quarta-feira, abril 30, 2008

Leituras

• João Pinto e Castro, O jovem, esse desconhecido:
    “Em que pensam e o que sabem, afinal, esses seres exóticos a quem damos o nome de jovens? O que lhes vai no espírito? Como ocupam os seus tempos livres? Ou ainda: qual a importância de tantos e tantos dos nossos jovens ignorarem quem foi o primeiro Chefe de Estado democraticamente eleito, quantos países integram a União Europeia e se o Partido Socialista dispõe ou não de maioria absoluta no Parlamento? Aparentemente, os jovens desconhecem factos que os políticos reputam importantíssimos. Sê-lo-ão mesmo? E, ademais, invertendo o sentido do questionamento, não será também verdade que os políticos ignoram coisas que os jovens consideram de enorme relevância? O simples facto de necessitarem de recorrer a inquéritos por amostragem para saberem o que pensam os cidadãos juniores parece sugerir que sim. (…) O ponto de partida do debate não deveria, porém, ser aquilo que os jovens não sabem, mas aquilo que eles sabem e os restantes desconhecem, porque é aí que se oculta o potencial de transformação positiva da sociedade.”

Depressão pós-traumática

O que mais deprime no último velório do 25 de Abril é a confirmação da falta de mundo do actual Presidente da República, para o qual os conhecimentos políticos se avaliam com um questionário próprio de um concurso de televisão.

Na utopia cavaquista do Portugal Bom Aluno, a educação consiste em atar os miúdos à sua carteira e obrigá-los a memorizar a tabuada e os nomes dos reis e presidentes.

E o que é que isso interessa? De que forma é que um tal ensino prepara as pessoas para a vida pública e privada? Mais do que fixar nomes, números e datas, não será preferível desenvolver nos estudantes a capacidade de relacionarem factos e compreenderem o mundo, munindo-os das ferramentas intelectuais para tal necessárias?

Como é possível termos um Presidente tão medíocre? Pode um país moderno ir para algum sítio com uma tal liderança? Estas são as perguntas a que é preciso responder.

♪ David Sylvian




September

terça-feira, abril 29, 2008

Conversa da treta é a regra do jogo

Ó Zé Miguel… Ó António… patati patatá… Ó Zé Miguel… Ó António… patatá patati…

Da série "Frases que impõem respeito" [152]


Baby Doc



    "Aquilo [a Madeira] é um ambiente específico com uma linguagem específica".
      Manuela Ferreira Leite, que diz ser “preciso dar um desconto” a Jardim quando apelidou a oposição madeirense de “bando de loucos” (e proibiu a realização de uma sessão solene na Assembleia Regional)

ADENDA — Alberto João, que revelou não ter jogo de cintura para a política do contenente (e para as acrobacias de Santana), já accionou um "Movimento de Apoio de Militantes do PSD a Nível Nacional de Alberto João Jardim a Presidente do Partido", tendo já recebido apoios da Madeira, Póvoa de Santa Iria, Famalicão e Carnaxide.

Juno e a nuvem




O Público abriu ontem as suas páginas a Cunha Vaz para uma entrevista de caixão à cova. Rui Bebiano considera-a “um exercício público de abjecção”. Filipe Nunes Vicente não faz a coisa por menos: “inclassificável, literalmente, a entrevista de Cunha Vaz”. Paulo Pedroso interroga-se sobre as razões pelas quais o jornal de referência sustenta que “os jornalistas temem-no”.

Nada disto é estranho à blogosfera. A cartilha do “arrivista amador” já havia sido ensaiada por aí para anunciar a boa nova do PPD/PSD. Do mesmo modo que a honestidade intelectual dos aprendizes os impele agora a encetar um processo de íntima auto-interrogação sobre o que outrora difundiam com incontido fulgor. Haverá certamente boas razões para continuar a acompanhá-los por aqui com a afabilidade habitual.

PS — Se algum leitor puder disponibilizar as sábias palavras de Cunha Vaz, o CC poderá reproduzir alguns extractos. São quatro páginas quatro. É provável que a entrevista tenha escapado a alguns blogues normalmente muito atentos aos media. Seria uma segunda oportunidade que se lhes dá para a comentar.

ADENDA — Agradeço ao Paulo Ferreira o envio da entrevista em PDF.

Leituras

Pedro Adão e Silva, A flexigurança à portuguesa:
    “Nenhuma destas soluções é viável. A primeira porque esquece, por um lado, que o direito do trabalho assenta numa assimetria de posição entre empregadores e empregado, em que a lei é o garante de alguma equidade, e por outro, que a liberalização do mercado de trabalho em Portugal fragilizaria ainda mais o tecido social português. A segunda porque esquece que um incremento da rigidez seria necessariamente acompanhado de maior flexibilidade de facto e, tendo em conta a extrema debilidade do nosso tecido económico, transformaria o grosso dos precários em desempregados.

    A solução que o Governo apresentou é uma terceira via criativa para um dilema fundamental da regulação do mercado de trabalho português. Com o fim da taxa social única, as empresas passam a descontar menos para os contratos sem termo e mais para os contratos a termo. Simultaneamente, dão-se passos fundamentais para que os independentes passem a ter algum tipo de protecção social comparticipada pelo empregador (através do pagamento de 5 pontos percentuais da taxa contributiva).”
• Rui Tavares, Força, companheiro Vasco:
    «Na sua crónica de sábado sobre “O 25 de Abril”, Vasco Pulido Valente [VPV] garante-nos que “tirando as leis que instituíram a democracia, o PREC não deixou uma única reforma necessária e durável”. Com os termos definidos por VPV, em que 25 de Abril e PREC são tratados como intermutáveis, eis de novo a questão de A Vida de Brian: “mas afinal, que fez o 25 de Abril por nós?”.

    Só que a resposta de VPV é mais divertida: “tirando as leis que instituíram a democracia”, nada. Por outras palavras: tirando eleições livres e justas, imprensa sem censura, extinção da polícia política, partidos políticos, fim da tortura e dos presos de opinião, liberdade de manifestação e associação, que fez o 25 de Abril por nós? Nada.»
• Teodora Cardoso, Avaliar e actuar:
    “(…) a magia das agências de rating consistiu em tornar as hipotecas de alto risco norte-americanas em aplicações desejáveis para investidores que ignoravam tudo a respeito desse mercado e da qualidade dos activos em que investiam, conhecendo apenas o respectivo rating, que as regras prudenciais os obrigavam a respeitar. (…) Como observa um ex-gestor da Moody’s (…), era como usar 100 anos de observações meteorológicas na Antárctida para prever o tempo no Hawai.”

Da série “Reviver o Passado na São Caetano” [1]




O DN já não é menezista: “Uma autêntica chuva de estrelas com a ex-ministra das Finanças”. E quem são os notáveis que o FAL eleva a estrelas? Gente, valha a verdade, que Manuela Ferreira Leite foi buscar à sociedade civil e que faz a sua estreia absoluta na política:

Rui Rio
António Borges
Alexandre Relvas
José Luís Arnault,
Miguel Horta e Costa
Carlos Horta e Costa
Leonor Beleza
Aguiar-Branco
Pires de Miranda
Vítor Crespo
Marques Guedes
Falcão e Cunha
Nuno Morais Sarmento
José Pacheco Pereira


Mas os portões da São Caetano abriram-se também às bases — que não desperdiçaram o momento para exibir as suas photomathon:



Imagem

O mercado é soberano

A edição em papel não divulga os dados relativos a Janeiro e Fevereiro de 2008 coligidos pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem, ontem tornados públicos. A edição on-line também não se perde em minudências. Em todo o caso, pelo sim, pelo não, se alguém vir José Manuel Fernandes a folhear os jornais da concorrência, mantenha-se por perto. Pode ser apanhado desprevenido:

Grandes títulos

Saúde mental preocupa Comunistas.

♪ Ryuichi Sakamoto (Trio)




Merry Christmas, Mr. Lawrence

segunda-feira, abril 28, 2008

Da série "Frases que impõem respeito" [151 – Número duplo]

    “(…) nunca seria candidato se falando com ele [Menezes] olhos nos olhos tivesse sentido algo diferente”.
      Santana Lopes, que se escusa no entanto a revelar “as conversas e outras formas de comunicação” mantidas com Menezes, dada a sua natureza privada
    “Algumas centenas numa lógica de cascata.”
      Marco António Costa, quando questionado sobre o número de militantes auscultados para avaliar o sentimento das bases do PSD do Porto, cuja “esmagadora maioria” apoia Passos Coelho (no Público de hoje)

Aterosclerose (hipótese benigna)

Há duas semanas, António Barreto divagou longamente no Público acerca de uma carta atribuída a Rosa Coutinho, na qual o Yul Brynner do PREC aconselhava Agostinho Neto a comer criancinhas (brancas) ao pequeno-almoço. A carta, reproduzida em fac-simile num livro editado algures, havia sido encontrada, em 1975, na África do Sul do apartheid.

