quarta-feira, novembro 30, 2011

Da série "A Fenomenologia do Ser"¹ [2]



Ensaio de redução eidética, depois de assistir à entrevista do Primeiro-ministro na SIC e escapando por um triz a um ataque de paralisia cerebral:
    - Um líder político que não hesitou em provocar uma crise política em plena tempestade económica e financeira, por puro cálculo político, conveniência e interesse pessoal e partidário.

    - Um líder político que não hesitou em apresentar como justificação para a crise política um alegado exagero nos sacrifícios pedidos aos portugueses.

    - Um líder político que não hesitou, nem hesita, em caracterizar a situação do País em termos humilhantes para os portugueses e prejudiciais para a economia, reproduzindo desavergonhadamente os preconceitos e as vulgaridades da imprensa e dos interesses internacionais sobre Portugal e os portugueses.

    - Um líder político que concorreu na base de uma plataforma eleitoral que repudiou no dia seguinte ao da eleição, impondo e agravando todas as medidas que usou como justificação para a abrir uma crise política e, como se tal não bastasse, ainda acrescentou tudo aquilo que os interesses financeiros internacionais se lembraram de lhe propor.

    - Um líder político que não hesitou em lançar acusações, insinuações e suspeitas sobre milhares de portugueses honrados, competentes e profissionais por mérito próprio, e que o fez sem o benefício da ignorância porque a intenção foi a de justificar opções políticas e ideológicas iníquas.

    - Um líder político que não hesita em dizer hoje o contrário do que dizia há seis meses atrás.

    - Um líder político cuja experiência profissional e política se limita à vida partidária e a empregos com patrocínio político.

    - Um líder político cuja crescente exposição pública revela a faceta psitacista, típica dos carreiristas associativos sempre muito ardilosos no palavreado e no saber de ouvido.

    - Um conhecido filósofo perguntou um dia – num texto sobre Fenomenologia e que de facto existe – What Is It Like to Be a Bat? De facto, parece mais fácil responder a essa pergunta do que responder à questão de saber Que tal é ser um líder assim?
Já quanto às consequências basta o OE2012…
    Afonso
_________
¹ Obra filosófica que o actual primeiro-ministro afirmou ter lido na sua juventude, desde então, perdida.

Alô?!

A minha pátria era a língua portuguesa.

Mr. Vítor e Dr. Gaspar



Na página 10 da edição do Diário Económico da passada segunda-feira é referida a possibilidade de ocorrer uma reunião sobre o Orçamento do Estado em que estaria do lado do PS, entre outros, Óscar Escaria. O jornal faz hoje uma rectificação, reconhecendo que um tal ser não existe — mas talvez não fosse mau de todo que o autor do texto se concentrasse mais no que escreve do que no que se escreve no CC.

Vítor Escaria e Óscar Gaspar foram, segundo se sabe, assessores do primeiro-ministro José Sócrates. Serão economistas com defeitos e virtudes, como todos os outros. A fusão dos méritos dos dois poderia resultar no tal Óscar Escaria que o Diário Económico invoca? E se juntassem as falhas de cada um, em termos de análise e perspectiva, dariam lugar a um Vítor Gaspar? Aí o Diário Económico teria criado (mais) um pesadelo para os portugueses.

Ninguém tem respeito ao Moedas ou é uma bebedeira de felicidade pela aprovação do Orçamento?



"Batalhamos em tempo real nos monitores da Bloomberg", dizia há dias o nosso Moedas. Hoje, chega a informação, através dos tais monitores da Bloomberg, de que os juros da dívida portuguesa continuam a bater sucessivos records.

Está bonita a festa, pá [ponto de situação]


— Pedro, não fiques com esse riso amarelo, mas é que
está quase na hora de regressar a Frankfurt.


    ‘O Presidente da República já provou desse cálice de fel, Rui Rio, Manuela Ferreira Leite e eu próprio, o quarteto maldito pelos serventuários do poder, mancomunado numa qualquer conspiração, merece logo os mais violentos epítetos.’
      Pacheco Pereira, Público, 26 de Novembro

Subitamente, surgiram Durão Barroso e Cavaco Silva na última sexta-feira: enquanto o homem de Bruxelas malhava na política de Educação de Crato, o homem de Belém fazia em picadinho a estratégia de genuflexão do Governo perante a Sr.ª Markel. Depois, juntou-se-lhes Vítor Bento, o ministro-sombra das Finanças, que veio passar ao papel as palavras do Presidente da República; ontem, Paulo Rangel, afilhado da Dr.ª Manuela, pôs em evidência a falta de coerência da política externa made in Caldas. E, hoje, Bagão Félix já fala na “obsessão fiscal do executivo que se está a tornar num raciocínio quase totalitário.”

O bando dos quatro “quarteto maldito” é agora um octeto — e, a brincar, temos um governo quase feito para o que der e vier.

A crise que era só portuguesa

Reguladores enfraquecidos, privados à solta

Recordam-se do que a direita prometia fazer em relação às entidades reguladoras? Pois, todos os sinais apontam em sentido contrário, como o sublinha João Confraria, professor de Economia da Universidade Católica: “Está em curso uma redução da independência na regulação”.

Orçamento mais recessivo dos últimos 30 anos




Hoje no Jornal de Negócios, pp. 5-6

Está bonita a festa, pá [5]



Hoje, temos Bagão Félix. O consultor de Paulo Portas que sabe fazer contas está absolutamente contra a política fiscal da coligação de direita, sublinhando "a obsessão fiscal do executivo que se está a tornar num raciocínio quase totalitário" e acusando "os jovens parlamentares de considerarem que julgam que mandam no país e que o país suporta tudo" [ouça-se aqui].

Apoiante entusiástico da coligação de direita, fica a dúvida se se trata de alguém que está a bater com a porta ou se, tal como António Pires de Lima na RTP na semana passada, está a dar voz ao que Paulo Portas pensa e que não pode dizer por fazer parte do Governo.

♪ Tony Millionaire's Portraits of Musicians [4]


Brian Eno
Taking Tiger Mountain (by Strategy)

Miguel Macedo, que é feito de V. Ex.ª?

Se isto tivesse acontecido há uns meses, já teríamos campanhas inflamadas nos media, cenas como esta no hemiciclo e pedidos de comparência na Assembleia da República do ministro da Administração Interna.

