Terça-feira, Março 31, 2009

A voz da OCDE

Não se esqueça de procurar esta notícia nas manchetes dos diários de amanhã:
    “A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) apresentou hoje novas projecções, uma revisão intercalar antes da divulgação das previsões de Primavera, que apontam para uma forte contracção da economia mundial.

    Este ano, espera a OCDE, a economia mundial terá uma queda de 2,7%, naquela que é "a mais profunda e abrangente recessão em mais de 50 anos". Para a zona euro, a projecção é de diminuição de 4,1% do produto interno bruto (PIB), um cenário ainda mais negro que o avançado recentemente pelo Fundo Monetário Internacional. EUA e Japão deverão cair, respectivamente, 4% e 6,6%.

    Uma das principais consequências da crise é o rápido crescimento do desemprego. Nos países da moeda única, que em 2010 deverão continuar em recessão com o PIB a cair 0,3%, a OCDE espera um agravamento até 11,7% em 2010. Trata-se de um aumento superior a quatro pontos percentuais face aos 7,5% registados no ano passado.

    Na economia americana, o epicentro da crise, a taxa de desemprego pode ultrapassar 10% no próximo ano, ou seja, quase o dobro do que se verificou em 2008.”

O sindicato não pode agora hibernar durante uns dias

1. Tendo em conta o que disse o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e o que está escrito no comunicado do procurador-geral da República, um dos dois está a mentir:
    • Houve pressões ou não?
    • Se houve, quem as fez?
    • Se não houve, que interesses movem o sindicato?
    • Que interesses partidários e/ou profissionais beneficiam com a criação de um clima de suspeição generalizada?
2. Tendo em conta o teor do comunicado do procurador-geral da República, vai Cavaco Silva conceder uma audiência ao Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, que, de resto, foi recebido em Belém há cerca de um mês e meio?

Os homens da presidente [1]




Em todo o mundo, incluindo revistas como a Economist, é atribuída a responsabilidade pela crise financeira mundial aos gestores dos bancos. Ninguém se atreve, na hora actual, a defender a sua conduta.

Ninguém?! Bem, há António Borges, o último dos moicanos, que resiste, defendendo até ao último pingo de sangue as tropelias do capital financeiro: “Os gestores têm uma responsabilidade marginal. (…) A versão politicamente correcta é dizer que foram os gestores dos bancos e a sua ganância a causar este problema. Isso é completamente falso”.

Estas palavras do vice-presidente do PSD constam de uma entrevista hoje publicada no suplemento MBA Guide BOOK do Diário Económico. António Borges, barricado na Fundação Champalimaud, justifica o seu extraordinário raciocínio nestes termos: “Se o regulador, que tem uma visão completa do sistema não percebeu o problema, porque é que os gestores dos bancos que têm uma visão parcial que é a da sua instituição tinham obrigação de perceber?

Diz-se à boca pequena que António Borges seria o ministro das Finanças num futuro governo do PSD. Tenham medo, muito medo, como diria Pacheco Pereira.

Um sindicato que desmente os seus associados

A 17 de Fevereiro de 2009, o Procurador-Geral da República solicitou às hierarquias do Ministério Público esclarecimentos, porque - afirmava Pinto Monteiro - "o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público tem divulgado nos meios de comunicação social a afirmação de que têm existido intimidações e pressões sobre magistrados do Ministério Público em alguns processos mediáticos, provindas de meios poderosos".

As respostas chegaram entre 18 e 20 de Fevereiro e são hoje divulgadas pelo Expresso online:

Maria José Morgado (DIAP de Lisboa): "repudio vivamente toda e qualquer afirmação sobre eventuais intimidações de magistrados deste departamento ou da equipa especial da PGR".
Cândida Almeida (DCIAP): "ouvi os magistrados do DCIAP e a resposta foi unânime no sentido de terem sentido nem terem conhecimento da existência de intimidações e pressões exercidas sobre magistrados. No que se refere ao caso Freeport, os magistrados titulares afirmaram que se alguma vez tivessem sentido tais intimidações, delas teriam participado ou apresentado queixa imediatamente."
Francisca Van Dunem (Procuradoria de Lisboa): "Tenho a honra de informar que esta procuradoria geral distrital não recebeu qualquer queixa de magistrados que se enquadrem nesses parâmetros".
Hortênsia Calçada (DIAP do Porto): "Tenho a honra de informar que nunca me foi apresentada qualquer queixa relativamente a pressões ou intimidações".
Alcides Rodrigues (DIAP de Évora): "Nenhum magistrado do Ministério Público me deu conhecimento de alguma intromissão ou pressão sobre a sua actividade".
Pinto Nogueira (Procuradoria do Porto): "Devo transmitir que nunca directa ou indirectamente me senti pressionado e nunca qualquer magistrado do distrito judicial me fez chegar qualquer referência por mínima que seja de qualquer pressão ilegítima".
Bilro Verão (Procuradoria de Évora): "Não temos conhecimento de intimidações e pressões provindas de meios poderosos".
Braga Temido (Procuradoria de Coimbra): "Nenhum dos magistrados me deu conhecimento de quaisquer pressões ou intimidações que sobre eles tenham sido exercidas".
Euclides Dâmaso (DIAP de Coimbra): "Prontamente transmitirei quisquer pressões ou intimidações de que venha a tomar conhecimento".

Entretanto, três semanas depois, a 13 de Março de 2009, o Sindicato foi recebido pelo Presidente da República. Eis um excerto do comunicado que emitiu na altura:

"Foi igualmente abordado pela Direcção o clima de pressão sobre o Ministério Público e os seus magistrados."

Isto é aquilo a que alguns sociólogos e politólogos chamam de "crise do sindicalismo"...

Da série "Frases que impõem respeito" [286]

    “Sá Fernandes foi despedido por email [enviado por Luís Fazenda] às 3h da manhã.”
      [in Sábado de 26 de Março de 2009, p. 52]

Cinco perguntas sobre as "pressões incomportáveis"

1. Admitamos que existem, de facto, "pressões incomportáveis" sobre os magistrados que investigam o caso Freeport?
Não existem no interior do sistema judicial órgãos de recurso para esses casos? Por exemplo, o Conselho Superior do Ministério Público?
Como é que as "pressões" relacionadas com um processo se tornam num caso sindical? Tem o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) algum papel no sistema judicial português?

2. Segundo o Correio da Manhã de hoje [ainda não online], "no essencial, a prescrição [as pressões...] foi defendida pela defesa dos dois arguidos [Charles Smith e Manuel Pedro]."
Desde quando é que a argumentação da defesa pode ser tomada como pressão? Não tem a defesa o direito de apresentar a sua... defesa?
Já segundo o Diário de Notícias, as "pressões incomportáveis" terão ocorrido durante uma reunião entre a directora do DCIAP, Cândida Almeida, e os dois procuradores que tratam do processo. Nessa reunião, terão sido manifestados pontos de vista diferentes sobre o curso da investigação. E então? Havendo três pessoas numa sala, não é natural que existam posições divergentes?

3. O SMMP desenvolve uma campanha contra o novo Estatuto do Ministério Público. E é nesse contexto que surgem as suas tomadas de posição. Será legítimo contaminar um processo em concreto com as posições de orientação geral de um sindicato?

4. A nova direcção do SMMP toma posse a 16 de Abril. Até lá, garante que vai ficar em silêncio - isto depois de ter dito que vai pedir uma reunião "com carácter de urgência" ao Presidente da República para tratar das "pressões incomportáveis". Sendo que a direcção sindical só toma posse daqui a duas semanas, como pode haver uma "reunião de emergência"? Não serão as palavras públicas do novo presidente do sindicato, João Palma, uma "pressão incomportável" sobre o sistema judicial, no que ao caso Freeport respeita, e sobre o sistema político, no que se relaciona com o EMP?

5. Pode um Presidente da República receber uma direcção sindical nestas condições?

Leituras

Kenneth Rogoff, Qual é a fase final do défice?:
    “(…) com os Estados Unidos a imprimirem dívida e dinheiro a grande velocidade, o euro deverá apreciar face ao dólar durante os próximos dois a três anos, caso continue a existir.

