terça-feira, junho 30, 2015

A saga de Jacinto Leite Capelo Rego


Pires de Lima informa a PGR da existência de um indivíduo que se faz passar por seu representante. Com que propósito? A palavra ao gabinete do ministro da Economia:
    «"O gabinete do ministro da Economia informa que o ministro da Economia relatou formalmente, hoje, dia 30 de junho, à senhora Procuradora Geral da República, ter sido advertido, por pessoas das suas relações que reputa como idóneas e fidedignas, que um indivíduo, identificando-se como representante" do governante, "e alegado atuar em seu nome, ter-se-á aproximado de pessoas responsáveis pelo consórcio vencedor da reprivatização da TAP, bem como de um responsável direto pelo processo de subconcessão do Metropolitano de Lisboa e da Carris, pretensamente com o objetivo de obter para si vantagens económicas".»
Infelizmente, o take da Lusa não refere a identidade do alegado impostor.

Da série "Frases que impõem respeito" [930]


Era o que me faltava comentar ou limitar o direito de defesa do cidadão José Sócrates.
      António Costa, numa referência à entrevista hoje dada ao DN e à TSF por Sócrates, sublinhando que «percebi que é a defesa pública de alguém que [tem] sido publicamente acusado e que também recorre ao espaço público, onde no fundo o julgamento também tem vindo a ser feito, para apresentar a sua defesa»

Entrevista de Sócrates ao DN e à TSF


Passagem da entrevista hoje publicada no Diário de Notícias:
    «Fui detido e preso sem que ao longo de uns intermináveis seis meses me tivesse sido apresentado um único indício — digo indício, já não falo de factos ou provas — de que tivesse praticado o crime de corrupção. Esta situação é, em si, tão inacreditável e tão reveladora da perseguição pessoal e política que motivou este inquérito, que poucos a aceitaram como credível. Mas não se pode sustentar durante muito tempo tamanho embuste. Cito o voto de vencido (em 4 de junho) do senhor desembargador José Reis:

    "Sucede que, no caso, tal quadro se apresenta manifestamente incompleto dada a total ausência de descrição de indícios factuais que eventualmente possam integrar o crime de corrupção. Esta é a realidade nua e crua."

    E prossegue:

    "Debalde procuramos indícios dessa matéria no requerimento e decisão ora recorrida (...) Ante a sua inexistência partimos para a integral audição daquele interrogatório (...) E do que ouvimos (incluindo os excertos de algumas das escutas telefónicas que o Ministério Público entendeu serem relevantes passarem durante esse acto) constatámos que em momento algum o recorrente foi confrontado com quaisquer factos ou indícios concretos susceptíveis de integrar o crime de corrupção. E seguramente não o foi porque (...) eles inexistem."

    "Ora, a decisão em crise, tal como a promoção que a origina não descreve um único indício factual susceptível de integrar os crimes de corrupção."

    "No fundo, este tribunal fica sem saber o que, concretamente, com relevância criminal, se está a investigar, pelo que não pode conceder o seu aval àquilo que desconhece. Ou seja, se se ignorarem os indícios dos factos que se projectam demonstrar (...) não há complexidade alguma em investigar o nada, o vazio."

    Acreditam agora?»

Augusto Santos Silva afastado da TVI


«Os Porquês da Política» da TVI 24, com Augusto Santos Silva à terça-feira, acaba no fim de Julho. Convidado a comentar o seu afastamento, o professor catedrático da Faculdade de Economia do Porto afirmou: «A TVI exerceu o seu direito contratual e ao exercê-lo afastou-me de antena. Não sei se tecnicamente é censura». Mas é.

Com efeito, não há nenhuma razão aceitável para acabar com um programa que tem uma das maiores audiências da TVI 24, tendo resistido às constantes mudanças de horário e até à circunstância de, não raras vezes, não ir para o ar a pretexto de dar lugar à estopada do futebol.

Numa estação de televisão em que imperasse a racionalidade financeira, Augusto Santos Silva teria de ser levado ao colo. Não há por aí muita gente com um pensamento tão estruturado e com competência para explicar a complexidade da política através de raciocínios simples. O afastamento desta voz muito incómoda, em vésperas de eleições, só pode ficar a dever-se a pressões políticas sobre a TVI.

Com o «comentário» político nas televisões em sinal aberto entregue a Marcelo e Marques Mendes, terá chegado o momento de afastar dos canais de informação (ou, pelo menos, da TVI 24) a linha de pensamento que Augusto Santos Silva representa. A sua eventual substituição por um inócuo boneco de palha não disfarça o que está em curso: uma gigantesca operação de asfixia democrática.

«A Grécia é o trágico exemplo do insucesso da austeridade»

Artigo de António Costa sobre a situação da Grécia (e da zona euro):
SÓ UM ACORDO SERVE O EURO E PORTUGAL

segunda-feira, junho 29, 2015

Da série "Frases que impõem respeito" [929]


É uma figura tristíssima, é lamentável a declaração do Presidente da República. Sabe aritmética, mas não sabe mais nada. É uma pena não saber o que está em causa. Se diz que são 19, sai um e ficam 18, amanhã se sair Portugal são 18 e ficam 17. Essa conta fica-lhe muito bem fazer, mas ele não percebe a relevância desta saída. Transforma completamente a União Europeia.

O QUE FAZER COM ESTE PAÍS

Depois do ó-ó, uma conta de subtrair em directo


Na situação portuguesa, talvez se justifique inverter a citação de Marx — a história repete-se primeiro como comédia e depois como tragédia: «A zona do euro são 19 países, eu espero que a Grécia não saia, mas se sair ficam 18 países. Quanto a isso eu não tenho dúvidas (…).»

«O Governo vive sob um efeito de doping»


• António Correia de Campos, O doping:
    «O Governo vive sob um efeito de doping. Cada décima da economia é vista como o disparar do crescimento. A redução da despesa em subsídio de desemprego, apresentada como um sinal de crescimento, é afinal devida ao termo do período de garantia de desempregados com direito a subsídio, bem como à redução progressiva da remuneração média à qual os subsídios estão indexados.

    O investimento aumenta pela compra de viaturas importadas, mas não se diz que são essencialmente automóveis, em vez de viaturas pesadas. Outra história é a do investimento em companhias off shore de uma seguradora recentemente privatizada e cujas reservas matemáticas estão agora a servir de garantia ou colateral para investimentos desconhecidos, em vez de servirem para garantir o risco dos seguros tomados por segurados nacionais.

    A compra de casas usadas aumenta visivelmente, mas não se esclarece que, em contrapartida, baixa o aforro nos bancos devido a juros tão baixos que incentivam outras colocações e aumentam o consumo, mas não de bens essenciais. A cobrança do IVA aumentou quase 8%, aguentando a despesa pública registada, mas ninguém fala das novas dívidas da Saúde (medicamentos e dispositivos médicos) que devem rondar 1,5 milhares de milhões, com tendência a subirem vertiginosamente nos meses antes e depois das eleições.