“Portas perdoa 189 milhões no negócio das 'Pandur'”

Qualquer um de nós já teria convocado uma conferência de imprensa para esclarecer os cidadãos e defender o seu bom nome. Questões como esta não se resolvem através do silêncio.

terça-feira, novembro 29, 2011

Ir para além do Passos



Amanhã, Passos Coelho vai ser entrevistado na SIC. De quem é que a estação do militante n.º 1 do PSD se lembrou para conduzir a entrevista, uma entrevista eminentemente política? De José Gomes Ferreira, um jornalista de economia, que, quando passa pelo ecrã, faz questão de incitar a mais e mais austeridade: uma espécie de João Duque (com ainda menos letras), que não tem equidistância relativamente às posições em confronto na sociedade portuguesa. Se é para agradar aos estarolas da São Caetano de São Bento, não seria preferível convidar o director do Povo Livre para conduzir a entrevista?

Uma coisa é certa: as manobras de Relvas no âmbito da RTP parecem estar a surtir efeito, constrangendo a liberdade das estações privadas.

Ir para além da Merkel

      "(...) É assustador descobrir que Passos Coelho está convencido de que é possível solucionar o problema português com ajustamentos austeros não acompanhados por uma intervenção radicalmente diferente do BCE e uma política orçamental expansionista nos países com excedentes na balança de transacções correntes. Prosseguir neste caminho é insistir no pré-anúncio do fim do euro.’

Já fiz referência a este artigo de Pedro Adão e Silva, publicado em 17 de Novembro no Expresso, mas, dada a sua actualidade, pode agora ser lido na íntegra seguindo este link.

E tudo se resolvia com a magia da direita...

… mas, quase meio ano depois, os estarolas não estão a ser capazes de animar a malta.

Um despacho que vale (centenas de) milhões (6)

O tal despacho na discussão do OE-2012.

Outros posts sobre o mesmo assunto:

Um retrato do patronato português



Américo Amorim, desmentindo os boatos que o dão como o homem mais rico de Portugal (com um património avaliado em 2,6 mil milhões de euros), avisou logo quando o questionaram se apoiaria a criação de um imposto especial sobre as grandes fortunas: “Eu não sou rico”. Isso poderá explicar o tipo de “planeamento fiscal” heterodoxo a que deitou mãos, como forma de aliviar um pouco o orçamento doméstico:
    ‘Os Serviços de Inspecção da Direcção de Finanças de Aveiro detectaram irregularidades na Amorim Holding 2, pertencente ao empresário Américo Amorim, relativas aos anos de 2005, 2006 e 2007. Os inspectores encontraram despesas pessoais, que ascendem a centenas de milhares de euros, incluídas na contabilidade da holding. O rol dessas despesas é extenso e vai desde viagens da família para destinos turísticos a despesas com massagens, passando por tampões higiénicos e mercearia.

Ainda que mal pergunte… [73]

O que é que é melhor: um governo que só sabe incutir medo e desconfiança ou um governo que sabe incutir esperança e confiança?
    Afonso

Lá como cá

Living in the Age of Magical Austerity Thinking

    Afonso

Viagens na Minha Terra

Está bonita a festa, pá [4]



E agora é chegada a vez de Paulo Rangel, que está exilado lá em Bruxelas, também malhar no Governo, especificamente na política externa, que parece andar aos baldões sob a capa de uma autoproclamada eficácia. Eis um excerto do seu artigo na edição de hoje no Público:
    ‘É preciso fazer política e saber fazer política nesse novo contexto. A economia há-de ser um instrumento, mas não conseguirá nem poderá nunca ser mais do que um mero instrumento. Dar a primazia à diplomacia económica significa que não se percebeu ainda o que nos aconteceu. Vejo com apreensão que, nestes últimos dez anos, Portugal nada fez para desenvolver alianças estratégicas e preferenciais dentro do universo dos 27. Portugal relaciona-se "monoliticamente" com as instituições europeias e fala, de quando em vez, com os países "grandes". Mas renunciou a fazer diplomacia em rede dentro da União, estabelecendo alianças de geometria variável, organizadas em função de assuntos e interesses comuns, alicerçadas num diálogo sustentado no tempo: ora com os países do Sul (que vão de Chipre à Espanha), ora com os países de média dimensão (tão díspares como a Hungria ou a Suécia), ora com os periféricos (que podem ir da Estónia à Irlanda). E os exemplos podem multiplicar-se à exaustão. A crise das dívidas mostra bem que os estados mais debilitados - com muitos problemas comuns - não foram sequer capazes de estabelecer um diálogo permanente.

    A este propósito, há um bom exemplo - ainda que menor - da nossa política externa recente: o encerramento das embaixadas em quatro países da União Europeia (Estónia, Letónia, Lituânia e Malta). Num momento em que precisamos de todos os votos nas instituições europeias, em particular no Conselho, em que carecemos de todos os lobbies e de todas as boas vontades, resolvemos ignorar e desprezar o papel dos pequenos estados na União. Pode ser economicamente vantajoso (e, mesmo isso, não é claro), mas pode ser politicamente muito prejudicial. E sem solução política europeia, não haverá economia portuguesa que aguente...’

Amanhã, às 18h30, no CCB


O Chico-espertismo político

A chico espertice política de mandar os secretários de estado ao debate do OE parece isso mesmo, uma Chico-espertice inócua, mas a verdade é que não é, como sublinha hoje, no Público, o eurodeputado Paulo Rangel.

Para além de ser uma evidente falta de respeito político e institucional pela Assembleia é especialmente revelador quer da falta de coesão da maioria política que suporta o Governo, quer da (in)cultura política dos seus principais dirigentes.

Diga-se, em abono da verdade, que o silêncio da Mesa da Assembleia e da generalidade dos deputados de todas as bancadas também não ajuda por aí além ao prestígio da instituição parlamentar.

É que um dos pilares do estado de direito é, justamente, o respeito escrupuloso pelas regras, pelos procedimentos e pelos formalismos.
    Afonso

E já agora:

    “Para concluir, refira-se que o regime preferido de um chico-esperto é a República das Bananas, agora também apelidada de Tugolândia ou Tugalândia (em que «tuga» constitui a forma abreviada de uma outra, que corresponde a um nome depreciativo de registo coloquial, portuga). O seu habitat predilecto é a selva. Justamente porque a Lei da Selva é a que lhe é mais vantajosa.”
    Afonso

Um governo de 2.ª classe

Fontes bem colocadas fizeram-nos chegar a primeira versão das notas de balanço dos primeiros seis meses de governação destinadas à preparação da mensagem de Ano Novo:
    - Primeiro a fase das políticas giras: por exemplo a eliminação das gravatas.

    - Depois, a baixa da TSU que era para ser mas não foi.

    - Entretanto, avançou-se com a distracção dos feriados.

    - À cautela, atirou-se para a frente a questão da meia hora, ao bom estilo do logo se vê.

    - Na linha do ‘já agora’, atirou-se o barro à parede na questão dos transplantes e das comparticipações, a ver se pegava. Parece que não pega nem despega.

    - O tolinho da economia armou a confusão em torno dos transportes na esperança de que alguma coisa aconteça.