    À medida que a dívida aumenta e a recessão persiste, vamos ver, seguramente, vários governos a tentarem reduzir a sua carga através de repressão financeira, inflação mais elevada, pagamentos parciais, ou uma combinação destes três elementos. Infelizmente, a fase final desta grande depressão não vai ser nada agradável.”

Pedro Adão e Silva, Um falhanço intelectual:
    “Como recordava John Kay, esta crise foi provocada pelo ‘sub-prime' na mesma medida que a Primeira Guerra Mundial foi causada pelo assassinato de Francisco Fernando. A crise tem razões estruturais e revelou vários falhanços: da incapacidade dos mercados para se autocorrigirem (uma premissa em que assentava a sua eficiência), até ao carácter opaco, nuns casos, inexistente noutros, dos mecanismos de regulação do sistema financeiro, passando pela inexistência de uma entidade financeira com recursos suficientes para estabilizar os preços numa economia global bem mais aberta. Uma crise desta dimensão assenta num falhanço intelectual e requer novas ideias.”

♪ Paul Bley



Ida Lupino

Segunda-feira, Março 30, 2009

A palavra aos leitores

O leitor Francisco C. enviou-nos um e-mail cujo título é o seguinte: "Charles Smith: incongruente, à rasca, ou ambas as coisas?" Aqui fica o essencial do que escreveu:
    "(...) Não sei se alguém reparou num pequeno pormenor da conversa de Charles Smith (que manifestamente estava à rasca para justificar onde é que tinha enfiado uma pipa de massa que o Freeport lhe havia pago). No meio da sua atrapalhação, diz Smith: «na altura, em 2002, quando Sócrates aprovou o empreendimento em vésperas da queda do Governo, não foi por dinheiro, foi uma estupidez».

    Ora, os únicos actos relativos à viabilização do Freeport em que Sócrates podia ter tido alguma intervenção foram esses, de Março de 2002. E se esses não foram feitos por dinheiro, então que razão haveria para mais tarde pagar o que quer que fosse a José Sócrates? Ele não tomou nenhuma outra decisão quanto ao empreendimento que pudesse justificar um pagamento!!!

    Outra incongruência do aflito Smith vem a seguir. Perguntado sobre por que é que pagou a Sócrates quando ele já nem se encontrava no poder, responde Smith: «ah, ele é um tipo muito importante, com muitos conhecimentos e tal, portanto, não podíamos deixar de honrar o compromisso». Mas qual compromisso? Compromisso para quê ou em troca do quê? Pois se Smith tinha acabado de reconhecer que a única decisão em que Sócrates podia ter tido alguma intervenção não havia sido tomada por dinheiro!!!

    Em síntese, não se compreende qual o rationale para pagar a Sócrates. Mas uma coisa parece poder concluir-se: todo o vasculhar quanto às decisões de Março de 2002 (se o processo de avaliação ambiental foi ou não rápido de mais, se a alteração da área da ZPE era ou não legal, etc.) – actividade a que a imprensa se tem dedicado com afinco ao longo dos últimos meses – é inútil, já que essas decisões não foram tomadas por dinheiro, como o próprio alegado-corruptor admite."

Viagens na Minha Terra

A palavra aos leitores

Da leitora Ernestina (na caixa de comentários deste post):
    “Sobre José Eduardo Moniz, e só para se ter uma ideia do que é capaz e da força da Direita que tem por detrás, é de recordar um episódio do anos 90.

    Mário Soares era presidente; Cavaco Silva, primeiro-ministro; e Luís Marques Mendes, ministro com a pasta da Comunicação Social. Lia-se amiudadamente que o director da Informação da RTP (Moniz) traçava o alinhamento dos telejornais em consonância com o ministro. Que independência!

    Um dia, Mário Soares fez uma alusão à situação da Informação. Moniz veio ao telejornal, despachou uma catilinária pesada contra o presidente da República, tratando-o como um seu igual, ou pior ainda. Acusou-o, achincalhou-o. O País viu, muita gente abriu a boca de espanto, mas não aconteceu nada. Moniz tinha as costas quentes.

    Agora como então, ele pode infringir todas as regras e ainda, para os pacóvios, passar por "corajoso". Tem as mesmas forças a suportá-lo.”

No país real: "coligações só em último recurso"


DN, 28.03.2009, p. 12

♪ Deidre Rodman/Steve Swallow


Twin Falls


Sunday Drive

Domingo, Março 29, 2009

Eles que se vão falir!

A vida de economista não deve ser fácil. Quando se alerta para “problemas estruturais”, há uma série de vozes a dizer que o problema no bolso dos portugueses é de hoje e não de daqui a dez anos. Quando se chega à conclusão que o sistema público de segurança social está equilibrado e tem as pensões asseguradas pelo menos até 2050, há logo quem reclame (e não só os defensores dos seguros privados) que não há fiabilidade nos pressupostos assumidos a quatro décadas de distância. Quando todo mundo (e também Portugal) procura a saída para a maior crise económica desde 1930 e tenta atenuar os seus impactos sociais, lá aparecem uns tantos a apontar a crónica depressão portuguesa e a pretender dizer que se afigura uma inevitabilidade entrar em graves dificuldades lá para 2014.

Se a causa de todo este burburinho é uma peça da SIC emitida no início da semana, o mínimo que se pode dizer é que qualquer cenário pode ser um estímulo para reflectir, mas nem tudo o que se publica deve ser assumido como um estudo, uma dedução lógica e provável e, muito menos, um dado adquirido.





Por isso, faz tanta confusão aquele intróito de Pacheco Pereira no Público de ontem: “Os economistas explicam - saber de economista, ou seja, matéria de muita prudência - que, por volta de 2014/2015, deixamos de ter dinheiro para pagar as nossas dívidas…”. O político/historiador/ideólogo vem assim reabilitar em absoluto os créditos dos economistas, mas o encómio cheira a oportunismo e leviandade.

O que os economistas de que Pacheco Pereira tanto gosta fizeram foi projectar para 2014 o PIB, as despesas e receitas orçamentais “tendo em conta a evolução de 2000 a 2008” e chegando à conclusão que atingiríamos um défice orçamental de dez por cento, muito acima dos três por cento que a UE permite.

Nenhum estudo credível aponta para esse cenário. Mais, há um reconhecimento técnico (e também institucional) de que a evolução orçamental nos últimos anos consolidou as finanças públicas e criou as condições para a sua sustentabilidade (a médio e longo prazo).

Na recente actualização do Programa de Estabilidade e Crescimento, a evolução prevista para o défice orçamental é a seguinte:




Alguns dirão que os números do Governo valem o que valem, mas estão validados pela Comissão Europeia.

Por outro lado, nas previsões apresentadas pela UE os números também descredibilizam totalmente um cenário de agravadas dificuldades em 2014, porque mesmo os números mais recentes, com impacto pleno da crise, revelam uma melhora do défice previsto para 2010 (de 4,6% do PIB para 4,4%).




É certo que, quando se fala em finanças públicas, há sempre quem atire para cima da mesa uns números com bastantes zeros para impressionar. Diz-se agora que “O ano de 2014 será de alto risco. Os encargos com as chamadas parcerias público-privadas vão disparar. Nesse ano vão chegar aos 1.750 milhões de euros”. Independentemente do número ser ou não esse, registe-se que só o PIDDAC ultrapassa os 4 mil milhões de euros no Orçamento do Estado para 2009 e se se acrescentar a este valor o investimento das Estradas de Portugal, EP, teremos um total de 4.641 M€ (p. 129 do Relatório do OE-2009/p. 143 na Net).

Como é sabido, ainda recentemente Portugal foi sujeito a análise e avaliação por parte das agências de rating e nenhuma delas detectou o que para os economistas elogiados por Pacheco Pereira parece resultar de um mero efeito mecânico (por exemplo, Standard & Poor’s ).

Por fim, o teste do mercado (admite-se que haja pessoas de direita que ainda tenham algum respeito pelo comportamento do mercado): ainda em apresentação recente, o governador do Banco de Portugal analisou os spreads da dívida pública e concluiu que Portugal tem aguentado bem o impacto da crise, bem melhor do que a Irlanda e a Grécia e ao nível do que acontece com a Áustria, a Bélgica, a Espanha e a Itália.

