terça-feira, setembro 30, 2008

O populismo não pode renegar (totalmente) a realidade (para ser eficaz)


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A resposta instantânea, típica dos blogues, pode originar alguma imprecisão técnica. Com Manuela Ferreira Leite a exigir a alteração dos “prazos de pagamento do IVA” para as pequenas e médias empresas, convém precisar o que está em causa, o que fiz com mais rigor ali e com menos rigor aqui.

O que a Dr.ª Manuela, traduzindo as suas palavras, quer alterar não são os “prazos de pagamento do IVA”, mas a relação entre o factor gerador do imposto (a transmissão de bens e a prestação de serviços) e o momento da exigibilidade do imposto (cinco dias). Só indirectamente isso se repercute nos “prazos de pagamento”.

A Dr.ª Manuela anda por aí a espalhar o boato de que o Estado (o Governo, diz a líder do PSD) pode alterar a lei, cedendo às pressões de uma autodenominada comissão de pequenas e médias empresas. Não pode. Não pode porque a Sexta Directiva o impede. No entanto, o artigo 27.º, n.º 1, entreabre uma porta para situações de excepção, designadamente se o propósito for o de simplificar a cobrança do imposto:
    “Artigo 27.º
    1. O Conselho, deliberando por unanimidade, sob proposta da Comissão, pode autorizar os Estados-membros a introduzirem medidas especiais derrogatórias da presente directiva para simplificar a cobrança do imposto ou para evitar certas fraudes ou evasões fiscais. As medidas destinadas a simplificar a cobrança do imposto não devem influir, a não ser de modo insignificante, sobre o montante do imposto devido no estádio de consumo final.”
Duvido que uma proposta deste teor pudesse ser entendida como uma medida de simplificação. Duvido também que não fossem tomados em consideração os obstáculos que acarretaria no âmbito da fiscalização do imposto. E não sei se a adopção por parte de um só Estado-membro não levantaria problemas ao nível da concorrência.

Mas o que sei é que o Governo Estado português não pode, pelo seu livre arbítrio, aprovar uma medida destas. Alguém vai ter de explicar à Dr.ª Manuela que o populismo, para ser eficaz, não pode perder o contacto com a realidade.

PS — Até custa ver alegados fiscalistas a defender isto. Que raio de contratações anda a banca a fazer.

Santana em grande [3]

O que é mais engraçado é que, apesar do empenho de Manuela Ferreira Leite, Santana Lopes parece ser o único que não se leva muito a sério. Como primeiro-ministro, reconhece o fracasso; mas, como autarca, pode ser que pegue, pois, presume-se, a coisa não é tão exigente:
    “Acho que não fiz nada de mal como primeiro-ministro. Geri mal o meu tempo, cometi erros de avaliação que se viraram contra mim. Com o meu percurso de vida as pessoas não se sentiam seguras tendo-me naquelas funções... Como presidente de câmara houve tanta obra durante dois anos e tal de mandato... Vamos ver o que dizem as eleições, mas as pessoas olham para mim, como autarca, de forma diferente.”
Ou dito de outra forma o que ia na cabeça de Santana: para quem é [alfacinhas], bacalhau basta.

Santana em grande [2]

Amor com amor se paga: o PPD/PSD deu lugar ao PSD (confirme-se aqui o Santana pós-moderno), Ferreira Leite já não desmoraliza, a regionalização do Dr. Bota vai ter de aguardar, se calhar a família é mesmo para procriar e a redução dos impostos pode esperar. Tudo em nome de um projecto para Lisboa. Ainda vamos ver Pacheco Pereira na Comissão de Honra da candidatura de Pedro Miguel Santana Lopes ao município da capital.

Santana em grande [1]

PSD: candidatos às autárquicas já podem ser arguidos em processos judiciais.

As edições on-line só servem para reproduzir as notícias da Lusa?

O Sol ainda não colocou na sua edição on-line o artigo de Vicente Jorge Silva do passado fim-de-semana. Se houver notícias, aviso.

Da série "Frases que impõem respeito" [210]

    "Pusemos sempre o interesse da cidade acima do interesse do partido".
      Carlos Chaparro, dirigente do PCP, para justificar que, entre outros casos, pela loja que o seu partido ocupa no Bairro 2 de Maio pague uma renda de cerca de seis euros, admitindo que "é uma renda baixa, mas foi a definida pela Câmara"

Leituras

• Ferreira Fernandes, DIAS HISTÓRICOS QUE ERA MELHOR NÃO CONHECER:
    “Enquanto focada na loucura por papéis - seja de jogadores tubarões ou pequenos accionistas - a Bolsa parece assunto de ficção. Dá bons filmes e livros, mas não lhe reconhecemos aquele suor com que se vive o quotidiano. Fazemos mal em pensar assim. Àquele crash de um dia, seguiram-se anos de Grande Depressão. Desemprego generalizado. Já não é tão fascinante e custa mais a passar.”
• João Miguel Tavares, O CASO 'LISBOAGATE' E A CULTURA DA CUNHA:
    “O escritor Baptista-Bastos, que já tanto deu a Lisboa, podia ter direito a ser ajudado numa altura de dificuldade, como parece ter sido o caso. O jornalista Baptista-Bastos, não. Porque pediu um favor ao poder autárquico. Porque auferiu de um privilégio vedado ao cidadão comum. Que alguém que sempre foi tão moralmente exigente nos seus artigos de imprensa não perceba isto faz-me confusão. Quem, como ele, acredita na nobreza do jornalismo, tem de reconhecer uma cunha quando a vê. E, sobretudo, deve reconhecê-la quando a mete.”
• João Rodrigues, Lições da crise: A história não acabou:
    “Um dado ilustra a conjugação de medíocre crescimento dos rendimentos e de injustiça social, indissociáveis da configuração de capitalismo sob hegemonia da finança de mercado que emergiu nos EUA, a golpes de política, a partir dos anos setenta: entre 1947 e 1973, época de consenso keynesiano, de contra-poderes sindicais fortes e de mercados muito mais limitados e politicamente enquadrados, o rendimento das famílias mais pobres (20% da população) cresceu, em termos reais, aproximadamente 116,1% e o rendimento das famílias mais ricas (20% da população) cresceu 84,8%; entre 1974 e 2004, na chamada "Era de Milton Friedman", esse crescimento foi, respectivamente, de 2,8% e de 63,6%.”
• Pedro Adão e Silva, Lisboagate ou Democraciagate?:
    «“Património disperso da Câmara”, assim se chama o conjunto de habitações camarárias que vive num limbo há mais de trinta anos. De acordo com o que se tem percebido, ao contrário do que acontece com a habitação social, não há qualquer critério para atribuição do que se estima serem 4.000 fogos. A consequência desta ausência de critérios começa a ser demasiado conhecida: distribuição arbitrária de casas da Câmara beneficiando famílias carenciadas, funcionários e dirigentes da autarquia, vereadores, jornalistas, artistas. Indiscriminadamente e sempre com “rendas técnicas” que têm um valor bem abaixo do mercado.»
• Wolfgang Munchau, A lição da Suécia:
    “Os acontecimentos dramáticos da semana passada permitem à América e à Europa retirar ilações importantes face ao que está a actualmente a acontecer. A primeira lição vem da Suécia, país que passou por uma grave crise financeira no início dos anos 90, país que aplicou um pacote de medidas de salvação dos seus bancos bem pensado e sob a forma de injecções directas de capital.

