sábado, maio 31, 2008

O rasgo adiado





A candidata a presidente do Conselho de Ministros escreve no Expresso. Esperava que aproveitasse o dia da sua eleição para transmitir uma qualquer ideia mobilizadora, ainda que não consolidada, do que tem a oferecer ao país.

Enganei-me. Manuela Ferreira Leite entendeu que o tema de maior relevância, no dia em que pôs Sócrates a tremer que nem varas verdes, é o da redução dos prazos de reembolso do “IVA à construção”, recentemente anunciada. Veja-se:
    “(…) o que espanta é que o Estado reconheça que, pela sua actuação, é ele próprio fonte de prejuízo às empresas, ao considerar que uma das medidas de ajuda é a devolução mais rápida do IVA à construção, propondo-se fazê-lo em 30 dias em vez dos actuais 90.

    Se pode pagar mais depressa, é porque isso é possível e portanto não faz mais do que a sua obrigação.”
O Código do IVA está em vigor há mais de 20 anos. A Dr.ª Manuela — que foi secretária de Estado do Orçamento com Cavaco Silva e ministra das Finanças com Durão Barroso, em ambas as situações com responsabilidades directas na política fiscal — reconhece que não sabia nem deixava de saber se se poderia “pagar mais depressa”. Mas critica o Governo por se propor fazer o que a própria (e o PSD) não fez durante longos anos.

A fama de que Ferreira Leite é uma boa contabilista talvez seja muito exagerada. Seja ou não, suspeito de que Pacheco Pereira vai ter muito trabalhinho pela frente se quiser que a bota bata com a perdigota.

Um percurso edificante




Num post intitulado UMA FRAUDE, Pacheco Pereira insurgiu-se contra a “manipulação” a que o FAL habituou os leitores do DN.

A reacção anémica do FAL e a colagem imprópria a uma colega, jornalista do Expresso, deixando subentendido que também ela teria, então, infringido as regras deontológicas, diz tudo acerca do finório. Não é preciso sequer invocar o artigo que o FAL escreve hoje no DN, em que se comporta — aparentemente, por sua conta e risco — como mandatário de Passos Coelho na imprensa, para se perceber que isto não é jornalismo.

Valha-nos que não há nada nesta instrutiva história que possa deixar surpreendidos os leitores do CC.

VPV é que é historiador, mas…

Escreve Vasco Pulido Valente na edição de hoje do Público:
    «Só no PC há uma doutrina (anacrónica, se quiserem, mas doutrina) e uma “linha” universalmente obrigatória. E, por isso, fora uma ou outra dissidência no PS e do PSD durante o princípio do regime (que não levaram a nada), só também no PC houve expulsões dos militantes que desobedeciam ou recalcitravam. De resto, quem saiu do PS, do PSD ou do CDS saiu, como se diz, pelo seu próprio pé.

    Em 1985-86, Cavaco ainda tentou correr com meia dúzia de excêntricos que se recusaram a apoiar Freitas do Amaral. Não chegou longe. E percebeu depressa que a autoridade do "chefe" assentava num contrato leonino com as “bases”, pelo qual as “bases” se comprometiam a seguir o “chefe”, enquanto o “chefe” estivesse no poder e lhes distribuísse com regularidade e zelo a sopa do convento, ou seja, os benefícios de um Estado crescentemente “monstruoso”. Isto que vale para Cavaco e para o PSD, vale para o PS e para o CDS.»
Eu, que não sou muito versado na vida interna dos partidos, tenho ideia de que a coisa não se tem passado bem assim. De repente, recordo-me de Carlos Macedo — salvo erro, médico, deputado, coordenador da AD e que chegou a ser presidente da comissão política do PSD —, o qual, por ter tido a ousadia de criticar a política de saúde de Leonor Beleza, foi expulso do PSD: expulso.

Já para não falar do CDS-PP, que, não tendo ninguém à mão para expulsar, retirou a fotografia de Freitas do Amaral lá do Caldas.

A palavra aos leitores

De um e-mail enviado por Rogério G.:
    “(…) A última página do Público de hoje tem uma óptima: querem atacar o Oliveira e Costa banqueiro, mas colocam a foto do Rui Oliveira e Costa, especialista em estudos de opinião.

    Lá terão amanhã de encher um pouco mais ainda a secção O Público errou, que é diariamente uma pequena e muito autocensurada amostra dos dislates do jornal.”
Pois, caro leitor, agradeço a chamada de atenção. Com efeito, o Oliveira e Costa dos estudos de opinião, que estava ontem muito divertido ao lado da estilista Fátima Lopes no Rock in Rio, não é efectivamente o parceiro no Banco Português de Negócios do conselheiro de Estado Manuel Dias Loureiro.

♪ The Mountain Goats




Sax Rohmer #1

sexta-feira, maio 30, 2008

COISAS DA SÁBADO [8]

Banca e assim


Foi por ser administradora do Santander que esteve contra o inquérito parlamentar à actuação do Banco de Portugal (BP) no caso BCP?
MFL — Foi por uma questão de sentido de Estado. Considero que é extremamente gravoso estar-se a pôr em causa, através de um inquérito parlamentar, o papel do BP como regulador. Não tem a ver com quaisquer tipo de influências de qualquer sector.

Luís Filipe Menezes acusou pessoas ligadas à sua campanha de fazer pressões para que o inquérito não avançasse.
MFL — Para acabarmos com essas perguntas, não faço nenhum comentário a coisas que são ditas com objectivos de natureza pessoal, se calhar mais do que política. Não entro nessa conversa.

Mas compreende que são questões relevantes...
MFL — Faça a questão que eu não lhe respondo.

COISAS DA SÁBADO [7]

Justiça e credibilidade





Não a incomoda que um membro destacado da sua candidatura, António Preto, esteja acusado de um crime de falsificação e fraude fiscal?
MFL — (Longo silêncio) Não. Já fui testemunha dele e essa acusação não tem ponta por onde se lhe pegue.

Porquê? Conhece a investigação do MP?
MFL — Sobre problemas do Ministério Público e investigações não falo...

Ao dizer que as acusações não têm ponta por onde se lhes pegue já está a fazê-lo. Isaltino Morais era arguido. António Preto está acusado. Há aqui uma diferença formal.
MFL — Peço desculpa! Estão a tirar conclusões apressadas! Desculpe! Não pronunciei o nome de Isaltino Morais. Já me está pôr na boca que sou tão peremptória em relação a Isaltino Morais. Não sei de quem está a falar. Não me pode pôr na boca uma coisa que eu não disse!

Então diga. De quem estava a falar?
MFL — Não estava a falar de ninguém. Não concordo com o critério arguido. Concordo com o critério de haver certo tipo de características de pessoas que não servem para ser candidatos. Não vou dar exemplos pessoais, não vale a pena insistir. Pode haver pessoas que não estão acusadas de nada e não têm perfil. O labéu que foi posto é excessivo.

Posso ou não concluir que consigo uma pessoa acusada num processo por falsificação e fraude fiscal não será candidata?
MFL — (Suspiro) Pode concluir que escolherei candidatos que preencham critérios política e eticamente defensáveis. E não digo nomes.

No campo dos princípios, um potencial candidato ser arguido...
MFL — ... Mas já lhe disse quais são os meus princípios!

Ainda não percebi neste caso particular.
MFL — Ainda não percebeu? Então pronto!

COISAS DA SÁBADO [6]

Realpolitik

Marques Mendes em Lisboa esteve bem ou não ao pedir o afastamento dos vereadores arguidos?
MFL — Não fez bem nem mal porque, visto que tinha definido aquele critério, ele aplicava -se. Provavelmente o critério deu um resultado que não era o mais aconselhável.

COISAS DA SÁBADO [5]


Estratégia autárquica


Se ganhar, terá de gerir o dossiê das autárquicas em 2009. Marques Mendes esteve bem quando proibiu os arguidos em processos judiciais de serem candidatos?
MFL — Acho que fez bem em ter tomado essa decisão, mas escusava de a ter tomado com carácter generalista.

Como assim?
MFL — Devia ter assumido a questão de que, se calhar, havia pessoas que talvez não tivessem condições de se apresentar ao eleitorado naquele momento.