Barreto chamou-lhe um figo. Nem por um momento lhe passou pela cachimónia que pudesse tratar-se de uma provocação. Nem por um momento suspeitou que o mais elementar bom senso aconselharia a que tais “sugestões” não fossem feitas por escrito e, muito menos, aparecessem, como por encanto, em mãos amigas ligadas ao apartheid e a sectores do colonialismo em decomposição.

Atirada a pedra, Barreto escondeu a mão. A blogosfera insurgiu-se e o colunista do Público assobiou para o lado. A situação complicou-se quando o provedor dos leitores do Público foi inundado de protestos.

Então, António Barreto aproveita um desmentido formal de Rosa Coutinho à Visão para, com a mesma ligeireza com que atirou a pedra, escrever ontem no Público: “Lamento ter utilizado como argumento esse documento apócrifo. As minhas desculpas ao senhor Almirante e aos leitores.” É isto uma postura séria?

Bons alunos, maus alunos

O político que não sabia quantos cantos têm Os Lusíadas e que confundia Thomas Moore com Thomas Mann anda agora muito preocupado com a ignorância da juventude.

Ao menos, os jovens que desconhecem o número de países que integram a União Europeia não parecem ter a ambição de se candidatarem a cargos públicos.

Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto

No discurso que proferiu no 25 de Abril, o Presidente da República revelou-se preocupado com dois problemas na sociedade portuguesa:
    • “além da Hungria e da Eslováquia, Portugal é o mais europeu em que os cidadãos dão menos importância à política nas suas vidas”;
    • “o nível de informação dos jovens relativamente à política é de tal forma baixo que ultrapassa os limites daquilo que é natural e salutar numa democracia amadurecida”.
Não me parece que se possa ser tão peremptório a extrair estas ilações do estudo que serviu de base ao discurso de Cavaco Silva. Basta ler as “Principais conclusões” (pp. 2-3):
    • Nem o “caso português” se revela assim tão distinto do que se passa nos restantes países europeus;
    • Nem os jovens, na maioria dos aspectos analisados, se diferenciam, pelo menos negativamente, do resto da população.
PS — A natureza das três questões colocadas aos jovens merece um post à parte. Fica para outra oportunidade.

O Paradoxo do Ornitorrinco [3]




Enquanto Pacheco trabalha com afã no programa a divulgar esta tarde, e quase já não consegue ter tempo para colocar no Abrupto as fotos dos seus dedicados leitores, Rio e Aguiar-Branco encontraram uma forma peculiar de manifestar o seu entusiástico apoio a Manuela: rumaram ao Sameiro.

Até 30 de Abril

… no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.

♪ Harold Budd




Algebra of Darkness

domingo, abril 27, 2008

O dia em que a elite cooptou o ex-secretário-geral Arnault




Voltando à crónica de sexta-feira de Pulido Valente:
    «O que divide o PSD não é o programa ou a ideologia, em sentido estrito, mesmo porque o programa e a ideologia contam pouco num movimento populista. O que divide o PSD é uma questão política, a questão nua e crua do poder: quem manda ou não manda no partido. Mandam os "notáveis", como Ferreira Leite, que no seu tempo Cavaco recrutou, e a "classe média respeitável" da universidade e do "sector privado"? Ou manda o pessoal das câmaras, das distritais, das concelhias, das secções? Manda Arnaut ou Ribau? Morais Sarmento ou Marco António Costa? A resposta determina a divisão do bolo. A guerra é pelo bolo — pelo subsídio e pelo negócio, por lugares no Parlamento, na "Europa", no funcionalismo — e não desaparece pondo à frente do PSD um ícone de uma era de ouro remota e acabada.»

Grandes mistérios do Universo [46]




Porque é que Francisco Louçã se empolga com os sucessivos acordos entre a Autoeuropa e a respectiva comissão de trabalhadores, presidida pelo deputado do BE António Chora, e se revela tão contrário às alterações ao Código do Trabalho?

O argumento que faltava ao PCP e ao BE

As alterações propostas ao Código do Trabalho, designadamente no que se refere às medidas contra a precariedade, parecem ter deixado o PCP e o BE à beira de um ataque de nervos, como quem pergunta: — E, agora, que fazemos?

A solução é-lhes dada por Joaquim, discípulo de Pedro (Arroja): “Ao passar parte do pagamento da segurança social dos recibos verdes para a entidade que contrata os serviços, os trabalhadores irão pagar mais IRS, no montante que sobra.

“O Paulinho das Feiras 2.0”

Ricardo Simões Ferreira no 24 Horas de hoje:
    «Paulo Portas tem uma fixação pela ASAE. Cá para mim, foi a forma que encontrou para concretizar um upgrade do "Paulinho das Feiras" — além de visitar os feirantes, ataca sem dó nem piedade os polícias que os chateiam...»

♪ Pascal Comelade




Russian Roulette

sábado, abril 26, 2008

Barriga de aluguer

    “Já se fala em Manuela Ferreira Leite como uma "lebre" de Rui Rio. Há uma certa lógica nesta metáfora das corridas de fundo. Manuela Ferreira Leite tem 68 anos e terá 69 (ou talvez perto de 70; não sei em que mês nasceu) em Outubro de 2009. Para chegar a primeira-ministra não precisa só que Sócrates perca a maioria absoluta, precisa que Sócrates perca a maioria simples e, mais do que isso, que o PSD ou a direita, no seu conjunto, ganhem a maioria absoluta: uma possibilidade longínqua. Se governar, Manuela Ferreira Leite não governará antes dos 73-74 anos, quase tão velha como Salazar - o que, evidentemente, não é de prever. Manuela Ferreira Leite não serve para o futuro.”
      Vasco Pulido Valente no Público de ontem

As coisas encaixam. Rui Rio, na entrevista dada à RTP na passada quinta-feira, deixou ficar no ar a hipótese de fazer um terceiro mandato no Porto para concluir a sua “obra”.

Manifestamente, Rio não acredita que tão cedo haja condições para o PSD se alçar ao poder. Nesta perspectiva, o papel de que Manuela Ferreira Leite estará incumbida não é o de “lebre” — mas o de “barriga de aluguer”. Requer mais tempo.

♪ David Bowie




Remembering Marie A. (Bertolt Brecht's Baal)

quinta-feira, abril 24, 2008

Tutor

Rui Rio acabou de ser entrevistado na RTP. Justificou ter sido o 1.º Vice-presidente de Santana para poder ter mão no ex-primeiro-ministro. Parece uma desculpa esfarrapada, mas, se assim foi, Rio revelou-se um tutor desastrado.

Ciência política na RTP-N




Muito gosta a RTP-N de Joaquim Aguiar… Hoje ocupou quase em exclusivo a Antena Aberta: “Qual a avaliação que faz de 34 anos de Democracia?” (18-19H). O cientista político afiança que, em 2008, estamos numa situação similar à que se vivia em 1985 a.C.. Parece menos desiludido do que habitualmente aparenta estar.

Da série "Frases que impõem respeito" [150]

    “Hoje de manhã, a Imobiliária de Cedofeita, da qual Jorge Nuno Pinto da Costa é accionista maioritário e administrador único, foi objecto de buscas.”
      Comunicado do presidente da F.C. Porto – Futebol, SAD, no site do clube

♪ José Afonso e Adriano Correia de Oliveira




Menina dos Olhos Tristes

quarta-feira, abril 23, 2008

O Paradoxo do Ornitorrinco [2]


Brutti, Sporchi e Cattivi



Afinal, há uma linha divisória muito acentuada entre as elites e as bases do PSD: “(…) não adianta avançar com grandes arroubos programáticos porque pura e simplesmente ninguém os percebe, nem os ouve, nem os faz.” Apesar de tudo, não pensava que a situação fosse tão trágica como Pacheco Pereira a pinta.

O Paradoxo do Ornitorrinco [1]




Pacheco Pereira revelou-se, em tempos, muito preocupado com as tropelias que envolveram a instalação de um casino em Lisboa — a ponto de ter dedicado toda a sua atenção ao caso, quando foi director do Público por um dia.

Soube-se, entretanto, que o autor d’ O Paradoxo do Ornitorrinco faz parte do grupo que há muito preparava um golpe de Estado no PPD/PSD, que inclui também José Luís Arnault e Morais Sarmento. É uma oportunidade única de deslindar este imbróglio — e, depois, contar à gente.

Da série "Frases que impõem respeito" [149]

    «(...) a candidatura de Manuela Ferreira Leite resulta de um "conjunto de diligências" de figuras cimeiras do PSD e adiantou que, ele próprio, terá contactado com 20 a 30 pessoas sobre a matéria.»
      Macário Correia, o Ribau das elites, em declarações à Lusa

Coisas que melhoram a vida das pessoas

Esta manhã, recebi, no quiosque, uma prenda: um livro intitulado “viver bem a vida de casal — afectividade psicologia comunicação”. Uma iniciativa singela, mas muito útil, da imprensa de referência para comemorar o Dia Mundial do Livro.