    Tal como nos EUA, a crise financeira sueca foi precedida também por uma bolha no imobiliário, bolha esta que rebentou no seguimento do forte aumento das taxas de juro. Seguiu-se depois um período conturbado no sistema financeiro e na economia do país, o que levaria o produto interno bruto sueco a cair, em termos reais, a uma taxa acumulada de 5% em 1991, 92 e 93.

    A resposta do governo sueco foi a criação de uma agência com o objectivo de recapitalizar o sector financeiro. Mas os accionistas dos bancos não foram compensados e o governo sueco não estendeu o pacote de ajuda a todos os bancos, mas sim a um pequeno grupo apenas. Para tal usou um modelo microeconómico para determinar quais os bancos que tinham possibilidades de sobreviver e os que não tinham hipótese alguma. Todos os depositantes receberam a promessa explícita do governo de que seriam devidamente compensados. O objectivo era minimizar os custos para o contribuinte; o governo conseguiu cumpri-lo. Este caso ficaria para a história como um dos melhores pacotes de salvação de bancos.”

A olhar para os números é que a gente se entende




Carlos Esperança relembra aqui os vencimentos dos juízes, que o presidente do Supremo Tribunal de Justiça considerou que devem ser revistos, sob pena de poderem ocorrer “situações menos claras”.

PS — A referência às viagens gratuitas trouxe-me à memória um dos primeiros posts do CC.

Los jueces son responsables de sus errores

O presidente do Conselho Geral do Poder Judicial e do Tribunal Supremo, Carlos Dívar, fez ontem o seu primeiro discurso como mais alta autoridade judicial da Espanha. Retenho dois pontos da notícia:
    • "Todo juez que viole el deber de independencia o el sometimiento al imperio de la ley, o cause daños a terceros en el ejercicio de su jurisdicción, habrá de responder conforme a derecho y asumir la sanción penal, administrativa o la obligación de resarcimiento";

    • Del Consejo mencionó las facultades de "informe y sugerencia" para "ser escuchados en los proyectos legislativos en ciernes" dentro del "máximo respeto a los diferentes principios e intereses en juego". En la referencia algunos quisieron ver un posible cambio frente a la estrategia del anterior gobierno de los jueces, que utilizó sus informes para criticar descarnadamente los proyectos de ley más significativos del Gobierno de Zapatero.

♪ Hello Saferide (ou a superioridade do modelo escandinavo)



Anna

segunda-feira, setembro 29, 2008

“OK, we are a banana republic”

Paul Krugman: aqui.

Da série "Frases que impõem respeito" [209]

    “Vejo que Portugal está a sair-se muito melhor do que, por exemplo, a Espanha.”

O paradoxo do ornitorrinco ouroboros




José Pacheco Pereira abandona a biografia política dos outros (Álvaro Cunhal) para se dedicar à autobiografia:
    A palavra "estupor" tornou-se um insulto e, mesmo como insulto, está a cair em desuso face a outros mais brutos, humilhantes e eficazes. Mas "estupor" é uma palavra com uma velha história médica. Significa uma forte diminuição das funções intelectuais, acompanhada de uma espécie de catatonia física. Até vem na Wikipédia. Os tratados médicos dizem-nos que o indivíduo em estado de estupor pensa que está bem, lá por dentro pensa numas coisas dispersas, mas não tem consciência da sua desconexão com o mundo exterior e "repete movimentos estereotipados". O "estado de estupor" está algures entre o "estado onírico" e o "estado de delírio", e não é certamente bom para a saúde. Infelizmente, é como o PSD está, em estado de estupor.

    Já repararam que, na maioria das questões, o PSD não toma posição, não toma posição a tempo, promete tomar e depois esquece-se de tomar posição, ou qualquer destas três variantes? Nuns casos, parece que está à espera para ver o que dizem os jornais no dia seguinte. Noutros, os múltiplos comités de assessores, agências e sábios convidados para photo opportunities, ou não têm nada para dizer ou então estão à espera de ver o que os outros dizem para reagir, ou, como concordam com o Governo ou porque é matéria espinhosa, ficam calados e aconselham silêncio.

    A teoria do "estado de estupor" vigente no partido é que "é preciso não se cometer asneiras" e por isso fica-se calado a ver se se foge pelos interstícios dos telejornais, aparecendo porque é bom para os barómetros que são "apareçómetros", mas sem se dizer nada. Claro que depois, de repente, há uns movimentos desconexos, também típicos do "estado de estupor", com consequências desastrosas, que só reforçam os conselheiros da teoria catatónica como política, mais vale estar calado, a ver se o engenheiro se despenha por si.

    O "estado de estupor" do PSD, o silêncio do PSD como partido de oposição, é um dos factores mais perturbadores da vida política nacional.
      Pacheco Pereira, revista Sábado, 14.02.2008

♪ Tim Barry



Avoiding Catatonic Surrender

domingo, setembro 28, 2008

A masoquista [2]




A verdade é que a Dr.ª Manuela, que esta semana andou em tournée pelo Minho (no feudo de Santana), compareceu também a um encontro dos trabalhadores do PSD (que também os há, consta). E falou.

Primeiro, para dizer que está contra a auto-estrada do Litoral. O João Miranda continua a esta hora a tentar perceber as palavras de Ferreira Leite: “É que o governo de que Manuela Ferreira Leite fez parte adjudicou partes da auto-estrada Litoral Centro, paralela à A1.

Eu próprio fiquei perplexo com esta guerra lançada pela Dr.ª Manuela, quando soube que faltam seis-quilómetros-seis para concluir a dita auto-estrada: Será possível que Pacheco Pereira tenha fixado este objectivo de luta tão ambicioso? O PSD vai lutar até à morte contra a construção de seis (1, 2, 3, 4, 5, 6) quilómetros de auto-estrada?

