segunda-feira, agosto 31, 2015

Viagens na Minha Terra

A vitória da culpa

Expresso, edição de 29 de Agosto
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«"Passos recusa debate sem Portas"
- isto é tão Big Brother, "se a Andrea sair eu saio!"»


• João Quadros, Abater os debates:
    «(…) O CDS do vice-PM deixou de ter identidade, o que - em termos psiquiátricos - era expectável depois de Portas ter sido do partido da lavoura, do mar, dos reformados, da troika, dos desempregados, dos patrões, dos etc. Ninguém aguenta sem um esgotamento, e o PP de Portas acabou por ter uma crise de personalidade e, agora, pensa que é do PSD. Nunca se viu um CDS tão fundido no PSD mas, chegados ao tema debates, querem ser duas cabeças. Mas a verdade é que a insistência é mais de Passos do que de Portas. Esperto.

    Esta semana, a grande notícia era: "Passos recusa debate sem Portas" - isto é tão Big Brother, "se a Andrea sair eu saio!". Nesta situação, quem é que passa por cavalheiro? A Andrea ou o Passos? Na realidade, Passos balda-se ao duelo para defender a honra da dama, é todo um novo conceito de romantismo. Esperava-se que Passos fosse lá e valesse por dois, enquanto Portas esperava junto à lareira no convento. Dir-se-ia, pelo que se lê nos jornais, que é esse o seu estilo, mas não. Na verdade, onde se nota uma das característica de Passos é no facto de também não ter conseguido abrir a porta dos debates ao Portas. Já na Tecnoforma acabou por ser assim. (…)»

quinta-feira, agosto 27, 2015

Emporcalhar-se no pote com Cavaco a assistir


Anteontem no Jornal de Notícias

Este artigo ou este contextualizam o que está em causa em mais uma transacção das arábias. Mas isto inspira quatro breves notas:
    O POTE — A direita continua numa corrida desenfreada ao pote como se não houvesse amanhã.

    A GRANDE SONDAGEM — Este comportamento revela que a coligação de direita já interiorizou que, a 4 de Outubro, o seu destino está traçado.

    O ESTADO DE DIREITO — A forma despudorada como o Governo de Passos & Portas actua faz crer, até aos mais distraídos, que está em causa «o regular funcionamento das instituições democráticas».

    O PRESIDENTE DA REPÚBLICA — Se é verdade que Passos Coelho meteu o Presidente da República no bolso, ao permitir-lhe um segundo fôlego na sequência das demissões de Vítor Gaspar e Paulo Portas no Verão de 2013, não menos verdade é que, desde que assumiu funções públicas em 1980, Cavaco Silva sempre pôs os seus interesses pessoais acima de quaisquer outros, pelo que a sua completa inacção perante os desmandos dos pantomineiros é um mistério maior que os segredos de Fátima.

Maduro chamado à cabine de som


    «(…) Nesta altura do quadro financeiro plurianual 2014-2020, em que os projectos necessitariam de estar consolidados e resultarem de estudos técnicos e económicos rigorosos, altamente “blindados” a inconformidades, de modo a sustentarem as candidaturas elegíveis, a lista publicada revela que, em antecipação, não foi feito o trabalho de casa. (…)»

quarta-feira, agosto 26, 2015

«Investimento público do bom», segundo Portas


«O que aqui está em causa é, aliás, quero chamar a atenção, investimento público do bom, no sentido [de] que é investimento público produtivo» (vídeo), disse ontem Paulo Portas, ao visitar as 14 empreitadas de obras de infra-estruturas em curso no Alqueva.

A conclusão do projecto, inicialmente prevista para 2025, foi revista pelo Governo de José Sócrates para 2015 e, depois, antecipada para 2013. Cerca de dois meses após ter tomado posse, o actual governo, através da inefável Assunção Cristas, anunciou que as obras seriam adiadas.

De súbito, possivelmente após uma nova negociação dos contratos das empreitadas, as obras foram retomadas. Prestes a serem concluídas, e com eleições à porta, Paulo Portas, acompanhado por Assunção Cristas, descobriu que se trata de um «investimento público do bom». Só não se lembrou de dizer que foi promovido pelo Governo de José Sócrates.

Cassete contrafeita


É impressão minha ou Durão Barroso, ao dar uma versão distinta da origem da crise do euro, desmontou a tanga que Passos Coelho e Paulo Portas vêm repetindo há quatro anos, e que Maria Luís Albuquerque despejou, uma vez mais, na «universidade» de Verão do PSD? A esta hora, os meninos da JSD deverão estar completamente confundidos.

Maria Luís: — Não li e não gostei.


Maria Luís Albuquerque, cabeça de lista da coligação de direita por Setúbal, foi à «universidade» de Verão do PSD lançar falsidades sobre o programa eleitoral do PS. Com receio de ser questionada sobre algum aspecto específico do programa, disse à cautela: «O programa todo não li. Li algumas coisas daquilo que são os documentos que o PS tem vindo sucessivamente a publicar e alguns comentários sobre os mesmos».

Para elucidar a pobre senhora, os economistas do PS que elaboraram o cenário macroeconómico não a poderiam convidar para uma sessão de esclarecimento ou vão deixá-la continuar a mentir a torto e a direito, no pressuposto de que não será objecto de contraditório?

O impostor de 2011 regressa em 2015

Votaram ao engano 2.159.742 portugueses
Quatro anos depois, Portugal não pode mais

Canal no Youtube de Luís Vargas (mais no Twitter)

«A produtividade que precisamos
não é a que resulta da redução do salário,
mas do aumento do valor produzido»

Terceira carta do secretário-geral do PS destaca conhecimento e inovação

• António Costa, O conhecimento e a inovação são a chave do desenvolvimento:
    «Nestas eleições, temos uma decisão de fundo a tomar sobre o nosso modelo de desenvolvimento: aceitamos, como a direita defende, que só com empobrecimento e precariedade seremos competitivos ou, em alternativa, batemo-nos por um modelo que investe no conhecimento e na inovação como a chave do desenvolvimento?

    Os nossos setores económicos tradicionais são mesmo o bom exemplo do rumo certo para alcançarmos os resultados desejados. Quando foram considerados sem futuro, que fizeram? Prosseguiram a estratégia de reduzir custos com recurso à mão de obra infantil e à contrafação? Não, não fizeram isso. Pelo contrário! Apostaram na inovação, na qualificação da gestão, na diferenciação dos seus produtos, competindo pelo valor acrescentado. E assim se modernizaram importantes setores no calçado, no têxtil, no agroalimentar ou na metalomecânica.

    A cultura, a ciência, a educação e a formação ao longo da vida são os pilares da sociedade do conhecimento, garantia de uma cidadania ativa, condição da capacidade para enfrentar as incertezas do futuro, habitat natural de uma economia empreendedora, criativa, inovadora e que se internacionaliza.