O que é lamentável é que quem supostamente se preocupa com as finanças públicas não preste, afinal, nenhuma atenção aos factores da sua sustentabilidade (é, aliás, muito curioso que o ataque aos investimentos milionários impulsionados por Sócrates coexista com a primeira página do Público de ontem, em que se conclui que, afinal, o Governo não cumpriu com os objectivos de investimento: preso por ter cão…).

Face à evolução demográfica e ao aumento dos custos com a saúde, todos sabem (viram a conferência de imprensa de Obama na passada terça feira?) que, passados os efeitos orçamentais da crise e das medidas para o seu combate, é nas despesas da Segurança Social e dos sistemas públicos de saúde que se joga a sustentabilidade orçamental.

Claro que quem aponta o papão de 2014 também esteve contra a reforma das Seguranças Sociais (sim, plural, porque se actuou no sistema da administração pública, já por si não unificado, e no sistema geral) e não reagiu bem ao facto de a disciplina do SNS ter permitido que, entre 2006 e 2008, não fossem necessários orçamentos suplementares. Como também não deve ser gente que tivesse aplaudido a reforma da administração pública, no sentido de racionalizar serviços e carreiras e reduzir efectivos.

Por tudo isto, uma dúvida: a que propósito vem agora o cenário catastrofista de 2014? Para isto é que Pacheco Pereira deve ter uma resposta, porque a sua preocupação não tem nada a ver com a economia!

Viagens na Minha Terra

As novas amizades andam a perturbar os estalinistas

O indigente Carlos Vidal é tão, mas tão, analfabeto que nem reparou que a sua grande descoberta JÁ ESTAVA no texto que ontem linkei.
E, claro, pela sua cabeça estalinista nem sequer lhe passou que a questão não é que as queixas sejam de socialistas (por que não haveriam de ser? estão os socialistas proíbidos de se queixarem?), mas sim que o pensamento jornalístico - pensamento é um exagero, eu sei - da nova guru intelectual da extrema-esquerda está viciado.

Leituras

Da série "Frases que impõem respeito" [285]

    “(…) entre nós, as condições de governabilidade à esquerda são praticamente inexistentes — a menos que se assistisse a uma insólita capitulação do programa político do PS perante o caderno reivindicativo maximalista do BE e do PCP — partidos que com intenções de voto em redor dos 20%, ainda assim se colocam irresponsável e ostensivamente fora da governabilidade.”
      Pedro Adão e Silva, que escreve sobre os perigos que decorreriam da eventual inexistência de uma maioria absoluta

Um jornal Moura Guedes

Correio da Manhã, 28 Mar. 09

Na generalidade das notícias sobre o "caso CCB", o incómodo do público é atribuído ao atraso (motivado pelo atraso do primeiro-ministro de Cabo Verde), mas o Correio da Manhã sabe mais que os outros. Parece que a plateia, mais do que com o atraso, estava zangada com as "acusações no Caso Freeport". Como é que o Correio da Manhã sabe isto? Falou com a plateia? Alguém da plateia? Um espectador? Não, nada disso. O Correio da Manhã sabe porque sabe. É o chamado Método Moura Guedes.

Um jornal esquizofrénico

Público, 29 Mar. 09

O Público lá cumpre a sua rotina diária de colocar José Sócrates com uma seta a descer na última página. Pretexto desta vez? O atraso do primeiro-ministro na chegada a uma ópera no CCB. E onde está essa notícia no jornal? Precisamente num rodapé da página 10. Ou seja, aquilo que quem editou o jornal considerou merecer apenas um rodapé foi suficiente para uma opinião exaltada de um director. Um jornal de malucos...

_______________

A "eficiente" jornalista do Público esqueceu-se de averiguar dois aspectos essenciais nesta história: de quem foi a decisão de adiar o início do espectáculo, porque não foram os espectadores avisados de que se registava um ligeiro atraso?
Ah, percebe-se, se a jornalista tivesse esclarecido esses aspectos, ficava o director sem pretextos para se indignar.

♪ Chet Baker


Chet Baker - Trumpet
Duke Jordan - Piano
Niels-Henning Ørsted Pedersen - Bass
Norman Fearrington - Drums


No Problem

Sábado, Março 28, 2009

Palma Cavalão

É verdade que a personagem de Eça de Queiroz era jornalista e esta personagem contemporânea é magistrado do Ministério Público. Mas esta não desmerece da outra, como se verá:

1. Em entrevista ao Jornal da Noite da SIC, dando conta de rara clarividência, o Palma sindical veio dizer que a culpa do crime é do novo Código de Processo Penal. Demonstrações não são precisas. Ele acha e, portanto, é verdade.

O novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público não entende que haja causas económico-sociais, porque no ano passado não havia crise. É claro que nem lhe passa pela cabeça reconhecer que o Ministério Público a que pertence e que é titular da acção penal tem alguma culpa no cartório.

Palma pertence a um conhecido clube cujo nome é: “a culpa não é minha, é dos outros”. Com o seu antecessor Cluny, ele partilha a ligeireza da análise, mas não exibe a verve do agora presidente honorário. É um primário, que só por legenda somos capazes de reconhecer como magistrado.

2. O homem que substituiu Cluny diz que o Ministério Público serve para defender a legalidade democrática, mas que não tem leis para isso. Esquece-se de um pormenor: o Ministério Público deve defender precisamente as leis que existem e foram aprovadas pelo poder político democrático.

3. Mais para a frente na entrevista, Palma também disse que há pressões no caso Freeport: quando, como, de quem, contra quem? Aos costumes disse nada. Tão pouco se importou com o facto de o procurador-geral da República ter desmentido quaisquer pressões. Se ele acha, é verdade…

Assim vai o sindicato do Ministério Público. Rápidas melhoras…

TVI, a tal que nunca foi desmentida

Manuela Moura Guedes, Correio da Manhã, 25 de Março de 2009:

"São quatro queixas não é? [à ERC contra a TVI] Suspeito de quem as fez. As
únicas críticas públicas que ouvi foram do ministro Santos Silva, [dos
socialistas] José Lello e Arons de Carvalho e do director do jornal reverendo e
obrigado, que escreveu um editorial igual ao discurso do Governo. Aliás, não sei
quem se inspirou em quem, mas são vasos comunicantes. Pois foram estes quatro
que disseram que éramos autores de uma ‘campanha negra contra o
primeiro-ministro’. Mas não devem ter sido eles directamente a apresentar
queixa, devem ter mandado alguém", diz a jornalista.

Correio da Manhã, 28 de Março de 2009:

João Roque dos Santos, universitário, Lídia Sousa, ex-estilista, e João
Baptista, reformado, são os autores de três queixas que deram entrada na ERC
sobre o ‘Jornal Nacional de 6ª Feira’ de 13 de Fevereiro, segundo documentos a
que o CM teve acesso. Um quarto protesto foi também entregue, mas refere-se a um
outro dia do mesmo jornal apresentado por Manuela Moura Guedes.


Há, é claro, a possibilidade de João Roque dos Santos ser afilhado em terceiro grau de Augusto Santos Silva, Lídia Sousa cortar a relva ao fim-de-semana na casa de campo de José Lello e João Baptista ser o homem que todas as semanas entrega o boletim do Euromilhões em nome de Arons de Carvalho. A quarta queixa é, obviamente, de um qualquer subordinado hierárquico de João Marcelino...
De qualquer forma - e agora mesmo a sério - a ERC não deixa de evidenciar alguma irresponsabilidade ao divulgar os nomes dos queixosos. A esta hora, já alguém deve andar à procura de alguma escorregadela no seu passado. Sexta-feira à noite logo se verá...
_________________

Atente-se no método jornalístico adoptado por MMG nas declarações ao CM. Ela não sabe, mas imagina, quem possa ter sido e até qual o método que usaram. A relação com a realidade é um pequeno pormenor sem importância. Tal e qual o método que utiliza nos noticiários de sexta-feira.

