terça-feira, abril 17, 2007

Exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez


ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Lei n.º 16/2007
de 17 de Abril

Exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez

A Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da Constituição, o seguinte:

Artigo 1.º
Alteração do Código Penal

O artigo 142.o do Código Penal, com a redacção que lhe foi introduzida pelo Decreto-Lei n.º 48/95, de 15 de Março, e pela Lei n.o 90/97, de 30 de Julho, passa a ter a seguinte redacção:

«Artigo 142.º
[. . .]



1 — Não é punível a interrupção da gravidez efectuada por médico, ou sob a sua direcção, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mulher grávida, quando:
a) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
b) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
c) Houver seguros motivos para prever que o nascituro virá a sofrer, de forma incurável, de grave doença ou malformação congénita, e for realizada nas primeiras 24 semanas de gravidez, excepcionando-se as situações de fetos inviáveis, caso em que a interrupção poderá ser praticada a todo o tempo;
d) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
e) For realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas de gravidez.

2 — A verificação das circunstâncias que tornam não punível a interrupção da gravidez é certificada em atestado médico, escrito e assinado antes da intervenção por médico diferente daquele por quem, ou sob cuja direcção, a interrupção é realizada, sem prejuízo do disposto no número seguinte.

3 — Na situação prevista na alínea e) do n.o 1, a certificação referida no número anterior circunscreve-se à comprovação de que a gravidez não excede as 10 semanas.

4 — O consentimento é prestado:
a) Nos casos referidos nas alíneas a) a d) do n.o 1, em documento assinado pela mulher grávida ou a seu rogo e, sempre que possível, com a antecedência mínima de três dias relativamente à data da intervenção;
b) No caso referido na alínea e) do n.o 1, em documento assinado pela mulher grávida ou a seu rogo, o qual deve ser entregue no estabelecimento de saúde até ao momento da intervenção e sempre após um período de reflexão não inferior a três dias a contar da data da realização da primeira consulta destinada a facultar à mulher grávida o acesso à informação relevante para a formação da sua decisão livre, consciente e responsável.

5 — No caso de a mulher grávida ser menor de 16 anos ou psiquicamente incapaz, respectiva e sucessivamente, conforme os casos, o consentimento é prestado pelo representante legal, por ascendente ou descendente ou, na sua falta, por quaisquer parentes da linha colateral.

6 — Se não for possível obter o consentimento nos termos dos números anteriores e a efectivação da interrupção da gravidez se revestir de urgência, o médico decide em consciência face à situação, socorrendo-se, sempre que possível, do parecer de outro ou outros médicos.

7 — Para efeitos do disposto no presente artigo, o número de semanas de gravidez é comprovado ecograficamente ou por outro meio adequado de acordo com as leges artis.»

Artigo 2.º
Consulta, informação e acompanhamento

1 — Compete ao estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido onde se pratique a interrupção voluntária da gravidez garantir, em tempo útil, a realização da consulta obrigatória prevista na alínea b) do n.º 4 do artigo 142.º do Código Penal e dela guardar registo no processo próprio.

2 — A informação a que se refere a alínea b) do n.º 4 do artigo 142.º do Código Penal é definida por portaria, em termos a definir pelo Governo, devendo proporcionar
o conhecimento sobre:
a) As condições de efectuação, no caso concreto, da eventual interrupção voluntária da gravidez e suas consequências para a saúde da mulher;
b) As condições de apoio que o Estado pode dar à prossecução da gravidez e à maternidade;
c) A disponibilidade de acompanhamento psicológico durante o período de reflexão;
d) A disponibilidade de acompanhamento por técnico de serviço social, durante o período de reflexão.

3 — Para efeitos de garantir, em tempo útil, o acesso efectivo à informação e, se for essa a vontade da mulher, ao acompanhamento facultativo referido nas alíneas c) e d) do número anterior, os estabelecimentos de saúde, oficiais ou oficialmente reconhecidos, para além de consultas de ginecologia e obstetrícia, devem dispor de serviços de apoio psicológico e de assistência social dirigidos às mulheres grávidas.