Mas a Dr.ª Manuela falou também do IVA. Quer ardentemente alterar o prazo de pagamento do IVA. Não é estranho que uma pessoa que andou tantos anos pelos corredores do Terreiro do Paço não saiba que esse gesto de boa vontade não depende do Governo português, pois sendo o IVA um imposto comunitário não pode ser mexido como quem vai discutir o preço da abóbora ao mercado?

Que se passa consigo, Dr.ª Manuela? O Dr. Menezes foi à vida, mas deixou à solta pela São Caetano o vírus do populismo? Lá que parece, parece. E, num encontro com os trabalhadores do PSD, nem uma palavrinha sobre o Código do Trabalho não lembrava ao careca, como costuma dizer o Prof. Marcelo. Mas lembrou a Pacheco Pereira.

A masoquista [1]




Com uma lógica implacável (congénita ou transmitida por Pacheco Pereira), a Dr.ª Manuela veio explicar que o Governo é masoquista. Só assim se explica que a critique pelo seu silêncio, visto que, se a líder do PSD falasse, seria para criticar o Governo!

Com a mesma lógica, ficámos no entanto a saber que a masoquista é precisamente a Dr.ª Manuela, que se obstina em não falar, certamente para não criticar e pôr em causa o Governo…

Pedir explicações a quem sabe

Dizem-me que o Juiz José Mouraz Lopes, que até ocupou um cargo de direcção na Polícia Judiciária, é especialista em direito criminal. Sê-lo-á certamente.

Mas do que li nos jornais não consigo compreender a que crimes de corrupção o juiz se refere quando fala no município de Lisboa e na atribuição de fogos sociais.

Se houver algum ilícito criminal, só poderá ser tráfico de influência. Não estou errado, pois não, Dr. Mouraz?

Da série "Frases que impõem respeito" [208]

    “Contra factos não há argumentos.”
      Corolário de Pedro Santana Lopes para o facto de Paul Newman ser “O Homem que os outros homens aceitavam, e aceitam, que receba os maiores elogios das mulheres.

A ética trocada por miúdos





Politicamente, um programa de Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva no Rádio Clube: ontem, o entrevistado foi Mário Crespo, que considerou Marques Mendes 'um mestre na engenharia da comunicação social'. Mais: “O jornalista Mário Crespo garante que, quando era líder do PSD, Marques Mendes ligava muitas vezes para a redacção da RTP para mostrar o agrado ou desagrado com alguns trabalhos.

Midas

Parece que transformou em ouro tudo em que tocou: Quim, Amorim, Martins, Miguel Vítor, Nuno Gomes, Jorge Ribeiro e por aí fora. E parece que este não traz penduradas as orelhas de burro: em Espanha, o sobrinho da Tia Lola é comparado a Jorge Valdano, o treinador/filósofo. De que estão à espera para o ouvir?

Correspondência

Não me tem sido possível dar resposta a todos os leitores. Espero poder esta semana pôr a correspondência em dia.

Divagações [5]


O PSD não tem nada para dizer ou então fica à espera de ver o que os outros dizem para reagir ou, como concorda com o Governo ou porque é matéria espinhosa, fica calado e aconselha silêncio.

♪ A. A. Bondy and The Pines



American Hearts

sábado, setembro 27, 2008

Do Estado Laranja


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A Marques Mendes já esteve confiada uma daquelas “pastas da pesada” que Pacheco Pereira confessou ao DN que aceitaria num governo de Ferreira Leite. Ele conferia, durante a tarde, até os interstícios dos telejornais a emitir e, à noite, subscrevia os ingressos (e a distribuição das peças) no Estado Laranja. A entrevista ao Expresso prova que Mendes possui um descaramento fora do comum.

Defesa da legalidade democrática pelas ruas da amargura

A actual carreira dos magistrados do Ministério Público “não é minimamente estimulante”. Quem é que se descose, quem é? Não é coisa que a gente não soubesse há muito.

Esquerdismo em estado puro


Divagações [4]


Na maioria das questões, o PSD não toma posição, não toma posição a tempo, promete tomar e depois esquece-se de tomar posição.

Gente de visão




As declarações de António Borges à saída da reunião com a CGTP abriram-me os olhos.

A estratégia do PSD para os próximos anos pressupõe um grande crescimento eleitoral do PCP e do Bloco em 2009.

Depois, Cavaco Silva convida Jerónimo e Louçã a formarem governo com o apoio parlamentar da esquerda do PS.

Depois, o PSD foge para o Brasil num voo fretado, acompanhado de banqueiros e empresários.

Depois, Pacheco Pereira emite as suas arengas para Portugal através do ipod "Net Portugal Livre", com base na República Independente da Madeira.

Depois, quando o país tiver mergulhado no caos, Santana Lopes regressa do exílio num jacto privado para salvar a pátria e nomeia António Borges Ministro das Finanças.

O veneno de Cleópatra




A Cleópatra atribuiu um prémio — o Selo da Cleópatra — ao CC. Que maior distinção poderia cobiçar do que o motivo invocado para a sua atribuição? O meu muito obrigado.

Divagações [3]


O PSD está a ver se o engenheiro se despenha por si.

♪ Sarah Blasko



Goodbye Yellow Brick Road

sexta-feira, setembro 26, 2008

Se o PSD estudasse o pensamento de Pacheco…




Uma delegação da CGTP, encabeçada pelo secretário-geral, foi recebida ao mais alto nível na São Caetano à Lapa. À espera de Manuel Carvalho da Silva lá estavam Manuela Ferreira Leite e António Borges, seu vice-presidente e ministro-sombra das Finanças.

Como sempre acontece quando suspeita haver um microfone nas redondezas, António Borges tinha coisas para dizer — e disse: “A CGTP faz muito bem em chamar a atenção para os problemas económicos e sociais do país porque as pessoas estão a sentir na pele as consequências de uma política económica errada, seguida pelo governo socialista.”

Num encontro que se destinou a “explicar a posição da CGTP sobre a revisão do Código do Trabalho”, o site do PSD vai ainda mais longe do que o estimável vice-presidente: “António Borges, que falava quarta-feira, no final de um encontro entre a direcção do PSD e uma delegação da CGTP/IN, declarou que o PSD concorda com o retrato da situação económica e social do país traçado pela central sindical.





Este discurso errante traz-me à memória outra estimável personalidade do PSD que o vento levou: Luís Filipe Menezes. E, sobretudo, faz-me recordar os conselhos que Pacheco Pereira lhe deu então e que o homem de Gaia desperdiçou:
    A visita de Menezes à Fenprof, em si, não teria nada de mal, porque os sindicatos não são pestíferos, porém no momento actual ela significa o encontro de um fraco diante de um forte, o encontro de uma oposição ineficaz com uma oposição eficaz, uma admissão de impotência deixando atrás de si um ónus grave para qualquer governo do PSD que queira fazer reformas.
OS PERIGOS DO CALCULISMO NO PSD, como em tempo oportuno Pacheco Pereira bem avisou.