    Para crescer, temos de recuperar competitividade. A direita defende que é empobrecendo coletivamente, reduzindo salários, eliminando direitos laborais, privatizando o estado social, diminuindo os impostos sobre as empresas, que seremos competitivos. O resultado desta estratégia está à vista. Regredimos a 2002 no PIB, a 1990 no investimento… E mesmo as tão faladas exportações limitaram-se a evoluir em linha com o período 2005/2008 e graças a investimentos decididos antes de 2011.

    Não podemos prosseguir esta trajetória de retrocesso. O nosso caminho é o da inovação e inovar exige investimento no conhecimento. Esta é a primeira grande opção sobre o modelo de sociedade em que queremos viver. Porque esta opção tem consequências várias, por exemplo, na visão sobre o mercado de trabalho ou na fiscalidade. Não há empresas inovadoras assentes na precariedade. Inovação exige investir na qualificação e na formação ao longo da vida dos trabalhadores. A precariedade é o incentivo errado. A produtividade que precisamos não é a que resulta da redução do salário, mas do aumento do valor produzido. Temos de realinhar os incentivos: em alternativa à redução indiscriminada do IRC ou da TSU, devemos ser seletivos, concentrando os incentivos nos investimentos em inovação e no combate à precariedade laboral.

    Por isso, o que é prioritário? Promover a cultura e a ciência, combater o insucesso escolar e garantir os 12 anos de escolaridade, apostar na educação de adultos e na formação ao longo da vida, valorizar o ensino superior, investir em centros tecnológicos e no emprego massivo de jovens licenciados na modernização do tecido empresarial, apoiar a capitalização das empresas, o empreendedorismo, a internacionalização.

    Queremos travar o êxodo dos jovens mais qualificados? Queremos aumentar a natalidade? Apostemos na inovação, pois só assim teremos emprego de qualidade. Ao contrário do que a direita pensa, as reformas que precisamos no mercado de trabalho não são as que nos permitem competir pela pobreza, mas sim as que nos permitem travar o êxodo migratório dos jovens, com emprego digno, que atraia, fixe e dê confiança no futuro às novas gerações.

    Esta é a primeira opção de fundo que temos de fazer nestas eleições. A minha escolha é clara e é essa que vos proponho. Defendo um modelo de desenvolvimento assente no investimento no conhecimento e na inovação e no combate à precariedade e ao empobrecimento

Que balanço faz destes quatro anos da Justiça?

terça-feira, agosto 25, 2015

Quem tem medo dos debates?


• Pedro Silva Pereira, QUEM TEM MEDO DOS DEBATES?:
    «A "birra" que Passos Coelho e Paulo Portas resolveram fazer por causa dos debates é absolutamente lamentável do ponto de vista democrático e só revela uma coisa: o medo que os partidos do Governo têm de serem confrontados pela oposição com o dramático retrocesso económico e social que o País teve nos últimos quatro anos.

    Convém recordar três factos que eliminam todas as dúvidas.

    O primeiro facto é este: o problema da participação dos líderes partidários coligados nos debates pré-eleitorais não tem nenhuma novidade e está mais do que resolvido por um sólido e bem estabelecido precedente. Desde há muitos anos que em TODAS as eleições - legislativas, europeias e autárquicas - se apresentam a votos coligações pré-eleitorais de dois ou mais partidos (CDU, Aliança Portugal, AD, FRS...). Como toda a gente sabe, e Passos e Portas também, o precedente quanto à participação das coligações nos debates, por uma questão óbvia de igualdade entre as candidaturas, é que as coligações participam nos debates através de um único representante (normalmente o líder do maior partido da coligação).

    Basta um certo sentido do bom senso para perceber que não podia ser de outra maneira. Dado que os eleitores são chamados a escolher entre candidaturas partidárias (de partidos isolados ou coligados) não faria nenhum sentido que num debate houvesse duas vozes a argumentar em favor de uma mesma candidatura, enquanto as demais teriam direito a uma única voz - como explicou o PS, seria como se num jogo de futebol uma equipa jogasse com onze jogadores e a outra com o dobro! Acresce que se fosse admitido esse novo princípio de que todos os partidos com assento parlamentar integrantes de uma coligação têm direito a participar nos debates, então amanhã, em coligações de três ou mais partidos, poderíamos ter debates ainda mais desigualitários, com uma mesma candidatura representada por três ou mais representantes enquanto as outras permaneceriam resumidas a um único representante. Como toda a gente compreende, não pode ser assim. E os primeiros a compreendê-lo são os próprios Passos e Portas, que bem recentemente se coligaram nas eleições europeias e nessa altura nem sequer lhes ocorreu que Paulo Rangel fosse para os debates acompanhado por Nuno Melo... Moral da história, não se pode estar coligado apenas quando convém: coligado na contagem dos votos, para beneficiar do sistema eleitoral; separado nos debates, para beneficiar do dobro do tempo de antena.

    O segundo facto é este: se alguma coisa mudou com a recente lei das coberturas eleitorais, aprovada por iniciativa dos próprios partidos da direita, foi no sentido de reforçar este precedente. Na verdade, como muito bem explicou na Assembleia da República o Deputado Telmo Correia, a nova lei garante a participação nos debates dos partidos com assento parlamentar "por candidaturas", o que exclui, como o próprio expressamente reconheceu, o CDS e "Os Verdes", que se integram na candidatura das respetivas coligações.

    Não há, portanto, qualquer dúvida: a "birra" sobre a participação de Portas nos debates não tem nenhum fundamento razoável, seja à luz dos precedentes estabelecidos, seja à luz da nova lei. Porquê, então, esta polémica artificial e, finalmente, a recusa de Passos em participar no debate a quatro?

    A razão está bem evidente num terceiro facto, menos falado nos últimos dias mas bastante revelador: logo no início deste processo, Passos Coelho recusou também, liminarmente, a proposta inicial das televisões para três debates frente a frente com o Secretário-Geral do Partido Socialista, António Costa. Por aqui se vê que a "questão Portas" não passa de um pretexto esfarrapado: desde o início que o objetivo central de Passos Coelho sempre foi fugir aos debates, reduzindo-os ao mínimo indispensável. Certamente, esta atitude diz muito sobre Passos Coelho como democrata. Mas ainda diz mais sobre Passos Coelho como Primeiro-Ministro.»

Assim vai o mundo

Amanhã no diário Le Monde
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«Se o ridículo matasse, vocês estavam arrasados antes das eleições»


Fernando Medina, no Frente a Frente da SIC Notícias, sobre a pretensão de Paulo Portas de participar nos debates eleitorais: «Se o ridículo matasse, vocês estavam arrasados antes das eleições

segunda-feira, agosto 24, 2015

Problemas mal resolvidos num semanário perto de si

Maria Filomena Mónica, com Zita Seabra,
no lançamento de «Eu, Cayetana»
no Estoril Palácio Hotel

Sendo do domínio público que há quem esteja viciado em substituir refeições saudáveis por croissants acompanhados a vodka, não é aceitável que a direcção do Expresso se aproveite dessas situações de aparente fragilidade e as utilize para procurar atingir terceiros. O que Maria Filomena Mónica escreve sobre José Sócrates na última edição do semanário é deprimente para a própria. E é-o para o Expresso, que publica a catarse.

