domingo, fevereiro 28, 2010

Ai Dr.ª Manuela, assim o seu afilhado não vai longe


Lei n.º 85/2009, de 27 de Agosto



Com aquela desinibição com que diz tudo e o seu contrário, Paulo Rangel descobriu deste vez a pólvora: “É muito mais importante o pré-escolar como princípio da formação. Como princípio das bases, esse é que devia ser obrigatório, mas é mais caro, porque a rede pré-escolar não está ainda ao alcance de todos”. E também se ouviu o candidato que veio de Bruxelas para salvar o país proclamar ontem na televisão que, ao menos, a obrigatoriedade de frequência do ensino pré-escolar se faça a partir dos cinco anos.

Embora tenha opinião sobre tudo e mais alguma coisa, Rangel não estuda, não se prepara. Ele não sabe nem desconfia que a Assembleia da República aprovou um diploma que estabelece o regime da escolaridade obrigatória para as crianças e jovens que se encontram em idade escolar e consagra a universalidade da educação pré-escolar para as crianças a partir dos cinco anos de idade. E esse diploma foi preparado quando era ele líder da bancada laranja.

Panthera leo



Voltei a gostar de futebol. Mas este blogue continua a ser uma leitura diária.

E fazem os ninhos com mil cuidados...


Entertainment news: ainda sobre a falta de memória

O panegírico ao Prof. Marcelo no Público de hoje é uma coisa de se lhe tirar o chapéu. Vítor Matos nota, e bem, que a jornalista do Público não é exaustiva na descrição do percurso do político-comentador-jurisconsulto-professor.

Mas, paradoxalmente, da leitura do post de Vítor Matos pode ficar-se com a ideia de que a carreira política do Prof. Marcelo (a do afilhado) começou com a criação do PPD, após o 25 de Abril. Não terá sido bem assim.

Por outro lado, o post contém uma imprecisão quando se diz que Marcelo «se tornou "criador de factos políticos" até ir para o Governo de Balsemão». É que se dizia então que Balsemão o convidara para o Governo na vã esperança de que a paralisia da actividade governativa fosse compensada pela criação de “factos políticos”, seja lá isso o que for.

Ou a bem ou com a moca de Rio Maior — eis o que a Marmeleira tem para nos oferecer


Pacheco sobre Sócrates:
Ele não acabará bem, nem a bem.


Conformado que está de que através de eleições não é possível alçar-se ao poder, Pacheco Pereira gizou um plano alternativo, de que nos dá vagamente conta no Público de ontem.

O diagnóstico do filósofo da Marmeleira está feito: “Eu estou próximo do pessimismo sobre a situação económica e a evolução rápida do país para um abismo evidente, que muitos economistas, a começar pelo mais emblemático no seu pessimismo, Medina Carreira, têm mostrado.

Ora, descontado o pormenor de não ser economista, Medina Carreira disse-nos recentemente que não se contentava com a proposta (da Dr.ª Manuela) de suspensão da democracia por seis breves meses para pôr tudo na ordem. O homem “mais emblemático no seu pessimismo” quer um outro regime mais duradouro, comandado por alguém da estirpe de um Duarte Pacheco.

José Pacheco Pereira antevê alguns obstáculos a esta proposta de passar da democracia para a ditadura, pelo que ainda dá uma oportunidade aos portugueses de irem, “em democracia”, ao encontro dos seus anseios: “De novo é no PS e no PSD, principalmente nestes dois partidos, que existe a única possibilidade de a crise anunciada, e de novo insisto, com lucidez, poder ser resolvida em democracia, ou quando muito mitigada.

Ou seja, Pacheco concede que podemos evitar “com lucidez” um golpe de Estado se três pequeninos golpes de Estado tiverem, em simultâneo, êxito:
    1.º Apear Sócrates a bem ou a mal, embora Pacheco não duvide que terá de ser à bruta: “Ele não acabará bem, nem a bem”;
    2.º Fazer ver ao PS, “que ganhou as eleições e tem legitimidade para governar”, que poderá continuar a governar se aplicar o programa do PSD (da facção Manuela Ferreira Leite);
    3.º Pôr o dedo no nariz ao aparelho laranja, convocando-o a escolher o fala barato que veio de Bruxelas, a fim de o PSD se preparar “para um cenário eleitoral para que vá sem receios” [o estilo escorreito é o da Marmeleira sem tirar nem pôr].
O que Pacheco nos garante é que as sucessivas campanhas sujas têm de produzir resultados. Lá para os lados da Marmeleira, já se calçam botas cardadas. O PSD de Pacheco Pereira desistiu de ser um partido político.