Dói que se farta



Pacheco Pereira aparentava estar, na Quadratura do Círculo, muito combalido. A condescendência habitual de Carlos Andrade para com as constantes interrupções efectuadas por Pacheco pareceu-me, ontem, defensável. Aquilo dói.

Divagações [2]


O PSD caminha para o “estado de delírio”.

A crise propaga-se aos jornais neo-cons




O Público garante que houve acordo. O universo afirma o contrário. Deverei acreditar em quem?

Divagações [1]


O PSD está para lá do “estado onírico”.

Da série "Frases que impõem respeito" [207]




    “Se as eleições fossem hoje, o PSD teria o mesmo resultado que alcançou em Fevereiro de 2005 com Santana Lopes: 29%.”
      Artigo do Diário Económico de hoje, intitulado “Ferreira Leite está ao nível de Menezes

Rendido…

… à capacidade de persuasão de Thomas Muthee.

Coisas que costumam resolver-se com chicotadas psicológicas

Por muito menos, Toni (e a sua equipa técnica) foi despedido do Trofense:
    "Há quase quatro meses em funções, a liderança de Manuela Ferreira Leite fica nos 29,3%, um resultado que só foi pior quando, precisamente há um ano, o PSD vivia a sua primeira convulsão (das duas do último ano). Nessa altura, Luís Marques Mendes deixou a Luís Filipe Menezes uns escassos 27,6% na intenção de voto dos portugueses."

♪ Eef Barzelay



I Love the Unknown

quinta-feira, setembro 25, 2008

Ubiquidade

O Estatuto Político-Administrativo dos Açores voltou a ser aprovado por unanimidade. Mas Paulo Rangel, enquanto levantava a mão esquerda para o votar favoravelmente, redigia com a direita o pedido do PSD de fiscalização sucessiva do diploma. Antes o silêncio, como diria o Zé, aquele militante que costumava aconselhar José Manuel Barroso quando este era primeiro-ministro.

Upgrade

Caro Filipe, a ideia que fica de Pacheco Pereira é a de que, se é assim na oposição, o que não faria se estivesse no Governo (com uma “pasta das pesadas”, como ele confessou ambicionar vir a ser brindado no governo da Dr.ª Manuela, em entrevista ao DN).

O célebre telefone vermelho de Marques Mendes ligado à redacção do Telejornal apareceria aos nossos olhos como um daqueles objectos em extinção de que o político/jornalista/historiador em tempos falava. Será ficção política?

PSD/Açores: andamos contentes & felizes, mas…


A palavra aos leitores – Mais um e-mail de Eduardo Cintra Torres

Poderia recorrer à técnica de Pacheco Pereira de remeter as vozes discordantes para a vala comum. Não o faço, muito embora também não seja meu propósito entregar a condução do CC a Eduardo Cintra Torres. Os leitores dispõem de documentação suficiente para poderem, se assim quiserem, fazer um juízo.

Aqui deixo o último e-mail que Eduardo Cintra Torres me enviou:
    1. Você não deve acusar outros de fazerem "mexericos" e você mesmo sugerir que estou ligado a um partido (PSD) só porque alguém desse partido (J. Pacheco Pereira) me defendeu. Tanto mais que você ignorou em absoluto o conteúdo do que foi defendido e dessa defesa. Tenho sido alvo, felizmente, de muitos críticas elogiosas e negativas de pessoas de todos os partidos parlamentares.

    2. Aceitei o convite do governo PS (PM: Guterres), como tenho aceitado outros convites do actual governo, e também do próprio PS e do BE. No caso dos outros partidos, nunca recebi convites, pelo que nem pude aceitar nem recusar.

    3. A ocupação de crítico não é a de um funcionário nem de um militante. Ao longo dos séculos tem sido a coisa mais vulgar os críticos serem igualmente autores nas áreas que criticam. Mais uma vez, você entra pela via do "mexerico" pois os meus artigos não mudaram de teor quando fui colaborador da RTP. Exigi que o contrato com a RTP especificasse que o crítico (eu) mantinha incólume a capacidade crítica. Leia os meus artigos da época, já que gosta tanto de procurar coisas nos passado dos outros. E acrescento: a mesma administração que me contratou foi também a que apresentou nos tribunais três queixas-crimes contra mim, as primeiras e únicas que tive como crítico ate hoje.

    4. Insisto: os factos mencionados na coluna de opinião de António Ribeiro Ferreira no Correio da Manhã, um dos maiores jornais portugueses em vendas, não foram desmentidos. Ele é jornalista, já foi e é membro de direcção de vários órgãos de informação.

    5. O debate é desigual entre alguém que dá a cara como eu e alguém que se esconde num anonimato de facto como você. Eu nem mesmo sei se você se chama realmente "Miguel Abrantes". A verdade é que me predispus, por vontade própria, a debater aqui aspectos da minha vida profissional, quer nos esclarecimentos anteriores quer nesta mensagem, enquanto você continua a esconder-se no anonimato. Eu não pretenderia usar a sua vida profissional como você usa a minha, mas considero condenável que você e o vosso blogue estejam sempre a zurzir na vida profissional e pública de outras pessoas enquanto vocês se escondem no anonimato e na irresponsabilidade da blogosfera face à vida pública, bem diferente da responsabilidade exigida, e bem, aos órgãos de comunicação social, aos seus proprietários, dirigentes, jornalistas, comentadores e críticos. A ética é um valor universal, de que os blogueiros não estão isentos.

    Atentamente,

    Eduardo Cintra Torres

Resposta a Eduardo Cintra Torres

1. Eu não escrevi, em lado nenhum, que o Eduardo Cintra Torres (ECT) estava ligado ao PSD, muito embora acrescente agora que a recente defesa acérrima das suas opiniões por parte de alguém como Pacheco Pereira não o favorece, como compreenderá.

2. O convite que diz ter recebido de um governo do PS (e que não sei se aceitou) vem confirmar, passe a franqueza, uma minha ideia antiga de que este partido é o mais estúpido dos partidos portugueses. Mas compará-lo a um “partido leninista”, como o ECT fez no Público, é não ter a mais vaga ideia das qualidades de Lenine como organizador.

