quinta-feira, dezembro 31, 2009

Quem lê jornais sabe mais que mil pais natais (4)



O Público continua imparável (e não apenas nas vendas e audiências...).
Na edição de hoje, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, cujos despachos sobre as escutas a Sócrates foram conhecidos ontem, tinha que ficar a descer na última página. Obviamente..
Porquê? Porque os despachos não esclarecem, "nomeadamente, se as escutas já foram ou não todas destruídas".
Ora foram os despachos do presidente do STJ que determinaram a destruição das escutas, como poderiam, eles conter já o resultado dessa determinação?
Imagine agora o leitor que são pessoas com este tipo de raciocínio que dirigem um jornal chamado de referência.

Quem lê jornais sabe mais que mil pais natais (3)



António Nogueira Leite, que às vezes as televisões convidam para comunicar ao povo as análises económicas alinhadas com o PSD, anda no Twitter a dizer umas coisas feias sobre outras pessoas do PSD.
No jornal i, alguém que assina exuberantemente por A.C., faz uma apreciação irrelevante sobre o assunto e não encontrou nada de mais ajustado que recordar que Nogueira Leite "foi secretário de Estado de Guterres".
Imagine agora o leitor que algum dia um jornalista do i tem que escrever sobre o seu próprio director. O mais provável é que o apresente como "consultor efémero do patrão da Sonae".

Quem lê jornais sabe mais que mil pais natais (2)



João Garcia, director adjunto do Expresso, coloca, e bem, a ministra da Educação ao alto, porque Isabel Alçada e o secretário de Estado "parecem ser o únicos governantes que não foram de férias".
Mais à frente, João Garcia arrepende-se e junta-lhe Ana Jorge.
E ainda bem que a coluna tem pouco texto, caso contrário o director ajunto do Expresso ainda teria que juntar, pelo menos, Rui Pereira e, principalmente, o ministro da Agricultura, que quase todos os dias nos entraram em casa pela televisão, por causa das intempéries no Oeste.
Com um director adjunto assim tão distraído, imagine o leitor as notícias que o Expresso deixa passar ao lado.

Quem lê jornais sabe mais que mil pais natais (1)

O Correio da Manhã está preocupado com a "autonomia" do Ministério da Educação nas negociações acerca do sistema de avaliação dos professores.
Alguém dos sindicatos soprou ao ouvido do jornalista do CM que a ministra e o secretário de Estado foram receber ordens de Sócrates ao almoço. E o CM, obviamente, não podia esconder aos seus leitores essa "convicção" das "estruturas sindicais".
A avaliar pelo CM de três dias antes, o almoço deverá ter decorrido na Suiça, onde o jornal admite que o primeiro-ministro esteja de férias.
Imagine agora o caro leitor a quantidade de notícias que o CM agarra assim no ar...

Independência e autonomia

Os tribunais são independentes porque não dependem de qualquer poder exterior. O presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) é eleito pelos seus pares, todos juízes do STJ, e não responde perante o Governo, a Assembleia da República ou o Presidente da República.

O actual presidente do STJ foi eleito por uma margem avassaladora. Noronha do Nascimento é absolutamente independente e é um juiz experimentadíssimo com dezenas de anos de carreira na judicatura.

Por outro lado, o procurador-geral da República só pode ser removido do cargo, segundo a Constituição da República, por um decisão conjunta do presidente da República e do primeiro-ministro (os seus antecessores bem o sabem…). Ainda por cima, este procurador-geral é juiz conselheiro do STJ, ao qual regressará sem perda de direitos se se fartar e bater com a porta. Pinto Monteiro goza, portanto, de uma autonomia “reforçada”.

Acresce que não consta que Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro tenham subido na carreira a fazer fretes ao primeiro-ministro, ao presidente da República ou a qualquer outro líder político. Foram ambos escolhidos num ambiente de consenso e público aplauso, tendo em conta os seus curricula.

A pergunta que gostaria de fazer é esta: por que razão alguns opinion makers, professores sedentos da ribalta, magistrados-sindicalistas e correlativos se esfalfam a combater a decisão que aqueles altos magistrados tomaram no caso Face Oculta em relação ao primeiro-ministro?

O mais curioso é que Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro são velhos rivais que não morrem de amores um pelo outro. Mas ambos perceberam a marosca que estava por detrás desta qualificação fantasiosa de uma conversa privada como atentado contra o Estado de direito. Ambos perceberam que a simples abertura de um processo contra o primeiro-ministro seria um grosseiro disparate, seria o pretexto abusivo e golpista para personagens como Manuela Moura Guedes ou José Maria Martins se constituírem assistentes e montarem um número de circo na comunicação social, em benefício de forças que não conseguem lutar com lealdade na arena democrática.

Concorda, Dr.ª Helena Matos?

Leituras

• Ferreira Fernandes, Não é tão simples?:
    Há dias, escrevi sobre um blog de revolucionários da tanga, defendido por Pacheco Pereira como claro de opinião.
• João Cardoso Rosas, Justiça e reconhecimento:
    Os nossos agentes políticos e os cidadãos estão à vontade nesse tipo de debates, não porque estejam de acordo sobre aquilo que a justiça social significa em detalhe e implica em termos práticos, mas porque conhecem a linguagem e muitos dos conceitos usados. O mesmo não se passa quando se trata de compreender movimentos sociais e reivindicações menos "materiais" e mais simbólicas, como as ligadas à afirmação da identidade de grupos diferenciados pela cultura, pela religião e pelo sexo ou género. Este tipo de reivindicações não parece ser facilmente captável pelo conceito de justiça e por isso pode parecer algo estranho e difícil de entender.

    Na Teoria Política contemporânea usa-se normalmente o conceito de reconhecimento para pensar este segundo grupo de questões. Este conceito tem a sua origem intelectual em Hegel e tem sido usado de formas distintas por diversos pensadores contemporâneos (Ch. Taylor, A. Honneth, N. Fraser, etc.). O reconhecimento não tem directamente a ver com a distribuição de bens materiais, como a justiça social, mas com a atribuição de valor simbólico aos indivíduos e grupos nos quais eles se inserem. Assim, o reconhecimento implica a identificação da diferença dos grupos - por exemplo, as minorias étnicas e religiosas, mulheres, homossexuais - mas também a necessidade de atribuir um valor igual e positivo a essa diferença (e não um valor negativo, conducente a um reconhecimento negativo).
• Paul Krugman, O grande zero:
    Não posso deixar de citar um discurso que Lawrence Summers, então vice-secretário do Tesouro (e agora o principal economista da equipa de Obama), proferiu em 1999: "Se perguntarem por que razão o sistema financeiro dos EUA tem êxito, pelo menos na minha interpretação da história, é porque não há inovação mais importante que a dos princípios contabilísticos geralmente aceites; isso significa que cada investidor pode consultar dados apresentados segundo uma base comparável; que há disciplina por parte dos órgãos de gestão das empresas quanto ao modo de relatarem e fiscalizarem as suas actividades."
• Wolfgang Munchau, Tragédia grega:
    O problema reside sobretudo no pacto de estabilidade e crescimento que já havia falhado na anterior recessão. Reformado em 2005, tornou-se desde então mais flexível. Mas quando a crise financeira rebentou, perdeu a sua sustentação. O problema não reside, ao contrário do que tem sido dito, no facto de os países terem défices orçamentais superiores a 3% do PIB. Trata-se de algo perfeitamente normal durante uma crise, mesmo nos termos do pacto existente. O problema reside na dificuldade em coordenar estratégias de saída vinculativas entre os estados membros. O pacto prende-se com procedimentos e a Grécia não seguiu os procedimentos de boa fé. E o mesmo aconteceu com outros estados membros, incluindo a França.