Leituras [4]

• António Barreto ao Expresso de ontem [via Eduardo Pitta]:
    Não é possível viver com um sistema em que algumas pessoas na Procuradoria ou na magistratura judicial condicionam a vida nacional de uma maneira insidiosa, sub-reptícia, clandestina e eu acho que paga. Acho que há pessoas que estão a ganhar fortunas para vender informações em segredo de justiça. Não há outra explicação. [...] E a nossa vida há meses que está condicionada por estes processos. É um estado de degradação da vida judicial e parece que não há solução.

Leituras [3]

• A. Marinho e Pinto, O estado de direito:
    A forma é inimiga jurada do arbítrio e qualquer cedência nessa matéria será um passo em direcção à arbitrariedade.

    Por isso, no dia em que se aceitar como lícito que jornalistas possam disfarçar-se de sujeitos processuais para retirar dos processos judiciais transcrições de escutas telefónicas para as publicar nos seus órgãos de informação, então é de temer que no futuro se ordenem escutas para serem divulgadas em órgãos de comunicação social.

    Igualmente, no dia em que se aceitar que escutas telefónicas feitas em processo penal (e aí consideradas irrelevantes) possam ser aproveitadas para a luta política, então não demorará muito a haver escutas telefónicas para fins políticos.

    No limite, poder-se-ia dizer que no momento em que se aceitar que um terrorista possa ser torturado para revelar onde colocou a bomba é certo que daí para a frente muitas outras pessoas - terroristas ou não - irão ser torturadas para revelarem o que não sabem.

    Quando não se olha a meios para atingir certos fins, por muito lícitos e relevantes que eles sejam, então entra-se no domínio do fundamentalismo. Na história da humanidade, alguns das piores atrocidades foram feitas em nome dos fins mais altruístas e, pior do que isso, muitas vezes foram levadas a cabo por pessoas imbuídas da maior generosidade.

    O estado de direito é assim. Imperfeito e frágil. Ou o respeitamos sempre, apesar das suas imperfeições e fragilidades ou acabamos por torna-lo ainda mais imperfeito e frágil.

♪ Some Girls (1)


Caroline Henderson

Grandes mistérios do Universo [73]



Questão colocada por José António Barreiros, advogado de um dos acusados no caso Portucale: “Estamos com um traficante [de influências] sem traficando?

_________
Leituras complementares:

Prémios de Edição Ler/Booktailors



Leituras [2]

• Fernanda Palma, Desobediência justificada?:
    Pode um jornal publicar escutas de um processo em segredo de justiça ou desobedecer à providência cautelar decretada por um tribunal? Haverá justificação conferida pela liberdade de imprensa e pelo interesse público, porque as escutas revelariam uma conspiração para dominar a comunicação social?

    (…)

    O segredo de justiça tem uma dimensão pública e outra privada. A primeira refere-se à boa condução da investigação criminal e à preservação do processo de pressões exteriores. A segunda respeita ao interesse dos visados e pretende salvaguardar o seu bom nome e a reserva da vida privada.

    (…)

    A justificação teria cabimento se a escuta revelasse que se iria praticar um crime ou que fora praticado um crime ao qual a justiça fechou os olhos. Mas se um processo corre nos tribunais, sem sinais de corrupção ou inépcia dos magistrados, a publicação não parece o meio necessário e adequado de realizar o interesse público.

    A liberdade de imprensa não impõe que, tendo sido decretado o segredo de justiça pelo interesse da investigação, os dados do processo sejam expostos em público. A liberdade de imprensa é essencial em democracia, mas não é um valor cego, absoluto e incomensurável. Tem de ser conciliada com outros valores.

    A violação das normas e das decisões tomadas pelos tribunais é algo que os próprios tribunais – e só eles – devem julgar. Ao fazê-lo, não podem recear intervir contra a corrente ou contra quaisquer grupos de pressão. Se assim suceder, estará em risco a separação de poderes e o Estado de Direito Democrático.

Leituras [1]

• Emídio Rangel, As presidenciais:
    Fernando Nobre fez um discurso no monumento aos Descobrimentos que sensibilizou muito boa gente, gente que não se revê na política e nos políticos, gente desiludida com a actuação partidária e que gostaria de envolver-se numa candidatura anti-sistema que mobilizasse grande parte dos cidadãos. Mas não vai ser fácil Fernando Nobre conseguir os seus objectivos. Em primeiro lugar porque Cavaco Silva, à partida, conta com o voto empenhado do CDS e do PSD, enquanto Manuel Alegre fixará o apoio do PS e do Bloco de Esquerda.

    Em segundo lugar, porque o seu discurso preferiu uma via fácil, criando um fosso entre ele e os políticos ‘profissionais’. Veio à memória de muita gente o PRD e o discurso moral, que se saldou num desastre. Fernando Nobre fez um discurso galvanizante mas não passou o Rubicão. Agora pode começar a perder velocidade até às presidenciais.

