sexta-feira, fevereiro 29, 2008
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
Da série "Frases que impõem respeito"™ [130]
“Serão os analistas e os fazedores de opinião melhores que o país e os seus políticos?”
maradona, A Causa Foi Modificada
De Oliveira de Azeméis a Lisboa: o acidentado percurso do Tribunal de Contas
Dê-se um passo atrás e veja-se como reagiu o Tribunal de Contas a idêntico pedido por parte do município de Oliveira de Azeméis [aqui e aqui]. Recusou o visto com o argumento de que não se justificava um empréstimo destinado a saneamento financeiro, mas um empréstimo para o reequilíbrio financeiro, porque este município se encontrava em ruptura estrutural.
Um coro de conceituadas opiniões invoca, então, que o Tribunal de Contas é incompetente para apreciar a situação de desequilíbrio financeiro, que só pode ser declarada pela assembleia municipal ou pelo Governo.
Quando Lisboa remete o pedido de autorização para contrair o empréstimo, o Tribunal de Contas inquieta-se com a questão levantada a propósito do empréstimo de Oliveira de Azeméis: — Espelho meu, espelho meu, há alguém mais competente do que eu para apreciar a situação de desequilíbrio financeiro?
A resposta do espelho foi catastrófica: — Vai, Tribunal, vai pela via do saneamento financeiro e fustiga sem dó nem piedade o plano apresentado.
Assim sendo, o Tribunal de Contas aceita que o empréstimo a contrair se destina ao saneamento financeiro, contrariamente ao que decidiu em relação a Oliveira de Azeméis, mas diz ter descoberto alegadas fragilidades no plano apresentado.
Acontece que ao Tribunal cabe o controlo da legalidade e não avaliar o mérito da actuação da entidade em causa. A menos que estejam em causa erros grosseiros [“Vamos jogar no Totoloto e ganhar cinco vezes para perfazer as receitas previstas…” seria um erro grosseiro].
O leitor tem dúvidas de que tudo se passou com esta brutal ligeireza? Então leia a sucinta declaração de voto que aparece perdida lá no fim do acórdão.
Sobre uma mesma matéria, o mesmo tribunal decide com argumentos opostos. Bem poderia haver por lá quem afinasse a máquina.
PS — Manuela Ferreira Leite, o símbolo do rigor financeiro no PSD, já se pronunciou: “Neste momento, é impossível que o Tribunal de Contas não seja olhado como um empecilho no meio de tudo isto.” Ódios antigos não cansam… Talvez fosse mais adequado defender que o Tribunal de Contas se limite, neste âmbito, ao controlo da legalidade, não se atirando para fora de pé.
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
Jornalismo de sarjeta
O Público, insistindo na cruzada contra o Governo de Santana Lopes (e, cirurgicamente, deixando de fora o Governo de Durão Barroso), tem hoje o seguinte título, na página 8 (com chamada de primeira página): “Santana conversou com Estoril-Sol à margem do Governo de Durão”.
O título, só por si, já diz tudo quanto à intencionalidade da notícia. Recorde-se que, à data dos factos relatados na notícia, Santana Lopes (goste-se ou não) era presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Era, portanto, natural que conversasse com a Estoril-Sol sobre o casino, por legitimidade própria, no exercício das suas funções camarárias, e independentemente do Governo.
A referência “à margem do Governo de Durão Barroso” só se compreende, pois, à luz de uma campanha jornalística dirigida — que quer sacrificar uns e branquear outros.
Mas o que é que está implícito na notícia? Que Santana esteve envolvido nas negociações que conduziram à não-reversibilidade do edifício do casino de Lisboa. O jornal chega mesmo a dizer que “a carta da Estoril-Sol contradiz o líder da bancada do PSD, que tem afirmado não ter acompanhado a última fase das negociações sobre o Casino de Lisboa”.
Porém, que carta é essa? É, afinal, uma carta de Julho de 2004, em que a Estoril-Sol solicita a modificação do local do casino (originalmente previsto para o Jardim do Tabaco) para o Pavilhão do Futuro, no Parque das Nações.
Ou seja, esta carta nada tem a ver com a fase final das negociações, nem com o decreto-lei que consagrou a não-reversibilidade do casino de Lisboa. O dito decreto-lei é de Fevereiro de 2005. A carta que o Público hoje cita é muito anterior (de Julho de 2004), numa fase em que o casino ainda estava previsto para o Jardim do Tabaco e apenas se começava a colocar a hipótese de ele ir parar à Expo.
E o facto de Santana Lopes ter sido consultado nada tem de anormal, visto que era — à altura — o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e, portanto, era perfeitamente natural que tivesse uma palavra a dizer sobre a localização do casino (no Jardim do Tabaco ou na Expo).
Partir daqui para um pretenso envolvimento de Santana Lopes na questão da não-reversibilidade do edifício do Casino é pura especulação e, mais do que isso, enlameamento infundado do bom-nome alheio.
Quanto custa o piscar de olho de Menezes a Balsemão e Pina Moura?
Luís Filipe Menezes comprometeu-se a retirar a publicidade da RTP, deixando o mercado da publicidade televisiva para os privados, caso ganhe as legislativas de 2009.
Arons de Carvalho, em declarações à TSF, lembra que a RTP apenas está autorizada a emitir 50 por cento do tempo de publicidade que os operadores privados podem utilizar. E faz contas:
“Trata-se de um gesto simpático, sobretudo para os donos da SIC e da TVI, mas é uma medida que ia custar 60 milhões de euros por ano aos portugueses através dos impostos”, acrescentando que “a televisão sem publicidade é um luxo que só três países europeus tem”.
Adenda — Morais Sarmento, que assinou o actual acordo entre o Estado e a RTP de saneamento de dívidas, comenta o piscar de olho de Menezes às televisões privadas.
Última estação
"Acontece que a taxa de variação anual é menos sensível do que as taxas trimestrais ou as homólogas a alterações esporádicas ou de sazonalidade, é o próprio INE que adverte do facto."Sim, leram bem: a taxa de variação anual é menos sensível a alterações de sazonalidade. Pois é, caro doutor, tanto que, quando se fala de variações anuais, nem sequer faz sentido falar-se de sazonalidade, e nem deveria ser preciso o INE alertá-lo para o facto.
Isto porque - note bem, Dr. Pinho Cardão - as variações sazonais são algo que ocorre dentro de um mesmo ano, não de ano para ano. Explicando mais devagar: as estações e os meses do ano referem-se a um mesmo ano, em vez de a vários. Seria diferente se em 2008, por exemplo, só houvesse Primavera, ficando o Inverno reservado para um conjunto de outros anos, digamos 2003, 2009 e 2013.