COISAS DA SÁBADO [4]


O défice


Disse que as contas públicas já não são a maior prioridade. Isso é fazer uma homenagem à política orçamental do PS.
MFL — Não tenho nenhum problema em constatar o que está bem feito para me darem ouvidos quando disser o que está mal feito.

A senhora é que é economista, mas foi José Sócrates que colocou as contas públicas em ordem. Isso não é irónico?
MFL — Não é irónico porque ele percebeu que havia um problema de contas públicas e só o tornou público quando assumiu o Governo (…).

[Embora não pareça na resposta, o “problema de contas públicas” passou pelas suas mãos no Governo de Barroso.]

COISAS DA SÁBADO [3]

A candidata que não faz ataques pessoais


MFL — Acha que se não tivesse energia me metia nesta iniciativa?

Diz que o fez por responsabilidade.
MFL — Desculpe, mas faz parte da responsabilidade não assumir um cargo que pensasse que não era capaz de exercer. Isso seria totalmente irresponsável. E isso não tem só a ver com a saúde, a força e o dinamismo; tem a ver com o facto de se ter força psicológica para aguentar determinadas situações. Há quem tenha demonstrado o contrário.

Luís Filipe Menezes não teve força psicológica?
MFL — É questão de analisarem a história do partido.

Nós achamos que está a falar dele.
MFL — Mas eu não falo sobre isso.

Mas insinua.
MFL — É a sua observação.

COISAS DA SÁBADO [2]

Um cheque em branco (para não assustar ao que vem)





Queria fazer-lhe perguntas sobre o seu programa eleitoral, mas não sei como vou resolver este problema, uma vez que não o tem...
MFL — Então não resolva! O meu programa para o partido ficará explícito na moção. Para o País ficará explícito no programa de Governo, que será apresentado na devida altura. Uma coisa é definir políticas de orientação e quem me conhece sabe quais são as ideias que tenho sobre o País. Não nasci agora que me candidatei à liderança. Um catálogo de medidas, mais logo à noite, enquanto tomo café, talvez as faça... Não vou apresentar medidas. As medidas são exclusivamente para caçar votos.

Tem medo de ser penalizada?
MFL — Não é só isso. É pior: para não se ser penalizado, adoptam-se medidas que não são as correctas, mas as que foram anunciadas. Isso cria uma limitação à acção política concreta inibidora de uma política séria.

COISAS DA SÁBADO [1]

Durante a entrevista, Manuela Ferreira Leite perdeu várias vezes a compostura.” Queixam-se os jornalistas de que “a candidata à liderança do PSD não resistiu a colocar em causa a legitimidade dos jornalistas para lhe fazerem certo tipo de perguntas.” Aconteceu na revista Sábado, da qual se retiram as seguintes passagens:


Do “choque fiscal” ao “país de tanga”


Os cabeças de listas do PSD que prometeram o "choque fiscal"



Foi a senhora, como ministra das Finanças, que aconselhou Durão Barroso a subir o IVA de 17% para 19%?
MFL — Sim, fui.

Como o PSD tinha prometido baixar os impostos, isso foi uma mentira política, o que quer dizer que a senhora contribuiu para que as pessoas “deixassem de acreditar nos políticos”, como agora denuncia.
MFL — Não considero nesse caso. Acho que é uma acusação injusta a Durão Barroso, porque nem sequer o PS algum dia tinha denunciado a situação das contas públicas. Foi uma surpresa para o País e para Bruxelas.

[Ao contrário do que Ferreira Leite diz na entrevista, o porta-voz do PSD com o pelouro das Finanças, Tavares Moreira, tinha divulgado, meses antes das eleições que alçaram Durão Barroso a São Bento, o valor real do défice.]

A ideia principal da sua candidatura é a aposta na credibilidade e na verdade, mas tem consciência de que contribuiu para que as pessoas não acreditem nos políticos?
MFL — Não é verdade, primeiro porque não fiz o programa…

Mas apoiou-o e foi candidata em nome dele. E aconselhou o primeiro-ministro a aumentar os impostos.
MFL — Não aconselhei: pus como condição absolutamente inadiável que isso se fizesse. [Então, Ferreira Leite conhecia a “situação das contas públicas”, que disse desconhecer duas perguntas acima.] Assumo o que fiz, e os políticos o que devem fazer é o que em consciência sempre fiz. Perante determinado problema, resolvê-lo da forma que o País exige nesse momento. Nem pior nem melhor...

Goodbye, Cavaco!

Pedro Lomba, que foi membro da comissão política da candidatura do Professor Aníbal Cavaco Silva à presidência da República, analisa, no Diário Económico (“Um teste a uma velha cultura”), a vida no PSD (oferecendo de caminho uma cátedra à Dr.ª Ferreira Leite):
    “Uma das tradições políticas mais arreigadas de Portugal é a ideia da política como autoridade professoral. Uma autoridade com escasso contacto com o mercado das ideias e com a competição democrática.

    Daí que o último século tenha sido dominado por professores de direito (Afonso Costa, Salazar, Marcello Caetano) ou de economia (Cavaco Silva). A persistência desta cultura de carisma tecnocrático está na origem da separação de dois domínios fechados: o domínio da política e o domínio da sociedade. O da política identifica-se com o mundo dos "professores que fazem política" cujo poder é reconhecido e aceite, independentemente de qualquer escrutínio; o da sociedade constitui um espaço paradoxal em que metade dos portugueses é despolitizada, incapaz de avaliar criticamente a política, e a outra metade luta pelo reconhecimento segundo esquemas de favorecimento e bajulação próprios de sociedades não liberais.

    As eleições do PSD vão ser, de algum modo, um teste a esta tradição portuguesa que vê a política como personalização catedrática (Ferreira Leite), assim como ao que poderá fazer o seu mais recente opositor (Passos Coelho) que, apesar dos frágeis compromissos internos em que assenta, aposta em seguir um caminho de devolução e liberalização, com abertura ao exterior, à sociedade civil e a outros tipos de autoridade que não a autoridade técnica e académica.”

A voz do INE

Não se esqueçam de procurar estas informações nas manchetes dos diários de amanhã:

Volume de Negócios no Comércio a Retalho positivo - Abril de 2008: Em Abril de 2008, o Volume de Negócios no Comércio a Retalho registou uma taxa de variação homóloga de 0,9%, superior ao verificado em Março em 2,6 pontos percentuais. O emprego, as remunerações e o número de horas trabalhadas corrigidas dos dias úteis, no Comércio a Retalho, apresentaram taxas de variação homóloga positivas de 2,5%, 3,5% e de 3.6, respectivamente.

Produção Industrial positiva - Abril de 2008: Após a variação negativa observada em Março (-5,5%), em Abril o índice de produção industrial registou uma variação homóloga positiva de 1,5. A taxa de variação média dos últimos 12 meses foi nula e inferior em 0,1 p.p. ao verificado em Março. A secção da Indústria Transformadora registou uma variação homóloga de 3,9% em Abril (-3,1% no mês anterior) e uma variação média anual de 1,8%.

Passou ao lado de uma grande carreira¹





A Lusa traça hoje o perfil dos candidatos à presidência do PSD. Chamou-me a atenção a reprodução de um extracto da Autobiografia Política de Cavaco Silva sobre Manuela Ferreira Leite, com a qual o actual Presidente da República priva, como se sabe, há cerca de quatro décadas:
    "Viria a revelar-se mais tarde uma mulher de grande visão política, qualidade de que, na altura, confesso, não me apercebi".
________
¹ Com a devida vénia a Gabriel Alves.