    Daqui a duas semanas, o Governo vai anunciar que IVA e IRS juntos subiram acima de 3,7%, permitindo devolver parte da sobretaxa de IRS. Como não será possível fazer entrar o dinheiro nas contas bancárias dos eleitores ainda em 2015, o Governo vai disponibilizar um simulador para que cada um veja quanto pode vir a receber. Não se paga, mas anuncia-se.

    Os membros do Governo parecem ter recebido formação recente em marketing. Qualquer ocasião serve para proclamarem a excelência da sua, deles, gestão. Mas pouco terão aprendido. Na Saúde, meses depois de o primeiro dos ministros anunciar saldo positivo, vem agora o ministro da pasta queixar-se de falta de meios, sugerindo um imposto específico. Logo obrigado a engolir o queixume.

    Depois da experiência traumática da colocação de professores no ano transato, na Educação adia-se por uma semana o início das aulas para que os previsíveis atrasos não coincidam com a fase mais aguda da campanha eleitoral. Os pais que aguentem os filhos em casa, com os avós, nos empregos ou na rua!

    Portas exibe auto-elogios e hossanas à economia, sob a forma habitual de hipérboles sincopadas. A troika, que era um respeitoso mal necessário, passou a odiosa conspiração de que nos libertámos gloriosamente. Por paradoxo, a troika aplicada aos outros, à Grécia, é um indispensável ajustamento que os relapsos gregos devem suportar em todas as reviravoltas opinativas do FMI.

    O recurso à função pública, independente e imparcial, para ajudar a escrutinar o programa do PS, (tarefa que deveria caber à Rua de São Caetano e ao Largo do Caldas) depois de escancarado o escândalo ocorrido na Justiça e na Economia, é apresentado como simples “erro” dos gabinetes.

    O salão nobre das Finanças é mobilizado para a assinatura de um contrato de promessa de compra e venda da TAP, pendente de várias apreciações e filtros.

    Ainda antes do fim do Verão será a grande cerimónia da venda do Novo Banco, possivelmente a chineses, ao mesmo tempo que se acumulam as falências no Grupo GES, de empresas consideradas viáveis se o grupo tivesse sido aguentado em vez de desmantelado. Libertos, aliviados, como se tal alívio fosse purificação, em vez de empobrecimento.

    Quando se trata de colocar um fiel servidor do primeiro-ministro, ressuscita-se a defunta representação permanente junto da UNESCO, deitando às ortigas as economias prementes que ditaram há três anos a sua fusão com a embaixada bilateral em Paris. Há que pagar fidelidades, mas pelo jeito que as coisas levam, os próprios duvidam da sua continuidade no poder. (…)»

domingo, junho 28, 2015

Euro

Intervenção de Varoufakis na reunião de Eurogrupo de quinta-feira

Peões domésticos do FMI

Soube-se agora que, nas vésperas da assinatura do memorando com a troika, jornalistas gregos se deslocaram a Washington para participar em eventos organizados pelo FMI, sendo as despesas pagas por este organismo. O porta-voz de Christine Lagarde considera que se trata da coisa mais natural do mundo, uma vez que o FMI, segundo afirmou, apoia jornalistas de mais de 90 países pobres e sob intervenção do organismo. A forma como esses jornalistas foram escolhidos é um mistério, tendo o Sindicato dos Jornalistas da Grécia aberto um inquérito.

Dado o silêncio sobre o tema em Portugal, é de presumir que o FMI não convidou jornalistas portugueses para os seus eventos em Washington.

Quem diria?!

Lagarde é que decide o futuro da Europa?

Ontem no Expresso/Economia (via Nuno Oliveira)
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sábado, junho 27, 2015

Da série «Grandes títulos»

Para que servem as reformas laborais

Hoje no Expresso
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Passos, o mentiroso

Hoje no Expresso (via Nuno Oliveira)
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Elefantes na sala


• Pedro Silva Pereira, Elefantes na sala:
    «No início da semana, Christine Lagarde, directora-geral do FMI, disse que um acordo com a Grécia dependia de uma única coisa: que os negociadores se comportassem como "adultos na sala". O que depois se provou é que o problema na sala não era a falta de adultos, mas sim o excesso de elefantes.

    À hora a que escrevo, Bruxelas permanece ainda ensombrada pelo espesso fumo negro que sai das sucessivas rondas de negociações com a Grécia. Todavia, paradoxalmente, apesar da enorme intensidade dramática deste prolongado impasse à beira do precipício, todos sabem que é praticamente inevitável que acabe por haver acordo. Em primeiro lugar, porque ninguém quererá assumir o ónus de, com a saída da Grécia, mergulhar a zona euro numa arriscada aventura por "águas desconhecidas" que seria capaz de ressuscitar, mais tarde ou mais cedo, aquele mesmo famigerado "nervosismo dos mercados" que já uma vez arrastou a Europa, enquanto o diabo esfregava um olho, para uma gravíssima crise das dívidas soberanas. Em segundo lugar, e decisivo, porque, depois de todas as cedências feitas pelo Governo grego, já não seria possível responsabilizar o Syriza pelo falhanço nas negociações.

    Na verdade, depois da forma quase efusiva como foram recebidas e saudadas, tanto pelos parceiros europeus como pelos mercados, as recentes propostas "construtivas" do Governo de Atenas, é impensável insistir, com um mínimo de credibilidade, na tecla da indisponibilidade de Tsipras e Varoufakis para chegar a um compromisso razoável que permita assegurar a permanência da Grécia na zona euro. Bem pelo contrário, os líderes gregos revelaram-se disponíveis para correr sérios riscos políticos internos para levar ao Parlamento helénico uma proposta muito exigente, que está a léguas das suas (irrealistas) promessas eleitorais.

    Como aqui escrevi (27-2-2015) logo que foi divulgada a primeira lista de reformas apresentada pelo Governo grego, que serviu de base ao pré-acordo com o Eurogrupo e deu lugar à actual fase de negociações, "a permanência da Grécia no euro e as garantias (provisórias) de financiamento do Estado e da economia helénicos foram conseguidos à custa de uma cedência generalizada por parte do Governo grego quanto à execução de uma parte substancial do seu programa político, tal como votado pelos eleitores. E a dimensão da cedência tenderá a revelar-se ainda maior quando o Governo de Atenas for chamado a detalhar e quantificar o impacto orçamental de algumas das medidas que agora anunciou". Mesmo que o Governo grego consiga, como tudo indica face às propostas apresentadas, consagrar metas orçamentais menos estapafúrdias e evitar medidas de cortes nos salários e nas pensões, só a extrema generosidade de Daniel Oliveira (Expresso, 23-6-2015) permite a extraordinária conclusão de que o acordo que se vai desenhando "não é recessivo" e que o pacote de medidas "é de austeridade, mas não a aprofunda".

