quarta-feira, setembro 30, 2009

O CC confirmou que o espião ainda anda pelo site da Presidência

            “Não conheço o assessor do Primeiro-Ministro nele referido, não sei com quem falou, não sei o que viu ou ouviu durante a minha visita à Madeira e se disso fez ou não relatos a alguém.

            Sobre mim próprio teria pouco a relatar que não fosse de todos conhecido. E por isso não atribuí qualquer importância à sua presença quando soube que tinha acompanhado a minha visita à Madeira.”
              Da declaração de Cavaco ao país


Fernando Lima não fez mais do que o seu dever quando foi, naquela manhã de Abril de 2008, até à Av. de Roma entregar um dossiê completo sobre Rui Paulo Figueiredo a Luciano Alvarez, editor do Público. O jornal da Sonae fez muito bem em denunciar as patifarias do tal assessor do primeiro-ministro. Cavaco tem igualmente razões para estar preocupado com a segurança dos seus e-mails.

Na verdade, o mais famoso assessor do Universo (a par com o assessor sem pasta Fernando Lima) não tem emenda. O CC anda há dias a seguir-lhe o rasto e acabou por o apanhar com a mão na massa, precisamente no sistema informático da Presidência da República!

Vejam-se algumas provas (entre as muitas disponíveis no site da Presidência da República) do espião em plena laboração (marcado com um círculo vermelho):




O espião (mesmo em frente a Cavaco) na sala do Palácio de São Lourenço em que Cavaco está reunido com empresários e agricultores da Madeira: terá o espião (cujo nome de código não é conhecido) passado por um homem da lavoura ou por um próspero industrial da ilha?




À saída da universidade local, o espião (muito próximo do ministro da República, que, pela expressão, nem suspeitava dos riscos que corria) a retesar-se para tentar captar o diálogo em que intervém a Dr.ª Maria, o que revela ter sido incumbido de funções muito latas.




O espião, de costas para passar despercebido, introduziu-se na Quinta Vigia, tudo indicando que esteja a apontar sofregamente as impressões do Presidente da República acerca da qualidade dos alimentos servidos no repasto.




Visivelmente intrigado, o espião procura entender por que ri o Presidente da República, depois das sucessivas atitudes antidemocráticas tomadas pelo colega de fotografia, que o deixaram numa situação notoriamente fragilizada.


Perante estas provas, não venha cá Pedro Silva Pereira dizer que o espião ia em trabalho. Vê-se...

Isto anda tudo maluco, perdão, ligado

Através do FNV, que não gosta de insinuações, cheguei à ensandecida e nada insinuante (vero...) Helena Matos que, em português corrente, confunde o cu com as calças. Um delírio. Ou, como dizia há pouco o Ricardo Araújo Pereira, enquanto andam nisto não se metem na droga (ou será que? - ups... desculpem a insinuação).

Pacheco, irresistível

Visto tudo isto, o que diz o Presidente não é grave, é gravíssimo. Nem sempre o diz da melhor maneira, num processo muito mal conduzido.

Sentido de Estado

Aqui.

Declaração do Partido Socialista sobre o “caso das escutas”

Pedro Silva Pereira, membro do Secretariado Nacional, em nome do Partido Socialista:

O Partido Socialista deseja fazer a seguinte declaração, no seguimento da comunicação ao País proferida esta noite pelo Senhor Presidente da República:
    1. O momento que o País vive e o quadro político em que decorrerá a nova legislatura, que agora se vai iniciar, exigem um esforço redobrado de todos os responsáveis políticos na criação de condições que permitam ao País vencer os desafios que tem pela frente. Este é, por isso, o pior dos momentos para lançar o País em querelas artificiais e em polémicas inúteis, sobretudo quando assentes em suspeições absurdas e totalmente infundadas. Só há uma forma de lidar com este tipo de suspeições: é cortar o mal pela raiz.

    2. Depois da declaração do Senhor Presidente da República, impõe-se, do ponto de vista do Partido Socialista, recolocar a questão nos seus devidos termos, que são aliás do conhecimento geral.

    3. A chamada “polémica das escutas” ou outras formas de vigilância - que, supostamente, teriam sido promovidas no Palácio de Belém pelo Governo ou por serviços sob sua dependência - não teve origem em nenhuma declaração de Deputados do Partido Socialista, nem na publicação de um qualquer e-mail pelo “Diário de Notícias”. Este caso teve origem, isso sim, em duas notícias publicadas pelo jornal “Público”, nos dias 18 e 19 de Agosto, notícias essas que, invocando expressamente um membro da Casa Civil do Senhor Presidente da República, davam conta de suspeitas de que elementos ao serviço da Presidência da República estariam sob escuta ou vigilância a mando do Governo.

    4. Essa suspeição, totalmente absurda e infundada, a ser levada a sério, seria, obviamente - como todos os portugueses compreenderão - de extrema gravidade. E é merecedora de um esclarecimento cabal.

    5. O Partido Socialista regista que o Senhor Presidente da República não só não referiu - ao contrário do que alguns esperavam - nenhum facto susceptível de conferir um mínimo de razoabilidade a essa suspeição, como expressamente recordou que ele próprio nunca se referiu sequer a tais suspeitas.

    6. Confirma-se, portanto, aquilo que desde o inicio o Partido Socialista afirmou: essa suspeita nunca passou de uma invenção e constituiu, objectivamente, uma grave manipulação da verdade, com o único objectivo de prejudicar o Partido Socialista e o Governo. E essa foi a única manipulação que se registou neste caso lamentável. Um caso lamentável para o prestígio e para a dignidade das instituições.

    7. Quero também esclarecer - porque na minha qualidade de Ministro da Presidência acompanhei a visita do Senhor Presidente da República à Região Autónoma da Madeira, em Abril de 2008 - que o assessor do Gabinete do Senhor Primeiro-Ministro a que se referiu o Senhor Presidente da República na sua comunicação ao País, integrou a lista da comitiva oficial que acompanhou o Senhor Presidente da República, sempre com total conhecimento da Casa Civil da Presidência da República. O assessor em causa é o jurista responsável pelo acompanhamento, ao nível do Gabinete do Primeiro-Ministro, das relações com as regiões autónomas e a sua participação na comitiva teve, neste caso, um especial fundamento no facto de o Senhor Presidente da República ter decidido promover durante essa viagem, como é público, a realização de um encontro de trabalho com a participação do Governo da República e do Governo Regional da Madeira sobre todas as questões pendentes entre os dois governos, reunião essa que exigiu, naturalmente, trabalho preparatório de assessoria. Seriam caricatas, se não fossem ofensivas, as referências que surgiram na imprensa a propósito do alegado comportamento do referido assessor durante essa visita.

    8. Porque foram também referidas declarações de Deputados do Partido Socialista sobre a eventual colaboração de membros da Casa Civil do Senhor Presidente da Republica na elaboração do programa de Governo ou programa eleitoral do PSD, o Partido Socialista deseja ainda esclarecer o seguinte:

      • Em primeiro lugar, os referidos Deputados do Partido Socialista limitaram-se a reagir e a interpretar politicamente uma notícia sobre a participação de membros da Casa Civil na elaboração do programa do PSD, tal como foi publicada na comunicação social e divulgada no site oficial do próprio PSD;
      • Em segundo lugar, os Deputados do PS, como de qualquer outro partido, são titulares de um órgão de soberania e, nessa condição, são totalmente livres e autónomos nas opiniões políticas que emitem, assumindo por elas total responsabilidade;
      • O Partido Socialista rejeita, portanto, qualquer interpretação que confunda a liberdade de opinião política com qualquer exercício de manipulação.

    9. Finalmente, o Partido Socialista toma nota das preocupações do Senhor Presidente da República, hoje reveladas, sobre a eventual vulnerabilidade do sistema informático da Presidência da República e está certo de que a Presidência da República, no uso da sua autonomia e gestão próprias, saberá utilizar os meios do Estado que estão, como sempre estiveram, ao seu alcance para promover a segurança das suas comunicações.

Viagens na Minha Terra do Eduardo Pitta

• Eduardo Pitta, BELÉMGATE. BLOG REVIEW:




Para poupar trabalho às assessorias de Belém, um apanhado da opinião publicada em alguns blogues:



Adolfo Mesquita Nunes: «[...] Cavaco Silva foi apanhado com a boca na botija a tentar resolver o assunto através da pequena intriga jornalística. [...] A declaração de Cavaco Silva teve, por isso, um efeito contrário ao pretendido. Alargou a vitória de José Sócrates [...]

Ana Matos Pires: Assim para início de conversa sugiro

Ana Vidigal: Time Bomb

António Figueira: «Como suponho que a maioria dos portugueses, achei a alocução do PR uma trapalhada. É espantosa a erosão que sofreu o prestígio do PR [...]»