Sucede que aos sujeitos que inventaram o calendário pareceu-lhes melhor repetir todos os meses em cada ano que passa, de modo que a sazonalidade tem lugar em cada ano, não de ano para ano. Se quiser fazer as coisas de modo diferente, o senhor terá primeiro que convencer o Dr. Santana Lopes a apresentar uma proposta na Assembleia da República (nunca se sabe, pode ser que ele o escute...), reunir uma maioria, fazer aprová-la e, no fim, avisar o INE e o povo em geral.
Mas, como o mundo não tem juízo, o mais natural é que não dê ouvidos ao Dr. Pinho Cardão.
E ainda há quem diga que os blogues estão a perder a graça.
(O resto do aludido post é uma tolice pegada, pelo que é de crer que só a família e os amigos mais chegados, sempre esperançados nas melhoras do paciente, tenham lido até ao fim.)
Esta noite…
Quem guarda o guarda?
Na acusação, o magistrado do Ministério Público refere que o condutor se deslocava a uma “velocidade desapropriada”. O juiz quis que fosse indicada a velocidade a que seguia o carro. Mas o magistrado do Ministério Público fez finca-pé:
“(...) Não concordamos com a decisão do juiz de instrução criminal. Nada mais há a apurar neste caso (...). O MP mantém na íntegra a acusação, passível de julgamento e de levar a que o arguido seja condenado”.
Assim não fez, como salienta o Tribunal da Relação:
“Atitude criticável e consciente [do MP], o que demonstra um entendimento curioso da função e inaceitável desrespeito por normas e procedimentos de interesse público. (...) Incompreensível desprezo pelos interesses em jogo – a morte de uma menor”.
PS — O pai da menina fez uma exposição ao procurador-geral da República, que foi arquivada.
No pasa nada
Quando o Expresso noticiou o caso Moderna, Portas deu uma conferência de imprensa para revelar que iria para os tribunais pedir uma indemnização de um milhão de contos ao semanário. Os diários do seguinte traziam um anúncio de página inteira com o montante da indemnização em causa. Depois, esqueceu-se do caso.
Quando agora regressou à direcção do CDS-PP, Portas deu uma conferência de imprensa para revelar que iria pôr o Estado em tribunal por causa das notícias que foram publicadas sobre o negócio dos submarinos. Parece que se voltou a esquecer de cumprir as formalidades.
Ontem, depois de o ministro da Agricultura lhe ter respondido à letra, Portas voltou a dar uma conferência de imprensa para anunciar que o caso será entregue aos tribunais.
Muita sorte teve Jaime Silva em Paulo Portas não lhe exigir um milhão de contos de indemnização. Lá se ia o FEOGA.
LER OS OUTROS
• Alexandre Homem Cristo, O Gato Fedorento que se cuide; o Menezes já ocupou o trono do humor em Portugal
• António P., O que não se aprende na escola ( I ) : Avaliação
• Bernardo Pires de Lima, “O meu PSD” e “O meu PSD” 2
• Filipe Nunes Vicente, LEMBRAS BEM
• Nuno Ramos de Almeida, Jornalismo substancial
• O Jumento, Ói Pedro, vais à manif?
• Pedro Marques Lopes, A vida de Brian
terça-feira, fevereiro 26, 2008
Novas Oportunidades
1. Português para principiantes
“Objectivo”, enquanto substantivo, significa alvo ou fim que se quer atingir, objecto de uma acção ou ideia, propósito ou intuito. Distingue-se de “promessa”, que quer dizer acto ou efeito de prometer.
Já “recuperar”, enquanto verbo transitivo, significa readquirir o que havia sido perdido.
Nota: antes de passar ao ponto seguinte, certifique-se de que apreendeu o sentido destas palavras.
2. Economia para principiantes
No que respeita à criação de emprego, os governos não podem fazer promessas [cf. ponto anterior], a menos que pretendam atafulhar o Estado de gente. Mas podem fixar objectivos [cf. ponto anterior].
A fixação de objectivos implica a adopção de medidas (coisa sinistra para VPV) que estimulem a iniciativa privada a criar postos de trabalho e a população activa a desenvolver as suas qualificações.
Nota: a deslocalização de empresas para o leste da Europa significa que o país já cortou com o modelo económico assente em mão-de-obra barata e que, daqui a 10 ou 15 anos, os novos países da União Europeia se irão deparar com o mesmo tipo de problemas (um “presente envenenado”).
3. Aritmética para principiantes
A mãe do João deu-lhe 15 euros para ele ir comprar uma saca de batatas. No caminho para a mercearia, o menino perdeu o dinheiro [15 euros, não se esqueça].
A mãe resolveu dar-lhe uma lição de vida. Pediu ao merceeiro que lhe desse emprego como moço de recados até que o João ganhasse o suficiente para recuperar [cf. ponto 1.] o dinheiro que havia perdido.
Quando o João abandonou a mercearia no fim das férias, o merceeiro entregou à sua mãe 25 euros pelo trabalho que ele efectuara. Significa que recuperou os 15 euros que havia perdido e ainda lhe restavam 10 euros.
Nota: para acompanhar esta parte do curso, basta-lhe utilizar a subtracção (uma das quatro operações básicas).
A palavra aos leitores
"O Dr. Miguel Frasquilho deu uma improvável entrevista ao Sol em que diz que ganhava a Sócrates numa mini-maratona. Pois sim, terá sido por isso que correram com ele da direcção parlamentar do PSD. Mas o seu sucessor, Patinha Antão, também parece ter uma passada maior do que a perna: na última quinta-feira, quando Filipe Pinhal dava início à sua intervenção em que iria arrasar os pressupostos que o PSD tinha apresentado para justificar a criação de uma comissão parlamentar de inquérito ao BCP, disse que se ausentava porque já estava atrasado para uma conferência de imprensa. Diga-se que esse evento tinha sido agendado para anunciar que o PSD ia requerer uma comissão de inquérito ao caso BCP. Isto é que é premonição! Isto é que é estar a frente do seu tempo. Não há quem agarre o PSD do Dr. Miguel Frasquilho nem este PSD do Dr. Patinha Antão."
LER OS OUTROS
• Ana Matos Pires, Bastonário (re)eleito. E?
• Filipe Nunes Vicente, STAROSTAS
• Miguel Marujo, Então porque não desapareces?