A justiça mediática

Na hierarquia do sistema judicial português, alguns jornais e televisões inventaram agora um novo patamar. Há os tribunais de comarca, os da Relação, o Supremo e... Paulo Pinto de Albuquerque.
E o tempo de antena promete continuar - as próximas eleições para a Distrital de Lisboa do PSD ainda estão longe.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

i de i-rresponsável



Já a manchete do Expresso da semana passada me parecia algo estranha. Que teria de especial o facto de a Caixa Geral de Depósitos financiar um investimento de Isabel dos Santos, operação que qualquer outro banco teria gostado de agarrar? O artigo não esclarecia.

Hoje, é André Macedo que se atira, num editorial do i, aos negócios da Caixa Geral de Depósitos com Isabel dos Santos. Depois de umas insinuações gratuitas e de umas concordâncias verbais exóticas, o director adjunto descobre a “marosca”: a Caixa vendeu a Isabel dos Santos por cinco euros acções da Zon que adquirira por 12 euros (embora logo adiante reconheça que nem todas as acções foram compradas a 12 euros).

Não passou pela cabeça do antigo director do Diário Económico que esta situação resulte do funcionamento do mercado. O tal mercado que tanto incensa(m). Tendo a cotação das acções da Zon (PT Multimédia) já sido superior a 140 euros, pode então dizer-se que a Caixa fez um grande negócio quando comprou ao Barclays a 12 euros? E como explicar, por exemplo, que o BCP tivesse oferecido, aquando da OPA, quase sete euros por acção do BPI e agora as tenha vendido a Isabel dos Santos por menos de dois euros?

Não é preciso ser um especialista em mercado de capitais — como se presume que um ex-director de um diário económico seja — para perceber a situação. E um rápido olhar pela informação disponível teria poupado André Macedo a figuras tristes. Por exemplo, o preço-alvo definido pelo Banif sugere que a Caixa terá feito um bom negócio: “Estamos a rever em baixa a nossa avaliação da Zon para 4,07 euros por acção, dos anteriores 6,15 euros, em resultado das revisões efectuadas às nossas previsões, à incorporação de um custo de 40 milhões de euros relacionado com os direitos de transmissão de eventos desportivos, e a um ajustamento à dívida líquida para 2010.

De resto, deve ter escapado a André Macedo que o investimento em acções penaliza os bancos no cálculo dos rácios de solvabilidade, pelo que até nesta perspectiva a operação convém, na hora actual, à Caixa. O mercado vai explicar-lhe se é uma operação que tem pernas para andar.

Aquando do lançamento do jornal, André Macedo disse que, entre outras proezas, iríamos ter pela manhã um i de irresponsável. Confirma-se.

Novidades, novidades... só mesmo no Continente

Quem quiser saber a razão pela qual o rei dos hipermercados despachou o director da sua folha oficial tem de procurar outras fontes de informação, porque a folha nada lhe diz.
Aqui, por exemplo, ficamos a saber que, só nos primeiros dez meses de 2009, a quebra nas vendas rondou os 9 por cento.
Mas os homens-sonae têm outras fontes de informação. Basta-lhes entrar pelo "acesso restrito a associados" desta página para ficarem a conhecer os estragos acumulados. E é o que terão que continuar a fazer - a avaliar pela notícia de hoje, não se pode confiar no que se escreve naquele jornal.

A gente não pode ir a todas

Sobre este artigo do Público, sugere-se a leitura deste post do Carlos Santos.

Não era a Autoridade da Concorrência que não funcionava?

Cinco empresas de restauração colectiva multadas em mais de 14 milhões de euros. O desmantelamento deste cartel é explicado aqui pela Autoridade da Concorrência.

Agora lambuzem-se, diz ele

«O PSD não aceitou o resultado das eleições. Convenceu-se que as ganharia. Não consegue digerir o facto de o país não ter sufragado a sua estratégia de “superioridade moral” e de ter devolvido o poder ao PS. Precisa de resolver de uma vez por todas qual é o seu lugar e o seu papel na vida do país. Enquanto não o fizer, mantém a vida política refém da sua crise existencial».

Estas são palavras de Teresa de Sousa no Público de hoje [a cronista não deve esquecer as palavras de Cavaco que, no longínquo ano de 1986, acusava os deputados do PS de, “passados oito meses das eleições de Outubro (de 1985)”, ainda não terem sido «capazes de ultrapassar os ressentimentos e frustrações pelo desaire e de entenderem as suas causas» (citado por Fernando Lima aqui, p.53)].

Se dúvidas houvesse quanto à pertinência da observação de Teresa de Sousa, bastava ler a crónica de hoje de Vasco Graça Moura no Diário de Notícias, que termina a transbordar de ressentimento e desprezo pela escolha dos portugueses: “Com que então votaram nessa gente? Quiseram elegê-los? Gostam do resultado? Pois agora lambuzem-se”.

Da série "Frases que impõem respeito" [394]

    Perdeu o encanto. Para mim perdeu o encanto completamente. Não sei explicar porquê.
      Manuela Moura Guedes sobre o Jornal Nacional das sextas na TVI. Duas pistas: as eleições foram a 27 de Setembro; o caso Freeport foi arquivado em Londres, onde José Sócrates era "o principal suspeito".

Isto não vai acabar bem [nova série - 26]



[O Diabo, 30 Dez 09]

Querem ver que já se desentendem...

Mau... então não é que os radicais de direita e os radicais de esquerda, ao fim de alguns meses de alegre convivência, começam a ficar fartos uns dos outros?
Se a moda pega, ainda vamos ter os partidos da oposição a votar cada um para seu lado no Parlamento.

Breve lição de direito constitucional

Vital Moreira escreveu na edição de ontem do Público que “as soluções de Governo devem ser encontradas no quadro partidário decorrente das eleições e da composição parlamentar”. Eis o artigo intitulado “Fora de tempo”:
    Numa entrevista recente, perguntaram-me se, caso a atual solução de Governo minoritário não chegasse ao fim da legislatura, poderia haver lugar para um "Governo de iniciativa presidencial". Respondi que uma tal solução não faz hoje nenhum sentido. Eis as razões para a minha resposta.

    Antes de mais, importa esclarecer que a referida noção remete para os três governos nomeados sucessivamente em 1978-79, na primeira legislatura da atual era constitucional, pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes, depois da queda dos dois primeiros governos constitucionais, ambos chefiados por Mário Soares, sendo o primeiro um Governo minoritário do PS (que tinha ganho as primeiras eleições parlamentares sem maioria absoluta) e o segundo um Governo de coligação com o CDS, então presidido por Freitas do Amaral. Aqueles governos foram constituídos à margem do quadro partidário, sendo chefiados por personalidades independentes, tal como a maior parte dos seus membros.