António P.: «O Presidente Cavaco Silva para dizer o que disse podia ter ido comer uns Pastéis de Belém, que ficam ao lado do Palácio de Belém, e transmitido aos outros clientes os seus estados de alma. [...]»

Carlos Abreu Amorim: Efeitos políticos da comunicação do Presidente da República

Carlos Santos: «Em todo o caso, se a opinião blogosférica vale de alguma coisa, parece-me que o consenso na condenação da mensagem que o PR fez ontem é de tal maneira elevado que alguma semelhança há-de ter com o que se passou na Sociedade Civil.»

Daniel Oliveira: «O discurso do Presidente foi recebido com humor, indignação ou estupfacção por todos os comentadores. Pior: para defender Cavaco Silva ficou Nuno Rogeiro.»

Eduardo Graça: «Cavaco Silva acabou de fazer um exercício suicida. [...] Ao que vinha, na qualidade de Presidente, tudo ficou por esclarecer. Nunca tal se tinha visto! Com seus defeitos e virtudes nunca qualquer outro Presidente da República alguma vez desceu tão baixo. A partir de hoje, se ainda restassem dúvidas, Cavaco Silva deixou de ser o Presidente de todos os portugueses para se tornar no líder da oposição ao PS.»

Guilherme Pereira: No comments

João Galamba: «Afinal, as questões de segurança são problemas da própria presidência e nada têm a ver com o governo ou com o PS. [...] o caso das escutas passou a ser apenas o caso das vulnerabilidades do sistema informático da presidência. Não há escutas, há apenas a possibilidade de haver escutas porque o sistema informático da presidência é fraquito. Parece-me evidente que a presidência está a precisar de um choque tecnológico. Mãos à obra, senhor Presidente.»

João Távora: «Foi um espectáculo confrangedor ontem à noite assistir às declarações do Chefe de Estado: afinal as suas tão aguardadas palavras pouco mais revelaram do que um homem acossado pela intriga que grassa entre os órgãos de soberania e de estados d’alma pouco dignos do mais alto magistrado da nação. Depois, já enterrado no sofá, foi assistir atónito à intervenção do ministro Pedro Silva Pereira, em autêntica pose de estadista, ripostar com invulgar dureza e numa arrogância quase elegante a pública birra de Cavaco Silva.»

Jorge Carreira Maia: «Cavaco Silva não pode falar. Pode fingir que fala. Mas sempre que deixar transparecer o que lhe vai na alma, os portugueses têm o súbito vislumbre de que podem estar a meter-se num grande sarilho.»

Jorge Costa: «O Presidente da República é o garante da estabilidade institucional. Ontem, fez o exacto contrário do que dele se espera.»

José Ferreira Marques: «A patética declaração do Presidente da República [...] é a mais iniludível prova de que o episódio das escutas foi uma conspiração urdida com o propósito de prejudicar o Governo da República e o Partido Socialista. Ao justificar o injustificável com eventuais vulnerabilidades do seu sistema informático, Cavaco Silva apenas confirma que a sua conduta no processo das escutas está longe de ser irrepreensível. Esta noite, o povo sentiu o abraço do polvo.»

José Pacheco Pereira: «Na verdade, como eu próprio sempre disse, nunca o PR falou em “escutas”, mas sim em “questões de segurança” [...] Isto representa substancialmente o que eu próprio disse quando se soube do afastamento do assessor de imprensa.»

Lourenço Ataíde Cordeiro: «Se há aí alguém interessado em promover a restauração da monarquia, este é o momento, rapazes, este é o momento.»

Luis M. Jorge: O que o Presidente devia ter dito [À especial atenção da Casa Civil do PR.]

Luís Novaes Tito: «[...] Numa ou noutra circunstância “a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas” parecem estar ameaçadas por quem tem por missão zelar por elas.»

Miguel Abrantes: «Cavaco em muito sérias dificuldades... faz harakiri em prime time

Paulo Gorjão: «Cavaco Silva até pode recandidatar-se, mas uma parte importante do seu capital político — a sua imagem de referência ética — evaporou-se de forma irremediável.»

Paulo Morais: «No vértice superior do regime paira uma entidade dispendiosa e inútil. Se o topo do sistema político é uma inutilidade, não é de admirar que proliferem no estado estruturas que, também elas, de nada servem.»

Pedro Adão e Silva: Acabar o mandato com dignidade / Veja o vídeo do Gato Fedorento sobre o speech de Cavaco.

Pedro Vieira: Sai um cinto de castidade para Belém, s.f.f.

Porfírio Silva: «O Presidente da República acaba de dirigir-se ao país para fazer em directo um exercício de hipocrisia e irresponsabilidade no “caso das escutas a Belém” [...] Nunca vi um Presidente constitucional desta jovem democracia descer tão baixo.»

Rodrigo Moita de Deus: «O que é realmente sério e grave na comunicação de ontem? Para além do conteúdo. Para além da forma. Para além do resto, guardo a imagem de um presidente “forçado”. Expressão que o próprio utilizou. Forçado a falar sobre a questão da segurança, forçado a demitir Fernando lima, forçado a isto e forçado aquilo. Um Presidente não é forçado. Nem se deixa forçar. Um Presidente força. E quem não vê isto não entende a natureza do cargo.»

Rogério da Costa Pereira: «O senhor presidente ouviu diversas entidades e ficou a saber que existem vulnerabilidades. O que é que esta porra quer dizer?»

Sérgio de Almeida Correia: «[...] O Presidente da República não tem a mínima noção do papel que exerce, confunde o interesse nacional com os interesses do PSD e da sua entourage presidencial, e à força de querer ser isento acabou por se comportar como um elefante numa loja de porcelanas [...]»

Sofia Loureiro dos Santos: «Cavaco Silva não está à altura de exercer o seu cargo.»

Tomás Vasques: «Os assessores de Belém tinham o dever de tirar os caroços das cerejas ao Presidente antes da declaração presidencial.»

Valupi: «Cavaco Silva é uma ameaça para a segurança nacional [...] O problema acaba de sair das mãos dos partidos. Isto agora é connosco, com cada um.»

Vital Moreira: «Decididamente, o desatino tomou conta o Palácio de Belém. A comunicação de Cavaco Silva há-de ficar nos anais do nonsense político entre nós. [...] Algo não está bem com o Presidente da República.»


[Imagem de João Cóias.]

A vida no outro mundo

O Twitter esteve ontem muito animado. A Joana Lopes prova com exemplos ter sido uma noite inesquecível. Aqui ficam mais uns exemplos da inesquecível noite:
PS — Interessante, muito interessante, é a circunstância de Luciano Alvarez, posto ontem em causa por Cavaco Silva, continuar meio atordoado e mais não faz do que dar sinais ténues de vida através de uma selecção de músicas que fala por si.

Leituras

A palavra aos leitores

De Manuel T., de Santa Maria da Feira:
    'Confirma-se: o Presidente da República não lê jornais e por isso não soube do noticiário que no princípio de Agosto pôs “gente de Belém” na elaboração do programa eleitoral do PSD, assim como não percebe nada de “novas tecnologias” e também por isso não viu a substância desse noticiário no sítio que o PSD tem na internete.
    Igualmente se confirmam os “prestimosos serviços” do director do Público.'

CC esmiúça a declaração de Cavaco


DN



1. Cavaco: “Durante a campanha eleitoral foram produzidas dezenas de declarações e notícias sobre escutas, ligando-as ao nome do Presidente da República e, no entanto, não existe em nenhuma declaração ou escrito do Presidente qualquer referência a escutas ou a algo com significado semelhante.
Desafio qualquer um a verificar o que acabo de dizer
.


Cavaco Silva retira, assim, qualquer credibilidade ou fundamento às notícias que surgiram durante o Verão, alegadamente provenientes de uma fonte de Belém, dando conta de que o Presidente temia estar a ser escutado ou vigiado pelo Governo.

Só é pena que o Presidente não o tenha esclarecido antes porque, tendo as notícias sido apresentadas como vindo de Belém, e não tendo estas merecido da parte do Presidente ou da Presidência da República qualquer desmentido, se gerou na opinião pública a percepção de que seriam verdadeiras. Percepção essa que, notoriamente, prejudicava — em pleno período de pré-campanha e campanha eleitoral — o partido do Governo.

Isto é, ao não se distanciar expressamente de uma notícia que sabia ser falsa e caluniosa, o Presidente permitiu que se gerasse um ambiente de suspeição sobre o Governo, ambiente esse que sabia ser prejudicial para o PS. Ainda para mais quando os temas lançados para a campanha eleitoral pelo PSD cavalgavam esse mesmo ambiente de suspeição.