• Nuno Guerreiro Josué, A origem do conceito de “licença de parto”
• Pacheco Pereira, O Insurgente Okupado (ou os métodos da PIDE)
• Sindefer, Menezes o Sindicalista, candidato a 1.º Ministro
• Tomás Vasques, Choque tecnológico e Por cá, a «lucidez» está ao rubro
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
João Miranda e o Feijoeiro Mágico
Não é tanto pelo o tom calunioso que ele insiste em usar para se referir ao Câmara Corporativa, embora isso talvez devesse ser suficiente. Nem sequer pela casmurrice que torna o autor imune a qualquer contaminação de ideias que extravazem o seu limitado mundo intelectual - afinal, dentro de certos limites, todos temos direito às nossas manias.
Nada disso. O que me faz concluir pela inutilidade da continuação da nossa conversa é a manifesta má fé que subjaz a quase tudo o que o João Miranda escreve. Pois que outro nome haveremos de dar à sua persistente tentativa de misturar alhos com bugalhos e atribuir aos adversários opiniões que eles nunca sustentaram para mais facilmente poder refutá-las?
João Miranda gosta de simular um particular afecto pelo raciocínio lógico, mas, olhando de mais perto, torna-se evidente que apenas o desvario impele as suas pretensiosas elucubrações.
O que é que tudo isto tem a ver com o Feijoeiro Mágico? Nada: foi só um artifício - consideravelmente mais sério do que aqueles a que ele recorre - para enfeitar o post.
Descubra as diferenças
De que riem Santana, Telmo e Portas?
O procurador-geral da República decidiu abrir um inquérito ao caso Casino de Lisboa. Estando a directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), Cândida Almeida, tão envolvida na Operação Furacão, o CC faz-lhe a papa:
Artigo 27.º da Lei do Jogo, antes dos governos PPD/PSD-CDS-PP (redacção resultante do Decreto-Lei n.º 10/95, de 19 de Janeiro):
Artigo 27.º
Casinos
1 - Os casinos são estabelecimentos do domínio privado do Estado ou para ele reversíveis, pelo mesmo afectados à prática e exploração de jogos de fortuna ou azar e actividades complementares, em regime de concessão, nas condições estabelecidas no presente diploma, e que visam, fundamentalmente, assegurar a honestidade do jogo, a concentração e comodidade dos jogadores e proporcionar uma oferta turística de alta qualidade.
2 - A concessionária poderá instalar meios de animação nos casinos, nos termos legais.
3 - Sem prejuízo do disposto no n.º 1, o decreto regulamentar a que se refere o artigo 11.º, ao determinar a abertura de concurso, poderá:
a) Autorizar a instalação de casinos em empreendimentos turísticos;
b) Determinar que os casinos que não sejam do domínio privado do Estado não venham a reverter para este no termo da concessão.
4 - Os casinos devem satisfazer os requisitos de funcionalidade, conforto e comodidade próprios de um estabelecimento turístico de categoria superior e serão dotados de mobiliário, equipamento e utensilagem cuja qualidade e estado de funcionamento devem manter-se continuamente adequados às exigências das explorações e serviços respectivos.
5 - A execução, nos casinos, de quaisquer obras que não sejam de simples conservação carece de autorização, a conceder pela Inspecção-Geral de Jogos, ouvida a Comissão de Apreciação de Projectos de Obras (CAPO).
6 - É vedada a utilização da palavra «casino», só ou em associação com outros vocábulos, na denominação de quaisquer pessoas colectivas ou com nome de quaisquer outros estabelecimentos ou edifícios que não sejam os referidos neste artigo.
Artigo 27.º da Lei do Jogo, depois dos governos PPD/PSD-CDS-PP (redacção resultante do Decreto-Lei n.º 40/2005, de 17 de Fevereiro):
Artigo 27.º
[...]
1 - Os casinos são estabelecimentos que o Estado afecta à prática e exploração de jogos de fortuna ou azar e actividades complementares, em regime de concessão, nas condições estabelecidas no presente diploma, e que visam, fundamentalmente, assegurar a honestidade do jogo, a concentração e comodidade dos jogadores e proporcionar uma oferta turística de alta qualidade.
2 - Os casinos integram o domínio privado do Estado ou, quando assim não suceda, são para ele reversíveis, no termo da concessão, sempre que tal seja determinado por decreto-lei ou pelo decreto regulamentar a que se refere o artigo 11.º
3 - Sem prejuízo do disposto nos n.os 1 e 2, o decreto regulamentar a que se refere o artigo 11.º, ao determinar a abertura do concurso, poderá autorizar a instalação de casinos em empreendimentos turísticos.
4 - A concessionária poderá instalar meios de animação nos casinos, nos termos legais.
5 - (Anterior n.º 4.)
6 - (Anterior n.º 5.)
7 - É vedada a utilização da palavra «casino», só ou em associação com outros vocábulos, na denominação de quaisquer pessoas colectivas ou como nome de quaisquer outros estabelecimentos ou edifícios que não sejam os referidos neste artigo, com excepção das associações empresariais e profissionais específicas do sector.
Ooooops, se se quiser perceber a história, leia-se também o artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 40/2005 (a cereja em cima do bolo):
Artigo 2.º
Âmbito de aplicação
As alterações às normas do Decreto-Lei n.º 422/89, de 2 de Dezembro, com a redacção que lhe foi dada pelo Decreto-Lei n.º 10/95, de 19 de Janeiro, efectuadas pelo presente diploma, aplicam-se a todos os contratos de concessão em vigor.
Foi esta norma que levou o Inspector-Geral de Jogos a dar um parecer no sentido de que a nova regra de não-reversibilidade se aplicava retroactivamente ao Casino de Lisboa. Parecer sobre o qual o então Ministro Telmo Correia exarou o já famoso "Visto. Tomei Conhecimento. Dê-se conhecimento ao requerente". Acto que, no entender do CDS, não vale nada, mas que permitiu à Estoril-Sol obter o financiamento bancário que pretendia.
Sucessões
“Raul Castro sucede ao irmão Fidel no comando de Cuba. Foi um processo sem surpresas, como acontece regularmente nos regimes que não são democráticos.”
Público de hoje (secção das setinhas)
Concordo com o extracto transcrito, embora não entenda por que se atribui ao irmão de Fidel a setinha para cima. Mas não foi para escrever o epitáfio de um regime em acelerada decomposição que o assunto vem à baila.
É que valerá a pena reflectir sobre as sucessões nos grupos económicos portugueses. Não acontecem também através de processos “que não são democráticos”?