Anti-situacionismo está vivo (e recomenda-se) na Madeira

No dia 17 de Março, terça-feira, jornalistas do Diário de Notícias da Madeira foram apedrejados na Ribeira do Faial, “quando confirmavam a extracção ilegal de inertes fora de horas” [DN de 22 de Março, p. 2]. Queixava-se, então, o jornal de que Alberto João Jardim se recusara, mais uma vez, a “tomar uma posição de firme condenação a atentados à liberdade de informação e à integridade física de jornalistas do Diário”.

Afinal, Alberto João não só não condenou este acto como ainda incentivou esta corja a prosseguir os seus actos terroristas. Veja-se como o Jornal da Madeira (uma publicação gratuita na qual o Governo Regional já gastou 40 milhões de euros) analisou o episódio:


Da série "Frases que impõem respeito" [284]

    “Não é preciso ser-se maluco para aqui viver, mas é preferível.”
      Tomás Vasques, citando Truman Capote a propósito dos reality news de Manuela Moura Guedes

Leituras

• Daniel Amaral, A Cimeira do G20:
    “Um olhar rápido sobre os principais indicadores revela que os problemas na Europa e na América são semelhantes: o PIB está a cair 2-3% ao ano e o desemprego já atinge 7-8% da população activa. O que se passa no Japão é diferente: o PIB deverá cair o dobro, mas o desemprego não vai além de metade. Os deuses da economia quiseram equilibrar a desgraça. A China a e Índia vão crescer apenas 5-6% ao ano, metade do que tinham antes, e a Rússia e o Brasil deverão entrar no vermelho.”
• Daniel Proença de Carvalho, Degradação política:
    “Se as próximas eleições não gerarem uma maioria absoluta, o país será governável?”
• João Cardoso Rosas, Políticos-analistas:
    “Em Portugal existe um predomínio mediático dos agentes políticos que são, simultaneamente, analistas políticos. Pertencem a esta categoria alguns dos comentadores mais influentes, como Marcelo Rebelo de Sousa, José Pacheco Pereira e António Vitorino.

    (…)

    Quando o espaço mediático é dominado pelos políticos-analistas, ele deixa de ser um "locus" privilegiado de reflexão e crítica social para se transformar num meio de luta política, com o constante entrecruzar de "recados" enviados a amigos e inimigos. É isso que acontece no nosso espaço público, dominado por pequenas querelas paroquiais e algo indiferente aos debates mais relevantes do nosso tempo. Para suplantarmos esta situação será necessário ter "media" mais independentes e com mais espaço para analistas que não são políticos.”

♪ Chet Baker



It Never Entered My Mind

Sexta-feira, Março 27, 2009

Produções fictícias [4]

Num exercício digno de registo, a TVI mostrou como se pode fazer investigação criminal. Quando não há, inventa-se… Charles Smith terá identificado o primeiro-ministro português como beneficiário de corrupção. Não há imagens, mas não faz mal — faz-se uma reconstituição a preceito nos estúdios da TVI. Existe voz, embora não esteja reconhecida e a gravação não seja válida processualmente. Não faz mal, uma vez que é contra Sócrates — vale tudo.

Charles Smith, que cheira que tresanda a vigarista, é apresentado pela TVI como arauto da verdade. A sua história é ridiculamente inverosímil. Segundo ela, o ministro português à altura, hoje primeiro-ministro, recebeu envelopes mensais de três a quatro mil euros, tipo mesada, durante dois anos, para permitir a construção de um empreendimento nas Margem Sul.

Sem ofensa religiosa, nem os três pastorinhos ressuscitados acreditariam em tal coisa. Mas não faz mal — a TVI acredita em tudo, desde que seja contra Sócrates. Hipóteses óbvias, como Charles Smith e algum apaniguado terem-se aboletado com o dinheiro e dizerem que o deram aos portugas, não passam pela cabeça do CSI da TVI.

Esta estação tem um radar apontado para o primeiro-ministro. Quando esta história cair, hão-de descobrir que fanou um berlinde em miúdo, que deu um calduço a um colega e que espreitou por baixo das saias da professora, sempre em nome do Portugal de verdade da Dr.ª Manuela e do Dr. Pacheco, que nos garantem felicidade e moralidade.

Neste cálculo, a TVI só tem um pequeno problema: as pessoas podem divertir-se com estas tretas, mas isso não é sinónimo de ir na conversa. Afinal, é só entretenimento…

Produções fictícias [3]

Pacheco Pereira anda a viver muito intensamente o caso Freeport. Decorria ainda o programa de variedades de Moura Guedes e já o Abrupto dava conta da infinita capacidade de análise política do seu autor: “Ferro Rodrigues e Jaime Gama mal foram acusados no caso Casa Pia processaram de imediato os seus acusadores. Vou contar os minutos até que Sócrates faça o mesmo a Charles Smith”. Por acaso, Sócrates emitiu de imediato um comunicado no qual informa ter já dado “orientação ao meu advogado para agir judicialmente contra os autores desta difamação”.

A ansiedade destrói o mais frio analista político. Mas não é nada que um blogue honesto não resolva com uma grande simplicidade: uns enlatados e umas fotos empurram para as catacumbas qualquer deslize.

Produções fictícias [2]

É engraçado que, no programa de hoje, a TVI tenha omitido o artigo de Marinho Pinto sobre a conspiração do Freeport na revista da Ordem dos Advogados.

É também engraçado que, no início do programa, a TVI tenha dito que iria ouvir os partidos sobre a peça de abertura, mas o final do programa chegou sem reacções dos partidos e sem uma palavra da Sr.ª Guedes sobre o facto de a sua equipa, tão gabada no Público, não ter conseguido obter tais declarações.

É igualmente engraçado que a renovação da Assembleia da República tenha sido objecto da fina ironia da Sr.ª Guedes, que questionou luxos em tempo de crise, sem suspeitar que estas empreitadas exigem concurso público, que provavelmente terá decorrido há um bom par de anos (ainda a Dr.ª Manuela não havia começado a dizer que não havia dinheiro para nada).

Mas talvez o momento mais hilariante do programa chegou quase no fim, quando surgiu do nada o presidente honorário do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. Parecia uma peça do Jornalinho de António Santos: o Dr. Cluny dizia umas coisas imperceptíveis sobre a ponte Vasco da Gama, como quem está a aquecer a plateia para a entrada em cena de Vasco Pulido Valente, que continua a falar sem legendas.

Produções fictícias [1]

O Público dedica hoje duas páginas ao programa de variedades da Sr.ª Guedes. Para além do tom apologético, não há muito a reter, a não ser duas questões de pormenor:
    1.º “Houve mesmo ocasiões em que [a TVI] trabalhou em conjunto com o semanário Sol, especialmente no caso Freeport.”
    2.º Nuno Ramos de Almeida, o grande divulgador da revolta grega, faz parte da equipa que prepara as peças do programa de variedades, um exemplo prático do que se costuma designar por coligação negativa.

Dr. Pacheco, assim está bem?

Mais um momento anti-situacionista na noite da RTPN: Joaquim Aguiar versus CAA.

Fica, então, salva a leitura (2)

Depois da curiosa notícia de ontem da Lusa (não há Livros de Estilo, editores, naquela casa?), havia alguma curiosidade em saber como lidariam os jornais de hoje com o caso. Vejamos:

O Público, por uma vez, trabalhou. Telefonou para 20 escolas e não encontrou um único caso idêntico ao relatado pela Lusa.
O Diário de Notícias andou à procura do Magalhães nos sites de compra e venda na Net. Não lhe encontrou grande rasto - anda por lá, mas o jornalista só conseguiu tropeçar num oriundo do circuito comercial.
A grande malha do dia é a do 24 Horas. Fizeram um belo trabalho. Então não é que o Magalhães se vende às carradas na Feira da Ladra? É verdade... E qual é a fonte de tal notícia? Isso mesmo - um professor! Estes jornalistas são mesmo parvos, ou serão... professores?

