segunda-feira, março 31, 2008

O Tal Canal




D. Flor deu o empurrão: “a apresentação do concurso tem de ser feita até ao dia 23 de Abril de 2009 e seis meses depois é que é lançado o concurso. Ora, seis meses depois é em Outubro, em cima do calendário eleitoral.”

Estava dado o mote para o Prof. Marcelo arrancar: “Jogada de mestre (…) O prazo é de tal forma que, até ao canal ir parar ao Oliveira e à Cofina — é a minha aposta —, estão todos os outros concorrentes ãããããã atrás do Governo e estão os que têm hoje canais privados ãããããã dependentes da decisão do Governo.”

Estava em análise, digamos assim, a atribuição do 5.º canal de televisão em sinal aberto. Aparentemente, não é apenas Menezes que muda de opinião três vezes por semana. O Prof. Marcelo quer concorrer, pelos vistos, com o autarca de Gaia: já não é um mau negócio para o PS abrir uma guerra com Balsemão.

Mas o problema é que o comentador Marcelo continua a cavaquear sem antes se aconselhar com o Prof. Marcelo. Ele acertou nos meses, mas errou no ano: a marosca não vai ser feita em 2009, mas em 2008 — antes das eleições, portanto.

Além disso, importa que a D. Flor e o Prof. Marcelo não se baralhem com os concursos. Não vai haver apenas um:
Entretanto, José Manuel Fernandes, após ouvir os argumentos do professor/comentador [“ãããããã”], ainda foi a tempo de retocar o editorial, acrescentando-lhe esta pérola solta:
    “confirma a ideia de que o timing escolhido pelo Governo para o concurso do quinto canal de televisão, em cima das próximas eleições, tem como objectivo ter os diferentes grupos de comunicação social interessados devidamente domesticados num período politicamente sensível.”
A verdade é que a coisa vai decorrer em 2008 e não em 2009. Antes de se começar a salivar, convém ter presente:
    • O Governo que atribuiu licenças após as eleições foi o de Cavaco Silva (à SIC e à TVI, afastando as candidaturas de Proença de Carvalho, do grupo do Independente, etc.);
    • Quando se deu a abertura aos canais privados, foi o governo de então que escolheu (e não uma entidade independente);
    • O lançamento do concurso para atribuição do 5.º canal é da competência do Governo, mas a decisão cabe à ERC (e não ao Governo), que depende da Assembleia da República (e não do Governo).
O Prof. Marcelo e José Manuel Fernandes vão explicar por que não fizeram os trabalhos de casa?

Jean-Bédel Bokassa já não mora na Madeira


Elites e caciques

Descubra as diferenças na caixa de comentários deste post.

♪ Arnold Schönberg





Gould & Menuhin - Fantasie Op. 47

domingo, março 30, 2008

A minha política é o trabalho




António Borges acusa, no Público de hoje, Manuel Pinho de ter cancelado, em 2005, os contratos com a Goldman Sachs, por se ter disponibilizado a “ajudar o PSD a ter uma oposição mais activa em relação ao Governo.” Pode ser que sim. Mas, para dissipar as dúvidas, por que não mostra Borges os contratos? E, se já haviam sido rescindidos os tais contratos, como poderia Manuel Pinho pressionar, em 2006, a Goldman Sachs a propósito da EDP, presidida por António Mexia, outro destacado vulto do Compromisso Portugal?

Borges é useiro e vezeiro nestas trapalhadas envolvendo a Goldman Sachs. Quando era primeiro-ministro, Santana Lopes denunciou que António Borges entrara pelo seu gabinete com o propósito de se oferecer para preparar a privatização da AdP - Águas de Portugal, dando a entender que este andaria na política para angariar negócios para a Goldman Sachs.

Esta alegada confusão entre negócios & política acabou mal: a Goldman Sachs prescindiu dos serviços de António Borges e, agora, o presidente da Assembleia Municipal de Alter do Chão anda por aí a ver se alguém repara nele.

Manter as tropas em alerta amarelo [2]

    «A primeira página de sexta-feira [do Público] era dominada pela fotografia de uma mulher numa sala de aulas sobre o seguinte título: "Docente do Porto fez queixa judicial contra toda a turma". Deduzia-se que aquela era a professora do infausto episódio da Escola Carolina Michaëlis, o que seria um importante exclusivo do PÚBLICO. Afinal, na pág. 10, descobria-se que a personagem da foto era um dos protagonistas da reportagem "Professores - Desencanto multiplica reformas antecipadas", título que encimava a imagem de capa mas que, sendo despersonalizado (ao contrário da notícia sobre a professora do Porto), o leitor não ligava à pessoa. Quem olhou para a primeira página sem ler o interior do jornal ficou a pensar ter por fim conhecido o rosto da professora da luta do telemóvel - e este arranjo enganador (que se poderia desfazer com uma simples legenda) não faz parte dos padrões do PÚBLICO, cujo estatuto editorial rejeita "o sensacionalismo e a exploração mercantil da matéria informativa". O provedor acredita não ter havido intenção malévola, mas não pode deixar de chamar a atenção para os perigos decorrentes deste tipo de descuidos, para mais sobre um tema que suscita tanta controvérsia na sociedade.

    A recomendação do provedor já foi feita há uma semana. Seria chover no molhado.»
      Joaquim Vieira, provedor do leitor do Público [hoje, p. 47]

♪ Alfred Schnittke


sábado, março 29, 2008

Domingo à tarde: o preço da culpa


William Roberts, The Happy Family (1924)



    "O domingo é um dia consagrado à família, quer os portugueses queiram quer não queiram. Claro que, graças ao projecto de lei do PS, os portugueses poderão agora dissolver a família sem culpa. Ficarão sem nada para fazer ao domingo à tarde."

Será mesmo necessário introduzir nas escolas a cadeira eléctrica?

Confesso que ainda não havia lido o Estatuto do Aluno do Ensino não Superior [disponível através do Zero de conduta]:


Artigo 26.º
Medidas disciplinares preventivas e de integração

1 — As medidas disciplinares preventivas e de integração prosseguem os objectivos referidos no n.º 1 do artigo 24.º.
2 — São medidas disciplinares preventivas e de integração:
a) A advertência;
b) A ordem de saída da sala de aula;
c) As actividades de integração na escola;
d) A transferência de escola.

Artigo 27.º
Medidas disciplinares sancionatórias

1 — As medidas disciplinares sancionatórias prosseguem os objectivos referidos no n.º 2 do artigo 24.º.
2 — São medidas disciplinares sancionatórias:
a) A repreensão;
b) A repreensão registada;
c) A suspensão da escola até cinco dias úteis;
d) A suspensão da escola de 6 a 10 dias úteis;
e) A expulsão da escola.

Manter as tropas em alerta amarelo

Os professores estão a gozar as férias da Páscoa. Sendo uma coisa boa, há o risco de se desmobilizarem. O que vale é que há alguém sempre atento: José Manuel Fernandes.

O Público saiu ontem à rua para ouvir os professores. Todos os entrevistados, sem excepção, preparam-se para trocar a sala de aula pela reforma antecipada. São duas longas páginas de lamentações, em que a avaliação surge como pano de fundo.

Há no entanto um professor que coloca a questão de uma forma algo diversa dos restantes. Estando a terminar a sua requisição nos serviços do Ministério da Educação, o professor em questão terá de regressar à escola para dar aulas. Veja-se o relato do Público:
    «No actual contexto, diz, "sinto-me deslocado e sem paciência para grandes confusões". Carlos Afonso não contesta a reforma do ensino, "nem a avaliação dos professores, que lhe está associada", mas discorda da forma como foi apresentada aos docentes: "As alterações são muito bruscas e as pessoas estão um pouco acomodadas", justifica. No que lhe diz directamente respeito — uma vez que tem estado ligado ao processo, mas de alguma forma afastado dos conflitos da sala de aulas — entende que em "matéria de princípios, a ministra tem razão mas as pessoas, também, têm de ter tempo para reflectir o percurso profissional e a forma de estar na vida".»
Cada um sabe de si — e Mário Nogueira sabe de todos.

