclui um prefácio do ex-Presidente da República Jorge Sampaio, segundo o qual, para lá da identificação e crítica às "insuficiências e falhanços", aos erros cometidos, aos interesses instalados, percebe-se como fio condutor da obra uma questão formulada pelo autor ao defender que "o centro-esquerda ainda não conseguiu desenvolver uma leitura partilhada da crise, nem articulá-la com uma resposta política coerente". Para Adão e Silva convém "não esquecer que a crise que hoje enfrentamos resulta de uma arquitetura institucional da zona euro desenhada quando a maioria dos países europeus era governada por partidos sociais-democratas. Hoje, o que o centro-esquerda tem para oferecer, desde a França com Hollande, a Portugal com Seguro, é apenas um ato adicional ao estrangulamento político europeu".

    Cáustico e particularmente duro com algumas das principais decisões da nomenclatura que hoje dirige a União Europeia, o sociólogo assegura que o Pacto Orçamental mais não faz do que "consagrar a hegemonia da direita liberal à custa da capitulação política das restantes mundividências".

    Num subcapítulo intitulado 'Dívida e castigo na periferia — O inferno é o euro', Adão e Silva aborda uma questão sensível, geradora de um debate que terá lugar certo em próximas discussões sobre o futuro da moeda única. Isto porque, como diz o autor, e embora sem tomar uma posição definitiva sobre o tema, "hoje, ao contrário do anunciado, o euro não tem promovido a estabilidade, mas a perturbação económica. Mais grave, em lugar de aprofundar as solidariedades europeias, tem reforçado os egoísmos".

    O livro será apresentado por António Costa e Nicolau Santos na próxima terça-feira, às 18 horas, no Corte Inglês, em Lisboa.’