    - Os banqueiros, estranhamente, andam às turras com o governo.

    - Os reitores, esses, andam visivelmente à nora e à rasca com o desprezo do governo pelo ensino superior e pela investigação científica.

    - Os empresários já perderam a paciência.

    - Tudo indica que grassa a maior das balbúrdias nas privatizações.

    - Para entreter a matilha dos jornais nada como nomear sucessivos grupos de trabalho (sujo) para poder aparecer com as mãos limpas.

    - Com o lobby autárquico a ordem do Relvas foi ‘quem se meter com eles leva’. Por isso, dizer publicamente nem pensar para poder dar por baixo da mesa.

    - Na justiça a ministra está, finalmente, a realizar a sua vocação de justiceira. Os próximos passos (arranjar sinónimo) serão a extradição de nacionais e a reintrodução da pena de morte.

    - O das polícias anda com medo da rua e dos polícias.

    - O da Defesa parece que se meteu num submarino e nunca mais foi visto.

    - O das Finanças não dá cavaco (encontrar sinónimo) a ninguém.

    - O do CDS anda desaparecido mas ao menos não envergonha.

    - O chefe do governo anda a ter explicações de alemão para ver se percebe o que a Merkel lhe manda dizer. Mas já percebeu o truque: quem tem falta de ideias políticas vira-se para o mar que assim até parece um estratega.

    - O Moedas já tem pronta a próxima alteração ao memo de entendimento: a proibição, por lei da Assembleia, do Pudim Molotov como sobremesa, não vá a troika zangar-se e cancelar a próxima tranche.
Conclusão: isto não está famoso. E como não há subsídio de Natal o melhor é não haver mensagem de Ano Novo. É que ainda pode sobrar para Belém e não haver pastéis em número suficiente.
    Afonso

Está bonita a festa, pá [3]



Depois de o Presidente da República ter considerado Passos Coelho e Vítor Gaspar ignorantes e de Durão Barroso ter sustentado que o ministério de Crato não fazia uma consolidação orçamental inteligente, é a vez de outra figura da direita, o conselheiro de Estado Vítor Bento, afirmar que esta gente que nos governa — os estarolas da São Caetano, capitaneados pelo terrível Ângelo, de mãos dadas com a rapaziada de borracha do Caldas — está, mais do que afectada pela ignorância, impregnada de um “fundamentalismo moralista”:
    ‘Esse fundamentalismo não só é perigoso, do ponto de vista prático - pelas consequências potencialmente desastrosas a que pode conduzir -, como é moralmente errado, porque assenta num vício de raciocínio. O vício desse fundamentalismo consiste em supor que, recusando-se escolher um dos males, se isenta da responsabilidade moral pelas consequências supervenientes. Ora, este é um entendimento profundamente errado do dever moral. Sempre que se está perante uma escolha, está-se perante uma decisão ética (por natureza e definição), não existindo, por isso, nenhum caminho moralmente desresponsabilizante. Mesmo a suposta "não escolha" é sempre uma escolha e influencia o curso dos acontecimentos. Constitui, por isso, responsabilidade moral para quem a pratica. Mais concretamente e no caso em que se esteja perante dois males, a recusa de escolher activamente o mal menor, implica irrecusavelmente a escolha - "passiva", mas escolha! - do mal maior. A responsabilidade pelo resultado é, pois e sempre, moralmente iniludível, por mais que se pretenda purificar a atitude de recusar escolher. Pense-se no que teria acontecido à Europa e ao Mundo, se as democracias ocidentais tivessem recusado o mal menor - aliança com Estaline - na segunda guerra mundial…’

♪ Tony Millionaire's Portraits of Musicians [3]


Bob Dylan
A Hard Rain's A-Gonna Fall

segunda-feira, novembro 28, 2011

Da série "A fenomenologia do ser"¹



Vamos lá então ver as coisas tal como parece que elas são.

Um partido e um governo que têm como número dois – formalmente – uma personagem:
    - Que é incapaz de pronunciar três frases seguidas sem violar as mais elementares regras da lógica e da gramática;
    - Que confunde dizer coisas com ter coisas para dizer e que se limita a juntar palavras na esperança que a sequência lhes dê sentido;
    - Que em cada intervenção pública consegue debitar vulgaridades, preconceitos e ideias vagas a 78 rotações por segundo;
    - Que assumiu publicamente que o seu papel enquanto político é o de intermediador de interesses;
    - Cuja coerência e cujas convicções políticas têm a solidez e a consistência de uma minhoca;
    - Que não hesita em usar o poder como instrumento de pressão e de ameaça;
    - Que para atacar os adversários políticos insultou as respectivas famílias;
Um partido e um governo, dizia, não deveriam ter vergonha de integrar como membro tal personagem? Ao que se sabe, MFL teve.
    Afonso
______
¹ Obra filosófica que o actual primeiro-ministro afirmou ter lido na sua juventude, desde então, perdida.

Uma maioria sem moral nenhuma

À pressa, e pela calada, a maioria finge emendar o OE2012 e dar um ar de preocupação social, como quem diz, “toma lá umas migalhas e trata mas é de me agradecer porque senão ainda seria pior.”

As emendas que o governo e a maioria apresentaram em nada resolvem o problema fundamental deste OE2012: a injustiça.

Uma linha política que trate de forma desigual situações iguais, que favoreça os mais influentes e que agrave a situação dos mais desfavorecidos é fundamentalmente imoral, e os seus defensores só acrescentam vilania à injustiça quando argumentam que os fins justificam os meios.
    Afonso

Ainda que mal pergunte… [72]

Quem e quantos dos actuais e pretéritos dirigentes do PSD não está ou esteve metido, directa ou indirectamente, no affaire BPN e afins?

Assim à primeira vista parece-me que só o Dr. Rui Rio, ou estarei a ver mal?
    Afonso

Uma mentira mil vezes repetida não a transforma em verdade

O rebuçadinho que a direita tirou esta manhã do bolso serve, ao menos, para provar uma coisa: que é falso, ao contrário do que o ministro da propaganda jurava a pés juntos, que a consolidação orçamental tenha de ser feita em 2/3 pelo lado da despesa.

Uma mulher que destila ódio por todos os poros

Paula Teixeira da Cruz dá hoje uma entrevista ao Diário Económico. Mesmo que espremidinha, a coisa não tem nem uma gota de sumo. Mas vale a pena observar estas duas passagens da entrevista:
    • Como a sua corte — na qual pontifica o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público — não gosta do procurador-geral da República, a ministra da Justiça vem para a praça pública espingardar com o responsável máximo do Ministério Público (que é juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça);
    • Como não gosta do bastonário da Ordem dos Advogados, anuncia que vai aos fagotes à Ordem.