Essa figura mítica que dá pelo nome de João Miranda entrará de rompante na blogosfera, enquanto as bactérias continuam a alourar em lume brando, para lembrar que as sucessões nos grupos económicos respeitam apenas aos accionistas — e não é que, em parte, até tem razão?
Só que, no caso das empresas cotadas em bolsa, os accionistas minoritários (em número elevado) não são tidos nem achados quando ocorrem as sucessões. Voltará à carga o João Miranda: — É um processo democrático, porque a posição do capital maioritário prevalece.
Isso é verdade, mas os accionistas minoritários não teriam, ao menos, o direito de conhecer previamente os critérios adoptados na escolha? E as regras a seguir? Por exemplo: por que Jardim Gonçalves escolheu Teixeira Pinto para lhe suceder na presidência do BCP, sabendo-se que ele nunca foi bancário na vida?
Não seria altura de a CMVM impor um código de conduta às empresas cotadas? Condorcet pode ajudá-la a fundamentar a coisa — ou seja, os direitos das minorias.
domingo, fevereiro 24, 2008
As manias do INE (reconstruído por Morais Sarmento)
Mas o JM parece recusar-se a aceitar a realidade: “se no momento em que fez a promessa Sócrates tivesse dito que a criação de 150 mil empregos seria acompanhada pela criação de mais de 150 mil desempregados muitos não teriam votado nele.” Não foi. A ser assim, daria “emprego líquido” nulo.
O que os números do INE confirmam é que foram criados 94 mil postos de trabalho — mais os que correspondem ao do número de pessoas que foram despedidas (no mesmo período).
Apesar de a argumentação do JM ir no sentido de aceitar implicitamente esta evidência, tenta, em seguida, justificá-la de uma forma estapafúrdia.
2. Se o JM faz muito bem em expressar a sua opinião, parece-me no entanto que, para ter credibilidade, deveria cuidar dos pressupostos que utiliza.
Afirma o JM que o famigerado Sócrates conseguiu recriar o Ovo de Colombo na questão do emprego. Diz ele que criar empregos tendo em conta que a população activa está a crescer não é nenhum feito: — Assim também eu, intui-se das suas palavras. Tem, aliás, uma frase que não resiste à lógica, quanto mais à economia ou à prática política: “Se o número de trabalhadores disponível expande é natural que o número de empregados aumente. Os novos trabalhadores criam a procura necessária para sustentar os novos empregos.”
Como é que é? É o facto de haver mais trabalhadores disponíveis que faz com que haja mais trabalho? Nem em Portugal nem na Cochinchina isso acontece.
Em abstracto, isso só seria admissível numa lógica radicalmente liberal do estilo: maior oferta de mão-de-obra, redução dos salários, substituição de capital por trabalho. O país está muito longe deste modelo e, para mais e é conhecido, os salários estão a aumentar (poucochinho, é verdade).
3. Mas a refutação mais clara da tese do JM é o desempenho dos governos PPD/PSD-CDS/PP. Veja-se: no segundo trimestre de 2002, havia 5,376 milhões de activos em Portugal e, no primeiro trimestre de 2005, havia 5,507 milhões de activos.
Seria fácil, portanto, que o número de empregados aumentasse? Pois sim, mas o INE anda com a mania de que o número de empregados desceu, nesse período, de 5,158 para 5,094 milhões de pessoas. Ou seja, apesar do aumento de activos, o PSD conseguiu que o número de empregados se reduzisse em mais 63 mil (e, já agora, que o número de desempregados aumentasse 170 mil).
Vamos ler a carta do Zé à Zita, João Miranda?
O dia em que Lobo Antunes foi censurado
Veja-se o que se escreve hoje nos jornais:
• No DN:
«Ontem esse espaço de "discussão" consistiu no seguinte: três horas e meia de sessão e 18 discursos consecutivos de elogio à governação. Única presença minimamente surpreendente: João Lobo Antunes, mandatário de Cavaco Silva nas últimas eleições presidenciais e membro do Conselho de Estado designado pelo Presidente da República.»
“Na tradicional corrida a umas palavrinhas do líder, ganhou a medalha de ouro o sexólogo Júlio Machado Vaz.”
• No JN:
“O psicólogo Júlio Machado Vaz, o neurocirurgião João Lobo Antunes, António Vitorino, Joaquim Gomes Canotilho foram alguns dos oradores do encontro de ontem. O constitucionalista de Coimbra apresentou as 15 marcas da modernidade socialista concluindo pela "bondade intrínseca" das medidas tomadas nos últimos três anos.”
• No CM:
“O ex-ministro da Saúde Correia de Campos, que foi substituído na sequência da polémica sobre o encerramento das Urgências, fez questão de marcar presença no evento. Quando o nome do ex-ministro foi referido no discurso do médico João Lobo Antunes todo a sala se levantou para o aplaudir, tendo Correia de Campos agradecido o apoio. A ministra da Saúde, Ana Jorge, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, não estiveram presentes. A primeira porque acompanhou Cavaco Silva na visita de dois dias ao Norte e o segundo porque está em Angola em missão oficial.
Presentes estiveram os ilustres constitucionalistas Vital Moreira e Gomes Canotilho, o ex-comissário europeu António Vitorino, o presidente da Associação Comercial do Porto, Rui Moreira, o professor universitário António Câmara, prémio Pessoa em 2006, e o sexólogo Júlio Machado Vaz.”
• No Público (sem link):
“A seguir à intervenção do secretário-geral do PS discursou o coordenador do fórum, Gomes Canotilho, seguindo-se as participações de 15 convidados, entre eles o professor catedrático António Nóvoa (que se centrou no ensino do inglês no primeiro ciclo), Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto (Simplex), ou Helena Isabel (interrupção voluntária da gravidez).”
Sugestões de leitura
“Em dez escassos dias, Menezes deu a volta ao seu mundo. Da postura de Custer, à frente da carga ingénua do Sétimo de Cavalaria, passou à de David Crockett, nas paliçadas do Álamo: se está perdido por mil, "let´s give America something to remember". O PSD de Menezes já está a posar para a História.”
“(…) se a decisão mais razoável for ter apenas um aeroporto, a discussão do que se faz com a actual infra-estrutura deve ser feita o mais cedo possível, e tomadas acções que a tornem irreversível. Quanto mais se adiar essa discussão, mais se tornará provável a manutenção dos dois aeroportos, e a criação de mais um elefante branco (o novo aeroporto) e um elefante cinzento constipado, isto é, congestionado (o actual aeroporto).”
sábado, fevereiro 23, 2008
Aumentar a litigância para inverter o processo de abandono do interior
Mais tarde, a partir de um artigo do Público, que cita um trabalho promovido pelo Observatório Permanente da Justiça Portuguesa, dei conta de que “mais de um quarto (62) das 232 comarcas recebe por ano menos de 500 processos.”