A palavra aos leitores

O Eng. Acácio Lima enviou-nos um mail, no qual fala da sua relação com Francisco Martins Rodrigues:
    «(...) MORREU ONTEM FRANCISCO MARTINS RODRIGUES. TINHA 81 ANOS.

    É PÚBLICO, QUE AS MINHAS RELAÇÕES PESSOAIS COM ELE, ERAM FRIAS E TÉNUES DESDE, 1967.

    E AO LONGO DO TEMPO FORAM-SE ACUMULANDO MUITAS DIVERGÊNCIAS.

    MAS MARTINS RODRIGUES SEMPRE TEVE UMA CRÍTICA RADICAL AO CORPORATIVISMO, E NISSO NUNCA DIVERGIMOS.

    MARTINS RODRIGUES , DESDE 1984, QUE ERA UM FORTE CRÍTICO DAS GENTES, ORA LIGADAS AO BLOCO.

    E NISSO NÃO DIVERGIAMOS TAMBÉM, MAS NUMA ABORDAGEM DIVERSA.

    FRANCISCO MARTINS RODRIGUES, TAL COMO EU, CONSIDERÁVAMOS O BLOCO UM DESERTO DE PROJECTO POLÍTICO, UM GRUPO DADO A NAVEGAR À VISTA, NO TOTAL OPORTUNISMO, E RECUSANDO EXPLICITAR UM CORPO DE DOUTRINA SISTEMATIZADO.

    UM GRUPO ONDE A COERÊNCIA ESTÁ AUSENTE, E O APEGO ÀS LEIS OBJECTIVAS QUE ATRAVESSAM O FUNCIONAMENTO DA SOCIEDADE NÃO EXISTE, PERFIRINDO ELE, BLOCO, O VOLUNTARISMO, NA COMPANHIA DA DESONESTIDADE INTELECTUAL.

    SEMPRE O IDEALISMO FILOSÓFICO NA RECUSA AO MATERIALISMO FILOSÓFICO.

    PERCEBE-SE MAL, OU TALVEZ SE PERCEBA MUITO BEM, A RECUSA DOS GROTESCOS E PRIMITIVOS LOUÇÃS E FAZENDA, AO RECUSAREM COMENTAR FRANCISCO MARTINS RODRIGUES, NO SEU PASSAMENTO.

    O DR. MIGUEL ABRANTES LEMBROU MUITO BEM A CONDUTA PERVERSA DO PCP, REFERINDO A PRESENÇA CLANDESTINA DE MANUEL JOSÉ CLARO E DE JOÃO PULIDO VALENTE CARNEIRO DE MOURA, NO JORNAL "AVANTE".

    MAS FOI ESCASSO NA DENÚNCIA DA CONDUTA POLÍTICA DO PCP, NESSES ANOS DE 1964/1965.

    É QUE O "AVANTE", MAL JOÃO PULIDO VALENTE CHEGA A PORTUGAL, PARA MONTAR A REDE CLANDESTINA DE COMBATE AO REGIME, DENÚNCIA A SUA PRESENÇA, INFORMANDO, VIA "AVANTE", A PIDE.

    PARA QUE A MINHA AFIRMAÇÃO, NÃO SEJA BALOFA, DIREI QUE TAL SURGE NAS SEGUINTES CONDIÇÕES:

    JOÃO PULIDO VALENTE, EX-MILITANTE DO PCP, NA EMERGÊNCIA, VISITA UM PONTO DE APOIO DO PCP, UM ENGENHEIRO , QUE DESIGNO POR "C", E PARA SEU DESCONFORTO ENCONTRA, NA CASA DE "C", O FUNCIONÁRIO DO PCP "RC" SEU VELHO CONHECIDO DA LUTA POLÍTICA CLANDESTINA.

    E DAÍ PARA A DENÚNCIA NO "AVANTE" FOI UM PASSO.

    NO PROCESSO JUDICIAL DE "C", ARQUIVADO NA TORRE DO TOMBO, ENCONTRA-SE ESSE REGISTO, QUE ACABO DE REFERIR. O PRÓPIO "C" ME HAVIA REFERIDO TAL.

    MAS ESCLAREÇO O DR. MIGUEL ABRANTES , QUE A ESTADIA DE MANUEL JOSÉ CLARO, COMO CLANDESTINO, FOI MUITO CURTA. TENDO DEPOIS VIVIDO EM PARIS, E ACABOU MAL, EM ITÁLIA, PARA ONDE SE MUDÁRA.

    HÁ, NO PROCESSO JUDICIAL DE FRANCISCO MARTINS RODRIGUES , ARQUIVADO NA TORRE DO TOMBO, VÁRIAS REFERÊNCIAS À MINHA PESSOA, CURIOSAMENTE EM FALTA NO MEU MEU PROCESSO, TAMBÉM AÍ ARQUIVADO.

    OU SEJA A DEVASSA DOS PROCESSOS JUDICIAIS INSTRUIDOS PELA PIDE, LEVADA A CABO PELO PCP, SE FOI UM FACTO, TAMBÉM REVELA CRITÉRIOS DE SONEGAÇÃO DE MUITA INCOMPETÊNCIA.

    VASCULAM O MEU, SURRIPAM DADOS, MAS "ESQUECERAM" DE IR VER, O QUE A MIM RESPEITAVA, NO PROCESSO DE FRANCISCO MARTINS RODRIGUES.

    MAS O PCP FOI BEM SELECTIVO, POIS TUDO O QUE PODERIA ESCLARCER A CAUSA PRÓXIMA DA MINHA PRISÃO, SIMULTANEA COM A DE FRANCISCO MARTINS RODRIGUES, FRENTE À IGREJA DE SANTA ISABEL, NA SARAIVA DE CARVALHO, PELAS 21 HORAS E 03 MIN DO DIA 30 DE JANEIRO DE 1966, RESTA POR ESCLARECER.

    NESSA OCASIÃO, DA NOSSA PRISÃO, TENTEI APELAR À POPULAÇÃO QUE SE JUNTOU NO APARATO POLICIAL DA PIDE COMEÇANDO O DISCURSO POR:

    "JÁ NEM UM PACATO CIDADÃO SE PODE PASSEAR POR ESTA LINDA CIDADE DE LISBOA NESTA NOITE FRIA DE JANEIRO...... E MAIS NÃO DISSE POR TER SIDO AMORDAÇADO PELOS AGENTES DA PIDE.

    TRANSPORTADO NUM TÁXI PARA A ANTÓNIO MARIA CARDOSO, NO BANCO DE TRÁS, RODEADO DE DOIS PIDES DE ARMA APONTADA E ENCOSTADA A MINHA CABEÇA, TIVE UMA RECEPÇÃO APOTEÓTICA:

    "TIREM O CASACO AO TIPO JÁ QUE SE QUEIXOU DO FRIO, MAS SEJAM "BONDOSOS" AQUECEÇAM-NO DEVIDAMENTE".

    E COMEÇOU, COM UMA TAREIA MONUMENTAL, A MINHA SAGA DE QUATRO ANOS ENTRE ANTÓNIO MARIA CARDOSO, FORTE DE CAXIAS, PRISÃO HOSPITAL DE CAXIAS, TRIBUNAL PLENÁRIO DA BOA HORA E FORTE DE PENICHE. À MISTURA TRÊS PERÍODOS DE QUINZA DIAS, CADA, DE PRIVAÇÃO DE SONO E OS TRATAMENTOS AOS TRAUMATISMOS NA PRISÃO HOSPITAL DE CAXIAS.

    MEMÓRIA.
    ACÁCIO LIMA
    QUARTA-FEIRA, 23 DE ABRIL DE 2008»

♪ Carlos Paredes




Verdes Anos

terça-feira, abril 22, 2008

Porque é que os comentadores não têm um registo de incompatibilidades?




Joaquim Aguiar andou, ontem, num virote: passou pela mesa de Mário Crespo, uma hora depois já estava entrincheirado no Prós & Contras e não sei se no trajecto ainda teve tempo para tirar as ilusões aos ouvintes da TSF ou do Rádio Clube.

Todos sabemos como Eanes vibrava com as suas famosas chavetas. Não ponho em causa sequer que Aguiar tenha o monopólio da lucidez em Portugal, muito embora esteja convicto de que só Zita Seabra se lembraria de publicar aquela obra que ele escreveu em Vale do Lobo na esperança de os seus “netos aprenderem a fazer mapas”.

Não tenho nada, portanto, contra Joaquim Aguiar. Mas parece, assim de repente, que seria mais curial que, independentemente dos seus inquestionáveis dotes oratórios, ele, nas suas aparições públicas, fosse apresentado como administrador do Grupo Mello, a que sempre esteve ligado, em vez de politólogo — sobretudo quando discorre sobre matérias em que as posições que sustenta podem ser confundidas com os interesses que tem por obrigação defender como gestor de um grupo económico.