    Como se sabe, além de efémera, não se tratou de uma experiência propriamente bem-sucedida. O primeiro desses governos, chefiado por Nobre da Costa, não chegou a entrar em funções, por ter sido rejeitado logo na sua apresentação na Assembleia da República. O segundo Governo, chefiado por Mota Pinto (que tinha deixado o PPD, a que mais tarde regressaria), viu-se obrigado a pedir a demissão pouco tempo depois de iniciadas as funções, por ter sido rejeitada a sua proposta de orçamento. Por último, o Governo de Maria de Lurdes Pintasilgo já foi constituído como explícita solução transitória, até à realização de eleições antecipadas, que vieram a ter lugar no final de 1979, de onde resultou a vitória da Aliança Democrática, um coligação criada pelo PPD/PSD e pelo CDS, sob a liderança de Sá Carneiro.

    Para além da anomalia da sua génese política, os governos presidenciais revelaram-se um verdadeiro fracasso político, tendo ficado como símbolo de um período de grande instabilidade política (cinco governos em três anos) na fase incipiente da nossa democracia constitucional. Só nas condições políticas da época é que se podem compreender as razões que levaram à adoção daquela solução governativa por parte do Presidente Eanes em 1978. Primeiro, era convicção fundada que novas eleições não alterariam substancialmente o contexto parlamentar existente, sem proporcionar soluções de Governo estáveis. Segundo, de acordo com uma norma constitucional transitória, o parlamento que resultasse de novas eleições estaria limitado a cumprir o mandato do anterior, até 1980, pelo que parecia conveniente evitar uma tal solução necessariamente transitória. Terceiro, ganhava fôlego nessa época uma tendência presidencialista, que reivindicava maior protagonismo para Belém na esfera governativa, a que não era alheio o facto de a versão originária da Constituição atribuir ao Presidente poderes de intervenção bem fortes (incluindo o de demitir livremente o Governo), no quadro de um sistema semipresidencialista de dupla responsabilidade política do Governo, simultaneamente perante o Parlamento e o Presidente da República.

    Todavia, o rotundo insucesso dessa fórmula de Governo mostrou que não há soluções governativas fora do parlamento. Afinal, a questão política que a seu tempo a iniciativa de governos presidenciais tentou resolver só encontrou solução com a realização de eleições antecipadas. Embora evocada de quando em vez, aquela solução não voltou a ser ensaiada. E com toda a razão. Para além do falhanço da experiência política, alteraram-se também os dados que a tornaram possível há trinta anos.

    A primeira grande alteração foi a consolidação entre nós de uma democracia de tipo parlamentai", necessariamente assente em governos de base partidária, como resultado de eleições parlamentares. Estas tornaram-se incontornavelmente no mecanismo pelo qual os cidadãos escolhem o Governo. A segunda grande alteração, que é concomitante com a primeira, está na definitiva configuração do papel do Presidente da República como "quarto poder", com funções de supervisão e moderação do funcionamento do sistema político, onde não cabe em princípio a competência de fazer e sustentar governos à margem do quadro parlamentar e partidário. Constitucionalmente falando, a grande divisória foi a revisão constitucional de 1982, que pôs fim ao período constitucional transitório que a versão originaria da Constituição previa, e que aproveitou para confinar os poderes políticos do Presidente da República, abandonando o referido regime de dupla responsabilidade governamental, tornando os governos exclusivamente dependentes da confiança política do parlamento. Desnecessário será dizer que essa mudança constitucional foi claramente uma reacção dos partidos políticos às veleidades presidencialistas do período transitório, entres as quais se contam os governos de iniciativa presidencial.

    Sem excluir de todo a eventualidade de uma solução de Governo sem base partidária, a título excecional, em condições de anormalidade política, a verdade é que numa democracia parlamentar madura, como é a nossa, as soluções de Governo devem ser encontradas no quadro partidário decorrente das eleições parlamentares e da composição parlamentar. Se um Governo saído de eleições não chegar ao fim do mandato e se não houver condições políticas para diferente fórmula governativa no panorama parlamentar existente, a solução só pode ser a convocação de novas eleições, antecipando o fim dessa legislatura. É para isso que existe o poder de dissolução parlamentar, que não pode ser um exercício de caprichismo presidencial, visando sim proporcionar soluções de Governo quando elas faltam.

Estranha forma de utopia



Em busca do Partido Puro.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Com a saída de João Miguel Tavares

as colunas de Opinião do Diário de Notícias parecem a antiga Praça Vermelha em hora de ponta.


Os números são uma coisa lixada¹




O risco na Zona Euro: a edição de hoje do Wall Street Journal, com base em dados da Comissão Europeia, atribui a Portugal um “risco médio” quanto à sustentabilidade das finanças públicas. O nosso país aparece de mãos dadas com países como a Alemanha, a França, a Itália, etc.. Melhor do que este conjunto de países só a Finlândia. Mas colocados no grupo de países de “risco elevado” aparecem a Espanha, a Irlanda, a Holanda, a Grécia, a Eslováquia e a Eslovénia.

Bem podiam pedir aos Catrogas, Salgueiros & Reis (para não falar nos Pachecos & afins) que comentassem as conclusões desta análise (ilustrada por um mapa interactivo). Eles costumam estar disponíveis para o comentário fácil de ocasião.

_______
¹ Via JNR.

Fosga-se... esta malta não brinca em serviço!



Então não é que este descobriu, em Dezembro, o que este escreveu em Julho?
E mais: o primeiro este sabe coisas. Coisas intrigantes - além de haver bloggers que são assessores (a sério? e também há domésticas que são bloggers? e torneiros mecânicos? e ex(?)-assessores e tudo?), há assessores que deixam de assessorar ministros e passam a assessorar secretários de estado.
Está o mundo perdido...

O fracasso…

da asfixia democrática.

Apanhar as canas antes de deitar os foguetes

(...) se em alguma coisa isso resultou foi em subir-lhe a cotação no mercado e torná-lo um troféu cobiçado em vários meios (dificilmente a marca de um país amordaçado, mas enfim).

Melhor estivesse calado, Filipe. E não, isto não é uma ameaça. Apenas o conselho possível de quem não gosta de o ver fazer essas figuras.

Aprender até morrer



Atentai leitores do CC - quem matou as "micro e pequenas empresas" que se dedicavam à venda de computadores portáteis não foi nem a Fnac, nem a Worten, nem a Vobis, nem o MediaMarkt, nem o Corte Inglés, nem... Não senhor, quem os matou foi o Magalhães. Assassino!

Liberdade e assim

Viagens na Minha Terra

Adenda — E já agora sugere-se a leitura deste post do Carlos Santos: contra ventos e perdigotos, ele, o professor, não esmorece, pondo em evidência a importância da difícil arte de ensinar, mesmo quando se depara com um tolinho que não revela ter sequer uma vaga ideia do bê-á-bá da economia.