    A verdade, evidentemente, é outra: o enorme aumento de impostos já admitido e proposto pelo Governo grego, sobretudo no IVA, no IRC e nas contribuições sociais, acompanhado da redução de diversas prestações, integra um vasto pacote de novas medidas de austeridade que totalizam 1,51% do PIB apenas no segundo semestre de 2015 e 2,87% em 2016. E tudo isto, recorde-se, para um acordo meramente provisório, destinado apenas a assegurar o recebimento da última "tranche" do programa de assistência financeira em vigor (porventura com a sua extensão até ao final do ano), o que significa remeter para mais tarde uma nova e complexa negociação sobre o futuro financeiro da Grécia no euro, incluindo a questão incontornável da sua monumental dívida pública. Em suma, se o objectivo do Syriza era um acordo para a permanência no euro que passasse pela renegociação da dívida pública e pelo abandono da política de austeridade, poderá dizer-se, já nesta altura, que não conseguiu uma coisa nem outra. O que não quer dizer, note-se bem, que seja um erro aceitar aquele acordo, por uma razão simples: não há para a Grécia uma alternativa melhor. Talvez com esta dolorosa experiência a extrema-esquerda compreenda melhor o que significa a responsabilidade de governar.

    A verdade é que os termos essenciais do acordo nunca estiveram nas mãos do Governo grego, como nunca estão nas mãos do devedor. Decisivo, mesmo, é que do outro lado da mesa, com a faca e o queijo na mão, havia demasiada gente politicamente interessada no pior acordo possível para a Grécia, aquele que significasse a menor legitimação de uma alternativa política ao pensamento dominante e a menor inflexão possível na política de austeridade. Esses defensores radicais da "linha dura" foram, desde o início, os verdadeiros "elefantes" naquela sala das negociações. Infelizmente para a Grécia, e ao contrário do que disse Lagarde antes de ela própria travar um acordo que parecia eminente, não foi a falta de "adultos" que dificultou a negociação. Foi o poder de uma manada de elefantes.

    P.S. - A incontornável actualidade das negociações com a Grécia impede-me de comentar esta semana a interessante resposta de Francisco Louçã, no blogue do Público, ao meu artigo da semana passada sobre a Parceria Transatlântica (TTIP). Voltarei oportunamente ao assunto, não perde pela demora.»

Mintos nada urbanos


• Fernanda Câncio, Mintos nada urbanos:
    «Não, não vou falar de Passos e do Governo. É preciso, bem sei. Mas cansa, anotar mentiras, números martelados, inanidades e desaforos todos todos os dias, e perceber que têm disso fábrica em laboração contínua e são mesmo bons no mister, bem melhores e bem mais incansáveis que quem os desmente. A dada altura, a pessoa já nem quer tomar conhecimento. Como em relação ao tema no qual estupidez, crueldade e falseamento vão ao esplendor e que, morto-vivo, inapelavelmente regressa -- o aborto.

    Lá o temos a 3 de julho de novo no parlamento, pela iniciativa legislativa "direito a nascer", subscrita por 38 mil cidadãos, com a inevitável Isilda Pegado à cabeça. Querem que "a mulher seja obrigada a ver a ecografia do feto e a assiná-la", a pagar taxa moderadora caso não apresente atestado de insuficiência, e não tenha direito a "licença paga". E que os médicos objetores de consciência, ou seja, que se opõem ao aborto, participem nas consultas do dito, que "o outro progenitor seja ouvido" e que menores de 16 possam decidir levar gravidez a termo.

    Irrita, sim. Mas é poucochinho. Quê, não exigem esfregar-se a ecografia na cara de quem quer abortar? Não determinam que lave escadas para pagar o desmancho, preferencialmente desmanchando-se em sangue? E não estatuem que só clínicos anti-aborto podem dar consultas a quem quer abortar e decisão, seja da mulher, da miúda ou do "outro progenitor", só se admite contra? É que, caros, ou é ou não é. Ao limitarem-se a tentar dificultar o ato e humilhar quem o pratica, admitem o direito ao aborto, logo, a inexistência do "direito a nascer", reduzindo-se à guerra da propaganda e às más fés do costume: disfarçar o facto de o número de abortos "por vontade da mulher", que em 2007 clamavam dever alcançar os 30 a 40 mil anuais por "a oferta estimular a procura" (sim, disseram isto e nunca se retractaram), nunca ter chegado sequer aos 20 mil e estar até a diminuir - menos 20% de 2012 para 2014; insistir na ideia da "leviana" que repete abortos quando a maioria - 59% -- é mãe (30% de mais de um filho), a taxa de repetição portuguesa é das menores do mundo e pós-aborto 95,4% das mulheres escolheram um método contracetivo, com 38,2% a optar por dispositivo, implante ou laqueação; insinuar que quem aborta tem direito a licença paga quando o número de licenças por aborto, na casa das 4 mil, se manteve inalterado antes e pós legalização de 2007; martelar na taxa moderadora quando tal só iria prejudicar as mulheres de fracos recursos, aliás a maioria (59%) das que abortam -- 21,57% são desempregadas, 18,07% trabalhadoras não qualificadas e 17,06% estudantes -, as quais arrostariam para fazer prova de carência, como Isabel Moreira bem sublinhou já, perigos para o sigilo e portanto, potencialmente, para a sua segurança.

    Não ia falar de Passos, dizia. Mas dá-se o caso de os Isildos comungarem com ele do diagnóstico e do método: sabem que só podem ganhar mentindo.»

A palavra aos leitores

Texto de José António C. Ferreira, Enfermeiro, a quem peço desculpa pela demora na publicação:

«O retrocesso do SNS ao tempo da beneficência/caridade da Misericórdia

    Declaração de interesse: sou contra as instituições de solidariedade e voluntariado pelo facto de a grande maioria ser geradora de corrupção, não cumprirem com o conceito inicialmente vertido na palavra “beneficência”, o de filantropia, mas sobretudo não proporcionarem emprego real.

    Voltando ao tema a que me propus refletir:

    Sou do tempo em que a Saúde era pobre, o que para a época era normal, já que todo e qualquer ato que nasce, cresce, e assim também o SNS, tinha que passar por este estádio de pobreza enquanto criança. Houve tempos, na sua fase de jovem, onde enriqueceu. Contrariando a normal evolução, na idade adulta, isto é, hoje, não a encontramos na sua maior pujança. Com o que reparo, aos tratos que o atual poder lhe está a impor, nem me permito pensar o que lhe vai acontecer quando chegar à idade de velhice.

    Quando digo que a Saúde não era para pobres afirmo-o no sentido de que este bem não lhe era, e atualmente voltou a não ser, oferecido na sua plenitude, nem em recursos materiais, nem, sobretudo, em recursos humanos.

    A palavra miséria em nada me conforta, não só ao escrevê-la, mas principalmente quando quotidianamente me confronto com a sua existência.

    Muito me incomoda trabalhar em condições miseráveis, não por causa da miséria que a natureza perspetiva, mas porque os donos das instituições que regulam povos a utilizam como slogan, um modo de viverem e não deixarem viver, para ganharem fortunas e controlar o valor dos bens, neste caso específico o bem Saúde.