Mao, o PCP e Champalimaud




Vai por aí um enorme alvoroço devido ao apoio do PCP à China. Não vejo motivo. Se houve um momento em que se justificava que os mais distraídos se indignassem foi quando o PCP e o Partido Comunista Chinês reataram as “relações de amizade”.

Goste-se muito, pouco ou nada, Mao fez uma revolução socialista. Durante dezenas de anos, o PCP opôs-se ostensivamente à via seguida pelo Partido Comunista Chinês. Foi preciso que Deng Xiaoping desse início à restauração do capitalismo na China — assente na repressão, na exploração e na corrupção mais desenfreadas a fim de promover a acumulação de capital — para que o PCP e o PCC reatassem relações, que se tornaram mais amistosas à medida que os direitos dos trabalhadores chineses foram sendo espezinhados. Na hora actual, o apoio do PCP é apenas mais do mesmo.

Numa entrevista dada à televisão, António Champalimaud explicou um dia por que preferia, na restauração do capitalismo, a via chinesa à soviética: a ditadura férrea na China permitia saber com o que se contava, ao contrário do caminho anárquico seguido na ex-URSS. O partido de Jerónimo de Sousa concorda com Champalimaud.

Sociedades anónimas desportivas



Só o Sporting não tem dívidas fiscais.

Pacheco Pereira

O Sol recorda hoje a sua luta em defesa da liberdade de imprensa. É que fez 15 anos no passado dia 23 que, devido às limitações que impôs como líder parlamentar do PSD e em consonância com o então presidente do Parlamento, Barbosa de Melo, os jornalistas iniciaram uma semana de boicote informativo às actividades da Assembleia da República.

Viagens na Minha Terra

♪ Sofia Gubaidulina


sexta-feira, março 28, 2008

O princípio civilizacional de proteger prioritariamente os mais fracos… dos predadores sexuais

Adivinhem quem escreveu hoje o editorial do Público:
    «Isso levou-nos à evolução de algumas correntes do feminismo, onde [sic] se deixou de reivindicar a igualdade absoluta para assumir que é maior a probabilidade de ser o homem a faltar aos deveres do casamento do que a mulher. Sendo assim, a lei deve seguir o princípio civilizacional de proteger prioritariamente os mais fracos, sendo que, numa relação a dois, a mulher é mais vezes mais fraca (fisicamente, financeiramente) do que o homem.

    Isso levou essas feministas a uma maior prudência nas suas exigências, reconhecendo que devem estar protegidas contra os homens que, para utilizar uma expressão dura de Irving Kristol, têm uma maior tendência para serem "predadores sexuais".»

Viagens na Minha Terra

♪ Lepo Sumera




1981

quinta-feira, março 27, 2008

Patriotas uni-vos!

Já se me tinha colocado a questão: como seria Pacheco Pereira a falar ao aparelho laranja? Hoje, na Sábado, o político/jornalista/historiador sacia a minha curiosidade. É assim:
    «Os patriotas "laranjinhas" (e mesmo alguns "azulinhos"), os da "camisola", coloquem a mão na consciência e perguntem a si próprios se acreditam que o PSD vai lá como está.»
Não deixa de ser uma frase que impõe respeito.

Da série "Frases que impõem respeito" [139]

    "A comissão de inquérito ao caso BCP é um instrumento de luta partidária".
      Mira Amaral, consultor de Menezes, sobre a iniciativa lançada pelo PPD/PSD (em entrevista à Sábado)

A Guantánamo que há dentro de nós




            “Ele há limites para tudo. E momentos para intervir de forma exemplar.”


1. Quem o diz não é Bush, mas Ana Gomes. Convém alertar a deputada europeia de que “aquela matulona” teve uma atitude grave, mas só tem 15 anos. Convém também informar a deputada europeia de que Adozinda Cruz terá confirmado que autorizou os alunos a manterem os seus telemóveis ligados, permitindo-lhes inclusivamente que ouvissem música. Convém ainda que a deputada europeia saiba que “aquela matulona” apenas se distinguiu dos colegas, porque, em vez de ouvir música no telemóvel como era permitido pela professora da disciplina de Francês, atendeu uma chamada de sua mãe.

Nestas alturas, é preciso não perder a cabeça — fazendo linchamentos públicos. É que Guantánamo está aqui tão perto.

2. A professora de Francês, depois de “meter a turma em tribunal”, tem condições para retomar as aulas, como diz que vai fazer?

3. Já agora, alguém que avise o procurador-geral da República que na Escola Secundária Carolina Michaëlis não houve, apesar de tudo, nenhum massacre, como acontece, de quando em vez, nos States. E, de caminho, o alerte de que nem tudo o que Pacheco Pereira diz na Quadratura do Círculo é para levar à letra.

As sondagens valem o que valem…

… mas o povo laranja e o Alberto João são muito sensíveis a este tipo de jogos em que o PS sobe e o PSD desce. Parece que o céu está a ficar muito carregado lá para a São Caetano, a fazer fé no barómetro de Março da Marktest:



As vendas dos jornais de referência em 2007

Todos os jornais diários, à excepção do Correio da Manhã, perderam leitores em 2007. O 24 Horas foi o que perdeu mais leitores, tendo caído 13,6 por cento. Logo a seguir, o maior trambolhão foi dado pelo Público, que regista uma descida de 5,5 por cento.

Percebe-se que os jornais gratuitos façam concorrência ao 24 Horas. Não parece crível que os leitores de um jornal de referência como o Público se sintam tentados a abandonar a sua leitura para se tornarem leitores dos jornais gratuitos. Deverá haver outra razão para a queda sustentada do Público.

E, se calhar, a pequena quebra verificada no Diário de Notícias (0,9 por cento) fica a dever-se à circunstância de poder estar a ocorrer uma transferência de leitores entre os chamados jornais de referência, compensando a apregoada erosão generalizada que se verifica na imprensa.

A causa das coisas: não há contrato, não há circo




    “O terceiro "ziguezague" [de Menezes] é a relação com a agência de comunicação Cunha Vaz & Associados. A empresa foi usada nas directas e, depois de eleito, Menezes diz que irá assinar um contrato. Até hoje. Pelo meio, Santana recusa que a agência possa prestar serviços de comunicação no Parlamento, os funcionários são vistos em várias ocasiões no partido, mas o contrato continua a não aparecer. Ribau Esteves chega a dizer que a direcção se recusa a revelar os "pormenores íntimos" da relação com a agência.”

quarta-feira, março 26, 2008

As lideranças bicéfalas vieram para ficar

A direita, que tão preocupada andava com a carga fiscal, procurando confundir combate à fraude fiscal com aumento dos impostos, não sabe como reagir à descida da taxa máxima do IVA.

O inefável Miguel Frasquilho, depois de anunciar diariamente o fim do mundo, está agora em parte incerta. Ninguém lhe arranca uma declaração.

Entretanto, o n.º 2 de Frasquilho no BES, o economista-chefe Carlos Andrade, ignorando as profecias do seu director, disse que a evolução das despesas e das receitas do Estado há muito que apontavam para uma redução substancial do défice, pelo que o número anunciado pelo primeiro-ministro «não constitui uma surpresa».

Já tínhamos uma liderança bicéfala do PSD e agora temos uma liderança bicéfala dos economistas do BES?

E a Constituição da República sempre a atrapalhar

António Vilarigues, destacado membro do PCP, descobriu os responsáveis pelo estado da educação: nem mais nem menos do que os ministros da Educação dos governos constitucionais.

Antes, com o Estado Novo, a coisa funcionava que nem um brinquinho; depois, vieram os governos provisórios, em especial os de Vasco Gonçalves (II, III, IV e V), que — também esses — deixaram obra feita.

Está visto, o que atrapalhou o vertiginoso progresso iniciado por José Hermano Saraiva (e prosseguido depois pelo gonçalvista José Emílio da Silva) foi a Constituição e os governos constitucionais. Eu já andava desconfiado que a Constituição só veio atrapalhar. A direita também acha.

O dilema



O Dr. Patinha Antão, Vice-Presidente da bancada parlamentar do PSD, poderia ter-se furtado a comentar a descida do IVA alegando, sei lá, indisposição ou dificuldades de agenda.