Leituras

• Pedro Adão e Silva, A síntese improvável:
    “Desde a sua formação, o PSD foi sempre um partido abrangente, caracterizado pela diversidade, baseado numa combinação idiossincrática que ia de elementos vindos da oposição ao Estado Novo até sectores sociais claramente de direita, como seja a burguesia rural proprietária, que constituiu a âncora social do salazarismo. Tal como o PS, foi também um partido consolidado a partir do Estado, mas, ao contrário do PS, o PSD não é produto da vontade de uma elite homogénea, mas sim da federação de elites locais, muito diversas ao longo do território nacional. Esse facto foi fundamental para que, desde o início, o partido conseguisse conciliar plasticidade com indefinição ideológica. O contexto da transição para a democracia ajudou a que assim fosse: por um lado, porque a direita se encontrava à defesa, sendo impossível afirmações ideológicas claras nesse campo, e depois porque a única forma de fazer coexistir os vários PSDs era a ausência de um compromisso ideológico forte. Durante muito tempo, esta especificidade foi a vantagem competitiva do PSD, fazendo-o “o partido mais português de Portugal”. Não representando ninguém em particular, era possível criar a ilusão de que se representava todos.”
• Vital Moreira, Louvor do rotativismo [Público]:
    “Não é verdade, desde logo, que o PS e o PSD digam as "mesmas coisas" e proponham as "mesmas soluções". Desde que em 1995 o PSD de Fernando Nogueira rejeitou liminarmente a criação do "rendimento mínimo garantido" até às recentes propostas de privatização da segurança social, da saúde, da educação, bem como de política fiscal, torna-se evidente que o PSD se vem transformando num partido progressivamente mais liberal e cada vez mais afastado da sua componente social-democrata originária, aliás sempre equívoca. A sua plena integração internacional no Partido Popular Europeu é bem elucidativa sobre as suas reais coordenadas ideológicas e políticas.”

Francisco Martins Rodrigues (1927-2008)

Francisco Martins Rodrigues morreu hoje. Tido como “delfim” de Cunhal, com quem fugiu de Peniche em 1960, subscreve, em 1963, as teses de Mao no conflito sino-soviético, ao mesmo tempo que rejeita as teses de Cunhal defendidas no Rumo à Vitória: um “levantamento nacional” para derrubar o Estado Novo.

Cria, em Paris, o Comité Marxista-Leninista Português. Quando Francisco Martins Rodrigues (e outros membros da organização) decide regressar a Portugal em 1964, foi denunciado no Avante! numa nota intitulada CUIDADO COM ELES [Dezembro de 1964]. Preso pela PIDE em 1966, só é libertado no dia 27 de Abril de 1974. Fazia parte do grupo de presos que Spínola não queria que fossem devolvidos à liberdade.

Francisco Martins Rodrigues esteve na origem dos movimentos que viriam a constituir a UDP. Rompe com a UDP em 1984 e torna-se bastante crítico em relação ao Bloco de Esquerda, que apelida de “esquerda cor-de-rosa”.

O Maestro


Talvez agora se compreenda melhor a mansidão de Cavaco perante Jardim. Ele sabia que, mais tarde ou mais cedo, os seus amigos necessitariam da benevolência do soba insular para tentarem fazer chegar à Presidência do partido o Rui Costa do PSD. Resultará?

♪ José Mário Branco





Queixa das Almas Jovens Censuradas

segunda-feira, abril 21, 2008

Não há dúvida, é mesmo o Obama

Um retrato muito realista de Pedro Passos Coelho traçado por CAA no Blasfémias:

"Pode ser que eu esteja enganado. Mas o ar de PPC é de que nunca fez nada para além da política ou graças a ela. É um lídimo filho deste sistema partidário. Nunca lhe ouvi uma ideia. Uma originalidade. Apenas um discurso redondo muito bem embrulhado em vácuo e ostentando o sorriso dos vazios. Parece o adágio de uma imagem que costumo ouvir a um amigo: “depois de Marques Mendes qualquer um com as quotas em dia tem condições para liderar o PSD”."

Outro que não acredita no PSD




“Não havendo uma razão moral para ser imolado, prefiro continuar a fazer o que gosto”.

Leituras

• Alfredo Barroso, Jardim, Cavaco e a Democracia [Sol de 19 de Abril]:
    “Foi com surpresa que vi o Presidente da República invocar o «direito de reserva» - não o «dever» mas o «direito», note-se! – para se eximir a uma condenação pública do comportamento antidemocrático de Jardim. Não se quis meter em sarilhos, metendo na ordem o truão que governa a Madeira. Fez mal. Tal como fez mal em aceitar que fosse suprimida a habitual sessão solene da Assembleia Legislativa, o órgão de representação democrática por excelência. Cavaco Silva confirma, assim, a suspeita, gerada enquanto foi Primeiro-Ministro, de que também não aprecia especialmente parlamentos. Há sinais que perturbam e este é um deles. É lamentável que Jardim continue a ser o último a rir.”
• Miguel Sousa Tavares, Cavaco no estrangeiro:
    “A visita de Cavaco à Madeira é uma nódoa que não sairá tão cedo, um momento de vergonha e capitulação que veio manchar uma Presidência até aqui pacífica, louvada e isenta de riscos. Mas, na primeira vez em que tinha de correr riscos políticos e assumir-se como representante primeiro da nação portuguesa, Cavaco Silva mostrou a massa de que é feito.”
• Vicente Jorge Silva, Carta aberta ao Presidente da República:
    “Na Madeira, o senhor não foi — não soube ser — Presidente de todos os portugueses, como solenemente prometeu no início do seu mandato. E quem não o é — não o soube ser — na Madeira, poderá sê-lo noutros recantos do país? Eis a questão que, a partir daqui, é legítimo colocar.”

O porta-voz do conclave de Fátima




Os membros do Conselho Nacional do PSD não afectos à actual liderança bicéfala reuniram-se em Fátima para escolher um candidato à presidência do partido. No final, não houve fumo branco, mas, ao menos, os “conselheiros nacionais” chegaram a um consenso: ou Rui Rio ou Manuela Ferreira Leite, “os melhores posicionados para iniciar um período de maior estabilidade e dignidade no PSD.”

Macário Correia, o Ribau das elites do PSD, não esconde porém que estas duas hipóteses têm inconvenientes:

Imaginemos um professor universitário...

Um comentário muito apropriado de Rui Pena Pires no seu Canhoto a propósito de certas indignações selectivas fez-me imaginar uma outra possibilidade teórica: Imaginemos um professor universitário que aceita ou recusa o serviço docente que lhe é atribuído em função das conveniências do seu grupo parlamentar...

♪ Sérgio Godinho




Primeiro Dia

domingo, abril 20, 2008

Leituras

Tolentino de Nóbrega, correspondente do Público na Madeira, num comentário intitulado “A visita de Cavaco Silva à Madeira virtual”:
    «O Presidente da República deixa hoje a Madeira, depois de uma visita oficial a esta região autónoma envolta em polémicas.

    Desde o primeiro momento, como sempre fez, Alberto João Jardim, o governador e senhor da ilha, chamou a si o protagonismo da visita, antecipando-se a Belém na divulgação do programa a que mostrou não ser alheio.

    Nem precisava de fazê-lo. O formato seguido, completamente distinto dos roteiros empreendidos pelo Presidente da República pelo país profundo, fazia antever uma vista de glorificação da sua obra.

    Mais um tributo aos seus 30 anos de governação, acabados de completar, do que para assinalar os 500 anos, o motivo oficial da visita, que o Funchal irá celebrar no próximo dia 21 de Agosto. Para isso bastaria um dia, em vez de seis no arquipélago.

    Nesta primeira vista oficial, o Presidente da República deveria dirigir-se à Assembleia Legislativa da Madeira, o órgão primeiro da democracia e autonomia na região, e, como salientou nos Açores, "a morada do pluralismo", por excelência. Por seu turno, como órgão representativo do povo da Madeira e do Porto Santo, o Parlamento regional tinha obrigação de receber e saudar o Presidente de todos os portugueses. Como se não chegasse, ontem, Cavaco ainda agradeceu ao Presidente da Assembleia Legislativa a oportunidade que lhe concedeu de se dirigir aos parlamentares madeirenses num jantar no salão nobre da câmara onde proferiu a sua primeira intervenção política.

    Nessa qualidade, o Presidente da República não merecia ser envolvido na polémica com que Jardim armadilhou a visita, ao insultar e provocar a oposição como "bando de loucos", que Cavaco Silva aceitou receber, não na representação da República na região, o Palácio de São Lourenço, mas num hotel.