'Blackout' na Marmeleira

- Ó Rangel, põe aí no Manifesto: "Acabar com a golden share na EDP".

sábado, fevereiro 27, 2010

Ah, a São Caetano já é uma saudade de pedra

Quando a Dr.ª Manuela é convidada para um almoço numa câmara do comércio, os jornalistas amontoam-se, porque é certo e sabido que vem a caminho uma manchete: “estamos rigorosamente no mesmo caminho [da Grécia]”. E todos sabemos que, em seguida, a Dr.ª Manuela ou o seu intérprete da Marmeleira rectificarão o que foi dito. Desta feita, foi a própria líder: “Isso seria se eu dissesse que nós estamos exactamente na posição da Grécia e não foi isso que eu disse. Aquilo que eu disse foi que, se nada se fizesse, então com certeza que iríamos no mesmo sentido”. Mais: tudo o que a senhora disse foi para dar uma “ajuda ao Governo.”

Aqui chegados, os dez milhões de portugueses ficaram com os olhos postos na discussão na especialidade do Orçamento do Estado para 2010, à espera dos inestimáveis contributos do PSD para inverter o “caminho”. Que fez a Dr.ª Manuela? Passou pelo parlamento e proibiu os deputados do PSD, contrariamente ao que era habitual, de apresentarem propostas de alteração ao Orçamento. Estarmos “rigorosamente no mesmo caminho” da Grécia foi só para francês ouvir.

Atenuantes para o desespero do pequeno grande arquitecto

          “Se o novo jornal avançasse, teria necessariamente por objectivo liderar o mercado, o que implicaria bater o Expresso e destroná-lo do lugar ‘histórico’ que ocupava”.


Leituras [6]

Excertos da entrevista a Miguel Sousa Tavares (na revista do CM de ontem):
    CM: Os casos de Manuela Moura Guedes e Mário Crespo não foram censura?

    MST: Você acha? Há um director de jornal que recusa publicar uma crónica e no dia seguinte o texto está no site do Instituto Sá Carneiro e uma semana depois editado em livro. Eu já vivi num país com censura, já conheci países com censura, e não me lembro de censura assim. E quando vejo a Manuela Moura Guedes ter direito a 20 minutos em directo do telejornal para dizer que há censura... Sinceramente, tomara a líder da oposição birmanesa.

    CM: O que se passa então agora entre a classe política e a classe jornalística?

    MST: Penso que é preciso dar nas vistas, isso é que vende jornais. Há uma confusão de conceitos, que não sei se é voluntária, se é negligente, mas que está a ser feita de forma leviana. Expressões como ausência de liberdade, ditadura, são demasiado graves para serem usadas porque um director de jornal recusou publicar uma crónica do Mário Crespo sem que este revelasse qual era a sua fonte. Eu já fui director e não publicaria uma coisa baseada em fontes anónimas de restaurante. Não pode ser.

    (...)

    CM: Mas a sua crítica é ao facto de virem a lume conversas que estavam em segredo de justiça?

    MST: Isso é o ponto n.º 1. Ponto n.º 2 é como se faz um jornalismo com base nisso. Se me tivesse chegado à mão, eu pedia ao jornalista que investigasse. Não publicava assim. Agora, ter um amigo no Ministério Público ou na Polícia Judiciária que, à socapa, lhe manda o processo das escutas não tem nada de investigação.

    (...)

    CM: Quando terminou o "Jornal Nacional de 6.ª", disse que era o fim do "jornalismo nacional de manipulação"...

    MST: E disse que era um atentado à liberdade. Nunca vi, em nenhuma televisão do mundo, um jornal como aquele.

    CM: Considera que esteve demasiado tempo no ar?

    MST: Acho que nunca deveria ter estado no ar. Pense-se o que se pensar do actual primeiro-ministro, aquilo era um jornal para atacar uma pessoa concretamente. E às vezes perguntava por que não se fazia uma emissão contra o Paulo Portas ou a Manuela Ferreira Leite, outra contra o Jerónimo de Sousa ou o Louçã. Não há nada? Porque não investigam os submarinos ou os dinheiros da Festa do "Avante!". Lembro-me de ter dito à [jornalista] Ana Leal: o que acontece ao vosso jornal no dia em que o Sócrates for absolvido? O jornal morre por falta de objecto. O caso Freeport dura há seis anos por uma única razão: porque ainda não conseguiram entalar o Sócrates. Se fosse o Zé dos anzóis já tinha sido arquivado. Acho inconcebível que um primeiro-ministro viva sob suspeita de corrupção durante seis anos e que os contribuintes estejam a pagar esta investigação. Nós não podemos ser governados por alguém que não sabemos se é corrupto ou não. O Ministério Público tem obrigação de, rapidamente, apurar aquilo. Ou tem, ou não tem indícios. Agora, permitir que o primeiro-ministro seja queimado em lume brando na imprensa enquanto eles arrastam o processo à pesca à linha, a ver se alguém morde o anzol, é inconcebível. Eu não quero ser julgado assim. Não quero ter um primeiro-ministro julgado assim.

