Segunda-feira, Fevereiro 28, 2011

A palavra aos leitores — A Comissão Europeia propõe projecto de financiamento para Grandes Obras Públicas

De e-mail de Nuno H.:
    'Segundo o Financial Times, a Comissão vai propor novas linhas de financiamento para Grandes Obras Públicas:

      'The plan, which the paper calls "Europe 2020 Project Bond Initiative", is expected to be unveiled on Monday by Olli Rehn, the European Commission's economic chief, and Philippe Maystadt, head of the EIB.

      According to preliminary estimates by EU officials, the bloc needs €1,500bn ($2,100bn) to €2,000bn in infrastructure investments over the next decade to remain competitive, including €500bn on transport links and €1,100bn on energy projects such as new electricity transmission networks and generating plants.'

    Quem é o partido que, de acordo com o seu programa politico, está em melhores condições para receber um mandato da Comissão Europeia e fundos do BEI para executar estas obras?'

Por que será que…

… distinções como esta não são notícia?

"Mais austeridade", dizem eles



Numa conferência realizada hoje de manhã, o ministro das Finanças afirmou:
"Temos que reafirmar de forma clara o compromisso de que tudo faremos para cumprir os objectivos orçamentais e que dispomos de medidas adicionais, se necessárias, para garantir esse cumprimento".
Na mesma conferência, horas depois, o primeiro-ministro afirmou:
"Se a execução orçamental vier a revelar que são necessárias mais medidas, nós tomá-las-emos. Mas não é isso que mostra a execução orçamental de Janeiro". [ver o vídeo, sff]
Nem o ministro das Finanças nem o primeiro-ministro usaram a palavra "austeridade", e ambos deixaram claro que, a manter-se o perfil de execução orçamental, não serão necessárias "medidas adicionais" (insiste-se: ninguém falou em "austeridade").

Mas que interessa isso? Os media querem que se fale em novas medidas de austeridade. Temos então que dois dos noticiários das 13 das televisões generalistas abrem com "mais austeridade".
Que isso não corresponda a nada do que foi dito é um pormenor a que as televisões não costumam dar grande importância.


Economia: nem a morte está pela hora da morte

Maior fabricante nacional de caixões vai quadruplicar produção.
O maior produtor nacional de urnas funerárias iniciou a fase de testes das suas novas instalações, em Amarante, que vão permitir produzir mais de 200 caixões por dia, parte dos quais para exportação.

Ainda bem que ele não é político mas gestor

O ex-presidente dos Correios Carlos Horta e Costa é um dos nove arguidos que vão a julgamento no caso dos CTT. Horta e Costa foi nomeado pelo Governo PSD/CDS-PP, tendo sido anteriormente secretário-geral do PSD (no consulado de Marcelo) e, mais tarde, membro da comissão política na curta regência de Marques Mendes, esse mesmo que agora anda tão entusiasmado com a justiça. Ainda bem que ele não é olhado como político: nós poupamos nas parangonas dos jornais, ele poupa nos calabouços.

Pronto-socorro



Sempre que o PSD avança com uma das suas extraordinárias propostas, invariavelmente para transformar este mundo numa selvajaria, é certo e sabido que a ex-mandatária para a juventude de Passos Coelho vem a terreiro acomodar o recuo posterior da São Caetano.

Assim acontece com a proposta do PSD para transformar os contratos a prazo em contratos à jorna. Hoje, Filipa Martins, num texto confuso que deveria ser estudado num curso de comunicação social, lá foi ouvir um especialista em direito do trabalho para escrever que há “contratos orais”. Só que não têm nada a ver com os contratos a prazo — e, de resto, o mesmo especialista assegura, como não podia deixar de ser, que “[a] exigência de contrato escrito não resulta de um vício burocrático. A exigência de uma forma escrita para o contrato a termo é um requisito elementar da segurança jurídica e de uma forma de emprego que deve ser excepcional”.

Por isso, não se percebe o que quer dizer Filipa Martins quando escreve que este projecto do PSD foi utilizado “como mote de uma batalha ideológica.” E menos se percebe, a não ser como manipulação grosseira, o título [“Governo e PSD em guerra. Contratos orais de trabalho já existem na lei”] e o subtítulo [“Celebração de contratos de trabalho rege-se pelo princípio geral da liberdade de forma. Podem ser escritos ou orais”] do artigo da ex-mandatária de Passos.

♪ Cinco Minutos de Jazz [2]


Charlie Parker

Viagens na Minha Terra

Você acredita numa Justiça assim?

• Camilo Lourenço, Você acredita numa Justiça assim?:
    Um investigador do processo BPN disse que uma fuga de informação na operação "Furacão" impediu que se descobrisse, logo em 2005, a dimensão da fraude no banco.

Da ignorância à má-fé

• J. A. Azeredo Lopes, presidente do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Dois exemplos pouco edificantes [hoje no Público]:
    (…) E fui-me habituando a olhar com a devida serenidade para a crítica, mesmo a desbocada e malcriadona. São as regras do jogo: uma das coisas mais fascinantes das liberdades de expressão e de opinião é o facto de protegerem e ampararem todos com muito carinho, incluindo os ignorantes ou aqueles que actuam com a mais repulsiva má-fé.

    Apenas dois exemplos breves, muito recentes, que comprovam quão ricas são aquelas duas liberdades, estruturantes e definidoras do Estado de Direito Democrático. Cintra Torres, cronista deste jornal, pela enésima vez dirige-me insultos pessoais, assim como a outros membros do Conselho Regulador. Nada de novo, a prática é tão crónica como as suas crónicas. Manuel Falcão, num tempo e argumentação próximos, lança noutro jornal impropérios do mesmo género - embora, salvaguardo, em termos menos rastejantes.

    Atrever-se este sublime par a falar de independência ou de ausência dela na ERC é obra, coisa quase chocante. Imagine o leitor dois actores porno, algo desgastados é certo, a fazerem campanha pública pela virgindade antes do casamento. Mas nem isso chega. Imagine que esses dois actores porno também defendiam a castidade... depois do casamento. E terá chegado a um retrato bastante fiel sobre a credibilidade que lhes reconheço para me darem lições ou ralhetes em matéria de independência.(…)

A palavra aos leitores

De e-mail de João B.:
    Há alguns anos atrás, quando a discussão do aeroporto estava na ordem do dia, com milhares de especialistas a debitarem conclusões e "estudos" que davam como despesismo puro a construção do novo aeroporto de Lisboa, naquela linha do bota abaixismo sobre o tema que D. Manuela Ferreira foi a principal fomentadora, um exemplo dos mais referidos, era a inutilidade do novo aeroporto possuir uma segunda pista. Como exemplo preferido por todos, desde Alberto João Jardim a D. Manuela e a alguns idiotas da Querqus, idiotas sem ofensa, por Miguel Sousa Tavares e outros, seria a existência de um "fabuloso" aeroporto em Málaga que só possuía uma pista e dava cartas em tudo em relação a Lisboa, numero de passageiros, movimentos de aviões, etc., etc.. Descobri ontem que este forte argumento se desvaneceu, é que dentro em breve Málaga passará igualmente a possuir duas pistas no seu aeroporto, para evoluir naturalmente. Talvez agora o próximo exemplo deverá ser um qualquer aeroporto em África, na Líbia talvez, quem sabe.... Esperemos para os ouvir cantar.

