terça-feira, janeiro 06, 2015

O discurso sem qualidades

Sobre a mensagem de Ano Novo de Cavaco Silva

• José Vítor Malheiros, O discurso sem qualidades:
    «(…) O apelo ao voto no PSD, discretamente camuflado, consistiu num rasgado elogio da acção do Governo actual, na proclamação das mesmas melhorias imaginárias que o Governo tem alardeado e na ênfase na necessidade de prosseguir a mesma trajectória (“A economia está a crescer, a competitividade melhorou, o investimento iniciou uma trajectória de recuperação e o desemprego diminuiu. É preciso criar condições políticas para que esta tendência se reforce no ano que agora começa”), em mais um exemplo da falta de isenção partidária em que Cavaco tem sido pródigo.

    A dissuasão no voto no PS consistiu na afirmação de que o país corre o risco de regressar à situação vivida no final do último Governo Sócrates e de que o pedido de financiamento à troika se deveu apenas a razões internas (“Portugal não pode regredir para uma situação semelhante àquela a que chegou em princípios de 2011, em que foi obrigado a recorrer a auxílio externo de emergência”), em mais um exemplo de uma leitura simplificada da realidade e de um sectarismo incompatível com a função que ocupa. O alerta sobre as promessas eleitorais (“Há que evitar promessas demagógicas e sem realismo”) vem no mesmo sentido, não podendo deixar de ser lido senão como uma admoestação preventiva ao PS, já que o cúmulo de promessas eleitorais não cumpridas pertence à última campanha eleitoral do PSD, sem que ele tivesse sido objecto de reparo presidencial.

    A menorização das eleições legislativas consistiu na mensagem sobre a necessidade de um compromisso pré-eleitoral entre partidos (“Seja qual for o resultado eleitoral, o tempo subsequente à realização de eleições será marcado por exigências de compromisso e de diálogo”, “Não é só no dia a seguir às eleições que se constroem soluções governativas estáveis, sólidas e consistentes”), que, aliada à afirmação da necessidade de prosseguimento das mesmas políticas, pretende sublinhar que não existe qualquer possibilidade de mudar o rumo da governação, sejam quais forem os resultados eleitorais. Se quisesse apelar à abstenção em massa, Cavaco não poderia ter feito melhor. Conhecendo as posições dos partidos à esquerda do PS, que, na opinião de Cavaco, não “asseguram o crescimento económico”, é clara a mensagem: no seu discurso de Ano Novo, o PR apela a um acordo PS-PSD prévio às eleições, que apoie um futuro governo que prossiga a mesma política do actual, e aconselha que entre os dois partidos não haja “crispações e conflitos artificiais”. Nada que espante. Cavaco nunca aprendeu que é o Presidente de todos os portugueses e não é agora que vai aprender.

    Todo o discurso de Cavaco é uma arenga contra a ideia de alternativa. E este seria o aspecto mais relevante da alocução do supremo magistrado da nação não se desse o caso de o discurso ser também uma defesa da supremacia dos interesses estrangeiros sobre os interesses nacionais. Ao dizer que “Tal como os outros países da zona euro, Portugal está sujeito às exigências de disciplina orçamental e de sustentabilidade da dívida pública” e ao não referir o dever ou sequer a possibilidade de discutir, contestar, alterar ou recusar as exigências iníquas do directório da União Europeia, Cavaco, no mesmo discurso em que fala do “interesse nacional”, submete-o sem uma hesitação aos ditames dos interesses financeiros.

    Não há, na mente de Cavaco, uma ideia de país que não seja servil perante os grandes. Não há, na imaginação de Cavaco, uma ideia de estratégia internacional que não seja a obediência. Não há, no sentimento de Cavaco, um lugar para o simples patriotismo. (…)»

7 comentários :

Anónimo disse...

A coisa é repugnante. Repugnante. Estou agoniada. Acabei de ouvir as exigências dos amiguinhos da coisa no MP. Chulos. Não é por acaso que eles puseram Sócrates na prisão. Para que se perceba duma vez por todas quem manda aqui.

ana

Antonio Cristovao disse...

Tirando o nítido azedume se tivéssemos um presidente e uns partidos como a Grécia estaríamos provavelmente tão endividados e sem saída como eles ou melhor do que estamos agora? Há muitas semelhanças nos governos que nos levaram ao pedido de resgate cá e lá.
As coisas começaram a divergir foi depois com os responsáveis daqui a actuarem diferente.

Anónimo disse...


Cristovão, semelhança nos regimes que nos levaram ao resgate? Quais?

Não houve nada mais diferente. A Grécia aderiu a um pedido de resgate pq houve um governo de direita que maquilhou as contas de tal forma que o governo socialista posterior teve que as denunciar oficialmente à UE.
Cá houve um pedido de resgate pq a direita não apoiou um entendimento conseguido com a BCE e com a Alemanha que nos poria a salvo do mesmo. Como foi feito ,por razoes diferentes, com a Espanha. Passados estes anos e ainda não saberes o q se passou diz menos de ti, mas mais do nivel de desinformação a que estas sujeito.

O Povaréu disse...


Muito bem, anónimo das 18:45 de ontem.

Todos sabemos que "burro velho não aprende línguas" e este tal Ant.º Cristóvão ou é burro, ou ganha a vidinha a opinar (e cobra ao parágrafo)...

Rosa disse...



Cavaco não tem o mínimo perfil exigido a um presidente da República! À medida que o tempo passa, se mostra mais idiota e não diz nada de relevante...
A única coisa que faz é "acolitar" o Governo! Que idiotice...e ainda temos de o aturar mais um ano!

Joaquim Carreira Tapadinhas disse...

O grande problema deste país é que as pessoas entendidas ficam sempre fora do Governo. A Democracia não escolhe os sábios, escolhe os populistas, os que se aproximam perto da ralé. Depois, seja o que Deus quiser, como diz a cantiga dos Azeitona.

Anónimo disse...

o pano de fundo está cheio de nódoas...mas a nódoa maior está em destaque