A pobreza, o Estado Social e o PSD

Quando se ouve Manuela Ferreira Leite (ou Passos Coelho) a prometer a redução do Estado às funções de soberania, convém relembrar a questão da pobreza. Este excelente artigo de Fernanda Câncio é um bom texto de apoio à reflexão:
    “(…) se Portugal tem, em 2006, uma taxa de pobreza (correspondendo ao número de agregados com cerca de 400 euros/mês/pessoa) de 18%, dois pontos acima da média da UE, está ao nível da Irlanda, três pontos abaixo da Grécia, dois pontos abaixo da Espanha e da Itália e um ponto abaixo do Reino Unido. Longe da Noruega, da Dinamarca, da Suécia e da Holanda (entre os 10 e os 13%), é certo. Mas sendo estes valores respeitantes aos rendimentos dos agregados após "prestações sociais" - ou seja, após pensões e subsídios -, há uma extraordinária constatação a fazer: antes dessas prestações, Portugal tem uma taxa de pobreza de 25%, igual à da França e inferior à da média da UE (26%), assim como da Irlanda (33%), da Noruega (30%) e da Finlândia e Suécia (29%). Por outro lado, se esta taxa desceu apenas dois pontos desde 1995, a outra desceu cinco pontos, de 23% para 18%, no mesmo período. Parece que a democracia, afinal, serve para alguma coisa - e que um país é tanto mais pobre quanto o quisermos pobre. Nada de novo, mas é sempre bom lembrar.”

Da série "Frases que impõem respeito" [164]




    «Hoje há quem afirme que ninguém nos ouvia. No essencial concordo. Quem é que pode prestar atenção a uma ópera quando no ecrã ao lado Doze Indomáveis Patifes protagonizam uma infindável e ruidosa "coboiada".»
      Luís Filipe Menezes no DN de hoje

Professor, está bem assim?

Vale a pena ler a redacção da mandatária para a juventude de Passos Coelho, Filipa Martins, sobre uma interacção que teve com o Professor Pedro Magalhães. Junto ao Tejo. Eis a redacção:
    “Os jovens estão cada vez mais afastados de estruturas hierárquicas, garantiu esta terça-feira, junto ao Tejo, Pedro Magalhães, politólogo e responsável pelo estudo "Jovens e Política”. O professor aceitou o convite da candidatura de Pedro Passos Coelho e de uma forma descontraída interagiu com jovens de dentro e fora do PSD e partilhou as conclusões do estudo que há pouco tempo levou Cavaco Silva a alertar para a falta de interesse dos jovens pela política. Com cada vez mais formação, os jovens sentem que uma estrutura onde a comunicação é quase feita de forma unidireccional e onde têm de respeitar as decisões de um líder não faz sentido. Isto não significa porém que os jovens não sejam activos socialmente, multiplicando-se a entrada em associações. Privilegiam o referendo e são extremamente activos quando o assunto é do seu interesse. Revelam também que apenas uma vez por semana assistem a um noticiário político.

    Por este motivo e também noutras áreas, é fundamental que os partidos políticos criem gabinetes de estudo para contactarem com as diferentes dimensões da sociedade. Uma trabalho aprofundado que não se perca a cada mudança de liderança. Não estou familiarizada com as estruturas internas dos partidos, mas julgo que seria uma ambição benéfica criar uma espécie de universidade dentro da estrutura partidária. Qualquer partido, principalmente os que mais eleitores reúnem, têm de estar sempre preparados para governar e não se devem limitar a uma reacção episódica ao momento.

    Outra conclusão interessante do encontro de ontem prende-se com o facto de a candidatura de PPC ser objectivamente a personificação da mudança. As outras candidaturas têm como argumento “vamos fazer o mesmo que o PS, mas melhor”, já PPC pretende fazer diferente, representando uma alternativa ao Governo e não apenas uma avaliação de capacidades. PPC tem outra visão das funções do Estado e do funcionamento da economia, as outras candidaturas primam por ser uma continuação do que já está a ser feito. Acontece que o discurso do “vamos fazer que o PS, mas melhor” trouxe o PSD até ao ponto onde se encontra neste momento. E a pergunta que se deve fazer é: o PSD vai mudar ou ficar na mesma?”

♪ Gillian Welch & David Rawlings





Annabelle [Versão de estúdio aqui]

quinta-feira, maio 29, 2008

Desigualdades e preocupações sociais




Depois das discussões tidas nos últimos dias sobre as desigualdades sociais em Portugal, o Jornal de Negócios — do qual rapinei o gráfico — dá hoje conta de que o Eurostat apontou “erros graves” nos dados disponibilizados pelo INE.

Sabe-se agora, através do Eurostat, que, no cálculo do indicador das disparidades de rendimento, houve “erros de medição (interpretação errada das perguntas), falhas na preparação dos ficheiros para o Eurostat e dificuldades nos procedimentos de validação para algumas das componentes do rendimento”.

O indicador das disparidades de rendimento compara os 20 por cento mais ricos com os 20 por cento mais pobres. Corrigidos os dados, descobre-se que a amplitude das disparidades não é de 8,2 vezes, como tinha sido anunciado, mas de 6,9.

Observando o gráfico, verifica-se que, após um pico em 1995, se assiste a um decréscimo acentuado das disparidades de rendimento com os governos de António Guterres. Mas o indicador volta a subir com o Governo de Durão Barroso em 2002 e 2003, no qual pontificava a ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite, que subitamente agora aparece apoquentada compreocupações sociais”.

Parafraseando o patusco Patinha Antão, “valha-nos Deus”.

Homem de pouca fé

Depois de ontem se mostrar convencido de que, mais tarde ou mais cedo, vai ser obrigado a trocar a vida de autarca pela de bombeiro do PSD, Rui Rio afirmou hoje recear que, "por questões de alinhamentos internos, possa haver um divórcio entre o que é a decisão dos militantes e a vontade do país em ter uma alternativa".

Manuela Ferreira Leite bem pode agradecer estas manifestações de confiança na sua candidatura à liderança do PSD.

Se ler o Público, não acelere



Este cavalheiro tramou-se.

Mas, afinal, o que é a "social-democracia" do PSD?





Manuela Ferreira Leite resolveu desvendar o que é a "social-democracia" do PSD. Fê-lo ontem no debate da SIC, eram 21 horas e 37 minutos. Aqui fica o segredo mais bem guardado da história do PSD:
    Clara de Sousa — O que é a matriz social-democrata que a Senhora pretende recuperar?
    Manuela Ferreira Leite — A matriz social democrata que pretendo recuperar… considerando… vários aspectos da matriz social democrata e nomeadamente aquilo que eu considero deve ser o papel do Estado nessa… nessa… nessa… a sua função… o papel do Estado que é… tomar as… medidas necessárias e criar as condições necessárias para que a actividade privada se desenvolva de forma autónoma, que a sociedade civil se possa desenvolver e ter a preocupação e a sua função essencial é prestar serviços àqueles que são os mais desfavorecidos e fazer correcções nas desigualdades sociais. Essa é a função social-democrata.

Retrato de Louçã enquanto jovem




Ouvi pela TSF o debate quinzenal na Assembleia da República. Francisco Louçã disse que Sócrates e João Proença andavam “pelo país” a “explicar” o código laboral aos militantes do PS. Perante os protestos da bancada da maioria, e com Sócrates a acusá-lo de cobardia, Louçã respondeu que não é nada cobarde — cobarde é o PSD: "O ataque profissional à jornalista Fernanda Câncio não partiu desta bancada".

É a típica reacção hipócrita do menino self-righteous que, no fundo, Louçã nunca deixou de ser. Como qualquer pessoa crescida sabe, mais cobarde do que a calúnia é a reprodução da calúnia, a pretexto de se estar a condenar a cobardia.

ADENDA — Afinal, também Carvalho da Silva anda “pelo país” a “explicar” o código laboral aos militantes do PS [via Sindefer]. A posição de João Proença está aqui.

Da série "Frases que impõem respeito" [163]

    “Eu não participo em sessões com o dr. Francisco Louçã”.

Leituras

João Pinto e Castro escreve sobre o futebol para falar do futuro da Europa. De leitura obrigatória, claro.

♪ The Walkabouts




Loom of the Land (de Nick Cave)

quarta-feira, maio 28, 2008

Pergunta/Resposta

Manuela Ferreira Leite entrevistada pelo Diário Económico:
    DE — Em 2009 há legislativas, autárquicas e europeias. Já tem uma estratégia para atacar as três eleições?
    MFL — Não tenho nenhuma estratégia.

Com amigos assim...