A peça em causa é uma nojeira, mas é sobretudo de uma indigência confrangedora. A colaboradora do Expresso gaba-se de ter levado a cabo uma investigação aprofundada sobre o percurso académico de Sócrates em Paris, envolvendo recursos sofisticados — «motor de pesquisas relativo a teses em curso ou defendidas em França (ABES, theses.fr.)» —, estando em condições de garantir a «um povo analfabeto, aldrabão e parolo» que não há quaisquer vestígios de obtenção de graus académicos.

E para desmontar o alegado embuste do mestrado, Mónica mergulhou de cabeça no mémoire (muito embora umas linhas acima confesse que o procurou afanosamente nas livrarias e não encontrou): «a tortura em países democráticos pode ser analisada num trabalho académico: o que não pode é sê-lo desta forma». A emérita socióloga condescende que a utilização da tortura «é moralmente condenável, mas isso não justifica a inclusão das democracias como países que causam "arrepios"

Saciada, Mena, como é conhecida no meio, fez chegar ao Expresso a alucinada catarse. A direcção do semanário, apesar de ver a baba a escorrer pela prosa, publicou-a. Deveria, ao menos, ter alertado a sua colaboradora de que tinha andado a farejar o mestrado na página dos doutoramentos, para a realização do qual José Sócrates, de resto, já fora admitido depois de concluir o mestrado (como é bem explicado aqui). A orientadora poderá confirmar tudo.

Chegou a vez de os colégios privados se lambuzarem no pote

Escola Secundária de Olhão

Não é preciso fechar as escolas públicas. Basta asfixiá-las, transferindo as verbas da Educação para o sector privado: há 651 novas turmas de colégios que serão financiadas pelo Estado.

Da série "Frases que impõem respeito" [943]


O Governo anda escondido há muito tempo, anda-se a esconder atrás da 'troika' para executar o programa que verdadeiramente queria e pelo qual se bateu tanto para que a 'troika' viesse.

Tem andado a esconder aquilo que é a realidade verdadeira do país, que não se esconde nas estatísticas, ouve-se naquilo que o povo nos diz. E agora quer esconder aquilo que quer fazer a seguir, por isso não mostra as contas do seu programa e esconde a verdade daquilo que se propõe fazer, que é atacar a privatização dos serviços públicos.

PSD/CDS: «esperar que os "likes" e os "shares" façam o seu caminho»

Entrevista de Fernando Moreira de Sá à Visão, em 2013


• José Mendes, A hora dos jornalistas:
    «(…) Neste novo mundo, que de resto já se anunciava há bons anos, os partidos da coligação PSD/CDS assumiram a liderança. Dominam, como nenhuma outra força política em Portugal, as redes sociais, que frequentemente convertem em plataformas de anticampanha, as tais que visam destruir a campanha, tal como nos sugere a física. O perdedor maior é o Partido Socialista, que, a cada tentativa para agendar o debate político que interessa aos portugueses, é de imediato manietado pela ativação da máquina dos partidos do Governo, que logo dispara os seus tweets, posts, SMS, MMS e outras munições no sentido de neutralizar o conteúdo e fazer derivar o foco para o acessório, o pitoresco, o polémico, enfim, o "fait-divers". Depois é dar um empurrãozinho e esperar que os "likes" e os "shares" façam o seu caminho. Lá pelas 20 horas de cada dia, os telejornais darão credibilidade à história. É certo que os próprios socialistas pouco têm ajudado o seu líder, numa espécie de ajuste de contas que, juízos de valor à parte, se joga no momento e no tempo errados. E assim vemos, por exemplo, que a cara que aparece nos cartazes se antecipa no alinhamento noticioso às propostas, às políticas e aos números do desemprego. (…)»

domingo, agosto 23, 2015

Uma campanha tóxica


Manuel Carvalho escreve hoje um artigo no Público, no qual procura mostrar como Passos Coelho, desde que o terrível Ângelo o lançou para estas altas cavalarias, recorreu sempre a campanhas de contra-informação para desgastar os seus adversários (internos e externos). Trata-se de um depoimento relevante, tanto mais que Manuel Carvalho — tendo feito parte, sob o inesquecível comando de José Manuel Fernandes, da direcção do Público que se prestou a assumir a autoria material da abjecta inventona de Belém — terá conhecimento (por dentro) de como estas coisas se fazem.

Recomenda-se a leitura do artigo a todos aqueles que têm uma visão idílica do funcionamento da democracia e se abespinham quando a crispação ocupa o espaço reservado ao debate de boas maneiras. Se se sentem incomodados quando, perante a profunda degradação das condições de vida da maioria da população, se exerce o direito à indignação, ao menos saibam estar à altura de dar resposta a estas manobras subterrâneas palidamente descritas por Manuel Carvalho. Eis o artigo na íntegra, intitulado Uma campanha tóxica:
    «Estamos a um mês e meio das eleições legislativas e António Costa e o PS continuam a lutar em vão para sair do buraco defensivo onde a imparável máquina de comunicação e de contra comunicação do PSD e do CDS os confinou. Os socialistas e o seu líder não perceberam ainda que os seus adversários políticos estão há anos a aprender a usar as redes sociais para armadilhar as campanhas e desta vez estão a conseguir resultados demolidores. Nos casos dos cartazes ou na história dos empregos que serão criados por um eventual governo do PS, bastou o lançamento de rápidas medidas de contra-resposta baseadas em mensagens básicas e potencialmente polémicas para alastrarem pelo Facebook ou pelo Twitter para que os socialistas acabassem acossados por pedidos de desculpas ou em explicações destinadas a conter os danos.

    No final do dia, já ninguém se lembrava das mensagens originais – o que sobrava era a espuma da sua demolição. Há mais de um mês que o PSD e o CDS estão a conseguir abater todas as iniciativas de campanha do PS ainda antes de levantarem voo.

    Bem se sabe que muita da responsabilidade por este estado atarantado e reactivo dos socialistas se deve a um interminável rol de culpas próprias — o caso dos cartazes do desemprego é mais do que “aselhice”, é pura e simples incompetência que, essa sim, merece censura e valoração política. Mas há no geral a ideia de que o PS está a ser arrasado por uma campanha tóxica que dissolve todas as acções de campanha num eficaz batido com os temperos da demagogia, do primarismo argumentativo e da manipulação. O admirável mundo novo de comunicação que começou a ser ensaiado nas primárias do PSD em 2009 e que se qualificou em 2011 chega a estas eleições num formidável grau de aprimoramento.