    Infelizmente, cenas que põem em causa a qualidade da democracia repetem-se numa região onde o Presidente disse não encontrar défice democrático. Porque, alegou, a haver, os seus antecessores teriam tomado medidas. Só que a complacência dos anteriores presidentes da República significam isso mesmo: violação e incumprimento de leis gerais da República, desrespeito por órgãos de soberania e por instituições do Estado, desconsideração pelas oposições e minorias que o poder regional ofende e a quem retira direitos fundamentais. Situações que o "sr. Silva" bem conhece e que o Presidente da República, como garante do funcionamento das instituições democráticas também na Madeira, não pode ignorar.

    Cavaco Silva optou por percorrer, a alta velocidade, a Madeira Nova de Jardim para apreciar obras megalómanas construídas pelas "tecnicamente falidas" sociedades de desenvolvimento que o Governo regional criou para ultrapassar os limites de endividamento. Por túneis, rotundas e vias rápidas, dificilmente poderia encontrar a outra Madeira, a dos atrasos económico-sociais. Onde vivem os madeirenses da exclusão social, do insucesso escolar, do elevado índice de abandono escolar e de analfabetismo, da toxicodependência, da criminalidade e da exploração sexual de menores.

    Uma realidade que, independentemente da obra que todos elogiam, põe em causa o modelo económico, social e político levado a cabo por Jardim na Madeira, região que enfrenta factores de bloqueio e esgotamentos muito fortes para os quais o Presidente da República deveria alertar. Uma realidade que, resultante de uma opção por Hardware e betão, em vez de software e aposta nos recursos humanos, pode significar um elevado desperdício de recursos públicos e má identificação de objectivos.

    Se não esteve na Madeira "como estrangeiro", como avisou à chegada, o chefe de Estado viu uma realidade virtual. O paraíso para inglês ver.»

Uma viagem lamentável


A legitimação das tropelias do Baby Doc




O Presidente da República fez uma visita à Madeira. Não é habitual que um presidente permita que o programa da visita não seja anunciado pela sua Casa Civil. Foi a primeira vez que um presidente da República — garante do funcionamento das instituições democráticas — não é recebido na Assembleia Legislativa e, apesar disso, ainda agradece, num jantar oferecido pelo presidente da Assembleia Legislativa, a oportunidade de ter podido contactar os deputados regionais. Não é admissível que o Presidente da República tenha recebido o governo regional e os representantes das associações patronais na sua residência oficial na Madeira, resignando-se a aceitar receber os partidos da oposição e os dirigentes sindicais, quase clandestinamente, num quarto de hotel. Não é aceitável que o Presidente da República, cuja assessoria andou a dar recados para os jornais de que faria menção ao “clima” que se vive na Madeira, se limite a fazer um discurso laudatório à “obra” de Alberto João no jantar oferecido pelo governo regional. Não é tolerável que o Presidente da República — garante da unidade nacional — não tenha tido uma palavra para as constantes ameaças independentistas da trupe de Alberto João.

Com algum cinismo, Cavaco negou a existência de “défice democrático” na Madeira, porque, se houvesse, disse, os seus antecessores teriam agido. Bem, se o seu modelo de presidência é o do receoso Jorge Sampaio, estamos conversados. E, ainda assim, quando se sabia antecipadamente dos programas das suas visitas, o ex-presidente tinha o cuidado de os alterar…

Alta-costura — diplomas feitos à medida




Em 1984, o Presidente da República, Ramalho Eanes, promulgou um diploma para assegurar uma reforma sem sobressaltos aos ex-presidentes da República — ou seja, uma lei feita então para si próprio.

Eanes, quando colocou a sua assinatura, não contou com os efeitos do populismo contra as “sinecuras” dos políticos — ao qual o PRD também viria a dar gás. Os vencimentos dos titulares de cargos públicos degradaram-se. A erosão da pensão dos ex-presidentes, calculada em função do vencimento do presidente da República, é consequência desta situação.

Eanes, que havia promulgado o diploma feito à sua medida, enviou recados. A Assembleia da República dispõe-se agora a fazer uma nova lei à sua medida: vai poder passar a acumular a pensão que usufrui como ex-presidente com outras pagas pelo Estado (no caso a de militar).

Em lugar de resolver problemas avulsos, não seria mais adequado que a Assembleia da República reapreciasse o quadro de remunerações dos titulares de cargos públicos?

Fintar a História

Gostava de estar na cabeça de um velho leitor do Avante! quando vê o seu jornal regozijar-se com a vitória dos maoistas no Nepal: Comunistas vencem Constituinte. Vale tudo para morrer devagarinho.

Está encontrado o Obama português

Lido no Público de hoje:

«António Nogueira Leite, ex-Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças [de um governo Guterres, recorde-se], vai ainda mais longe e diz que o PSD tem de "encontrar o seu Obama", referindo-se a [Pedro Passos] Coelho. "Pode contribuir para que haja no PSD um verdadeiro debate de ideias para o país", profetizou ainda o ex-mandatário de Cavaco Silva nas presidenciais.»

Parece que este tal Nogueira Leite milita nas "elites" do PSD.

O senhor candidato

Recorda Rodrigo Moita de Deus no 31 da Armada:

"Lembro-me de José Pedro Aguiar Branco como ministro da Justiça de Santana Lopes. Uma das primeiras medidas foi mandar reservar para si a porta principal do ministério. Os funcionários passaram a entrar pelas traseiras. Era evidente que alguém assim ia chegar longe."

Ora aqui está um homem de quem o país muito tem a esperar.

Uma coisa é certa: um peralvilho destes decerto não destoará na galeria de cromos que conta já com figuras tão eminentes como Santana Lopes e Luis Filipe Menezes.

♪ Cesária Évora & Marisa Monte




Mar Azul

sábado, abril 19, 2008

O homem que desfaz tabus




Na sexta-feira, tivemos direito a uma emocionada declaração de renúncia de Menezes: “Chega, basta!” Ainda os portugueses não se haviam recomposto do melodrama, já Ribau Esteves disparava:
    É preciso dar tempo para que todos apareçam e para que também saibamos — enfim, os que já sabemos temos de nos manter em recato, os que não sabem têm de gerir com a tolerância e paciência normal - qual vai ser a decisão do presidente do partido, se vai ser candidato ou não”.
Com receio de não ter sido suficientemente claro, o secretário-geral do PPD/PSD rematava:
    Estas coisas é como dizia o João Pinto — não sei se se lembram, um rapaz que foi defesa direito do campeão nacional, o Futebol Clube do Porto. Sempre dizia que `prognósticos só no final do jogo´. Nestas matérias também aconselho todos a viver isto com todo o interesse, e no fim teremos as respostas a tudo”.
Ontem, Menezes foi à SIC-N despedir-se de Mário Crespo. Ainda com os portugueses impressionados com a comoção, no final, do ex-líder, Ribau já anda por aí, de novo, a acalmar os mais impacientes:
    Se Luís Filipe Menezes for candidato, se a sua decisão for essa, tem o meu pleno apoio”.
Ele, que já sabe a decisão do chefe — mas que se mantém “em recato” —, avisa que está a formar-se uma “onda de solidariedade muito forte" com a atitude do líder demissionário e "muita gente absolutamente pronta e disponível" para apoiar uma eventual recandidatura de Menezes. Mais: "Mesmo muita gente que não o apoiou há seis meses atrás".

Assim, não há tabu que resista.

Voto de confiança

Independentemente de quem vier a ser o futuro presidente do PPD/PSD, João Miranda não tem dúvidas de que Sócrates vencerá as eleições de 2009.

Existisse o inferno


William-Adolphe Bouguereau, Dante And Virgil In Hell (1850)

♪ Jacinta




A Formiga no Carreiro

sexta-feira, abril 18, 2008

O voto é um dever cívico

Exactamente 283 leitores responderam ao inquérito sobre o nome a dar ao novo movimento cívico anunciado por António Borges. A designação ganhadora, preferida por 63% dos votantes, foi "Adeus Sachs Olá Portugal".

Temos agora uma nova e ainda mais excitante pergunta na barra da direita. Não deixe de cumprir o seu dever cívico.

Sopas de cavalo cansado

Como Ministra da Educação, semeou muitas das insanidades que o país está agora a desfazer. Como Ministra das Finanças, transformou uma crise orçamental num drama de proporções inimagináveis.

Se não entende a gravidade deste currículo, Ferreira Leite padece de insensatez. Líder do PSD, esse passado de fracassos não digeridos dificultar-lhe-ia ser sequer escutada.

Mas talvez a ideia dos notáveis seja sacrificar no altar das legislativas de 2009 uma mulher de palha que cumpra o ingrato papel de fazer esquecer Santana, Mendes e Menezes a tempo de eles poderem preparar-se com tempo para os desafios seguintes.