Rui Rio, numa visita a um quartel de bombeiros, pensou em alta voz: "Qualquer dia também tenho de apagar um [fogo] no PSD, que aquilo está a arder, não é?" A SIC não cedeu às pressões do autarca para não divulgar as suas confidências.

Gato escaldado de água fria tem medo

Os empresários Joe Berardo e Horácio Roque foram apanhados na “Operação Furacão”, noticia o Jornal de Negócios. A SIC-N refere que “foram solicitados documentos” às empresas de Berardo e Roque. Nunca tinha ouvido falar de uma busca nestes termos.

A forma como Balsemão reagiu a uma manchete sobre Berardo no Expresso ainda está viva na memória dos jornalistas do grupo.

Não eram incomodados há 34 anos

Patinha Antão incluiu militante falecido na lista de candidatura à liderança do PSD. A notícia vem no Público, que não esclarece no entanto como foi recolhida a sua assinatura.

Isto não vai acabar bem [9]

Santana Lopes andou por Viseu, onde avisou: "É bom dizer o nome de pessoas com algumas intervenções absolutamente inaceitáveis". Para o candidato, "seria inconcebível ver sorridentes, no próximo sábado, pessoas como Pacheco Pereira e Paula Teixeira da Cruz".

À espera de melhor ocasião

Bem escondidinha na página 38, decerto para não assustar as pessoas e o Medina Carreira, lá está no DN de hoje a estranha notícia.

Ao que parece, a produção automóvel nacional registou em Abril deste ano um crescimento mensal de 25,2% e um crescimento acumulado de 6,6%. Mais interessante ainda, todas as principais empresas aumentaram significativamente a produção no mês. Ora vejam: Volkswagen, 24,3%; Peugeot/ Citroen, 23,2%; Mitsubishi, 30,8%; e Toyota, 38,8%.

Como 97,4% dessa produção se destinou aos mercados externos, e como o sector automóvel tem um grande peso nas exportações nacionais, estes dados revestem-se de um grande significado.

Temo bem que a recessão tenha que ficar adiada para melhor ocasião.

Da série "Frases que impõem respeito" [162]




    “(…) eu sou empregador e sinto, por experiência própria, que a actual legislação [Código do Trabalho] é demasiado restritiva.”

A Regra do Jogo

Conversa no programa A Regra do Jogo, transmitido em directo no prime time do canal líder de audiências na televisão por cabo:
    Regressado da província” [palavras do próprio, para justificar o facto de não estar ao corrente de nenhum assunto], o sociólogo António Barreto comparava o “humanismo” do Banco Alimentar contra a Fome com a “burocracia” das políticas públicas de solidariedade social. Às tantas, o advogado José Miguel Júdice interrompe-o: “Ó António, e aquela história horrível daquela menina que a Mena nos contou ao almoço…”

♪ Cowboy Junkies





Misguided Angel (acoustic)

terça-feira, maio 27, 2008

“O que aconteceria ao PIB se a Páscoa tivesse sido no segundo trimestre?”





É o título de um artigo escrito por Rui Peres Jorge no Jornal de Negócios, que retoma as questões levantadas pelo Afonso Mesquita a partir de dados do próprio INE. Eis um extracto do artigo:
    «A Páscoa tirou ou não fôlego à economia portuguesa no primeiro trimestre? Em caso afirmativo, quanto? Apesar de nem o próprio Instituto Nacional de Estatística (INE) querer arriscar uma resposta, dados os vários condicionantes em jogo, o debate está instalado, sobretudo na blogosfera.

    O Jornal de Negócios contribui para o debate, fazendo a análise possível: compara o ritmo de crescimento trimestral da economia com o ritmo de crescimento diário. O objectivo é isolar o efeito dos dias úteis. Conclusões: o PIB médio diário durante os três meses do ano acelerou 2,6% face ao registado nos mesmos meses de 2007 e 1,4% face ao último trimestre do ano passado. Uma medição bem diferente do crescimento oficial do primeiro trimestre, o qual foi divulgado pelo INE há semanas: 0,9% em termos homólogos e um recuo de 0,2% em cadeia.

    Mas será que esta diferença é apenas justificada pelo facto de o trimestre ter tido apenas 62 dias úteis, contra os 63 de 2007? O Governo está convencido que sim, e apoiou-se nisso mesmo para tentar desvalorizar o ritmo de abrandamento registado. Na blogosfera, também há quem partilhe desta lógica semelhante à "regra de três simples": menos dias, menos PIB.

    Nas últimas semanas, leram-se títulos de "post" como "a catástrofe económica que não aconteceu", por Afonso Mesquita na "Câmara Corporativa" ou conclusões como a de João Pinto Castro do "Blogo Existo": "a triste conclusão é que nem o INE, nem os jornalistas económicos, nem os economistas, nem os políticos fazem bem o seu trabalho" ao não perceberem que o abrandamento se deveu essencialmente ao menor número de dias úteis.

    Já as contas do JdN mostram que há outros factores em jogo para além da redução de dias úteis ditada pelo facto da Páscoa ter ocorrido em Março. É que, caso a diferença entre trimestres fosse apenas justificada pelo número de dias, então o PIB diário seria semelhante.

    No entanto, no primeiro trimestre, o PIB médio diário aumentou, em termos homólogos, para 2,6%, um ritmo muito superior ao da média do crescimento real dos últimos anos. Este facto parece indicar que a Páscoa poderá terá roubado uns dias úteis com uma mão, mas oferecido com a outra factores de dinamismo.

    Questionada há uns dias, fonte oficial do INE respondeu ao JdN que o ajustamento aos efeitos de calendário é complexo e depende de vários factores. Por falta de tecnologia o instituto não arrisca avançar o impacto. Mais ajuda chegou da blogosfera por Rui Cerdeira Branco, funcionário do INE e autor do blogue "Economia e Finanças". Em defesa do instituto, o economista reconhece a fraqueza dos dados, mas desafia: "Na Câmara Corporativa quanto apostam em como menos dias úteis têm necessariamente um efeito negativo para o PIB?". É que, diz, na Áustria acontece frequentemente o PIB crescer com o número de feriados e fins de semana. A explicação: o sector do turismo beneficia do "efeito escapadinha", como foi baptizado por um técnico do INE austríaco.»

Jornalismo de referência

1. Questiona-se aqui: “o que é que me diz que o Público não comete sucessões de erros idênticas quando trata temas que não domino e sobre os quais confio na credibilidade da informação do jornal.” Pois, não é apenas a canga ideológica que nos é vendida de contrabando que está em causa: a redução de custos (ou seja, a substituição de jornalistas consagrados) faz-se sentir, de forma notória, na qualidade do produto vendido por José Manuel Fernandes, como se vem aqui pacientemente demonstrando.

2.O jornalismo está mesmo transformado numa coisa indigente”, escreve um leitor do CC a propósito disto. E, mais à frente, acrescenta: “Este artigo suspeito tem erros factuais em todos os parágrafos. Até se afirma aí que Cavaco Silva derrotou Mário Soares em legislativas.” É estranho, de facto, que tantos erros grosseiros tenham escapado a toda a cadeia do DN, do jornalista à direcção, passando pelos editores.

3. Em poucos dias, é a segunda vez que o Público aparece preocupado com os supermercados discount. Hoje, dedica duas páginas ao alegado racionamento de arroz na cadeia de lojas Lidl. Nem se percebe bem a notícia — a não ser que a sua leitura seja conjugada com a da secção das setinhas, na qual o Lidl é agraciado com uma setinha para baixo, alegadamente por ter levado a cabo uma operação de marketing para escoar os stocks de arroz. Só faltava mais esta: pagar como jornal de referência um prospecto informativo do Continente.

“Na tal patologia do ficheiro”: hoje somos muitos, amanhã seríamos milhões


— Pedro, o Ribau é seu, mas o António Preto é meu.



Cunha Vaz delineou uma campanha de angariação de 300 mil sócios para o Benfica. A coisa falhou. Quis repetir a mesma receita com o PSD, para refiliar cerca de 250 mil militantes. Nunca saberemos se a iniciativa viria a ter êxito. Para memória futura, contentamo-nos em saber, através do clarividente Ribau, que “os ficheiros do PSD padecem de várias patologias e nós queríamos pôr ordem nisso”.

“Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”

    “Manuela Ferreira Leite não é a mulher dos cifrões. Preza o valor da dignidade humana e preocupa-se com as pessoas.”
      Carlos Coelho, eurodeputado e apoiante de Manuela Ferreira Leite, DN, 27 de Maio

Pobreza e desigualdades

        “Surpreendido não fiquei. Mas chocado e entristecido, isso sim, por Portugal aparecer na cauda dos 25 países europeus — a Roménia e a Bulgária ainda não fazem parte da lista — nos índices dos diferentes países, quanto à pobreza e às desigualdades sociais e, sobretudo, quanto à insuficiência das políticas em curso para as combater.”
          Mário Soares no DN de hoje


Surpreendido não fiquei. Mas chocado e entristecido, isso sim, por Mário Soares dar mais atenção às capas do Senhor Fernandes do que aos números do INE.

A nota à comunicação social de 15 de Janeiro é esclarecedora. Com efeito, as desigualdades sociais baixaram e a taxa de risco de pobreza tem vindo a diminuir, de 2004 (20%) para 2005 (19%) e de 2005 para 2006 (18%).

Aguardemos pelos dados de 2007 e 2008 para tirarmos conclusões quanto à “insuficiência das políticas em curso”. Algumas dessas medidas são hoje recordadas por Vital Moreira no Público:
    • A revisão do rendimento social de inserção;
    • A criação do subsídio complementar para idosos pobres;
    • O aumento real do salário mínimo e das pensões mínimas;
    • A elevação dos abonos para as famílias numerosas e dos apoios à maternidade;
    • A ampliação da rede de estabelecimentos sociais.

Leituras

Pedro Adão e Silva, “São as desigualdades, estúpido”:
    “(…) de cada vez que se apresentam os dados sobre a pobreza, desvalorizando o conjunto de políticas que Portugal tem desenvolvido, está-se a dar um importante contributo para subestimar o papel da intervenção pública na diminuição das desigualdades. E a verdade é que, como revelam as comparações internacionais, o que faz variar as desigualdades não é apenas a variação no PIB, são, também, as opções de cada país em termos de políticas públicas.

    Portugal tem uma taxa de pobreza muito elevada no contexto europeu – em 2006 era de 18%, quando por exemplo na Suécia era de 12%. Acontece que, considerando as taxas de pobreza antes das transferências sociais, a nossa posição não é muito diferente da dos nossos parceiros europeus. Enquanto em Portugal, o risco é de 29%, no caso sueco é de 25%. Este dado serve para demonstrar que a percentagem do produto destinada a despesa social (25% em Portugal e 32% na Suécia) é decisiva para explicar a ‘performance’ de cada país.

    Mas um olhar mais fino sobre os dados revela que Portugal tem tido maior capacidade no combate às formas mais severas de pobreza do que face ao conjunto das desigualdades. Desde 1995 até 2006, Portugal fez baixar a intensidade da pobreza total, mas isso tem acontecido muito por força da melhoria da situação dos idosos (de 26% para 17%). Onde Portugal continua a ter maior rigidez é entre os pobres em idade activa (apenas de 31% para 25%).”
Teodora Cardoso, Várias crises, uma síntese?:
    “As crises que estão a desenrolar-se na economia internacional – financeira, energética, alimentar e ambiental – exigem a utilização prudente dos instrumentos clássicos da política económica, mas não são meras crises conjunturais do capitalismo, resolúveis por esses meios.”

♪ Smog (Bill Callahan)




Rock Bottom Riser [Aqui com Joanna Newsom]

segunda-feira, maio 26, 2008

Da série “Ninguém me olha a pensar que minto”¹ [5]




O actual governo quer construir duas linhas de alta velocidade: uma para Espanha, outra para o Porto. Questionada no célebre debate na TVI moderado por Manuela Moura Guedes, Manuela Ferreira Leite disse desconhecer dossiers como o TGV.

Achei, de facto, estranho, porque tinha ideia de que a então ministra das Finanças havia defendido a construção de cinco linhas de TGV. Veja-se a Resolução do Conselho de Ministros n.º 83/2004, de 26 de Junho:
    “a) Linha Porto-Vigo, como linha de alta velocidade, com uma estação intermédia entre o Porto e a fronteira luso-espanhola de Valença/Tuy, com horizonte temporal de 2009;
    b) Linha Lisboa-Madrid, como linha especialmente construída para a alta velocidade, com estação intermédia em Évora e na fronteira luso-espanhola de Elvas-Badajoz. Deve igualmente a sua parametrização permitir a circulação de composições ferroviárias de mercadorias compatíveis com as características do traçado e as exigências de exploração, com horizonte temporal de 2010;
    c) Linha Lisboa-Porto, como linha especialmente construída para a alta velocidade, com estações intermédias em Leiria, Coimbra e Aveiro, com horizonte temporal de 2013;
    d) Linha Lisboa-Faro-Huelva (via Évora), como linha de alta velocidade, com uma estação intermédia em Beja, com horizonte temporal de 2018 dependente de estudos técnico e de viabilidade económica;
    e) Linha Aveiro-Salamanca, como linha de alta velocidade, permitindo a circulação de composições ferroviárias de passageiros e mercadorias, com estação intermédia em Viseu, com horizonte temporal de 2015.”
Quando o governo de Durão Barroso decidiu alcatifar o país com linhas de alta velocidade, Ferreira Leite conhecia o dossier, tanto que o aprovou em conselho de ministros. Agora que o Governo decidiu avançar com duas linhas, a ex-ministra diz desconhecer o dossier.
___________
¹ Expresso de 3 de Maio.

"Há muita falta de memória na política e nos políticos"

Conta hoje o DN que, "reunido na última sexta-feira, o Conselho Nacional do CDS aprovou por unanimidade um voto de homenagem a Francisco Lucas Pires". Se bem me recordo, a última vez que o Dr. Portas se tinha pronunciado sobre Francisco Lucas Pires foi num programa televisivo de Margarida Marante, nos idos de 90. Na segunda parte desse programa, o convidado era habitualmente confrontado com o comentário de um intruso que aparecia em tele-conferência. No dia em que Lucas Pires foi entrevistado, coube a Paulo Portas cumprir com indisfarçável prazer essa tarefa odiosa: "O Dr. Lucas Pires, quando se esperava que crescesse, engordou!"

♪ Radiohead




Weird Fishes/Arpeggi

domingo, maio 25, 2008

Viagens na Minha Terra

♪ She & Him (Zooey Deschanel & M. Ward)




Why Do You Let Me Stay Here?

sexta-feira, maio 23, 2008

“Não devemos esquecer que muitos leitores lêem apenas isso”




          «O título é o elemento central da peça jornalística e tem de funcionar bem por si só, sem “muletas”. (…) Não devemos esquecer que muitos leitores lêem apenas isso (…).»
            Livro de Estilo do Público, p. 60


Entre ontem e hoje, foram divulgados dois estudos:
    • Um elaborado pela Comissão Europeia sobre a situação social na União Europeia no ano de 2004;
    • Um outro dirigido por Bruto da Costa, o qual analisa a pobreza em Portugal no período compreendido entre 1995 e 2000.
O Público ainda é capaz de surpreender os seus leitores. A manchete (e o subtítulo) de hoje é escandalosa extraordinária:
    1. Junta sob o mesmo título as duas notícias sobre os dois estudos diferentes;
    2. Esconde aos leitores que os dois estudos incidem sobre o passado e não sobre o presente.
O que é mais extraordinário é que o Público, que tanto ataca as medidas de natureza social adoptadas — o aumento do salário mínimo, o complemento solidário para idosos ou a instituição do indexante dos apoios sociais (IAS) —, surge do nada preocupado com as disparidades sociais.

O Paradoxo do Ornitorrinco [6]




Se não sabiam como se fazia, aprenderam muito depressa.

Para não “discriminar o privilégio”




O Público de hoje agracia Ramalho Eanes com uma setinha para cima por um feito só comparável ao da sua viagem no Lusitânia Expresso, quando, sulcando os mares a caminho de Timor, acostou mansamente a Darwin.