    Pensado em miséria, a palavra miserável sobressai levando-me a pensar em pessoas frágeis, dependentes, não reativas, que após permanente contato com esta realidade deixam-se ficar numa letargia tal que o modo sobreviver prevalece a modo viver!

    O atrás descrito serviu para dizer que passados estes anos, cerca de 40 anos, esta miséria está cada vez mais impregnada, com a agravante de que atualmente a palavra miséria engradeceu ainda mais na sua “miséria”. Passou a ser um produto intencionalmente manipulado pela atual sociedade liberal em que vivemos, que utiliza esta artimanha para se impor perante os seus cidadãos. Em termos gerais, isto acontece por culpa de o poder político-social se ter deixado subjugar ao poder económico-financeiro.

    Onde estão os valores dos “maios de 68” ou os mais globais e abrangentes do não menos importante “abril de 1974”? Permito-me responder, os valores estão nos poucos “Eu’s” que por aqui vagueiam, digo vagueiam e vagabundeiam mesmo que de forma ténue.

    O endividamento económico, mas sobretudo o preço a que deixamos cobrar a nossa “divida emocional”, não é compatível com a reatividade que nos é inata. O nosso património genético está a ser amarrotado, amordaçado, pelos valores adversos deste meio ambiente inóspito criado para que continuemos somente a estar em vez de ser.

    Estou no tempo em que a Saúde só é para os pobres, com a indecência de que a atual sociedade nem sequer é pobre. Passo a justificar:

    Quem mais utiliza o SNS? Os pobres que erradamente julgam que não pagam. Desta forma o poder instituído fá-los acreditar que o Estado Social funciona. Errado! Caso fosse verdade o franchising das instituições, intituladas de solidariedade, não crescia que nem cogumelos.

    Quem menos utiliza o SNS? Os ricos que podem pagar ou têm subsistemas ou seguros de saúde para o fazer. Este dinheiro vai para os grandes grupos que atualmente controlam a Saúde. Grupos esses que se vangloriam de cobrar mais barato os seus serviços, e nós erradamente acreditamos.

    Os 3 ou 7 euros nos hospitais Cuf’s, nos Trofas’s, nos Povoas’s, e at all, cobram na realidade 30 ou 70 euros. O que eles fazem com esses 100% de lucro? Sei que aos prestadores dos serviços não pagam o que deviam, e sobretudo não premeiam os cuidados de saúde.

    Em jeito de conclusão, o SNS corre um enorme risco de morrer, pois a falácia que este Governo nos anda a vender, e que muitos de nós compramos, é perversa. O dinheiro que nos é muito caro está a passar para as mãos dos privados.»

quinta-feira, junho 25, 2015

Basta um estreante para desmontar as mentiras dos estarolas


Via Rui Pedro Nascimento

João Paulo Saraiva, vereador das finanças, respondeu esta quarta-feira aos vereadores/deputados do PSD e do CDS sobre a dívida do Município de Lisboa. António Costa de facto não reduziu a dívida do município de Lisboa em 40%, mas sim em 45%. E quanto ao recurso às assessorias externas criticadas pela direita, elas afinal baixaram de 3,3 milhões com PSD/CDS para 2,2 milhões com António Costa. Perante factos, o Professor Reboredo Seara, a Drª. Leal Coelho e outras figuras menores ficaram sem argumentos.

A realidade a bater à porta

Leituras

quarta-feira, junho 24, 2015

Direita tenta repetir burla de 2011

A mentira como arma política


• António Correia de Campos, A mentira como arma política:
    «O primeiro-ministro Passos Coelhos tem sido abertamente acusado de mentir. Até por líderes partidários, o que não era prática, preferindo-se sempre a expressão aveludada de ter faltado à verdade. Mas agora é com todas as letras. Porquê esta escalada verbal até aqui quase desconhecida? Por que razão estão os intervenientes no debate político a perder a cabeça e os freios?

    A memória pública tem sido avivada com uma peça de vídeo onde se comparam promessas de Passos Coelho, antes de ocupar o poder, com decisões posteriores. Já conhecíamos as diferenças, só que agora as redes sociais entram pelos nossos computadores com a evidência esquecida. A comprovação da duplicidade de posições, não permite usar a palavra mentira, pois há sempre a velha desculpa do contexto. Mas ela tem acicatado o sentimento malsão do ódio político. Apesar da erupção, a calma tenderia a regressar não fora nova e mais frontal provocação. Passos Coelho na semana passada afirmou várias enormidades: que a emigração dos nossos era inferior à dos Espanhóis e Irlandeses; que nunca havia aumentado o IVA; que o emprego estava a aumentar; que (até declarações recentes do ministro) nunca tinha mexido nos subsídios sociais. Mais valia ter estado calado.

    Ora, como não é hoje difícil compulsar dados de organizações internacionais, logo uma dirigente de partido da oposição veio escarrapachar a conflituante verdade: sem sombra de dúvida mentia e demonstrou-o com estatísticas internacionais. Mas bastaria ver os números nacionais. Já sabíamos que entre 2011 e 2013 tinham saído do País cerca de 350 mil pessoas. Há dias ficámos a saber que a tendência se mantém, pois mais de 130 mil saíram em 2014; ao todo, 480 mil em quatro anos de governo desta coligação. Quanto ao aumento do IVA, desmontar a mentira é fácil, basta olhar às mudanças de escalão da energia e da restauração, agora ambas a 23%, retirando recursos a centenas de milhares de famílias frágeis e projetando na falência pequenos restaurantes e no desemprego, marido, mulher e empregado que neles trabalhavam. Dizer que não existe criação de emprego será certamente uma falta à verdade, não admira a ténue recuperação quando se perderam 450 mil postos de trabalho; mas os desempregados hoje ainda são 54 mil mais numerosos que em 2011, os desencorajados subiram mais 110 mil e os ocupados em programas ditos ativos de emprego são mais 134 mil. Quanto aos subsídios sociais a história é bem mais negra, dado os destinatários se encontrarem no fundo do poço do elevador social: em relação a 2011, o subsídio de desemprego cessou para mais 147 mil desempregados, os beneficiários do abono de família são agora menos 72 mil, os beneficiários do complemento solidário para idosos são hoje menos 68 mil e os de rendimento social de inserção menos 111 mil. Com estas provocações não admira que o debate político descambe.»

Diálogos prováveis


    — Pedro, tenho um filho que vai continuar a minha obra, mas tenho outro com gostos muito exóticos.
    — Sr. Soares dos Santos, se eu lhe puder ser útil, é só dizer.
    — O meu filho Zé viveu um ano com os pescadores suecos, talvez se entretivesse com o Oceanário, que tem peixinhos extravagantes.
    — Trato já disso.
    — O problema é que o valor previsto para a concessão equivale a vendas no Pingo Doce durante quinze minutos. Teria de ser reduzido para perto de metade. Uma atenção para um amigo seu, como compreenderá.
    — Não há problema. Diga ao Zé que o brinquedo é dele por 30 anos.
    — Óptimo, depois fica na idade de se reformar.