Ora, perante este cenário, o Presidente — ao não desmentir oportuna e categoricamente as suspeitas gravíssimas que, como soubemos hoje, nunca corroborou — deu alento ou oxigénio às acusações que o PSD lançava sobre o PS. Com o seu silêncio, Cavaco alimentou uma narrativa de “asfixia democrática”, que sabia não ter fundamento, mas que permitiu que corresse e cujos danos eleitorais para o PS eram claramente antecipáveis.

Em suma, o Presidente acabou, por omissão, por se envolver no terreno de combate político-partidáriio. Aquilo que Cavaco acusou hoje o PS de lhe ter feito, fê-lo ele — Cavaco Silva — contra o PS.


2. Cavaco: “E tudo isto sendo sabido que a Presidência da República é um órgão unipessoal e que só o Presidente da República fala em nome dele ou então os seus chefes da Casa Civil ou da Casa Militar.

Então por que têm saído tantas notícias nos jornais, ao longo dos últimos anos, vindas de “fonte de Belém”? Das duas uma: ou Cavaco, ao contrário do que agora afirma, quis que outrem passasse recados em seu nome para a comunicação social; ou, se não foi esse o caso e alguém em Belém extravasou os seus poderes, então Cavaco já há muitos e muitos meses deveria ter demitido essa alegada fonte.

Isso, sim, seria uma pertinente questão de segurança: investigar quem é que andava a falar de mais, invocando ilegitimamente o nome do Presidente, e correr com ele de Belém. Mas Cavaco nunca, nessas circunstâncias, se preocupou em afastar quem, ultrapassando os seus poderes, “bufava” para os jornais matérias do foro interno de Belém…

3. Cavaco: “Porquê toda aquela manipulação?
Transmito-vos, a título excepcional, porque as circunstâncias o exigem, a minha interpretação dos factos.
Outros poderão pensar de forma diferente. Mas os portugueses têm o direito de saber o que pensou e continua a pensar o Presidente da República.
Durante o mês de Agosto, na minha casa no Algarve, quando dedicava boa parte do meu tempo à análise dos diplomas que tinha levado comigo para efeitos de promulgação, fui surpreendido com declarações de destacadas personalidades do partido do Governo exigindo ao Presidente da República que interrompesse as férias e viesse falar sobre a participação de membros da sua casa civil na elaboração do programa do PSD (o que, de acordo com a informação que me foi prestada, era mentira).
E não tenho conhecimento de que no tempo dos presidentes que me antecederam no cargo, os membros das respectivas casas civis tenham sido limitados na sua liberdade cívica, incluindo contactos com os partidos a que pertenciam
.”

Primeira ambiguidade: numa frase, Cavaco desmente que os seus assessores tenham colaborado na elaboração do programa do PSD; na frase seguinte, Cavaco Silva pretende justificar a legitimidade de um assessor de Belém colaborar com o partido a que pertence. Em que ficamos:
    i) colaboraram com o PSD e isso não tem mal nenhum? ou
    ii) não colaboraram com o PSD?
4. Cavaco: “A leitura pessoal que fiz dessas declarações foi a seguinte (normalmente não revelo a leitura pessoal que faço de declarações de políticos, mas, nas presentes circunstâncias, sou forçado a abrir uma excepção).
Pretendia-se, quanto a mim, alcançar dois objectivos com aquelas declarações:
Primeiro: Puxar o Presidente para a luta político-partidária, encostando-o ao PSD, apesar de todos saberem que eu, pela minha maneira de ser, sou particularmente rigoroso na isenção em relação a todas as forças partidárias
.”

Pelo contrário, Cavaco é que — ao não se distanciar da história das escutas, que sabia ser falsa — tentou prejudicar o PS, influindo ilegitimamente na luta político-partidária.

Cavaco: “Segundo: Desviar as atenções do debate eleitoral das questões que realmente preocupavam os cidadãos.”

Isso foi, precisamente, o que Cavaco fez ao não “matar” imediatamente o tema das escutas.

Cavaco: “Foi esta a minha leitura e, nesse sentido, produzi uma declaração durante uma visita à aldeia de Querença, no concelho de Loulé, no dia 28 de Agosto.”

Momento em que podia ter desmentido as suspeitas de escuta/vigilância noticiadas pelo Público e optou por não o fazer, permitindo que a dúvida permanecesse no ar.

Para além de que Cavaco usa aqui de um artifício para tentar desviar as atenções: o que estava em causa nessa altura, quando Cavaco visitou Querença, não eram as declarações de alguns deputados comentando algo que constava do próprio site do PSD (a participação de assessores de Belém na preparação do programa eleitoral do PSD); o que estava em causa nessa altura eram, isso sim, as notícias do Público de Agosto, dando conta de que a Presidência da República suspeitava estar a ser escutada.

Ou seja, Cavaco vai aqui buscar as declarações de alguns deputados para lançar poeira para os olhos dos portugueses. Não era isso, verdadeiramente, que estava em causa. O que estava em causa, e que Cavaco tinha oportunidade de confirmar ou desmentir, era a questão das escutas. E Cavaco optou por ficar calado, dando portanto alento às suspeitas.

5. Cavaco: “Muito do que depois foi dito ou escrito envolvendo o meu nome interpretei-o como visando consolidar aqueles dois objectivos.
Incluindo as interrogações que qualquer cidadão pode fazer sobre como é que aqueles políticos sabiam dos passos dados por membros da Casa Civil da Presidência da República.
Incluindo mesmo as interrogações atribuídas a um membro da minha Casa Civil, de que não tive conhecimento prévio e que tenho algumas dúvidas quanto aos termos exactos em que possam ter sido produzidas.
Mas onde está o crime de alguém, a título pessoal, se interrogar sobre a razão das declarações políticas de outrem?


Segunda ambiguidade: afinal o Palácio de Belém suspeita ou não de estar a ser escutado/vigiado? É que, até aqui, Cavaco tinha dado a entender não haver fundamento nessas notícias. Aqui, porém, tenta legitimar as referidas suspeitas e justificar que são perfeitamente normais e não têm mal nenhum (como se o facto de se suspeitar em Belém de escutas por parte do Governo pudesse ser a coisa mais natural do mundo).

Cavaco faz aqui uma coisa gravíssima: alimenta novamente a questão das escutas. Por um lado, distancia-se das suspeitas; por outro lado, procura justificá-las. Isto não é aceitável. Isto não é a postura de um Chefe de Estado responsável.

Das duas uma: ou há fundamento credível para as suspeitas e, nesse caso, Cavaco tem de agir em conformidade com a gravidade do assunto, mandando investigar e levando a investigação às últimas consequências (mas convém é fazê-lo logo e não 18 meses depois…); ou não há fundamento credível para as suspeitas e, nesse caso, Cavaco não pode achar normal que assessores de Belém alimentem essas suspeições.

Cavaco tem de ser coerente, não pode andar aos ziguezagues num assunto desta gravidade.

Cavaco: “Repito, para mim, pessoalmente, tudo não passava de tentativas de consolidar os dois objectivos já referidos: colar o Presidente ao PSD e desviar as atenções.”

6. Cavaco: “E a mesma leitura fiz da publicação num jornal diário de um e-mail, velho de 17 meses, trocado entre jornalistas de um outro diário, sobre um assessor do gabinete do Primeiro-Ministro que esteve presente durante a visita que efectuei à Madeira, em Abril de 2008.
Desconhecia totalmente a existência e o conteúdo do referido e-mail e, pessoalmente, tenho sérias dúvidas quanto à veracidade das afirmações nele contidas
.”

Desconhecia a existência e o conteúdo do e-mail. Mas desconhecia a démarche que Fernando Lima fez junto de um jornalista do Público? Isso é que interessa saber.

É óbvio que Cavaco não conhecia o e-mail trocado entre dois jornalistas do Público. Mas isso é irrelevante, ninguém acha que Cavaco anda a espiar o correio electrónico do Público.

O que Cavaco tem de explicar é outra coisa: se sabia da diligência de Fernando Lima e do dossiê elaborado pelo porta-voz do Presidente sobre um assessor do primeiro-ministro que ele entregou ao Público.

Cavaco pensa que se safa com esta afirmação ambígua, mas não. Que ele conhecesse ou não o e-mail não interessa nada. Até porque é óbvio que não conhecia. Tem de explicar é se conhecia o que deu azo ao e-mail.

Cavaco: “Não conheço o assessor do Primeiro-Ministro nele referido, não sei com quem falou, não sei o que viu ou ouviu durante a minha visita à Madeira e se disso fez ou não relatos a alguém.
Sobre mim próprio teria pouco a relatar que não fosse de todos conhecido. E por isso não atribuí qualquer importância à sua presença quando soube que tinha acompanhado a minha visita à Madeira.