Leituras

O Magalhães, esse destruidor de emprego

É verdadeiramente impressionante a facilidade com que hoje em dia se escrevem palermices e, a partir delas, se parte com toda a ligeireza para o insulto político.
Veja-se este post no Blasfémias (coitado do Magalhães, serve para tudo).
E atente-se nesta notícia. Apesar do Magalhães, a Toshiba e a HP são, evidentemente, os dois maiores fornecedores de computadores em Portugal.
Podem, pois, estar descansados os adversários do Magalhães - a maior parte dos computadores que se vendem em Portugal, como no resto do mundo, ainda continuam a vir da China.
Já a tese de que o Magalhães é um projecto destruidor de emprego tem as suas potencialidades - bem explorada, ainda pode dar um Nobel da Economia...

segunda-feira, dezembro 28, 2009

O PCP é pela sustentabilidade da segurança social (desde que a CGTP possa não abdicar da rua)

O PCP, por sua vez, acha que o Código Contributivo “visa uma maior desresponsabilização das entidades patronais no financiamento da Segurança Social”.

Vale a pena ajudar também o grupo parlamentar do Partido Comunista, que parece ter-se esquecido, tal como se escreve no preâmbulo da lei, de que:
    “Introduz-se pela primeira vez, entre trabalhadores e empresas, a obrigação de partilha dos encargos com a protecção social dos trabalhadores independentes, cuja actividade seja de prestação de serviços. Estas medidas constituem um importante passo no sentido da promoção da qualidade e estabilidade das relações laborais.”
Mais concretamente, no que respeita ao regime dos trabalhadores independentes:

    Artigo 154.º
    Responsabilidade pelo cumprimento da obrigação contributiva

    1 — Os trabalhadores independentes são responsáveis pelo pagamento da contribuição que lhes é cometida nos termos do presente capítulo.
    2 — As entidades contratantes são responsáveis pelo pagamento da contribuição que lhes é cometida nos termos do presente capítulo.

    Artigo 168.º
    Taxas contributivas

    (...)
    4 — A taxa contributiva a cargo das entidades contratantes que adquiram prestação de serviços é de 5%.
Ou seja, o PCP votou contra o desagravamento em 5% da taxa social única dos trabalhadores independentes, que passaria a ser suportada pelos empregadores.

Sem inverter o ónus da prova

Que provas podem ser aduzidas a favor da tese de que Manuela Ferreira Leite é "uma pessoa dedicada, sem ambições pessoais e responsável"?

Ainda hoje não tinha ameaçado ninguém

Alguém devia ensinar Helena Matos a organizar melhor o pensamento (!) e a ir a umas aulas de Português, ou a senhora continuará a ficar mal na fotografia e a prejudicar aqueles com quem trabalha.

Momentos de rara beleza (2)



De facto, a publicidade não dá ponto sem nó.
Por exemplo, os posts do Daniel Oliveira são muito mais interessantes quando os lemos no Google Reader.
Esta semana, os patrocínios do Daniel são um site onde se lê a sina e outro onde se fazem apostas sobre os resultados das eleições autárquicas... de há dois meses.
Em suma, um esoterismo e um anacronismo que assentam que nem uma luva nos textos do Arrastão.

Devagar, devagarinho... parado




Parece que o «Partido Comunista acusou hoje a Comissão Europeia de ter esquecido os objectivos definidos há 10 anos na Estratégia de Lisboa e denunciou que o documento de trabalho para 2020 traz um "perigoso retrocesso" na área laboral».

É verdade: parece que a velhinha Estratégia de Lisboa, afinal, tinha objectivos positivos. Nada mau. Quem diria que o PCP, que denunciava em 2000 a “agenda do patronato na União Europeia”, ainda haveria de a elogiar?

O BE contra a precariedade desde que não prejudique a táctica do Prof. Louçã

José Gusmão, deputado do Bloco de Esquerda, falando hoje sobre o Código Contributivo, disse o seguinte: “a questão mais importante que deve ser discutida é a criação de um modelo de legislação laboral e sobre contribuições para a Segurança Social que penalize o alastramento da precariedade, que conduza as empresas e todos os agentes económicos para uma política de trabalho decente, ou seja, de estabilidade nas relações de trabalho”.

Como parece que finalmente o BE percebeu que o caminho passa por penalizar a precariedade — abandonando o mito utópico de que um dia acabarão os recibos verdes —, aqui fica uma cábula para o grupo parlamentar do BE, que parece não ter feito o trabalho de casa:

    Artigo 55.º
    Adequação da taxa contributiva à modalidade de contrato de trabalho
    1 — A parcela da taxa contributiva a cargo da entidade empregadora é reduzida em um ponto percentual nos contratos de trabalho por tempo indeterminado.
    2 — A parcela da taxa contributiva a cargo da entidade empregadora é acrescida em três pontos percentuais nos contratos de trabalho a termo resolutivo.

Momentos de rara beleza

Há gente muito inspirada na escolha de nomes para blogues. Experimente-se dar uma vista de olhos pelo Blogómetro, no qual se vêem designações tão engraçadas como “Blog da Mulher Feminina”, “Sexo na Banheira”, “Portugal dos Pequeninos”, “não compreendo as mulheres”, “Gaijas da TV”, “O amor é um lugar estranho”, “A Educação do meu Umbigo”, “Contos Secretos - os meus contos eróticos”, “consultório de moda”, etc., etc..

Alguns desses blogues com nomes tão sugestivos acabam por se revelar uma desilusão. Veja-se o caso de “A Educação do meu Umbigo”, que, em lugar de ensinar a colocar, como o nome indicia, piercings na barriga, se dedica a reflectir sobre a difícil arte da “aprendizagem de seres irracionais e racionais” (como num bem conseguido post intitulado Béu, Béu).

O que não se compreende é que os autores de tais blogues, como é o caso de Paulo Guinote, sejam tão imaginativos na escolha dos nomes, mas, depois, se queixem de os publicitários serem levados ao engano como os seus leitores são, quando os anúncios que aparecem nas suas páginas privilegiam oráculos de vidas futuras e medicamentos contra a impotência. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.

Leituras

• António Correia de Campos, Ingovernabilidade:
    Foi necessária a coligação negativa de oposições na Assembleia para que o país entendesse o que pode ser a ingovernabilidade.

domingo, dezembro 27, 2009

Ao abandonar o cargo…


"O maestro a dirigir com outra partitura"



… o provedor do leitor, Joaquim Vieira, escreve uma Carta aos jornalistas do PÚBLICO:
    (…) no caso que acabou por marcar este mandato de provedor agora no fim – a questão das notícias acerca da alegada vigilância de S. Bento sobre Belém –, continuo a julgar ter dito o que devia dizer: lançar um sério aviso sobre o que, procurando decidir em total independência e autonomia, entendi como desvio aos valores editoriais em que se fundou este jornal, um copo que eu via cheio há já algum tempo e que transbordou com essa enorme gota de água. Sei que muitos de vós se sentiram ofendidos no brio profissional quando questionei a existência no jornal de uma agenda oculta, mas não se tratava de pôr em causa toda a redacção. Só que numa orquestra afinada basta um dos seus elementos perder o tom (para mais numa posição de chefe de naipe ou de concertino), para que todo o conjunto desafine (imagine-se então se é o maestro a dirigir com outra partitura).

O PSD já tem programa para a comunicação social

Pôr as coisas nos eixos.

Viagens na Minha Terra

Leituras

sábado, dezembro 26, 2009

Notícias tristes (que deveriam ser omitidas no Natal)

Portugal está fora do risco de falência — faz algum sentido, nesta época de paz e concórdia, dar notícias com um título tão acintoso como este? Valha-nos São Caetano!

