terça-feira, dezembro 02, 2014

As duas faces da moeda

• Miguel Romão, As duas faces da moeda:
    «(…) O outro mal é a tendência insuportável para o falso moralismo de café, uma mistura de inveja amesquinhada, miserabilismo populista e resignação perante o destino. A detenção de José Sócrates, nesse plano, é perfeita. Alimenta como nada antes a sanha deste falso moralismo, sempre muito audível e entusiasmado.

    Numa notícia de jornal na semana passada lia-se no primeiro parágrafo que José Sócrates tinha comprado um Mercedes. No último parágrafo a compra convertia-se, no mesmo texto, num “leasing” da viatura, ou seja, em termos simples, num aluguer. Mas que interessa isso? O importante mesmo é que, como se dizia num café, “o gajo andava de Mercedes” e essa grave falta moral não pode passar em branco no tribunal dos escribas de jornal e das mesas da consciência da hotelaria lusa. A ninguém já preocupa pelos vistos que ministros, gestores públicos e afins andem diariamente de Mercedes pagos com dinheiro dos contribuintes.

    Noutro momento, assisti em directo na televisão a uma conversa confrangedora entre dois jornalistas sobre o “16ème”, bairro dessa Paris sempre mitificada que o Eça tão bem ironizou em “A Cidade e as Serras”. É certo que Passos Coelho não só nivelou por baixo as ambições imobiliárias dos portugueses, como efectivamente as coarctou em termos reais, tal o desemprego e a baixa salarial... Mas fica a nota pública: um ex-primeiro-ministro só pode viver em duas assoalhadas nos arredores de uma capital europeia e andar de metro. Mais que isso não deixamos. Tudo o que cheire a bom deve ser banido, que a nossa consciência cívica não o suporta, apesar de tolerar quase tudo o resto.»

4 comentários :

Anónimo disse...

"A grandeza inspira a inveja, a inveja engendra o despeito, o despeito produz a mentira" (Harry Potter e o Enigma do Príncipe)

Anónimo disse...

Também se dizia na mesma peça que o José às vezes se fazia deslocar num pequeno utilitário, Mini. Um Mercedes que nunca ninguém viu.

Antonio Cristovao disse...

Pode e deve viver onde lhe aprouver.
Como diz o povo quem cabras não tem e cabrites vende ...

Anónimo disse...

Só uma correcção.

Dificilmente se pode comparar o "leasing" a um aluguer. Pode comparar-se ao "aluguer de longa duração" (renting) mas isso também não é um aluguer no sentido habitual.

Na verdade é leasing é mais uma compra a prestações com a ideia de revender no prazo de 4 anos, fazendo algum dinheiro, o que é um bom esquema se a prestações tiverem sido pagas por outrem ou por uma empresa o que não sei se é o caso. Não é exacto mas é para dar uma ideia.

Não estou a ver o Sócrates ter feito um leasing sem ter a ideia de ficar com o carro, ou de o poder vender quando o carro estivesse um pouco mais velho, porque tal não faz sentido economicamente falando.

Portanto é uma espécie de compra, que apenas não é uma comprar tradicional por questões de engenharia financeira.

Não sendo exactamente correcto, não é nenhum disparate dizer que o carro foi comprado (não sei por quem).