“Quando soube que tinha acompanhado a minha visita à Madeira”??? Que tanga! Cavaco — ou, pelo menos, a Presidência da República — sempre soube que ele lá estava, ele fazia parte da comitiva oficial (que é organizada pelo Palácio de Belém) e a sua presença constava do livro oficial do protocolo da visita (também organizado pelo Palácio de Belém).

7. Cavaco: “A primeira interrogação que fiz a mim próprio quando tive conhecimento da publicação do e-mail foi a seguinte: “porque é que é publicado agora, a uma semana do acto eleitoral, quando já passaram 17 meses”?
Liguei imediatamente a publicação do e-mail aos objectivos visados pelas declarações produzidas em meados de Agosto
.”

E não pensou o mesmo das notícias do Público de Agosto, relativas a eventos ocorridos numa visita oficial que decorrera também muitos meses antes?

Cavaco: “E, pessoalmente, confesso que não consigo ver bem onde está o crime de um cidadão, mesmo que seja membro do staff da casa civil do Presidente, ter sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de outras pessoas.”

Nova ambiguidade. Cavaco tenta distanciar-se das suspeitas sobre Rui Paulo Figueiredo, assessor do primeiro-ministro, mas acaba por justificar ou legitimar essas mesmas suspeitas. É gato escondido com rabo de fora. Cavaco vem, assim, dar razão às notícias do Público de Agosto. O que, atendendo ao caricato e ridículo das próprias notícias (ao nível de: o assessor do primeiro-ministro sentou-se numa mesa onde não devia…), é grave.

8. Cavaco: “Mas o e-mail publicado deixava a dúvida na opinião pública sobre se teria sido violada uma regra básica que vigora na Presidência da República: ninguém está autorizado a falar em nome do Presidente da República, a não ser os seus chefes da Casa Civil e da Casa Militar. E embora me tenha sido garantido que tal não aconteceu, eu não podia deixar que a dúvida permanecesse.
Foi por isso, e só por isso, que procedi a alterações na minha Casa Civil
.”

Mais uma vez, Cavaco não é minimamente coerente: ou Fernando Lima falou ilegitimamente em seu nome e, então, tem de ser corrido imediatamente, sem apelo nem agravo, para fora da Presidência da República; ou tal não aconteceu e, então, não se justifica que Fernando Lima tenha passado para trás da cortina.

Isto é, ou Cavaco acredita na palavra de Fernando Lima ou não acredita: se acredita, não se justifica estar a penalizá-lo; se não acredita, não pode tê-lo consigo no Palácio de Belém, ainda que escondido da imprensa. Mais uma vez, uma solução meias-tintas para tentar tapar o sol com a peneira…

9. Cavaco: “A segunda interrogação que a publicação do referido e-mail me suscitou foi a seguinte: “será possível alguém do exterior entrar no meu computador e conhecer os meus e-mails? Estará a informação confidencial contida nos computadores da Presidência da República suficientemente protegida?”
Foi para esclarecer esta questão que hoje ouvi várias entidades com responsabilidades na área da segurança. Fiquei a saber que existem vulnerabilidades e pedi que se estudasse a forma de as reduzir.”


Aqui a desculpa é completamente esfarrapada. Segundo Cavaco, as questões de segurança de que falou — e que foram interpretadas como podendo ter a ver com a suspeita de vigilância por parte do Governo ou com eventuais intervenções ilegítimas do SIS — não passam, afinal de contas, de uma vaga sensação de desconforto com que ficou ao verificar que um e-mail interno do Público havia sido divulgado publicamente, o que o fez temer que algo de idêntico pudesse suceder com os seus próprios e-mails. Isto é tudo ridículo.

Primeiro, o que tem a segurança dos e-mails do Público a ver com a segurança dos e-mails da Presidência (a menos que houvesse e-mails trocados entre o Público e a Presidência…)? Por que é que o facto de um e-mail do Público ter sido divulgado faz Cavaco temer quanto à segurança dos seus próprios e-mails?

Segundo, qualquer medíocre técnico de informática explicará que nenhum sistema informático, por mais sofisticado que seja, é absolutamente inviolável. Nem sequer os computadores da NASA! Por isso não é de surpreender que possa haver eventuais vulnerabilidades.

Mas ninguém acredita que fosse a isso que Cavaco Silva se estava a referir quando, naquele dia, deixou cair a tirada das”questões de segurança”. E, se era efectivamente a isso que se estava a referir, então é de uma irresponsabilidade atroz: em plena campanha e no meio de um clamor nacional por causa de alegadas escutas do Governo à Presidência da República, deixar cair, sem esclarecer, que o Presidente tem preocupações quanto a questões de segurança — frase que podia ter, e teve, leituras políticas de extraordinária gravidade — quando, afinal, essas preocupações de segurança eram, tão só, uns vagos suores frios quanto à questão teórica de saber se uma caixa de e-mail ligada à net é ou não absolutamente impenetrável, isto é de enorme gravidade. Cavaco não é — como o próprio lembrou — ingénuo e, portanto, sabia bem as implicações que, naquele contexto, a sua afirmação podia ter, as quais lançavam uma enorme suspeita (infundada) sobre o Governo.

Mais uma vez, portanto, Cavaco colocou-se bem no centro da luta político-partidária, tentando prejudicar – com suspeições infundadas a poucos dias das eleições – o partido do Governo.

terça-feira, setembro 29, 2009

Cá em casa usamos isto e não queremos outra coisa


Fosga-se... (*)

Afinal, o Fernandes, o Luciano e o Lima andaram a conspirar para colar o Presidente ao PSD só para beneficiar o PS.

(*) perdão, "safa..."

Cavaco em muito sérias dificuldades…




… faz harakiri em prime time.

O que os astrólogos disseram [2]




António Borges, de quem vamos ter muitas saudades: “Confiante na vitória? Claro, ou seria o fim do país”.

O que os astrólogos disseram [1]

José António Lima, o adjunto do pequeno grande arquitecto, na edição de sexta-feira, 25 de Setembro, do luminoso Sol:
    Mesmo que aumente para o dobro, no domingo, os votos de 7 de Junho, Sócrates não passará de um resultado eleitoral de 31%. (…) E, qualquer que seja a expressão dos números na noite de domingo, iremos viver a seguir uma experiência inédita. A de ver um líder partidário, derrotado e de saída, sofrer o calvário de ter que suportar 15 penosos dias em campanha autárquica.

Na fotografia

• António Costa, director do Diário Económico:
    O Presidente da República anunciou que vai fazer uma declaração à imprensa, à hora dos telejornais. O teor da intervenção é mais um tabu na vida política de Cavaco Silva, que, antes das eleições, deixou no ar a suspeita de que existiriam escutas em Belém, a mando do Governo. O Presidente tem o dever de esclarecer, de uma vez por todas, o que quis dizer quando disse que estaria atento às questões da segurança e que tentaria saber mais sobre elas logo após as eleições. Suspeito que qualquer que seja o teor da declaração, Cavaco não vai sair bem da fotografia.

Mais leituras

O segredo de justiça...



ao vivo e a cores¹.

________
¹ As buscas podem esperar pelo desfecho das eleições.

Da série "Frases que impõem respeito" [364]

    O grande problema foi o facto de o jornal ter ficado refém da fonte de Belém.

Leituras

A palavra aos leitores

De um e-mail de Manuel T., de Santa Maria da Feira:
    Ao que consta, o Presidente da República vai falar.
    Para beber da “verdadeira fonte”, fui à página que a Presidência da República tem na Internet e verifiquei que, afinal, o Presidente da República fará “uma declaração à comunicação social”.
    Ora, mesmo que se pense ou queira o contrário, a comunicação social não é o país nem vice-versa.
    Donde, ou no Palácio de Belém anda muito nervosismo, ou lá continua alguém convencido de que é falando para a comunicação social que o país acede à verdade e a política à decência.
    Em consequência – como o Presidente da República não vai falar para o país, mas à comunicação social – estou por Cavaco Silva dispensado de o ouvir.

Adivinha do dia

Cavaco vai falar hoje ao país. Qual será o tema da comunicação? Veja se domina a cavacologia, escolhendo uma das seguintes hipóteses:
    • Anuncia o nome do candidato que irá apoiar na corrida à liderança do PSD?
    • Exibe em directo o microfone através do qual o Conselho de Ministros, enquanto simulava estar preocupado com a governação, escutava os seus passos em Belém?
    • Denuncia o Público como o artífice da inventona de Belém, assegurando já ter pedido uma audiência ao Eng. Belmiro para pôr tudo em pratos limpos?
    • Informa os portugueses da nova assessoria confiada a Fernando Lima?
    • Dá conta de que a divulgação da visita de Bento XVI a Fátima foi um mero “erro técnico” e não teve nada a ver com as eleições legislativas?
    • Divulga as análises custo-benefício, entretanto encomendadas, das infra-estruturas de que o país carece?
    • Avisa que as leis “fracturantes” só passarão por cima do seu cadáver?
    • Renuncia ao cargo de Presidente da República, deixando subentendido que o país não o merece?

segunda-feira, setembro 28, 2009

O controlo dos media

O Governo do PS - o tal da arrogância, da asfixia, do medo e da perseguição aos jornalistas - tentou fazer uma lei que tornasse mais transparente a presença empresarial nos media e limitasse a concentração.
Lembram-se?
Pois o Presidente da República vetou essa lei. Não uma, mas duas vezes.
Vale a pena recordar isso precisamente hoje:

A luta continua

Libertem a companheira Sofia Rocha (mas quem é Sofia Rocha?).