Em termos globais, a situação era, então, assim relatada:
• 69 por cento das comarcas (147) recebe anualmente menos de 2.000 processos;
• 18 por cento recebe entre 2.000 e 4.000 processos por ano;
• Só em oito por cento das comarcas a entrada de processos é superior a 4.000 por ano.
Estou a ver o Zé (esse mesmo que explicou aritmética à Zita) a pensar com os seus botões, enquanto passa à porta do tribunal:
— Já agora que ficastes por cá, deixa-me meter um processo ao Manel, que não vou com a cara daquele marau.
Contado, alguém acredita?
A palavra aos leitores
“Pequena história curiosa do grupo parlamentar do PSD: Sabe aquela do deputado que pediu desculpa por ter dito a verdade?”
LER OS OUTROS
• Filipe Nunes Vicente, PALMADAS: “Desde que os meus filhos cresceram nunca foi preciso dar-lhes uma estalada. (…) Tudo isto levou muito tempo, muitas horas juntos, muita algazarra, muitas beijocas pelo meio. Eles fazem - e farão - asneiras como todos os miúdos, mas são livres: conhecem os limites que ultrapassarão quando quiserem e suportando as consequências dos seus actos. Não foram criados num mundo imaginário.”
• Ivan Nunes, Ensaios Cépticos: “Nalguns aspectos deste diagnóstico de «reversão» do processo civilizacional [elaborado por Hobsbawm], há um eco do «tudo o que é sagrado é profanado», que Karl Marx celebremente escreveu no Manifesto Comunista, referindo-se à forma como o capitalismo desintegra as velhas convenções sociais.”
• maradona, Escandaleiras: “Numa hora (60 minutos) precipitou-se sobre Lisboa 70 por cento de TODO o volume de água que cai em Paris durante TODO o mês de Fevereiro.”
• Paulo Pinto Mascarenhas, O CDS e a Ala Liberal - uma confissão pessoal: “(…) percebo que o CDS talvez seja pequeno porque alguns dos seus militantes e dos seus dirigentes o querem assim. Pequenino. Um partido quase confessional, tipo clube, onde se encontram aos domingos depois da missa. Enquanto puder vou tentar que isto não seja verdade. Por isso mesmo, acabei de assinar a petição online da Ala Liberal. Já está.” [Há mais 50 que já o haviam feito, segundo o Expresso da semana passada.]
• Pedro Picoito, À bomba: “Camarada, basta uma frase do Cavaco e passas o resto da vida a ver projectos de etars em Gaia.”
• Tomás Vasques, O vício do jogo: “Esta história do Casino ainda vai dar jackpot.”
Para um mestrado em jornalismo
"A tónica [?] costuma ser dada por Rui Rio. Cirurgicamente. "Seria demasiado grave para o país que o PSD não honrasse os seus compromissos e deitasse fora uma reforma que está a ser preparada há tanto tempo, em nome da estabilidade da governação", disse ontem à TSF o presidente da Câmara do Porto, em reacção à propalada ruptura nas negociações da nova lei autárquica.
A declaração configura a demarcação mais clara até ao momento daquele que é tido como o arqui-rival de Luís Filipe Menezes e um potencial candidato à liderança do PSD. Rui Rio tem, desde as directas, sido bastante elogioso para o Governo socialista, chegando ao ponto de, numa entrevista ao Expresso, ter dito: "Não me queixo de Sócrates". Como se não bastasse, já este mês, o autarca veio reconhecer que o Executivo do PS "desencalhou" uma exigência sua de há vários anos e que tinha a ver com o reforço de efectivos da Polícia Municipal na Invicta.
Agora, a propósito da lei eleitoral autárquica, o autarca foi mais longe e deixa o aviso, também em tom de ameaça: "Do ponto de vista político, se o PSD tiver medo da contestação, então nunca na vida, fará uma reforma". Palavras que caíram mal no núcleo duro de Menezes (...)".
♪ Charles Aznavour
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
Da série "Frases que impõem respeito"™ [129]
"Se tivesse existido um concurso [para a concessão do casino de Lisboa] e não um ajuste directo, a cidade ganhava mais. Porque os concorrentes eram obrigados a subir as contrapartidas".
Manuel Violas, presidente do grupo Solverde, a segunda maior concessionária de casinos em Portugal, indignado com Santana Lopes, a quem acusa de ter mentido
Compromisso com...
Concretamente, o Compromisso Portugal foi analisar as soluções propostas pelos dois partidos para as questões que o próprio Compromisso Portugal havia colocado em Dezembro.
Quanto à questão do financiamento partidário, foi esta a apreciação feita pelo Compromisso Portugal:
"3. Como garantir um sistema de financiamento dos partidos transparente e credível?
Relevância da Questão
A liderança pelo exemplo é uma exigência das sociedades civilizadas. Neste capítulo, os partidos políticos não têm sabido assumir a sua responsabilidade no sentido de serem um exemplo de transparência e cumprimento da lei, nomeadamente ao nível do seu financiamento, das suas contas e dos seus gastos eleitorais. A isto acresce que a faculdade de financiamentos de origem privada potencia focos de corrupção e de tráfico de influências que urge afastar. Com esse objectivo, seria aconselhável que se assumisse a necessidade de limitar o financiamento dos partidos exclusivamente a fundos públicos e se adoptassem esquemas de controle de despesas e de contas eficazes."
Mas, continuando, veja-se só, a título de curiosidade, a avaliação [pp. 111 e 112] que o Compromisso Portugal fez do programa eleitoral do PSD:
Proposta apresentada no programa
PSD
Esta temática não é abordada
Adequação e eficácia da proposta
PSD
Total inadequação
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
O CC também se abalança a fazer concursos

“Se querem que saia terão de tirar-me à bomba”
Quem disse:
• João Miranda, investigador em biotecnologia, colado ao computador em diálogo ininterrupto com os seus estimáveis leitores, enquanto deixa as bactérias a guisar em lume brando?
• Berta Gomes, quando Zezé Camarinha a instava a desamparar o colchão, após este ter feito prova, com a precisão que os instrumentos rudimentares à mão o permitiam, da localização do ponto G, já que tinha outra freguesa à bica?
• Alexandre Relvas, logo que círculos não identificados o pressionaram a renunciar ao cargo de CEO da Logoplaste para assumir a candidatura à liderança do PSD?