Depois dos esforços dos Catrogas, Salgueiros & Reis, é desmoralizante ter de ler coisas assim: “Numa lista de mais de seis dezenas de países avaliados pela probabilidade de falência nos próximos cinco anos, Portugal situa-se em 41º lugar, muito longe da zona de risco que abrange a Grécia e a Irlanda na Zona Euro e mais 6 países membros da União Europeia.

Só pode haver uma explicação: o Global Sovereign Credit Risk Report ter sido redigido por Sócrates himself. A Felícia Cabrita já deve ter fotos que comprovam isso.

De efeito rápido, mas passageiro

Não é o primeiro caso em que, após a mortificação, os adscritos se tornam agressivos, suspendendo, por breves instantes, o amor ao próximo. As causas desta hipersensibilidade ao cilício não são conhecidas, embora se saiba que ela pode estar relacionada com a falta de robustez física. Em todo o caso, não se justifica chamar o serviço de emergência, uma vez que, poucos minutos após a reacção, o indivíduo afectado se recompõe, reassumindo todas as características de um democrata bacteriologicamente puro.

Estratégia de Belém: “alimentar a polémica com Sócrates”

Para lá do palpitante wishful thinking, que o João põe em destaque, ficamos a conhecer, através de Vasco Pulido Valente, a estratégia de Cavaco: “E, como percebe a evidência (que, de resto, toda a gente percebe), Cavaco não vai dissolver. Ao contrário do que por aí anda a declarar, o que lhe convém hoje é "alimentar a polémica com Sócrates". Diariamente, continuamente, sem ambiguidade ou fraqueza. Na ausência de uma oposição, tem ele de substituir a oposição.” Como eram felizes os tempos em que os presidentes da República eram tidos como o garante do regular funcionamento das instituições democráticas.

A direita sem artifícios

Com a baba a escorrer pelo queixo abaixo, Gentil Martins¹ mostra a sua discordância em relação a um parecer do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos:
    «Desde que o mundo é mundo que existem homem e mulher [Adão e Eva?]. Se a homossexualidade evoluir acaba a humanidade», frisou, não escondendo a sua posição sobre este tipo de ligação conjugal. «Não se pode misturar as coisas, pelo que a sociedade tem de escolher a sua cultura. Temos de decidir o que é normal em Portugal, mas, na minha opinião, a pedofilia e a homossexualidade são perturbações psicológicas».
¹ Via A. Moura Pinto.

E imaginando uma estrela a Oriente, os Reis Magos puseram-se a caminho



"Na ausência de uma oposição, tem ele [Cavaco Silva] de substituir a oposição. Portugal inteiro espera isso dele. E, depois, quando Sócrates sair, como cairá, na execração geral e ele, Cavaco, reeleito, reentrar em Belém, se tratará de pôr a casa em ordem."
Vasco Pulido Valente, Público, 26 Dez. 09

Andar a ameaçar pessoas no Natal, onde já se viu tal coisa?

Ao contrário de Rogério da Costa Pereira, nada tenho contra "o gajo". Antes pelo contrário, acho-lhe imensa graça. "Estrategicamente" - parece que é preciso ter estratégia - não me importo nada de lhe colocar "um tacão" (até umas andas...) para que os "bicos dos pés" lhe cresçam. O que querem? Gosto de partilhar o que me diverte.
Quanto ao "apelo" (!?) - pelos vistos "por muitos entendido por ameaça velada" - é coisa que só pode passar pela cabeça do mais analfabeto dos analfabetos, ou então por alguém tão "inofensivo" - usemos o eufemismo - quanto o alvo da mera crítica que fiz.
Aliás, essa coisa do "por muitos entendido" é algo que me faz cócegas - a "multidão", a "rua", ainda para mais anónima, assusta-me. Verdadeiramente. Isso sim, é uma ameaça velada.
Mas, enfim, o Rogério precisava da dose quinzenal de "repúdio" (faltou-lhe o "mais vivo", meu caro...) das pessoas que vivem "estrategicamente" e não arranjou nada melhor que acrescentar uns milímetros ao "tacão" que, pelos vistos, ofereci ao "fulano". É Natal, ninguém leva a mal.

PS: uma pena o Rogério ter apagado o post scriptum do post - sempre era mais um milímetro para o tacão do "gajo".

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Reflexão natalícia sobre o carácter, ou a falta dele

Medeiros Ferreira lembra um episódio da vida política recente muito apropriado para uma reflexão nestes dias de tranquilidade natalícia.
Um episódio que versa sobre um tema do qual muito se tem falado ultimamente - o carácter, ou a falta dele.
A reflexão, sugere-se, poderá ser acerca das "características grupais" de certos traços de carácter, ou da falta dele.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Sozinha em casa (*)



"É nas épocas em que, por vezes, julgamos que tudo se desmorona à nossa volta que ganham especial importâncias os laços de solidariedade, de afectos e de apoio que podemos encontrar na família."

Manuela Ferreira Leite, em directo da lareira da São Caetano

_____________
(*) edição especial e natalícia da série "Isto não vai acabar bem"

Da série "Frases que impõem respeito" [393]

    Se Deus existir, como a razão e o coração me dizem que sim, o Expresso será tema de conversa no meu primeiro dia de eternidade.
      António Pinto Leite, um dos mais influentes colunistas do cada vez mais influente semanário do dr. Balsemão, na crónica em que comemora o 20.º aniversário de influência [onde está o Wally?]

É hora de...



... desejar um BOM NATAL!

Santa paciência

É fácil tresler — e isso acontece com frequência na blogosfera. O que é de registar, relativamente a este post, é a convergência entre o Daniel Oliveira e a tralha mais reaccionária da blogosfera: o albergue espanhol da direita, representado por um assessor do grupo parlamentar do PSD, o pessoal do cilício, o círculo de Helena Matos e até o grão-de-bico do Instituto Sá Carneiro se associam para esconjurar o blogue maldito. Tem paciência, ó Daniel, mas não podes, ainda que sob pressão, perder a cabeça assim. Até parece que sofres dos nervos.

PS — Sobre o PPM, que teve agora o seu momento de glória, já disse o que havia para dizer — mais coisa, menos coisa. Mas, atendendo à época natalícia, aí vai um conselho pro bono: se se deixou criar na opinião pública a imagem de que as ideias um pouco mais complexas atrapalham, não é obrigatório passar a vida a confirmar isso mesmo. A transparência cai bem, mas não deve ir ao ponto de destruir o amor-próprio.

Com legendas



Na apresentação de cumprimentos de Natal do Governo ao Presidente, houve este ano uma inovação de monta - a necessidade de as televisões recorrerem à legendagem para que se percebesse o que estava a ser dito.
A que se deverá esta alergia da Casa Civil aos microfones?

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Testemunho de um ex-primeiro-ministro




    A minha intuição dizia-me que uma atitude defensiva face aos obstáculos criados pela Assembleia da República não compensava. Procurava então contra-atacar e tornear as dificuldades criadas. Alertava o País e acusava a oposição de obstrução sistemática e de querer impedir o Governo de governar. A oposição, por seu lado, acusava o Governo de arrogância, de seguir a táctica de guerrilha com a Assembleia e de manipular a opinião pública contra ela. [...]