    PS - Se lhe interessar aqui está o
    link (com a foto).

Domingo, Fevereiro 27, 2011

Esquizofrenia — a autêntica, a da Bayer

    ‘Não penso que Portugal precise de andar esquizofrenicamente todas as semanas a viver e a especular sobre sentimentos de crise política e não creio que seja isto de que o país precisa.’

    ‘Precisamos de ganhar umas eleições com uma grande adesão eleitoral, sem isso a mudança será mais difícil e mais demorada.’

O Pingo Doce quer, Rio vende, o parque de estacionamento nasce

Há um jardim público no Porto que foi construído e mantido pelos moradores, que nele gastaram 50 mil euros. A Câmara do Porto decidiu, segundo conta o DN (p. 25), vender o terreno à Jerónimo Martins, para aí ser construído um parque de estacionamento do Pingo Doce. É este o tipo de políticos que agrada ao Sr. Soares dos Santos, não é?

Parece que há um problema grave com a Justiça em Portugal (com ilustrações)



[DN, 27 Fev 11]

Parece que há um problema grave com a Justiça em Portugal


[DN, 27 Fev 11]


"El problema de Europa no son las cajas, sino la banca alemana"

El País — ¿Alemania es el problema?
Niall Ferguson — Los alemanes no pueden seguir pretendiendo que el problema no va con ellos. La crisis fiscal de la periferia europea es definitivamente su problema. Es el problema de sus bancos. Y es el problema de su economía: sus exportaciones van hacia esos países; sin la eurozona, si el marco existiera, Berlín tendría un problema fenomenal, con una apreciación de su tipo de cambio que acabaría de un plumazo con el superávit del que Alemania presume tanto. Por eso es tan desafortunada esa cacofonía de voces en la que desafina a menudo el discurso alemán.

"Não pode haver retorno ao statu quo ante"

• Joschka Fischer, O despertar do Médio Oriente (hoje no Público):
    (…) Os fósforos foram as novas tecnologias da informação da Internet e a televisão por satélite, como a Al-Jazira. Na verdade, uma ironia histórica é que não foi o hard power americano - como aconteceu, por exemplo, na guerra do Iraque - que acelerou esta revolução democrática, mas sim o soft power - Twitter e Facebook - amaldiçoado durante a presidência de George W. Bush e dos seus conselheiros "neocons". Silicon Valley, ao que parece, tem mais poder do que o Pentágono.

    Estas ferramentas digitais dos Estados Unidos tornaram-se instrumentos para a revolta estudantil trans-árabe-iraniana pela democracia e pela liberdade. E, embora faltem muitas coisas no Médio Oriente, não há escassez de jovens desesperados, cujo número vai continuar a crescer nos próximos anos.

    Por mais semelhanças que se possam encontrar entre os acontecimentos na Praça Tahrir ao Maio de 1968 em Paris e à queda do Muro de Berlim em 1989, seria prematuro proclamar que a liberdade triunfou. Se vai ou não vencer, dependerá, em grande medida, de como o Ocidente vai responder agora, porque o que está em jogo não é apenas o derrube de tiranos, mas também a profunda transformação e modernização de sociedades e economias inteiras. É uma tarefa espantosa.

    Mais: comparado com a Europa de Leste em 1989, o Médio Oriente em 2011 tem falta de estruturas externas estabilizadoras, como a NATO e a União Europeia, que poderiam influenciar reformas internas oferecendo a perspectiva de uma adesão. Os esforços envolvidos nesta grande transformação devem vir de dentro dessas sociedades e isto é, muito provavelmente, pedir de mais.

    A transformação da Europa de Leste depois de 1989 demorou muito mais tempo e foi muito mais onerosa do que inicialmente se previa. Houve muitas pessoas que saíram a perder no decurso desta transformação, e os organizadores da revolução não foram, necessariamente, aqueles que poderiam impor o desenvolvimento democrático e económico. E há a experiência da "Revolução Laranja" na Ucrânia, em 2004, que falhou anos mais tarde devido à corrupção, incompetência e desavenças dos seus líderes.

    Tomados no conjunto, estes constrangimentos e analogias sugerem que o Ocidente, em particular a Europa, também se deve centrar numa assistência a longo prazo ao desenvolvimento democrático e económico nos países renascidos do Médio Oriente, e também no desenvolvimento de parcerias com todas as forças que apoiam a democratização e modernização dos seus países. O Ocidente não pode continuar por mais tempo a sua Realpolitik habitual. (…)

♪ Cinco Minutos de Jazz [1]


Art Blackey Quintet

Eles já o dizem sem pestanejar

Não resisti a ler a notícia do DN, a que se refere o João, sobre uma conferência qualquer patrocinada pela Caixa Geral de Depósitos. Fiquei aterrorizado ao concluir que Campos e Cunha, no meio daquela barafunda, ainda é quem parece ter mantido uma réstia de bom senso:


Os outros convivas do DN e da Caixa Geral de Depósitos já não disfarçam ao que vêm. Luís Palha, n.º 2 do Pingo Doce e director de campanha de Cavaco Silva, tem uma mezinha para sair da crise: privatizar tudo o que mexe e reduzir impostos.

Um outro conviva, Luís Barata, apresenta também duas ideias muito originais:
    • Que cada jovem crie o seu próprio emprego;
    • Que se extingam institutos, municípios e juntas de freguesia, é a sua proposta para repensar as funções do Estado.
O último conviva, José Miguel Bettencourt, talvez por ainda ser apenas um mestrando em ciência política e relações internacionais, não está cá com floreados. A solução para os problemas do país não é complexa: extinguir os direitos adquiridos.


Perante este quadro aterrador — privatizar tudo o que mexe e eliminar direitos “adquiridos” —, Luís Campos e Cunha até parece um homem ponderado.