Gente tão amiga…

Ninguém me tira da cabeça que isto anda tudo ligado: a súbita divulgação do negócio da PT com a Media Capital, abortando-o, o folhetim da Sr.ª Guedes contra a Media Capital e a aquisição de 35 por cento da Media Capital pela Ongoing. Afinal, tudo começa e acaba em José Eduardo Moniz: saiu por uma porta e entra por outra. A Prisa é muito colaborante.

Avisem o Tabosa!

Pode parar de escrever disparates... as eleições foram ontem.

A verdade da cosmética


No rescaldo das eleições, o Diário de Notícias [28 Set 09, pág. 9] publica um artigo muito interessante, intitulado "A cosmética derrotou a verdade". É assinado por uma "professora universitária ISCSP/UTL e especialista em Comunicação Política" e, em suma, diz-nos que a "verdade" de Manuela Ferreira Leite foi vencida pela "cosmética" de José Sócrates.
Vinda de uma especialista, é coisa para deixar qualquer leitor a matutar.
A matutação pode passar, por exemplo, por perceber se a especialista Nilza Mouzinho de Sena que assina o artigo é a mesma Nilza Mouzinho de Sena, que surge em 34.º na lista de candidatos do PSD por Lisboa.

Um pouco de sabedoria transmontana

O presidente da distrital de Bragança do PSD, Adão Silva, atribuiu hoje à «falta de perfil» da líder a derrota do partido para a qual entende ter também contribuído a intervenção «errática» do presidente da República durante a campanha.
(...)
«Não soube conduzir uma campanha» afirmou, considerando que Manuela Ferreira Leite deu «sobreimportância a casos marcantes e não teve a percepção do que é que os portugueses queriam». Para Adão Silva, a presidente do partido revelou «um perfil profundamente inadequado», mesmo em termos «psicológicos e emocionais».
(...)
O presidente da distrital de Bragança entende que para os resultados teve também importância o que classifica de «comportamento profundamente errático do presidente da República». O dirigente social-democrata é da opinião que o caso das escutas a Belém e a consequente demissão do assessor de Cavaco Silva, funcionou como «elemento paradoxal e tirou sustentabilidade à campanha do PSD».

Estamos à escuta

Marcelo diz que Cavaco Silva devia falar hoje sobre escutas. [TSF]

A responsabilidade de governar

O PS recebeu um voto inequívoco para governar. Com este primeiro-ministro e com o seu programa.

Que fará Portas?

Portas volta a ter uma nova oportunidade (a enésima) para tentar fazer um partido "de direita".

Uma vocação que desponta

Manuela Ferreira Leite fez um bom discurso de derrota.

A miragem da "rua"

O PCP semeou na "rua" (professores, funcionários públicos, CGTP...) os deputados que o Bloco colheu.

domingo, setembro 27, 2009

De que ri o Bloco?

O partido que mais cresceu nestas eleições fica sem poder parlamentar para determinar a governação.

A inventona de Belém e o Público — ainda o Provedor do Leitor

A crónica de hoje de Joaquim Vieira no Público, intitulada “Assuntos internos” (ou derivações das duas crónicas anteriores, quanto ao email do provedor e à quantidade de fontes jornalísticas):
    Na sexta-feira 18 de Setembro, José Manuel Fernandes (J.M.F.) reenviou ao provedor uma troca de correspondência electrónica interna com a seguinte indicação: "Uma vez que há registo de forwards [reencaminhamentos] de mails com o mesmo título deste mail enviados para ti nos minutos seguintes ao último mail que recebi do Tolentino [de Nóbrega, correspondente do PÚBLICO no Funchal], e nenhum depois da minha resposta, entendi que era melhor tomares conhecimento de tudo". Por detrás desta abertura havia a muito desagradável revelação de que se fizera levantamento de comunicações entre um jornalista do PÚBLICO e o provedor. A circunstância levou o provedor, na crónica anterior ("A questão principal"), a considerar "que a sua correspondência electrónica, assim como a de jornalistas deste diário, fora vasculhada sem aviso prévio pelos responsáveis do PÚBLICO", explicando o que entendia como tal: "Detecção de envios e reenvios de e-mails entre membros da equipa do jornal (e presume-se que também de e para o exterior)".

    J.M.F. desmentiria o provedor num post scriptum ao editorial da passada terça-feira: "Ao contrário do que afirmou o provedor do leitor, ninguém nesta empresa lhe 'vasculhou' a correspondência". Porém, no dia seguinte, numa reunião do Conselho de Redacção (CR) do PÚBLICO, e segundo a respectiva acta, o director, interpelado sobre a questão, explicaria que "se olhou para o registo das entradas e saídas de mails". O provedor não encontrou diferença entre estas palavras e o que afirmou ter acontecido ("detecção de envios e reenvios de e-mails"), pelo que não alcançou então o sentido do desmentido.

    A pesquisa, destinada a averiguar se houve fuga interna de informação que permitiu ao Diário de Notícias fazer manchete, naquela mesma sexta-feira, com um e-mail trocado em Maio de 2008 entre dois jornalistas do PÚBLICO, terá incidido no correio electrónico de todos aqueles que, nessa semana, no âmbito de uma discussão a propósito da crónica do provedor publicada há 15 dias ("Subitamente neste Verão"), receberam na redacção o reencaminhamento da mensagem em causa. Foi monitorizada a correspondência electrónica dos seis membros da direcção editorial, assim como de dois outros jornalistas envolvidos no caso. J.M.F. explicou ao CR, segundo a acta já citada, que "pediu aos informáticos (...) paia averiguarem se, entre as oito pessoas incluídas no destinatário da mensagem em causa, alguma tinha feito forward de qualquer mensagem com o mesmo título da primeira mensagem em que surge o mail de Maio de 2008". Tendo-se apurado que o provedor também recebera uma mensagem contendo presumivelmente o explosivo e-mail, ele passou, da mesma forma, à condição automática de suspeito. Mas, ao CR, J.M.F. afirmou não saber se o provedor iria ser ouvido, esclarecendo que a decisão cabia à comissão de inquérito (o provedor está ao dispor).

    A administração da empresa proprietária do PÚBLICO defende a legalidade da operação, e o provedor nunca disse o contrário. Mas esse procedimento ignora a especificidade de uma empresa jornalística, onde se trabalha na base do sigilo profissional. Por isso, se não é ilegal, será pelo menos ilegítimo, pois ao verificar-se o registo de entradas e saídas de mails de jornalistas pode-se a violar a confidencialidade de fontes de informação suas.

    Entretanto, já ontem, sábado, J.M.F. garantiu ao provedor que tal pesquisa se limitou a incidir apenas em e-mails com o mesmo título da mensagem inicial. Não sendo perito em informática e não tendo meios para verificar o método seguido, o provedor considera que, se foi esse o caso, terão ficado bastante diminuídos os efeitos negativos que a acção pudesse vir a ter. Reaflirma porém ser uma surpresa no mínimo desconfortável perceber de súbito que alguém registou movimentações no seu correio electrónico (mesmo que, ao que lhe foi assegurado, apenas recebimento de mensagens).

    Ainda sobre o tema das duas crónicas mencionadas - que analisavam as manchetes de 18 e 19 de Agosto dando conta de que a Presidência da República (PR) se considerava espiolhada por outro órgão de soberania -, a jornalista que assinava a primeira notícia, São José Almeida (S.J.A.), escreveu ao provedor logo após a publicação da crónica inicial exprimindo "perplexidade" por aí se concluir que existira uma só única fonte para os dois artigos. "Como chega à conclusão de que a notícia que escrevi tem apenas uma fonte de informação?", inquiriu. "Que dados tem sobre o assunto que eu, autora da notícia, não tenho? Desde quando o facto de apenas ser citada uma fonte oficiosa, identificada através do seu estatuto oficial de membro da Casa Civil do Presidente da República e por isso com todo o peso inerente a essa condição, o leva a concluir que há só uma fonte? Onde foi buscar tal ideia? Como é que consegue saber mais da minha vida do que eu, uma vez que sabe que apenas falei com uma pessoa - o que é mentira?"

