domingo, dezembro 04, 2011

Perícia psiquiátrica

• Fernanda Palma, Perícia psiquiátrica:
    ‘(…) os "loucos" tanto são capazes de mostrar o pior como o que há de mais fantástico no ser humano – como aconteceu relativamente a diversos génios artísticos (incluindo Van Gogh ou Strindberg) analisados por Karl Jaspers. O caso de Breivik convoca um universo que revela, como um espelho, o abismo para que esta crise global nos precipita.’

sábado, dezembro 03, 2011

Por algum lado havia de começar

Miguel Relvas vaiado no congresso das freguesias:
    “Metade dos congressistas da Anafre saiu da sala, a outra metade ficou a contestar a extinção de freguesias.”

A História vos absorverá

• Nicolau Santos, A História vos absorverá:
    ‘(…) O que Pedro Passos Coelho nos está a propor é que trabalhemos mais horas, por menos dinheiro e com menos direitos — esperando que daí resulte, no final, um país mais moderno, inovador e dinâmico. Está-se a ver que vai resultar.

    A Europa é governada pelo duo Merkozy; Portugal pelo duo Coelhar. Coelho dá o aval político ao falcão Vítor Gaspar. O ministro das Finanças é o representante da ortodoxia do BCE no Governo português. E se as coisas correrem muito mal, não é de excluir que venhamos a ter, a prazo, Gaspar no lugar de Coelho, por imposição da Alemanha. Já houve surpresas maiores.

    O Orçamento do Estado para 2012 é o espelho do pensamento deste duo. Passos protegeu a sua base de apoio, poupando os municípios, que mantiveram os limites de endividamento e autonomia para contratar, escapando também a fusões e extinções, ao contrário do que está expresso no memorando de entendimento. Em contrapartida, o preconceito de Gaspar contra o sector público está expresso nos cortes de salários e subsídios aos funcionários públicos — e vai acabar durante 2012 na tentativa de despedimento de milhares destes trabalhadores.

    (…)

    O país que este Governo vai deixar será muito mais pobre e desigual, mas também menos competitivo, inovador e dinâmico. Não, a História não vos absolverá. A História vos absorverá. Como e por que meios, é o que veremos.’

Lição

A lição a tirar do que se passou na Assembleia da República com o ainda governador do Banco de Portugal é esta: há uma diferença assinalável entre ser um empregado emproado e um deputado eleito e educado.
    Afonso

Ainda que mal pergunte… [75]

“Portugal precisa de um sector turístico forte e criativo”, afirmou o ministro Miguel Relvas na abertura do 37º congresso da APAVT.

O ministro Relvas anda a fazer turismo pela pasta da Economia? Ou o ministro da Economia, etc., já está a arrumar o gabinete?
    Afonso

Soares

• Pedro Adão e Silva, Um político assume-se:
    ‘Podemos todos já ter discordado de Mário Soares em vários momentos, mas todos lhe reconhecemos uma intuição política rara, uma espécie de ‘astúcia da razão’ que não se aprende. Este elemento intuitivo choca com a ideia hoje prevalecente de que a ação política mais eficaz é baseada na racionalidade informada – através da leitura de sondagens e de focus groups. Ora, se pensarmos bem, nas grandes opções – quando afrontou o Estado Novo e rompeu com a unidade da oposição; quando defendeu a opção europeia e a democracia liberal contra a deriva totalitária; e, mais recentemente, quando criticou a colonização ideológica da social-democracia – Mário Soares arriscou e teve as intuições certas.

    Esta propensão ao risco serve, aliás, para contrariar uma ideia feita em relação a Soares. Ao contrário do que é muitas vezes sugerido, não foi um político que, ao longo da sua vida, interpretou o sentimento da maioria e o procurou representar. O que se passou foi quase sempre o oposto. Não estamos perante alguém que se limitou a gerir silêncios e expectativas, aguardando que as suas posições se tornassem maioritárias. Pelo contrário, o percurso de Soares revela uma interpretação da ação política ao arrepio da visão calculista. Os exemplos em que provocou ruturas e contrariou o ambiente político da época são muitos. Foi essa atitude que lhe permitiu transformar ideias incertas e minoritárias em posições maioritárias e até hegemónicas.’