O PPD/PSD é mesmo assim…

Sá Carneiro marcou-lhe o estilo. Desde a fundação que o PPD/PSD é palco de cenas de faca e alguidar: conspirações, abandonos, regressos em ombros. O consulado de Cavaco foi a excepção que confirma a regra. Eis os presidentes do PPD/PSD desde 1974, revelando que estamos em presença de uma profissão de desgaste rápido:
    Luís Filipe Menezes (28 de Outubro de 2007)

    Luís Marques Mendes (10 de Abril de 2005)

    Pedro Miguel Santana Lopes (1 de Julho de 2004)

    José Manuel Durão Barroso (2 Maio de 1999)

    Marcelo Rebelo de Sousa (31 de Março de 1996)

    Fernando Nogueira (19 Fevereiro de 1995)

    Aníbal Cavaco Silva (19 Maio de 1985)

    Carlos Mota Pinto (25 Março de 1984)

    Nuno Rodrigues dos Santos (27 de Fevereiro de 1983)

    Francisco Pinto Balsemão (22 de Fevereiro de 1981)

    Francisco Sá Carneiro (17 de Junho de 1979)

    José Menéres Pimentel (2 de Julho de 1978)

    António Sousa Franco (29 de Janeiro de 1978)

    Francisco Sá Carneiro (24 de Novembro de 1974)

♪ The Show Must Go On




Leo Sayer & The Muppets

quinta-feira, abril 17, 2008

A instabilidade emocional prejudica gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam

Robert Longo



Para mim chega, basta.”

Conselheiros do PSD reúnem-se em Fátima.

Revisão da matéria dada [2]




    «As notícias sobre as grandes cedências do Ministério da Educação aos sindicatos de professores correm o risco de terem sido muito exageradas. Menezes, Portas, alguns comentadores e blogues vieram logo dizer que o verdadeiro ministro da Educação era Mário Nogueira da Fenprof e que Maria de Lurdes Rodrigues era a "ex-ministra". Depois veio Mário Nogueira, cinco segundos depois, ainda o acordo estava fresco, falar da "grande vitória", não fossem as pessoas aperceber-se de alguma coisa bizarra e perceber que a avaliação afinal continuava mais ou menos como estava.

    (...) Ora, homem sensato desconfia quando há tanta pressa de correr para a televisão a dizer que se ganhou e ainda por cima em grande. Homem sensato sabe como funcionam o PCP e os sindicatos, sabe como eles estavam num beco sem saída criado pela sua própria vitória. Depois de contribuírem para a gigantesca manifestação sabiam que não podiam dar continuidade à "luta" com uma greve e tinham que recuar. Homem sensato sabe que, por muito sucesso que a luta dos professores tenha tido, e teve, a seguir à manifestação viria um refluxo¹, como veio. Sabe o homem sensato e sabem melhor do que ele os sindicalistas profissionais. Homem sensato e com memória já viu muitas vezes como, para os comunistas e os seus sindicalistas, o mais importante não são os anéis, são os dedos. (...) Um precisava de parecer que ganhava e o outro de parecer que cedia. Foi por isso que, de repente, se chegou a um acordo que, pelos vistos, os "professores", citados pelos jornais, entendem como uma derrota e não como a "grande vitória". Percebe-se porquê: os professores que se manifestavam não queriam, na sua esmagadora maioria, nenhuma avaliação de desempenho, e vai continuar a haver avaliação. Eles sabem disso, os sindicatos sabem disso, a ministra sabe disso, o resto é coreografia.»
      José Pacheco Pereira, A lógica dos sindicatos e a lógica dos professores (na Sábado)
__________
¹ É evidente que a Fenfrop, empurrando os professores para um beco sem saída, dados os objectivos inconsistentes que propôs , não teria outra saída. Mas a referência ao “refluxo” é uma reminiscência “m-l” (até nas vésperas do 25 de Abril, as lutas dos trabalhadores estavam e continuariam a estar em “refluxo”, sustentavam os grupos que Pacheco Pereira conhece bem).

Revisão da matéria dada [1]




    «A avaliação de professores “não será adiada nem suspensa”. A garantia foi dada ontem pela ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que, acompanhada pelos seus dois secretários de Estado, Jorge Pedreira e Valter Lemos, informou os jornalistas das conclusões da reunião com o Conselho de Escolas.

    (…) A reunião de amanhã entre a tutela e a Fenprof “é a última oportunidade que esta equipa tem para provar que merece estar à frente do Ministério da Educação”. O ultimato foi lançado ontem pelo secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira. Sublinhando que a posição da ministra Maria de Lurdes Rodrigues ao negar a existência de abertura para rever o modelo de avaliação de desempenho é um “sinal negativo” – mesmo “depois de ter ouvido os conselhos executivos a dizerem que não existem condições” para o aplicar –, Mário Nogueira assumiu que “sem suspensão nada feito”. A Fenprof vai apresentar um documento onde exige que a avaliação “não se aplique a nenhum professor este ano, não decorra em nenhuma escola e que nenhum professor seja prejudicado”. “Qualquer documento que venha a ser construído na sequência da reunião só merecerá a concordância da Fenprof se for inequívoca a suspender a avaliação do desempenho” e se “consagrar que 2008/2009 será o ano da experimentação efectiva do modelo, para que no final desse ano haja uma renegociação”, disse. Deixou ainda o desafio: “Surpreendam-nos.”»

Telex de Silicone Valley




Vale do Jamor, 13H30 STOP accionistas e gestores do PSI-20, muitos STOP profissionais liberais e desempregados, mais STOP jornalistas, muitos mais STOP antigos desportistas e empresários da bola, alguns STOP Miguel Veloso e Djaló, também presentes STOP modelos, ex-modelos e candidatas a modelo, paletes delas em despique com balzaquianas a caminho da salvação STOP Estado simbolizado pela sua segunda figura STOP Portugal profundo representado por Rui Gomes da Silva STOP almoço sem incidentes enquanto Federer despachava Victor Hanescu STOP todos se viram STOP ninguém o viu.

Da série "Frases que impõem respeito" [148]

    “Há quem diga que o advogado nutre um fascínio tal por Francisco Sá Carneiro, ao ponto de considerar que tem algumas semelhanças com o malogrado primeiro-ministro: é do Porto, é advogado, é de boas famílias do Norte e tem a ambição de liderar.”

♪ Tom Waits




Tom Traubert's Blues

quarta-feira, abril 16, 2008

Relativamente à Lei Eleitoral Autárquica…

… faço minhas as palavras de Luís Marques Guedes, o ex-líder parlamentar do PSD. Depois de ter chegado a acordo com o PS, o PSD roeu a corda, pressionado por um grupo de presidentes de junta de freguesia, que não quer deixar de ter o direito de poder votar nas assembleias municipais o orçamento do município. É com esta gente que Menezes conta quando as directas forem impostas.

Um barco à deriva

Depois de Balsemão e Catroga, também Cadilhe fugiu a sete pés quando o PSD o quis incumbir de coordenar o famoso programa do partido (que já Marques Mendes não conseguiu que alguém o escrevesse).

Em simultâneo, o cerebral Mota Amaral decide sair pela porta das traseiras do Instituto Francisco Sá Carneiro. Resta-nos a consolação de que Ribau, tomando-lhe o gosto, emitiu um comunicado a assegurar que Mota Amaral mantém o apoio à actual direcção: “não faz qualquer sentido a referência de afastamento político do doutor Mota Amaral em relação à actual liderança do PSD, pelo contrário”. O demissionário não costuma correr riscos em política.

5-3

O administrador-delegado do BES no Sporting, Filipe Soares Franco, uma espécie de governador-geral (como nas antigas colónias) dos empréstimos do banco, foi especialmente feliz na véspera do jogo com o Glasgow Rangers, ao declarar que importantes eram os jogos do campeonato e não os da Taça UEFA. Os jogadores assimilaram a mensagem e cumpriram escrupulosamente a directiva presidencial.

Na véspera do jogo com o Benfica para a Taça de Portugal, Soares Franco repetiu a receita. Aparentemente, a mensagem não chegou, desta vez, ao grupo de trabalho — ou os jogadores decidiram ignorar mais este disparate. Para ser coerente, o governador-geral deveria agora mandar instaurar um inquérito à insubordinação colectiva a que o país assistiu esta noite em directo. Entretanto

Leituras

• Dani Rodrik, Armas, medicamentos e mercados financeiros:
    “A crise dos empréstimos de alto risco (“subprime”) demonstrou, uma vez mais, como é difícil “domesticar” o sistema financeiro, uma indústria que é a tábua de salvação das economias modernas e, ao mesmo tempo, a sua mais séria ameaça.”
• Tiago Mendes, Para além do indivíduo:
    “O ‘team resoning¹ reasoning’ é uma característica essencial do homem, concomitante da identificação grupal, e influenciada pelo modo como evoluímos.”
• Vital Moreira, Quando a regulação falha:
    «A confiança na “mão invisível” do mercado livre dificilmente poderia ser mais baixa do que é neste momento.»
__________
¹ Uma gralha do DE detectada pelo Autor.

Da série "Frases que impõem respeito" [147]

    “Jornal de Negócios cresce 50% nas audiências e já é líder nas classes altas.”