    Julga o provedor que os acontecimentos subsequentes viriam reforçar a sua conclusão de que só existiu uma fonte. Aliás, o texto invoca apenas um solitário "membro da Casa Civil da PR", e a própria S.J.A., numa das respostas dadas ao provedor, escreveu que "a notícia é feita precisamente com as declarações de um membro da Casa Civil do Presidente da República". Ora, está hoje razoavelmente estabelecido que uma única fonte forneceu ao PÚ- BLICO a matéria da primeira notícia - e também da segunda (onde não se citam fontes, mas se recorre à ambígua fórmula "ao que o PÚBLICO sabe"). Se o jornal possuía outras fontes, não se percebe por que não as mencionou. E se o PÚBLICO falou, por hipótese, com a empregada da limpeza do Palácio de Belém, só para poder dizer que consultou mais do que uma fonte, o facto não é relevante de acordo com as regras jornalísticas, pois a confirmação de informações por duas ou mais fontes implica que estas sejam independentes entre si.

    De resto, nunca pareceu ao provedor que, neste caso, o valor da manchete se reforçasse com o recurso a mais fontes. A notícia deve ser tomada pelo seu valor facial: não revela o que há, mas sim o que alguém diz que há (na circunstância, uma suspeita de Belém quanto a estar sob vigilância). Ora, se esse alguém já declarara tal convicção ao PÚBLICO, com toda a carga política implícita, seriam despiciendas outras fontes da PR, a dizer precisamente o mesmo. Aliás, quem o podia desmentir nunca o fez - pelo contrário, tanto do Presidente Cavaco Silva como dos seus homens continuam a ser emitidos sinais de que se mantém essa mesma suspeita.

    O grande problema, conforme o provedor apontou, foi o facto de o PÚBLICO ter ficado refém dessa fonte (ou fontes, a crer em S.J.A.), tolhido na sua amplitude de movimentos para investigar uma matéria de elevado interesse político e enormes implicações nacionais. O resto é (será) História.

Jacques de la Palisse

“Os cem anos da república (que se comemoram a 5 de Outubro) são também os cem anos do fim da monarquia.”

sábado, setembro 26, 2009

O porta-voz de Lima

Deve ter sido a primeira vez nos 30 anos de democracia que um presidente da República, na habitual mensagem que antecede o dia das eleições, sente necessidade de jurar a pés juntos: “Pela minha parte, mantive escrupulosamente e com o maior rigor o compromisso de total isenção e imparcialidade em face dos diversos partidos.

Na segunda-feira, Cavaco dará certamente conta aos portugueses dos fantasmas que o perseguem há pelo menos 17 meses.

Sobre a divulgação da acta do encontro da Av. de Roma

João Marcelino escreve sobre o e-mail de Luciano Alvarez para Tolentino de Nóbrega, no qual se fazia a “acta” do encontro na Av. de Roma com o porta-voz do Presidente da República, a mando deste [A deontologia e as suas "fontes"]:
    A obrigação de guardar sigilo é sempre uma relação “daquele” jornalista com a “fonte”. Essa obrigação não se estende a terceiros, mesmo que igualmente jornalistas”.

Novas oportunidades

Já todos percebemos que Fernando Lima, em vez de ser despedido, foi reciclado. Mas só agora percebemos qual foi a nova oportunidade que lhe deram (a tarefa dos dossiês não pode constar do site da Presidência). Por irrefutável dedução a partir das últimas notícias, podemos concluir que Lima é o novo assessor da Presidência para os assuntos religiosos.

A sua actividade já começou. Para irritação do Vaticano e do Patriarcado nacional, Lima revelou logo que Bento XVI virá a Fátima, quebrando um acordo no sentido de só divulgar a notícia após as eleições.

D. Policarpo diz que já não há quem consiga guardar um segredo. Não tem razão, porque desta vez ainda Lima não foi exposto como fonte, o que criaria o risco de ele ser chutado para a assessoria dos assuntos desportivos.

Leituras

• Emídio Rangel, O dia seguinte:
    A campanha terminou mas ainda se vai gastar mais tinta com este processo eleitoral. Desde logo a situação decorrente do chamado “caso das escutas”, que está longe de estar clarificado. Antes diria que a partir de segunda-feira se inicia o processo que há-de conduzir ao esclarecimento cabal desse imbróglio.

    O País espera com grande expectativa que o Presidente da República explicite o que aconteceu, nomeadamente se Fernando Lima terá actuado isolado ou se agiu com o beneplácito de Belém para ferir o primeiro-ministro; por que foi Fernando Lima afastado das responsabilidades na área da Comunicação Social; como aparece agora ligado a outro sector de igual importância no gabinete de Cavaco Silva. Como quer que seja, esta foi só a última “inventona”.

    (…)

    Eu espero que esta tenha sido a última vez que um partido tenha adoptado como seu programa eleitoral um cardápio de conspirações, invenções, calúnias e mentiras para ganhar vantagem em tempo de eleições. Foi a primeira vez que tal vi. Um programa eleitoral sem ideias e sem propostas para resolver os problemas do País, um programa sem soluções nem caminhos para percorrer depois da mais grave crise económica dos últimos oitenta anos, um programa vazio e sem alternativas.
• Pedro Adão e Silva, Mais realistas que os realistas:
    (…) se há alguma coisa inegociável é não tolerar quem pondera queimar livros.

"Vocês sabem o que está em jogo"

João Pinto e Castro, Onde estavas em 27 de Setembro?:
    Há quatro anos, eu não sabia muito bem o que esperar do primeiro-ministro José Sócrates. Agora, acho que o resultado foi muito melhor do que tinhamos direito a esperar, sobretudo dadas as circunstâncias extremamente difíceis da governação, agravadas desde o Verão de 2007 pela avassaladora crise internacional.

    Mais, considero que tivemos o melhor governo em 35 anos de democracia.

    Também a presente campanha foi uma das melhores e mais entusiásticas de sempre. Poucas vezes, como agora, se discutiram tanto os programas dos partidos, a poucos sobrando dúvidas acerca do muito que distingue uns dos outros. Os debates foram tão esclarecedores como o podem ser nestas circunstâncias. Os eleitores interessaram-se e estão mobilizados para votar.

    Neste domingo, não somos apenas chamados a votar num rumo para o governo do país. Está também em causa saber o que pensamos sobre a tentativa de degradação do debate democrático que o PSD sistematicamente protagonizou nesta legislatura.

    No dia 27 de Setembro, é indispensável que o voto popular traduza uma clara condenação da política suja que emporcalha a vida pública e boicota o debate racional e civilizado.

    Vocês sabem o que está em jogo.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Da série "Frases que impõem respeito" [363]

    O PSD parece um Conselho de Ministros dos anos 80.
      António Costa, no comício de encerramento da campanha do PS

"Sou o que sempre fui" — trotskista...


Não votes PS

• Val, Não votes PS:





    Se pedes reformas mas protestas quando são feitas, se chamas arrogância à impaciência e indignação frente a mentirosos, se preferes o Portugal bacteriologicamente castiço pré-ASAE, se lamentas ir jantar fora e ter de voltar a casa sem o fumo dos outros nos pulmões e na roupa, se achas que o controlo do défice é uma tanga para te roubarem, se acreditas que a política de educação tinha como objectivo maltratar os professores, se acreditas que Sócrates insultou as professoras, se exploraste a iliteracia e a doença para boicotar o excelente trabalho de Correia de Campos, se te estás a cagar para o que foi feito na área das energias renováveis, se não percebes patavina da política externa deste Governo, se odeias o Código do Trabalho mas nunca o leste nem sabes quais os seus objectivos, se ignoras o salto tecnológico e científico que resultou do investimento estratégico nestes 4 anos, se pensas que Sócrates devia ter ficado agarrado a promessas feitas na campanha de 2005 que iriam contra o interesse nacional, se preferes que o Estado seja desleixado a cobrar impostos, se não dás valor ao que aconteceu economicamente em Portugal até 2008, se ignoras que a pobreza diminuiu e a igualdade aumentou nesta legislatura, se alinhaste com os broncos que disseram mal do Magalhães, se querias ver Sócrates preso por causa do Freeport mesmo sem ter sido arguido, se tens informações novas acerca da sua licenciatura que a investigação não chegou a descobrir, se conheces alguém que esteja em condições de provar ter havido ilegalidades nos projectos que assinou na Covilhã, se papaste a tanga de que Sócrates teve alguma coisa a ver com o fim da peixeirada na TVI, se consegues ler os editoriais do Zé Manel, se admiraste o carácter de Louçã quando disse que Sócrates telefonou à Joana para lhe oferecer jóias e peles, se tens a certeza de que Sócrates é mais trafulha do que tu (e não tens, pois conheces-te de ginjeira) ou se és o gajo armado em parvo que aparece nesta fotografia, não votes PS.