Negociar com Passos

• José Medeiros Ferreira, Negociar com Passos:
    ‘(…) Quando foi nomeado primeiro-ministro não estava minimamente preparado para governar. Desconfio que Cavaco Silva pensa o mesmo. Não estava preparado para governar (daí os sucessivos programas e declarações ensaísticas), mas trazia o plano de desfazer os equilíbrios sociais e políticos em que a sociedade portuguesa assentara após a instauração do regime democrático e da adesão de Portugal à UE. (…)’

“Canais de comunicação muito porosos e, sobretudo, muito irresponsáveis”

• Francisco Teixeira da Mota, Um país de brandos mas péssimos costumes [ontem no Público]:
    ‘(…) para além de todas as etapas da sua relação com os media desde o desaparecimento da sua filha, os McCann debruçam-se ainda sobre uma extremamente grave e dolorosa situação por si vivida que também tem origem na peculiar actuação das autoridades portuguesas: a publicação de excertos do diário pessoal de Kate McCann no jornal News of the World. Como é evidente, foi de uma enorme violência para Kate McCann ver tornados públicos os seus pensamentos mais íntimos e reservados, passados ao papel, quando estava a viver o pesadelo da recente desaparição da sua filha. (…)

    Sucede que o diário tinha sido apreendido pela Polícia Judiciária e face à sua total irrelevância para a investigação, ordenada por um juiz a sua devolução a Kate McCann e a destruição de todas as cópias. Como é que esse diário foi parar às mãos do News of the World não se sabe, mas se se soubesse certamente constataríamos que o nosso país, sendo tão cioso da distância entre as autoridades criminais e os media, na prática, tem, nessa área, canais de comunicação muito porosos e, sobretudo, muito irresponsáveis. Somos um país de brandos mas péssimos costumes...’

♪ Tony Millionaire's Portraits of Musicians [7]


David Byrne
(Nothing But) Flowers

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Da «Lei da Fome» ao «Orçamento da Fome».

      1899: “... quem paga o benefício dado à lavoura é a moagem porque pode pagar.” (Elvino de Brito citado em J. Reis, A ‘Lei da Fome’..., Análise Social, vol. xv (60), 1979-4º, p. 775.)

      2011: “... quem paga o benefício dado aos privados é a função pública porque pode pagar.” (V. Gaspar, OE2012)
Mudam-se os tempos mas não mudam nem as injustiças nem os preconceitos.
    Afonso

Vai uma aposta?

Que o PM/PPC já deixou cair o Álvaro.

É só ouvir, de novo, a forma frouxa e envergonhada como tentou defendê-lo perante a espécie de assessor de imprensa que arranjou na SIC.
    Afonso

Onde está o ministro da Administração Interna?



Num país em que existe o direito de manifestação, os problemas colocados por uma qualquer manifestação são problemas de ordem pública e não matéria de “subversão política”, como acontecia antes do 25 de Abril.

Os eventuais desacatos são enfrentados por polícias devidamente identificados e uniformizados e existe mesmo um corpo especial a que se chama Polícia de Intervenção, que antigamente era crismada com o nome de má memória de “polícia de choque”.

Está por explicar o que faziam polícias à paisana no meio da manifestação no dia da greve geral. A greve geral foi considerada uma acção subversiva? Há agentes infiltrados na manifestação que estavam a desenvolver investigações?

Tem a palavra o ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, para esclarecer o assunto. Ou será que ninguém espera que ele esclareça seja o que for por andar a pairar sobre a realidade?

Milu já não mora na Horta Seca

É oficial: a Milu abandonou o Álvaro. Resta-nos agora esperar que sejam divulgados os estudos e trabalhos técnicos no âmbito das respectivas habilitações e qualificações profissionais, para que nós próprios nos possamos valorizar.

“Não há dinheiro”

Já viram bem a tropa que anda a cirandar à volta de Francisco José? Dois deles transitam agora para o conselho de administração do Teatro Nacional D. Maria II, um dos quais nem consta da lista oficial de “colaboradores” (o que demonstra a sua enorme fiabilidade).

PS — De João Villalobos até à ex-mandatária para a juventude de Passos Coelho (Filipa Martins), são quase todos assessores de imprensa? Que têm eles para comunicar se “não há dinheiro”?

