sexta-feira, maio 08, 2015

O destino marca a hora


Conhecidos os resultados das eleições na Grã-Bretanha, o pantomineiro-mor não perdeu tempo para se agarrar aos fundilhos de David Cameron, deixando subentendido que a situação em que está é similar à que deu a vitória ao «colega inglês» [sic]. Acontece que não é. Veja-se:

1. A economia britânica cresceu a um ritmo mais rápido no final de 2014 do que o estimado. Um crescimento impulsionado pelo aumento das exportações e do orçamento anual familiar, o mais elevado em mais de quatro anos. Com efeito, o PIB cresceu 2,8%, como já não acontecia desde 2006.

Há cerca de um mês, Angus Campbell, analista da FX Pro, resumia a situação nestes termos: «O quadro geral e as perspectivas económicas para o Reino Unido ainda parecem relativamente cor-de-rosa. O desemprego está a cair, os salários a subir. Isso deve manter a confiança do consumidor bastante forte nos próximos meses».

A verdade é que nem a asfixia democrática chega para dissimular o estado em que se encontra a sociedade portuguesa: um crescimento anémico da economia que não impede que o desemprego volte a aumentar; uma dívida que não pára de crescer; um orçamento do Estado que, apesar das sucessivas doses de austeridade, não evita o procedimento da Comissão Europeia por défice excessivo; um agravamento indecoroso da pobreza e das desigualdades.

2. Ao longo do tempo, os estudos de opinião mostraram que os eleitores preferiam David Cameron a Ed Milliband. Em Portugal, acontece exactamente o oposto: em todas as sondagens, os portugueses vêm indicando que preferem António Costa a Passos Coelho, que, de resto, se vai afundando à medida que o tempo passa.

Acresce que António Costa revelou — com o documento dos 12 economistas — que há alternativas, no quadro europeu, à política austeritária de «ir além da troika». Uma política que serviu para uma enorme transferência de recursos do trabalho para o capital, mas que falhou os próprios objectivos a que se comprometera.

Em consequência, o que a direita de Passos & Portas tem para oferecer para a próxima legislatura, de acordo com o Programa de Estabilidade enviado para Bruxelas, é mais do mesmo: cortes para os pensionistas (salvo para as de montante mais elevado) e funcionários públicos, manutenção do «enorme aumento de impostos» para as famílias (com a garantia de que para as grandes empresas a tributação continuará a baixar), redução dos apoios sociais e asfixia progressiva do SNS.

A tentativa de se colar a Cameron denuncia que o alegado primeiro-ministro está em pânico. A pose de vendedor do elixir da longa vida esconde o pavor da aproximação da data do ajuste de contas.

6 comentários :

Rosa disse...



Mais uma excelente análise, Miguel!

Miguel Abrantes disse...

Muito obrigado, Rosa.

Luis Franco disse...

O texto podia ser:
Conhecidos os resultados das eleições na Grécia, o pantomineiro-mor não perdeu tempo para se agarrar aos fundilhos de Tspiras, deixando subentendido que a situação em que está é similar à que deu a vitória ao «Extremista Grego».

Anónimo disse...

Um comentário vindo de alguém que anda próximo do libdem (excelente resultado, diga-se):
-quando fizerem a avaliação do desempenho económico britânico é bom ter presente que eles não estão no euro. Só que uma coisa entrar e outra é sair. Estamos na ratoeira que era suposto ser o paraíso;

- fazer de pau de cabeleira de governos conservadores dá insta. No reino unido e na Grécia;

- por lá a questão nacional é de facto preocupante. Pode ser que a resolvam à canadiana;

- o velho centro-esquerda anda mesmo em dificuldade: nos países de tradição operária porque a sociedade mudou, está mais terciárias, individualista. Pelo sul da Europa porque nem se percebe o que é e o que quer.

Resumindo: não há favas contadas para o PS. O que lhe vale é a porcaria aflitiva de quem está, a dar vivas por décimas.

Anónimo disse...

Coitado do Passos, tem realmente a mania das grandezas. A verdade é que ele é tão inferior que até comparando-se com Cameron, que não é um super, dá logo a ideia de se estar a comparar o fundo das costas com a Feira de Borba.
Que tal está o magano!

manuel.m disse...

Ignorante até nos pequenos detalhes !

"Colega Inglês"?

Não se refere certamente ao Primeiro-Ministro Britânico.