O Público justifica assim a setinha:
    «Pode haver quem se indigne com a acumulação de pensões por exercício de funções públicas e de cargos políticos, mas mais intolerável é haver buracos na lei que discriminem o privilégio [sic]. Durante anos, Ramalho Eanes foi o único ex-Presidente da República a não poder usufruir dessa prerrogativa. Essa “injustificada diferença de tratamento”, porém, está prestes a acabar.»
Acaba hoje o martírio de Eanes com a aprovação de uma alteração ao estatuto remuneratório do presidente da República. Há apenas um pormenor que convém avivar: Soares e Sampaio não acumulam duas (ou mais) pensões do Estado.

O expediente encontrado para atalhar a situação de penúria de um ex-presidente pode não ser eticamente aceitável, mas é humanamente compreensível.

“Aprovando este empréstimo obrigacionista, perdem dentro de cinco anos a gestão do futebol”

A sensação com que se fica ao ler o que António Dias da Cunha diz ao DN (aqui e aqui) é que ficou muito por dizer.

♪ Dan Bejar (aka Destroyer)




Foam Hands [Versão de estúdio aqui]

quinta-feira, maio 22, 2008

Não apaguem a memória




          “Ao desagregar o território dos tribunais da memória histórica e cultural das populações perde-se essa ligação simbólica e efectiva (…).”
            Manuel Soares, Público (p. 43), 22 de Maio


Manuel Soares é o secretário-geral da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) — o equivalente a Ribau Esteves no PSD — e escreve hoje um artigo de opinião no Público, no qual coloca reservas à reforma do mapa judiciário.

Manuel Soares não ignora que há “comarcas com poucas dezenas de processos”, enquanto outras estão atafulhadas de papel. Mas isto não é suficiente para o comover: o secretário-geral da ASJP teme que a reforma venha a afectar a “memória histórica e cultural das populações”, implicando a perda da “ligação simbólica e efectiva” aos tribunais.

Não é difícil imaginar a comoção que o novo mapa judiciário poderá provocar por esses estabelecimentos prisionais fora: paredes-meias com as manifestações de júbilo de uns por poderem salvaguardar a sua “memória histórica e cultural”, a consternação de outros pela perda da “ligação simbólica e efectiva” que mantinham com os tribunais que os condenaram.

Veja-se do que esta gente da política é capaz só para acabar com a lentidão da justiça.

Jornalismo de referência

Desde o meio da tarde até agora (23H35), a manchete da edição electrónica do Público é esta: Portugal é o país da UE com mais desigualdades na distribuição de rendimentos. A notícia não refere que se tratam de dados de 2004 e que até foram corrigidos posteriormente.

Leituras




O abraço do Zenit, o artigo que Pedro Adão e Silva escreveu esta semana no Diário Económico, não é propriamente sobre a final da Taça UEFA disputada entre o Zenit de São Petersburgo e o Glasgow Rangers:
    “A Gazprom é o paradigma da promiscuidade entre interesses privados e poder político na Rússia de hoje. Os recursos naturais são o cimento dessa relação.

    O exemplo mais acabado disto mesmo foi a dança de cadeiras a que se assistiu recentemente na Rússia. Enquanto Vladimir Putin passou a primeiro-ministro, Dmitri Medved, antigo ‘chairman’ da Gazprom e ex-PM, ocupou o lugar de presidente. Nisto a Gazprom passou a ser presidida pelo anterior PM, Viktor Zubkov. Tudo em família portanto.

    O problema é que esta família, conhecida pelo seu respeito pelo Estado de Direito e pelos mais elementares princípios do liberalismo político, se prepara para criar condições para aplicar ao conjunto da Europa a receita que tem aplicado à sua vizinha Ucrânia. Fazer aumentar a dependência energética para níveis que levarão a que, num tempo não muito distante, as tentativas da União Soviética para contaminar politicamente a Europa por força do seu poderio militar passem a parecer brincadeiras pueris, nomeadamente quando comparadas com o complexo político-energético que está hoje a ser construído. Como lembrava Paulo Pedroso no ‘blogue’ ocanhoto, “enquanto a Europa parece preocupada com o hipotético poderio chinês do futuro, baseado em brinquedos e vestuário, a Rússia vai abraçando-a com as armas do século XXI”. É por isso que talvez seja boa ideia a Europa olhar com mais atenção para a vitória do Zenit. Ela esconde muito mais do que um sucesso desportivo e é mais reveladora do que gostaríamos que fosse. Resta saber se, desta vez, as democracias europeias têm alguma resposta para o abraço energético do urso.”

O financiamento das directas




João Adelino Faria no Rádio Clube:
    “As contas das campanhas dos candidatos à liderança do PSD vão ser um segredo bem guardado até depois das eleições. Só Passos Coelho e Santana Lopes revelam quanto vão gastar na campanha para a liderança do PSD.

    Manuela Ferreira Leite não revela o valor das contas de campanha. O Rádio Clube apurou que Passos Coelho admite gastar no máximo 50 mil euros. Santana Lopes fica-se pelos 40 mil e admite mesmo fazer um empréstimo para pagar as despesas da corrida pela liderança do partido.

    Pedro Passos Coelho está a receber apoios de empresas na candidatura interna à liderança do PSD. Manuela Ferreira Leite não diz se aceita apoios ou financiamentos de empresas.

    Por lei, os apoios de empresas a candidatos são proibidos pela lei do financiamento dos partidos políticos, mas não se aplica a campanhas internas. Especialistas e responsáveis das campanhas admitem que este é mais um caso de vazio legal nos financiamentos partidários (…).”
Pacheco Pereira — que tanto esbracejou para que, nas directas entre Marques Mendes e Menezes, fossem tornados públicos os financiamentos recebidos — mantém-se em silêncio.

Da série "Frases que impõem respeito" [161 – Número duplo]

    “Preferia não dizer que estas sessões são uma seca”.

    “Nunca tive má relação com os jovens. Fartaram-se de se divertir na altura! [em que era ministra da Educação]”
      Manuela Ferreira Leite, Visão, 21 de Maio

Viagens na Minha Terra

♪ Santogold




L.E.S. Artistes

quarta-feira, maio 21, 2008

Da série "Frases que impõem respeito" [160]

    “Cavaco Silva expulsou militantes, é bom lembrarmo-nos disso.”
      Santana Lopes, Sábado, 21 de Maio

Isto não vai acabar bem [8]

Santana Lopes também deu hoje uma entrevista ao Diário Económico:
    DE — Ficou magoado com Menezes, por supostamente apoiar Passos Coelho?

    PSL — Eu tenho uma palavra em privado e em público dada por Luis Filipe Menezes sobre essa matéria. Depois tenho factos que dão sinais politicamente de dúvidas sobre o que foi dito em privado e em público. Estou a ponderar ainda tudo o que se está a passar. Os dados que tenho recolhido são muito complexos, não sei como vou agir daqui para diante e as conclusões que vou tirar.

“Este homem faz muita falta à política portuguesa” [3]

Uma outra passagem da entrevista hoje dada por Santana Lopes à Sábado:
    Sábado — Tornou-se mais previsível?

    PSL — Muitíssimo mais, mesmo para mim próprio. Tem contras...

    Sábado — Não se aborrece?

    PSL — [Risos] Há fases para tudo. Sempre pensei que aos 40 ou 50 anos as pessoas devem procurar a serenidade. Somerset Maugham, n'O Fio da Navalha, tem um personagem que vai para o Tibete à procura do nirvana...

    Sábado — Já encontrou o seu nirvana?

    PSL — Ainda não. Mas quem não procura? Nestes dois anos em que estive mais distanciado da política (…).