4 — Os estabelecimentos de saúde oficiais ou oficialmente reconhecidos onde se pratique a interrupção voluntária da gravidez garantem obrigatoriamente às mulheres grávidas que solicitem aquela interrupção o encaminhamento para uma consulta de planeamento familiar.

Artigo 3.º
Organização dos serviços

1 — O Serviço Nacional de Saúde deve organizar-se de modo a garantir a possibilidade de realização da interrupção voluntária da gravidez nas condições e nos prazos legalmente previstos.

2 — Os estabelecimentos de saúde oficiais ou oficialmente reconhecidos em que seja praticada a interrupção voluntária da gravidez organizar-se-ão de forma adequada para que a mesma se verifique nas condições e nos prazos legalmente previstos.

Artigo 4.º
Providências organizativas e regulamentares

1 — O Governo adoptará as providências organizativas e regulamentares necessárias à boa execução da legislação atinente à interrupção voluntária da gravidez, designadamente por forma a assegurar que do exercício do direito de objecção de consciência dos médicos e demais profissionais de saúde não resulte inviabilidade de cumprimento dos prazos legais.

2 — Os procedimentos administrativos e as condições técnicas e logísticas de realização da interrupção voluntária da gravidez em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido são objecto de regulamentação por portaria do Ministro da Saúde.

Artigo 5.º
Dever de sigilo

Os médicos e demais profissionais de saúde, bem como o restante pessoal dos estabelecimentos de saúde, oficiais ou oficialmente reconhecidos, em que se pratique a interrupção voluntária da gravidez, ficam vinculados ao dever de sigilo profissional relativamente a todos os actos, factos ou informações de que tenham conhecimento no exercício das suas funções, ou por causa delas, relacionados com aquela prática, nos termos e para os efeitos dos artigos 195.º e 196.º do Código Penal, sem prejuízo das consequências estatutárias e disciplinares que no caso couberem.

Artigo 6.º
Objecção de consciência

1— É assegurado aos médicos e demais profissionais de saúde o direito à objecção de consciência relativamente a quaisquer actos respeitantes à interrupção voluntária da gravidez.

2— Os médicos ou demais profissionais de saúde que invoquem a objecção de consciência relativamente a qualquer dos actos respeitantes à interrupção voluntária da gravidez não podem participar na consulta prevista na alínea b) do n.º 4 do artigo 142.º do Código Penal ou no acompanhamento das mulheres grávidas a que haja lugar durante o período de reflexão.

3 — Uma vez invocada a objecção de consciência, a mesma produz necessariamente efeitos independentemente da natureza dos estabelecimentos de saúde em que o objector preste serviço.

4 — A objecção de consciência é manifestada em documento assinado pelo objector, o qual deve ser apresentado, conforme os casos, ao director clínico ou ao director de enfermagem de todos os estabelecimentos de saúde onde o objector preste serviço e em que se pratique interrupção voluntária da gravidez.

Artigo 7.º
Revogação

São revogadas as Leis n.ºs 6/84, de 11 de Maio, e 90/97, de 30 de Julho.

Artigo 8.º
Regulamentação

O Governo procede à regulamentação da presente lei no prazo máximo de 60 dias.

Aprovada em 8 de Março de 2007.

O Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama.

Promulgada em 10 de Abril de 2007.

Publique-se.

O Presidente da República, ANÍBAL CAVACO SILVA.

Referendada em 10 de Abril de 2007.

O Primeiro-Ministro, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

12 comentários :

Anónimo disse...

Há-de convir que esta lei interessa mais aos aplicadores do direito, do que ao comum dos mortais, independentemente da alteração profunda que a mesma vai provocar, assim que esteja regulamentada.

Serve isto para dizer que os comentadores anónimos do seu blog, estão muito mais dependentes e pendurados dos pormenores "picantes" e "apimentados" da conferência de imprensa da UI e dos comunicados do gabinete do PM, do que da análise deste diploma legal que para tais cabeças pensantes é um dejá vu.
Assim, não se admire da existência de uma migração temporária deste público para outros blogs, porque para muitos a sobrevivência Estado direito e tablóidismo andam de braço dado.