Estar com o povo

Grécia

terça-feira, junho 23, 2015

«Em política, gosto das coisas claras»


    «Subscrevi o manifesto 'O Conhecimento como Futuro'. Estou de acordo com a nova agenda política para o ensino superior e a ciência que ele propõe. Mas tenho a fazer umas observações adicionais:
      1. Estamos a três meses de eleições legislativas. Não é possível ignorar esse facto.

      2. Como muitos académicos reconhecem, a ação do Governo, neste como em tantos outros domínios, foi absolutamente desastrosa. Portanto, não é possível realizar uma nova agenda política sem mudar de Governo.

      3. Só é possível mudar de Governo se todos os que querem mudar de Governo (a) forem votar e (b) votarem no Partido Socialista ou em partidos que se disponham a integrar ou viabilizar um Governo liderado pelo PS (o que, para vergonha da esquerda portuguesa, se resume por enquanto ao Livre). Tudo o resto significa colocar mais quatro anos no Governo Passos Coelho e Paulo Portas, isto é, perpetuar a política que o Manifesto e a generalidade dos cientistas tão justificadamente contestam.

      4. Tudo o que seja propor ou divulgar, agora, tomadas de posição que não enfrentem esta questão da alternativa de Governo arrisca-se apenas a ser voto pio, ou pior, limpeza de consciência própria. Mariano Gago, que tanto e tão bem é citado, nestes dias, sempre o soube - e tirou as consequências devidas.

      5. Não sei se isto parecerá sectarismo político. A mim parece-me clareza. Em política, gosto das coisas claras.»

Contado, ninguém acredita

No Diário Económico

    «Passos, Portas e companhia diziam-nos que as privatizações eram uma forma de entrar rios de investimento estrangeiro em Portugal.

    Ora bem, não só isso não tem acontecido, como, no caso da Fidelidade, vendida pela Caixa aos chineses da Fosun, até aconteceu o oposto. Depois da Fosun se endividar em cerca de mil milhões de euros para comprar a seguradora, eis que a própria seguradora, a Fidelidade, uns tempos depois da Fosun ca meter mil milhões de euros, compra mais do que mil milhões de euros em dívida... da Fosun. Sim, é a empresa comprada que acaba a financiar o comprador.»

segunda-feira, junho 22, 2015

Reformas estruturais: resultados


    «Não há maior demonstração de que o ajustamento externo foi inteiramente conjuntural, isto é, inteiramente dependente da recessão, da destruição de emprego, da queda do consumo e do colapso do investimento, do que a evolução do excedente externo.

    O excedente externo atingiu uns fantásticos 5169 milhões em 2013, caiu para 3608 em 2014, cerca de 30%. Anualizando os 186 milhões que noticia o Expresso, o excedente de 2015 seria 558 milhões. Diz que o ajustamento era suposto ser estrutural. Estes dados mostram o oposto.»

Semana após semana a desfazer mitos urbanos (e não só)


Augusto Santos Silva na TVI 24: na semana passada, foi assim. É só lincar e ver.

Crescimento e emprego


• João Galamba, Crescimento e emprego:
    «Segundo o argumentário PaF (Portugal à Frente), as propostas da maioria reforçam o crescimento actual; as do PS fazem o oposto e são uma ameaça ao crescimento e ao emprego.

    Dado que o crescimento actual se deve à procura interna, o argumento da coligação torna-se ilógico, porque não se vislumbra em que medida é que uma proposta de "poupança" de 600 milhões de euros nas pensões - que reduz o rendimento disponível dos pensionistas, afectando negativamente o consumo - possa contribuir para o crescimento da economia e também não se percebe em que medida é que a recusa desse corte possa fazer o oposto. Para além disto, há tudo o resto: o PS propõe um conjunto de medidas que, a partir de 2016, dão sustentação ao crescimento da procura interna; a maioria não faz tal coisa, acredita que a procura interna recuperará "naturalmente" e adia grande parte das mesmas medidas de apoio aos rendimentos para o fim da legislatura.

    O PS parte da seguinte constatação: quando a maioria cortou a fundo nos rendimentos das famílias, seja por cortes na despesa, seja por aumento da carga fiscal, a economia e o emprego afundaram; quando a maioria foi obrigada a devolver ou a não cortar rendimentos, a economia e o emprego recuperaram. É preciso não esquecer que, no final de 2012, Passos Coelho - já depois do enorme aumento de impostos - disse ser necessário cortar quatro mil milhões de euros em salários e prestações sociais. Este plano suicidário foi reafirmado em abril de 2013, quando Passos Coelho disse que queria acelerar os cortes. Felizmente, esse plano desvairado foi travado e a despesa, ao invés de baixar quatro mil milhões de euros, subiu 3 mil milhões. Não há forma de negar o impacto positivo que isto teve na economia e no emprego. Foi assim a partir do segundo trimestre de 2013, foi assim ao longo de 2014 e, também, está a ser assim em 2015, com o fim da CES e a devolução de 20% dos cortes nos salários dos funcionários públicos. E só continuará a ser assim no futuro se houver propostas que reforcem, e não travem, essa dinâmica.

    Se a dinâmica da economia portuguesa está fortemente relacionada com a evolução do rendimento dos portugueses, o PS entende que a única forma de reforçar essa dinâmica, promovendo o crescimento e o emprego, passa por reforçar as medidas que acelerem a recuperação de rendimento dos portugueses. É exactamente isso que propomos fazer. Não apostar na aceleração da recuperação do rendimento pode ser muita coisa, mas não é seguramente uma política de reforço do crescimento e do emprego. Depois do ‘frontloading' de austeridade de Vítor Gaspar ter provocado a derrocada da economia portuguesa, com a queda do PIB em 2012 a chegar aos 4% e a destruição de emprego a passar os 200 mil, o PS sustenta, com base na experiência empírica e na teoria economia convencional, que o ‘frontloading' nos rendimentos dos portugueses, a partir de 2016, terá o efeito contrário.

    Mais do que aumentar o défice, o PS defende uma distribuição do défice distinta ao longo da próxima legislatura: um défice um pouco mais alto no primeiro ano, necessário para dar folga à economia, para, via crescimento, permitir um défice mais baixo nos anos seguintes. Para o mesmo objectivo - cumprir as regras europeias em matéria de défice - o PS defende uma estratégia mais amiga dos rendimentos das famílias e, por essa razão, mais amiga do crescimento e do emprego. A proposta do PS mostra que o nosso diagnóstico compreende o que aconteceu na economia portuguesa nos últimos anos. A proposta da maioria mostra que PSD e CDS não aprenderam nada, porque continuam a achar que é possível fazer crescer a economia sem reforçar o rendimento dos portugueses ou adiando medidas que aumentem esse mesmo rendimento. O PS tem um diagnóstico e uma estratégia coerente com esse diagnóstico. PSD e CDS têm um diagnóstico errado, porque não reconhecem o efeito positivo que a devolução de rendimentos teve no crescimento e na saída da recessão, e assentam a sua estratégia numa fé: a economia recuperará por si, mesmo que cortemos 600 milhões de euros em pensões. A escolha é clara.»