• Marcelo, respondendo ao repto de Menezes para abandonar as prédicas dominicais, ao mesmo tempo que dizia entre dentes que eles já lhe haviam feito muito mal, quando o obrigaram a devolver o Mercedes ao Conde de Anadia (rendimentos em espécie)?
• Paulo Bento, no final do Belenenses-Sporting, perdendo por breves instantes a tranquilidade?
• José Manuel Fernandes, ao ser confrontado por Ângelo Paupério com as contas de 2007 do Público, procurando convencer o presidente da Sonaecom de que o seu desempenho não se avalia apenas pela óptica financeira?
• Luís Filipe Menezes, imediatamente antes de se desfazer em lágrimas na última reunião da comissão política?
• Manuel Subtil, quando estava barricado nas instalações da RTP?
• Mário Assis Ferreira, CEO do Estori-Sol, depois de explicar aos jornalistas que quem dá e tira ao inferno vai parar?
NOTA — O CC ainda não está em condições de dar prémios aos leitores que tiverem acertado na resposta. Por isso, procure aqui saber quem foi o autor deste comovente desabafo, que parece contrariar a visão idílica que o Público ontem dava à estampa.
LER OS OUTROS o maradona
Parece que foi publicado no Público...
... este texto, que começa com a frase "Durante algumas horas choveu e imediatamente passámos da gravíssima seca para o problema das cheias.". Helena Matos, muito evidentemente, não sabe a verdade que esta frase contém. Helena Matos, como todo o caralhinho de articulista que se preze, sai logo dali para uma visão do país e uma introspeção à alma do povo português. Há anos e anos que ando a ler aspirantes a eças de queiroz, uma pessoa aborrece-se. Percebem porque é que só leio jornais estrangeiros? Vou ensinar uma coisa à Helena Matos, pelo método da descoberta. Começaria por perguntar à Helena Matos se sabe onde é que chove mais: em Inglaterra ou em Portugal? Pedir-lhe-ia, depois, para interpretar os gráficos respeitantes à distribuição da pluviosidade média por mês para Lisboa e para Londres (tem que andar com a barra para baixo, procure bem ou peça ajuda). Nesses gráficos, por exemplo para o mês de Fevereiro, verificará que em Lisboa chove, em média, 61 mm de chuva, e em Londres 40 mm. Ou seja, em Lisboa cai, em média, uma maior quantidade de água em Fevereiro do que em Londres. Ora, sabendo que em Londres, se bem me recordo (não tenho tempo para verificar agora, tenho que ri tomar banho), chove, por ano, mais ou menos a mesma quantidade de água que em Lisboa, não acha que a frase "durante algumas horas choveu e imediatamente passámos da gravíssima seca para o problema das cheias." vem carregada de uma ironia que é bem capaz de fazer ricochete? Está a perceber ou quer que explique melhor? Pense lá bem: quando vai a Londres, não lhe parece que lá chove mais que na Rua do Viriato? Se lhe parece que lá chove mais que cá, que conclusões retirar do facto de se verificar, na volta das estações meteorologicas, que em Lisboa cai mais água que em Londres?
Cheias na Alemanha:

Cheias em Veneza:

Cheias na Suiça:

Cheias em França:

Cheias na Bélgica:

Cheias em Inglaterra:

* se for necessário eu depois explico porque é que é impossivel acabar com as cheias.
Sai mais um Nobel para a mesa do canto!
"Se o número de trabalhadores disponível expande é natural que o número de empregados aumente. Os novos trabalhadores criam a procura necessária para sustentar os novos empregos."
Mesmo que a Lei de Say - segundo a qual a oferta cria a sua própria procura - fosse verdadeira (e não é), isso só seria válido para o conjunto da economia mundial.
♪ Jean Ferrat

"Ils s'appelaient Jean-Pierre, Natacha ou Samuel
Certains priaient Jésus, Jéhovah ou Vichnou
D'autres ne priaient pas, mais qu'importe le ciel
Ils voulaient simplement ne plus vivre à genoux"
Nuit & Brouillard
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
Jornalismo
“Luís Filipe Menezes estará à espera do período crítico para avançar com a artilharia pesada. (…) Está-se a guardar. É isto que diz a entourage do líder do PSD, por estes dias. E, a avaliar pelo sumiço de Menezes, é mesmo bem provável que assim seja. O autarca de Gaia sabe que, neste momento, ninguém está muito interessado na batalha político-partidária: o que conta é o que se passará daqui a uns meses, talvez daqui a um ano. Tem-se dito que o presidente social-democrata aposta num governo sombra, que prepara alternativas sectoriais. Antecipando a sofisticação da comunicação de Menezes, adepto das estratégias modernas do marketing político, a mensagem e o programa a contrapor ao Governo de Sócrates hão-de soar modernos, agressivos, credíveis e articulados.”
Ricardo Dias Felner, Público, hoje
PS - Afinal, não se confirma que a ideia seja “arrancar com isto”.
O Zé explica aritmética à Zita
“(…) Era como se uma empresa com 100 trabalhadores, despede 90, admite 10, e o Senhor Primeiro-ministro diz muito contente: — Criei 10 postos de trabalho. Isto é tentar enganar os portugueses (…).”
Zita Seabra, comentando para a SIC a entrevista de Sócrates na segunda-feira
O Zé, esse mesmo, ficou conhecido por ser íntimo de Durão Barroso, e, por isso, ganhou uma certa afeição por Zita Seabra, uma indefectível apoiante de todos os líderes do PSD. Quando a viu a fazer aquela triste figura na televisão, o Zé enviou-lhe lá da aldeia uma carta para a ajudar a aplicar as operações básicas:
“Companheira Zita,
Vi-a na TV e folgo em saber que parece cada vez mais jovem. A fuga do cativeiro, como a daquela moça da Áustria e a da outra do Brasil, fez-lhe bem. Pareceu-me no entanto algo angustiada com a minha situação e a dos outros Zés. Agradeço-lhe que aí em Lisboa zele por nós, mas, embora a situação seja de facto difícil, não é caso para estar tão angustiada.
Faça comigo as contas, Companheira Zita, e verá que há uns sinais de que a situação pode estar a melhorar. Olhe lá para isto devagarinho:
Aqui a nossa aldeia tinha, em 2006, 100 pessoas em condições de trabalhar (acho que vocês aí lhes chamam activos). Desses, cinco (5) estavam desempregados.
Façamos a primeira conta: a taxa de desemprego é de cinco por cento (5%). Companheira Zita, chega lá através de duas operações básicas: divide 5 por 100 e, depois, multiplica o resultado por 100. Está a acompanhar o raciocínio?