ADENDA — Só alguém com uma enorme lata, que usou a comunicação social a torto e a direito (discorrendo até sobre processos em segredo de justiça, como no caso Freeport), pode vir dizer o que aqui se diz. E, caro leitor, se encontrar alguma diferença entre a agenda da ministra Justiça e a do sindicato do Ministério Público, o CC dá-lhe um prémio.

A palavra aos leitores

Leitor não identificado nesta caixa de comentários:
    Não sejam simplórios. Cavaco está preocupado consigo próprio, claro, e não está mesmo nada contente com o resultado da sua estratégia maximalista para derrubar Sócrates.

    Sente que contribuiu decisivamente para entregar o Governo a um bando de desmiolados e não quer de todo ficar responsável por esses passos fatais.

    Mas duvido que seja apenas a ambição de Poder que o mova. Alguma será também, mas a meu ver sobrepõe-se a noção lúcida de que se foi longe de mais e que o nível do jogo alcançou um patamar de irresponsabilidade cujo desfecho é totalmente imprevisível e de cujas consequências o PR ficará sempre na História como o maior dos culpados!

    Resumindo, Cavaco não suportaria que um simples Coelho acertasse onde ele falhou, mas suporta ainda menos ficar na História como o coveiro da Democracia portuguesa.

    Afinal de contas, o homem tem é medo de não ter ninguém no seu funeral...

Da série “O homem sem qualidades”



      “... para fazer uma modelação para que estas medidas sejam aplicadas".
        PPC, DN, 26/11/11

O Público corrigiu para modulação. A restante imprensa manteve modelação.

É claro que o Público procedeu bem ao corrigir PPC, mas devia ter informado os leitores.

É o que dá o saber de ouvido. Tal como o daqueles alunos que nunca leram o manual, mas que não hesitam na utilização da conjectura e da recta de repressão...
    Afonso

Viagens na Minha Terra

Aquele ali tem uma doença crónica

Foi hoje publicada a lei que institui o Sistema de Informação da Organização do Estado e regula o seu funcionamento (Lei n.º 57/2011). Numa leitura em diagonal, tropecei na alínea d) do artigo 6.º:


Coisa estranhíssima: para que quer a maioria de direita discriminar na função pública os trabalhadores com doenças crónicas?

Alguém já sabe…

… do paradeiro de Paulo Portas?

Então, o que nos resta agora?

• Nouriel Roubini, A queda da Zona Euro:
    'Então, o que nos resta agora?

    A reflação [estimular a economia através do aumento do suprimento de moeda ou reduzindo taxas, é o oposto de deflação] simétrica é a melhor opção para restaurar a competitividade e o crescimento na periferia da Zona Euro, ao mesmo tempo que se levam a cabo as necessárias medidas de austeridade e reformas estruturais. Isto implica uma significativa flexibilização da política monetária por parte do BCE; provisão de apoio ilimitado de credor de último recurso a economias ilíquidas mas potencialmente solventes; uma forte depreciação do euro, o que poderá transformar os défices das contas correntes em excedentes; e estímulos orçamentais nos países do núcleo se a periferia for obrigada à austeridade.

    Lamentavelmente, a Alemanha e o BCE opõem-se a esta opção, devido à perspectiva de uma dose temporária de inflação modestamente mais elevada nos países do núcleo da Zona Euro face à periferia.

    O amargo medicamento que a Alemanha e o BCE querem impor à periferia – a segunda opção – é a deflação recessiva: austeridade orçamental; reformas estruturais visando impulsionar o crescimento da produtividade e reduzir os custos unitários do trabalho; e uma depreciação real, através do ajuste de preços, por oposição ao ajuste da taxa de câmbio nominal.

    Os problemas com esta opção são imensos. A austeridade orçamental, se bem que necessária, significa uma recessão mais profunda no curto prazo. Mesmo as reformas estruturais reduzem a produção no curto prazo, porque é algo que exige que se despeçam trabalhadores, que se encerrem empresas que estão a dar prejuízos e que seja feita uma realocação gradual da mão-de-obra e do capital em novas indústrias emergentes. Assim, para evitar uma espiral de recessão ainda mais profunda, a periferia precisa de uma depreciação real para melhorar o seu défice externo. Mas mesmo que os preços e salários caiam 30% nos próximos anos, o valor real da dívida aumentará fortemente, agravando a insolvência dos governos e dos devedores privados.'

A correr contra a parede

Está escrito nos manuais:


CDS-PP, o partido do contribuinte

• Susana Soutelinho, Singularidades da proposta de Lei do OE para 2012:
    'A existência de um tecto máximo de juros de mora, até aqui de 3 anos, dava ao contribuinte a possibilidade de quantificar a sua eventual contingência em caso de improcedência da acção.

    A partir de 01/01/2012, se a de Lei do OE for aprovada nos termos da proposta, a incerteza passa a ser mais um factor de ponderação. Com efeito, o contribuinte deixa de poder avaliar, com um mínimo de segurança, as vantagens e as desvantagens de litigar contra o Estado, já que pode vir a ter que pagar a dívida de imposto, que é certa, acrescida de juros de mora, cujo montante pode vir a ser inferior, igual ou superior à própria dívida. Se utilizarmos, a título de exemplo, a taxa actualmente em vigor (6,351%), concluímos basta que a Administração Fiscal ou os Tribunais demorem 10 anos a decidir, para termos uma taxa de 63,51%, quando até aqui o máximo seria de 19,05%.'

Plano inclinado a pique

Com que então agora só nos resta mentir?

A crise, diziam os estarolas da São Caetano, era só portuguesa

• Rui Tavares, A crise do euro é uma crise do euro [hoje no Público]:
    ‘No tutano, há só duas posições no debate sobre esta crise. O resto - os swaps e os eurobonds, o FEEF e a troika, o Merkozy e o Gaspar - é ilustração. A discussão era a mesma há quase dois anos, e é a mesma agora.

    Há quase dois anos, tínhamos de um lado os que diziam: esta é uma crise do euro (a chamada posição "sistémica"). Do outro lado, tínhamos os que respondiam: isto não é uma crise do euro, mas apenas um problema na Grécia (a "dívida soberana").

    Aqueles que defendiam a segunda posição levaram um banho de realidade. Onde diziam que "isto" era só um problema da Grécia passaram a dizer: "O euro não está em crise; isto é só um problema de Grécia e da Irlanda." Logo depois: "O euro não está em crise; isto é só um problema da Grécia, da Irlanda e de Portugal." Depois: "O euro não está em crise; isto é só um problema da Grécia, da Irlanda, de Portugal e da Itália." "Ah, e da Espanha, também."

