sábado, abril 28, 2007

O cardeal que provoca claustrofobia — peça em três actos


A. van Dyck, Cardinal Bentivoglio (1622-1623)


I

O Tal & Qual trazia ontem em manchete que Jorge Neto, deputado do PSD, se desdobra por 13 empregos (salvo erro). Porém, o ex-delfim de Cunhal é o único que se arrasta(va) pelos Passos Perdidos a soldo de interesses privados. Entretanto, o PSD considera inaceitável que o registo de interesses dos deputados, que consta da proposta de António José Seguro para a reforma do funcionamento do Parlamento, passe a estar disponível no site da Assembleia da República.

II

Pacheco Pereira, na última Quadratura do Círculo, não negou que o PSD fizesse pressões sobre os media, mas desvalorizou a coisa, apelidando-a do controlo “tradicional” que todos os partidos procuravam fazer.

Portanto, a “tradição”, quando o PSD se alçava ao poder, era substituir os conselhos de administração da RTP e da RDP, proibir os jornalistas de cirandar pelo Parlamento (como aconteceu quando Pacheco Pereira era líder da bancada parlamentar “social-democrata”) e fazer os alinhamentos dos telejornais, como ainda há dias recordou Maria João Seixas no programa “Um Outro Olhar” [Antena 2, 20 de Abril de 2007]:

    “No tempo em que o Dr. Marques Mendes tinha a pasta da comunicação social, eu acompanhava de perto a vida da RTP e vim a saber da disponibilidade de jornalistas e gestores para telefonemas que determinavam a agenda dos telejornais.”

A tradição já não é efectivamente o que era: este governo teve a ousadia de não substituir o conselho de administração da RTP e, mais grave ainda, manter em funções os directores de informação e de programas nomeados pela coligação PSD/CDS.

III

A comunicação social é, hoje em dia, dominada por três grupos económicos, para além de umas pérolas soltas, também elas na dependência de grupos económicos (Público/Sonae e Sol/BCP). Os investimentos de um novo grupo (que tem títulos com a credibilidade do El Pais) deixaram a direita à beira de um ataque de nervos. A nomeação de Pina Moura para presidente (não executivo) da Media Capital foi um pretexto que caiu do céu. E a direita anda demasiado alvoraçada para olhar para si própria, como esta pequena amostra põe em relevo:

    • Francisco Pinto Balsemão, o “militante n.º 1”, preside Impresa e à Controljornal e, estando há muito desligado da política, tem um divertido hobby para se entreter: coordena a revisão do programa do PSD;

    • Gonçalo Reis era deputado do PSD quando, em 2002, foi nomeado, pelo governo do PSD/CDS, administrador da RTP, cargo em que se mantém;

    • Agostinho Branquinho é deputado e porta-voz do PSD para a área da comunicação social, tendo igualmente um hobby para aliviar as agruras de ter de se deslocar de vez em quando a Lisboa: é sócio-gerente da agência de comunicação Nortimagem;

    • Paulo Portas, que ontem se mostrou muito impressionado com a escolha de Pina Moura por parte de um grupo privado, foi (depois de ter sido director do semanário O Independente) nomeado administrador da SOCI, empresa do Grupo Media Capital, precisamente quando foi eleito deputado em 1995;

    • Luís Nobre Guedes, que já se mostrou disponível para voltar à política activa com Paulo Portas, foi sócio e presidente do conselho de administração da SOCI, era actualmente presidente da assembleia geral do Grupo Media Capital e é ainda dono de várias rádios;

    • Roberto Carneiro, ex-ministro da Educação, assumiu sem sobressaltos de maior a presidência da empresa que detinha a TVI;

    • Pedro Santana Lopes, governante e deputado (cá e lá fora), fundou um grupo de comunicação social, levou-o à falência, reincidiu nos media, dirigindo uma revista premonitória chamada PM, reapareceu como governante, deputado ou autarca, e anda por aí;

    • Marcelo Rebelo de Sousa já foi quase tudo na política e na comunicação social: presidente do PSD, vereador, presidente da assembleia municipal, deputado, governante, conselheiro de Estado, candidato a primeiro-ministro, ex-futuro primeiro-ministro, candidato a candidato à presidência da República, fundador e director do Expresso, fundador e director do Semanário, animador dos serões dominicais e militante do PSD;

    • José Ribeiro e Castro, fundador, militante e ex-presidente do CDS, andou sempre pela política, como governante ou deputado (cá e lá fora), e pela comunicação social, tendo sido vogal do conselho de administração de O Primeiro de Janeiro (1984/86), membro do conselho editorial da revista Sábado (1988/89), vogal e, mais tarde, presidente da comissão de fiscalização da RTP (1988/91) e vogal do Conselho de Opinião da RTP (2004/05), assim como, no âmbito da TVI, foi da Direcção (1991/92), coordenador dos Serviços Jurídicos (1992/94), Director de Informação (1994/95), assessor do Presidente (1996) e Administrador (1997/98).