Sábado, Fevereiro 26, 2011

O PSD está a voltar à normalidade (5)

Passagens da entrevista de Paulo Rangel ao Jornal de Negócios de ontem:

Não chega querer para poder ser primeiro-ministro

O PSD não tem programa para a educação e a agricultura
(e não aproveita o património ideológico da candidatura de Rangel à São Caetano)



Rangel não vai aos jantarzinhos do passismo

Haverá certamente assessores de imprensa mais desprendidos

Santana Lopes¹ teve o desplante de dizer que Passos Coelho não estava preparado nem era a pessoa indicada para ser “candidato” a primeiro-ministro? A secção laranja do DN é implacável: Francisco Almeida Leite atribuiu-lhe logo uma setinha para baixo (p. 14). Sim, o FAL, esse politólogo de créditos firmados que, numa outra “análise” não menos supimpa, escreve que “as sondagens dão o PSD nos píncaros”. O melhor é ele avisar a São Caetano, que ninguém deu ainda por nada.

________
¹ Sobre as qualidades do FAL para aviar recados, vale a pena ler o que Santana Lopes diz, apesar de tratar o moço com uma certa benevolência.

A "Fenomenologia do Ser" de Sartre, à venda em exclusivo na São Caetano


• José Pacheco Pereira, Costumes dos antigos [hoje no Público]:
    O número de livros que se pode ler em vida é controverso e difícil de avaliar. Há livros e livros, uns maiores e outros mais pequenos, uns mais fáceis de ler e outros impossíveis de ler de forma recreativa, fluente, e que exigem uma leitura muito especial e naturalmente muito lenta. Algumas das maiores asneiras e demonstrações de ignorância que conheço são as afirmações presumidas sobre livros de que não se faz a mínima ideia o que são, muito menos lê-los.

    Colecciono testemunhos de três asneiras, uma clássica, duas de pura ignorância. A clássica, chamemos-lhe assim, ocorre num romance "social" de Abel Botelho e diz respeito ao operário que tinha alimentado as chamas da sua "revolução", porque, numa noite de insónia, tinha lido o Capital de Karl Marx. Está-se mesmo a ver na mansarda esquálida, o jovem a ler sem sono à luz da vela ou do gás, o árido volume, presume-se que o primeiro, da complexa obra, que é o último texto que se pode considerar incendiário. Ainda dei o benefício de dúvida de que podia ser a edição resumida que Lafargue fez, mas mesmo assim não calha o livro com o "incêndio". O segundo exemplo foi uma aluna minha de Filosofia, num curso de adultos, que me jurou a pés juntos que, também na noite passada, tinha lido de uma assentada a Crítica da Razão Pura de Kant "inteirinha". Está visto que as noites devem ser particularmente excitantes para certos leitores, que lhes permitem ler de uma assentada várias centenas de páginas de um dos livros mais complexos da história da Filosofia. O livro então nem sequer existia em português e o seu fascínio intelectual só se apreende com uma leitura lenta, longa e quase de vida, e que implica o acesso ao vocabulário filosófico alemão, sem paralelo na sua capacidade conceptual. Chumbou, apesar da sua especialidade nocturna em Kant. O último exemplo foi a tentativa por alguns seguidores cheios de zelo, que queriam justificar uma referência de Passos Coelho a um livro que não existia, a "Fenomenologia do Ser" de Sartre, com uma confusão do leitor então muito jovem com o Ser e o Nada de Sartre, cujo subtítulo é Ensaio de Ontologia Fenomenológica. A mera ideia de que um adolescente, com "interrogações existenciais", teria lido o Ser e o Nada de Sartre, livro que os tais zelosos seguidores não faziam a mínima ideia do que fosse, ainda é mais ignorante do que a pobre aluna que tinha lido o Kant nocturno ou o operário inflamado por Karl Marx.

A santa aliança contra as reformas

PSD, CDS, PCP e BE chumbaram a proposta de lei do Governo que extinguia o número de eleitor. A proposta era a melhor forma de resolver todos os problemas de falta de informação e acabar com os eleitores-fantasmas. Depois de ter sido consagrado o recenseamento automático, a manutenção do número de eleitor passou a ser um anacronismo, como disse o ministro Rui Pereira no Parlamento.

Os argumentos contra a extinção do número de eleitor são irrelevantes. A alegada precipitação da medida dá vontade de rir, considerando que ela só entraria em vigor em 1 de Janeiro de 2013. Até lá sobraria tempo para tomar todas as medidas necessárias à sua implantação e todos os partidos participariam nesse processo, porque se previa um conselho de acompanhamento composto por representantes de todos os grupos parlamentares.

A proibição de um número único também não é argumento contra a extinção do número de eleitor. Continua a haver o número de identificação fiscal, o número de beneficiário sa segurança social e o número de utente do SNS, o que garante que não se verifiquem inconstitucionalidades nenhumas.

Mas o número de eleitor, ao contrário dos restantes números, só serve para baralhar, como notaram Vital Moreira ou António Costa, porque o recenseamento automático é a condição de cidadão que confere o direito de voto e, portanto, deve ser o número de identificação civil que prova a capacidade eleitoral activa.

A rejeição pela Assembleia da República da proposta do Governo prova aassim que a oposição já está gasta antes de tempo, ou seja, antes sequer de chegar ao Governo. Não tem espírito nem capacidade reformista e apenas está disposta ao bota-abaixo, mesmo quando prejudica o país.

Para atacar o Governo por causa das eleições presidenciais, a santa aliança está sempre pronta e disponível. Para aprender com os problemas — não. Por isso, há todas as razões para desconfiar da preparação do PSD para assumir responsabilidades governativas, dúvida essa partilhada por distintos militantes “social-democratas”…

Palavras para quê?


O Diário de Notícias convidou Campos e Cunha para falar sobre não sei o quê. A foto que publica dispensa a leitura dos textos que a acompanham.

♪ Deixa-te de parvoíces e faz-te à vida [7]


Léo Ferré

Pour tout bagage on a vingt ans
On a un' rose au bout des dents
Qui vit l'espace d'un soupir
Et qui vous pique avant d'mourir
Quand on aim' c'est pour tout ou rien
C'est jamais tout, c'est jamais rien
Ce rien qui fait sonner la vie
Comme un réveil au coin du lit

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2011

Ao cuidado do Parlamento

Eu, Miguel Abrantes, cidadão nacional portador de telemóvel, ouvinte ocasional de barulhos não identificados e potencial alvo de escutas, venho manifestar a minha inteira disponibilidade para ser ouvido por Vossas Excelências na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, prometendo responder com verdade às perguntas que me forem feitas pelos excelsos deputados da oposição, no sentido de provar que o Governo nos anda a escutar a todos para saber qual é a nossa (dis)posição em relação às medidas de austeridade.