Ainda que mal pergunte… [74]



Perante afirmações como esta "Portugal precisa de higiene ... ", é ou não legítimo perguntar se regula mesmo bem da cabeça?
    Afonso

Gasparismos (rawlsianos)

    - “O Estado social mínimo exige o máximo possível de impostos” (V.G., The Minimax Principle, OE2012).

    - "Social and economic inequalities are to be arranged so that they are both (a) to the greatest expected benefit of the least most advantaged and (b) attached to positions and offices open to all under conditions of fair equality costs of opportunity" (J. Rawls, T.J., HUP, 2003, rev. ed., p. 72. V.G., 2011).

    - “What binds a society’s efforts into one social union is the mutual recognition and acceptance of the principles of justice …” (J. Rawls, T.J., HUP, 2003, rev. ed., p. 500. V.G., 2011).

    - Bem aventurado o Véu da Ignorância que protege os Ministros das Finanças.

    Afonso

Viagens na Minha Terra

Regresso às aulas

• Daniel Amaral, Regresso às aulas:
    ‘Há dois conceitos de produtividade, por hora e por pessoa, e em qualquer deles Portugal está a uma distância abissal das médias dos Estados Unidos e da Zona Euro. Mas há um elemento a ter em conta: a distância por pessoa é menor do que a distância por hora, o que significa que em média trabalhamos mais horas do que os outros. O mal não está nos trabalhadores mas nas empresas, que precisam de investir mais e melhor.’
Nota — A leitura dos artigos de Daniel Amaral é sempre proveitosa. No entanto, quando as comparações entre a Europa e os Estados Unidos da América têm por base o PIB, é preciso recordar que são adoptadas metodologias diferentes para o cálculo do produto nos dois lados do Atlântico que beneficiam o produto norte-americano.

Agora é que é?

• Pedro Silva Pereira, Agora é que é?:
    '(...) não adianta persistir no erro: a ideia de que se trava esta crise das dívidas soberanas oferecendo aos mercados pacotes sucessivos de austeridade, punitivos da alegada "indisciplina orçamental" em cada vez mais países do euro e provocando uma recessão generalizada na Europa é uma ideia que se provou falsa: não apaga fogo nenhum e é apenas mais lenha para a fogueira do euro. Do mesmo modo, intervenções limitadas e intermitentes do BCE, mesmo que significativas, não são solução duradoura. Podem comprar algum tempo mas essa compra é cara: não é um bom negócio, nem resolve o problema.'

E usar a cabeça?

• Fernanda Câncio, E usar a cabeça?:
    '"Nós não andamos com bastões nem com pistolas nem com algemas para mostrar mas para usar se for necessário", diz o director nacional da PSP. Apesar de infelizes, as declarações são exactas: a polícia tem, num Estado de direito, o monopólio do uso da força. Mas, como todos nós, usando a lei - e, de preferência, a cabeça.'

Pensões dos bancários

• Pedro Santos Guerreiro, Ricas pensões:
    'Sejamos prévios desmancha-prazeres e façamos umas perguntas. Seis mil milhões é muito mais do que se previa, correspondendo a mais de 3% do PIB. Ou o Estado terá um défice afinal inferior a 5,9% ou teremos também "despesas extraordinárias" ainda este ano. Pela experiência, a segunda hipótese é mais provável: estes seis mil milhões são um enorme tapete para debaixo do qual o Estado ainda vai varrer muito lixo. Buracos nas empresas municipais? Nas PPP? No BPN? Que esqueletos saltarão do armário para aninhar no conforto do fundo de pensões?

    Mais: se o o défice orçamental deste ano for formalmente de 5,9% mas substancialmente acima de 9% (5,9% mais os 3% e picos do fundo), então a redução para 4,5% comprometida para 2012 será de uma violência quântica. Talvez assim se perceba a entrevista do primeiro-ministro de há dois dias, para preparar o discurso da derrapagem do défice e da recessão económica de 2012, prenunciado mais medidas de austeridade. Cristalino, não é?'