É claro que o “caso” Pina Moura não tem nada a ver com estas situações. Como poderia ter? Eles são eles, os outros são os outros. Eles são os donos disto. Aliás, já os seus pais o eram. Como é que alguém pode não entender algo tão óbvio? Só por má-fé, é evidente.

PS — Muito se tem preocupado a nossa simpática direita com a “nomeação” (!!!) de Pina Moura para a TVI. Dêmos-lhes o necessário desconto por confundirem uma nomeação política com uma escolha empresarial. Façamos de conta, ainda, que percebemos a sua preocupação com a eventual futura influência do PS nos média, pois a situação ideal seria, ao que parece, de influência zero no caso do PS e de pluralismo das influências no que aos restantes partidos ou ideologias diz respeito.

Mas não escondamos a nossa verdadeira preocupação: que Pina Moura se possa esquecer de onde vem.

11 comentários :

Coragem disse...

Simplesmente fabuloso.

GPC disse...

Excelente. Um exemplo do valor elucidativo que a blogosfera pode ter.

Anónimo disse...

Muito bom - é pena é que se queira comparar o mau (todos os casos citados) com o pior (um mau gestor, com conhecimentos de controleiro do PC, que vai especificamente para um lugar para fazer um frete ao PS).

Ou isto da moralidade, só porque os outros fizeram mal, permite que os outros façam pior?

Núncio disse...

O problema é sempre o mesmo: o que achamos mal nos "outros", não nos repugna nos "nossos".
A conclusão lógica e intelectualmente honesta do inventário aqui feito - e que tenho por correcto e pertinente - era entender que, tal como os "outros" que vêm referidos, também agora "estes" querem controlar a comunicação social. "Bem prega Frei Tomaz, faz o que ele diz, não faça o que ele faz..."

Anónimo disse...

Na lista, houve um esquecimento de envergadura.
Não lhe chamarei cardeal mas sim eminencia: trata-se do inefavel Luis Delgado, nomeado administrador da Lusa e, em simultaneo, comentador politico.

Só não vê quem não quer...

Anónimo disse...

Chama-lhe puta antes que te chame a ti.

cínico disse...

É assim como um concílio no Vaticano...

Anónimo disse...

A desfaçatez da direita não dá lugar a tréguas... há que se responder com violência aos ataques DEMAGÓGICOS e a REPETIÇÃO DOS SOUNDBYTRES QUE MINAM... essa tática Maoista foi já utilizada várias vezes pelo PSD e deu resultado... CONSEGUIRAM DESTRUIR GUTERRES.... NÃO SE PODE DAR TRÉGUAS A ESTA ESCUMALHA... E já agora... o deputado Rangel é ridículo com o seu arzinho de menino que pensa que fez o trabalho de casa... uma figura insignificante dessas é o que o PSD tem para propor como "futuro"...
Realmente, é de emigrar...

MAS VAMOS RESISTIR!!!!

LOAS AO LÍDER DE PORTUGAL!!!

FALTA POUCO PARA A 2ª MAIORIA!!!!

Edie Falco

Anónimo disse...

Aié!? Os outros também o fazem!? Então tá bem! Tudo tá bem, desde que todos o façam.

Moral da história do CC: não há moralidade, mas, ao menos, comem todos.

Fernando de Bulhão disse...

Tristes,
Receiam que o PS vá controlar a TVI e não vêem que é o Grupo Bilderberg através do homólogo do Balsemão, Cebrían que vai controlar ainda mais a política "portuguesa". E esta, hem?

Anónimo disse...

O Luís Delgado foi administrador da PT Multimédia. Aliás, conseguiu vender o seu jornal digital à PT do inefável Horta e Costa.
Quanto ao Ribeiro e Castro, fiquem a saber que o alinhamento das primeiras páginas do «PJ» era, então, feito em Lisboa. Aliás, julgo que no II Congresso dos Jornalistas, o então chefe de Redacção, Costa Carvalho, colocou no ar gravações das conversas entre Ribeiro e Castro e o director, António Freitas Cruz.