Porém, como é um valente a quem o ridículo não assusta, declarou prontamente que o anúncio da baixa do IVA é uma medida com objectivos eleitorais. E acrescentou, para que o seu pensamento ficasse absolutamente claro:

"O que fez o primeiro-ministro para dar esta prenda aos portugueses? À custa de quê? Da redução do poder de compra dos portugueses, das prestações sociais. É este o valor sobre o qual o primeiro-ministro se vangloria para fazer esta distribuição pré-eleitoral".

Vejam só: o primeiro-ministro, que aparentemente se estava a esforçar ao máximo, com a redução do poder de compra dos portugueses e das prestações sociais, por perder as eleições, resolveu agora aumentar o poder de compra dos portugueses para ganhar as eleições. Sabe-se lá se, um dia destes, não virá mesmo a aumentar as prestações sociais, renegando de vez a sua louvável intenção de perder as eleições.

De modo que o Dr. Patinha Antão não quer que o governo diminua o poder de compra dos portugueses, embora reconheça a essa política o relevante mérito de poder fazê-lo perder as eleições. Mas também não quer que o governo aumente o poder de compra dos portugueses, porque isso poderá ajudá-lo a ganhar as eleições.

Compreende-se o dilema do Dr. Patinha Antão - um nome já por si bastante para minar a credibilidade de quem o ostenta - mas seria de toda a conveniência para o partido que representa que guardasse os seus interessantes pensamentos no recato do seu pouco interessante intelecto.

Olho neles!

Exigiu o deputado comunista Honório Novo, após saber que o IVA baixará no segundo semestre: "A partir de 1 de Julho o Governo tem que reforçar a fiscalização por forma a que a descida do IVA de 21 para 20 por cento se reflicta nos preços ao consumidor e não reverta num aumento de lucros para as empresas, que não descerão os preços e ganharão a diferença de um por cento".

Bem visto. E que não se esqueça o governo de verificar, desde logo, se o PCP baixa as entradas na Festa do Avante, bem assim como os preços das bifanas e dos livros das Edições Avante. Cá estaremos para lhe pedir contas.

Ainda bem que isto aconteceu...

Ainda bem que isto aconteceu... nos EUA. De outro modo estaríamos neste momento a exigir o fuzilamento sumário de diversos oficiais de alta patente e a perguntar-nos se este país ainda é viável.

(Este post é um plágio vergonhoso. A inspiração original fui eu buscá-la aqui.)

terça-feira, março 25, 2008

A providência cautelar é a arma da Fenprof

O Ministério da Educação emite despachos sobre o regime de avaliação do desempenho de docentes. A Fenprof “responde” com providências cautelares. Os tribunais administrativos indeferem os pedidos de suspensão da avaliação de professores.

O preclaro Mário Nogueira explica-se: as providências cautelares "estão a cumprir os objectivos", porque, caso não tivessem sido intentadas, o ME teria, até ao passado dia 10, obrigado as escolas a montar um "sistema de avaliação", que a federação sindical reputa de "ilegal". Neste aspecto, a "eficácia (das providências cautelares) está mais do que alcançada". Agir de boa fé, é o que é.

A única coisa que surpreende nesta história é a circunstância de Mário Nogueira falar todos os dias para os media e nenhum jornalista se lembrar de lhe perguntar qual é a proposta de avaliação alternativa que tem para apresentar.

Há dias assim

O dia começou bem com o Filipe Moura. A Maria João Pires veio em seguida e dobrou a parada: aqui e aqui. O João Galamba é que não ficou atrás: aqui e aqui. Entretanto, o testemunho passou para o João Pinto e Castro — que já o transmitiu ao António Figueira. Que mais irá hoje acontecer no 5 dias?

Ai ai, antigamente é que era bom...

Vendo bem as coisas, o que a actual polémica em torno do video do Carolina Michaelis antes de mais confirma é a dificuldade que a direita portuguesa continua a ter em adaptar-se à vivência democrática.

Tudo admiravelmente explicadinho pelo Tiago Barbosa Ribeiro no seu Kontratempus.

Leitura

José María Ruiz Soroa pergunta ¿Qué hacer con el poder judicial? [El País]:
    “Lleva casi treinta años funcionando y cada vez está más empantanado por efecto de su propia dinámica. Es una de las instituciones más patentemente cortocircuitadas en el sistema político español. Se supone que forma parte del sistema de checks and balances (contrapoderes institucionales) cuya misión es estabilizar ese sistema, pero a la hora de la verdad funciona más como un elemento de desequilibrio, como una manzana de la discordia. Quien debería ser el guardián de las reglas ha devenido en ser sólo uno de los jugadores del rabioso partido. Me refiero al Consejo General del Poder Judicial, el órgano del autogobierno de los jueces, al que el tironeo desabrido entre intereses políticos ha reducido a una caricatura de lo que debería ser un ente democrático y políticamente responsable. Tanto que me atrevo a sugerir una alternativa que a primera vista puede parecer absurda: la de suprimirlo. La de abandonar de una vez por todas la piadosa aspiración de regular adecuadamente su elección, composición y funcionamiento, y, en su lugar, tirar por la calle de en medio: hacerlo desaparecer y devolver sus competencias al Gobierno, al Ministerio de Justicia.”

♪ John Cage





Water Walk.


Este video é pouco menos que fabuloso. Repare-se, antes de mais, que a performance tem lugar num show televisivo de grande audiência.

John Cage é introduzido pelo apresentador como um compositor excêntrico, mas sem ponta de desrespeito. A atitude de Cage é supremamente inteligente: ao declarar que não se importa que o público ria porque "rir é melhor que chorar" desarmadilha de um só golpe qualquer constrangimento que os presentes poderiam ter de revelar as suas reais emoções.

Para além disso, como a peça musical é de facto humorística, fica estabelecida a necessária empatia com o público. No fim, pode-se contatar que as pessoas gostaram e, mais do que isso, entenderam a música de John Cage.

Vêem como é possível fazer televisão inteligente para o grande público? É claro que, hoje, quando a televisão se transformou numa máquina de reprodução de estupidez em massa esta lição de como aliar cultura com entretenimento foi esquecida.

Será porque os telespectadores são hoje mais ignorantes e boçais do que os de há cinquenta anos? Não me parece...

Caos financeiro

Segundo a Reuters, o mercado accionista norte-americano regista presentemente os maiores índices de volatilidade desde 1938. Ou seja, há 70 anos que não se vivia tamanha instabilidade.

Não é crível que a situação nos mercados financeiros não tenha consequências sobre o funcionamento da economia real, tampouco que a crise não venha também a alastrar à Europa, mesmo que sob uma forma eventualmente mitigada e passageira.

Notícias desanimadoras no momento em que a economia portuguesa começava a dar sinais de recuperação consistente.

segunda-feira, março 24, 2008

Ele defende-nos dos casamentos à espanhola

Com a reforma fiscal do final dos anos 80, recordo-me vagamente de terem sido lançadas várias campanhas de fiscalização por parte da administração fiscal. Era preciso “moralizar”, dizia-se.

Uma dessas campanhas de que os jornais então falaram foi precisamente a do controlo das receitas em torno dos casamentos. Parece que os fiscais terão, se a memória não me falha, calcorreado as conservatórias para recolha de elementos e, depois, seguiram o rasto a montante.

Nem os jornais se mostraram particularmente interessados no assunto, nem consta que os opinion makers tivessem visto nessa actividade um expediente grosseiro para invadir a vida privada dos nubentes. Mas nessa época, valha a verdade, ainda não éramos protegidos por José Manuel Fernandes.

Goya


Viagens na Minha Terra

♪ John Adams



Ópera Nixon in China: Chairman Dance (3º Acto)

sábado, março 22, 2008

Caderneta escolar

Frequentei uma escola exigente. No entanto qualquer professor que revelasse não ter pulso passava por situações complicadas, que não se limitavam a “imitar as palavras da professora, berrar com os colegas e levantarem-se sem autorização”, nas palavras do famoso dr. Charrua, que agora surge encaixado no gabinete de apoio ao aluno da escola Carolina Michaelis.

Havia no entanto uma diferença essencial: os professores “sem pulso” não se punham a medir forças com os alunos. Chamavam o auxiliar administrativo — ou o responsável da escola.

