sexta-feira, julho 03, 2015

«A "linha dura" fez tudo o que estava ao seu alcance
para impedir um acordo que pudesse legitimar a afirmação
de uma alternativa ao pensamento dominante»


• Pedro Silva Pereira, A culpa:
    «Confirmado o referendo em Atenas e suspensas as negociações em Bruxelas, nunca esteve tão eminente o pior dos cenários para o povo grego é para a zona euro: a saída desordenada da Grécia. Na lógica simplista da política prevalecente nas modernas sociedades mediáticas, um desastre de tamanhas proporções precisa, obviamente, de um culpado, alguém a quem possam ser imputadas responsabilidades pelas consequências da ruptura a que se chegou. Ao que parece, o candidato natural é Alex Tsipras. Mas nem sempre o que parece é.

    Sem dúvida, Tsipras fez mais do que o suficiente para partilhar pesadas responsabilidades. Oriundo de uma formação política radical, o jovem primeiro-ministro grego subiu na vida política vendendo ilusões e prometendo o que não podia cumprir. Apostou tudo numa atitude negocial de confrontação - e falhou. O seu falhanço, como se vislumbra já, não é coisa pouca: implica o caos no sistema financeiro e no funcionamento da economia e do Estado. Ao longo de meia dúzia de meses, Tsipras tardou em apresentar propostas convincentes e acabou, no final, por ser forçado a consentir em quase tudo o que antes dizia rejeitar: primeiro, o agravamento da austeridade (via enorme aumento de impostos) e, depois, o pedido de um terceiro resgate. Como se não bastasse, foi dele a iniciativa de abandonar unilateralmente as negociações (que depois, desesperadamente, tentou retomar) e foi dele a ideia de convocar este bizarro referendo (enquanto ainda mantinha uma intensa troca de cartas com propostas negociais). Entretanto, o seu ministro das Finanças, Varoufakis, acenava aos eleitores com a derradeira ilusão, anunciando o propósito de regressar na segunda-feira à mesa das negociações como se nada fosse, mas em posição reforçada por um "grande não", para fechar "rapidamente" (!) um acordo imaginário, sabe-se lá com quem. Embora convocado em nome da democracia, este apressado referendo decorre sob pressupostos de tal modo falsos e em condições de tamanha anormalidade que só pode constituir um monumental equívoco democrático.

    Dito isto, que é tudo verdade, é preciso dizer também que seria um gravíssimo erro esconder as responsabilidades maiores dos credores por trás das responsabilidades do Syriza e da sua liderança. Desde logo, convém recordar que as "instituições" são responsáveis por terem imposto à Grécia e aos seus sucessivos governos uma política de austeridade errada e absolutamente devastadora, que agravou em muito o problema da dívida pública ao mesmo tempo que retirava à economia a capacidade para gerar a riqueza necessária para que essa dívida pudesse ser paga. Nesse ponto - que é o ponto essencial e que deveria inspirar não apenas um acordo mas um acordo diferente - era Tsipras que tinha razão. Sucede que as "instituições" se recusaram sempre a reconhecer o fracasso da política de austeridade e a necessidade de construir uma solução para a dívida pública grega. Pelo contrário, preferiram teimar na fracassada receita austeritária, sempre fiéis à inspiração alemã e correspondendo às inqualificáveis exigências de governos como os de Portugal e de Espanha.

    Em bom rigor, porém, também não foi a insistência na austeridade que impediu a conclusão deste acordo. De facto, não pode contar-se a história destas tumultuosas negociações ignorando um facto essencial: no início da semana passada, o Governo grego apresentou uma proposta que foi efusivamente saudada pelos parceiros europeus como "credível" e em que Tsipras cedia praticamente em toda a linha (a ponto de deixar em risco a sua própria sobrevivência política). Como aqui escrevi há oito dias, quando ainda subsistia a esperança num acordo, "depois de todas as cedências feitas pelo Governo grego, já não será possível responsabilizar o Syriza pelo falhanço das negociações". Foi o que escrevi e mantenho. Está por explicar a razão pela qual essa proposta, dita "credível", não chegou, aos olhos do FMI e das "instituições", para servir de base a um acordo que poupasse a Grécia e a zona euro ao cenário de catástrofe que agora se anuncia.

    A verdade é que, do princípio ao fim, a "linha dura" fez tudo o que estava ao seu alcance para impedir um acordo que pudesse legitimar a afirmação de uma alternativa ao pensamento dominante. Conseguiu. Aliás, conseguiria sempre. Porque sempre teve a faca e o queijo na mão.»