    Os “marqueteiros” brasileiros, que à custa de cortinas de fumo foram capazes de eleger uma presidente, Dilma Rousseff, sem que ela sequer se tivesse dado ao trabalho de apresentar um programa de governo andam por aí. Depois, na rectaguarda, nos gabinetes dos ministros, concentra-se uma tropa de reserva jovem, frenética, imersa dos pés à cabeça no mundo da net e imbuída de um messianismo que não olha a meios para erigir um país novo. Contra este saber, competência e mobilização, Edson Ataíde parece um aprendiz da idade da pedra e Vieira da Silva ou Ferro Rodrigues locomotivas do tempo do vapor. De pouco adianta fazer contas, gizar programas ou estudar propostas. Eles lá estão para as embrulhar numa fórmula devastadora que as reduzirá a uma anedota, mesmo que para lá chegar seja necessário mentir. Pela primeira vez, estas eleições arriscam-se a ser dominadas pelo império das redes sociais e só o PS e o seu líder (que só há semanas abriu uma conta no Twitter) parecem não ter percebido os impactes deste pouco admirável mundo novo.

    Vejam-se os casos dos cartazes, em especial o que ostentava uma infeliz imagem entre o zen e o profético. A facilidade com que esse cartaz foi ridicularizado pode ser justificada pela sua lamentável falta de gosto, mas para que essa consciência se tivesse generalizado ao ponto de o PS se sentir na obrigação de o retirar foi essencial a colocação nas redes sociais de uma bateria de posts que, pelo seu teor, quase forçavam os utentes do Facebook a gozá-los, a ridicularizá-los e a partilhá-los. Veja-se ainda como o caso das simulações de Mário Centeno sobre os 207 mil empregos foram transformados numa promessa de Costa através da colagem a uma declaração na qual José Sócrates aparecia a prometer 150 mil empregos. Saber o que em rigor foi dito não passou de um vago detalhe da comunicação. À noite, as televisões deliciavam-se a comparar Costa a Sócrates.

    Não precisamos de puxar muito pela cabeça para perceber que esta estratégia baseada no ardil tem tradições e experiência. Vale a pena recordar a reveladora entrevista de Fernando Moreira de Sá a Miguel Carvalho, da Visão, em 2013, no qual este especialista em comunicação explicava como um grupo de bloguers arrolado por Miguel Relvas se entreteve a “derreter” Manuela Ferreira quando foi líder do PSD, como as suas campanhas negras derrotaram Paulo Rangel nas eleições internas que se seguiram ou como trabalharam nos bastidores para levar Passos Coelho ao poder. A sua receita era bem simples e é impossível não a pressentir nestas semanas de arranque das legislativas. “Se deixarmos uma informação sobre o caso Freeport num perfil falso e se ele for sendo partilhado, daqui a pouco já estão pessoas reais a fazer daquilo uma coisa do outro mundo”, notava Fernando Moreira de Sá.

    Antes do debate entre Passos e Paulo Rangel, dizia Sá, “já tínhamos tweets preparados para complicar a vida do Rangel. Nos primeiros minutos começámos a tuitar como se não houvesse amanhã. Ao fim de cinco minutos riamos até às lágrimas! Até opinion makers repetiam o que nós dizíamos”. Convém notar que pelo menos 11 destes operacionais, entre eles o ex-ministro Álvaro Santos Pereira ou o influente deputado Carlos Abreu Amorim, acabaram por ver a sua acção premiada com belos cargos no Governo ou na Assembleia.

    Muitos dirão que aquilo que está a acontecer é uma decorrência lógica do avanço tecnológico e no modo como os cidadãos o ajustam ao seu quotidiano. É também pertinente verificar que, se o PSD e o CDS são muito mais competentes a adaptar-se a este novo mundo e a jogá-lo em favor dos seus interesses, isso só diz bem da sua competência. É verdade, mas apenas e se encararmos as eleições legislativas como um braço de ferro entre inimigos figadais, uma espécie de luta mortal onde só não vale arrancar olhos. O que está em causa, porém, é muito mais do que isso.

    Neste clima propenso ao truque e à redução da política ao grau zero da substância, o PS e António Costa não são as únicas entidades desarmadas pela surpresa e eficácia das realidades artificiais na campanha. Também o jornalismo tem pela frente um árduo desafio neste tempo em que, como muito bem escreveu Paulo Ferreira, no Observador, “os alinhamentos e a edição são, cada vez mais, feitos fora das redacções, em milhões de computadores ligados em rede e têm o ‘like’ como unidade de medida”. A reflexão sobre a pertinência, o interesse público ou a verosimilhança de determinadas informações está a perder-se na maré de posts sobre epifenómenos que são giros e suscitam reacções larvares de recusa e desdém no Facebook. David Pontes deixou no JN o registo dessa dificuldade: “As redacções dos jornais, diariamente bombardeadas por tretas”, vão ter de lidar com um “combate desigual contra um sistema montado para comunicar tretas”. A primeira forma de o travar é encarando-o de frente. Deixar que a campanha soçobre às receitas dos “marqueteiros” e dos seus homens de mão nas redes sociais é péssimo. Vai ser um combate feio, mas não se pode recusá-lo.»

Correia de Campos ao Público


Entrevista de António Correia de Campos ao Público, dividida em duas peças:

Primárias nas presidenciais

Ontem no Expresso
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Por que a direita foge a sete pés dos debates?

Azeredo Lopes explica.

sábado, agosto 22, 2015

Até tu, Luisito?


Luís Marques Mendes criticou hoje a coligação PSD/CDS por insistir em ter Paulo Portas nos debates eleitorais: «A coligação não tem razão», porque estão em causa «candidaturas e não os partidos».

Portas deve participar nos debates? Telmo Correia esclarece.


Via Rui Pedro Nascimento

O dia em que o pequeno grande arquitecto
poderá cantar loas ao «socialismo» chinês


A CMVM, «em articulação, designadamente, com o Banco de Portugal», está «disposta a verificar e seguir o rasto e a origem das verbas utilizadas por empresas detidas ou geridas pelo dr. Álvaro Sobrinho na aquisição ou investimento em empresas em Portugal, cotadas ou não».

A investigação em curso foi desencadeada a pedido do deputado Duarte Marques, preclaro membro da comissão parlamentar de inquérito ao BES, que só descobriu que Álvaro Sobrinho terá negócios em Portugal quando se deu a mudança de Jorge Jesus para Alvalade.

A comunicação social associou a investigação à SAD do Sporting, ignorando a circunstância de Álvaro Sobrinho, figura proeminente do BES Angola, ser o proprietário do Sol e do i, de resto através de uma empresa sedeada no paraíso fiscal do Panamá.

Provavelmente, ninguém estará interessado em ficar com estes dois cancros financeiros. Em todo o caso, como há coisas do arco-da-velha, não é de excluir a hipótese de o Sol e o i irem parar às mãos do Novo Banco. Seria alucinante ver o pequeno grande arquitecto a pôr os seus neurónios ao serviço do «socialismo» chinês. À cautela, o Sol e o i ainda não fizeram referência a esta investigação.

Coligação PSD/CDS defende expansão dos apoios aos colégios privados

Apelo ao voto dos colégios privados financiados pelo Estado nas eleições de 2011

    «No seu programa eleitoral, a coligação PSD-CDS defende agora que a actualização da Lei de Bases do Sistema Educativa tenha, entre as suas “preocupações fundamentais”, “o desenvolvimento da política de contratos de associação, tendo em conta a importância do serviço prestado por essas escolas a muitos alunos – nomeadamente de famílias desfavorecidas – e a necessidade de agir com maior efectividade nos territórios em que tanto o abandono como o insucesso escolar, são mais relevantes”. Actualmente, o Ministério da Educação tem contratos de associação com cerca de 80 colégios, abrangendo perto de 50.000 alunos.