Tontaria

Parece que, afinal, não iremos ter oportunidade de saber o número das ceroulas do Henrique Raposo, discípulo autoproposto de Arnaldo Jabor.

Então não é que Sócrates é o único primeiro-ministro que não fez aumentar a despesa pública?

Quando o DN lançou aquela iniciativa de análise do Estado, julguei que ela seria para ser levada a sério. Depois, vi que havia por ali asneira que ferve, intercalada com manipulações infantis de números. E até observei que autores como Carlos Moreno, antigo juiz do Tribunal de Contas, defendem perante os leitores do DN o contrário do que sustentaram em sebentas para faculdades privadas. Entendi, por isso, que não valia a pena acompanhar no CC a “análise” do Estado, porque para trabalhos ao estilo do Correio da Manha é preferível ler o original.

Em todo o caso, para mostrar que estamos atentos às novidades editoriais, aqui fica uma curiosa infografia sobre a evolução da despesa pública (desde Sá Carneiro) que consta do trabalho agora editado em livro (pp. 26-27):


O PSD está a voltar à normalidade (4)

Etiquetas: “namorar o CDS”, “piscar o olho a Santana”, “agência de comunicação para aparecer por tudo e por nada”, “tomar as dores do líder do PSD”, “inúmeras declarações de elogio do governo de Santana Lopes”.

José Afonso

• Baptista Bastos, Para que o não esqueçamos:
    'Comparar a obra do poeta às "cançonetas" "dos" Deolinda, como por aí se tenta, é um ultraje e uma demonstrada ignorância. Mas estas comparações não são ingénuas. Fazem parte do arsenal de apoucamento do Zeca, que um sector da vida portuguesa deseja, há muito promover. É desnecessário. A força, a qualidade do imenso trabalho criador do autor de "Traz outro amigo também" não sofre paralelismo com outro qualquer. O que não passa de uma funçanata divertida e trôpega dificilmente poderá ser levada a sério e entendida como "intervenção social e ideológica." As comparações são propositadamente estabelecidas (inclusive por alguma Imprensa desprezível) para fomentar a confusão e enganar tolos. A estratégia não é nova. Ainda há quem não perdoe a Zeca Afonso a magnitude do seu talento e o cariz de uma arte que sempre recusou o panfleto sem desprezar a intenção de revolta.'

"Cada vez há menos paciência para a maledicência e o derrotismo"

• Leonel Moura, Positivo, sempre:
    '(...) esquerda dita radical propõe, com alguma coerência acrescente-se, a desvinculação com a Europa, já que essa seria a única maneira de sairmos do sistema de dependência financeira. Ainda que isso significasse a imediata bancarrota. É uma possibilidade, de tipo revolucionário arcaico, mas bastante improvável porque não tem apoio popular nem ambiente civilizacional propício.

    Já a direita imagina que, uma vez no poder, conseguirá reduzir drasticamente a máquina administrativa e privatizar uma fatia considerável do estado social, saúde, educação, etc., ainda que a passagem da teoria à prática não se apresente nada favorável. É bom não esquecer que a direita contará sempre com uma muito maior resistência a medidas impopulares do que sucede com o PS, já que este tem um forte apoio urbano e popular. Talvez por isso, em tempos, Manuela Ferreira Leite tenha falado na necessidade de uma ditadura temporária.'

♪ Deixa-te de parvoíces e faz-te à vida [6]


Stevie Wonder

Try to see it my way,
Only time will tell if I am right or I am wrong.
While you see it your way
There's a chance that we might fall apart before too long.
We can work it out,
We can work it out.

“A tal campanha negra”

Que sentimentos lhe desperta Sócrates?
Aí está uma pergunta difícil [risos]. Nunca votei Sócrates, mas estou ansioso por votar.

Porquê?
Sócrates, como pessoa, nunca me convenceu. Mas acabei por gostar dos dois primeiros anos e acho que foi alvo de ataques pessoais de uma forma que nunca tínhamos visto.

João Quadros, humorista, ao Sol

“Aplaudir de Pé: Medina Carreira”



Medina Carreira já havia confidenciado que tinha uns encontros discretos com Passos Coelho. Agora, o blogue oficioso do passismo confirma que o alucinado advogado que passou ao lado de uma grande carreira na área das Finanças Públicas é um dos gurus da rapaziada que dirige, neste momento, a São Caetano. E aí se diz que Medina Carreira merece ser aplaudido de pé: é a “social-democracia” à moda da São Caetano.

Porque é que tudo isto me faz lembrar tanto os gloriosos tempos do consulado de Menezes?

Quinta-feira, Fevereiro 24, 2011

Jovens a dias — é tudo o que o PSD tem para oferecer

    O Parlamento vai viver hoje um dia que, estou convencido, marcará politicamente esta legislatura. Este é o dia em que o PSD apresenta na Assembleia da República uma proposta para a criação de um regime de contratos de trabalho a prazo orais para jovens.
      Pedro Silva Pereira, que considerou hoje que a proposta do PSD para os contratos a termo "revela a verdadeira natureza" da actual liderança da São Caetano

Estudo com a participação da DECO

Portugal tem maior peso de cuidadores informais do que a Bélgica, Espanha e Itália.

Isto anda tudo ligado

O fim do Plano Inclinado começa a produzir frutos na sociedade portuguesa. É que, segundo o INE, a confiança dos consumidores melhora após 15 meses.

Tirana 2011

O argumento da força ou quando a democracia vem depois da decisão.

Comunicação social

Não é possível fazer uma síntese melhor em uma dúzia de linhas.

♪ Kadafi de boa memória

O PSD está a voltar à normalidade (3)



O que Santana Lopes disse no novo programa da TVI 24 (“Prova dos Nove”) caiu que nem uma bomba na São Caetano. A secção laranja do DN reagiu: “Santana em colisão com Passos, PSD desvaloriza”.

Para assegurar que “o PSD” desvaloriza as palavras de Santana, quem é que o jornal ouviu? Gente das várias facções laranjas? Não. Contentou-se em ouvir Miguel Relvas, o aguadeiro de Passos, Nogueira Leite, o conselheiro económico de Passos, e Menezes de Gaia, que representa as bases que alçaram Passos à São Caetano (a que Pacheco chamou um dia o “gang do Multibanco”). Estamos conversados.

