
Curvo Semedo, um culto médico do fim do séc. XVII, descrevia o delírio como “depravação da fantasia, à qual se representam cousas absurdas, & molestas”. Na hora actual, já se tem uma ideia mais precisa de que se trata de uma perturbação mórbida do pensamento de certos alienados, que está na génese da criação de falsos juízos e apreciações erradas, que não são susceptíveis de correcção pela experiência nem refutação pelo raciocínio.
A
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira exemplifica: “O paranóico percebe num gesto, na cor duma gravata, na posição dum objecto, numa frase banal, um sentido particular, relacionado com certas tendências, receios ou aspirações dominantes da sua personalidade, que podem ser conscientes ou inconscientes e tomar um aspecto simbólico”.
Karl Jaspers foi talvez o primeiro a identificar os traços característicos de um comportamento delirante: a certeza (mantida com absoluta convicção), a incorrigibilidade (não passível de mudança por força de contra-argumentação ou prova em contrário) e a impossibilidade ou falsidade do conteúdo (implausível, bizarro ou patentemente inverídico).
Mas é Kraepelin que nos deixa algo apreensivos quando avisa que os transtornos mentais podem resvalar para uma psicose delirante crónica ou paranóia, cujo quadro clínico se traduz num “delírio sistematizado, quer dizer, um sistema delirante coerente e lógico, de desenvolvimento insidioso, evolução crónica e irreversível (…) que se acompanha de clareza e ordem na consciência, no pensamento e no comportamento” [Alonso-Fernández (1976):
Fundamentos de la Psiquiatria Actual, Tomo 1, Editorial Paz Montalvo, Madrid, p. 492].
Não é raro o suicídio ou a loucura cruzarem-se com as pessoas afectadas por esta perturbação mental (v.g., no
delírio melancólico ou de ruína). Felizmente, em casos menos graves, o alienado procura canalizar as obsessões para causas nobres (fazer, por exemplo, um doutoramento) e, quando não consegue levar a bom porto aquilo a que se propôs, tem o discernimento de transferir a ideia obsessiva para um outro alvo, ainda que nestes casos possa assumir comportamentos violentos. É o denominado
delírio de grandeza (“
quero uma daquelas pastas da pesada”), sob efeito do qual o doente se apresenta generoso para quem aceita o seu delírio, mas pode tornar-se violento para aqueles que o contrariam. Temos de ser compreensivos e solidários para com a desgraça alheia.