“Este homem faz muita falta à política portuguesa” [2]

Pedro Santana Lopes hoje entrevistado pela Sábado:
    PSL — Quase todos os que estiveram no Governo comigo sempre me defenderam enquanto primeiro-ministro. Nunca ouvi uma palavra de discordância, e parto do princípio de que não estavam inibidos. Temos de avaliar as atitudes no plano ético e moral. Se têm algum preconceito absoluto, queodigam de uma vez, senão calem-se! Calem-se e passem a falar de política e propostas de governação! Não respondo a quem se refugia nesses ataques e considerações. Não digo se Morais Sarmento ou José Luís Arnaut têm credibilidade para ser ministros, nem se António Borges, depois do que vimos na últimas semanas, tem credibilidade. Essa arrogância é cada vez mais odiada pelas bases.

    Sábado — Não é estanho que aqueles que estiveram consigo em Conselho de Ministros achem que o senhor não seria um bom primeiro-ministro?

    PSL — Por acaso não ouvi nenhum deles dizer isso. Tive outros ministros: António Mexia, António Monteiro, Álvaro Barreto. Mas esses não podem nem devem falar. Esses ministros que agora não me apoiam vinham do governo de Durão Barroso. Pensei que a motivação de transitarem para o meu governo fosse uma; chego à conclusão, por comportamentos posteriores, que foi outra.

    Sábado — E qual foi essa motivação?

    PSL — Não são assuntos que me interessem. Não falo deles, já reparou?

A catástrofe económica que não aconteceu



Alguns jornais de hoje referem pela primeira vez a hipótese de o alegadadamente péssimo desempenho da economia portuguesa no primeiro trimestre poder ter alguma coisa a ver com a deslocação da Páscoa do 2º trimestre para o 1º, o que implicou que no mesmo período de 2007 houvesse mais três dias que o normal e que em 2008 houvesse 1 dia a menos.

É óbvio que isto tem muito peso num período de tempo que conta apenas uns 64 dias úteis. Se não tivesse havido medidas compensatórias das empresas - e é claro que houve horas extraordinárias, por exemplo - esse factor explicaria, só por si, uma variação negativa da produção de mais de 6 pontos percentuais. Feitas as correcções, o mais natural é que, ao contrário do que é geralmente admitido, não tenha havido nenhuma quebra do crescimento do produto nacional.

Acontece, porém, que, nos outros países europeus, a Páscoa também se deslocou de Abril para Março, de modo que essa circunstância não pode explicar a disparidade de desempenho entre a economia portuguesa e as restantes economias da União Europeia.

A não ser que...

A não ser que, ao contrário do INE, os institutos estatísticos dos outros países entreguem ao Eurostat os dados da conjuntura já corrigidos da variação dos dias úteis!

Fui então à procura do relatório de Síntese de Conjuntura do INE, onde li isto:

Note-se que as estimativas rápidas para estes países [Alemanha, França e Espanha], diversamente das estimativas para Portugal, são corrigidas de dias úteis.

Extraordinário, não é verdade? Vejam bem:

1. Ao contrário dos outros países, o INE não faz a correcção dos dias úteis. (Leio na página 19 do Jornal de Negócios de hoje que, segundo o INE, isso é muito "complexo".)

2. O INE compara explicitamente no seu comunicado de há dias dados que não são comparáveis.

3. Os jornais, designadamente os especializados no tema, não questionam os termos da comparação.

4. O coro dos economistas profissionais, pelo seu lado: a) não acha estranha a evolução económica anunciada; b) não relaciona a variação do produto com a variação dos dias úteis; c) desconhece que os dados de conjuntura dos outros países europeus são corrigidos dos dias úteis; d) não se inibe de proclamar de imediato o agravamento da situação económica do país.

5. A oposição decreta a falência da política económica do governo.

6. Decreta-se um estado geral de alarme no país e exigem-se medidas de emergência.

Bem vistas as coisas, porém, o único défice estrutural do país é de competências: não há ninguém capaz de analisar e interpretar uma simples síntese de conjuntura. E assim se faz uma crise.

♪ Bill Callahan (aka Smog)




Sycamore

terça-feira, maio 20, 2008

A palavra aos leitores

De um e-mail do leitor Diogo M.:
    "É injusto não reconhecer o esforço do Suslov da Marmeleira na revisão do site da candidatura de Ferreira Leite. Aliás, basta ler os últimos textos de Pacheco Pereira sobre diferenças entre sondagens e distritais para se perceber que, para ele, o risco de derrota é cada vez maior (o ego é tão grande que não se permite falhar previsões, como faz patrioticamente o prof. Marcelo).

    Em relação à semana passada, e recorrendo ao método da análise de conteúdo do Prof. Eduardo Cintra Torres, podemos encontrar já mudanças significativas no site:

    1. A contagem decrescente para o fim da campanha (que, nas palavras da própria, era dispensável) deixou de ocupar, como até aqui, um lugar central, e foi escondida na extrema-direita do ecrã.

    2. A imagem grave da candidata deu lugar a uma imagem dinâmica (tanto quanto possível), com Manuela a sair do carro para mais uma ida ao terreno (ontem o nome da candidata era acompanhado apenas por uma fotografia de bases a ouvir atentamente a candidata).

    3. Debaixo do cabeçalho, como nos rodapés dos telejornais, «as referências do PSD» dão lugar a uma sucessão de apoiantes anónimos: Frederico Lemos/Porto, Pedro Miguel dos Santos Abreu/Setúbal, José Artur Almeida Gomes/Aveiro ou Adelino Manuel Araújo de Braga. Todos dizem «Eu apoio Manuela Ferreira Leite».

    4. Mais abaixo, à direita, aparecem os que não se limitam a apoiar: «Eu apoio porque». Aí as referências distintas e conhecidas estão agora em minoria face aos emblemáticos. Neste preciso momento, justificam o apoio: Isabel Damasceno, autarca de Leiria, António Marques, Presidente da Associação Empresarial do Minho, Fernando Marques, Presidente da Distrital de Leiria e o Presidente da Câmara Municipal de Bragança. Invariavelmente, todos apoiam porque a candidata tem muita «credibilidade».

    5. O discurso sobre a crise do partido foi rapidamente substituído pelo discurso sobre a crise do país. No noticiário: «Manuela Ferreira Leite em Beja e no Algarve critica o Ministro da Agricultura»; «Manuela Ferreira Leite em Coimbra considera que a prioridade é de natureza social»."

"As novas lideranças da Europa" (ou a "imagem do poder do século XXI") segundo Patinha






"Novas lideranças"



A Lusa questionou ontem à tarde o Professor Mário Patinha Antão sobre a passagem dos seus mandatários Nuno Miguel Henriques e Fernanda Lopes para a candidatura de Pedro Santana Lopes. Apanhado de surpresa, Patinha recusou responder logo: "Não faço qualquer comentário sobre as intervenções nem sobre os apoiantes dos demais candidatos".

Deixou a resposta para mais tarde, elogiando à noite Passos Coelho, “um jovem preparado, que reúne uma série de apoios e uma das novas lideranças da Europa" e que tem "a imagem do poder do século XXI: é fisicamente jovem e tem um projecto".

Juízes temem «guerra» pelos lugares de estacionamento nos tribunais





Só acredito porque li no luminoso Sol:

    «Isto não pode ser resolvido pelo juiz-presidente», de cada tribunal, pelo «seu melindre» — defendeu o Juiz Conselheiro Ferreira Girão, invocando a sua «experiência» em estruturas associativa. É que, justificou, «a gestão do parque automóvel» por vezes «desencadeia guerras autênticas».

    O Conselho Superior de Magistratura quer pois que da decisão que atribui os espaços de parqueamento aos juízes, magistrados, funcionários, advogados e utentes possa «haver possibilidade de recurso».

    Para tal, haverá que acrescentar ao art.º 92.º da Proposta de Lei 187/X/3.ª, que prevê as situações em que «cabe recurso para o Conselho Superior da Magistratura», dos actos administrativos praticados pelo presidente a matéria prevista na alínea g) do n.º 5 do art.º 87.º: «Regular a utilização de parques ou lugares privativos de estacionamento de veículos».
ADENDA — Mapa Judiciário: Conselho Superior da Magistratura disposto a "experimentar" nova organização dos tribunais.

Assim não há Suslov que resista

Depois de Pacheco Pereira se afadigar a explicar que não há no PSD uma dicotomia entre barões e bases, algum infiltrado anda à sorrelfa a minar o prodigioso site de Ferreira Leite.