    Face à acção dos partidos visando descaracterizar o orçamento [...], o Governo procurou dramatizar a situação, convicto de que isso jogava a seu favor. A seguir ao “Telejornal” do dia 8 de Abril fiz uma comunicação ao País através da televisão. Denunciei as alterações introduzidas na proposta do orçamento apresentado pelo Governo, as quais se traduziam em despesas públicas desnecessárias, aumento do consumo e benefícios para grupos que não eram os mais desfavorecidos da sociedade portuguesa. Procurei mostrar aos Portugueses como era errado e socialmente injusto forçar o Governo a decretar do preço da gasolina, uma clara interferência da Assembleia na área da competência do Executivo, que ainda nunca antes tinha sido feita. Para tornear as dificuldades criadas e para os que objectivos de progresso propostos pelo Governo pudessem ser ainda alcançados, anunciei na televisão um conjunto de medidas compensatórias visando, principalmente, contrariar o excesso de despesa e de consumo induzido pelas alterações feitas pela oposição. O meu objectivo, ao falar ao País sobre o orçamento, era também o de passar a mensagem de que o Governo atribuía grande importância ao rigor na gestão dos dinheiros públicos.

    A mensagem de que a Assembleia obstruía sistematicamente a acção do Governo passou para a opinião pública. O Governo, sendo minoritário, surgia como a vítima e acumulava capital de queixa: queria resolver os problemas do País e a oposição não deixava. A oposição não percebeu que, tendo o Governo conseguido evidenciar uma forte dinâmica e eficácia na sua acção, a obstrução ao seu trabalho não a beneficiava. O PS revelava dificuldade em ultrapassar os ressentimentos pelo desaire sofrido nas eleições de Outubro de 1985 e o seu comportamento surgia-me como algo irracional. O Governo e o PSD procuravam tirar partido da situação e alertavam a opinião pública para as estranhas convergências entre o PS e o PCP na Assembleia da República.
      Aníbal Cavaco Silva, "Autobiografia Política. Vol. I" (Temas e Debates, 2002, pp.144-145)

Andar a ver passar os comboios





À boleia dos Pachecos, Tiago Mota Saraiva jura a pés juntos que está a ver com os seus próprios olhos «este fenómeno de ocupação das estruturas de difusão de opinião publicada, por personagens em torno de José Sócrates e do seu “socialismo democrático”.»

Acontece que a frenética actividade em curso para o condicionamento dos media tem muito que se lhe diga. Não chega sacar da pistola e pôr-se aos tiros, porque se corre o risco de acertar em cheio na própria cachimónia. Ó Tiago, sem acrimónia, veja bem:
    1. A direita não avança de peito feito — como o Tiago faz. Os ataques à fingida “asfixia democrática” são sempre enviesados e suficientemente vagos para evitar o contraditório. Ora o Tiago, ao puxar a discussão para a quantificação das “estruturas de difusão de opinião publicada”, lança-se para fora de pé e corre o risco de se afogar. É tão desproporcionada a relação entre comentadores “afectos” ao “socialismo democrático” e à oposição que uma rápida inventariação dos comentadores obrigaria o Tiago a calar-se para todo o sempre.

    2. A verdade é que não é apenas o “socialismo democrático” que tem razões de queixa. O mesmo tem acontecido com o “socialismo real” — cujos motivos até o Tiago parece capaz de compreender. Neste contexto, andar alegremente por aí a dar “vivas ao rei”, fazendo o jogo dos Pachecos, não será muito ajuizado — embora possa conferir ao Tiago a Guinness da distracção.

"Governo da Assembleia"

O lado risível da coisa.

Leituras

• João Ferreira do Amaral, Crime e castigo:
    Os Alemães, quando da instauração da moeda única, forçaram a criação de instituições de política monetária que garantissem que o euro fosse uma moeda forte. E fizeram-no de uma maneira subtil. Exigiram que o Banco Central Europeu tivesse como único objectivo da sua actuação a estabilidade de preços e isentaram-no de qualquer responsabilidade no valor da taxa de câmbio do euro em relação às outras moedas, para, assim, retirar qualquer veleidade do BCE de intervir quando o euro se valorizasse de mais.
• Pedro Lains, Ganhar para o susto:
    Não é todavia obrigação dos economistas temerem dívidas e défices, pois eles fazem parte da vida económica normal. Até certo ponto, claro. Aquilo que os economistas devem temer - e mesmo aí não devem ser fundamentalistas - é a inflação. Isso mesmo. Os preços são a alma da economia, sendo eles que ajustam a vida dos agentes económicos no mercado.

    Todavia, apesar dos enormes défices, não há inflação. Isto acontece pela primeira vez na história económica mundial de que conheço registos. É um milagre? Não, não é. A razão é que, precisamente, os estímulos do Estado, isto é dos governos e dos bancos centrais, vieram substituir as despesas de investimento e de consumo dos particulares (e do Estado).

    Recordemos: as despesas privadas retraíram-se, primeiro, por causa das enormes perdas de valor de uma miríade complexíssima de activos financeiros e, segundo, por causa do medo de fazer negócios dada a decorrente incerteza do valor dos activos. Foi por esta segunda razão, aliás, que os estados intervieram.

Cenas da vida de Pedro

    'Julgo ser o único que trabalhou com os quatro primeiros-ministros do PPD/PSD, para lá de também ter ocupado o lugar. Sobre essa experiência única publicarei muito brevemente um livro na Dom _Quixote.

    Aqueles que têm hoje trinta e tal anos não recordam (ou nem sabem) o que aconteceu nos anos 80, principalmente na primeira metade.

    Já nessa altura houve muito combate travado.

    Já nessa altura – e até antes, em 1978, com 21 anos – andei a pensar em congressos extraordinários. E, como mais três pessoas sabem, escrevi boa parte da moção que ajudou a trazer Francisco Sá Carneiro de volta à liderança do partido.

    (…)

    Não acredito no PSD se o partido não levar ‘uma grande volta’. O grande inimigo do PSD tem sido o próprio PSD – ou, pelo menos, algumas partes do todo.

    Confesso que estou saturado de ver sempre os mesmos a terem sempre os mesmos comportamentos. E tenho dúvidas de que seja possível tratar do que importa sem serem sempre os mesmos a caciquar, a manipular, a condicionar.

    (…) como aqui escrevi há semanas, o PPD/PSD está sem causas. E, pior, está a ir atrás daqueles que há anos tudo fazem para desestabilizar, para corroer, para minar os alicerces da sociedade e do Estado.

    Para convocar um Congresso são precisas, pelo menos, 2500 assinaturas. É fácil e vou desencadear esse processo. Penso que tenho essa obrigação, eu que já tanto me envolvi em tantos congressos deste partido de cor laranja.

    (…)

    Uma pessoa pode sair de um partido. Grandes figuras do PSD já saíram e já voltaram. Eu, se sair, estou seguro de que não voltarei.

    (…)

    Trinta e três anos de militância, colaborador de Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão, Aníbal Cavaco Silva e José Manuel Durão Barroso, além de ter sido eu próprio presidente do partido, primeiro-ministro e cabeça-de-lista nas primeiras eleições para o Parlamento Europeu, entre muitas outras responsabilidades, obrigam-me a não me deixar tomar pelo desinteresse ou mesmo pela aversão. Neste caso, pode mesmo dizer-se que é por amor e não por interesse.