Delírio


• João Dias, Delírio:
    «(…) Este delírio da Coligação não tem reflexo em parte alguma do mundo. Na Alemanha os subsídios representam quase 40% do custo do transporte público.

    Concessionar o Metro e a Carris sem estas indemnizações acentuará ainda mais a redução do serviço público (rotas e frequência), o número de passageiros (que só entre 2010-13 recuaram cerca de 30% nas duas empresas) e a perda das externalidades positivas (como a diminuição do congestionamento e tempos de deslocação, poluição do ar e consumo de combustíveis).

    Percebe-se bem porque o Município de Lisboa pretende a gestão destas empresas, para assim ter o nível de serviço público que mais beneficia a mobilidade na cidade.

    Esta Coligação, que tem amputado o país, ficará na história como a destruidora, por dentro, do serviço público de transporte.»

A cornucópia


• António Correia de Campos, A cornucópia:
    «A cornucópia de projectos e dinheiros que desaba agora sobre os Portugueses levanta dois problemas: donde vem tanto dinheiro, depois de quatro anos de duríssimas restrições? Se os projectos são tão indispensáveis e reprodutivos, por que razão não foram eles adoptados em devido tempo? Sem uma resposta cabal a estas duas questões teremos que concluir por uma de duas enormidades: os projectos eram indispensáveis para o bem do Povo e o Governo foi negligente ou incompetente em não os ter aprovado, quando mais falta faziam; ou em alternativa, se os projectos, embora necessários, foram atrasados para altura eleitoral, então o Governo demonstra cinismo atroz. Não apenas eleitoralismo, mas verdadeiro sadismo, se sabia serem os projectos essenciais e se só os promove quando podem render votos. Em qualquer caso, a ética política não parece estar presente.

    Na verdade, na lista de benesses dos últimos dias incluem-se: 15 milhões para formação vocacional para usar até final do ano, sob a forma de subsídios de 500 euros a pessoas sem emprego; 22 milhões para comprar cirurgias adicionais ao sector privado, nas áreas sempre necessárias do cancro da mama, do cancro da próstata, das cataratas, entre outras; mais alguns milhões para colonoscopias adicionais, a realizar pelo privado, não já ao preço aviltado inicialmente negociado mas agora a preço decente; mais trinta unidades de saúde familiar, após o "esquecimento" que levou a que nos cinco primeiros meses apenas uma tenha sido criada; milhares de isenções de propinas a estudantes do superior, a decidir justamente a tempo de as famílias saberem que terão para o próximo ano, generosamente cobertas as propinas dos seus dependentes. E a lista ainda vai curta, pois a bondade governamental com o Verão será sempre multiplicável. (…)»

A mentira como método


• João Galamba, A mentira como método:
    «Depois da sessão de aquecimento em torno da emigração, eis que Passos Coelho mete prego a fundo na farsa dos mitos urbanos e decide oferecer aos portugueses um festival de mentiras como nunca antes visto. Que Passos Coelho mente, e mente reiteradamente, não é novidade. Mas, que me recorde, nunca o havia feito como na sexta-feira passada. Era o último debate quinzenal, e Passos Coelho deixou bem claro aquilo que pretende fazer até às eleições: mentir. Mentir repetidamente e sem qualquer tipo de pudor.

    Não estamos a apenas a falar de falsas promessas, como dizer que não se vai cortar salários, não se vai despedir ninguém, não se vai acabar com o 13º mês e que se vai fazer austeridade apenas nas gorduras do estado e não nas pessoas. Isso era em 2011. Em 2015, depois de 4 anos a governar, para além de promessas mentirosas como no passado (como dizer a Bruxelas que pretende cortar nas pensões negando, em Portugal, que tal compromisso exista), há que acrescentar um outro tipo de mentiras, que são necessárias para ocultar o que se passou nos últimos 4 anos.

    A troika, cuja vinda foi amplamente desejada, que foi uma aliada útil durante vários anos e que até pecava por défice de radicalismo no “ajustamento, passou a ser uma espécie de diabo que Passos heroicamente expulsou do país.

    O IVA, que o memorando previa que fosse aumentado em 400 milhões de euros e que este governo aumentou em mais de 2000 milhões, nunca foi aumentado.

    Os rendimentos dos mais pobres, apesar do brutal aumento do IVA e de praticamente todas as prestações públicas de combate à pobreza terem sido cortadas (Rendimento Social de Inserção, Complemento Solidário para Idosos, Complemento por Dependência), apesar da pobreza ter disparado, apesar do Orçamento de Estado para 2015 prever um novo corte de 100 milhões de euros em prestações sociais, não foram beliscados.

    Os salários dos funcionários públicos e as pensões, que este governo insistiu obsessivamente cortar e que o Tribunal Constitucional, em 2013, 2014 e 2015, obrigou a devolver, estão a aumentar por mérito das políticas deste governo.

    A educação, a saúde, a justiça nunca estiveram melhores. Aliás, o Estado, quer nos serviços públicos, quer no fisco, nunca funcionou tão bem e nunca foi tão amigo do cidadão como agora.

    O investimento em ciência e na inovação, apesar da destruição dos últimos 4 anos, é uma grande aposta da atual maioria. O combate à pobreza que este governo criou também é.

    O IRS, apesar do enorme aumento de impostos, superior a 30%, é agora amigo das famílias, apesar do governo ter optado por medidas regressivas de apoio às famílias com filhos que tratam os filhos de ricos de forma diferente dos filhos de pobres.

    O consumo cresce sem recurso ao endividamento, apesar do crédito ao consumo ter disparado 30%.

    As exportações nunca cresceram tanto, apesar de terem crescido bem mais antes deste governo entrar em funções e do crescimento presente ser, em grande medida, fruto de investimentos do passado, que não estão a ser feitos no presente.

    O saldo externo positivo é uma reforma estrutural, apesar de ser, em grande medida, conjuntural, um produto da recessão e da queda das importações. No primeiro ano em que economia cresceu uns míseros 0.9% (depois de uma queda acumulada superior a 6%), as importações dispararam e o saldo externo degradou-se 30%. Os últimos dados conhecidos, apesar da desvalorização do euro e da queda do preço do petróleo, mostram que as importações continuam a crescer bem acima das exportações.

    O investimento, apesar de ter caído 30%, regredindo a níveis de meados dos anos 80, dispara. O facto desse “disparar” ser explicado, não pelo investimento em sectores transacionáveis, como diz o Passos Coelho, mas pela compra de automóveis e pela construção (depois de colapsar, deu um pequeno suspiro), que não têm qualquer relação com o IRC – a grande reforma promotora do investimento deste governo – são pormenores irrelevantes.