    Penso que o que se pretende com a proposta de actualização da Lei de Bases, é o de conseguir que os contratos de associação tenham uma expressão sistémica, com muito maior expressão no terreno e não apenas um carácter residual, como agora é o caso”, indicou ao PÚBLICO o director executivo da Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo, Rodrigo Queirós e Melo, que aplaude a intenção. Classificando a Lei de Bases como o “pacto da educação”, que só pode ser estabelecido por maioria qualificada no Parlamento, Queirós e Melo defende que este é um diploma que necessita de “grandes alterações” para fazer face à realidade.»

Alguém sabe do paradeiro de Mário Nogueira?

«A violência é, muitas vezes, filha do medo»

• Rui Patrício, Bukharin em Paris:
    «(…) os que melhor conhecem o medo são os que melhor sabem jogar com o medo dos outros, e não ganha quem tem menos medo, mas sim quem melhor sabe lidar com ele. No inverno de 1936, em Paris, o destino de Bukharin foi decidido pelo medo. Mas não apenas pelo seu. Também, ou sobretudo, pelo de Estaline, pois por detrás do seu ódio, da sua doença, do seu sadismo e da sua paranóia havia, e houve sempre, um medo imenso. A violência é, muitas vezes, filha do medo. E não é o poder que corrompe, mas sim o medo de perder o poder. E o medo de perder o poder absoluto corrompe absolutamente.»

sexta-feira, agosto 21, 2015

Os desaparecidos


• Augusto Santos Silva, OS DESAPARECIDOS:
    «Um dos fenómenos, por um lado mais interessantes e, por outro, mais preocupantes desta campanha eleitoral é a quantidade de desaparecidos antes do combate que ela regista. De tal modo é que, no terreno, a dar luta à coligação dos partidos de direita e, portanto, batendo-se pela mudança do governo e das políticas temos apenas, praticamente, o Partido Socialista.

    Registo pelo menos três tipos de desaparecidos. O primeiro é o chamado movimento social. Tantos precários, tantos indignados, tantos “Podemos” à nossa moda que já se exprimiam com estrondo no espaço público no tempo do último governo do PS, e ainda organizaram umas poucas manifestações e “grandoladas” – e parece terem-se dissolvido no ar, agora, logo agora, que é real e efetiva a possibilidade de operar a mudança política! Quem compara o clima social em que decorrem estas eleições com, por exemplo, o de 2011, não pode deixar de espantar-se com o silêncio e a ausência daqueles que, noutros momentos, se arvoraram a eles próprios no verdadeiro “protesto social”.

    O segundo tipo de desaparecidos são as ações políticas dos partidos que costumam reservar para si mesmos a nobre qualificação de esquerda. Do PCP, para além da repetição quase diária de que PS e PSD seriam iguais, pouco mais se ouve do que afirmações rituais e burocráticas para marcar o ponto. A antiga energia transbordante do BE parece ter-se nos combates de antanho – e de braço dado com a direita – contra os governos socialistas. As outras forças continuam a falar apenas para o círculo muito estreito dos seus apaniguados e das suas desavenças.

    O terceiro grande desaparecido é o jornalismo dito de investigação e a sua autoproclamada função de contrapoder. A agenda governamental – inaugurações e nomeações em pleno período eleitoral, visitas a isto e aquilo, maquilhagem de números, muita falinha mansa – passa no geral das televisões, das rádios e dos jornais sem nenhuma espécie de distância e escrutínio crítico. Quando não passa, passa futebol.

    Esta desvitalização do espaço público, da extrema-esquerda e do dito “movimento social” dá bastante que pensar. Mas devo dizer que nem me surpreende, nem me assusta. Qualquer pessoa atenta sabe que, nos momentos críticos, nos momentos das escolhas sérias e com repercussões, quem fica frente a frente é a direita, de um lado, e a esquerda democrática, do outro. Também agora vai ser assim. E os eleitores que querem uma alternativa sólida e prática à direita sabem que, para que essa vontade se concretize, só têm uma escolha: escolher o PS.»

«Não podemos aceitar que o nosso futuro
seja falarmos com os nossos filhos apenas via "skype"»


• Pedro Silva Pereira, Esta continuidade serve?:
    «As eleições são sempre um tempo de avaliação do desempenho do Governo e das alternativas políticas para o futuro. Mas ambas as questões convergem numa única pergunta: esta continuidade serve?

    Por razões que bem se compreendem, Passos e Portas pedem-nos que votemos sem "ressentimentos". Descodificando, o que nos pedem é que esqueçamos que ambos os partidos da coligação de direita nos enganaram na campanha eleitoral de 2011, precipitando o país numa crise política irresponsável e prometendo aos eleitores, aos contribuintes e aos pensionistas o que nunca tencionaram cumprir; que esqueçamos a sua desastrosa estratégia de empobrecimento, feita de enormes aumentos de impostos e de brutais cortes nos salários, nas pensões e nos serviços públicos; que esqueçamos o erro tremendo que foi a opção pela austeridade "além da ‘troika'", com o seu rasto devastador de 219 mil empregos destruídos, milhares de jovens que tiveram de emigrar e muitas famílias destroçadas, adiadas ou sem filhos; que esqueçamos o desinvestimento absurdo e míope na Ciência, nas qualificações e nas principais alavancas de crescimento da economia; que esqueçamos a sucessão de privatizações em marcha forçada, que destruíram ou passaram para mãos estrangeiras o que restava dos "centros de decisão nacional"; e, finalmente, que esqueçamos que tudo isto, feito em nome do ajustamento estrutural da economia e da redução da dívida pública, deixou afinal a economia estruturalmente mais fraca e conduziu ao maior aumento da dívida pública de sempre.

    Por improvável que seja, Passos e Portas apostam no esquecimento colectivo e esperam que um bom "marketing" eleitoral (assente na constante repetição da sua falsa narrativa da crise e no empolamento de uns quantos indicadores económicos, à boleia da intervenção do BCE e dos ventos favoráveis da conjuntura internacional) consiga fazer o resto: criar, por tempo suficiente, uma ilusão de sucesso que se sobreponha à evidência do seu fracasso.

    Vai nesta estratégia eleitoral uma dupla mistificação. A primeira, diz respeito à democracia; a segunda, diz respeito à economia. A primeira mistificação, em nome de uma votação "sem ressentimentos", pretende um autêntico "apagão" do incumprimento das promessas eleitorais pelos partidos da direita, como se o facto de terem escondido dos eleitores a estratégia central que executaram no Governo - a estratégia de empobrecimento - não configure uma intolerável burla política, merecedora de severo julgamento democrático em legítima defesa da própria democracia. A segunda mistificação, porventura ainda mais perigosa, parte da ilusão do "sucesso" económico para afirmar, sem mais ambições, que o caminho certo é a ditosa "continuidade".