A SIC e o Bastonário

"Isto não é apoio a ninguém. Isto é apoio à verdade".
É assim que Marinho e Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados, responde à jornalista da SIC, quando esta lhe pergunta se está a apoiar José Sócrates com o artigo na revista da Ordem, em que denuncia aguns dos vícios do caso Freeport.
Isso não impediu a pivot da SIC de afirmar que o «Bastonário coloca-se ao lado do primeiro-ministro», expressão que é, de resto, repetida no texto online.
Já Mário Crespo optou por outro tipo de censura ao Bastonário. Abriu o seu noticiário das 9 afirmando que Marinho e Pinto decidiu "tabloidizar" a revista da Ordem.
É claro que todas estas expressões utilizadas pela SIC são puro acaso...

[O DN online tem cópia integral do artigo de Marinho e Pinto - a SIC, que afirma tê-lo tido em primeira mão, não tem.]

♪ Burt Bacharach



Trains and Boats and Planes

Quinta-feira, Março 26, 2009

Freeport

Em declarações à SIC, o bastonário da Ordem dos Advogados, referindo-se à carta-anónima-que-afinal-foi-congeminada-entre-políticos-jornalistas-polícia-ministério-público, disse hoje: “Isto nos Estados Unidos chamava-se conspiração.”¹

_________
¹ Frase que não consta das notícias nos sites da SIC e da TSF. O Público e o Correio da Manhã, jornais que têm dispensado uma enorme atenção ao caso Freeport, ignoram, tanto quanto me apercebi, as declarações do bastonário.

Fazer companhia à avestruz


1. O Público, um jornal sempre bem informado sobre o que se passa na São Caetano, dava esta manhã conta da posição do PSD sobre o nome de Jorge Miranda: 2. Entretanto, no caminho para o emprego, ouço na TSF a Dr.ª Manuela a dizer que nada tem contra Jorge Miranda, um nome que lhe agrada tanto quanto o nome que propôs.

3. Ao fim da tarde, antes do regresso a casa, leio na net que o Dr. Rangel, sempre ele, decidiu tomar nas suas mãos a escolha do provedor, convocando os restantes partidos da oposição para reuniões bilaterais. Quem sabe se, para poder ser aprovado, o Dr. Rangel não aparece com o nome de uma personalidade de indiscutível craveira e isenção — o Prof. Jorge Miranda?

Da série "Frases que impõem respeito" [283]

    “Uma cidade existe porque há coisas que tiram a vista a outras, se não, não havia cidade”.
      Siza Vieira, que afirmou, relativamente ao terminal de contentores, não ter uma "opinião formada" sobre o projecto e a pertinência da sua localização em Alcântara, mas defendeu que a "vida do porto" é "uma coisa muito interessante numa cidade" [via french kissin']

Viagens na Minha Terra

    • Valupi, Anéis de Saturno:

      “(…) 1 minuto depois de Mário Crespo ter anunciado compungido que Portugal estava a caminho da falência — voltei a encontrar o César [das Neves]. Desta vez falou-me. Disse-me que dentro de poucos anos, por causa deste Governo, não ia haver dinheiro para nada nem para ninguém. Depois apareceu o João Ferreira do Amaral, mas como não puseram legendas fiquei sem perceber corno. Seguiram-se imagens do Medina Carreira, de perfil, mais a Ferreira Leite, mais malta em manifestações. Muita. Gráficos com as contas do Medina, que provavam com números o que diziam as autoridades. Voltou o César. Disse que isto de Portugal falir teria como consequência o fim da União Europeia. Numa outra parte, a seguir a um segmento onde Sócrates aparecia a confirmar que ia mesmo fazer investimentos públicos, eis a prova, César foi ainda mais intenso. Declarou que a política de Sócrates era criminosa, e nesse entusiasmo saltou-lhe o braço esquerdo para a frente com o dedo indicador espetado, ao mesmo tempo que, num movimento interrompido, quase levantou da cadeira as generosas carnes adjacentes ao fim das costas. Tive a certeza de que a vontade dele era avançar em direcção à câmara e entrar por ela adentro, na esperança de apanhar um, alguém. A peça terminou com o aviso de um jornalista: para que em 2013 ainda seja possível salvar o pouco que nos resta, temos de tratar do assunto já nestas eleições, ou será tarde demais.”

    • Emídio Fernando, Vrrruuuuummmmm:

      "Um grupo de 60 pequenos e médios empresários juntou-se, num jantar, esta noite, para ouvir Manuela Ferreira Leite. A julgar pelo parque automóvel que está estacionado fora do restaurante, a indústria automóvel alemã - a da alta cilindrada - não se pode queixar da situação das PMEs portuguesas. Pelo menos, as da zona de Leiria."

    • André Pereira, A rainha Leite
    • Francisco Almeida Leite,
    O Bloco errou
    • Francisco Seixas da Costa,
    A brigada da mão fria
    • João Tunes,
    HÁ 60 ANOS NO LUSO
    • José Ferreira Marques,
    Confusões e O PSD e os Grandes Investimentos Públicos
    • Óscar Carvalho,
    Compromisso com a verdade
    • Pedro Adão e Silva,
    Maluquinho me confesso
    • Vital Moreira,
    O SNS e a democracia

Uma adivinha




    17 de Maio de 2008 — “O PSD tem feito oposição, o problema é que ninguém o ouve”.

    16 de Março de 2009 — “ Ninguém nos ouve”.

Ambos os desabafos são da Dr.ª Manuela. O primeiro, recordado aqui por Santana Lopes, aconteceu há cerca de dez meses, era a senhora candidata a presidente do PSD. O segundo desabafo, dito há poucos dias, mostra que a réplica lusitana da dama de ferro não conseguiu inverter a situação de descrédito do consulado de Luís Filipe Menezes.

No entanto, Menezes foi presidente do PSD em circunstâncias que não se comparam com a actual situação: onde antes havia uma guerrilha constante, há agora uma oposição interna que aguarda com paciência o desfecho das legislativas. Como se lamentava Menezes na hora da despedida: «Hoje há quem afirme que ninguém nos ouvia. No essencial concordo. Quem é que pode prestar atenção a uma ópera quando no ecrã ao lado 12 Indomáveis Patifes protagonizam uma infindável e ruidosa "coboiada".»

Se depois da exibição de 12 Indomáveis Patifes houve o regresso ao cinema mudo (com o fim do ruído interno) e se a maioria dos media segue à risca a agenda política da oposição, por que razão não se faz ouvir a Dr.ª Manuela? Adivinhem lá.

Antes de ser desmentido já o era (5)

Por exemplo, o Correio da Manhã é um dos jornais que não vale a pena desmentir. Os próprios jornalistas vão fazendo esse trabalho, num afã um tanto amalucado. Um exemplo:

Correio da Manhã, 16 de Março de 2009:
Uma outra linha de investigação está relacionada com o e-mail enviado por
Sócrates a Manuel Pedro e Charles Smith em que os trata por tu. Na verdade,
existe uma mensagem electrónica em que Sócrates trata os suspeitos por tu, mas
faz parte de um lote de 3500 e-mails enviados para endereços adquiridos pelo PS
na Telepac, por alturas da campanha eleitoral de 2005. Já foram feitas perícias
informáticas que rapidamente permitiram concluir pela aparente irrelevância da
mensagem.

Correio da Manhã, 20 de Março de 2009, ou seja QUATRO DIAS DEPOIS:
Ainda falta explicar um e-mail enviado por Sócrates a Manuel Pedro e a
Charles Smith em que os trata por tu. Em Janeiro, Charles Smith disse que nunca
tinha estado pessoalmente com Sócrates.

"Suposto", "alegadamente"

Um título que parece ter sido concebido de acordo com as regras básicas do jornalismo: Sexagenário morto por supostos assaltantes à porta dos Correios de Nova Oeiras. Mas por que esse cuidado em observar as regras básicas não é seguido sempre? Por exemplo, será que houve tais cuidados quando o Público falava da compra do andar de Sócrates?