    O emprego, apesar dos 450 mil empregos destruídos, cresce espetacularmente. Passos Coelho garante que o emprego cresce por causa das reformas estruturais, que flexibilizaram o mercado de trabalho, e por causa da redução da dependência do Estado, apesar todos os recursos públicos (fundos europeus) usados para fabricar empregos (mais de 50% do “emprego” criado tem apoio público) e, sobretudo, apesar do emprego só ter deixado de cair quando o TC impediu Passos Coelho de concretizar o seu alucinado plano - anunciado no final de 2012 e reafirmado em abril de 2013 - de cortar 4 mil milhões de euros no Estado Social, em pensões e em salários da função pública.

    A dívida pública, apesar das privatizações claramente além da troika, apesar de ter aumentado 30 pontos percentuais, mais do triplo do que o governo previa (dados que incluem todas as alterações de perímetro orçamental e de toda a dívida dita “escondida”), vai começar a baixar.

    Há pouco, muito pouco da narrativa de Passos Coelho que não seja mentira ou, numa versão mais suave, uma aldrabice.

    Há uma meia verdade, que é a história nos juros. Em 2011, de facto, os juros estavam elevadíssimos e eram incomportáveis. E os juros baixaram. Acontece que, da mesma forma que não foi Sócrates que fez disparar os juros da da Irlanda, da Espanha ou da Itália, também não foi Passos Coelho que, em 2012, fez baixar os juros de todos estes países, e muito menos foi Passos Coelho que, com a confiança gerada pelas suas políticas, fez com que os juros chegassem a níveis negativos. Por essa razão, da mesma maneira que foi a alteração do comportamento do BCE que permitiu pôr termo à crise das dívidas soberanas e baixar os juros, só o BCE pode evitar que Portugal volte a ser afetado por perturbações no mercado da dívida. Passar a ideia de que os juros estão baixos porque Portugal tem os cofres cheios, é não só falso como perigoso. Se algo de grave se passar, não são os cofres portugueses, por muito cheios que possam estar, que acalmam os mercados. No futuro, como no passado, o único cofre capaz de pôr termo a uma crise nos mercados da dívida é o BCE. Sugerir o contrário pode não ser considerado tecnicamente uma mentira, mas não é menos grave por isso

domingo, junho 21, 2015

Sobre a construção mediático-política da política

    «1. Já comecei a ler o Expresso, o que é sempre emocionante.

    2. Já, dirá o/a leitor/a? Hoje que é domingo e ele saiu no sábado? Sem problema, não é um jornal importante para as noticias do dia, é-o sim para acompanhar a construção mediático-política da política (desculpem o sociologuês, mas é mesmo assim).

    3. Pois o Expresso garante (p. 6) que Vale do Lobo não beneficiou de nenhuma das normas do PROTAL, ao contrário do que o mesmo jornal tinha deixado indiciado, na semana passada, a partir de 'investigação própria' sobre a Operação Marquês.

    4. Pois se o Expresso o diz, eu acredito. Tanto mais que são citados o ministro e o coordenador técnico responsáveis à época e as suas explicações parecem convincentes, mesmo factuais. Mais pólvora seca, parece. Mas não é esse o meu ponto agora.

    5. O meu ponto é: porque é que a investigação do Expresso não os ouviu, aos tais responsáveis, antes - repito, antes - de publicar a primeira notícia? Não é isso que mandam as regras da profissão: ouvir as partes com interesses atendíveis?»

Pst... pst...


    «1. Pst, chegue-se cá, bem pertinho, para mais ninguém nos ouvir: você não gostaria de ficar com uma empresa pública de construção e reparação naval, com dívida elevada e muitos trabalhadores e sem encomendas relevantes, porque o Estado cancelou unilateralmente as que tinha aprazado, mais uma chatice com um navio construído para um cliente que não o aceitou?

    2. Claro que não: que trabalhos!

    3. Mas se lhe fosse garantido que o Estado fechava a empresa, assumia o passivo, tratava do problema do navio recusado, despedia os trabalhadores e alugava-lhe a preço simbólico terrenos e materiais para você instalar uma empresa sua, no mesmíssimo ramo, sem passivo, podendo recontratar os trabalhadores sem nenhuma obrigação passada às costas e na medida estrita das suas presentes necessidades? Hum, o negócio já começava a valer cinco minutos de reflexão, não? E então se o mesmíssimo Estado que havia cancelado as encomendas à tal antiga empresa pública lhe adjudicasse agora a si, por ajuste direto, sem maçadas de concurso, dois navios militares no valor de 77 milhões?

    4. Acha que não é possível?

    5. Pois vá a Viana do Castelo e informe-se junto dos antigos Estaleiros Navais.»

A intervenção de Varoufakis…

… na última reunião do Eurogrupo.

sábado, junho 20, 2015

«Pensam que ganham a luta com vénias e salamaleques?»


    «1. O sujeito - Pedro Passos Coelho - que aumentou o IVA da restauração e da energia, e queria aumentá-lo outra vez para reduzir a TSU das empresas, diz que foi só uma recomposição do cabaz de bens?

    2. O sujeito - Pedro Passos Coelho - que retirou o RSI e o abono de família a milhares de pessoas e reduziu as prestações do RSI e do complemento solidário de idosos diz que os cortes não afetaram os mais pobres?

    3. O sujeito - Pedro Passos Coelho - que só não cortou nos salários e pensões a partir de 600-700 euros e só não cobrou impostos sobre o subsídio de doença e desemprego porque foi impedido pelo Tribunal Constitucional, diz que os cortes não afetaram os mais pobres?

    4. O sujeito - Pedro Passos Coelho - que é o primeiro-ministro do país que viu sair meio milhão de emigrantes nos últimos quatro anos, diz que é falso que tenhamos tido mais emigrantes do que a Espanha ou a Irlanda?

    5. Chamem-lhe o que ele é, senhoras e senhores deputados socialistas, senhores e senhoras porta-vozes do PS, chamem-lhe mentiroso, aldrabão, indiferente ao sofrimento do seu próprio povo e indigno das funções que exerce! Chamem-lhe o que ele é, não tenham medo! Ou pensam que ganham a luta com vénias e salamaleques?»

Vale do Lobo não foi alterado desde Cavaco e Barroso

Hoje no Expresso

O que nos dizem as sondagens

Hoje no Expresso
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Um Novo Impulso para a Convergência

Hoje no Expresso (via Nuno Oliveira)
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Primeiro-ministro mentiu no parlamento (2)

Mais um quadro que ajuda a perceber que em São Bento está um mentiroso compulsivo:

sexta-feira, junho 19, 2015

Primeiro-ministro mentiu no parlamento


Cortes nos mais pobres: para começo de conversa, os nacos retirados ao CSI e ao RSI.