Uma história que fala por si


— Luís, quando deres cabo do Tribunal Constitucional, não te esqueças do STA...



Em 30 de Março de 2001, houve uma greve de professores convocada pela FENPROF. Mário Nogueira — então professor e dirigente do Sindicato de Professores da Região Centro (SPRC), pertencente à FENPROF — participou na greve. Consequentemente, a respectiva escola descontou-lhe um dia de vencimento.

Mário Nogueira, indignado, entendeu que, apesar de ter feito greve, tinha direito à remuneração desse dia, uma vez que era sindicalista.

Não pretendo entrar aqui na discussão sobre se sindicalismo é ou não trabalho. Mas parece-me meridianamente evidente que, se o sindicalista Mário Nogueira fez greve — e tinha todo o direito de a fazer —, então faltou ao trabalho. E se faltou ao trabalho, não deve receber a correspondente remuneração.

É isso, de resto, que acontece com todas as pessoas que fazem greve. A sua falta é justificada, uma vez que corresponde ao exercício de um direito constitucional, mas é-lhes descontada a remuneração correspondente a um dia de trabalho.

Mário Nogueira, porém, não se considera um trabalhador como os outros. Entende que, pelo facto de ser sindicalista, pode fazer greve remunerada. Isto é, o Estado deve pagar-lhe para fazer greve. E tanto acha isso que recorreu para os tribunais administrativos do desconto no vencimento.

Claro está que o Supremo Tribunal Administrativo teve de explicar ao professor Mário Nogueira que, como diziam os romanos, ubi commoda, ibi incommoda, isto é, quem retira as vantagens deve suportar os respectivos inconvenientes. Mas Mário Nogueira não deve ser professor de Latim e, para si, prefere antes a expressão, em inglês, all the gain and no pain — que é como quem diz, em linguagem jurídica, um claro abuso de direito. Segundo as palavras do próprio acórdão:
    “A tese defendida pelo Recorrente contencioso determinaria uma situação em que a dispensa do serviço correspondia a uma licença especial com vencimento ou, dito de outro modo, configuraria uma situação em que o dirigente sindical ficava dispensado de todos os deveres escolares e só prestaria os serviços para que fosse especialmente convocado e, apesar disso, continuaria a receber a sua remuneração como se estivesse ao activo. Ora essa situação não encontra previsão nem naquele DL nem no referido Despacho”.
Inconformado, Mário Nogueira ainda recorreu, desta feita para o pleno do STA. E os Juízes Conselheiros lá tiveram de voltar a explicar o b-á-bá: quem não trabalha, não recebe remuneração. Novamente, Mário Nogueira levou sopa — e ainda foi obrigado a pagar uma taxa de justiça de 200 €, bem mais do que a dedução de 11.390 escudos que havia sofrido no seu salário em virtude do dia de greve.

♪ The National




Fake Empire

terça-feira, abril 15, 2008

Blasfémias pouco encorpadas




1. “(…) Agora a Espanha até tem uma ministra da defesa. Está grávida de 7 meses (…). As mulheres estão a chegar à política e já descobriram a sua vocação. Dão um belo objecto de decoração ao serviço [de] primeiros-ministros com gosto pelo efémero, o simbólico, o moderno e o inconsequente. Suspeito, no entanto, que desta vez o efeito acabará por se esvaziar muito rapidamente.” Um evidente eufemismo de João Miranda (num post aparentemente misógino), que não desconhece certamente que “o efeito acabará por se esvaziar” em dois meses — no cenário mais pessimista.

2. O Banco de Portugal divulgou o Boletim Económico da Primavera. Carlos Loureiro cita uma notícia em que se sintetiza o teor do boletim. Não estando o extracto reproduzido (sequer) descontextualizado, é caso para dizer, em relação aos breves comentários de Carlos Loureiro, que a bota não bate com a perdigota.

3. Estava a concordar com o que CAA aqui escreve, quando me pareceu que, no remate final, o autor se coloca deliberadamente fora-de-jogo:

    “Braga da Cruz [reitor da Católica], se continuar a falar como o tem feito, arrisca-se a ser para a Igreja aquilo que Rui Gomes da Silva é para o PSD: um excelente argumento ‘a contrario’, um penoso embaraço que ainda não se pode desmentir publicamente enquanto todos rezam para que se cale.”
Tendo em conta que, nos últimos tempos, Rui Gomes da Silva apenas abriu a boca por uma vez, para dizer umas alarvidades na tal conferência de imprensa convocada à meia-noite de sexta-feira, não se percebe por que são deixados de fora Agostinho Branquinho e Ribau Esteves, cujas declarações não foram menos abjectas do que as do n.º 2 do PSD — isto para não falar das responsabilidades de Menezes, que consta ser ainda o líder do partido. Há também uma guerra Norte/Sul no seio do actual PSD?

Viagens na Minha Terra

Leituras

Joseph E. Stiglitz, A economia dos EUA está doente:
    “Os EUA tiveram, pela primeira vez desde a Guerra da Independência, há cerca de 200 anos, de pedir apoio financeiro ao estrangeiro porque os níveis de poupança das famílias norte-americanas são próximos de zero. A dívida pública aumentou 50% em oito anos, sendo que 1 bilião se deve ao esforço de guerra – valor que deverá mais do que duplicar na próxima década.

    Ninguém acreditaria que uma administração pudesse causar tantos danos em tão pouco tempo. Os EUA e o mundo vão ter de pagar a factura durante muitos e longos anos.”
Teodora Cardoso, Desafios:
    “No debate interno continuamos a assistir a um inacreditável crescendo de demagogias (…). É mais do que tempo de imprimirmos alguma seriedade à política, sob pena de agravarmos as consequências internas dos problemas internacionais e deitarmos a perder as vantagens que, apesar de tudo, tirámos dos sacrifícios dos últimos anos e que se reflectem na maior credibilidade financeira do País, num momento em que ela se tornou no mais valioso dos activos.”

Da série "Frases que impõem respeito" [146]

    “…Vitorino Guerra, que pertence ao movimento que organizou as várias manifestações espontâneas…”

♪ Tim Buckley




Dolphins (de Fred Neil)

segunda-feira, abril 14, 2008

Política suja




Depois de Branquinho, depois de Gomes da Silva, é a vez de Ribau Esteves subscrever hoje um comunicado absolutamente vergonhoso sobre Fernanda Câncio. Pergunta-se aqui:

    “Independentemente do nojo da coisa, a questão que se me coloca é: estes senhores vêm com cérebro incluído?”
Vêm, vêm com qualquer coisa debaixo do cocuruto — e estão a repetir o que o PPD/PSD fez na campanha eleitoral de 2005: política suja, muito bem analisada então por Nuno Guerreiro a 9133 Km de distância.

Quando não se tem uma política alternativa para o país, e se é intelectualmente miserável, o único recurso disponível é a política suja. Foi isso que o PPD/PSD fez em 2005, é isso que o PPD/PSD está a fazer agora (sem esquecer que Marques Mendes também sulcou essas águas).

O recurso à desinformação e à calúnia joga com a circunstância de, não tendo as pessoas tempo nem paciência para analisar com atenção o que está em causa, poder ficar sempre algo a zumbir no ouvido ("não há fumo sem fogo") — deixando abalada a probidade dos visados.

O PPD/PSD sabe que está numa situação muito delicada: sem uma ideia para o país, estando a liderança cercada internamente, o objectivo máximo de Menezes e Santana (ou vice-versa) é impedir a maioria absoluta a Sócrates. A nova campanha suja só agora começou a dar os primeiros passos.

Adenda Comunicado do Sindicato dos Jornalistas: SJ repudia perseguição do PSD a jornalista.

Quem semeia ventos…

Parece que Mário Nogueira está metido em trabalhos. Está explicado aqui, aqui e aqui.

Democraticidade das eleições no Zimbabué

Jerónimo de Sousa: “(…) é bom lembrar que a democraticidade das eleições foi posta em causa, mas depois perante os resultados logo surgiu a exigência da sua imediata divulgação (…)”. Pois, 16 dias depois, os resultados das eleições continuam democraticamente fechados a sete chaves.

Em Roma sê romano?

Tolentino de Nóbrega, no Público, comenta (“Sob o florido tapete”) a visita do Presidente da República à Madeira:
    «(…) O reverso da medalha, da moeda boa ou má, só deverá ser mostrada quando receber os partidos da oposição, a pedido destes e não por sua iniciativa. Vai fazê-lo na quase clandestinidade do hotel onde está hospedado e não institucionalmente, como faz com o governo regional e patronato, na representação da República no Funchal, no Palácio de S. Lourenço, também interdito aos representantes dos trabalhadores.

    Para "manter contactos com as realidades económica, social e cultural da Madeira e Porto Santo", o programa da visita teria de ser outro.