Os amigos de Khadafi [6]


A LÍBIA COMEMOROU O 41º ANIVERSÁRIO DA REVOLUÇÃO
DO 1º DE SETEMBRO EM LISBOA


Sua Alteza Real Dom Duarte Pio de Bragança com o Embaixador da Líbia


"Por ocasião do Dia Nacional do seu país, o Embaixador da Líbia em Portugal, Ali Emdored, foi o anfitrião de uma recepção num hotel de Lisboa. Estiveram na recepção membros do Corpo Diplomático acreditado em Lisboa, figuras políticas, académicas e empresários de renome. Entre os mais notáveis foram ao apronto Sua Alteza Real, Dom Duarte Pio de Bragança."

O PSD está a voltar à normalidade (2)

Por amostragem, peguemos na Sábado de hoje (vale sempre a ler os órgãos oficiosos).

Pacheco Pereira, um bom barómetro da vida interna, começa a ganhar espaço para distanciamento, após meses de silêncio cúmplice:


Maria João Avilllez, outro bom barómetro, mas este do eixo São Caetano - Belém, escreve isto, que deve deixar muito inquieto o primeiro eixo do referido fluxo:



O PSD está a voltar à normalidade

Luís Filipe Menezes, provavelmente ciumento com a sobre-exposição mediática dos outros ex-líderes do PSD, decidiu dar um ar da sua graça.
Num dia, quer refrescar a democracia (!), no outro, rebela-se contra a cobrança de portagens na Via do Infante.
Sobre o refrigério da democracia (como, aliás, sobre quase tudo) ninguém sabe o que pensa realmente o actual titular da São Caetano.
Já sobre a Via do Infante, a coisa fia mais fino - Menezes, os algarvios e o resto do País sabem perfeitamente que aquela estrada só vai ter portagens porque Passos Coelho assim o exigiu.

Aqui chegados, cabe perguntar: por quem corre Menezes, suporte logístico e ideológico (!) de Passos? Por Passos, ou por Menezes, himself?

Ou seja, será que Menezes também já se coloca na pole position para o pós-passismo, como claramente está a fazer Marques Mendes?

E - já agora - quando Santana tira o tapete a Passos e estende a passadeira a Rio, está a correr por quem e contra quem?

Em suma, é o PSD que, no incessante ciclo da vida, regressa à normalidade.

♪ Deixa-te de parvoíces e faz-te à vida [5]



Resistência


Mais do que a um país
que a uma família ou geração
Mais do que a uma passado
Que a uma história ou tradição
Tu pertences a ti
Não és de ninguém
Mais do que a um patrão
A uma rotina ou profissão
Mais do que a um partido
que a uma equipa ou religião
Tu pertences a ti
Não és de ninguém

Verdades inconvenientes


Depois de vários anos a cair, o PIB per capita português subiu entre 2007 e 2008, de 75,6% para 78% da média da União Europeia.

Viagens na Minha Terra

Quarta-feira, Fevereiro 23, 2011

Bravo, PSD!



Imagem da Sábado


Um dia depois de chumbar na Assembleia da República os projectos que limitavam as remunerações dos gestores públicos, o formidável Miguel Relvas anunciou que está contra “vencimentos pornográficos” dos gestores públicos¹.

Mas a ala mendista do PSD não quis ficar atrás do insigne Miguel Relvas e eis que, pela voz de Miguel Macedo, vem reclamar mais: “remunerações de gestores associadas a resultados”.

Por uma vez, saúdo a proposta do PSD. Concordo inteiramente que os salários dos gestores devam ser variáveis consoante o desempenho.

Defendo, até, que se devia ir mais longe e, por exemplo, prever que os gestores possam ser despedidos (sem direito a indemnização) caso não cumpram os objectivos de gestão e metas de desempenho fixadas nos contratos.

Aliás, estas metas de gestão deviam estar obrigatoriamente inscritas nos contratos dos gestores de todas as empresas que prestem "serviços de interesse geral".

Uma eventual avaliação negativa pelo Governo devia dar direito a demissão por justa causa.

Mas defendo mais do que isto. Também se devia mexer nas regalias destes gestores. Considero que os cartões de crédito só deviam poder ser usados para despesas "ao serviço da empresa", mediante a apresentação de comprovativos.

Quanto ao telemóvel, o seu uso devia estar limitado a um máximo, fixado pela Administração. A possibilidade de o gestor adquirir o carro de serviço devia ser eliminada.

Também o PSD podia falar das despesas confidenciais ou não documentadas, que julgo que deviam ser proibidas. Para já não falar dos planos complementares de reforma. Gestor público que receba uma qualquer pensão decorrente de outro trabalho no sector público devia ter de escolher entre receber um terço do salário e a pensão completa ou um terço da pensão e o salário por inteiro.

Enfim, propostas que, em bom rigor, este Governo já podia ter tomado há muito tempo, não devendo ter esperado por este pertinente impulso do PSD. Mas… esperem… foi exactamente isso que o Governo fez, quando aprovou, na anterior legislatura, o novo estatuto do gestor público, em Março de… 2007, conforme se pode confirmar aqui, nomeadamente nos artigos 13.º, 25.º, 28.º32.º, 33.º e 38.º.

_________
¹ Sobre os vencimentos dos gestores públicos, sugiro que se leia este post do João Pinto e Castro.

Os amigos de Khadafi [5]



14.06.2003:
    O ponto alto da visita de dois dias que o ministro dos Negócios Estrangeiros, António Martins da Cruz, realiza à Líbia cumpre-se hoje com o encontro entre o chefe da diplomacia portuguesa e o líder líbio Muammar Khadafi.

    Na reunião, Martins da Cruz vai entregar a Khadafi uma mensagem do primeiro-ministro português, Durão Barroso, cujo teor não foi revelado.
07.12.2007 (recordando a imagem com que ficou de Kadhafi após a reunião de 2003):
    No fundo, Martins da Cruz saiu da tenda "com uma impressão muito positiva do coronel Kadhafi, muito amigável, por vezes jovial, e com um conhecimento muito profundo da situação política e económica de Portugal e da influência portuguesa no mundo, nomeadamente em África".

São as eleições, estúpidos!

É nos momentos de tensão que os espíritos mais se revelam. Alguma direita portuguesa anda de cabeça perdida, o que seria risível, se não fosse perigoso. Agora saem-se com esta: "Pelos acontecimentos recentes, parece-me que é mais fácil mudar de regime numa ditadura do que de política numa democracia". Em democracia, meus caros, é possível mudar tudo.

Conscientemente desonesto ou intelectualmente distraído?




De vez em quando, Bagão Félix põe o país a rir à gargalhada quando decide ir para fora de pé, mostrando a profunda ignorância com que debate os assuntos. Mas, ultimamente, Bagão não perde uma oportunidade para mostrar a forma ressabiada como se comporta na política.