Primeiro, foi a segmentação dos autarcas e chefes das distritais: os que apoiam as outras candidaturas são caciques; os de Ferreira Leite são “conhecidos”, “distintos” ou, até, como aconteceu com o ex-santanista Carlos Pinto, presidente da Câmara da Covilhã, alçados de imediato à categoria de “emblemáticos”.

Agora, o infiltrado deu mais uma machadada na laboriosa teoria cerzida por Pacheco. Abandonados termos gastos como “barões” e “elite”, descobriu uma outra expressão mais insinuante: “referências do PSD”.

E quem são as “referências”? Estas: “Leonor Beleza, Alexandre Relvas, Rui Rio, José Luís Arnaut, António Borges, António Capucho, José Pedro Aguiar Branco, Nuno Morais Sarmento e Pacheco Pereira são apenas algumas das referências do PSD que quiseram associar-se ao momento.

Mas que ninguém pense que Manuela Ferreira Leite é apoiada apenas pelas velhas glórias do passado. Também há gente nova no seu inner circle: “Santos Silva, cunhado de Cavaco Silva”. Uma “referência” por afinidade, depreende-se.

Da série "Frases que impõem respeito" [159]

    "A terapia estava desenhada e foi aprovada no conselho nacional de 8 de Março, naquilo a que eu chamei uma campanha de angariação de militantes. Mas o processo foi suspenso por causa da decisão inacreditável, absurda e errada do dr. Luís Filipe Menezes se ir embora".
      Ribau Esteves, secretário-geral de Menezes, no Público de hoje (p. 10)

♪ Vampire Weekend




Walcott

segunda-feira, maio 19, 2008

Os SMS estão em boas mãos




Para Pacheco Pereira, “o mais grave”, na entrevista de Menezes ao JN, “é esta frase”: "quem contestou este líder, quem disse que ele tinha de ser corrido à bomba quando teve quase 60% dos votos, por essa razão não tem legitimidade para exercer o cargo com 30% ou 40%."

Que raio de bicho terá mordido a Pacheco para dar uma série de exemplos disparatados (e alguns deles demonstrando o oposto) para provar que, num “partido em cacos” (Pacheco dixit), quem ficar com o “caco maior” (Pacheco dixit) tem legitimidade para exercer o cargo de presidente?

Não é preciso aparecer o Prof. Marcelo, como ontem fez, para se perceber que a legitimidade política depende necessariamente do caudal de votos que se obtém.

Mas mais surpreendente é que o sempre vigilante Pacheco — que, repita-se, considerou “o mais grave” a frase acima reproduzida — não tenha feito alusão a esta passagem da entrevista de Menezes:
    JN — Apesar da campanha “mole” os elementos da sua direcção já dividem apoios entre Passos Coelho e Santana Lopes...

    Menezes — Até há quem, da minha direcção, apoie Manuela Ferreira Leite – uma pessoa que era, por exemplo, contra o inquérito ao Banco de Portugal sobre o BCP...

    JN — Já disse que alguém no partido lhe ligou pedindo que travasse essa investigação. Foi Manuela Ferreira Leite?

    Menezes — Não… [pausa] Houve pessoas que me prometeram apoios e protecção se não avançasse com o inquérito, que era muito perigoso – porque ia colocar em causa algumas off-shores de algumas personalidades. Eu não cedi a essas pressões.

    JN — Que pessoas foram?

    Menezes — Não é crime fazer essas pressões.

    JN — Mas é uma acusação política, a que está a fazer.

    Menezes — É, em larga medida eu toquei nos interesses instalados.

    JN — Para que fique mais claro, se não vai dizer quem foi...

    Menezes — … até tiveram a imprudência de me mandar mensagens.

    JN — Essas pessoas são as que Manuela Ferreira Leite representa nesta campanha interna?

    Menezes — Inequivocamente.
Moral da história: há uma bomba atómica guardada algures em Gaia — e há quem pareça estar inquieto.

Da série “Ninguém me olha a pensar que minto”¹ [4]





Manuela Ferreira Leite diz que “têm sido tomadas decisões que enfraquecem o Estado”. O Correio da Manhã pergunta-lhe: “Exactamente quais?” E Ferreira Leite responde: “Olhe, a politização dos quadros dirigentes”.

A candidata da verdade esquece que uma das primeiras decisões tomadas por este Governo foi apresentar uma proposta de lei (actual Lei n.º 51/2005) para recuperar a regra dos concursos no recrutamento dos quadros dirigentes intermédios do Estado, que havia sido eliminada por legislação de 2004, da autoria da então Ministra de Estado e das Finanças, Manuela Ferreira Leite.

___________
¹ Expresso de 3 de Maio.

As coisas estão a compor-se

Numa espécie de carjacking em que o alvo são os mandatários das outras candidaturas, Santana Lopes pode vangloriar-se de que já sacou dois à má fila: o mandatário nacional e a mandatária da juventude de Patinha Antão. Nesta fase conturbada da vida do PSD, talvez seja aconselhável que Patinha se resguarde, sob pena de poder ser o próximo alvo de Rui Gomes da Silva, um homem “sempre duma grande generosidade para desempenhar algumas funções que outros não querem desempenhar”.

Entretanto, multiplicam-se as adesões a Santana: para além de vários presidentes de câmaras municipais, recebeu o apoio do ex-candidato à liderança do PSD Castanheira Barros, que também passa pela TV quando se fala da co-incineração, e de José Freire Antunes, ex-assessor político de Cavaco.

Da emigração chegou a solidariedade da “comissão política da secção do PSD de São Paulo, Brasil”, mas não se sabe ainda em qual dos candidatos vai votar a secção de Maringá, anteriormente conotada com o mendismo.

O regresso do Infante D. Henrique




Até hoje, a única ideia conhecida do pensamento de Pedro Passos Coelho na área da Defesa era o fim do serviço militar obrigatório. O convívio intelectual com o comodoro Eng.º Ângelo Correia fê-lo crescer e isso reflecte-se bem nas suas Opções Estratégicas no âmbito da defesa nacional.

Surge-nos apenas uma dúvida, na página 14: é quando Passos Coelho se propõe "Rever a Lei da Defesa Naval e das Forças Armadas, adaptando-a às novas circunstâncias estratégicas institucionais e políticas". O CC já foi ao Diário da República Electrónico e nada aparece. Deve ser, portanto, uma lei anterior a 1960, que seguramente merece a tal adaptação às novas circunstâncias estratégicas institucionais e políticas.

O Paradoxo do Ornitorrinco [5]





Todos se recordarão das preocupações de Pacheco Pereira com o dinheiro gasto nas directas entre Menezes e Marques Mendes. Todos ficámos com uma leve impressão de que Mendes tivera de se socorrer dos mealheiros dos filhotes para financiar a sua campanha, enquanto Menezes esbanjara os euros que brotavam como cogumelos das férteis terras de Vila Nova de Gaia.

Então, Pacheco Pereira insistiu muito, e bem, que fossem apresentadas contas das despesas efectuadas, não obstante a lei não o exigir relativamente às campanhas internas dos partidos.

Estranhamente, o mesmo Pacheco nem uma palavra diz agora sobre o assunto. Sabe-se que Passos Coelho constituiu uma empresa para gerir os fundos doados à sua campanha. Desconfia-se que Santana já não é um bom investimento: “Temos estado a gastar do nosso bolso. Alugamos a sede a um fundo imobiliário por 1500 euros.” E, apesar do secretismo que envolve a candidatura de Manuela Ferreira Leite, tomámos conhecimento, através do Público, que o habitual folclore dos cartazes deu lugar a uma campanha bem mais profissionalizada: “Manuela Ferreira Leite (…) dispõe de um call center a partir do qual são feitos telefonemas pessoais aos militantes, em nome da candidata, convidando para acções de campanha e apelando ao pagamento de quotas.”

Estas coisas custam dinheiro. Muito, suponho. Não quer Pacheco Pereira, que tanto bateu nesta tecla no passado, continuar a defender o compromisso com Portugal de os candidatos deverem apresentar as contas das suas campanhas?