    O que nos devolve à pergunta: afinal, esta continuidade serve ou devemos procurar uma alternativa melhor? Servirá, certamente, para uns quantos fiéis devotos da "austeridade expansionista", agora entusiasmados com a perspectiva de um novo corte de 600 milhões de euros nas pensões e com a promessa de um plafonamento que abra caminho para a privatização parcial da Segurança Social à custa da sustentabilidade do sistema público. Mas fora esse grupo de crentes fervorosos, cuja fé inabalável sobrevive a todas as evidências, esta continuidade cinzenta, sem futuro nem esperança, só poderá servir a quem se resigne à fatalidade de um destino nacional de continuado empobrecimento e persistente decadência. Para concluir que não tem de ser assim, não é preciso nenhum especial "ressentimento" - embora não lhe faltassem razões. Basta olhar com olhos de ver para os resultados desastrosos da austeridade "além da ‘troika'" e perceber a extrema urgência do maior desafio que o paísenfrenta: estancar imediatamente o dramático êxodo dos seus jovens e dos seus melhores quadros. É por isso que a continuidade não serve e é tempo de uma alternativa política, capaz de um novo ciclo de esperança e de recuperação económica. Com uma certeza: não podemos aceitar que o nosso futuro seja falarmos com os nossos filhos apenas via "skype".»

Leituras

quinta-feira, agosto 20, 2015

A carta de José Sócrates


A carta de José Sócrates, publicada pelo Jornal de Notícias, pode ser lida aqui. Uma alusão à carta, na SIC, pode ser vista aqui.

quarta-feira, agosto 19, 2015

Candidatos que são um livro aberto


Autor: Vargas

Viagens na Minha Terra

Estudo sobre o Impacto Financeiro do Programa Eleitoral do PS:
o quanto, o quando e o como


O Estudo sobre o Impacto Financeiro do Programa Eleitoral do PS está disponível aqui. A apresentação do documento foi feita por António Costa e Mário Centeno:

António Costa

Mário Centeno

Estratégia da direita para o Estado: se não se privatiza, extingue-se


O bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, não tem dúvidas sobre a importância do Laboratório Militar. Considera-o um sector estratégico em que é preciso apostar:
    «O uso do Laboratório Militar deve ser potenciado da máxima forma possível na produção de medicamentos a nível nacional. Não só para responder às falhas como também para produzir medicamentos mais baratos que sejam importantes para Portugal.»

Lê-se, numa peça da edição do Diário de Notícias de 8 de Outubro de 2014, que o Laboratório Militar estava então a produzir 78 tipos de medicamentos para os hospitais do Serviço Nacional de Saúde. São remédios que deixaram de estar disponíveis no mercado devido aos seus baixos preços. A BIAL, um laboratório nacional, mostrou interesse em produzir alguns desses medicamentos, mas concluiu que o negócio não lhe interessava assim que o Infarmed disponibilizou a lista de produtos a fazer.

Soube-se agora que o Governo se prepara para, no pico do Verão, encerrar o Laboratório Militar. Nenhum caixeiro-viajante conseguiu captar capital estrangeiro para abocanhar mais um negócio.

Depois do Pontal, o regresso à realidade


    «De acordo com a Síntese Económica de Conjuntura publicada hoje pelo INE, a Formação Bruta de Capital Fixo (o chamado Investimento) terá sido negativo no segundo trimestre de 2015:
      "O indicador de FBCF diminuiu significativamente entre abril e junho, interrompendo o movimento ascendente iniciado em março de 2013. A evolução observada no último mês deveu-se à redução dos contributos de todas as componentes, sobretudo da componente de construção" (página 11).
    Ou seja, temos procura externa líquida negativa (importações crescem mais que exportacoes) e não estamos a importar para investir, mas para consumir, sobretudo automóveis. A coligação pode fazer a propaganda que quiser, estes dados são preocupantes e estão longe, muito longe de serem positivos.»

sábado, agosto 08, 2015

Férias

Parece que está tudo de férias. Pronto, vou também.

4 de Outubro: duas propostas opostas

Mário Centeno analisa programa eleitoral da coligação de direita


Mário Centeno escreve hoje um artigo sobre o programa eleitoral da coligação de direita: «Quanto? Quando? Como?». Ei-lo:
    «A leitura das 148 páginas da Coligação PPD-PSD/CDS-PP suscita não 29 questões, mas apenas três: Quanto? Quando? Como?

    Quanto é que custa cada uma das medidas e que impacto têm?

    Quando é que essas medidas vão ser aplicadas?

    Como vão ser aplicadas, isto é, qual a sua interligação e que administração pública, reguladores, empresas e famílias vão ser os agentes dessas medidas?

    A resposta requer uma abordagem semelhante à utilizada na construção do Programa Eleitoral do Partido Socialista. Em que o diagnóstico seja claro, o como? Em que o propósito económico e social seja esclarecido para se definirem as prioridades e a sequência das medidas, o quando? Em que a quantificação dos custos e dos benefícios seja transparente, para que todos possamos avaliar a sua bondade e decidir, o quanto?

    O Partido Socialista construiu o seu Programa Eleitoral seguindo um processo comum nos (dez) países mais competitivos do mundo. A coligação perdeu a primeira oportunidade para nos aproximar desses países; não admira que coloque esse desejo num horizonte de longo prazo. A coligação tem uma relação com Portugal que é incompatível com este tipo de ambição.

    Um programa eleitoral deve transmitir uma ambição para os votantes a quem se dirige. O Programa do Partido Socialista define causas, transmite confiança, estabelece princípios inalienáveis de rigor e transparência que devemos assumir para a sociedade portuguesa
    .

    A coligação estabelece alguns desses objetivos gerais, mas cria um hiato de rigor e transparência ao não apresentar uma única quantificação dos mecanismos que nos permitam passar das medidas (poucas e mal definidas) aos resultados (escassos e definidos sem rigor). Pede a cada português que nela votar um "cheque em branco". Eles depois preenchem a quantia (o quanto) e colocam a data (o quando). Falta futuro ao Programa da coligação.

    A REALIDADE ECONÓMICA E SOCIAL

    Nestes quatro anos Portugal perdeu 260 mil trabalhadores em idade ativa. Tantos quantos saíram do país na mais negra das décadas do regime salazarista. Entre 1960 e 1970, a Guerra Colonial, a emigração e a perseguição política fizeram perder ao país precisamente 260 mil portugueses. A desistência é um dos sinais mais alarmantes para o futuro de um país. A confiança é essencial.

    O mercado de trabalho continua a gerar empregos precários - 90% dos que transitam entre desemprego e inatividade para um emprego têm um contrato não permanente - e de baixos salários - o salário médio dos empregos gerados desde outubro de 2013 é de 580 euros. A flexibilidade salarial combina-se com a flexibilidade da precariedade para consolidar o empobrecimento do país.