Fica, então, salva a leitura


A Agência Lusa - com um rigor raro numa agência de notícias - descobriu hoje que os "'Magalhães' podem estar a ser vendidos no mercado negro". Como dizia o outro, podem estar, ou podem não estar...
Mas devem estar, de certeza. Porque a Agência Lusa (prontamente divulgada pelo Público) assim o garante, baseando-se, note-se, numa única fonte - uma professora de uma escola de Benfica - que diz peremptoriamente:

"Tenho o exemplo de uma família com três irmãos, todos receberam um computador Magalhães de borla porque pertencem ao escalão social A. Duvido que eles ainda tenham algum em casa (...) Nestes casos nós percebemos que os computadores já devem ter levado algum outro destino".
De facto, se apenas uma fonte diz uma coisa destas à Lusa, de forma tão segura, é porque deve ser verdade...

Quem, a esta hora, deve estar todo satisfeito é António Barreto, que ainda há uns dias assegurava que "O 'Magalhães' é o maior assassino da leitura em Portugal".
Como, de acordo com a a professora Helena Amaral, os "Magalhães" já devem ter desaparecido, deve estar salva a leitura em Portugal. Um alívio!
_____________
O resto da notícia da Lusa é um mimo - um arrazoado de má vontade dos professores contra o Magalhães. O habitual...

Proletários de todo o mundo, uni-vos, em tempo de prosperidade! Em tempo de crise, cortai a cabeça uns aos outros!¹




Consta que a Dr.ª Manuela, ao ver este vídeo do Bloco de Esquerda para as eleições europeias, terá comentado para o Dr. Rangel: — Atrás de mim virá quem de mim bom fará…

________
¹ Plágio descarado de Rosa Luxemburgo.

♪ Lou Reed & John Cale



Nobody But You

Quarta-feira, Março 25, 2009

A fonte marota volta a atacar

Público, 25.03.09
Vale a pena clicar para aumentar - a foto é uma delícia: é o Prof. Cavaco
a observar as sondagens sobre a Dra. Manuela



Eis os dois últimos parágrafos desta notícia:

O Presidente concluiu a lição defendendo a necessidade de o país produzir "bens
com mais qualidade, para poder competir" com os seus concorrentes, e de os
decisores tomarem "decisões acertadas e correctas para poupar dinheiros aos
contribuintes" e fazer com que os "benefícios sejam maiores que os custos".
Cavaco não enumerou os investimentos cuja análise custo/benefício
coloca em causa, mas um responsável do seu gabinete desafiou o PÚBLICO a
"decifrar aqueles que não se adequam ao momento que vivemos".
E, sendo
assim, é bem provável que estivesse a pensar no TGV, no novo aeroporto e em
algumas auto-estradas.

Então é assim: o Presidente dá a lição. E depois os "responsáveis do seu gabinete" e os jornalistas do Público descodificam. Isto, em si, não é grande (nem pequena...) novidade (lembram-se da célebre "entrevista" do Fernandes sobre o Estatuto dos Açores?).
Vale a pena registar simplesmente o elemento lúdico agora introduzido. E, já agora, a destreza dos jornalistas do Público - perante um tão elevado desafio lançado por um "responsável do seu gabinete", logo ali o repórter descortinou o que passava pela cabeça presidencial naquele exacto momento.
A continuar assim, e se "os responsáveis do seu gabinete" continuarem tão cooperantes, este jornalista ainda acaba a dirigir a "edição mediúnica" do Público...

Antes de ser desmentido já o era (4)

Diz a TVI que nenhuma das notícias do seu noticiário das sextas foi desmentida.
Os jornais do fim-de-semana, como é costume, reproduziram acefalamente.
Façamos, então, o trabalho que os jornais não fizeram.

Todos os noticiários de sexta-feira começam com uma sucessão de notícias, em que o nome de José Sócrates é repetido dezenas de vezes, metade delas adjectivado de "principal suspeito das autoridades inglesas" no caso Freeport. Enquanto isto é dito, exibe-se a famosa carta rogatória.

Sobre a carta rogatória, eis o que disseram as autoridades portuguesas competentes a quem o documento era dirigido:

«A carta rogatória inglesa não contém nenhum facto juridicamente relevante que acresça aos factos conhecidos e investigados pelas autoridades portuguesas, nem contém nenhum elemento probatório considerado válido e que justifique uma alteração da posição tomada nos comunicados anteriores».

A TVI nunca foi desmentida? Ora deixem-se de brincadeiras...

“Há coisas fantásticas, não há?”

Talvez os posts de Carlos Santos sejam demasiado longos para a blogosfera, mas gosto de os ler. Carlos Santos tem uma particularidade cada vez mais rara: informa-se antes de escrever. Veja-se este pequeno exemplo¹, no qual Carlos Santos desmonta com uma facilidade que surpreende um post de Paulo Marcelo, vogal da comissão política da Dr.ª Manuela:
    “Com a falta de verdade com que, infelizmente, o PSD recente nos tem habituado, Paulo Marcelo, argumenta no sempre imparcial Cachimbo de Magritte, que a tese do PS de que a crise económica mundial é culpada dos assustadores números do desemprego em Portugal ontem conhecidos, é falsa. Usa para esse fim um documento do Partido, que por acidente demonstra a tese contrária:

    - na página 5, do documento vê-se que a produtividade total dos factores caiu em Portugal abaixo da média de UE pouco antes do governo de Durão Barroso tomar posse. E durante os anos desse governo, (…), a divergência acentuou-se drasticamente, regressando à convergência no início de... 2005. Isto é, com a tomada de posse do governo de Sócrates. Há coisas fantásticas não há?”

_________
¹ Carlos Santos, Desmontagem da tese do PSD: Sócrates e não a crise internacional explicam o desemprego segundo Paulo Marcelo (Cachimbo de Magritte).

Site “intuitivo” com “mulheres nuas ou a caminho disso”


Cindy Sherman



Os efeitos da reorganização já se fazem sentir no blogue. A revista Playboy é o grande destaque do dia: “o site é intuitivo e amplia, selecciona e permite examinar aos mais ínfimos detalhes as imagens e as páginas com muita informação, à mistura com imagens de mulheres nuas ou a caminho disso.”

Viagens na Minha Terra

Siiiiiiiim, o mundo pula e avança

Twitter

Jack Dorsey: Twitter no es una red social sino una herramienta de comunicación.

Venham mais 200 mil!

Última semana de Março na Central de Reservas dos 200 mil:

Jerónimo de Sousa: Precisava deles para 23 de Maio. Estão disponíveis?
Menina do call center: Fica a marcação feita.
Francisco Louçã: Veja lá, não se esqueça da encomenda que lhe fiz para o dia 1 de Maio...
Menina do Call Center: Oh dr. Louçã, já lhe disse que para esse dia temos uma avença anual. Vou ver se lhe arranjo uns 10 mil. Mas não prometo nada...

Uma outra maneira de ver as coisas

"O Provedor deve ser nomeado pelo Presidente", escreve Henrique Raposo, no novíssimo (bem vindos!) Clube das Repúblicas Mortas.
Bem vistas as coisas, quando o Presidente deixar de ser de direita, podemos voltar a mudar o sistema de nomeação.

Terça-feira, Março 24, 2009

Antes de ser desmentido já o era (3)

E será necessário desmenti-la?
Qualquer espectador mediano da TVI percebe que a própria estação de televisão montou um cordão sanitário à volta dos noticiários de sexta à noite.
Ora se aquilo é que é mesmo bom jornalismo, como se entende que no resto da emissão da TVI não sejam repetidas aquelas histórias?
Tentem, por exemplo, encontrar as peças do noticiário das sextas no site da TVI 24, onde se concentra a informação da estação... Coloquem, por exemplo, "Caso Freeport" ou "Cova da Beira" - duas das taras de sexta à noite - no motor de busca do TVI 24...
Não se entende, pois não?
Se se trata de tão bom jornalismo, se o bom jornalismo é suposto dar audiências, porque está esse bom jornalismo confinado àquela preciosa hora e meia de sexta à noite?
Pois é... os noticiários de sexta não têm credibilidade suficiente para serem apresentados fora daquele espaço. A TVI é a primeira a desmentir a TVI.

A difícil vida de comentador

Alguém acredita que o Prof. Marcelo estava a pensar no provedor de Justiça quando disse na última homilia que o cargo exigia o domínio das novas tecnologias? Para poder dar a conhecer por SMS as atribuições e competências do provedor? Para fazer de cada cidadão um amigo no Facebook?