    Mas calma, gente!, que o euro, como nós sabemos, não está em crise: isto agora é só um problema da Grécia, da Irlanda, de Portugal, da Itália, da Espanha. E da Bélgica. Da França. Da Áustria. Até da Holanda. Da Finlândia também. E - ó diabo - da Alemanha.

    As siglas complicadas, como o FEEF, nascem desta dinâmica simples. As cimeiras serviam para resolver um problema localizado. Porque, lembram-se?, o euro não estava em crise. (...)’

♪ Tony Millionaire's Portraits of Musicians [2]


Billie Holiday
Stormy Weather

Remodelação governamental



Através de uma simples resolução, Passos Coelho faz hoje uma primeira remodelação do Governo (descontada a de Bernardo Bairrão): retira o QREN ao naufragado Álvaro da Horta Seca e entrega a sua gestão ao Vítor do Terreiro do Paço.

Eles andem

… e já se substituem ao Estado no controlo das contas públicas.

Senhoras e senhores, todos aos seus lugares para assistir à próxima cambalhota de Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal (ou lá o que é)

Da série "Frases que impõem respeito" [677]




O senhor informa-se com quem antes de vir para aqui?
      Bruno Dias, deputado do PCP, faz a pergunta ao pobre Álvaro na Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas, aquando da discussão do Plano Estratégico de Transportes, após ter deixado KO o ministro e o seu populismo rasca (cf. vídeo)

domingo, novembro 27, 2011

A crise que era só portuguesa

"O radicalismo que move o Governo não augura nada de bom"

• Pedro Adão e Silva, Para que serve uma greve?:
    ‘A grande questão agora é saber de que modo o Governo interpreta a greve. Se opta por prosseguir o caminho de ruturas sociais e económicas, sem alargar a base de apoio político e social, ou se, pelo contrário, procura negociar e concertar interesses. A opção seguida terá, certamente, efeitos económicos e sociais, mas nela jogar-se-á uma questão política decisiva e que poderá mudar o mapa das relações de poder em Portugal.

    O radicalismo que move o Governo não augura nada de bom. Mas uma coisa é clara, se o executivo optar por continuar a avançar sozinho provocará, além do empobrecimento, uma alteração estrutural no sistema de representação de interesses em Portugal. Com consequências imediatas: coloca a UGT nos braços da CGTP e empurra o PS para a rua. No curto prazo, a táctica pode fazer sentido para o Governo, mas revelar-se-á dramática para o país. À rutura económica e social juntar-se-á a rutura política.’

Fado


"Se a troika quisesse levar o fado não podia, é nosso"


O futuro do fado está assegurado. Mas é bom — para o país e, em particular, para a cidade de Lisboa — que a UNESCO reconheça a “mais popular das canções urbanas” portuguesas como património imaterial da humanidade.

Románticos crueles y aburridos

• Paul Krugman, Románticos crueles y aburridos:
    ‘Protesto. Conozco a los tecnócratas; a veces hasta pretendo serlo yo mismo. Y estas personas -las personas que intimidaron a Europa para que adoptara una moneda común, las personas que están intimidando a Europa y a EE UU para que impongan la austeridad- no son tecnócratas. Son, más bien, románticos muy poco prácticos.

    Pero, sin lugar a dudas, son una variedad de románticos especialmente aburridos, que hablan en una prosa pedante en vez de en verso. Y las cosas que exigen en nombre de sus visiones románticas son a menudo crueles, e implican enormes sacrificios para los trabajadores y las familias de a pie. Pero el hecho es que esas visiones están motivadas por sueños sobre cómo deberían ser las cosas en vez de por una fría valoración de cómo están realmente las cosas.

    Y para salvar la economía mundial tenemos que bajar a esos peligrosos románticos de sus pedestales.

    Empecemos por la creación del euro. Si piensan que este fue un proyecto impulsado por un minucioso cálculo de los costes y los beneficios, les han informado mal.’

♪ Tony Millionaire's Portraits of Musicians [1]


Lightnin' Hopkins
Goin’ Down Slow

Da estratégia suicida de Merkel à ignorância de Passos (nas palavras de Cavaco)

• Pedro Marques Lopes, A minha greve:
    ‘As minhas preocupações são outras. São as que advêm de me sentir governado por pessoas que aparentemente ignoram que estão a destruir um modo de vida, uma economia, as poucas boas empresas, em troca duma quimera; que são os maiores aliados da estratégia suicida da Sra. Merkel; que pensam que atirando para a miséria e o desemprego milhares e milhares dos seus concidadãos alcançarão o que quer que seja; que falam de taxas de juro, de eficiência e de mercados como se fossem fins em si mesmos, esquecendo que estes dados têm de ser apenas meios ao serviço da comunidade; que trocam os princípios reformadores por revoluções inconsequentes.

    (…)

    O conflito institucional entre o Presidente da República e o primeiro-ministro promete atingir níveis insustentáveis. Na última sexta-feira, a propósito da hipótese de o BCE poder assumir o papel de credor de último recurso na Zona Euro, Cavaco Silva disse que "só quem revela algum desconhecimento é que receia que na situação actual possam resultar dessas intervenções perigos de inflação". Apelos constantes à concertação social, à justa repartição dos sacrifícios e ao necessário equilíbrio de austeridade com crescimento são uma coisa, outra é o Presidente da República apelidar indirectamente o primeiro-ministro de ignorante.

    Não é fácil prever os próximos episódios deste conflito, mas não vai ser um espectáculo agradável.’

Convenção de Extradição

• Fernanda Palma, Convenção de Extradição:
    ‘Existirá uma contradição entre a Convenção de Extradição outorgada pelos Estados da CPLP e a Constituição portuguesa, em matéria de extradição de nacionais? A dúvida resulta do confronto do artigo 4º da Convenção, que estipula que "a extradição poderá ser recusada se a pessoa reclamada for nacional do Estado requerido", com o artigo 33º da Constituição.’

sábado, novembro 26, 2011

"A raiva silenciosa que perpassa na nossa sociedade é muito mais vasta e profunda"

• Fernando Madrinha, IRLANDA OU GRÉCIA?:
    (...) o espírito de greve e os motivos para ela não se circunscreveram aos que responderam ao apelo da CGTP e da UGT. A raiva silenciosa que perpassa na nossa sociedade é muito mais vasta e profunda. Percebe-se nos cafés, nos transportes públicos, em todos os lugares onde se encontrem dois portugueses a falar da vida. (...)'

Com jornais para ler, programas para ouvir e ver…

… só hoje consegui ouvir o debate da semana passada, na TSF, entre Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes: avaliação da troika, o fim da crise e o serviço público da TV.

“É isto que queremos ou está a escapar-me algo?”