Ontem, a SIC-N convocou Bagão Félix para as 22 horas, a fim de colher a sua opinião sobre a execução orçamental de Janeiro. Inacreditável como é possível haver pessoas que se prestam a fazer estas tristes figuras. Dois exemplos da manhosa performance de Bagão:
    1. Bagão Félix foi ministro das Finanças. Não pode, por isso, ignorar que o aumento das taxas do IVA aprovadas no Orçamento do Estado para 2011 só dois meses depois de entrarem em vigor se traduz em receitas cobradas do respectivo imposto. Se é assim, porque é que diz que “o aumento de 6,6% da receita de IVA em Janeiro depois do aumento de 3 pontos [que foi de 21 para 23%] não é nada de excepcional”?

    2. A dado momento, Bagão diz: “se compararmos as despesas com pessoal de Janeiro do corrente ano com as de Janeiro de 2009, temos um acréscimo de mais de 6%.” Esfrega as mãos, arregala os olhos e conclui: “Vejam, a despesa continua descontrolada.”

    Aqui também é preciso lembrar a Bagão Félix que as despesas com pessoal incluem mais 15% sobre as remunerações (contribuição para a Caixa Geral de Aposentações), montante que não existia em Janeiro de 2009. Se compararmos com o que é comparável ou seja acrescentando 15% a Janeiro de 2009, o acréscimo transforma-se (e não é milagre nem truque) num decréscimo bem significativo. Que VERDADE é então a de Bagão Félix? Os portugueses têm direito a saber quem com a pretensa verdade os engana.

Santana [sobre Passos Coelho]: “Eu não quero chamar-lhe incompetência política”

♪ Deixa-te de parvoíces e faz-te à vida [4]



Randy Newman


They got little baby legs
That stand so low
You got to pick em up
Just to say hello
They got little cars
That go beep, beep, beep
They got little voices
Goin' peep, peep, peep
They got grubby little fingers
And dirty little minds
They're gonna get you every time
Well, I don't want no short people
Don't want no short people
Don't want no short people
'Round here

Obviamente

Luís Amado, à TSF:
"Portugal não fez nem mais nem menos que o que todos os Estados europeus, americanos e todos os que tentam internacionalizar as suas empresas fizeram. Naturalmente, apoiámos as empresas portuguesas que procuram desenvolver a sua base de negócios também na Líbia."

Há futuro para o Estado Social

• João Pinto e Castro, Haverá futuro para a social-democracia?:
    (...) A sensação que fica do actual debate é que a animosidade contra a social-democracia se estriba menos em argumentos sólidos do que em preconceitos, indiferenças, recriminações e ódios sociais que não ousam dizer o seu nome. Quais serão então os problemas reais que ameaçam a sobrevivência do Estado Social?

    O primeiro reside na frequente captura dos serviços sociais pelos agentes envolvidos na sua prestação, degradando-os e encarecendo-os. Na prática, é como se as escolas públicas estivessem ao serviço dos professores; os comboios, ao dos maquinistas; e os hospitais, ao do pessoal hospitalar. Naturalmente, isso reduz o apreço do cidadão pelos serviços sociais, ao constatarem que a retórica dos direitos foi apropriada por egoístas corporações profissionais.

    O segundo resulta de uma parte crescente dos beneficiários mais pobres serem estrangeiros ou percebidos como tal - por vezes de outras etnias ou religiões - donde decorre uma menor identificação com os problemas dos destinatários da ajuda, tanto mais suspeitos de parasitismo quanto mais distinta for a sua cultura de origem. Recorrendo à elegante linguagem do Dr. Portas, os "ciganos do Rendimento Mínimo" são olhados como oportunistas que "comem os nossos impostos".

    Em terceiro lugar, vivemos hoje em sociedades tribalizadas e fragmentadas, em que se diluíram sensivelmente não só o sentido de grupo social como mesmo o de nação. Ora a criação de sistemas de solidariedade públicos estribou-se num sentido de identidade partilhada envolvendo cidadãos com cultura e valores comuns, agora postos em causa. As pessoas hoje mobilizam-se para exigir o comboio do Tua, salvar o lince da Malcata ou apoiar uma consumidora maltratada pela Ensitel, mas desvalorizam a importância do voto e desinteressam-se de grandes causas nacionais.

    Muito mais do que qualquer imaginária crise de sustentabilidade são essas circunstâncias que contribuem para minar o sentimento de solidariedade, encolher a base social de apoio do estado social e questionar a sua legitimidade. No seu último livro ("Ill Fares the Land", em português "Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos"), Tony Judt conclui que só a recordação de como eram cruéis as nossas sociedades antes da emergência da social-democracia permitirá impedir o seu desmantelamento. Mas é provável que uma atitude nostálgica, não enraizada no presente, a faça parecer ainda mais obsoleta.

    Em vez de contemplarmos a social-democracia como um paraíso perdido, talvez devêssemos antes adoptar uma postura crítica orientada para a sua reforma. Convém recordar que a estatização da solidariedade, antes a cargo das famílias ou das instituições de socorro mútuo, veio excluir os cidadãos da sua gestão quotidiana e liquidar o instinto de cooperação. A universalidade transformou a protecção social num mecanismo automático de distribuição de benesses cujo funcionamento e custos não são entendidos pelas pessoas comuns. A generosidade foi superada pela reivindicação de direitos abstractos. Ora nada disto é bom.

    O grande problema do estado social não é talvez a falta de dinheiro, mas a alienação dos cidadãos em relação aos seus propósitos e funcionamento - logo, é por aí que se deverá começar. (...)

O “choque laboral”, ou como atingir o pleno emprego com salários de 200 euros

Em tempos, a estratégia do PSD para o país reduzia-se a duas palavras: “choque fiscal”. Hoje, como o modelo irlandês já não é o que era e os tempos não convidam a baixar impostos, o PSD opta pelo “choque laboral”.

Há um princípio que convém sempre seguir: quando a direita começa a citar slogans vagamente marxistas, algo de grave se passa. É o que acontece quando Miguel Macedo faz da expressão “exército de desempregados” uma das suas favoritas e mais repetidas dos últimos tempos.