3. Em todo o caso, aproveito esta nossa conversa para reflectir sobre uma questão que me parece relevante: pode um crítico de televisão manter laços (foi o termo mais anódino de que me lembrei para não ferir susceptibilidades), quaisquer que eles sejam, com as televisões cujos conteúdos serão objecto da sua crítica? Quando, por exemplo, o conselho de administração da RTP, no tempo de Morais Sarmento, o contratou, nem que tivesse sido para estudar os efeitos dos raios gama nas margaridas, isso de algum modo não pode comprometer a sua função de crítico de televisão?

4. A coluna de António Ribeiro Ferreira, no Correio da Manhã, à qual o ECT fez alusão, e que lhe serviu de pretexto (e de pano de fundo) para mais um truculento artigo no Público, denomina-se “Correio Indiscreto”. Em lugar de se dedicar à “socialite” como o famoso Carlos Castro, Ribeiro Ferreira vira-se para a “politiquice”.

O ECT entende que é legítimo abastecer-se de munições numa coluna de mexericos. Eu entendo que uma coluna de mexericos não é jornalismo. Mas o melhor é ser o leitor a formar a sua própria opinião a partir da “peça jornalística” que serviu de fonte a ECT:
    “O Governo negou que tenha metido a mão no negócio e a RTP disse que tinha ganho porque ofereceu à SportTV a transmissão de jogos do Mundial de 2010. 'Correio Indiscreto' sabe que a conversa é outra. José Sócrates e o seu ajudante para a Comunicação Social tinham de compensar de alguma maneira a quebra de audiências e de publicidade da RTP por causa do novo canal generalista.”
O mais certo é que, um dia, o ECT possa vir a ter razão, mas já ninguém o ouvirá então, como em Pedro e o Lobo.

5. Não sou uma figura pública, mas entendo-me bem com os leitores do CC: eu só escrevo quando me dá na real gana e eles só por cá passam quando lhes apetece. Não vejo que possa haver vantagem em ECT me conhecer. A menos que me queira convocar para um debate, ao estilo do inquieto Pacheco Pereira. Bem, para isso, devo confessar que a gaguez não me facilita a vida.

Agradeço a atenção, certamente imerecida, que o ECT dispensa a este blogue.

A palavra aos leitores - Terceiro e-mail de Eduardo Cintra Torres

    Não tendo sido divulgado no vosso blogue o meu segundo esclarecimento, reservo-me o direito de o divulgar publicamente.

    Atentamente,

    Eduardo Cintra Torres

Nota do CC:

Como compreenderá, é-me impossível estar de plantão ao blogue 24 horas por dia. As pessoas, em regra, têm horários, compromissos profissionais e essas coisas assim que as impedem de ser donas do seu tempo. Todos os dias nos dão o tempo que, de imediato, nos tiram.

Este terceiro e-mail era desnecessário. Voltarei à antena ao fim da tarde, como é habitual. A música que pode ouvir agora foi programada ontem para ser ouvida hoje. O Blogger faz coisas fantásticas.

A palavra aos leitores - Novo e-mail de Eduardo Cintra Torres

    Agradeço a publicação do meu esclarecimento, mas verifico que a vossa nota acrescenta elementos infundados, pelo que agradeço a publicação de um novo esclarecimento.
    1. A insistência do vosso blogue numa eventual ligação minha ao PSD não corresponde à realidade. Colaborei com a RTP como consultor na área de ficção e documentários "no tempo do governo do PSD/CDS" da mesma forma que tinha sido convidado pelo anterior governo, do PS, para presidir a uma comissão de selecção de apoios do Estado à produção independente. Terminei aquela colaboração com a RTP por minha decisão ainda em 2004.
    2. O artigo de António Ribeiro Ferreira no Correio da Manhã referia factos que não foram desmentidos. Este governo tem repetidamente desmentido factos em artigos na imprensa, sejam eles de informação ou de opinião. Mas neste caso não houve qualquer desmentido, pelo que tomo os factos referidos como verdadeiros. O vosso blogue prefere tomá-los como “pequena intriga” apesar de não terem sido desmentidos por nenhuma das entidades envolvidas.
    3. Tenho pena, mas continuo sem vos conhecer, sem saber quem são, em que trabalham. A vossa resposta não esclareceu os leitores do vosso blogue a este respeito. Pelo que o debate continua desigual.


    Atentamente,


    Eduardo Cintra Torres

Nota do CC:

Farei um breve comentário assim que conclua o meu dia trabalho.

♪ Robert Forster


The Evangelist

Let Your Light In, Babe

quarta-feira, setembro 24, 2008

A palavra aos leitores - Dar a mão à palmatória

Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão do Público, enviou-me um e-mail, a propósito deste post, que se reproduz na íntegra:
    Solicito a publicação do seguinte esclarecimento no blogue Câmara Corporativa:

    1. Os elementos factuais do comentário de António Ribeiro Ferreira no CM que citei no meu artigo do Público há duas semanas, e que vocês agora retomam, não foram desmentidos até à data pelas pessoas ou instituições que eram mencionadas. Noutros casos, os visados têm desmentido ou pelo menos declarado desmentir elementos factuais em artigos de comentário.

    2. No vosso blogue afirmam ainda que eu trabalhei na RTP. É totalmente falso. Nunca trabalhei na RTP. Participei na criação de programas que foram comprados pela RTP, como qualquer produtor ou trabalhador independente. E fui colaborador externo da RTP durante um ano, em 2004, tendo por vontade própria interrompido essa colaboração. Assim, é descabida a vossa afirmação de que "não consta" que eu "tivesse sofrido uma apoplexia fulminante nos gloriosos tempos em que Marques Mendes fazia diariamente os alinhamentos do Telejornal por telefone", isto é, no tempo de governos do PSD nos anos 80-90.

    3. Este meu esclarecimento é possível e é devido porque eu dou a cara e a minha vida profissional é conhecida. Todavia, verifico que o debate com blogueiros anónimos é desigual. Para mim, vocês são anónimos, pois não vos conheço, não sei quem são, não sei onde trabalham, não sei que tipo de participação têm na vida da sociedade civil.

    Atentamente,

    Eduardo Cintra Torres

Nota do CC:

1. Peço sinceras desculpas a Eduardo Cintra Torres (e aos leitores) por ter cometido este lamentável erro: como o próprio esclarece, não trabalhava nem estava ligado à RTP, como se poderia extrair do post, quando Marques Mendes fazia diariamente os alinhamentos do Telejornal por telefone, “isto é, no tempo de governos do PSD nos anos 80-90”. A ligação do crítico de televisão à RTP ocorreu mais tarde, no tempo do Governo PSD/CDS.

2. Deve a pequena intriga contida num comentário de António Ribeiro Ferreira, que não revela sequer ter dimensão para ser desmentida, ser utilizada para alçar da moca e zurzir? O leitor que ajuíze.