Um mentiroso sem escrúpulos

Decorreu hoje o último debate quinzenal da legislatura. Passos Coelho, jogando com a habitual falta de fact checking da comunicação social, em especial por parte das televisões, falou na Assembleia da República como se estivesse numa arruada do circuito da carne assada. Mentiu com os dentes todos, sem o menor respeito pelos deputados que tinha à sua frente. A verdade dos factos é uma cena que não o intimida. Veja-se:

1. Passos Coelho disse que «é falso que tenhamos tido mais emigração que noutros países». Mais: garantiu que «na Irlanda o saldo migratório foi mais grave», assim como em Espanha. O Eurostat desmente o alegado primeiro-ministro:

Via Nuno Oliveira (clique na imagem para a ampliar)

2. Passos Coelho assegurou que os mais pobres «não foram afectados por cortes nenhuns». Seria difícil enumerar todos os cortes que concorreram para o agravamento da pobreza e o brutal aumento das desigualdades. Veja-se só o que aconteceu relativamente ao rendimento social de inserção (RSI) e ao complemento solidário para idosos:

Via Nuno Oliveira (clique na imagem para a ampliar)

Via Nuno Oliveira (clique na imagem para a ampliar)

A Grécia não tem procurado chegar a um acordo?

O dia em que o Correio da Manha e o Sol se calaram
sobre a Operação Marquês

Hoje no Diário de Notícias
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ADENDA — Veja-se também o Público e a TSF.

O êxodo


• Pedro Silva Pereira, O êxodo:
    «Os números divulgados pelo INE sobre o declínio da população residente em Portugal (menos 200 mil residentes em apenas quatro anos e mais 134 mil emigrantes só em 2014) traduzem uma verdadeira catástrofe demográfica que deixará marcas profundas por muitos anos.

    Vale a pena olhar com olhos de ver para os dados oficiais que esta semana foram divulgados pelo INE. O primeiro facto a reter é este: a população residente, depois de ter crescido todos os anos entre 2004 e 2010, aumentando nesse período em 78 mil pessoas, inverteu essa tendência desde 2011 a ponto de se reduzir em quase 200 mil pessoas (198 mil, para ser exacto) só nos últimos quatro anos. Este fenómeno ficou a dever-se à quebra acentuada da natalidade mas também ao fortíssimo movimento migratório que se desenvolveu nos últimos anos, sobretudo entre os mais jovens. Os números até arrepiam: em 2011, emigraram 100 mil portugueses (44 mil a título permanente e 56 mil a título temporário, isto é, com expectativa de regressar em menos de um ano); em 2012, o número de emigrantes disparou para 121 mil (52 mil permanentes e 69 mil temporários); em 2013, subiu ainda mais e ultrapassou os 128 mil (53 mil permanentes e 74 mil temporários) e, finalmente, em 2014, Passos e Portas superaram as suas próprias marcas anteriores e averbaram um novo e lamentável record: num único ano, emigraram 134 mil portugueses (49 mil a título permanente e 85 mil a título dito temporário)!

    As razões deste autêntico êxodo são conhecidas e, quer se queira quer não, derivam directamente da política seguida pelo Governo: a estratégia de empobrecimento, que se transformou numa verdadeira máquina de destruição de expectativas e de oportunidades; a absurda política de austeridade "além da troika", que fomentou a recessão e destruiu desnecessariamente mais de 400 mil empregos; a política económica e social contra a família e a natalidade, que semeou insegurança, agravou a precariedade e cortou salários e apoios sociais e, finalmente, por incrível que pareça, o inédito apelo explícito à emigração, feito a várias vozes por diversos membros do Governo, incluindo o próprio primeiro-ministro.»

Crianças pirómanas


• Fernanda Câncio, Crianças pirómanas:
    «“Diálogo mas com adultos na sala”, exigiu ontem, no fim de mais uma reunião do Eurogrupo sem acordo, a diretora-geral do FMI. O grau de maturidade de alguém costuma ser aferido em função da capacidade de não fazer birras, não tomar decisões irracionais e assumir os erros. Mas pedir desculpa não basta: é preciso tentar corrigir o mal e não voltar ao mesmo.

    Vejamos pois quem, nesta história, está a fazer birra, quem cometeu erros, quem pediu ou não pediu desculpa e procurou emendar-se. Por exemplo: que fizeram os gregos de errado? Elegeram um governo anti-austeridade, certo - que, ao contrário do eleito em 2011 em Portugal, leva a sério as promessas feitas aos eleitores. Mas antes deste braço de ferro com a troika, que sucedeu, nos cinco anos desde o primeiro resgate, em maio de 2010?

    A Grécia não cumpriu os programas que lhe foram impostos? Não cortou salários e pensões (lá, ao contrário daqui, não houve a "força de bloqueio" Tribunal Constitucional) e gastos sociais, não aumentou impostos e transportes públicos, não chegou até a fechar a TV pública (que só reabriu agora)? Não aplicou a receita austeritária que lhe foi imposta, como aos outros países resgatados - sempre a mesma? Se aplicou: ontem no DN um texto do comentador-chefe do Financial Times Martin Wolf descrevia o efeito bombástico do "ajustamento" grego - "O PIB real agregado caiu 27% (...), a taxa de desemprego chegou aos 28% em 2013, enquanto o emprego público caiu 30% entre 2009 e 2014". Leiam-se os documentos do próprio FMI sobre o cumprimento do programa grego: todos assumem que os efeitos das brutais exigências foram muito diferentes dos estimados. Do já célebre "erro dos multiplicadores" - o efeito do corte de cada euro foi calculado pela troika muito abaixo da realidade por ter usado uma fórmula errada - à ideia de que "as reformas estruturais" (termo fétiche dos troikos que estamos para perceber, ao fim destes cinco anos, que raio quer dizer, já que aquilo que assim apelidam é invariavelmente corte de qualquer coisa) iam levar a "um aumento da produtividade e a uma melhoria no investimento", passando por não terem tido em conta a "quebra da confiança" (que qualquer bebé preveria), foi um não acabar de asneiras. Mas que se pode ler num estudo de 2013 de técnicos do FMI, que assume todos estes erros? Que "de qualquer maneira uma profunda recessão era inevitável" e se a Grécia tivesse entrado em default, diz o paper, "o mais certo é que a contração fosse ainda maior". A sério, isto está escrito assim: se a troika não tivesse acudido à Grécia, era capaz de ser pior. E o melhor é que, tendo "acudido", quer, cinco anos depois, continuar a mesma brincadeira - ou deitar fogo ao brinquedo, sem cuidar de saber se com isso incendeia a casa. Está na altura de um bom par de estalos -- mas na Europa, pelos vistos, não sobra ninguém para pôr ordem na criançada.»

quinta-feira, junho 18, 2015

Quanto?

    «Uma pergunta que me assalta o espírito:

    1. O Estado encaixa diretamente, sem condições, 10 milhões de euros com a venda de 60 e tal % da TAP.

    2. Depois, se as coisas correrem bem, pode encaixar até mais 140 milhões.

    3. Mas se as coisas correrem bem, etc. e tal. Certinhos, são 10 milhões.

    4. Ora, quanto terá gasto o Governo com as assessorias financeiras e com as assessorias jurídicas, nacionais e internacionais, que contratou, quer em 2012, na primeira tentativa de privatização, quer agora? Quanto?

    5. Assim só para saber em quanto realmente ficam os 10 milhões.»