Quando a ouvimos da boca da esquerda – aquela que provavelmente leu Marx – intuímos que seria mais fácil resolver o problema do desemprego expropriando os proprietários e nacionalizando os meios de produção. Mas quando ela vem da direita, sabemos que a expropriação incide sobre aqueles que nada mais têm para garantir a sua sobrevivência que a força dos seus braços (ou, em tempos de capital humano qualificado, a conexão das suas redes neuronais). Neste caso, trata-se da expropriação de direitos mínimos de protecção dos que trabalham ou procuram emprego. Afinal, o que é próprio dos “exércitos” é serem mobilizados e os seus elementos tratados em função das necessidades (militares) do momento. Era esse o propósito da malograda proposta do PSD do “tributo solidário”, uma triste ideia que mostrava não compreender que o subsídio de desemprego é um seguro co-financiado pelo trabalhador e que o seu objectivo é fazer uma concorrência (saudável) ao mercado de trabalho, evitando que os empregadores abusem de salários de exploração (dito de outra forma para ver se Miguel Macedo compreende de vez: não, nem “todo e qualquer emprego é melhor que o desemprego” – a sua lógica é precisamente aquela que legitima, no limite, o trabalho forçado).

O PSD não deve perceber muito de estratégia militar, mas sabe ouvir os empregadores que pretendem que os trabalhadores possam ser tratados como uma mercadoria o mais pura possível. É por isso que o projecto de lei que apresentou para incentivar a contratação de jovens à procura do primeiro emprego ou desempregados inscritos há mais de 6 meses num centro de emprego¹ representa, como o PSD bem sabe e admite, um “novo paradigma” de relações laborais.

Trata-se de um “paradigma” que desrespeita a situação de fragilidade em que se encontram jovens e adultos no actual mercado de trabalho e que agrava a situação de precariedade contra a qual muitos reclamam, quer ao nível do contrato a termo, quer, mais grave ainda, ao nível do contrato de trabalho temporário.

O que propõe o novo “paradigma”? Entre outras coisas, prevê que, ao contrário do regime geral previsto no Código do Trabalho, possa não existir qualquer contrato escrito entre empregador e trabalhador, uma vez que a inobservância da forma escrita não determina a nulidade do termo. O PSD, partido cada vez mais povoado – como esta proposta mostra – por liberalóides, devia saber que a regra da forma escrita existe para garantir o cumprimento de qualquer contrato e que, no domínio do direito do trabalho, ela está lá para proteger o trabalhador contra o arbítrio do empregador. Esta proposta não representa apenas a legalização da mais radical das precariedades – ela eleva também ao ponto mais elevado a arbitrariedade a favor da entidade empregadora - é que se a forma escrita não é obrigatória, expliquem-me por favor como é que um trabalhador exige que o empregador cumpra aquilo a que se comprometeu -, que não teria sequer de indemnizar pecuniariamente o trabalhador, uma vez findo o contrato, já de si precário.

O paradigma do “trabalho à jorna”, que é afinal bem velho, poderia regressar. E com o PSD, um país com salários a 200 euros – o resto seria coberto pelo subsídio de desemprego, como prevê o projecto de lei - e trabalhadores recrutados e despedidos quase ao sabor diário das encomendas, poderia aspirar de novo ao pleno emprego.

O PSD acha que o facto de o Governo estar a discutir na concertação social uma redução das indemnizações nos despedimentos nos contratos sem termo – juntamente com a constituição de um fundo que responsabilize as empresas - lhe retira legitimidade para criticar a sua proposta. Não espanta: é próprio de quem não compreende a diferença entre o “paradigma” laboral do século XXI e o do século XIX.
    Contributo do Pedro T.
_________
¹ O PSD decide, ignorando a definição internacional do conceito, que “desempregado de longa duração” é aquele que se encontra sem emprego há mais de 6 meses, e não há mais de um ano.

Terça-feira, Fevereiro 22, 2011

TVI 24

    Fernando Rosas - Não perseguimos ninguém por causa das suas opiniões.
    Santana Lopes – Mas tiram das listas…
    Fernando Rosas – Mas isso todos fazem!

Da série "Frases que impõem respeito" [569]


Não se resolvem questões políticas com matanças.
      Augusto Santos Silva, ministro da Defesa, exigindo às autoridades líbias que “as pessoas sejam tratadas no respeito pela sua dignidade e pelos seus direitos

Atrás de mim virá quem de mim bom fará

A regulação financeira é um assunto demasiado sério para permitir que se possa ter opiniões como cidadãos.

Os amigos de Khadafi [4]


Os amigos de Khadafi [3]


Notícia que não vai ler nos jornais de amanhã

Gaia, 22 fev (Lusa) -- O presidente da CaetanoBus afirmou hoje que a empresa do grupo Salvador Caetano só conseguiu manter a actividade nos últimos dois anos graças à flexibilidade dos trabalhadores, que agora vão trabalhar cerca de 10 horas por dia.

"Este tipo de projeto assim como a manutenção da nossa actividade industrial só tem sido possível fruto da flexibilidade e cooperação dos nossos colaboradores", afirmou hoje o presidente da Caetano Bus, José Ramos, na apresentação do primeiro autocarro elétrico português, em Gaia.

Durante a cerimónia que contou com a presença do primeiro-ministro, José Sócrates, o também administrador da Salvador Caetano adiantou que "presentemente com o aumento das encomendas, sobretudo no estrangeiro, e consequentemente aumento da produção, vamos trabalhar cerca de 10 horas por dia compensadas pelo banco de horas".

Os amigos de Khadafi [2]

Os amigos de Khadafi [1]

Ainda que mal pergunte… [23]

Lê-se hoje no DN que há uma enorme trapalhada com a sede da Cofina, a ponto de as obras estarem embargadas. Não seria o momento indicado para o Correio da Manha lançar uma nova petição, desta feita contra os crimes urbanísticos?

A palavra aos leitores



De e-mail enviado por Vasco M.:
    Bem sei que não é exactamente do foro do Câmara Corporativa, mas a homepage do Correio da Manhã às 15:36 de hoje é inqualificável. Achei que o seu blog não devia deixar passar mais esta bonita página na história do jornalismo português. Segue em anexo um printscreen.

O passado ainda presente da guerra colonial



A imagem reproduz um extracto de um artigo de um tal Brandão Ferreira sobre o casamento de duas militares da GNR. O que este tenente-coronel reformado escreve não destoa da linha geral do Diabo, agora renovado pelo PSD. O que espanta é que ele consiga publicar regularmente artigos deste calibre no Público e no Expresso.

A realidade, essa coisa desmancha-prazeres

Epitáfio da gestão Roquette

Truques Selvajaria

Jerónimo Martins na Polónia contestada por federação sindical europeia:
    'Perseguição aos trabalhadores sindicalizados (não terão sido renovados contratos a 60 trabalhadores por estarem sindicalizados), recusa de transferir quotas do salário para os sindicatos que representam os trabalhadores, proibição de reuniões e encontros de trabalhadores de estruturas sindicais dentro das lojas da Biedronka, a cadeia de distribuição da portuguesa Jerónimo Martins (JM), na Polónia.'