    A economia portuguesa passou por um ziguezaguear de políticas revogáveis e inconstitucionais até que a acalmia dos mercados, decorrente da política do BCE, permitiu às economias europeias, em especial as mais fragilizadas, começar a respirar de novo. A queda do preço do petróleo, da taxa de câmbio e, em particular, da taxa de juro promoveram o crescimento da economia portuguesa.

    ANÁLISE DO PROGRAMA

    Há medidas no Programa do PPD-PSD/CDS-PP para dar resposta aos desafios da economia portuguesa?

    No funcionamento do mercado de trabalho os desafios são esquecidos. A coligação vive bem com a desistência. Com os baixos salários, com o aumento de 50% dos desencorajados e com mais de 400 mil emigrados.

    Apesar de empresas e sindicatos pedirem outras políticas, não há nada para quantificar porque não há nada proposto.

    Nas políticas ativas de emprego surge a continuidade. A coligação de direita habituou-se a utilizar as políticas ativas de emprego como terapia ocupacional e para mascarar as estatísticas do emprego.

    Um exemplo de cinismo político. A direita sempre questionou a eficácia destas políticas. Agora descobriu o seu elixir do mercado de trabalho e multiplica-as. Mas quanto custam? Qual o impacto económico? Não se sabe. Mas sabemos que os programas de estágios têm uma continuidade de emprego imediata que não excede os 30%, ainda que não se saiba quanto tempo vai durar este emprego, nem o seu salário. Outros há onde a empregabilidade é zero. Os programas de estágios profissionais sem custos para a empresa utilizadora — uma espécie de estágio Scut — perderam a sua racionalidade económica. O Estado paga.

    Na fiscalidade não é possível encontrar rumo para o Programa da coligação.

    Os impostos sobre as famílias mantêm-se. Apenas uma redução faseada e lenta (a contragosto) da sobretaxa. Já para as empresas há uma baixa do IRC. Caem os impostos para as empresas, renega-se o compromisso de redução dos impostos sobre as famílias. Não há nenhuma medida que incentive a criação de emprego. Os mais desfavorecidos não têm nenhuma medida de compensação pelas fortes reduções de rendimento dos últimos anos.

    Na política social, a concretizarem-se as propostas apresentadas teríamos o caos nas pensões e a substituição do Estado na ação social.

    O Programa do PPD-PSD/CDS-PP é profundamente assistencialista. Não se enquadra num programa de segurança social de tradição social-democrata europeia. Este assistencialismo é a continuação do que temos assistido até aqui e é a consequência da liderança desta área por parte de uma direita paternalista. Não há aplicação da condição de recursos, porque a ação social foi transformada num negócio. E o negócio precisa do dinheiro dos contribuintes.

    O Programa estende este negócio a um novo patamar. As parcerias público-privadas para a área social. O como aqui seria crucial, mas não sabemos. Eles lá saberão, mas não dizem. O quanto imagina-se que seja o mais possível, como tem sido até aqui e em substituição dos serviços públicos. O quando? Pois quanto antes melhor, tal como todas as privatizações já feitas.

    O plafonamento das contribuições para a Segurança Social não é uma reforma estrutural. O terramoto pode assumir proporções colossais. Mas a coligação não diz o quanto. O plafonamento dá liberdade de escolha aos contribuintes. É verdade. Se o plafonamento começar nos 2000 euros de salários, a 8% dos contribuintes, 295 mil. Se começar nos 2500 euros, a 5%, 190 mil. Quem são os contribuintes que obtêm liberdade de escolha? Apenas os de salários mais altos.

    Qual é o preço para os outros 95%? Cortes nas pensões. Leu bem. Há um "buraco" (tanto que a coligação gosta desta palavra) gerado pelo plafonamento. Durante 60 anos, duas gerações de portugueses ficam com as suas pensões com défice de financiamento. Porquê? Porque durante esse período coexistem contribuintes plafonados e pensionistas com pensões não plafonadas. Qual a dimensão do "buraco"? Pode atingir 17% do valor das atuais contribuições, cerca de 2,3 mil milhões de euros/ano
    .

    A dificuldade de gestão deste sistema fará que o caos do Citius ou do algoritmo de colocação de professores pareçam problemas triviais. Quererão os portugueses mesmo experimentar tal sistema? Não! É puro experimentalismo social.

    No apoio às empresas voltamos ao "mais do mesmo". A coligação não conseguiu fermentar o banco de fomento, mas comenta a gestão do banco público. A direita tentou destruir o sistema nacional de inovação científica, subalternizando a política científica e promovendo os maiores cortes nessa área não tem, porque não quer ter, necessidade de nos dizer nem o quanto, nem o quando nem o como do apoio à internacionalização, inovação e investigação. Simplesmente, não tem.

    O Programa Eleitoral tem algumas visões caricatas: a "carta de marinheiro" para todos os portugueses no ensino obrigatório. Não nos digam, por favor, nem quanto, nem quando, nem como.

    QUANTIFICAR: UM CONTRIBUTO PARA O DEBATE

    Como não temos números da coligação utilizamos o nosso modelo.

    Partindo do cenário da Comissão Europeia retiramos ao cenário final do Programa do PS as medidas ausentes no Programa do PPD-PSD/CDS-PP: as medidas de promoção do emprego e de redução da fiscalidade, bem como as medidas de aceleração da execução dos fundos comunitários.

    Qual o impacto do programa eleitoral da coligação? Os impactos no PIB e no emprego são nulos. O que a coligação dá com uma mão (na sobretaxa, função pública e tira com a outra (nas pensões). O défice melhora uma décima no conjunto dos quatro anos. A dívida fixa-se nos 120% do PIB. A mais de 13 pontos de distância dos 107% prometidos no Programa de Estabilidade.

    A coligação tem de dizer como consegue trazer o crescimento da economia para valores superiores a 2%. E ao mesmo tempo reduzir o défice e a dívida. E, já agora, como tenciona criar emprego.

    Porque queremos viver num país competitivo. Um país onde a política se faz de forma rigorosa e transparente e com respeito pelo eleitor. Um país onde o quanto, o quando e o como são respondidos. Ficamos à espera. É a economia...