É óbvio que o político/comentador/professor estava a pensar no cargo de primeiro-ministro, ou melhor, na candidatura teórica da Dr.ª Manuela ao cargo. Se o provedor não pode ser um senador, como ele sustentou, muito menos um(a) senador(a) poderá aspirar a ser primeiro-ministro.

Eu não queria estar na pele do Prof. Marcelo. Se ele fala sem subterfúgios, como aconteceu quando disse que a Dr.ª Manuela já não ia a lado nenhum, as elites empertigam-se e obrigam-no a retractar-se no dia seguinte; se ele é mais rebuscado, como aconteceu no Domingo quando defendeu que o lugar dos senadores é no Madame Tussauds, a tropelia passa totalmente despercebida.

Para não envolver Maria Flor Pedroso nas travessuras em directo do comentador/político, até pelas funções que desempenha na Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, só vejo uma saída. Sempre que o Prof. Marcelo se prepare para fazer uma traquinice, a RTP passe em nota de rodapé um pequeno texto: “É AGORA! TROPELIA! É AGORA! TROPELIA!” Ganhamos todos — e, mais importante ainda, a imagem do professor não sai beliscada.

Antes de ser desmentido já o era (2)

No fim-de-semana, o Diário de Notícias publicou algumas notícias sobre o caso Freeport, que sintetizou assim na sua edição online:

"A Brigada Central de Pesquisa da PJ de Lisboa efectou, em 2003, uma Averiguação Preventiva (AP - pré-investigação) ao licenciamento do Freeport de Alcochete. Os inspectores não encontraram irregularidades no processo, sendo que a investigação foi arquivada. Nem sequer foi aberto um inquérito-crime.
O relatório final da AP da brigada da judiciária tem a data de 17 de Novembro de 2003. No documento são elencadas inúmeras diligências de recolha de documentos, até conversas informais com técnicos do Instituto de Conservação da Natureza e responsáveis políticos (já durante o governo de Durão Barroso), os quais, segundo soube o DN, foram unânimes ao afirmar que não houve qualquer tipo de ilegalidade na tramitação do processo. Mais: depois de recolher e analisar os documentos, a própria judiciária concluiu, em 2003, que a alteração da Zona de Protecção do Estuário do Tejo (ZPE) nada teve a ver com o licenciamento do Freeport."

Curiosamente, ou talvez não, estas notícias tiveram eco diminuto, ou nulo, noutros órgãos de comunicação social.
E, no entanto, as poucas linhas que acima se reproduzem desmentem, de uma assentada, várias manchetes e aberturas de noticiários.
Interessante, não é?

No blogue de José Manuel Fernandes

Título do post: Conteúdo do post:
    “Contactada pelo PÚBLICO, Marília Bidarro, relações públicas da PSA-Peugeot/Citroën de Mangualde, não adiantou quantos postos de trabalho pretende reduzir com este plano.

    À comissão de trabalhadores também não foi traçada qualquer meta.”

Antes de ser desmentido já o era (1)

Um dos argumentos mais fantásticos que a TVI-Moura Guedes apresenta em sua defesa é o de que nada daquilo que "noticia" é desmentido.
Formalmente, é verdade.
Na realidade, uma mentira.
Aquilo que a TVI-Moura Guedes apresenta como "verdade" ou "novidade" é, sistematicamente, a deturpação de pequeníssimas peças de um puzzle, retiradas de textos já publicados e reinterpretadas editorialmente de maneira enviesada.
Vejamos um exemplo.

Abertura do noticiário da última sexta-feira, 20 de Março: o nome de José Sócrates teria surgido numa escuta telefónica, a qual o envolveria no recebimento de dinheiro no caso Freeport.

Vejamos o que dizia, sobre o mesmo assunto, o Correio da Manhã desse dia, ou seja, antes do noticiário da TVI:
O telemóvel em que foi escutada uma conversa que imputava a José Sócrates o recebimento de 500 mil euros foi desactivado ao fim de duas chamadas. Os factos reportam-se a 2005 e os telefonemas – considerados nos autos como de 'relevância para o inquérito' – foram feitos numa altura em que já se investigava a actuação do inspector José Torrão no caso. A chamada que envolve José Sócrates foi de curta duração e feita de um número privado para um dos suspeitos iniciais da investigação.

Ou seja:

1. o telefonema não ocorreu durante a alegada tentativa de suborno (2001), mas em 2005, quando se investigava o cambalacho montado por agentes da PJ, jornalistas e militantes do PSD e do CDS;
2. o telefonema envolve um "número anónimo", a chamada foi "de curta duração" e o telefone foi "desactivado" ao fim de duas chamadas;
3. a TVI considera que isto incrimina Sócrates; qualquer pessoa com o mínimo de discernimento percebe que a data, os personagens e o contexto apontam para algo bem diferente - a tentativa de envolver Sócrates a todo o custo, quatro anos passados sobre os eventos.
4. A expressão "com relevância para o inquérito" refere-se ao inquérito que então estava em curso - o do cambalacho PJ/PSD/CDS/jornalistas e não à questão do licenciamento do Freeport.

Chegados aqui, pergunta-se: desmentir o quê?

♪ Jolie Holland


Springtime Can Kill You


Stubborn Beast

Segunda-feira, Março 23, 2009

Da série "Frases que impõem respeito" [282]

    "É fácil na verdade, fazer jornalismo assim: juntar peças de um puzzle inexistente e construir realidades a partir de ficções."

Conversas amalucadas

Leio no Público de Sábado um comentador anti-situacionista a escrever o seguinte: «A “campanha negra” é poeira para os olhos, porque as notícias da imprensa e TV basearam-se [sic] em elementos factuais, declarações e documentos. Nenhum facto foi desmentido [sic].»

Lembrei-me logo dos diálogos entre Manuela Moura Guedes (MMG) e Vasco Pulido Valente (VPV) e reproduzo, a título de exemplo, a conversa mantida no “telejornal” da TVI de 30 de Janeiro de 2009:
    MMG - 21h38 – Vasco, posso-te interromper? A carta rogatória diz até mais, diz que o primeiro-ministro, segundo os ingleses, fez um pedido de suborno.
    VPV – Não, eles não dizem isso, dizem que alegadamente fez um pedido de suborno…
    MMG
    – Não, eles não dizem isso.
    VPV – Dizem que alegadamente fez um pedido de suborno.
    MMG – Não. Segundo as investigações deles, ele fez um pedido de suborno.
    VPV – Pois, mas isso é alegadamente, porque eles não sabem se a testemunha que disse isso, está a falar verdade ou não.
    MMG – Segundo as investigações deles...
    VPV – Não. Segundo o testemunho de um senhor não sei quantos [MMG, por debaixo da fala de VPV diz: Sim, exactamente] o que é alegadamente, isso (??) não prova nada. Não prova nada, mas, mesmo não provando nada, eu pensei que estas coisas não se podiam, nem deviam fazer. É certo que na Europa há o Berlusconi, que já houve o Chriac, parece que já houve o Kohl também, mas, essa, eu não tenho a certeza. É certo que aquilo não é uma comunidade de anjos, mas, de qualquer maneira, devia haver um certo respeito por um indivíduo que, apesar de tudo, governa um País.
    MMG
    – Mas eu estava a perguntar-te outra coisa, que é, quem não se sente, não é filho de boa gente, costuma-se dizer, e com esta coisa toda, por que não, porque é que Portugal não pede explicações a Inglaterra, não é?
    VPV – Sim, devia já ter pedido explicações, mas não devia pedir explicações públicas, acho eu. Devia ter evitado que isto sucedesse, ou que sucedesse doutra maneira.
    MMG
    – Obrigado, Vasco. Mais uma vez os comentários de Vasco Pulido Valente, desta vez, sobre o caso da semana, (pausa) Freeport. Ora, então tenha uma muito boa noite e….

Ricardo Araújo Pereira: “Esse olho é vesgo, não é vivo”


As Torres de Cintra dos tempos
em que o Eduardo lá militava



Pelo caminho que as coisas levam, não tarda nada aparece por aí algum maduro aos gritos como no PREC: “Cada voto na AOC é uma espinha cravada na garganta do Cunhal Sócrates”. Não contem connosco para descer o nível da discussão política. Haja decoro.