É por estas e por outras que o modelo de gestão das escolas tem de ser alterado. A direcção das escolas tem de ser confiado a alguém que tenha força para se impor não apenas em relação aos alunos, mas igualmente em relação aos restantes professores e ao pessoal não docente.

♪ Steve Reich





Clapping Music

quinta-feira, março 20, 2008

Para quê ler jornais?

O Público de hoje titula na página 12: "Portugal é dos países com maior percentagem de trabalhadores qualificados dos 25 aos 34".

Isto é um completo disparate, embora não seja o único do artigo. Quem quiser saber a verdade sobre o assunto pode consultar aqui o estudo realizado pela Deloitte para a Fundação da Ciência e Tecnologia em que a peça jornalística supostamente se baseia.

Para quê ler jornais que são incapazes de transmitir com rigor informações relativamente simples, se podemos ter acesso directo a elas online? Cada vez mais leitores se fazem esta pergunta.

Todas as pessoas que temem o desaparecimento da imprensa diária de qualidade deveriam também meditar nela, a começar pelos próprios jornalistas.

♪ Pascal Comelade with Robert Wyatt




September Song

quarta-feira, março 19, 2008

Se já nem no director do Público podemos confiar…




Afonso, o que José Manuel Fernandes escreve no editorial de hoje é mais grave do que aparenta à primeira vista. Por uma razão simples: basicamente, o relatório sobre o ensino da Matemática nos EUA sustenta o contrário do que diz o director do Público.

Não vou sugerir que o leitor folheie as 120 páginas do relatório. Basta dar uma vista de olhos a uma notícia publicada no New York Times, da qual se transcreve este excerto:
    «The report tries to put to rest the long and heated debate over math teaching methods. Parents and teachers in school districts across the country have fought passionately over the relative merits of traditional, or teacher-directed, instruction, in which students are told how to solve problems and then are drilled on them, as opposed to reform or child-centered instruction, which emphasizes student exploration and conceptual understanding. The panel said both methods have a role.

    “There is no basis in research for favoring teacher-based or student-centered instruction,” said Dr. Larry R. Faulkner, the chairman of the panel, at a briefing for reporters on Wednesday. “People may retain their strongly held philosophical inclinations, but the research does not show that either is better than the other.”

    Districts that have made ‘’all-encompassing decisions to go one way or the other,” he said, should rethink those decisions, and intertwine different methods of instruction to help students develop a broad understanding of math.»
“The panel said both methods have a role.” Que se passará com José Manuel Fernandes?

Achou este artigo interessante?

Quem lê o Público Online encontra esta pergunta no final das notícias. Eu achei interessante um artigo que dá conta de que os lucros da Sonae SGPS subiram 22,6 por cento no ano passado. O jornalista discorre sobre os vários sectores do grupo de Belmiro, mas não faz qualquer referência sobre a casa em que trabalha.

Foi preciso recorrer ao comunicado enviado pela Sonae à CMVM para se levantar a ponta do véu:
    A circulação media paga do Público decresceu 5,5%, em comparação com 2006, como resultado de uma contínua redução da dimensão do mercado de imprensa paga, bem como das pressões competitivas impostas, em particular, pelos jornais de distribuição gratuita. A quota do Público no mercado publicitário também se encontra sobre [sic] pressão, atingindo uma média de 13,8% no final de Novembro, uma diminuição de 1,6pp quando comparado com o final de 2006.”
Por enquanto, a Sonae imputa a crise do Público a factores exógenos. Um dia se verá se este grupo económico beneficia com o estilo trauliteiro que José Manuel Fernandes vem imprimindo ao jornal.

Tempos difíceis

Há apenas oito dias, as acções do Bear Stearns estavam avaliadas em 80 dólares. Ontem, foram vendidas por dois dólares ao JP Morgan, e não se tratou de um negócio, mas de uma esmola patrocinada pela Reserva Federal

O último fim de semana veio, assim, confirmar que os buracos financeiros decorrentes da mega-fraude dos créditos hipotecários subprime continuam a aparecer aqui e acolá. Nos EUA já poucas dúvidas restam de que o país está a entrar em recessão em vésperas de umas eleições presidenciais, o que certamente não ajudará a resolver o problema.

Serão a Europa e o resto do mundo contaminados? Pode-se argumentar que as exportações da zona euro para os EUA pesam menos do que as se dirigem ao Reino Unido, que o crescimento permanece sólido nas economias emergentes e que, em euros, o petróleo encareceu afinal pouco, mas a dramática e generalizada falta de confiança no dólar, aliada à inacção das entidades reguladoras e dos governos faz temer o pior.

Folheando ontem o Financial Times de ponta a ponta não encontrei uma só palavra de optimismo. É difícil acreditar que tudo isto não virá a ter, também para nós, consequências dramáticas.

Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?

Lendo o editorial de hoje do Público ficamos a saber que José Manuel Fernandes tem receitas infalíveis para aprimorar o ensino da Matemática, embora não vislumbre nenhuma forma de evitar que o seu jornal quotidianamente nos presenteie com calinadas de cabo de esquadra.

♪ John Zorn




Gevurah

terça-feira, março 18, 2008

Mapa judiciário e coisas assim que se vê na TV

Não conheço ainda o que hoje foi apresentado. Mas não podia deixar de me comover ao ver esta noite a convergência de pontos de vista entre Ângelo Correia e Luís Fazenda na SIC-N. Pareceu-me especialmente consistente o argumento exposto pelo dirigente do BE de que é inaceitável que, estando as pessoas habituadas a ouvir falar do “tribunal de Sintra”, tenham agora de se adaptar a expressões como “circunscrição das Lezírias”. São coisas assim que levam ao desenraizamento das populações.

Correr em sentido contrário





                  “Ajudar o Estado e a sociedade a gastar melhor”
                    Visão do Tribunal de Contas



Nem sempre se compreende o alcance e a justificação de alguns relatórios de auditorias e acórdãos do Tribunal de Contas, o que leva a questionar se a melhor forma de acautelar os princípios da economia, eficiência, eficácia e legalidade são os cânones administrativos e estritamente legalistas utilizados por esta instituição. Por coincidência ou não, o caso agrava-se quando o relator é o Conselheiro Carlos Moreno, eterno candidato a vice-presidente do Tribunal.

Um exemplo recente é o da auditoria ao cumprimento do regime do art. 275º, do DL 59/99, de 2 de Março. Do relatório da auditoria extraem-se as seguintes recomendações:
    • Ao Estado “[p]ara que sejam envidados esforços no sentido de acompanhar e assegurar o integral cumprimento do disposto no art.º n.º 275º do DL nº 59/99, de 2de Março, a fim de garantir o respeito pelo princípio da transparência e da concorrência, tal como preceituam as regras de contratação pública”;
    • Às empresas públicas e demais entidades da administração pública "[q]ue, anualmente, diligenciem pelo cumprimento integral e tempestivo da obrigação de publicação, em Diário da República, das adjudicações previstas no art.º 275.º do DL em apreço.”
Este relatório foi publicado a 1 de Fevereiro. Será que ninguém reparou que no dia 29 de Janeiro foi publicado o Decreto-Lei n.º 18/2008 (novo código da contratação pública) que revoga o Decreto-Lei n.º 59/99?

Como é possível que no relatório do Tribunal de Contas não haja a mais pequena referência ao facto de se conhecer, pelo menos desde o Conselho de Ministros de 20 de Setembro do ano passado, que as regras da contratação pública iriam ser alteradas e as recomendações estavam ultrapassadas pelo tempo — uma vez que a publicação a cheirar a mofo no Diário da República é substituída pela obrigação de comunicação através de um portal na Internet (cf. artigo 465.º), ao qual qualquer pessoa terá acesso?

Viagens na Minha Terra

Leituras

João Duque, A “manif” dos banqueiros:
    “No espaço de três dias houve duas manifestações: a dos professores e a dos banqueiros (…).

    Entre estas duas manifestações havia algo em comum: a contestação à avaliação.