    (…)

    Andam quase todos a emperrar, a fazer que andam mas não andam. E quando aparece algum voluntarismo, não se percebe nem porquê nem para quê.

    (…)

    É difícil o PPD/PSD voltar a suscitar entusiasmo? É! Mas é possível.

    (…)

    Na cadeira de História da diplomacia – que este semestre, pela primeira vez, lecciono – procuro transmitir aos alunos as constantes opções que se colocam, desde há séculos, a quem decide a política externa portuguesa.

    Principalmente na maneira de conjugar o desígnio que o mar representa e os pontos de apoio no continente europeu.

    Portugal foi sempre um país cuja independência não parecia natural a outros. Como é que aquele povo teima em ser independente e não faz como outras nações desta península?
    Assim tem sido com o PPD/PSD. Os outros sempre o consideraram um partido ‘anómalo’, que quase devia pedir licença para existir...

    (…)

    Será que o PPD/PSD não consegue ser alternativa a este PS e a José Sócrates? Serão eles muito bons? Ou teremos sido nós muito maus?'

    [Santana Lopes na edição do Sol de 18 de Dezembro]

O nosso jornalismo de referência



Duas das "notícias" em destaque no site do Expresso, às 00 horas de 23 de Dezembro:

1. Patriacra responde a Sócrates
2. Face Oculta: PGR remete divulgação das escutas para deputados

Acontece que:

1. Lendo a notícia, percebe-se que o Patriarca limita-se a negar a existência de um "pacto" entre o Governo e a Igreja acerca do casamento entre homossexuais. Não responde a Sócrates, porque Sócrates nada disse sobre o tal "pacto".
2. O que a notícia diz é que o PGR já respondeu ao pedido do PSD para ter acesso às certidões em que surgem as escutas. E que compete ao PSD a divulgação da resposta (do PGR) e não, obviamente!, das escutas.

Pormenores, de facto!

terça-feira, dezembro 22, 2009

Este quadrado é um círculo, estão a ver?

Alguém deveria travar Paulo Pinto Mascarenhas, antes que cause ainda mais danos a si próprio e àqueles para quem trabalha.
O homem, no afã de espadeirar contra fantasmas, alega com uma frase numa notícia do jornal que frequenta - "Temos um compromisso eleitoral de só aprovar o casamento e não a adopção, apesar de muitos de nós concordarmos. A disciplina de voto corresponde ao nosso compromisso eleitoral", disse o vice-presidente da bancada ao i" -, a qual, se alguma coisa desmente, é a notícia de que ela própria faz parte e que tem como título: "Sócrates impõe voto contra adopção gay".
Ora, como pode Sócrates impor algo que, sublinha PPM, faz parte do compromisso eleitoral do PS?

A carreira do vereador Santana Lopes segue de vento em popa

    Em resposta a questões para aqui enviadas, esclarece - se que, para subscrever o pedido de convocação do Congresso Extraordinário, pode fazê - lo, também, enviando o e-mail e o número de militante para este blogue.

Bomba




Não é apenas a incapacidade de gerar uma solução interna que empurra o baronato laranja a "deixar correr o marfim". Com efeito, a utilização de uma política inábil como a Dr.ª Manuela serve, na hora actual, a táctica da terra queimada. Mas, convenhamos, é um pouco sádico forçá-la a terminar a carreira como mulher-bombista.

Isto não vai acabar bem [Nova série - 25]


Morais Sarmento não quer o congresso do PSD transformado num Benfica-Sporting. Não quer, nem pode: o Benfica está a lutar pela liderança do campeonato.

Eu, se fosse ao Pacheco, estava atento…

… a estas movimentações suspeitas.

Escutado na TSF

A Dr.ª Manuela no jantar de Natal da bancada parlamentar do PSD, quando lia o “seu” discurso: “não percebo o que aqui escrevi”. Pois, obrigue o professor de Boticas a umas aulas de caligrafia.

Viagens na Minha Terra

Cantinho da cinefilia



 E uma profunda negritude cobriu a Terra...

Da menoridade

1. Sócrates impõe voto contra adopção por casais gay.

2. Assis nega que Sócrates tenha imposto disciplina no voto contra a adopção. Mais: «O Grupo Parlamentar do PS está obrigado a aprovar a proposta do Governo [sobre casamentos gay] que materializa um compromisso eleitoral. Tudo aquilo que for apresentado por outros partidos da oposição que extravase esse compromisso será avaliado numa reunião do Grupo Parlamentar do PS».

Conclusão: Há jornais que sacrificam a verdade por uma boa história. Outros, nem boas histórias conseguem.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Viroses

Há um qualquer vírus que ataca certos economistas. Não me refiro sequer àqueles políticos do PSD que, quando dá jeito, são apresentados à sociedade como economistas — ou seja, técnicos politicamente neutros apenas preocupados com as gerações vindouras. Estou a pensar em economistas como Ricardo Reis, que, de tempos a tempos, apanham viroses que lhes tolhem o raciocínio.

Ricardo Reis é aquele economista que nos garantia, em Agosto de 2007, que a maior crise mundial desde os anos 30 seria resolvida em menos de um mês. Engolido pela dimensão posterior da crise, abandonou as suas profecias no Diário Económico e reaparece agora no i, fazendo comparações absurdas entre a situação da Grécia e a de Portugal, que não resistem ao menor confronto com a realidade.

O Carlos Santos (e Pedro Lains também) explica por que Ricardo Reis foi acometido de uma nova virose. Vale ainda a pena ler o último artigo de Manuel Caldeira Cabral no Jornal de Negócios.

Marktest resolve




Há umas semanas, a campanha orquestrada contra o Governo apontou baterias aos gastos do Estado com publicidade, que estariam a ser canalizados para os órgãos de comunicação social afectos ao Executivo (quais?!). A oposição rejubilou, foi sugerida uma comissão parlamentar de inquérito e, enquanto foi possível manter acesa a chama, os Pachecos do costume mostraram a sua indignação nos palcos aonde se exibem.

Afinal, a Manha do Correio, que pertence ao grupo da Sábado, a revista que fez o pretenso “estudo”, é que é alimentada pelo Estado: “A revista 'Sábado' publicou um texto, baseado em dados parciais, sobre a diferença de investimento do Estado nos jornais 'DN' e 'Público' (apenas 1,95% do total) e levantou a dúvida. Um estudo da Marktest esclarece agora que o 'Correio da Manhã' é o que recebe mais publicidade do Estado e sozinho tem 50% do total, apesar de ter o mesmo número de leitores do 'Jornal de Notícias'.

Vale também a pena ler a nota da direcção do DN sobre esta questão.

O delírio




Curvo Semedo, um culto médico do fim do séc. XVII, descrevia o delírio como “depravação da fantasia, à qual se representam cousas absurdas, & molestas”. Na hora actual, já se tem uma ideia mais precisa de que se trata de uma perturbação mórbida do pensamento de certos alienados, que está na génese da criação de falsos juízos e apreciações erradas, que não são susceptíveis de correcção pela experiência nem refutação pelo raciocínio.