• Nicolau Santos, QUE MODELO SERÁ O NOSSO:
    ‘As análises são unânimes: Portugal tem uma fraca competitividade. Por isso, a agenda de transformação estrutural da economia portuguesa encetada pelo Governo (que inclui a transformação estrutural do Estado e reformas ao nível de funcionamento da economia, como o programa de privatizações e a flexibilização do mercado de trabalho palavras de Vítor Gaspar) visa resolver até 2014 esse problema. Ora se analisarmos os sinais e as decisões pode concluir-se que: 1) O Estado vai encolher e as suas funções serão fortemente reduzidas; 2) Os salários dos funcionários públicos e as prestações sociais serão fortemente atingidos; 3)0 sector privado seguirá essa orientação; 4) Várias das privatizações incidem sobre empresas que são monopólios naturais ou que têm uma posição significativa no mercado; 5) As mudanças laborais vão todas no sentido de tornar mais precárias as relações entre trabalhadores e empresas. O resultado de tudo isto é que teremos um exército de mão de obra bastante mais barato; os melhores emigrarão; posições públicas dominantes nos mercados passarão a ser privadas. Ora o modelo económico que daqui sai é certamente mais competitivo, mas por via dos salários baixos não pela inovação ou criatividade. É isto que queremos ou está a escapar-me algo?’

"A nossa gente"

• José Medeiros Ferreira, Novos manifestos:
    'Um grupo de cidadãos, com forte componente intergeracional, no decurso de vários encontros de análise da situação política nacional e internacional, fora dos partidos mas não contra os partidos, chegou à conclusão de que se devia lançar um alerta sobre os caminhos que Portugal e a União Europeia trilham, antes que tudo acabe mal. Daí resultou o lançamento do Manifesto POR UM NOVO RUMO, cuja primeira assinatura é de Mário Soares, e do qual também sou signatário. (...) a pulsão mais afectiva do Manifesto dirige-se sobretudo à defesa dos "aflitos e indignados", como os desempregados desamparados, a velhice digna ameaçada, os trabalhadores precarizados, a juventude sem perspectivas e convidada a emigrar. São temas de outras eras como alguns comentadores disseram? Quem dera. Mas abrangem muita gente. A nossa gente.'

♪ Ir além da troika [7]



Jefferson Airplane
Never Argue With a German If You're Tired (...)


    ‘Se há um país em que houve informação e em que houve conhecimento, esse país é a Alemanha. E, contudo, esse país deixou-se enganar pelos argumentos pueris de Hitler. A verdade é que não encontro a razão dessa contradição. O que também acontece com os alemães é o respeito da autoridade, uma espécie de respeito chinês das hierarquias [esquecendo-se] que as hierarquias se devem às circunstâncias, e que as circunstâncias se devem ao azar. Os alemães, que tiveram filósofos cépticos, não costumam dar gente céptica. Os alemães são grandes soldados enquanto crêem na possibilidade da vitória, mas parecem incapazes de lutar por uma causa perdida. A esquadra espanhola, depois da derrota de Cuba, saiu precisamente para se afundar. Pelo contrário, a esquadra alemã entregou-se em 1918 à esquadra inglesa, quando sabia que o combate era inútil.’

      Jorge Luis Borges

Gasparismos

    - A minha política é o OE2012.
    - Em geral sou sempre a favor de baixar dos impostos. Em particular sou sempre a favor de os aumentar.
    - Our aim is to make tax collecting a declining raising industry. (M. Thatcher, 1977; V. Gaspar, 2011)
    - Se os funcionários pagarem para trabalhar transmuta-se a despesa em receita: eis a pedra filosofal.
    - Bem-aventurados os arquitectos e os edifícios de três ou mais andares.

    Afonso

sexta-feira, novembro 25, 2011

"Estaremos condenados à arrogância da ignorância?" (2)



Imagem enviada pelo leitor João N.

Zé Manel, não te desgraces mais. Muda de tema.

Está bonita a festa, pá [2]



Depois de tanto ter insistido para que o Governo mude de posição face à política europeia, o Presidente da República ouviu esta semana Passos Coelho dizer que prefere continuar escondido debaixo das saias da Sr.ª Merkel a ter de pressionar as instituições europeias para que o Banco Central Europeu emita moeda (tal como o fazem a Reserva Federal norte-americana e o Banco de Inglaterra). Hoje, no Fórum COTEC, Cavaco respondeu, pondo tudo em pratos limpos:E com receio de que o que dissera não fosse suficientemente claro, Cavaco acrescentou:Praticamente, Cavaco, que foi professor de Vítor Gaspar, cassou o certificado de habilitações do ministo das Finanças (para não falar do certificado de Passos Coelho, que não tem sequer crédito para ser retirado).

Está bonita a festa, pá [1]



O presidente da Comissão Europeia deixou hoje um recado ao Governo, sublinhando que a consolidação orçamental tem de ser inteligente:Nuno Crato, ministro da Educação, Ciência e Ensino Superior, sentado na primeira fila a escutar a intervenção de Durão Barroso, ouviu e calou. Não deve ser simpático ser chamado de estúpido.

Álvaro: — A notícia da minha morte não foi exagerada



A realidade confirmou as piores previsões: se o país havia interiorizado que não tinha ministro da Economia, adquiriu ontem a certeza de que também já não dispõe de ministro do Emprego. Confrontado com uma greve geral, foi o ministro da propaganda que fez as despesas por parte do Governo. A exigência feita a Passos Coelho por parte de Silva Peneda para que fossem afastados das reuniões da concertação social o Álvaro e o seu ajudante Pedro Martins parece ter surtido efeito. Esta situação coloca dois problemas complicados ao Governo:
    • Quando seria imperioso que fosse dado um sinal no domínio da concertação social, o que se vê é que Passos Coelho não tem um interlocutor que dialogue com os parceiros sociais; e
    • Ao mandar avançar o seu braço direito, que ao longo do dia de ontem foi absolutamente desastrado a anunciar dados sobre a adesão à greve, Passos Coelho ficou sem nenhum biombo entre si e as confederações patronais e dos trabalhadores.

Debate na SIC-N (ontem à noite)

Helena Garrido, Luís Delgado e Pedro Adão e Silva conversam sobre a greve geral e a notação de “lixo” para Portugal.

Belém - S. Bento: “Vade retro Satana”

Fontes bem colocadas dizem-nos que em S. Bento todas as quintas-feiras, e antes da partida para Belém, se reza com especial convicção a oração atribuída ao santo padroeiro:
    A Cruz Sagrada seja a minha luz
    Não seja o dragão o meu guia.
    Retira-te, Satanás
    Nunca me aconselhes coisas vãs.
    É mal o que tu me ofereces
    Bebe tu mesmo os teus venenos.