♪ Deixa-te de parvoíces e faz-te à vida [3]


António Variações


Foi mais um dia e tu nada fizeste
Um dia a mais tu pensas que não faz mal
Vem outro dia e tudo se repete
E vais deixando ficar tudo igual

Eu sei que tu andas a procurar
Esse lugar que acerte bem contigo
Do que aparece nao consegues gostar
E do que gostas ja esta preenchido

Trabalhar!? Trabalhar!? Trabalhar!?

Os amigos dos árabes

Há por aí uma caça às bruxas centrada nas relações com os países árabes actualmente em convulsão.
Como de costume, utiliza-se aquilo que é a simples diplomacia, ou as relações económicas, para fazer política baixa.
Mas, já agora que se inicou a caça às bruxas, que se prossiga essa edificante tarefa. Os nomes estão aqui.

A execução orçamental que obriga o PSD a torcer os números

Primeiro, Passos Coelho fez como a raposa da fábula: estão verdes. Confrontado com os primeiros, e excelentes, dados da execução orçamental de 2011, o líder do PSD desconversou e optou pelo discurso do método, salvo seja: o que estava mal não eram os números - não poderiam estar - mas a forma como foram divulgados.
Conhecidos os resultados oficiais, o caso tornava-se mais bicudo. Era necessário torcer os números. Pô-los a dizer exactamente o contrário do que eles revelam.
E é aí que entra o "especialista" neste tipo de contorcionismos.
Miguel Frasquilho não está nada satisfeito com a execução orçamental de Janeiro porque - diz - "Verifica-se que do lado da despesa e numa base comparável com os objectivos do Orçamento do Estado, a despesa total, a despesa primária e a despesa corrente primária sobem todas face a 2010 e deviam descer todas".
Frasquilho, que se apresenta como economista, deveria saber que está a comparar o incomparável. E que não é necessário ser economista para conseguir ler o comunicado do Ministério das Finanças. Cristalino:




Viagens na Minha Terra

Logo agora que estávamos a gostar tanto... (2)

Mário Crespo justifica assim a "suspensão" do programa Plano Inclinado: "Não é a primeira vez.  Também interrompemos no Natal". Prova provada de que, como diz a canção, "Natal é quando um homem quiser". Isto, claro, para quem acredita no Pai Natal... 

Moção de censura

Anedota a circular na net:
    Qual é a diferença entre um cientista, um filósofo e um trotskista? - Um cientista é um homem num quarto escuro à procura dum gato preto; - um filósofo é um homem num quarto escuro à procura dum gato preto que não está lá; um trotskista é um homem num quarto escuro à procura dum gato preto que não está lá, aos gritos: "agarrei-o!", "agarrei-o!"

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2011

Logo agora que estávamos a gostar tanto...

O Plano Inclinado está suspenso por tempo indeterminado



Mas nós queremos saber quem quer calar Medina Carreira. Em nome da liberdade de expressão. Nem que para isso seja necessário fazer uma petição para enviar à ERC.

ABC da dívida soberana


i de 19 de Fevereiro

O "compromisso histórico"


Lisboa acordou atordoada, entre as surpreendentes imagens da revolução na Líbia e a perspectiva de um "compromisso histórico" em Portugal.
Logo pela manhã, o jornal i estampava o título indesmentível - PSD admite acertos com comunistas para moção de censura - e juntava-lhe, para que levássemos a coisa a sério (!), o semblante carregado de Guilherme Alberto João Silva.
Lá dentro, teorizava-se sobre o tal "compromisso histórico", dizia-se que até já existem equipas mandatadas para negociar e até se invocava Bismark.



Mas eis que, na visita a uma feita de agricultura, Passos Coelho desautorizava o jornal i, o deputado da Madeira e o próprio Bismark: "Se há pessoas do meu partido que insistem em cenários de crise política é porque estão a falar demais".
O que é uma pena. Ou talvez não.
Afinal, Passos apenas disse que Guilherme estava a "falar demais". Não disse que estava a mentir.

Da claustrofobia democrática

Coisa estranha: em abstracto, a oposição deveria estar mais interessada em dar força à ERC — Entidade Reguladora para a Comunicação Social — do que o próprio Governo. Mas em Portugal não é assim, pois o PSD admite boicotar as eleições para a ERC.

A regulação da comunicação social está prevista no artigo 39.º da Constituição da República. Ao pretender paralisar o funcionamento da ERC, o PSD revela:
    • Que quer aplicar a sua extravagante revisão constitucional sem ter de a sujeitar a votação na Assembleia da República;
    • Que a campanha da claustrofobia democrática, que tanta baba e ranho provocou, era uma farsa (como tantas outras a que o PSD deu gás);
    • Que se sente confortável com a forma como é produzida a informação.
Longe vão os tempos em que, por mera táctica política e alguma falta de pudor, Pacheco se contorcia na praça pública a implorar por “respiração assistida”.

Da série "Frases que impõem respeito" [568]


Não percebo como há líderes partidários que ficam maldispostos com os bons números de execução orçamental.
      José Sócrates, fazendo alusão à forma despeitada como os líderes da oposição, em especial Passos Coelho, reagiram aos resultados da execução orçamental de Janeiro

Reformas? Vamos a isso

Pedro Passos Coelho, 19 Fev 11:
"Enquanto eu não vir o Governo a mexer-se, a produzir reformas, acho que é completamente deslocado [o Governo] estar a acusar a oposição de criar instabilidade”.



José Sócrates, 21 Fev 11:
"Em apenas cinco anos nós mudámos a face da Administração Pública, em termos electrónicos passámos de um modesto lugar, abaixo das médias europeias, para a liderança do Governo electrónico em termos de disponibilização dos serviços públicos 'online' e de sofisticação dos serviços, qualquer que seja o ângulo pelo qual se analise o ranking, não há dúvida que em Portugal obtivemos uma liderança absolutamente incontestável".


Portugal lidera ranking da governação eletrónica
Pelo segundo ano consecutivo, Portugal ficou em primeiro lugar, no ranking europeu do egovernment 2010 da Comissão Europeia.

A sério? Ena pá, ganda novidade


[Diário de Notícias, 21 Fev 11]

Os jornais de hoje repetem a notícia: "Frente Comum adere à manifestação da CGTP". É um jornalismo atento - noticia o óbvio. Amanhã, o título será: "Grupo Parlamento do PS vota contra moção de censura do BE".

♪ Deixa-te de parvoíces e faz-te à vida [2]



Fleetwood Mac

Why not think about times to come
And not about the things that you've done
If your life was bad to you
Just think what tomorrow will do