Cavaco: nota de rodapé na História da Democracia (escrita por um santanista)

• José Paulo Fafe, A política do "kleenex":
    A DECISÃO de Cavaco Silva em afastar um dos seus principais colaboradores e que com ele trabalhava há quase um quarto de século só surpreenderá quem não tem acompanhado o percurso do actual Presidente da República desde que surgiu na cena política, no início dos anos 80.

    Cavaco Silva sempre foi useiro e vezeiro na chamada “política do kleenex”, ou seja, no que vulgarmente se denomina por “usar e deitar fora”. Entre valores e interesses pessoais, Cavaco jamais hesitou, optando sempre pelos últimos em detrimento do que mais nobre possui a política enquanto arte - a gratidão e a solidariedade. Desde que surgiu na cena política, Cavaco nunca hesitou em “deixar cair” quem pudesse (nem que fosse ao de leve...) comprometer as suas ambições. Sucedeu, por exemplo, com ministros como Miguel Cadilhe, Jorge Braga de Macedo e até Leonor Beleza, a quem na primeira oportunidade apontou a porta de saída dos seus governos; com Fernando Nogueira, que durante mais de uma década “ofereceu o corpo às balas” como seu “número dois” e a quem desmentiu publicamente uma semana antes das eleições que opunham este a António Guterres; com Pedro Santana Lopes, a quem como artífice da sua ascensão ao poder na Figueira da Foz deve em grande parte a liderança do PSD e contra quem não hesitou em alinhar numa campanha há muito não vista no nosso País quando este ocupava o cargo de primeiro-ministro; e até mesmo com Durão Barroso a quem, em 2001 e poucas semanas antes das eleições que haviam de conduzir ao poder ao actual presidente da Comissão Europeia, foi incapaz de publicamente prestar apoio.

    Agora foi a vez de Fernando Lima e, por arrasto, da sua amiga Manuela Ferreira Leite que na noite do próximo domingo e a confirmarem-se as expectativas sobre o que será um discreto resultado eleitoral bem pode responsabilizar Cavaco Silva por esse mesmo score. Mais uma vez, usando de um calculismo que lhe poderá vir a sair bem mais caro do que poderá supor, o actual chefe de Estado “sacrificou” colaboradores e amigos, sempre em nome de uma estratégia e ambição pessoais que começam a ser vistas com profunda desconfiança até mesmo por quem com ele sempre esteve.

    Cavaco Silva tem de entender que teve a sorte de “estar no sítio certo no momento certo”: por exemplo, quando Sá Carneiro convidou Loureiro Borges para seu ministro das Finanças e este recusou, indicando-o para o lugar; quando, na Figueira da Foz, o seu partido suspirava por alguém que fosse contraponto de uma liderança débil como tinham sido as de Balsemão, Mota Pinto ou Machete; quando se apresentou ao País após três anos e meio de um “bloco central” que deixou os portugueses praticamente em depressão; quando os cofres europeus se abriram de par em par, estando ele em S. Bento. E ao mesmo tempo tem de entender, de uma vez por todas, que “estar no sítio certo no momento certo” não implica necessariamente “ficar na História”.

O PSD tem qualquer coisa contra as monarquias

Depois da Espanha... a Dinamarca.

(pub.)

Cavaco poderia continuar Presidente sem Fernando Lima?
Poder, podia. Mas não era a mesma coisa.

Cavacadas




1. O semanário do militante n.º 1 do PSD (e destacado accionista e depositante do BPP em dificuldades) deu uma última mãozinha antes de entrarmos em período de reflexão. No entanto a manchete do Expresso não acrescenta nada à inventona de Belém — nem um pormenor para apimentar a coisa.

2. Lendo melhor a “notícia”, parece que houve o propósito de que algo mudasse para que tudo ficasse na mesma: onde antes se lia “fonte de Belém”, lê-se agora “fonte próxima de Belém”. Conclui-se que a remoção de Fernando Lima não afectou o centro de comando da inventona.

3. Ao ceder às súplicas de Pacheco Pereira, fazendo chegar ao Expresso mais este recado, Cavaco já não tem condições para recuar: após as eleições de Domingo, vai ter de ir a perguntas. E não poderá invocar o segredo de Estado para se esconder. O rei vai nu…

Fernando Lima: — Eu fico!



Dá conta um semanário com acesso privilegiado a fonte(s) de Belém que Fernando Lima fica. Por outras palavras, ele revelou-se eficaz na elaboração de dossiês, muito embora algo desastrado na tarefa de os distribuir. Deve, portanto, continuar a prestar serviço no que faz bem.

Cavaco, na sequência de uma análise custo-benefício, deverá ter concluído que deixar à solta o ex-porta-voz poderia levar o feitiço a virar-se contra o feiticeiro. Afinal, o homem é um especialista comprovado em contra-informação. Se um presidente da República pode estar preso pelo rabo é outra história.

El País

Luís Filipe Menezes: Espanha, Espanha, Espanha!

Grandes mistérios do Universo [63]

E se o seu jornal tivesse conhecimento de um golpe de Estado em curso, publicaria a notícia?

Leituras [6]

• Leonel Moura, Como se destrói um jornal:
    Depois seguiu-se o combate aberto e declarado ao Governo de Sócrates. O jornal deixou de dar notícias, para se concentrar nas historietas e nos casos, visando invariavelmente o desgaste do primeiro-ministro. O "Público" abandonou definitivamente o seu código de conduta e as trapalhadas não mais pararam de suceder.

    Nestes últimos meses, já em campanha, o jornal assumiu-se claramente como veículo de oposição e, sobretudo, como apoio de um PSD bastante decepcionante. Hoje o "Público" tem pouca credibilidade e deixou definitivamente de ser um jornal de referência. Já atravessou aquela fronteira para o campo do pasquim de intriga política.

Leituras [5]

• Miguel Sousa Tavares, E AGORA, SR. PRESIDENTE? [Expresso de hoje]:
    Considerando que depois de amanhã temos eleições, convém ser o mais comedido possível na análise a esta inacreditável história das escutas, envolvendo Cavaco, Sócrates e o "Público". Usem-se, porém, todas as cautelas possíveis e não há volta a dar: aparentemente (mas aparências muito carregadas) o Presidente da República enfiou-se num pântano de onde dificilmente sairá intocado no prestígio que o cargo exige.

    A mim não me espanta muito a trapalhada em que Cavaco Silva se enredou. Já aqui escrevi, a propósito do seu sibilino comentário sobre o cancelamento do "Jornal de Sexta" na TVI, que me parecia evidente que ele deixava cair aqui e ali sinais de apoio à candidatura do seu partido e da sua amiga Ferreira Leite — ao mesmo tempo que multiplicava as declarações pró-forma de distanciamento e isenção na campanha que decorreu. Espera-se assim que Cavaco Silva, sem mais tardança a partir de domingo, venha esclarecer o país sobre o que fez, como fez e porque fez. E esclarecer não é uma simples e solene declaração com a bandeira nacional atrás, sem direito a perguntas nem contraditório. As coisas foram longe de mais e as suspeitas são graves de mais para que ele não se disponha, como qualquer político, a enfrentar os jornalistas.

    Espero que escolha uma atitude de Presidente dos Estados Unidos e que não queira antes adoptar uma postura majestática de Rainha de Inglaterra. Inocentemente ou não, entrou em jogo e agora não pode fingir que está acima disso.

    O país espera e exige que Cavaco Silva esclareça, nomeadamente:

    — Se tinha e tem, de facto, razões sérias para desconfiar ser alvo de uma operação de espionagem, via escutas ou outra, por parte do Governo;

    — Em que baseava tais suspeitas, e espera-se que não venha com a anedota de o PS acusar a sua Casa Civil de estar a colaborar no programa do PSD — assim, aliás, confirmando tais acusações — ou com o 'espião' ao serviço do Governo que se atreveu, durante uma visita presidencial à Madeira, a sentar-se à mesma mesa que os intangíveis membros do seu gabinete. Não, qualquer coisa mais séria do que isso.

    — Porque carga de água quereria o Governo saber tanto o que se passa em Belém — passa-se lá alguma coisa de muito interessante?

    — Se as suas suspeitas eram assim tão fortes: a) porque não falou abertamente disso com o PM; b) porque não chamou os chefes dos serviços secretos ou quem tem competência técnica para tal e lhes exigiu que apurassem o que se passava; c) no limite, e visto que indubitavelmente estaria em causa o regular funcionamento das instituições democráticas, porque não demitiu o Governo e explicou ao país o que se estava a passar e porque o fazia?

    — Porque preferiu seguir a via sinuosa da conspiração política, socorrendo-se para tal de um jornal e embrulhando as suas suspeitas na capa de uma 'investigação jornalística' a que Belém seria totalmente alheia?