    Os professores defendiam que aceitavam a sua avaliação, mas contestavam o método e o momento. Os banqueiros aceitam a avaliação dos activos dos seus balanços, mas recusam o método e o momento de o aplicar. Curioso…”

Joseph Stiglitz, “The three trillion dollar war”:
    “A mentira prevaleceu sempre: da existência de armas de destruição maciça em território iraquiano à suposta ligação de Saddam Hussein à Al-Qaeda. A verdade, porém, é outra: o Iraque só se tornou num “ninho de terroristas” depois de os EUA invadirem o país.

    A administração Bush disse que a guerra custaria 50 mil milhões de dólares. É este o montante que os EUA gastam actualmente no Iraque a cada três meses. Contextualizemos: um sexto deste valor permitiria aos EUA pôr de pé um sistema de Segurança Social robusto para os próximos 50 anos, sem reduzir benefícios nem aumentar as contribuições.

    Acresce que a administração Bush reduziu a carga fiscal para os escalões mais elevados no início da guerra, apesar de ter um défice orçamental elevado. Resultado? Sobrecarregou a despesa pública para pagar a guerra. É a primeira guerra que não exige sacrifícios aos cidadãos norte-americanos através do habitual aumento de impostos. O ónus vai recair sobre as gerações futuras.

    Se nada mudar, teremos de somar à dívida nacional dos EUA – que rondava os 5,7 biliões de dólares quando Bush assumiu o cargo de presidente – mais 2 biliões de dólares devido à guerra, além dos 800 mil milhões do “consulado” Bush antes da guerra.

    Terá sido incompetência ou desonestidade? Ambas as coisas, seguramente (…).

    A guerra só teve até agora dois vencedores: as petrolíferas e os fornecedores militares. O preço das acções da Halliburton, empresa de serviços petrolíferos presidida por Dick Cheney antes deste assumir o cargo de vice-presidente, dispararam.”

    • Teodora Cardoso, As pseudo-soluções:
      “(…) a crise transmitiu-se à economia, em especial nos Estados Unidos, onde os empréstimos "ninja" (no income, no job or assets) e as taxas de engodo (baixas nos primeiros dois anos, saltando depois para níveis "de mercado") eram um desastre à espera de acontecer quando os preços das casas parassem de subir. Dado que o crescimento da economia americana assentava fortemente no consumo e no imobiliário, têm-se multiplicado as medidas destinadas a travar a queda, desde as devoluções de impostos às descidas das taxas de juro. Face à crise de confiança instalada e à subida dos preços da energia e das matérias-primas, estas medidas – que funcionaram no passado – levaram agora à derrocada do dólar e ao relançamento de expectativas de inflação que se juntaram aos problemas do próprio sistema para agravar a situação nos mercados financeiros.

      Portugal, como qualquer outro país, não pode ficar imune a esta crise – e deixemo-nos de eufemismos, porque não só se trata de uma crise, como da mais grave a que nos foi dado assistir. Reduzir o seu debate à necessidade de baixar impostos, replicando medidas que não funcionaram, mesmo nos Estados Unidos, onde poderia haver alguma justificação para elas, só pode explicar-se pelo desconhecimento dos factos – que, no entanto, estão abundante e competentemente tratados na imprensa internacional – ou pela obsessão e confusão ideológica que, de novo, nos atacaram com um vigor antes só visto no PREC.”

    Vital Moreira, "Luta de classes" no sector público [vide A Aba da Causa]:

      “A leitura que a generalidade dos cidadãos faz nestes casos é que se trata de uma luta de interesses particulares contra o interesse público. Bem podem, por exemplo, os professores tentar invocar em apoio dos seus protestos a "defesa da escola pública".

      A verdade é que a defesa da escola pública nada tem a ver com a defesa dos interesses privativos dos professores e que, pelo contrário, a escola pública só pode ficar a ganhar com as mudanças em curso, incluindo maior rigor e exigência na selecção, avaliação e progressão profissional dos professores.”

    Claustrofobia democrática Liberdade de expressão




    O Tribunal do Funchal condenou Daniel Oliveira a pagar dois mil euros a Alberto João Jardim por ter escrito um artigo no Expresso intitulado O palhaço rico.

    O difamador recorreu da sentença. Na hipótese remota de a decisão vir a ser confirmada, não é justo que seja apenas o Daniel a ter o prazer de tornar Jardim… rico. Deveria ser aberta uma conta para que todos pudéssemos contribuir com um euro. O remanescente seria entregue a uma ONG que trate das crianças desprotegidas da Madeira.

    O abominável homem das neves

    Há economistas crentes e não crentes. Cremos mesmo que alguns dos que têm fé se tornam melhores homens por isso mesmo. Outros há, numa imensa e incompreensível confusão entre economia e religião, que só perdem credibilidade. João César das Neves é um exemplo claro de profeta que junta Deus e Capital na mesma frase — da forma que um Opus Dei subscreveria.

    Ainda assim, não é legítimo que diga tudo de forma irresponsável. Na sua página no DN desta semana, escreve a determinada altura: “(…) dois tipos de risco. O primeiro é aquele que nasce de uma concessão de crédito disparatada ou, pior, corrupta, como nas emissões de novas tecnologias e na euforia guterrista.”

    Lê-se uma primeira vez e até passa despercebido, mas, voltando à frase, quem é que o abominável César das Neves quererá sujar quando fala em concessão de crédito corrupta? Ninguém lhe pergunta?

    ♪ Chick Corea Akoustic Band





    On Green Dolphin Street

    segunda-feira, março 17, 2008

    Da série "Frases que impõem respeito" [138]

      "Ele [Menezes] não pode é mudar de posição três vezes na mesma semana".
        Prof. Marcelo, dando o exemplo ao só mudar ontem uma vez de posição (sobre o acordo ortográfico)

    Situação não estabilizada


    — Que importância têm 700 mil euros no PIB?



    A Protecção Civil não está em condições de assegurar que não continuem as réplicas dos terramotos “Barroso” e “Santana”.

    Leituras

    António Correia de Campos, Moderar os ímpetos:

      “A peregrina teoria de que não se podem fazer reformas contra alguns dos seus destinatários. Claro que não se podem, pelo menos não se devem tentar reformas contra o que o legítimo poder, eleito pelo Povo, considera o interesse público, o interesse do País, mesmo quando demora algum tempo até que se conjugue a percepção da união entre estes dois interesses. Um ilustre articulista regular de um dos nossos diários acha que não se fazem reformas contra as corporações. Se fosse verdade, não teria o Marquês reformado a Universidade de Coimbra, não teria Joaquim António de Aguiar abatido os foros e morgadios, não teria Fontes Pereira de Melo construído estradas e linhas de comboio contra proprietários fundiários e agrários retrógrados que receavam a drenagem das produções agrícolas para benefício de outras regiões, não teria Duarte Pacheco construído a marginal, não teria o PS feito aprovar a lei da delimitação dos sectores, não teria sido privatizada a comunicação social que caiu no regaço do Estado com as nacionalizações, não teria Vieira da Silva realizado a reforma da Segurança Social, não teria Maria de Lurdes Rodrigues aberto a escola pública todo o dia, concentrado o ensino do primeiro ciclo em locais onde as crianças socializem mais cedo, criado aulas de substituição, instalado o ensino do inglês desde cedo, ou colocado os professores por três anos. Refiro os últimos exemplos para que não se argumente que, reformas a sério, só com regimes autoritários. Não há registo de que as corporações tenham apoiado qualquer destas reformas desde o início. Quando muito deixaram de lhes ser hostis quando ponderaram melhor o que perdiam em credibilidade. Se convenho em aceitar que as reformas se não devem fazer contra ninguém, prefiro admitir, como se tem demonstrado, que é possível fazer reformas apesar das corporações.”

      «Os professores, em Portugal, após 15 anos de experiência (número-padrão utilizado pela OCDE), ganham 1,62 do PIB "per capita". A média dos 19 países da Europa contabilizados na OCDE é de 1,41; a média de toda a OCDE (já com os EUA, a Rússia, o Japão, a Austrália, etc.) é de 1,36. Não estamos mal.

      Melhor só na Alemanha, Holanda, Suíça e Turquia.

      Estes são os números, os resultados são péssimos e a OCDE tem mais um terrível - Portugal é o país onde mais se depende do estrato social para chegar ao fim do secundário.»