    Poderia até seguir o formato dos roteiros que o Presidente da República, excepcionalmente, não adoptou nesta visita, e ter, por exemplo, a inclusão social como tema, incontornável numa região em que um terço da população vive, segundo o Plano Nacional de Acção para a Inclusão 2006/08, em risco de pobreza.

    O Presidente da República também não deveria prescindir de uma sessão na Assembleia da Madeira, pelas razões que invocou nos Açores: "Um parlamento é, por essência, a morada do pluralismo. Os representantes do povo, aqui reunidos, pertencem a diversas forças partidárias, perfilham sensibilidades ideológicas distintas, têm ideias próprias quanto aos destinos desta região autónoma. A nobreza do trabalho parlamentar decorre justamente da capacidade de representar de modo frutuoso a pluralidade das opiniões e das tendências existentes numa sociedade".

    Mas o Presidente da República aceitou passar sobre o florido tapete que Alberto João Jardim estendeu e sob o qual esconde questões essenciais como a qualidade da democracia, a situação das contas públicas e o modelo de desenvolvimento adoptado na região.

    E o presidente do governo regional desenrola o tapete na tentativa de encontrar no ex-"Sr. Silva" - cuja "ida para Belém seria nociva ao país e o PSD", agora apressadamente, no congresso próximo da vista, declarado "referência de Estado" (todas citações de Alberto João Jardim)- um aliado para, na previsível e já fastidiosa estratégia, "combater o inimigo externo", neste caso o Governo de Sócrates, atribuindo-lhe todos os males que fustigam a região.»
Cavaco Silva, a mais recente vítima do défice democrático na Madeira?

A NH segundo Joaquim, discípulo de Pedro

Pedro Arroja participa num blogue no qual escreve em estrangeiro. Joaquim, que o tem por “um verdadeiro mestre”, lê com “imensa atenção” as palavras de Arroja, e aproveita para as traduzir para português, enriquecendo-as com uns breves comentários.

Estão em discussão as “conclusões de dois anos de reflexão sobre o liberalismo” do “Prof. Pedro Arroja” e o modo como “essas conclusões se encaixam no âmbito da natureza humana (NH), que é para mim [Joaquim] um teste fundamental do realismo político”.

Os dez mandamentos de Arroja na tradução de Joaquim podem ser consultados aqui. A gente lê e convence-se que está num blogue humorístico bilingue.

Da série "Frases que impõem respeito" [145]

    “Não sei o que me indigna mais: se a insistência da direcção do PSD em enlamear-se com atitudes destas, se o silêncio ensurdecedor de algumas almas que se consideram de esquerda e estão sempre prontas para pregar moral aos outros.”
      António Dornelas, num post intitulado Até onde irão?, sobre a relação laboral da jornalista Fernanda Câncio com uma produtora contratada pela RTP

♪ Low





Point of Disgust

domingo, abril 13, 2008

Sabia que a China é tão democrática quanto a Espanha?

Hoje, não tive tempo. Talvez amanhã valha a pena voltar à entrevista do presidente vitalício do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público à TSF, que hoje o DN reproduz. Mas, no meio daquela habitual conversa redonda, há momentos notáveis, como aquele em que não encontra diferenças entre o regime democrático na Espanha e o regime totalitário na China:
    TSF/DN — Se a decisão fosse sua, Portugal participaria nos Jogos Olímpicos de Pequim?
    António Cluny — Não vejo problemas. Por essa ordem de ideias teríamos de estar a pensar, se houvesse Jogos Olímpicos em Espanha, na situação no País Basco. E esse raciocínio pode fazer-se em muitos outros sítios do mundo (…).

Homeless

    “Só mesmo no PREC se viu tanta direita sem abrigo. (…) Essa direita inorgânica e órfã, que passeia as suas penas rua-abaixo, rua-acima, vai ter de se decidir. Ou compra o burro como está, e albarda-o à sua vontade, ou parte para outra.”

♪ Bob Dylan





Lay Down Your Weary Tune

sábado, abril 12, 2008

The man who shot Karl Marx (ou o corte epistemológico de Louçã)




    “Diversas condições têm, porém, de ser preenchidas para que o possuidor de dinheiro se depare com a força de trabalho, como mercadoria, no mercado. A troca de mercadorias não inclui, em si e por si, quaisquer outras relações de dependência para além das que brotam da sua própria natureza. Neste pressuposto, a força de trabalho, como mercadoria, só pode aparecer no mercado na medida em que — e porque — é posta à venda ou vendida como mercadoria pelo seu próprio possuidor, a pessoa de quem ela é força de trabalho. Para que o seu possuidor a venda como mercadoria, tem de poder dispor dela, ser portanto proprietário livre da sua faculdade de trabalho, da sua pessoa. Ele e o possuidor de dinheiro encontram-se no mercado e enfrentam-se um com o outro como possuidores de mercadorias de igual condição, só distinguíveis por um ser comprador, o outro, vendedor (…).”
      Marx, O Capital, Livro Primeiro, Tomo I, Edições Avante! – Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1990, p. 194
    “Mais, dans le système du capital, on n’échange pas le travail vivant contre le travail passé à titre de valeurs d’échange, en les considérant comme identiques, de sorte qu’une même quantité de travail sous forme matérialisée correspond à la valeur — ou constitue l’équivalent — d’une même quantité de travail sous forme vivante. Au contraire, ce qui est échangé, c’est le produit et la force de travail, qui est elle-même un produit.”
      Marx, Fondements de la critique de l’économie politique, II, Anthropos, Paris, 1968, p. 73

Rui Pena Pires reparou nisso ontem, ao ver o Expresso da Meia-noite. Eu vi o programa esta tarde e confirmei que, para Louçã, o trabalho, ou a força de trabalho (como Marx lhe chamava), já não é uma mercadoria: “O trabalho não é um mercado (…) Há uma economia do trabalho, o que é uma coisa diferente.” Aquilo a que M. Morishima chamava o “teorema marxista fundamental” ruiu de uma penada… “A metamorfose da crisálida em borboleta” volta a ser um mistério.

Viagens na Minha Terra

• Eduardo Pitta, PRINCÍPIO MORAL?:
    “Enfim, desde Salazar que membros do governo transitam de São Bento para empresas privadas. As sinecuras douradas não foram inventadas agora. O que a democracia inventou foram as cátedras (é maneira de dizer) em “Ciência Política”, e outras frioleiras, que as universidades privadas oferecem a ex-governantes pouco menos que analfabetos. Isso não comove ninguém.”
• João Rodrigues, Ainda há diferenças:
    “Em média, durante as administrações republicanas, os mais pobres tiveram um crescimento anual do seu rendimento, em termos reais, de 0,5% e os mais ricos de 2%. A desigualdade de rendimentos tende então a aumentar quando o presidente é republicano. Pelo contrário, durante as administrações democratas, os mais pobres tiveram um crescimento médio anual real do seu rendimento acima de 2,5% e os mais ricos de 2%. A curva democrata é descendente, ou seja, a desigualdade tende a diminuir quando o presidente é democrata.”
• João Tunes, O PIROTÉCNICO DOS PROFESSORES:
    “Há um acordo entre governo e sindicatos. Porque razão aparece, antes dos mais, um partido a deitar foguetes e a apanhar as canas? (…) Há controleiros que não conseguem conter a euforia pela instrumentalização dos sindicatos.”
• José Medeiros Ferreira, Cautela e caldos de galinha...:
    “O caso da anunciada nomeação de Jorge Coelho para o conselho de administração da Mota -Engil lá aparece como não podia deixar de ser. Não sou partidário dessas «transferências», embora haja outras muito mais subtis e contaminadas do que esta que me parece quase um hino à transparência. Penso explicítamente naquele grupo de gestores que foram nomeados pelo Estado para as Empresas Públicas em trânsito para a privatização - bancos sobretudo - e que depois continuaram nesses cargos e nessas empresas depois destas privatizadas. Nessa altura todos os «bem-pensantes» acharam a coisa natural...”
• Miguel Marujo, Rasganço:
    “Se a Lusoponte assinou um contrato com o Estado claramente desvantajoso para o País, e muito bom para a empresa, com Ferreira do Amaral ministro (e Cavaco seu primeiro-ministro), é necessário responsabilizar judicialmente o(s) antigo(s) governante(s) por lesa-Estado. Depois, rever o contrato com a empresa - rasgar os papéis. Por que há-de o Estado - ou seja, todos nós - pagar por um mau contrato, que tem assinatura identificada?”
• Rui Pena Pires, Economicismos:
    “(…) a avaliação das políticas de educação deve ser aferida por outros indicadores que não os usados por André Freire: o gasto não é um resultado mas um recurso para produzir resultados, pelo que, no limite, é possível gastar mais e ter piores resultados, ou seja, ter piores politicas com mais despesa. Na educação, e no estado em que Portugal está, a avaliação do sucesso ou insucesso das políticas tem que ser feita com indicadores de resultados, não de meios.”