♪ Tony Millionaire's Portraits of Musicians [6]


Lou Reed
Beginning of a Great Adventure

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Conclusão: os mercados chumbam o Orçamento do Estado

Bloomberg


Andaram a vender-nos a ideia de que a aprovação do Orçamento do Estado daria mais confiança aos mercados. Os mercados, esses ingratos, parecem não estar de acordo, tendo interiorizado que esta austeridade draconiana gera recessão e não pemite pagar dívidas a ninguém: os juros da dívida portuguesa continuam a subir, atingindo novos máximos a cada dia que passa, ao contrário do que hoje se observa em relação aos juros das dívidas irlandesas, espanholas e italianas.

A esta hora, o Moedas estará já a explicar ao núcleo duro dos estarolas que a coisa não está para brincadeiras:
    — Eles, Senhor Primeiro-ministro, não atendem as minhas chamadas. Mas todos os sinais apontam no sentido de que reprovaram o Orçamento do Estado. Quer avançar já com mais medidas recessivas ou vamos por outro caminho?

O mal radical: o OE2012?

Nota-se que o ministro Gaspar é um homem culto. Por isso se distingue num governo cinzento e com pouco brilho intelectual. É economista mas, diz a Visão, lê Kant e Rawls. E no caso de VG deve ser verdade, ao contrário do chefe do governo. Mas não devia ler e citar apenas o que lhe convém politicamente. Aqui vai, pro bono, uma ajuda para a reflexão pessoal e, já agora, para impressionar as hostes partidárias na próxima sessão de esclarecimento:
    ‘(...) o homem (inclusive o melhor) só é mau em virtude de inverter a ordem moral dos motivos (...) há no homem uma inclinação natural para o mal; (...). Este mal é radical, (...) [e] ai do legislador que, pela boa acção, pretendesse levar a cabo uma constituição orientada para fins éticos! Efectivamente, produziria assim não só o contrário da constituição ética, mas também minaria e tornaria insegura a sua constituição política.’
      Kant, I., A Religião nos Limites da Simples Razão, (Trad., A., Morão) pág., 43-44, 111.
    Afonso

Da série "Frases que impõem respeito"™ [678]


Este governo consegue cortar subsídios, renegociar contratos de obras públicas e não consegue renegociar a compra de uma dúzia de carros de luxo. Estranho e muito conveniente.
    Afonso

Revista-Me

Revista-Me: o n.º 4 da revista já anda por aí e pode ser lida aqui.

A solução final

• Rui Pereira, A solução final:
    ‘Já ninguém consegue ouvir sem uma ponta de indignação os representantes da troika. Com ar prazenteiro e vagamente displicente, vão preconizando ou aplaudindo medidas de austeridade e discreteiam sobre o nosso futuro, como se fossem uma espécie de governadores provinciais. Como notou Fernando Ulrich, há aqui um grande equívoco: o interlocutor da troika é o governo e só ao governo compete falar com os portugueses.

    Porém, ainda mais grave e escandalosa do que a "mise en scène" das conferências de imprensa (com que nos têm brindado com arreliadora frequência) é a ingerência na nossa política interna, que teve como episódio mais recente a proposta de redução dos salários.

    Os credores estão interessados, como é óbvio, no equilíbrio das nossas finanças públicas, mas só têm legitimidade para exigir resultados – nunca para impor caminhos.

    Este aspecto é muitíssimo importante, não só por uma questão de orgulho e soberania nacional mas também porque os conselhos que recebemos da troika são suspeitos por natureza. A troika não está empenhada na criação de emprego, nos cuidados de saúde, na qualidade do ensino ou na oferta cultural. Essa conspícua prole do Sr. Scrooge só se preocupa com a dívida e sacrifica tudo o que for preciso a essa preocupação.’

Um governo não confiável

• Paulo Ferreira, A confiança abanada:
    ‘O resultado é este: ficámos a saber que o Governo em que precisamos de confiar (quase) de olhos vendados não é, infelizmente, confiável. A atitude do Executivo legitima a pergunta: se, afinal, era possível poupar 160 mil portugueses aos cortes, por que razão não se fez logo isso? O Governo quis, tacticamente, guardar uma almofada para fazer um bonito no fecho da discussão do Orçamento do Estado? E quem se digna explicar-nos, com cuidado e contas certas, por que foi rejeitada a proposta do PS?’

Auto-retrato

Pedro Lomba faz hoje um excelente e muito oportuno auto-retrato no Público.
    Afonso

♪ Tony Millionaire's Portraits of Musicians [5]



Simon & Garfunkel
A Hazy Shade of Winter