Ponta de lança contratado

As negociações chegaram a bom termo: o João passa, a partir de hoje, a fazer formalmente parte do CC. Seja bem-vindo! É provável que o modelo de jogo venha a ser alterado: em vez de jogar em contra-ataque, poderemos jogar em ataque continuado, com uma pressão alta como o Mourinho recomenda.

Pinóquio põe o nariz de fora

DN, 22.03.09


Já foi primeira página do Sol, mas agora, coitado, foi remetido a uma discreta página interior do Diário de Notícias.
O "Pinóquio" era, afinal, o contabilista de Charles Smith, que, pelos vistos, tem uma certa queda para as alcunhas (o "Sopas", o "Cabeça de Alfinete"...). Humor britânico, talvez.
A JSD é que pode ir tirando os cartazes da rua - com esta "revelação" perderam toda a eficácia.

♪ Phil Ochs


Phil Ochs Homepage


Jim Dean of Indiana

Domingo, Março 22, 2009

Diálogos que impõem respeito

    DN/TSF - Como avalia a acção de José Sócrates como primeiro-ministro de Portugal nestes quatro anos?
    Francisco Van Zeller - Há pouco tempo estive a falar sobre isso, e o que achei foi que ele subiu o nível, a fasquia do que é um primeiro-ministro em Portugal. Subiu muito.
    DN/TSF - Subiu em relação ao Governo anterior?
    Francisco Van Zeller - A tudo o que a gente conhecia.
    DN/TSF - Mesmo ao período de Cavaco?
    Francisco Van Zeller - Sim.
Contributo do João

O Prof. Marcelo “acha” que…

… é ao PSD que cabe escolher o próximo provedor de Justiça. Por acaso, o Prof. Marcelo não disse esta noite por que “acha”. Na última semana, a grande maioria dos comentadores (anti-situacionistas, por sinal) também “acha” que é a Dr.ª Manuela que deve escolher o provedor.

Acontece que, salvo nos governos de António Guterres, nunca a oposição escolheu os provedores. Vamos observar devagarinho a história da Provedoria de Justiça para conhecer a tradição:
    • Coronel Manuel da Costa Brás (1975-1976) foi o primeiro provedor, encarregando-se da instalação da instituição;
    • Conselheiro José Maria Barbosa de Magalhães Godinho (1976-1981) foi indicado pelo PS, era Mário Soares primeiro-ministro;
    • Conselheiro Eudoro Pamplona Côrte-Real (1981-1985) foi indicado pela AD, era Pinto Balsemão primeiro-ministro;
    • Bastonário Ângelo Vidal de Almeida Ribeiro (1985-1990) foi indicado pelo PS, era Mário Soares primeiro-ministro;
    • Bastonário Mário Ferreira Bastos Raposo (1990-1991) foi indicado pelo PSD, era Cavaco Silva primeiro-ministro;
    • Conselheiro José Manuel Menéres Sampaio Pimentel (1992-1996) foi indicado pelo PSD, era Cavaco Silva primeiro-ministro;
    • Conselheiro José Manuel Menéres Sampaio Pimentel (1997-2000) foi indicado pelo PSD, era António Guterres primeiro-ministro;
    • Dr. Henrique Alberto Freitas Nascimento Rodrigues (2000-2004) foi indicado pelo PSD, era António Guterres primeiro-ministro;
    • Dr. Henrique Alberto Freitas Nascimento Rodrigues (2004-…) foi indicado pelo PSD, era Durão Barroso primeiro-ministro.
Acresce que Nascimento Rodrigues — que decidiu envolver-se no processo da sua substituição, invocando argumentos que não lembrariam ao careca (“Eles comem tudo” e “relação de forças” no Conselho de Estado) — aceitou todo catita ser a escolha, em 1992, de Cavaco Silva para a presidência do Conselho Económico e Social, ao mesmo tempo que o então primeiro-ministro indicava Menéres Pimentel para provedor de Justiça.

Viagens na Minha Terra

Leituras

• Paul Krugman, ¿Qué le pasa a Europa?:
    “Me preocupa Europa. De hecho, me preocupa el mundo entero; no hay refugios que estén a salvo de la tormenta económica mundial. Pero la situación de Europa me preocupa todavía más que la de EE UU.

    (…)

    Se podría esperar que la política monetaria fuese más enérgica. Al fin y al cabo, aunque no haya un Gobierno europeo, sí que hay un Banco Central Europeo. Pero el BCE no es como la Reserva Federal, que puede permitirse ser atrevida porque está respaldada por un Gobierno nacional unitario, un Gobierno que ya ha tomado medidas para compartir los riesgos que conlleva la audacia de la Reserva, y que seguramente cubrirá las pérdidas de la Reserva si sus esfuerzos por descongelar los mercados financieros fracasan. El BCE, que debe responder a 16 gobiernos a menudo en desacuerdo, no puede contar con un apoyo similar. En otras palabras, Europa está demostrando que es estructuralmente débil en tiempos de crisis.”

♪ Uri Caine


Si dolce è il tormento
(Claudio Monteverdi)


Berchidda é uma terriola com cerca de três mil habitantes na Sardenha. O trompetista Paolo Fresu, natural de Berchidda, organiza aí um festival de jazz (Sardinia’s Time in Jazz) desde 1988. Suponho que este vídeo reproduz a actuação de Uri Caine, acompanhado precisamente por Paolo Fresu.

Sábado, Março 21, 2009

Para apanhar a Dr.ª Manuela a falar verdade, leia-se o Expresso



Se é incompreensível que a Dr.ª Manuela, enquanto líder de um partido, mantenha uma coluna regular num jornal como se se tratasse de uma comentadora política, mais inexplicável ainda é, por um lado, a pobreza das suas ideias e, por outro lado, a circunstância de renegar, em meia dúzia de linhas, o teor das propostas recentes do próprio PSD, por exemplo a insistência na redução (sem critérios) de impostos e da contribuição patronal para a segurança social. Como a líder do PSD escreve hoje no Expresso: “tem de se falar verdade aos eleitores, para que não se deixem iludir com facilidades de curto prazo, para que se garanta que o que se alcança é duradouro, em vez de os enganar com soluções de efeito imediato, mas que escondem um sulco profundo que tornará o caminho cada vez mais difícil.” O que diz é muito pobrezinho, mas fugiu-lhe a mão para a verdade.

Nem Manuela presta atenção a Moura Guedes

O programa de variedades de Manuela Moura Guedes é um momento único de televisão. Está tão longe da realidade que, já depois de a apresentadora ter anunciado que Jorge Miranda era a escolha do PS para provedor de Justiça, a conversa com Vasco Pulido Valente ignorou esse dado novo, continuando a bater na tecla de que os partidos continuavam à procura de um comissário político para o cargo.

A Sr.ª Guedes não presta atenção ao que está a ler? E, enquanto ela lia a notícia sobre Jorge Miranda, Pulido Valente, sentado a seu lado, passava pelas brasas?

Era tudo na reinação

O PSD veio dar explicações atabalhoadas sobre a eleição do provedor de Justiça. Segundo a Dr.ª Manuela, deve ser a oposição — ou seja, o próprio PSD — a escolher o provedor e considera que se justifica que este não seja alguém da área política do Governo para garantir um desempenho isento.

A explicação não podia ser mais desastrosa. O nome adiantado pelo PS, Jorge Miranda, tem um passado político no PSD (e na ASDI), é católico praticante, foi um dos principais contestatários da despenalização do aborto e nunca militou no PS ou foi tido como seu apoiante.

Mas o mais curioso é que a Dr.ª Manuela, embalada por uma declaração de cortesia piedosa de Hans-Gert Poettering (da família política do PSD), disse estar “segura” de que vai vencer as eleições legislativas que se aproximam. Se assim é, por que não deixa o PS avançar com a indicação do provedor?

Afinal, o PS será, pelas contas da Dr.ª Manuela, o partido da oposição durante o exercício do mandato do próximo provedor. Ou será que a Dr.ª Manuela estava só a brincar quando disse que estava “segura” de que vai ganhar as eleições?