    Afonso

A troika como pé-de-cabra para desmantelar o Estado Social

O nosso Moedas foi hoje expor o seu pensamento a uma conferência económica. Recusando responder a algumas perguntas por estar na presença de três jornalistas estrangeiros, foi por acaso um destes, Wolfgang Münchau, que lhe colocou uma pergunta que o fez abrir o jogo. Questionado sobre se o Governo iria manter as metas do défice ou repensar o programa de ajustamento económico e financeiro no caso de a recessão ser pior do que o esperado, o nosso Moedas não foi de modas: “Portugal tem uma fantástica oportunidade para mudar o lado estrutural da economia e isso não tem nada a ver com os mercados e com o que se passa fora de Portugal”.

A crise e a reacção dos mercados são, de facto, pretextos para levar a cabo o PREC (processo reaccionário em curso). E a troika é apenas o pé-de-cabra para desmantelar o Estado Social.

PS — Moedas: "Batalhamos em tempo real nos monitores da Bloomberg". O site da Bloomberg tem caixas de comentários para o secretário de Estado Adjunto do Primeiro-ministro poder passar o dia entretido, como se depreende do que disse hoje?

A mão invisível



Quem diria? Os wonder-boys da direita portuguesa, os Osório e os Borges, afinal não convenceram os mercados.

It’s an injustice it is...
    Afonso

Ainda que mal pergunte… [71]

Ouvir Marques Mendes perorar sobre o gigante político que foi, e é, Mário Soares permite-nos ver que MM foi e é, afinal, o quê?

... Um anão político?
    Afonso

Boys don’t cry [3]

O inimitável ministro da propaganda assegurou que seria aprovado em breve um novo estatuto dos gestores públicos, o qual iria restringir a três o número de administradores dos órgãos de gestão e fixar tectos para as remunerações. Antes que seja aprovado o novo estatuto, toca a nomear gente amiga (cinco de cada vez) e até que nem são nada mal pagos:

Relvas tem dedo para os escolher

Este faz questão de confirmar o provérbio: quem sabe faz, quem não sabe ensina.

O Moedas já não é tu-cá-tu-lá com os mercados?

Juros portugueses superam novamente os 18% no prazo a dois anos.

"Estaremos condenados à arrogância da ignorância?"



Estaremos condenados à arrogância da ignorância?”, pergunta o Zé Manel na sua prosa de hoje no Público. O mais que provável relator das notáveis reflexões do comité de sábios da RTP (como a imagem acima documenta) escreve também sobre a greve geral:


Não, Zé Manel, não estamos condenados à arrogância da ignorância. Nem à dos tolinhos.

Mais murros no estômago?

• Pedro Silva Pereira, Mais murros no estômago?:
    ‘O primeiro-ministro, tudo indica, continua a não ver em tudo isto mais do que sucessivos "murros no estômago". Do que se trata, porém, é de golpes que atingem, isso sim, o tronco da narrativa da crise que o actual Primeiro-Ministro perfilhou. À luz dessa narrativa distorcida, simplista e panfletária, a descida do ‘rating' de Portugal parecerá ao primeiro-ministro destituída de lógica: afinal, é ele e não Sócrates quem está a frente do Governo; nas Finanças está um liberal importado do BCE; as políticas de austeridade vão além do que a própria "troika" sugeriu e até o empobrecimento foi perfilhado como desígnio governativo. Mas onde verdadeiramente não há lógica é na "grelha de leitura" da crise que o primeiro-ministro teima em manter, para não pôr em causa a narrativa que lhe serviu para ganhar votos em Portugal - e que, aliás, é semelhante à que a chanceler Merkel mantém para tentar não perder votos na Alemanha.

    E aí o temos: em Portugal, insistindo numa austeridade que ultrapassa em brutalidade e injustiça as exigências de qualquer "troika"; na Europa, recusando, mesmo contra o Presidente da República e a Comissão Europeia, uma resposta efectiva e solidária da zona euro à crise das dívidas soberanas, preferindo fazer coro com a Chanceler Merkel na defesa da prioridade à disciplina orçamental dos países do Sul.

    Mas esta semana, quando a Alemanha falhou, pela primeira vez, uma emissão de dívida pública nos mercados financeiros, não consta que a chanceler Merkel se tenha queixado de ter sofrido um "murro no estômago". É mais provável que tenha finalmente compreendido que a realidade lhe estava a dizer alguma coisa. Se assim for, o primeiro-ministro que tome cuidado: em breve pode não ter com quem fazer coro. E ficará a falar sozinho.’

Governo & troika, o duo maravilha

• Daniel Amaral, O duo maravilha:
    ‘Mas o pior ainda está para vir. A evolução recente do investimento e a rigidez das leis laborais sugerem a ideia de que a nossa estrutura produtiva estará subutilizada. E, se assim for, é de presumir que o desemprego venha a agravar-se ainda mais. É aqui que entra o Governo: primeiro, recusa o salário mínimo de 500 euros a que se comprometera com os parceiros sociais; depois, responde com cortes no subsídio de desemprego ao aumento do número de desempregados. É um cenário de loucos.

    Como é que tudo isto foi possível? Quem comanda este processo? A resposta está no duo maravilha, a ‘troika' e o Governo, a fome e a vontade de comer. Um defende a austeridade? O outro multiplica a austeridade por três. Um ataca os pensionistas e o sector público? O outro manda acrescentar o sector privado. Sempre juntinhos, aliados, felizes. Daí que não me surpreendam os elogios que a ‘troika' faz ao Governo. Eles estão bem um para o outro: privilegiam os números e ignoram as pessoas.

    É o grau zero do Estado Social.’

"A greve é a continuação da negociação por outros meios"

• Elísio Estanque, O dia seguinte: parar, tomar fôlego e agir [hoje no Público]:
    ‘Se repararmos na etimologia da palavra "greve", temos que ela encerra uma polissemia curiosa. Na raiz francófona, a greve era o nome do local (Place de la Grève) onde, no século XIX, os trabalhadores esperavam, ficavam parados, enquanto não eram recrutados para o trabalho (à semelhança do acontecia durante o salazarismo nas "praças" das vilas e aldeias alentejanas, onde os assalariados rurais eram escolhidos para o trabalho à jorna). Já em castelhano, a huelga tem a mesma raiz de huelgo, que significa tomar fôlego. Por sua vez, no inglês strike é sinónimo de ataque, assalto ou agressão.