E quanto ao abominável homem das Neves, já o conhecem de ginjeira e não o levam a sério. E hoje que, logo por azar, o Miguel não lhes dá tema para enxertarem ainda que seja a ferros aquilo a que Paula Teixeira da Cruz na SIC- N, chamou de "filme de terror"...

Anónimo disse...

Fogo, foi preciso o PS ganhar de novo para Portugal sair da idade média e ter uma porra duma lei do aborto, caraças.
AMAZING!!! É INACREDITÁVEL, MAS É VERDADE!!
Edie Falco

Miguel Abrantes disse...

Caro James:


Hoje não ouvi a SIC-N.

Anónimo disse...

Caro Miguel:

Não perdeu nada de interessante: Helena Roseta versus PTC.

O tema: aquele que tanto obceca o Mário Crespo entremeado com outras "vulgaridades" da vida nacional.

Anónimo disse...

Infelizmente este governo xuxa cede à esquerda o que esta tem de pior:falta de valores morais e de respeito pela vida; e cede à direita o que esta tem de pior: a selva do liberalismo económico onde prevalece o mais forte e os mais fracos são explorados sem um mínimo de solidariedade social. E quando o Estado intervém é para encher ainda mais os bolsos aos ricos em detrimento dos pobres e remediados(OTA E TGV, por exmplo).
Bem merece mais um mandato este governo num país de cegos.

Anónimo disse...

O comentário acima, ao descrever a forma de actuação deste governo, resumiu as razões que sustentam a base eleitoral de Sócrates.... é que quando este consegue fazer a mágica acima descrita, de juntar dois mundos díspares.... tem o meu voto.

Edie Falco

Anónimo disse...

Só com o PS são possiveis esta e outras conquistas de GRANDE alcance social. O País democratico deve muito ao PS. Espero que este grande partido continue firmente, com o Eng. SOCRATES, a lutar por um Portugal melhor.

Anónimo disse...

Só com o PS são possiveis esta e outras conquistas de GRANDE alcance social (Como a comparticipação na prevenção do cancro colo do útero). O País democratico deve muito ao PS (quanto é essa divida? É mais de 6% do PIB? que é...mais ou menos... isso). Espero que este grande partido continue firmente, com o (mais ou menos Eng.) SOCRATES, a lutar por um Portugal-Espanhol (ajudado pelo Mario Lino) melhor (Para alguns que daqui a uns dias vão para uma bela empresa pública acabar a sangria ou como o gajo da Iberdrola que me parece que é do PS).

Anónimo disse...

Sócrates não vai ficar na História.
Parece-me indiscutível.
Não por ser um vigarista.
Mas por ser um vigaristazito.
Falta-lhe dimensão.
Se ele todo fosse nariz...

Anónimo disse...

Ainda estou para perceber essa pancada contra os espanhóis.

Edie Falco

Anónimo disse...

Foi essa merda de 1580-1640...

Anónimo disse...

Vamos lá ver se consigo explicar ao Sr. o que temos contra os espanhois:

Quando levantamos questões sobre a a implementação de empresas espanholas em Portugal (por exemplo a Pescanova, que não podia ser em Espanha por ser em reserva ecológica mas podia ser numa reserva ecológica portuguesa) somos proteccionistas. Mas se for uma empresa Poruguesa a tentar a sua sorte em Espanha, não pode porque os Espanhois têm de defender o seu comércio interno e fazemos concorrência desleal.
Faço lembrar o que se passou e passa com a via-verde, quando se tentou vender um sistema fantastico e 100% operacional aos restantes paises da europa (principalmente Alemanha, Espanha e França)a resposta foi que as novas tecnologias têm vir do centro da Europa para a periferia e não o contrário.

Isto para não falar dos transvases de rios internacionais, os seus hermanos desviam os leitos dos rios a seu belo prazer e dentro de pouco tempo se a água da torneira parecer chocolate não se queixe.

Para não falar da questão secular de Olivença.

Se os Espanhois de Madrid prestassem as regiões espanholas não reclamavam autonomia.

Chega?