Mais cães e cercas

Hoje no Expresso (via Nuno Oliveira)
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O homem que vai no lugar do morto
(e pressiona o condutor para fazer uma perninha)

Expresso, 11 de Maio 2013

Políticas de Ciência

Hoje no Expresso (via Nuno Oliveira)
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Leituras


    • Rui Pereira, Casar em Serralves:
      «(…) De todo o modo, se estes casamentos se repetirem, será coartado o acesso do público a Serralves. A comunidade deixará de desfrutar livremente dos jardins e será subvertido o único sentido possível do investimento do Estado naquela Fundação: incentivar a fruição cultural, que, nos termos do artigo 78º da Constituição, constitui direito fundamental dos cidadãos e incumbência indeclinável do Estado – ainda que em colaboração com os restantes agentes culturais.»
    • Rui Patrício, É p’ró Palácio Ratton, faz favor:
      «(…) Presunção de inocência, ouvi eu na rádio. Mas qual presunção de inocência? Esta gente – passarões, figurões, macacões e outros ões – lá tem disso? Então não se está mesmo a ver que só cá andam para roubar e para se encher, à minha custa e de outros como eu? Provas? Ora provas, os senhores também têm cada uma. Os senhores não lêem os jornais que eu leio, de certeza, nem vêem a televisão que eu vejo. Esta lá tudo, todos os dias, basta abrir os olhos. E o que se vê por aí? Uma corja. (…)»
    • Fernando Teixeira dos Santos, Lost in emmigration:
      «(…) Nos últimos anos houve, em Portugal, uma colossal destruição de emprego e a evolução recente da nossa população ativa evidencia bem que se perderam várias centenas de milhares de trabalhadores. De acordo com a base de dados PORDATA, nos últimos quatro anos, emigraram cerca de 500 mil portugueses. Emigrados, desencorajados e precários deviam estar no centro do debate político. Um debate que deveria focar-se mais em propostas sobre a criação sustentável de emprego estável e gerador de riqueza do que na discussão de estatísticas que dificilmente refletem todas as facetas da real situação do mercado de trabalho. Estes portugueses não podem ficar esquecidos, perdidos da nossa memória coletiva.»

sexta-feira, agosto 07, 2015

Está na altura de devolver o Serviço Nacional Saúde aos portugueses



Os portugueses conhecem hoje muito bem a agenda política para a saúde dos partidos que integram a coligação de direita: privatizar e desmantelar.

Passos e as culpas


• Fernanda Câncio, Passos e as culpas:
    «"A taxa de desemprego em 12,4% é um valor extremamente elevado, que representa o sinal mais evidente da crise profunda que estamos a atravessar. A recessão económica não é uma consequência do pedido de ajuda externa [...] mas é o resultado da ineficiência das políticas que foram seguidas durante todos estes anos." A frase é do atual PM. Mas, calma, foi proferida antes de o ser - em maio de 2011, em plena campanha para as legislativas de 5 de junho.

    E é simbólica por vários motivos. Primeiro por demonstrar como o mesmíssimo valor de taxa de desemprego pode ser, para a mesma pessoa e conforme está na oposição ou no governo, "extremamente elevado" e testemunho de "crise profunda" e "políticas ineficientes" ou sinal de "recuperação". Em 2011, alegar-se-á, a taxa oficial de desemprego estava a subir e agora está a descer, e descer é melhor do que subir (dah). Mas será que faz sentido um governante gabar-se por ter - alegadamente, já que se perderam mais de 200 mil empregos entretanto - voltado a um ponto de partida que reputou de muito grave?

    "Congratularem-se com ter a mesma taxa de desemprego agora e na altura do resgate é como uma pessoa ao sair do hospital ficar contente por se sentir como quando ia na ambulância para lá", escreveu, no Twitter, uma jornalista do Financial Times, respondendo ao secretário de Estado Maçães (que está em jihad contra quem ponha em causa o sucesso PAF). Mas a frase de Passos transporta mais ironias, como a da recusa - em 2011 - de contextualização para a recessão da economia portuguesa. Como se a crise económica planetária desencadeada em 2007-2008 com o rebentar da "bolha" financeira do imobiliário, consensualmente comparada à grande depressão dos anos 30 do século passado, nunca tivesse existido; como se a crise das dívidas soberanas europeias, que em 2010, na sequência da primeira, levou aos pedidos de resgate da Grécia e mais tarde da Irlanda, de Portugal e de Chipre (os 130 mil milhões emprestados à Espanha levaram outro nome), nunca houvesse ocorrido.

    Nada disso: em 2011, desemprego, austeridade, recessão, resgate eram só responsabilidade do governo português. Mas e agora, quatro anos depois, como explica Passos a dívida em 130% do PIB após austeridade maciça, mais de 200 mil empregos desaparecidos, emigração recorde, a trapalhada da resolução do BES, todas as previsões do executivo erradas? É vê-lo, há uma semana, na redação do Jornal de Negócios. Invocando os "tempos de vacas gordas" de que os socialistas gozaram, retorque, ríspido, a quem objeta: "Qual crise mundial? E nós, não tivemos crise? A crise que herdámos em 2011 resultou das decisões que tomei?" E conclui: "Fizemos um resgate internacional, passámos por uma recessão que foi a maior que tivemos nos últimos anos - 4% de recessão em 2012! Se no meio disto tudo não tivéssemos desemprego seria um milagre." Coitado de Passos, realmente, não lhe podemos pedir responsabilidade por nada.»

O plafonamento é a privatização da Segurança Social


• Tiago Barbosa Ribeiro, O PLAFONAMENTO É A PRIVATIZAÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL:
    «O programa da direita, finalmente conhecido, veio confirmar que nas próximas legislativas estarão em disputa duas visões radicalmente opostas para o nosso futuro: uma liderada pelo PS, que personifica a ambição progressista de um país desenvolvido e próspero, mobilizando transversalmente a sociedade portuguesa, e outra encabeçada pela coligação PSD/CDS, que está acantonada numa deriva ideológica que a afasta completamente da matriz tradicional da direita portuguesa.

    O programa do PSD/CDS veio clarificar um ponto crítico: depois de ter avançando com privatizações que enfraqueceram o Estado e empobreceram as gerações futuras, a direita quer acabar com o contrato social estabilizado no nosso regime democrático e avançar com a privatização (parcial) da Segurança Social. É isso que significa o plafonamento.

    Ao abrigo de uma falsa liberdade de escolha, a direita quer transformar um sistema público, universal, obrigatório e intergeracional, numa espécie de conta-poupança individual, optativa para os mais ricos, assemelhada a um depósito a prazo. Isto significa a falência do sistema público e a institucionalização de uma dualização em função dos rendimentos e não de uma qualquer suposta liberdade individual que deixa os pobres à beira da estrada.

    Trata-se de uma proposta radical e aventureira. A direita não apresentou as contas, mas os descontos opcionais para salários mais elevados vão implicar um rombo superior a 2 mil milhões de euros por ano, entregando-os a fundos privados de pensões.

    Os desequilíbrios da Segurança Social não se resolvem descapitalizando-a ainda mais depois de 4 anos de governação de direita que agravou os seus problemas com mais desemprego, subemprego e precariedade. A única forma de assegurar a solvabilidade da Segurança Social é investir na criação de emprego, combatendo de forma determinada o desemprego (em especial dos jovens) e a emigração.

    Nenhum imposto é opcional e as contribuições para a Segurança Social não podem ser excepção. Fazê-lo é ligar uma bomba-relógio. Com a privatização da Segurança Social, PSD e CDS cumprem uma velha aspiração da direita e asseguram a gula dos fundos privados, rompendo com o contrato social estabilizado no regime democrático e criando um subsistema para pobres, assistencialista e descapitalizado.

    O plafonamento não pressupõe mais liberdade nem mais segurança. O PS estará na linha da frente do combate a esta proposta, em prol de uma Segurança Social pública, universal e garantista para todos os portugueses.»