    Ora, nestas três diferentes asserções podemos captar o real significado de uma greve, enquanto forma de luta destinada a reequilibrar o poder assimétrico entre trabalho e capital. A questão encerra, todavia, contornos paradoxais que merecem reflexão: ficar parado quando era suposto estar-se activo; tomar fôlego quando o trabalho intensivo não permite o direito a respirar; ou "atacar" quando o trabalho assalariado se define antes do mais pela submissão. Qualquer que seja o dilema invocado, a greve é sempre sinónimo de rebeldia colectiva. Mas talvez o paradoxo mais importante resida no facto de que a greve, sendo um acto de "ruptura", procura uma nova harmonia. É um acto de afirmação de autonomia (da parte mais fraca), sem o qual o diálogo se confunde com resignação. Tal como não existe verdadeiro consenso sem dissensão também se pode dizer que não existe negociação sem conflito e pluralidade. Não por acaso, sociólogos prestigiados (J.-D. Reynaud) usam a formulação (inspirada em Clausewitz) segundo a qual "a greve é a continuação da negociação por outros meios", justamente para realçar um dos traços distintivos da cultura democrática, ou seja, a necessidade de gerir a relação - sempre tensa e delicada - entre a ordem e a divergência, a harmonia e o conflito, a disciplina e a liberdade. Daí decorre, aliás, a capacidade de preservar o "equilíbrio dinâmico" e a coesão social por que se pauta uma sociedade aberta e democrática. Uma greve bem sucedida é aquela que repõe as relações de poder sob um novo compromisso: no caso vertente, não apenas entre capital e trabalho, mas entre cidadania democrática e "austeritarismo".’

♪ Ir além da troika [6]



Show me an alley, show me a train
Show me a hobo who sleeps out in the rain

And I'll show you a young man
With many reasons why
There but for fortune, go you or I

Phil Ochs
There But For Fortune

quinta-feira, novembro 24, 2011

Viagens na Minha Terra

Lixo (junk bond)




Ou seja:
    • A saída de Sócrates não resolveu o problema, como sustentava a direita;
    • A austeridade não resolve o problema, antes o agravará.

Ainda que mal pergunte… [70]

Temos ministro da Administração Interna?
    Afonso

Da série "Frases que impõem respeito" [676]


Tudo isso faz com que estejamos a assistir a um fenómeno gigantesco de criação de ressentimento e destruição da confiança colectiva.
      João Cardoso Rosas, no DE
    Afonso

Será chuva? Será gente?/ Gente não é, certamente/ e a chuva não bate assim.

"The name Molotov cocktail was coined by the Finns during the Winter War

":

A Finnish soldier with a Molotov cocktaill in Winter War


Com a direita no poder há sempre uma regressão em curso, seja no vocabulário, seja nos conceitos, seja nos gostos, seja na segurança...
    Afonso

Geração Facebook

Responder ao desespero e à angústia moral e pessoal dos cidadãos com linguagem condescendente e arrogantemente piedosa é elevar a hipocrisia política a um nível pouco visto em Portugal.

Mas é uma das consequências da chegada ao poder da geração dos cursos noctívagos.
    Afonso

Que coisa mais estranha…

... isto ser repetidamente desmentido pelo PSD e não pelo PP.

Da série "O homem sem qualidades"


O auto-retrato da vulgaridade e de uma perigosa impreparação para o exercício da liderança política.

Talvez os ingénuos compreendam agora, finalmente, as reservas de Cavaco Silva, de Manuela Ferreira Leite, de Pacheco Pereira e de Rui Rio.
    Afonso

Da série "Frases que impõem respeito" [675]


... mettere la coda dove non va ii capo¹.
      Vladimir Ilitch Lenine, Um Passo em Frente Dois Passos Atrás, vi, r).1904
_________
¹ ... meter o rabo onde a cabeça não cabe.

Défice externo, empobrecimento e baixa de salários

• Manuel Caldeira Cabral, Défice externo, empobrecimento e baixa de salários:
    'É importante reflectir sobre os factores que ajudaram a que as empresas exportadoras portuguesas conseguissem, nos últimos seis anos, voltar a ter uma performance melhor que a dos outros países da UE15. Conseguiram-no num contexto em que a evolução dos CUT não foi a mais favorável, conseguiram-no reagindo ao choque do aumento da concorrência asiática e dos países de leste. Conseguiram-no num contexto de uma política activa de simplificação administrativa, e de apoio à inovação e à investigação. Conseguiram-no numa sociedade que se está a tornar mais qualificada e melhor apetrechada tecnologicamente. Conseguiram com apoio à abertura de novos mercados e à orientação das empresas para a exportação. Mas conseguiram-no principalmente por elas próprias, desenvolvendo projectos, arriscando entrar em novos mercados, investindo na modernização de equipamentos e na inovação. Para tudo isto, muitas necessitaram e vão continuar a necessitar de financiamento bancário. A moderação salarial e o aumento de trabalho não pago podem ajudar à competitividade das empresas portuguesas no curto prazo. Mas por si só não chegam e não são uma solução interessante de longo prazo.'

Ainda que mal pergunte... [69]

Não foi o ministro Relvas que disse que bastava mudar de governo e o rating da República subiria imediatamente? Ainda é ministro?
    Afonso

Boys don’t cry [2]



O que se diz no post anterior vale para este. E vale também muito a pena dar uma espreitadela aos curricula dos nomeados para se certificar que qualquer um de nós pode vir a ser convidado a dirigir um hospital. Ai se pode.

Boys don’t cry [1]



O Centro Hospitalar do Médio Tejo abrange os hospitais de Tomar, Abrantes e Torres Novas. O número de doentes é exíguo, havendo nestes estabelecimentos pisos fechados. O que faz o Governo? Nomeia um novo conselho de administração, com um presidente e quatro vogais. Um exemplo de contenção de gastos aprovado pelos ministros das Finanças e da Saúde. Gostava de ver alguém da maioria de direita a justificar esta pouca vergonha.

Milu, a nova administradora do Turismo de Portugal, explana a sua visão [5]



Estávamos a 30 de Janeiro. Reeleito Cavaco, os estarolas da São Caetano intensificaram os preparativos para o assalto a São Bento. Os valetes da equipa do terrível Ângelo nas redacções dos jornais lançaram uma vasta campanha de agit-prop. A Milu, com as limitações que se notam à vista desarmada, lá passou ao papel as instruções: importemos, sem pautas aduaneiras, a “rua árabe”. É o que escreve a ex-jornalista da secção laranja do DN em Do Coliseu ao Cairo:
    ‘Naquela sala do Coliseu de Lisboa, a vocalista dos Deolinda, do alto dos seus 33 anos, anunciou que a última canção era nova e que era "dura" de ouvir. Chama-se "Que parva que eu sou" e diz assim: "Sou da geração sem remuneração e não me incomoda esta condição. Que parva que eu sou! Porque isto está mal e vai continuar, já é uma sorte eu poder estagiar. Que parva que eu sou! E fico a pensar, que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar..."

    Que parvos que somos nós se não soubermos juntar-nos à revolta!’
Os trabalhadores do Turismo de Portugal já sabem o que devem cantarolar quando forem a despacho (?) com a nova administradora deste instituto público.