    — Porque escolheu o jornal "Público" para tal?

    — Mandou, de facto, o seu homem de confiança dizer ao "Público" que vinha a mando do Presidente, ou foi ele que extravasou o seu mandato e abusou indevidamente do nome do Presidente?

    — Porque só o demitiu quando o seu nome se tomou público e as suas andanças se tornaram conhecidas? Desconhecia totalmente o assunto (e, se o desconhecia, porque não o desmentiu?). Ou conhecia bem o papel desempenhado por Fernando Lima mas resolveu encobri-lo enquanto fosse possível?

    — Não previu o impacto que a notícia do "Público" de 18 de Agosto, a cinco semanas das eleições, poderia ter para a imagem do Governo PS e como contributo para a campanha da "asfixia democrática" e do "ambiente de medo" de que fala Ferreira Leite?

    E, depois de responder a tudo isto, que são questões de facto, e se, em função dessas respostas, não ficar cristalinamente claro que o Presidente, contra todas as aparências, está absolutamente inocente desta escabrosa história e que teve todas as razões para desconfiar da espionagem de que seria alvo por parte do Governo, então Cavaco Silva deve passar a responder às questões políticas, que são de toda a importância. A saber:

    — Se foi, como tudo indica, parte nesta história, onde fica, em sua opinião, o dever de lealdade institucional entre o Governo e o Presidente e vice-versa?

    — Acha que o episódio não mancha o seu dever de absoluta isenção e neutralidade nas campanhas eleitorais que não lhe dizem respeito directamente?

    — E acha que ele contribuiu para a estabilidade e a credibilidade política de que fala constantemente?

    — Na hipótese de o PS e José Sócrates vencerem, com maioria absoluta ou simples, as eleições de depois de amanhã, como acha possível recuperar um mínimo de confiança e colaboração nas relações com esse governo? Ou essa não é a sua intenção e a sua agenda política?

    Estas são as explicações que deve Cavaco Silva. Depois há as explicações que deve o "Público". Porque, ao contrário do que se apressou a dizer Paulo Portas e a sugerir Manuela Ferreira Leite, não há apenas duas hipóteses de grande gravidade: a de o Governo escutar o Presidente e a de o Governo, via serviços de informações, interferir nas comunicações internas de um jornal. Há também outras duas hipóteses e que, não sei se eles terão reparado, neste momento são as mais prováveis: a hipótese de a Presidência ter montado uma operação destinada a atingir o partido do Governo a poucos dias das eleições, e a de ter encontrado um jornal de referência que se prestou a fazer o frete.

    Da parte do "Público", já ouvi várias explicações do seu director — algumas contraditórias, nenhuma convincente. Ou seja, todas iguais a ele próprio: vesgas e propositadamente confusas. José Manuel Fernandes (e eu sei do que falo) é uma pessoa que não olha a direito e não joga a direito. Por isso, ele começou por dizer que o e-mail revelado pelo "DN" e que põe a nu toda a trama era "parcialmente falso", truncado "pelos Serviços Secretos". Mas não esclareceu que parte era parcialmente falsa e qual era parcialmente verdadeira — e que diferença poderia isso fazer numa mensagem que, de princípio ao fim, tratava só do mesmo assunto. Depois, num editorial que pretendeu clarificador, veio explicar que há 17 meses não tinha publicado a mesma notícia porque ela provinha de uma só fonte anónima e não tinha sido confirmada pelo jornal.

    Mas, passados 17 meses e a cinco semanas das eleições, publica a mesma notícia, com base unicamente na mesma fonte, sempre anónima e apenas identificada como alguém da casa Civil do PR — sem a ter investigado, contraditado ou confirmado. Será que publicaria uma notícia semelhante baseada numa 'fonte do Governo' que lhe viesse contar que o PR instalara escutas em S. Bento? Com falsa ingenuidade, pretende sustentar a tese de que agora a notícia já não tinha de ser a existência de escutas montadas pelo Governo em Belém, mas apenas a existência de suspeitas de tal entre o staff da Presidência. Isso dispensaria o "Público" de ter de investigar e confirmar tais suspeitas e até de conceder o direito de defesa aos acusados de tão grave abuso. A notícia seria, pois, a acusação e não a sua veracidade. Bem pode o Conselho de Redacção do "Público" cobrir o seu director, por dever de ofício, mas se este é o jornalismo que agora se defende ali na casa, o eng.º Belmiro de Azevedo escusa de chorar mais com os prejuízos do jornal ou de convidar o Governo a comprá-lo para lá mandar livremente, porque eu não auguro longa vida a esse jornalismo de referência'.

    Sigamos, sorrindo, as cenas dos próximos capítulos.

Leituras [4]

• Baptista Bastos, Quem perdeu a honra?:
    Até o dr. Pacheco Pereira (o pobre Pacheco, como o designava Eduardo Prado Coelho), cada vez mais uma personagem de Eça de Queiroz, até ele, haja Freud!, reclama contra o silêncio do residente no Palácio de Belém.

    (…)

    Ainda há um problema não comentado na Imprensa. O caso do dossiê contendo informações sobre um assessor do Governo, que Fernando Lima teria entregue ao jornalista do "Público." Será isto possível? A Presidência da República tem legitimidade para dispor de documentos desta natureza? E Lima, manuseando este documento pessoalíssimo, não pratica uma ilegitimidade?

    Evidentemente que a "notícia" colocada no "Público" servia os interesses do PSD, sobretudo nesta quadra de eleições e na atmosfera espessa de combate e injúria em que temos sido obrigados a viver. O silêncio de Fernando Lima é estimável, como escrevi acima, mas esse silêncio compromete-o, apenas, a ele? O ambiente de conspiração e de cumplicidades sórdidas fornece um quadro de miséria moral que atinge aqueles que se acobertam e acobardam.

    O dr. Cavaco é useiro e vezeiro em actuar deste modo, quando as coisas não lhe correm a jeito. Não está à altura das funções para que foi eleito. Falta-lhe grandeza, clarividência e coragem. O mesmo aconteceu quando dirigiu o País durante duas décadas. Sobrava-lhe em dinheiro vindo de Bruxelas o que lhe faltava de perspectiva, de génio político, de estratégia nacional. Encheu o País de betão. Apenas isto. E criou uma esfera de crispação que atingiu as raias da esquizofrenia. É dramático que a memória dos portugueses seja obnubilada pela insistência dos mitos. O dr. Cavaco não foi um grande primeiro-ministro, como não é um grande Presidente da República. É um homem mediano, embaiado nos seus pequenos interesses, e um político medíocre, sem jeito para falar, pouco à-vontade com as pessoas, assustadiço, ressentido e vingativo.

    Fernando Lima serviu-o, com canina fidelidade, durante mais de vinte anos, quase vinte e cinco. Olhava por ele, vigiava-lhe os defeitos morfológicos, sussurrava-lhe o que devia dizer em circunstâncias de aperto, escreveu um panegírico sabidamente exagerado. É um cortesão, um servidor silencioso e atento. Não merecia esta pública desconsideração, este desprezo inominável. Mesmo que tudo estivesse combinado, manda a dignidade e a honra que Fernando Lima protestasse contra a extensão da exautoração presidencial.

Leituras [3]

• Manuel Caldeira Cabral, O Ruído das escutas
    Esta questão só não é mais grave, porque realmente não há qualquer indício de que tenha havido quaisquer escutas. Mas nesta situação, como é que se admite que a Presidência tenha deixado arrastar por um mês esta dúvida na opinião pública?

    O Presidente é um árbitro do sistema, devendo evitar envolver-se nas lutas partidárias, particularmente em época eleitoral. A actuação tardia e o facto de assessores tão próximos terem estado envolvidos directamente no desencadear deste caso não abonam a favor da credibilidade da Presidência da República. Isto é muito mau, especialmente num momento político como o que o País está a atravessar.

    Mas neste caso não foi só a instituição Presidência que esteve mal. Foi também um jornal de referência: o "Público". Este caso abalou fortemente a credibilidade do "Público" e da sua direcção.

    Nos dois dias seguidos em que o "Público" deu destaque a este assunto o jornal nunca apresentou ou sequer revelou que tivessem sido referidas provas de que existissem escutas. É assim estranho que na comunicação social este se tenha vindo a chamar "o caso das escutas".

    O caso foi alimentado de histórias de um assessor que se sentou numa mesa sem ser convidado e que falou com jornalistas do continente, e que por isso era apelidado de "espião". Só faltou acusar a pessoa em causa de ser: simpático, logo um espião. Há limites para o ridículo. E nessa notícia o "Público" ultrapassou-os. A pessoa em causa merece um pedido de desculpas pela forma como foi tratada.