A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira exemplifica: “O paranóico percebe num gesto, na cor duma gravata, na posição dum objecto, numa frase banal, um sentido particular, relacionado com certas tendências, receios ou aspirações dominantes da sua personalidade, que podem ser conscientes ou inconscientes e tomar um aspecto simbólico”.

Karl Jaspers foi talvez o primeiro a identificar os traços característicos de um comportamento delirante: a certeza (mantida com absoluta convicção), a incorrigibilidade (não passível de mudança por força de contra-argumentação ou prova em contrário) e a impossibilidade ou falsidade do conteúdo (implausível, bizarro ou patentemente inverídico).

Mas é Kraepelin que nos deixa algo apreensivos quando avisa que os transtornos mentais podem resvalar para uma psicose delirante crónica ou paranóia, cujo quadro clínico se traduz num “delírio sistematizado, quer dizer, um sistema delirante coerente e lógico, de desenvolvimento insidioso, evolução crónica e irreversível (…) que se acompanha de clareza e ordem na consciência, no pensamento e no comportamento” [Alonso-Fernández (1976): Fundamentos de la Psiquiatria Actual, Tomo 1, Editorial Paz Montalvo, Madrid, p. 492].

Não é raro o suicídio ou a loucura cruzarem-se com as pessoas afectadas por esta perturbação mental (v.g., no delírio melancólico ou de ruína). Felizmente, em casos menos graves, o alienado procura canalizar as obsessões para causas nobres (fazer, por exemplo, um doutoramento) e, quando não consegue levar a bom porto aquilo a que se propôs, tem o discernimento de transferir a ideia obsessiva para um outro alvo, ainda que nestes casos possa assumir comportamentos violentos. É o denominado delírio de grandeza (“quero uma daquelas pastas da pesada”), sob efeito do qual o doente se apresenta generoso para quem aceita o seu delírio, mas pode tornar-se violento para aqueles que o contrariam. Temos de ser compreensivos e solidários para com a desgraça alheia.

domingo, dezembro 20, 2009

Coisas que nunca mudam



Todos os dias se confirma - há um esqueleto de José Manuel Fernandes escondido na redacção do Público.
Na edição de hoje, a uma chamada de primeira página - Justiça - Líder do PS esteve ligado a gang, diz Relação - corresponde, no interior, uma notícia que não é sobre nenhum líder do PS, actual ou passado, e mesmo a história do gang é perfeitamente incidental na história.
Resta acrescentar que a dita notícia refere-se a um acórdão da Relação de "finais de Setembro" e surge agora, três meses depois, poucas semanas após o seu protagonista ter desafiado "alguém que zela pelo normal funcionamento das instituições" a esclarecer a Nação sobre o que pensa acerca da tensão Governo/Assembleia. Ele há cada coincidência...

Isto não vai acabar bem [Nova série - 24]


O PSD, diz Santana ao Diário de Notícias de hoje, "é uma federação de grupos que se detestam". Uma espécie de Jugoslávia, portanto. O que, a bem da verdade, até pode nem ser mau - olhem para a antiga federação de Tito e digam lá: vivem ou não em paz, sossego e prosperidade?
Na mesma entrevista, o vereador da Câmara de Lisboa garante que "está fora de questão ser candidato à liderança do PSD". Diz, portanto, que Cristo não descerá à Terra...

Leituras

• Fernanda Palma, Voltados para Meca:
    A situação é complexa e suscita várias questões. A primeira traduz-se em saber se a proibição de símbolos religiosos não corresponde a uma limitação intolerável da liberdade religiosa. A segunda consiste em determinar se é legítimo proibir um símbolo religioso de determinado culto que possa ter um significado agressivo para outros cultos. A terceira concretiza-se na pergunta sobre se tais temas são referendáveis.
• Pedro Marques Lopes, Governabilidade e responsabilidade:
    Um dos políticos profissionais com mais experiência e ainda em actividade, o Presidente da República Cavaco Silva, diz na sua Autobiografia Política que "só os políticos inconscientes podiam ter saudades dos governos minoritários". Aliás, numa mensagem no final da campanha para as eleições legislativas de Outubro de 1991, escreve o, ao tempo, primeiro-ministro: "Só com um Governo de maioria é possível manter um clima de cooperação entre os órgãos de soberania (...). Portugal precisa de estabilidade para vencer, para continuar a caminhar em frente. Compreenderão por isso que eu não possa continuar como Primeiro-Ministro se não merecer a confiança clara dos portugueses, através de um voto maioritário nas próximas eleições".
• Vital Moreira, Asfixia financeira:
    Apesar de menos grave do que em muitos outros países, entre nós a crise não deixou de fazer importantes estragos nas contas púbicas, em especial a diminuição das receitas tributárias, com efeitos nocivos no aumento do défice orçamental e do endividamento público. Também virá o momento de contrariar essa degradação orçamental, que terá de ser feita pela redução da despesa pública (preferivelmente a despesa corrente e não a de investimento), já que um aumento dos impostos é politicamente invendável.

    Infelizmente, a ter em conta o polémico "orçamento rectificat1ivo", o caminho escolhido pela coligação das oposições ao Governo minoritário do PS parece ser exactamente o contrário, ou seja, diminuir os as receitas (pagamento especial por conta e código contributivo da segurança social) e aumentar as despesas (por exemplo, transferências para a Madeira). Como amostra do que vai suceder no orçamento para 2010, não podiam ser piores os augúrios.

sábado, dezembro 19, 2009

Outra manchete estranha...

Ontem [quinta-feira] o nosso presidente [Benjamin Steinbruch] tentou falar com o primeiro-ministro, não conseguimos, mas sabemos que chegou a mensagem de que estaríamos a fazer uma coisa".

Isto não vai acabar bem [Nova série – 23]



Grandes mistérios do Universo [68]



Já alguém leu a manchete do Expresso? Do que estarão eles a falar?

A perplexidade de Saraiva ou breve tratado sobre a pirataria

Desde as memórias que escreveu acerca da sua longa passagem pelo Expresso, nas quais confessava que as manchetes do semanário eram um produto da sua prodigiosa imaginação, todos sabemos que o pequeno grande arquitecto tem uma relação complicada com a realidade.

Ontem, José António Saraiva apareceu muito indignado, nas páginas do luminoso Sol, com os “casos” a que ele chama corrupção, associando-os ao regime democrático: “julgo que em democracia a corrupção é inevitável.” É verdade que a jovem democracia portuguesa, a cuja evolução ele, enquanto director de um semanário de referência durante cerca de duas décadas, está indissoluvelmente ligado, regista várias patologias, que incluem a corrupção e o tráfico de influências.

O que espanta é Saraiva só agora ter descoberto que em democracia estas práticas acontecem. Mas que em ditadura também — e se o pequeno grande arquitecto conversasse com o seu tio sobre as peripécias que aconteceram no Estado Novo, já teríamos no prelo um potencial best seller.

A grande diferença é que em democracia existe uma imprensa livre e uma opinião pública informada que podem denunciar e discutir tais situações.

É certo que isto pode não impedir que certos “casos” sejam abafados ou tardiamente conhecidos, como o que sucedeu no BCP — embora ninguém duvide de que, se o pequeno grande arquitecto tivesse tido conhecimento deles, não hesitaria em os denunciar, não se deixando condicionar pelas ligações financeiras àquele banco.