    Miguel Sousa Tavares, Disseram liberdade?:

      “Noutra frente, também as invocadas malfeitorias antidemocráticas do Governo encontraram terreno para várias outras indignações. De repente, diversos jornais e jornalistas deixaram de lado o trabalho de analisar a razão ou a falta dela de professores e ministra da Educação, para passarem a achar suficiente a acusação dos professores de que estão a atentar contra a sua "dignidade". O jornal 'Público', desesperadamente em busca de uma caução de esquerda (perdida quando o seu director, entre outras coisas, se lembrou de ver na invasão do Iraque uma espécie de 25 de Abril no Médio Oriente), passou a semana que antecedeu a manifestação dos professores a fazer a promoção dela. Quando a Fenprof anunciou de véspera 70.000 manifestantes, o 'Público' confirmou: iam ser 70.000; quando a Fenprof, no dia após, corrigiu para 100.000, o 'Público' adoptou logo os 100.000 como número oficial e definitivo. E quando alguns polícias e GNR foram a quatro das 1200 escolas do país perguntar quantos manifestantes viriam a Lisboa, o 'Público' tratou imediatamente de fazer manchete com a acusação da Fenprof de que se tratava de uma manobra intimidatória, seguramente planeada ao mais alto nível: nem por um momento se ponderou a possibilidade de ser verdadeira, e mais razoável, a explicação dos polícias envolvidos de que tinham apenas querido planear e facilitar o trânsito para e em Lisboa.

      Mais sugestivo ainda foi o episódio acontecido em Chaves com o ministro Augusto Santos Silva (colunista do 'Público' até à sua ida para o Governo). Chegando à sede local do PS para uma reunião privada do partido, o ministro foi recebido por uma manifestação "espontânea" de gente a gritar-lhe, entre outros mimos, o de "fascista". O homem indignou-se, como eu me teria indignado. E desabafou que não apenas o PCP não detinha o exclusivo histórico da luta antifascista, como também, e como toda a gente sabe, lutou contra o fascismo, mas não pela liberdade e pela democracia e sim pela "instauração da sociedade socialista", derrotada na Fonte Luminosa, em 1975 - uma verdade inquestionável e, até hoje, um divisor das águas passadas que se mantém actual. Pois, no dia seguinte, o 'Público' virava as coisas ao contrário e, sem pudor algum, considerava que aquilo que merecia repúdio não era a manifestação contra o exercício do direito de reunião partidária, mas sim a "reacção desabrida" (título do jornal!) do ministro. O que diria o PCP, o que diria Menezes, o que diria o 'Público' se amanhã o Governo ou o PS organizassem manifestações à porta das sedes do PCP ou do PSD a chamarem-lhes fascistas? Como se vê, também a liberdade de opinião não parece estar em perigo - pelo menos a da oposição.”

    ♪ Bobby McFerrin (e Herbie Hancock e...)




    'Round Midnight

    domingo, março 16, 2008

    O verso e o reverso




    Abel Pinheiro não pôs em dúvida, na entrevista dada ao Expresso, que Pacheco Pereira seja um homem impoluto. Esclarecida esta questão, a reacção de Pacheco é surpreendente a vários títulos:
      • Como Filipe Nunes Vicente sublinha, Pacheco só «descobriu agora que há tratamentos editoriais "sacanas" e jornalistas que executam vinganças pessoais»;
      • Esses «tratamentos editoriais “sacanas”» serviram-lhe para alimentar campanhas contra terceiros;
      • Sendo candidato à presidência da Câmara de Loures (que não sei se coincidiu com a presidência da Distrital de Lisboa do PSD), não é aceitável que afirme desconhecer o modo como a sua campanha foi financiada, ao estilo de “com o meu vestidinho preto nunca me comprometo”.

    Subsídio de habitação compensação dos magistrados

    Vários leitores perguntam (na caixa de comentários e por e-mail) por que não falo da actualização do subsídio de habitação compensação dos magistrados. Faço minhas as palavras de Vital Moreira. Só com uma nota adicional — continua por resolver a questão da tributação deste subsídio, já analisada por estas bandas: Nenhum outro corpo profissional pode gabar-se de usufruir deste benefício fiscal.

    Quotas

    Depois do clube dos seis milhões de portugueses, estão lançados os alicerces para o partido dos dez milhões de portugueses. A CNE disponibiliza os cadernos eleitorais. Depois logo se vê quem aparece na hora do voto.

    Leituras

    1. O bastonário da Ordem dos Advogados defendeu que a chamada corrupção activa deve ser descriminalizada porque quem “corrompe” é, em regra, vítima de um funcionário, necessitando de enveredar por esse caminho para remover entraves à sua actividade. Fernanda Palma discorda da descriminalização e explica os motivos. Convém ler.

    2. Sólidos os argumentos aduzidos por João Malaca Casteleiro em defesa do acordo ortográfico. Mas, ontem, depois de ouvir Menezes em Viseu a pronunciar repetidamente mónópólio, talvez não fosse má ideia aproveitar a embalagem para fazer também um acordo fonético.

    3. Nuno Brederode Santos não dá um tostão furado por Menezes: “Tudo isto comprova o pior da cosmogonia suburbana em que assentam a cultura e a vocação política de Menezes: o império da táctica sobre a estratégia, da manchete sobre o ciclo político, da cor da gravata sobre o enunciado de medidas (ou, no futebolês de que ele gosta, o primado da finta sobre o remate). Nas suas mãos, o poder esboroa-se.” Entretanto, ele poderá sussurrar para Ribau:
      Pois é, mas mais vale ser príncipe da Beira por quatro meses do que barão toda a vida.

    Referendo instantâneo

    A ideia foi do Afonso. Eu chamo apenas a atenção para a coluna da direita. Ao mesmo tempo que o CC aparece com um novo visual, os leitores têm ao seu dispor mais um meio para exprimir a sua opinião.

    Quando o próximo ano aparece como o Cabo das Tormentas para vários políticos, o primeiro inquérito coloca uma questão pertinente:
      "Aguentar-se-á José Manuel Fernandes à frente do Público até ao final de 2009?"

    Viagens na Minha Terra

    O verdadeiro artista

    Os Cadernos Biográficos que o Público esta semana colocou nas bancas apresentam-nos personalidades do mundo da arte a da cultura tão variadas como Fernando Pessoa, Amadeo de Souza-Cardozo, Natália Correia, António Variações, Florbela Espanca, Ary dos Santos, Beatriz Costa, Amélia Rey Colaço, José Rodrigues Miguéis, Hermínia Silva, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agostinho da Silva, Guilhermina Suggia, Mário Viegas, Salazar e Marcello Caetano.

    Espera aí. Quem são estes dois últimos artistas? Que raio de critério terá levado o editor a incluir nesta colecção, ao lado de escritores, poetas, pintores, cantores, músicos e actores, dois políticos - e logo estes dois políticos? Há desculpas menos esfarrapadas para fazer propaganda a Salazar e Caetano.

    Que pensariam disto, por exemplo, Mário Viegas, Sophia ou Ary? Alguém tem dúvidas sobre como eles reagiriam perante esta ofensa aos seus bons nomes?

    ♪ Buena Vista Social Club




    Y Tu Que Has Hecho

    sábado, março 15, 2008

    LENDO VENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS




    Parece que a manifestação de professores ocupou mais de um terço dos noticiários de TV no passado sábado. “RTP1, RTP2, SIC e TVI passaram 66 notícias sobre a manifestação dos professores em Lisboa, que (…) contemplam apenas os serviços regulares de informação destes canais, excluindo por isso eventuais programas ou trabalhos específicos sobre este assunto.”

    A "RTP1 foi o canal que mais notícias emitiu sobre este acontecimento, num total de 24 (36.4% das matérias relacionadas com esta manifestação)."

    É sempre de lamentar que a verdade…



    … estrague uma boa história.

    A pergunta

    Teodora Cardoso escreve sobre O choque com o real:
      “[A inflação] Desceu graças à capacidade dos bancos centrais para a controlar ou isso deveu-se à entrada no mercado mundial de algumas centenas de milhões de trabalhadores com salários muito baixos, produzindo bens e serviços baratos e pressionando os salários nos países desenvolvidos?”

    Para quê as cenas de faca e alguidar?