3. A circunstância de não nos conhecermos não impediu a reposição da verdade. Assim acontecesse sempre.

El discreto encanto de la burguesía




Depois de Filomena Mónica ter feito notar que, “apesar de não possuir traços da beleza clássica (note-se a assimetria dos seus traços fisionómicos)[,] Manuela Ferreira Leite usa os mais bonitos colares da classe política europeia”, o Diário Económico de hoje¹ dá conta de que Paulo Portas está igualmente muito bem cotado no jet-set internacional, ao ter sido citado num site norte-americano de moda como um dos políticos mais bem vestidos do mundo. Se a direita não está à altura na substância, valha-nos a aposta triunfante na forma.

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¹ Artigo intitulado A gravata ainda está na moda?

Arremedo de diplomacia paralela


"Portugal é o maior investidor europeu
do Paraguai
", diz Cavaco



Assessores inquietos com as sondagens: — Tem de se mostrar, Senhor Presidente, tem de dizer coisas... As coisas deveriam no entanto ser trabalhadas. Não se pode dizer coisas à bruta: o Presidente da República, Cavaco Silva, revelou hoje estar a considerar o envio de uma missão de empresários portugueses a Assunção, capital do Paraguai. Exercer o cargo de Presidente da República tem muito mais que se lhe diga do que parece à primeira vista.

O longo braço da central de comunicação

• Jenny Haworth, If Portugal can rule the waves, why not Scotland?:
    «(…) Portugal is "head and shoulders above the rest of Europe and probably the rest of the world" when it comes to the renewable industry. It already produces 40 per cent of its electricity from renewable sources.»

Jornalismo de referência

Toni, Mimi & Forças Combinadas


Rapinei o título ao nome de um circo rudimentar que, nos anos 40, montava a barraca por aí. Esta designação faz-me lembrar a forma como Pacheco Pereira, Eduardo Cintra Torres & Forças Combinadas pressionam os media.

Há dias, Cintra Torres respigava uma fofoca em jeito de comentário (e não uma notícia, note-se) de António Ribeiro Ferreira (esse outro paradigma do jornalismo independente), segundo a qual a RTP ganhara os jogos da Liga para que Oliveira obtenha o 5.º canal; tomou-a por um facto indesmentível e toca a desancar na RTP (onde ele trabalhou e não consta que tivesse sofrido uma apoplexia fulminante nos gloriosos tempos em que Marques Mendes fazia diariamente os alinhamentos do Telejornal por telefone).

No artigo que escreveu para o Público de 13 de Setembro, Cintra Torres estava tão excitado que levou tudo à frente: a SIC — sim, a SIC — e Mário Crespo e Luís Delgado e tudo o mais que lhe passou pelo bestunto estão ao serviço do Governo. Poupou, felizmente, a TVI, porque, afinal, o cardeal não é tão mau como o pintavam.

Hoje, foi a vez de Pacheco Pereira avançar. Ele, que, por acaso, tem tempo para fazer um doutoramento numa escola pública (pago com o dinheiro dos contribuintes, não é?) e ver os telejornais da tarde (entre outros hobbies), estava a tal ponto melindrado com a RTP que desafiou a redacção (por atacado) para um duelo. Aparentemente, conseguiu que a distribuição do Magalhães a milhares de crianças fosse esta noite noticiada depois de uns furtos e mais umas coisas do género.

A verdade é que não vi Pacheco Pereira alterado quando a RTP abriu o Telejornal com a rentrée de fachada de Manuela Ferreira Leite, num hotel de província, perante 100 jovens escolhidos a dedo, enquanto a peça do recente comício do PS em Guimarães, com a participação de alguns milhares de pessoas, foi atirada para a vala comum.

É este mesmo Pacheco que quis escorraçar os jornalistas dos Passos Perdidos, quando fez de Paulo Rangel há uns anos. É também este Pacheco que apoia sem reservas o “jornalismo” paranóico do Público nos dias que correm. E é este Pacheco Pereira que se refere ao controlo da RTP no tempo do famoso Estado Laranja como o “controlo tradicional” que todos os partidos fazem.

O problema de Pacheco Pereira é outro: se a Senhora não fala nem a tiro, o político/jornalista/doutorando quer que a comunicação social faça milagres? Bem se esforçam os media, dando voz a todos os Borges e Aguiar-Brancos com que tropeçam, muito embora não haja garantias de que os resultados práticos sejam famosos.

♪ Sarah Blasko & Darren Hanlon



Hold Your Horses [dos Go-Betweens]

terça-feira, setembro 23, 2008

Jornalismo de referência


A Sonae atenta às súplicas do RAF?

Pregões da Marmeleira contraditados em Nova Iorque

Cavaco Silva em NYC, no “epicentro do ciclone financeiro”:
    “[Todos aqueles] que sofrem, porque têm menos acesso ao crédito, pagam taxas de juro mais elevados e tudo isso pode atingir os portugueses. Quase de certeza que vai atingir os portugueses.“

Cavaco tira o tapete a Borges




Depois de António Borges se ter mostrado deslumbrado com o subprime, a ponto de o considerar “uma das melhores inovações dos últimos anos”, Cavaco Silva fala da “economia de casino”: “Tenho a minha ideia sobre aquilo que falhou: reguladores, supervisores, bancos centrais e a invenção que se fez de produtos financeiros”. Mais: “Permitiram-se todas as invenções, de tal forma que agora nem se consegue descortinar o que está dentro dos veículos financeiros que foram inventados”.

Haja alguém com tino na direita portuguesa!

2020

O PSD está a preparar-se, com tempo, para governar: Portugal 2020¹.

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¹ Parece que os estudos já estão feitos.

♪ Lonely Drifter Karen



This World Is Crazy

segunda-feira, setembro 22, 2008

Apelo à censura (entre outras ideias de jerico)

O esgazeado RAF, um liberal à moda de Arroja, já incentiva a Sonae a afastar Rui Tavares das páginas do Público. É o argumento das botas cardadas:
    “Espanta-me, mais uma vez, ler tudo isto num jornal supostamente moderado, no Público. Depois, senhores da SONAE, que deixam que o seu dinheiro dê voz a radicais, não se queixem, nos momentos da verdade, que o país está enviesado, entregue à extrema esquerda, e que encontram resistência na mentalidade dos portugueses para promover a mudança.”
PS — Este desnorteado moço é uma mistura explosiva: esforça-se tanto que não pára para pensar. Veja-se esta outra ideia de jerico: “Aos crentes que acham que as recentes dificuldades nos EUA provam que a Segurança Social é melhor gerida no “público” que “pelos privados”, recomendo um exercício: apliquem as (exigentes) regras de supervisão e solvência à Segurança Social, e depois digam-me se ainda são capazes de saltar de alegria. É que a Lehman e a AIG, num contexto normativo e regulatório semelhante ao que se aplica à nossa Segurança Social, no actual momento, estariam a respirar saúde.” Mas não é isso que o liberalismo à Arroja sempre combateu?