13 comentários :

Anónimo disse...

Selecção fotográfica maravilhosa! De almanaque! Parabéns ao CC.

Anónimo disse...

http://reseauinternational.net/lue-na-pas-dargent-pour-la-grece-mais-a-11-milliards-deuros-pour-un-pays-non-membre-lukraine-victoria-nuland-avait-eu-raison-fk-the-eu/

Anónimo disse...

O PS continua neste número de ser contra o Syriza, contra o senso comum pragmatico como diz o Zizec, simplesmente porque se dá o flanco teme ser comido pelo BE. Ora nada poderia ser menos verdade, se o PS com subtileza é certo, tivesse a coragem de apoiar a postura de confrontação com os status quo neo liberal europeu, tiraria espaço ao BE e conquistaria votos. É que o povo já entendeu que esta trampa a continuar não leva a lado nenhum e não vai lá com paninhos quentes do centrão! Na realidade a cobardia do Segurismo fez o seu caminho na cabeça de muita gente dentro do PS caso contrário esse crápula não teria sido "líder" do partido durante tanto tempo!!! Enquanto adoptarem esta postura de boi sentado com conversa para boi dormir, nada na Europa se há de resolver a favor de Portugal. E terão a votação que merecem . Uma desilusão este artigo do Silva Pereira. Uma no cravo e outra na ferradura.

Miguel Abrantes disse...

Ao leitor sex jul 03, 02:49:00 da tarde

Muito obrigado.

Anónimo disse...

A cobardia do segurismo (paz à sua alma) tem agora continuidade no hiper-centrismo militante e poltrão do Dr. Francisco Assis. Uma tristeza.

Anónimo disse...

Sempre quero ver como é que o BE e o PCP vão explicar ao eleitorado que a receita do Alex é aquela que eles gostariam de servir ao povoléu.

Fala-se que a direita quer aproveitar a Grécia para atacar o PS - e é verdade - mas ninguém diz que se aquilo rebenta o pessoal da esquerda dura vai ter alguma dificuldade em dizer que aquilo é que é bom e é o que querem por cá.

Em todo o caso, ganhe o sim ganhe o não os desgraçados dos gregos vão ver-se gregos. Se ganha o sim todos percebem que lhes partiram a espinha. Se ganhar o não têm dois aninhos seguros de miséria contada.



Anónimo disse...

O senhor deputado Silva Pereira identifica correctamente o que esteve em causa, ou seja, derrubar o governo legítimo da Grécia. É a democracia que está em causa e desde há muito, na Europa. A pergunta que deixo é: o que é que sr. deputado Silva Pereira está disposto a fazer em relação a isso? E o PS? O governo Syriza colocou a cabeça no cepo para defender a solução que considera a que melhor serve os interesses da Grécia e da Europa unida e é bem provável que a perca. O que estão os senhores dispostos a arriscar?

Anónimo disse...

O retrato de uma associação de malfeitores!
όχι, no, non, nein, NÂO!!!

Antonio Lourenço disse...

È por isso que o PS não descola nas sondagens tem de tudo uma posição dúbia. E Caro Silva Pereira se recuasse no tempo talvez até Olaf Palm veria que o Syriza não é tão radical assim. Não é terceira via não senhor como os modernos socialistas são agora Por isso não ganham eleições e estão a desaparecer na Europa como alternativa.

Olimpico disse...

O pcp e Be, colocaram-se junto ao gang para derrubar o PS, e agora, pedem o impossível a Antonio Costa. Eu sei que o povo grego, jogou uma cartada perigosa, dentro do seu desespero...com SIM OU NÃO, Esta Europa de Rapazolas ,vai ter que aguentar a Grécia, no Euro e na Europa, ainda por algum tempo. ( Os Americanos, estiveram nas Lages muito tempo...)

Anónimo disse...

A posição do PS é do NIN.

Ouvem-se vozes, mas parece que o assunto da Grécia é tabu.

Erro evidente.

Infelizmente.

Zé_Lucas disse...

“Go to Old Delhi,and look at the way they keep chickens there in the market. Hundred of pale hens and brightly colored roosters, stuffed tightly into wire-mesh cages. They see the organs of their brothers lying around them.They know they are next, yet they cannot rebel. They do not try to get out of the coop. The very same thing is done with humans in this country.”
― Aravind Adiga, The White Tiger

Nialrebmahc Elliven disse...



Sempre teve a faca e o queijo na mão?


Sim. Até ao momento em que a espada lhe decepou a mão.


Percebes, Pasóquio?


- OXI.