    Duas pessoas com a mesma informação e com a mesma boa-fé chegam necessariamente às mesmas conclusões.

    A auto-estima em política

    Capucho, um homem mais dado a tomar chá do que meter mãos à obra, respondendo, na SIC-N, ao convite da concelhia do PSD de Cascais para se recandidatar à presidência da câmara em 2009: “Vocês merecem e eu tenho muito gosto em sê-lo (…).”

    Tudo o que precisa saber acerca do Sol

    As notícias do veto político foram manifestamente exageradas. Mas se a manchete do luminoso Sol não se confirma, a grande cacha do semanário no qual escreve o famoso Prof. Marcelo ainda não foi desmentida:
      “(…) ou Menezes sai por sua iniciativa e por implosão da sua direcção, ou só alguém que reúna as elites e tenha efectiva capacidade de mobilização das bases poderá fazê-lo cair.

      Ora, esse alguém, no quadro actual do PSD, só pode ser Marcelo Rebelo de Sousa. Popular, Marcelo congrega elites e bases e já demonstrou saber fazer oposição nas condições mais adversas.

      O PSD ficaria a ganhar. E o país, indiscutivelmente.”
    Que Cristo desça à terra — os blogues precisam de conferências de imprensa de duas em duas horas para animar a malta.

    ♪ Ry Cooder




    He'll Have to Go

    sexta-feira, março 14, 2008

    O fim da liberalização do sector farmacêutico?

    Algumas pessoas já se esqueceram, mas foi só na presente legislatura que o tradicional monopólio das farmácias na venda de medicamentos e o condicionamento no acesso à actividade começaram a ser combatidos.

    Assim, temos agora em todo o país umas seis centenas de para-farmácias onde é possível adquirir medicamentos não sujeitos a receita médica. O mercado que elas disputam às farmácias vale quase 500 milhões de euros por ano. Parece muito, mas não ultrapassa os 20% das suas vendas totais.

    Sucede porém que não só esse é o segmento que mais cresce, como proporciona margens consideravalmente mais elevadas do que os outros medicamentos. É possível que, em breve, os medicamentos não sujeitos a receita médica proporcionem às farmácias metade dos seus lucros totais.

    Ainda mal o público começou a experimentar as vantagens da concorrência, e já a Associação Nacional de Farmácias inventou um expediente para de novo a aniquilar. Trata-se do cartão de fidelização que se prepara para anunciar na próxima semana e ao qual terão aderido 2.000 dos 2.700 associados da ANF.

    Do que se trata no essencial é de fazer concorrência desleal às para-farmácias, aproveitando as economias de escala asseguradas pela ANF para fazer descontos apenas e só nos produtos que também são vendidos pela concorrência.

    Isto é possível porque a ANF não é hoje uma verdadeira associação empresarial. Primeiro começou por se transformar num cartel acarinhado pelos poderes públicos, depois transformou-se num grupo económico que comanda um vasto universo empresarial que inclui a Farmindústria, a Farminvest, a Finanfarma, a Farmatrading e a Valormed, a que acrescem participações diversas em empresas de consultoria, informática, formação, hospitais e clínicas.

    As farmácias que se recusem a integrar a ANF arriscam-se a pagar um preço elevado por isso, designadamente pela dependência criada em relação aos sistemas de distribuição e logística por ela controlados.

    O novo cartão de fidelização - curiosamente apoiado pelo banco público, a Caixa Geral de Depósitos - representa, pois, um sério ataque à liberalização do sector farmacêutico. Vamos a ver como se comportam as autoridades reguladoras.

    O Arroja que ficou: "os planos para exterminar pessoas não diferem muito dos planos para exterminar cães"

    “O Governo tem um plano para exterminar 7 raças de cães perigosos. Pretende proibir a criação e importação dessas raças de cães. Os donos dos cães existentes terão que os esterilizar sob pena de serem multados. Um Estado que concebe e implementa um tal plano de extermínio é bem mais perigoso que os 5000 cães ditos perigosos que existem em todo o país. Eu sei que são cães, mas os planos para exterminar pessoas não diferem muito dos planos para exterminar cães. Por uma questão de precaução é preferível que o Estado não possua nem os meios, nem o know-how, nem o hábito do extermínio.”

    ♪ Johnny Cash




    The Ballad of Ira Hayes

    quinta-feira, março 13, 2008

    Da série "Frases que impõem respeito" [137]

      «Não consigo compreender como é possível ver hoje em Maria de Lurdes Rodrigues e no governo de Sócrates - e antes que me chamem "socrático", lembro que anunciei, em tempo, o meu voto branco - os tiques dos rescapés da extrema esquerda, onde naquele tempo se via a "autoridade" e a "determinação" de Manuela Ferreira Leite, Leonor Beleza e do próprio Cavaco Silva.»

    B Ryan Adams



    Sylvia Plath

    quarta-feira, março 12, 2008

    A viúva alegre

    No sábado, a FENPROF decretou uma semana de luto nas escolas. No auge da euforia, chegou a falar, em alternativa, de luto perpétuo uma vez por semana até à demissão da Ministra.

    Ontem, porém, já aliviou os crepes e, antes que acabe a semana, iremos encontrá-la a dançar no Lux pela noite fora.

    Motivo? O Ministério, com o qual juraram nunca mais voltar a falar, teria aceite "flexibilizar" o processo de avaliação. Como? Não se sabe ao certo. Diz que a avaliação vai ser testada primeiro e depois aplicada por fases. Mas a verdade é que sempre esteve previsto começar por avaliar apenas uns 5% dos professores (aqueles cuja promoção a breve trecho dependeria disso) e prolongar o processo por dois anos.

    De modo que, de facto, Mário Nogueira está a contar-nos uma história destinada a encobrir o fiasco de uma das movimentações políticas mais absurdas da história da democracia portuguesa. E assim se dissipou, com a maior facilidade do mundo, a enorme "crispação" que as almas mais sensíveis proclamavam inviabilizar em definitivo a reforma da educação.

    O PCP é uma espécie de Rei Midas ao contrário: tudo aquilo em que toca estiola, apodrece e cai. Agora, os professores que no último fim de semana pela primeira vez participaram numa manifestação da Intersindical também já sabem isso.

    Mais vale um pássaro na mão

    Com o novo regulamento interno do PPD/PSD, hão-de brotar da terra militantes novinhos em folha como cogumelos selvagens. Menezes pensa que assim blinda o partido aos ventos sulistas, elitistas e liberais. Pode estar equivocado — se Ângelo Correia não for o único, como a história o comprova, a arrebanhar militantes. Pode não estar equivocado — mas, então, ganha forma a possibilidade de o PPD e o PSD seguirem cada um o seu caminho. Em Lisboa, em Bruxelas e no Porto, conspira-se em voz alta.

    Da série "Frases que impõem respeito" [136]

      “Reservo-me o direito de te apagar (…)”.

    ♪ Townes Van Zandt



    The Ballad of Ira Hayes

    Down the ditches for a thousand years
    The water grew Ira's peoples' crops
    'Till the white man stole the water rights
    And the sparklin' water stopped

    terça-feira, março 11, 2008

    O Público segundo o criador





    Vicente Jorge Silva escreve no Sol sobre a história do Público. Eis algumas passagens, podendo o artigo ser lido aqui (ou na caixa de comentários):
      “(…) não posso ficar indiferente quando uma história na qual participei é contada de forma distorcida - pelo menos aos meus olhos - e que, para conveniência dos seus actuais protagonistas, surge exposta de modo linear, pacífico, sem descontinuidades ou conflitos, quando ela é efectivamente descontínua, dramática e de rupturas (embora não assumidas) ao longo do tempo.

      Não se pode disfarçar o que é indisfarçável e pactuar com a hipocrisia ou o cinismo dos que pretendem rasurar o passado daquilo que não encaixa na sua interpretação falsamente beatífica das coisas.”

      “Fernandes faz de conta que entre o princípio e o fim provisório desta história terá havido uma linha editorial essencialmente coerente com o espírito original do jornal. Por outras palavras: simula que a memória não existe, nem sequer a dos leitores que, tendo acompanhado o Público desde os primeiros tempos, puderam constatar não apenas as suas radicais metamorfoses gráficas e estruturais como, sobretudo, o alinhamento ostensivo das posições editoriais mais influentes - as do director, obviamente - com uma cruzada ideológica de matriz neoconservadora, que levou, entre outras coisas, à legitimação das políticas da actual Administração republicana e da intervenção no Iraque.”