Da série "Frases que impõem respeito" [206]

    “Os médicos deviam receber tanto como os magistrados”.
      António Arnault, pai do Serviço Nacional de Saúde, em declarações ao DN

Leituras

Da conversa entre João Ferreira do Amaral e António Perez Metello (DN de ontem, p. 76):
    «Onde as lições das crises parecem não ensinar nada é nas fases de crescimento. Há 20 anos já se dizia que a supervisão teria de ser mais apertada e... nada mudou.

    Mas o grosso da crítica ao momento que vivemos salta, nas palavras de Ferreira do Amaral, um oceano, para centrar-se na actuação do Banco Central Europeu (BCE). "O BCE já devia ter descido a sua taxa directora. Reina a desconfiança e hoje a Euribor, a taxa de juro entre bancos comerciais, está um ponto percentual acima da taxa-base do euro. Se o BCE está à espera que os ânimos serenem, vai ter muito que esperar. Entretanto, são as famílias e as empresas endividadas que sofrem as constantes subidas do preço do euro. Se o BCE baixasse a taxa-base, a Euribor vinha atrás. Não há razão para o não fazer. Bem pelo contrário, com um euro tão caro face ao dólar, acentuam-se as dificuldades das empresas exportadoras europeias. Julgo, mesmo, que a Zona Euro já entrou em recessão!"

    Para nós, que temos a 2.ª menor inflação da Zona Euro e um dos mais altos endividamentos das famílias, o esforço real é maior do que o que é pedido, por exemplo, aos alemães: "É um absurdo!", exclama JFA, para concluir que os governos na Europa deixam andar as coisas nas mãos do BCE, em vez de debaterem com vigor, como nos EUA, as medidas de emergência, que a situação reclama.

    Ao Governo de José Sócrates resta a política orçamental. A descida continuada dos défices na Zona Euro já não se justifica, e o próprio Pacto de Estabilidade e Crescimento admite a subida dos défices em situações recessivas. Ao pedir-lhe um valor previsível para a proposta de défice público para 2009, JFA avança com o mesmo valor de 2008. Para ajudar as empresas, acha que o Estado devia pagar quanto antes aos seus fornecedores, acabar com o IVA pago à cabeça, diminuir o pagamento por conta do IRC. E desabafa: "Mas a grande reforma - e devemos estar muito agradecidos por ela!- foi a da Segurança Social. Impõe sacrifícios (Eu que o diga!), mas as pessoas compreenderam que eram necessários. Sem esta reforma estaríamos hoje em grandes dificuldades!

Grandes mistérios do Universo [52]

João Ferreira do Amaral ao DN de ontem:
    "Uma seguradora com milhões de pensionistas, como a AIG, não pode ir à falência. Isso levanta a questão embaraçosa para os liberais a qualquer preço: se não pode falir, podemos em bom rigor dizer que a AIG está no mercado? Não faz sentido!"

♪ Happiness Is a Warm Gun



Beatles
Marc Ribot
U2

domingo, setembro 21, 2008

Que faz correr António Borges?




Depois de se conhecerem os efeitos devastadores do subprime, António Borges — que até trabalhou no Goldman Sachs, um banco de investimento que está na corda bamba — continuou a achar o crédito imobiliário de alto risco “uma das melhores inovações dos últimos anos”.

Agora, na sequência do descalabro da “economia de casino”, quando ninguém no PSD dá a cara pelo projecto de privatização da segurança social, com o qual fez tanto chinfrim há três anos, aí está o vice-presidente do PSD António Borges a defender a privatização das pensões, com um discurso trôpego que não resiste ao mais ínfimo confronto com a realidade.

Este homem é perigoso.

Para trabalhador ver




As catacumbas da Soeiro Pereira Gomes orientam-se por uma regra muito simples: são contra toda e qualquer mudança. O PCP diz que não é imobilista. Admita-se que assim é.

Mas, então, como aceitar que o PCP, que sempre disse cobras e lagartos das normas referentes ao despedimento por inadaptação, apresente um projecto de Código do Trabalho que copia integralmente os seis artigos que constam da lei actual (substituindo apenas o termo “empregador” pela expressão “entidade patronal”)?

Compare-se o Código do Trabalho em vigor (artigos 405.º a 410.º) com o projecto de lei do PCP (artigos 491.º a 496.º). Bazófia, bazófia…

Da série "Frases que impõem respeito" [205]

    "La crisis de Wall Street es para el mercado lo que la caída del muro de Berlín fue para el comunismo".

Que é o jornalismo de referência?





Vale a pena comparar as capas do Público e do El País deste domingo. Num dia como qualquer outro: notícias da paróquia (Moniz e uma tal Lopes da Costa), no primeiro, contra notícias do mundo (o atentado em Islamabad e a crise mundial), no caso do diário espanhol.

Se se quiser ir mais longe, compare-se o suplemento “Economia” do Público (publicado ontem), que se esgota a descrever a história da CUF, e o suplemento “Negócios” do El País, que analisa a crise financeira através de uma entrevista a Joseph Stiglitz ou de artigos de gente como Paul Krugman, Paul A. Samuelson, Kenneth Rogoff, etc., etc..

Calinadas ou manipulação?

Trata-se de uma questão colocada por Gabriel Silva, no Blasfémias, a propósito das posições assumidas publicamente por diversos juízes acerca da prisão preventiva. Talvez o melhor seja ler quem sabe da matéria: tem-se dito que a prisão preventiva não se aplica no caso de tentativa de homicídio. Mas será verdadeira tal afirmação?

Entretanto, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

♪ Tribalistas



Velha Infância

sábado, setembro 20, 2008

Da série "Frases que impõem respeito" [204]




    "Se não se importa eu vou com as ladies".
      Paulo Rangel [DN de hoje, p. 14], que convidou os profissionais da comunicação social que cobrem os trabalhos do Parlamento para uma acção de pressão jantar, voltando-se para o único jornalista presente, ao pretender subir no elevador, a caminho do restaurante, com as jornalistas

♪ Quase Sem Querer



Zélia Duncan
Dado Villa-Lobos & Zélia Duncan

sexta-feira, setembro 19, 2008

Pensões de velhice




Eu ainda sou do tempo em que o PSD e o CDS nada fizeram para sustar a degradação da segurança social, que atingiu em 2005 um défice de 600 milhões de euros. O actual governo fez talvez a mais importante reforma dos últimos 25 anos: a da segurança social.