No ano seguinte (2007, o saudoso ano do referendo), não morreu ninguém cá na terra, felizmente. Mas houve várias circunstâncias que contribuíram para alterar o número de pessoas dispostas a trabalhar:
• Houve 10 jovens que acabaram o 12.º ano e começaram a procurar emprego;
• Fechou uma empresa (que resolveu mudar-se para a Roménia, sem que a Companheira Zita tivesse procurado fechar as fronteiras para a impedir de zarpar), atirando para o desemprego seis (6) pessoas, que, por acaso, são família chegada cá do Zé;
• Nem tudo é mau, porque outras 14 pessoas cá da terra conseguiram emprego numa fábrica que foi inaugurada em 2007.
Está preparada, Companheira Zita, para fazer mais umas contas? Vamos a isso, então, passo a passo:
Se se recorda, havia 5 desempregados em 2006. A estes, há que juntar os 10 jovens que concluíram os estudos e estão à procura de emprego, bem como as 6 pessoas que trabalhavam na empresa que foi “deslocalizada”. A fazer fé no Prof. Ambrósio, que me ensinou as quatro operações básicas, teremos 7 pessoas desempregadas.
Já estou a ver a Companheira Zita a empertigar-se e, esticando o dedo, questionar: — Como assim, ó Zé?
Ai Companheira Zita, e então os 14 trabalhadores, que, entretanto, arranjaram emprego na fábrica que abriu, não são gente? Veja lá a conta: 5+10+6-14 = 7.
É claro que a taxa de desemprego aumentou para 6,4 por cento [Companheira Zita, já sabe: divide 7 por 110 e, depois, multiplica o resultado por 100].
Mas a verdade é que foram criados 8 postos de trabalho, porque inicialmente estavam empregadas 95 pessoas (100-5) e agora têm trabalho 103 pessoas (110-7).
Ou seja, foram criados 8 postos de trabalho em termos líquidos (perderam-se 6, mas ganharam-se 14). É este o fenómeno de que dá conta o INE. Não há contradição entre aumento de taxa de desemprego e aumento do emprego líquido.
Companheira Zita, quando tiver dúvidas, se não quiser esclarecer-se com os companheiros Menezes, Santana ou Ribau, não hesite em emailar cá para o Zé. Agora já cá temos a banda larga, como sabe.
Ao seu dispor,
O Zé”
PS — Sugere-se a leitura do post Coisas que convém saber de João Pinto e Castro, que sintetiza o que está em causa na questão do (des)emprego.
Da série "Frases que impõem respeito"™ [128]
“Este meu PSD não tem nada a ver com isso”.
Luís Filipe Menezes, demarcando-se, em declarações à TSF, dos financiamentos ilegais da Somague ao PSD
Crimes e escapadelas — take 3
O take 2 do caso Somague não tem um argumento original: a factura foi paga pelo elo mais fraco da cadeia. Pim.
Já o take 3 é mais interessante. O argumento só pode ter saído de uma mente brilhante: o partido vai «realizar, de imediato, uma auditoria administrativa e financeira, às contas do PSD, desde 2001, por uma entidade externa e independente».
Ao pretender justificar que se tratou de uma falha técnica — a Somague andava entretida a pagar as contas do PSD e ninguém do partido se apercebera —, Ribau Esteves puxou a manta para cima, destapando os pés: a “entidade externa e independente” que vai auditar as contas do PSD pode detectar mais situações ilegais. Que vai fazer o secretário-geral do partido? Denuncia as situações? Entrega o PSD à justiça, passando-se para o PPD? Não se sabe — é o tabu a que Ribau também tem direito.
terça-feira, fevereiro 19, 2008
Pérolas de fim-de-semana [2]
Ninguém que esteja no seu perfeito juízo põe em causa o valor da educação ou deixa de valorizar a qualificação dos cidadãos como instrumento essencial para o desenvolvimento de um país. Pode criticar-se o sistema de ensino, as políticas da educação ou o que quer que seja, mas colocar em causa o valor intrínseco do estudo e da formação académicos não é sério.
Se é uma triste realidade haver milhares de licenciados no desemprego (e que devem ser tomadas medidas para resolver o problema), a solução não é, nem nunca foi, deixar de ter licenciados. Portugal não é um país com excesso de licenciados e está longe de ter a formação média dos parceiros mais evoluídos da UE. A solução passa por mais e melhor educação, se se quiser estar à altura de disputar o futuro.
Concorde-se ou não com o que é dito, a postura de João Goulão Crespo no Diário Económico de hoje é o exemplo de como o desemprego dos licenciados pode ser discutido de forma séria, estimulante… e não demagógica.
Acresce que dados recentes evidenciam que há áreas (aqui e aqui) em que manifestamente os licenciados não chegam para as encomendas. E essa circunstância, para além de revelar o aumento da procura de jovens licenciados em áreas técnicas, justifica que se reflicta sobre a polémica actual relativamente à panóplia de cursos superiores existentes.
Pérolas de fim-de-semana [1]
Um dos pontos altos da leitura recreativa são os escritos de José António Saraiva, designadamente na Tabu. Já se sabia que o director do Sol é o criador da teoria saraivocentrista, mas há semanas em que surpreende até os leitores mais fiéis.
Neste sábado, o destaque vai para esta pérola: “a pessoa com quem eu estava ficou muito impressionada: um prémio Nobel levantar-se para me vir cumprimentar!” Referia-se a Ramos-Horta.
Palavras para quê? Será que o Pequeno Arquitecto ainda não percebeu que o grande privilégio de se relacionar com um (re)conhecido, com um prémio Nobel, é assistir à História de perto, com oportunidade de se participar neste devir do mundo? Invocar que se é cumprimentado num restaurante não cabe nos rodapés da História, mas apenas numa manchete de literatura cor-de-rosa.
LER OS OUTROS
• António P., Trocar de papéis
• Eduardo Pitta, BCP LOW PROFILE
• João Galamba, Defesa da honra
• João Pinto e Castro, Santa ignorância
• Vital Moreira, Jornalistas
Serviço ao domicílio
O documento, alegadamente entregue ao então ministro Carlos Tavares em Abril de 2003, continha as regras do concurso público para a privatização da empresa agrícola do Estado, o caderno de encargos e uma proposta do Grupo Amorim com as delimitações das áreas para possível urbanização e quais as que deviam ser dedicadas à exploração agrícola.