      “Não ponho em causa o direito que assiste a José Manuel Fernandes de escrever o que escreve e defender as causas em que acredita. Tal como não questiono o seu direito e o da administração do Público de proceder à transformação do jornal em algo essencialmente diferente daquilo que foi nas suas origens já longínquas. São as regras do jogo: quem tem dinheiro e poder é que manda (…)”.

      “Tal como não imagino que o New York Times se transforme no Wall Street Journal ou vice-versa - sendo ambos eles, diga-se, excelentes jornais, embora de orientação editorial antagónica -, não me parece normal que um jornal que foi uma coisa passe a ser outra insistindo em fingir que o não é enquanto alguns que criaram o Público se conformam temerosamente com essa aparente fatalidade.

      Aquilo que hoje afecta - por vezes muito injustamente, reconheço - a credibilidade do Público tem a ver com a falta de transparência e o carácter errático da sua linha editorial. É uma opinião, mas, como se sabe, está longe de ser apenas a minha opinião.”

    A novela da São Caetano numa TV perto de si

    Rui Rio foi convocado de urgência pelo Conselho de Jurisdição do PSD. O país ficou suspenso da sanção a aplicar ao presidente da câmara do Porto. O próprio Rio, enquanto Pacheco já fala em purga, parecia incapaz de antecipar o seu futuro: “Confesso que um processo no Conselho de Jurisdição Nacional foi coisa que realmente ainda não me tinha passado pela cabeça”.

    Afinal, os juristas de Gaia (Amorim Pereira, Guilherme Aguiar…) que compõem o tribunal do PSD já receberam instruções, pela televisão, da moldura penal a aplicar a Rio. O secretário-geral Ribau quer que lhe seja infligida uma sanção ética. Ao menos, poderiam ter sido incumbidos de, como Salazar costumava fazer quando despedia os governantes, também “agradecer os serviços prestados”. Ou o edil de Cascais é mais do que o do Porto?

    LER OS OUTROS

    • João Pinto e Castro, Sim, e agora?:


      “Rui Tavares mistura várias coisas no mesmo saco no seu artigo de hoje no Público, entre elas: a) A avaliação dos méritos genéricos da escola pública; b) A avaliação da pedagogia dominante no nosso ensino; c) A avaliação do modelo de gestão escolar hoje vigente.

      No fim, acusa a Ministra e o Governo de terem baralhado tudo: “Um discurso que nos diz que todo o ensino público está mal não é nem nunca será reformista.” Peço desculpa, mas a confusão é dele.

      Deixo, porém, à Ministra o encargo de se defender a si mesma, e passo a explicar a minha opinião sobre o tema. Sinteticamente, porque tem que ser:

      1. Avalio muito positivamente o desempenho global do ensino público após o 25 de Abril de 1974. Transformou o analfabetismo num fenómeno residual. Alargou drasticamente os anos de ensino obrigatório. Chegou a todo o país. Permitiu a milhões de jovens concluírem os seus estudos secundários e abriu as portas da universidade a centenas de milhares deles.

      2. Repudio a retórica sobre o eduquês como uma catilinária reaccionária e ignorante que pretende fazer-nos recuar aos tempos anteriores a Coménio (o fundador da pedagogia moderna que os pobres críticos confundem com Rousseau).

      3. Acredito que a escola pública tem condições para superar a sua actual crise de forma a continuar a assegurar a educação universal e gratuita primária e secundária a todos os que a ela queiram recorre.

      4. Não tenho o menor desejo de polemizar sobre se as coisas teriam sido melhores ou piores se outro caminho tivesse sido seguido. Fizemos o que fizemos, e fizemo-lo genericamente bem.

      5. Interessa-me exclusivamente discutir os problemas da escola pública de hoje e encontrar para eles as melhores soluções.

      6. Não acredito que haja respostas definitivas para os problemas, válidas independentemente das épocas e das circunstâncias. Julgo, por isso, que certos arranjos que provaram ser adequados ou ao menos neutros no passado se encontram hoje obsoletos.

      7. Tal como vejo as coisas, a escola pública tem hoje dois grandes desafios pela frente: a) o desafio da adaptação do conteúdo do ensino às necessidades da sociedade contemporânea; b) o desafio da gestão criteriosa dos recursos ao seu dispor.

      8. O primeiro desafio é o mais difícil e exigente. Não falarei dele agora, excepto para dizer que as potencialidades da escola pública a esse nível só poderão ser libertadas se se resolver primeiro o segundo, dado que, sem isso, não teremos recursos para o fazer.

      9. A escola pública é hoje um local de esbanjamento das capacidades dos professores e dos alunos. O sistema por ele responsável existe há muito tempo, mas só na última década se converteu num travão essencial ao progresso.

      10. As escolas públicas têm sido geridas, perante a complacência do governo central, por uma aliança perversa entre a máquina burocrática da 5 de Outubro e os sindicatos dos professores.

      11. Como tem sido observado por múltiplos comentadores, os professores presentemente não são avaliados nem prestam contas a ninguém. Esta situação insólita, sem par, ao que julgo, em qualquer país desenvolvido, tem que terminar. Este é que é o problema.

      12. Tal como a pressão sobre o Ministério da Saúde atingiu o seu clímax quando se encontrava prestes a entrar em vigor o controlo dos horários dos médicos e a abertura de farmácias nos hospitais, os professores mobilizaram-se em massa para bloquearem o Ministério da Educação quando se aproxima o momento decisivo em que eles começarão a ser avaliados e em que entrará em vigor o novo regime de gestão das escolas.

      13. Nestas condições, é ingénua a reivindicação do diálogo da Ministra com os professores, quando é claro que os sindicatos recusam qualquer forma de avaliação e temem perder o controlo sobre as gestão das escolas. Alguma vez propuseram outra coisa que não fosse a pura e simples manutenção do statu quo?

      14. Soa-me estranha aos ouvidos a afirmação de que a reforma não pode ser feita contra os professores. Trata-se de uma constatação ou de uma ameaça? Porque, se, como parece, é uma ameaça, a resposta é muito simples: os professores que boicotarem a avaliação não serão promovidos e poderão eventualmente ser alvo de processos disciplinares.

      15. Pretender o contrário é aceitar que a política educativa deve ser confiada ao soviete dos professores. Digo soviete para não dizer corporação, visto que esta palavra parece ferir muito certos ouvidos.

      16. Sustento que a manifestação de sábado passado foi uma vitória de Pirro, pela simples razão de que nem o PCP, nem os sindicatos, nem os restantes partidos da oposição sabem o que fazer com ela? Semana de luto? Que tal semana da fome? Greve geral da função pública? E depois? É eleições antecipadas que pretendem? Para quê? Para serem derrotados nas urnas?

      17. As mesmas pessoas que há semanas declaravam defunto o movimento sindical encontram-lhe agora insuspeitadas virtudes. Pois a verdade é que os sindicatos continuam, como sempre, amarrados à política suicida do PCP.

      18. Já outros fizeram notar que o Governo continua a não depender de ninguém nesta matéria, desde que não se esqueça que o ensino existe para educar os alunos, não para empregar os professores, e desde que focalize as suas atenções no tema da gestão escolar, que é o nó da luta pelo poder que estamos a presenciar.

      19. De modo que me parece que a pergunta do Rui - “Contentes, agora?” - deverá antes ser endereçada aos sindicatos e aos professores que com eles alinharam.”



    • Lutz Brückelmann, Determinação não chega:


      “Mas mesmo se todos esses erros tivessem sido evitados, tenho para mim que a contestação por parte dos professores teria sido enorme. Porque é um facto que ela [a reforma da educação] visa retirar privilégios à generalidade dos professores, com a contrapartida da promessa de melhores condições de progresso na carreira para poucos. É seguro presumir que a maioria dos professores, tal como qualquer outro grupo de pessoas, optaria pelo conhecido, que é seguro, do que pelo desconhecido que comporta riscos.”