Então, que posição assumiu o PSD? Defendeu com unhas e dentes a privatização da segurança social. Quando agora a crise internacional põe em relevo o desastre que teria sido deixar o capital financeiro abocanhar as pensões de velhice dos portugueses, não seria o momento de confrontar o PSD com as suas propostas irresponsáveis?

O céu pode esperar

Vasco Pulido Valente sobre a lei do divórcio (no Público de hoje): “se repararem bem, a Igreja não protestou com muita veemência.” Pois não. Se repararem bem, as grandes causas da Igreja Católica, nos últimos anos, têm tido uma motivação diversa: isenções de impostos, crescente subsidiação das instituições que gere e outras preocupações mais terrenas.

“Situações menos claras”

Noronha do Nascimento aproveitou a falta de assuntos que grassava nos jornais até há poucos dias para se desdobrar em declarações. Numa entrevista à TSF, ameaçou que, se o sistema de remunerações dos juízes não for revisto, podem vir a ocorrer “situações menos claras”. Que terá querido insinuar o presidente do Supremo Tribunal de Justiça? Talvez fosse bom tentar saber o que a mais alta figura do nosso firmamento judiciário sabe.

PS — Noronha do Nascimento, de forma contida, e Rui Rangel, de forma desbragada (JN de 17.09.2008, p. 3), vieram dizer que os juízes não são aumentados desde 1991, quando os seus vencimentos foram indexados aos vencimentos dos outros órgãos de soberania. É falso, porque os salários dos juízes têm sido aumentados na mesma proporção do que os restantes vencimentos suportados pelo Estado. E até tiveram direito a um aumento extraordinário do subsídio de habitação compensação, o tal que não está sujeito, vá-se lá saber porquê, a IRS.

“Comprar futuros de entrecosto de porco é claramente um animal diferente, por assim dizer, de comprar uma porca”



À medida que o capitalismo evoluiu, a filosofia económica teve de se adaptar. As inovações no mercado introduziram complexidades não imaginadas por Adam Smith e pelos filósofos económicos clássicos. O seguro de saúde, por exemplo, criou um contexto em que é do interesse do tomador não reaver o valor do seu dinheiro. Comprar futuros de entrecosto de porco é claramente um animal diferente, por assim dizer, de comprar uma porca. Uma inovação deste tipo, em que as leis clássicas de mercado não parecem aplicar-se, é a lotaria.

    Jean Paul, um cajun, mudou-se para o Texas e comprou um burro a um agricultor idoso por 100 dólares. O agricultor combinou entregar-lhe o animal no dia seguinte.
    No dia seguinte, o agricultor apareceu de carro e disse:
      — Desculpe, mas tenho uma má notícia. O burro morreu.
      — Bem, nesse caso devolva-me o dinheiro.
      — Não posso. Já o gastei.
      — Está bem, então descarregue o burro.
      — Que vai fazer com ele?
      — Vou sorteá-lo.
      — Não pode sortear um burro morto!
      — Claro que posso. Basta não dizer a ninguém que ele está morto.
    Um mês depois, o agricultor encontrou-se com o cajun e perguntou-lhe:
      — Que é que aconteceu ao burro morto?
      — Sorteei-o. Vendi 500 bilhetes a dois dólares cada um e obtive um lucro de 898 dólares.
      — Ninguém se queixou?
      — Só o tipo que ganhou. Por isso, devolvi-lhe os dois dólares.

♪ Thalma de Freitas



Tranqüilo

quinta-feira, setembro 18, 2008

Subprime: "uma das melhores inovações dos últimos anos"




Quando António Borges proferiu estas sábias palavras, o CC deu o devido destaque. Mas agora que a crise assumiu proporções inquietantes, convém recordar o que pensa o vice-presidente do PSD e reputado ministro-sombra das Finanças de Manuela Ferreira Leite.

Segundo um telex que reproduz as palavras, ainda recentes, de Borges na Fundação Cupertino de Miranda, fica-se a saber que:
    «Porto, 09 Maio (Porto) - O economista António Borges defendeu na noite de quinta-feira que o "sub-prime" (crédito à habitação de alto risco) é "uma das melhores inovações dos últimos anos", demarcando-se assim da convicção generalizada de que este produto financeiro está na origem da presente crise mundial.

    Borges foi o conferencista de mais um jantar-debate promovido pela Associação Portuguesa de Gestão e Engenharia Industrial, na Fundação Cupertino de Miranda. Falou sobre "A crise no sistema financeiro mundial e consequências no investimento", tendo advertido logo à partida que iria expor uma perspectiva "bastante radical".

    O economista não alinha com os que diabolizam o "sub-prime", vendo nele a raiz dos problemas que começaram por atingir em cheio o sistema financeiro americano e depois também o europeu.»
O vice-presidente do PSD não deixou escapar a ocasião para fazer umas previsões:
    «António Borges também se afasta daqueles que pensam a etapa seguinte será uma recessão, declarando-se "pessoalmente convencido" de que o mundo não corre esse risco.

    O que vai haver é "um abrandamento" do crescimento económico mundial. Dito de outra forma, "um certa desaceleração, mas não mais do que isso".

    A Europa, segundo pensa, está "muito segura" e melhor armada para fazer frente aos problemas que estão a afectar o sistema financeiro internacional, em especial o mercado bancário.»
Mas nem tudo o que António Borges disse foi desacertado: "O meu futuro na política será, com certeza, de curta duração." Já se tinha percebido isso. E o Dr. Pacheco Pereira há-de arranjar forma de o explicar devagarinho à Dr.ª Manuela.

O regresso dos bons velhos tempos de Menezes




Enquanto alguém lá da bancada do PSD berrava que se trata de uma reforma “neoliberal”, o mui estimável Paulo Rangel faz a quadratura do círculo: o PSD terá “uma posição de abstenção construtiva” na votação do Código do Trabalho na generalidade, por considerar que o diploma tem aspectos positivos e negativos.

E mais não disse. Paulo Rangel, líder da bancada parlamentar, não está disponível, não obstante a “posição de abstenção construtiva”, para dar a conhecer ao comum dos mortais quais os aspectos que considera positivos e negativos.

Talvez o faça mais tarde. Mas, estando em causa o acordo aprovado com os parceiros sociais (com a habitual excepção da CGTP), observa-se que o PSD faz tábua rasa do acordo de concertação social. Tal como o PCP ou o BE. Cada vez mais um partido reformista à moda de Gaia: imprevisível e posicionando-se ao sabor das circunstâncias.