Mais recentemente, o Expresso divulgou uma carta em que a Estoril-Sol propôs ao Governo de Santana & Portas uma específica alteração à Lei do Jogo, de modo a consagrar a não-reversibilidade para ao Estado do edifício do Casino de Lisboa.
Nessa carta era expressamente sugerida uma nova redacção para o artigo 27.º da Lei do Jogo, redacção que consagrava a posição defendida (contra o entendimento, em sentido contrário, da Inspecção Geral de Jogos) pela própria Estoril-Sol.
Estranha semelhança quanto ao modus operandi, não parece? Será consequência de o apoio jurídico do Grupo Amorim ser aparentemente assegurado pela mesma personalidade que presta serviços à Estoril-Sol?
Favorecimentos (i)legítimos
Mas, quando o presidente da Comissão Europeia garante que não se lembra de qualquer decisão que tenha “favorecido ilegitimamente qualquer empresa privada”, talvez pudesse informar, então, de quais foram as empresas privadas que o seu governo favoreceu legitimamente. Aquelas de que se lembra, pelo menos… Estará a Somague no rol? E a Estoril-Sol?
Notícias do dia
"Sócrates revelou segurança e conhecimento dos dossiês."
Notícia jornalisticamente correcta:
"Sócrates faz tabu com a recandidatura."
(Dedicado àquele labrego que vocês sabem.)
Recrutamento — DOIS ASSESSORES DOIS
• Integrados na Secção de Reportagem, assegurarão a ligação às sedes partidárias e a cobertura das visitas dos líderes de opinião ao país real.
• Profissionais de grande dinamismo e motivação, fortemente orientados para os resultados.
• Capacidade intuitiva na identificação de temas a explorar.
• Conhecimentos adquiridos no ensino básico (completo).
• Aptidão para transcrever press releases.
• Idade até aos 45 anos, com experiência relevante na área da política suja.
• Ouvinte persistente da Rádio Cidade (ou, pelo menos, da RFM).
• Capacidade de distinguir o Manuel Germano do género humano.
• Portefólio bem recheado de moças de bordel para postar (à sexta-feira).
• Tratamento tu-cá-tu-lá-pontapé-na-nêspera com agências de comunicação.
• Desafio profissional estimulante com progressão em função dos objectivos, num projecto ambicioso com um horizonte temporal de 50 anos.
• Pacote salarial agressivo e excelente componente de prémios (ao estilo da administração do BCP na fase Opus Dei).
• Viatura de serviço combi (que servirá de escritório nas deslocações).
• Formação profissional contínua (vide foto do centro de formação).
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
LER OS OUTROS
• Eduardo Pitta, O CASO ABRANTES
• Filipe Nunes Vicente, O MIDAS DE GAIA
• João Pinto e Castro, Perder tempo
• Luís Rainha, Fazer a festa, lançar os foguetes
• Lutz Brückelmann, Multiculturalismo e Inocentes
• Tomás Vasques, Os politicos no seu melhor
Sou pequenino, mas também sou gente
domingo, fevereiro 17, 2008
Sugestões de leitura — A morte de Trotsky e assim
“A atribuição eficiente de recursos escassos — aquilo que a gíria apelida de “economicismo” — é essencial para garantir que toda a população possa ter acesso aos cuidados adequados e não só aos SAP e outros substitutos modernos do João Semana (com a diferença não desprezável de agora serem financiados pelo Estado e proporcionarem ganhos confortáveis aos que percebem as reais consequências das políticas assentes no princípio de que “terá sempre de haver dinheiro”).”
“Dêem-se as voltas que se derem e por crucial que seja fazermos essa distinção, ela, hoje por hoje, não é possível. A indignação dos inocentes não se consegue distinguir com nitidez do descarado calculismo dos culpados. E a primeira resposta para o problema, a primeira condição para uma justiça operante e efectiva, é, como toda a gente entende, a prontidão. O tempo é vida nos seres finitos. Mas à justiça voltarei um dia destes: não na óptica de juízes, delegados do Ministério Público, advogados ou agentes de investigação criminal, mas na mais simples e mais importante, que é a do cidadão. Que não tem nenhum interesse corporativo a acautelar.”
“Em muitos processos de forte componente mediática (‘Operação Furacão’, ‘Apito Dourado’) a PJ não teve qualquer intervenção, tendo o processo sido avocado pelo MP, que em muitas situações exerce, de forma atípica e estranha, funções de polícia, o que é prejudicial porque faz hipotecar o distanciamento desejável e a sua autonomia. E quando as coisas correm mal a PJ também paga a factura dos azedumes públicos e dos media.”
“A Associação Sindical dos Juízes Portugueses deu mais um tiro no pé. A falta de visão estratégica levou-a a rejeitar a nomeação, pelo Executivo, de um gestor para o Tribunal. Faz todo o sentido que o gestor seja indicado pelo Governo e o juiz presidente nomeado pelo Conselho Superior da Magistratura.”
D. Sebastião de regresso à “cena nacional”
Já havia dado conta de que os resultados de António Borges na Goldman Sachs não tinham sido satisfatórios. Avaliações rigorosas dão nisto: o check-in já estava de sobreaviso. Aparentemente, uma boa notícia para Alter do Chão, que veria o presidente da assembleia municipal assumir em pleno as funções para que foi eleito.
Mas, como que amortecendo a aterragem em Lisboa, Ângela Silva, no Expresso de ontem, informa de que o D. Sebastião tem outros planos: “António Borges vai deixar a vice-presidência da Goldman Sacks (?) e prepara-se para intervir mais na cena nacional.” Também está bem.
CC caça-talentos: "uma qualquer felicidade" para evitar "sarilhos para a vida"
“(…) como ninguém, ou quase, acredita, ou gosta, ou confia, ou está feliz com o que o futuro lhe promete, dificilmente dá conta de uma qualquer felicidade. Se o povo acreditasse que no futuro, próximo ou mais longínquo, iria ficar melhor, ganhar mais, ser mais livre, partilhar uma sociedade mais justa, mais solidária, receber a velhice sem medo ou angústia, se acreditasse num mundo mais seguro, mais afável e acolhedor, então o povo andaria mais feliz porque o que aí vem é melhor do que aquilo que já passou. (…) E mais: esse futuro antipático já se começou a perceber agora, no presente, o que só inflaciona a angústia. (…) E com este Estado que tudo pode, tudo controla, tudo esmaga à sua vontade o contribuinte, o cidadão normal, ou cumpre a preceito e à risca ou arranja sarilhos para a vida.”
