Leituras [5]

• Martin Wolf, Não é fácil sair do pântano:
    Qualquer pessoa que observe a economia mundial com atenção percebe que o estímulo monetário e orçamental sem precedentes em tempos de paz é, na prática, o único impulso à economia nos países de rendimento elevado e nos principais países emergentes.

    (…)

    O mundo pode libertar-se dos constrangimentos da dívida elevada de duas formas: mediante um forte crescimento do investimento público e privado nos países deficitários ou através do aumento da procura nas economias emergentes. No primeiro caso, os rendimentos mais elevados no futuro permitiriam sustentar o crédito no presente. No segundo, as poupanças geradas pela desalavancagem do sector privado nos países deficitários fluiriam naturalmente para as economias emergentes.

Leituras [4]

• Paul Krugman, A rapaziada das falências:
    Para os leitores que não sabem de que estou a falar, eu explico: desde o tempo de Reagan que o Partido Republicano é gerido por gente que quer um Estado mais pequeno, menos interventivo. O activista Grover Norquist proferiu um dia palavras que se tornaram célebres: os conservadores querem que o governo "seja reduzido a um tamanho que nos permita afogá-lo na banheira".

    (…)

    Mas há alguma lógica na presente posição dos republicanos: com efeito, o partido está a dobrar a parada no esquema de matar o monstro à fome. Privar o governo de receitas não bastou, ao que parece, para forçar a classe política a desmantelar o estado-providência. Por isso, a estratégia é oporem-se a toda e qualquer acção responsável até que estejamos atolados numa catástrofe fiscal.

Leituras [3]

• Baptista Bastos, As lembranças afectuosas:
    Enquanto vão desfilando, pelo Parlamento, alguns simpatizantes de jornalismo, numa desvergonha que só os não atinge porque as suas caras já estão encharcadas de porcaria - enquanto isso, lembro-me, agora, do Café Chiado, e da importância que teve essa cultura de tertúlia que formou os melhores de todos nós. Quase em frente da Rua Ivens, o belo estabelecimento possuía cadeiras de palhinha, as mesas eram redondas, de mármore, debruadas a latão doirado, e havia jornais para ler. Foi um dos pontos de encontro mais importantes da vida cultural e política portuguesa.

Leituras [2]

• Pedro Adão e Silva, Quem viola o segredo?:
    Partindo do princípio de que as violações do segredo de justiça não são obra do divino Espírito Santo, que os senhores magistrados foram "ungidos" no CEJ e, portanto, estão acima de qualquer suspeita, a malha aperta-se e não restam muitos presumíveis infractores. É por isso estranho que raramente haja condenações.

Leituras [1]

• Manuel Caldeira Cabral, Será que a informação é L.I.V.R.A?:
    Será que a informação em Portugal é L.I.V.R.A, isto é Livre, Isenta, Verdadeira, Relevante e Aberta? E se não é, quem é que a condiciona? Em que sentido é que é enviesada? Porque é que tantas vezes é pouco rigorosa? Porque é que tanta informação irrelevante enche os nossos noticiários e jornais? Porque é que as pessoas citadas são quase as mesmas há mais de 20 anos?

    Um dia antes do arranque da vaga de notícias sobre liberdade de expressão em Portugal dei uma entrevista a um jornalista holandês radicado em Madrid. A sua opinião era a de que sendo a situação económica em Espanha pior do que a de Portugal (devido ao nível de desemprego e à bolha imobiliária), era estranho que as notícias em Portugal sobre a economia portuguesa fossem tão mais negativas do que as que se publicavam na imprensa espanhola sobre a economia daquele país.

    Esta visão é contraditória com a ideia de uma imprensa controlada pelo Governo. Se o Governo português controla a imprensa, porque é que esta é tão crítica e tão negativa face à economia e ao próprio Governo?

    O trabalho dos meios de comunicação está à vista. Pergunto se perante a predominância de comentadores pessimistas e o tom negativo que domina os noticiários portugueses alguém tem coragem de dizer que a nossa imprensa pinta a realidade de cor de rosa?

    Quer isto dizer que a imprensa portuguesa é totalmente livre de pressões? É óbvio que não. Nenhuma imprensa é. Em todos os países existem pressões. E vêem de vários lados: dos partidos, dos sindicatos, das empresas, dos proprietários dos jornais, das agências de comunicação, dos restantes jornalistas e, é obvio, também dos governos. Os jornalistas têm de saber lidar com todas estas influências.

    Os jornalistas têm também que colocar pressão sobre o Governo e os outros centros de poder. A verdade é que há grupos na sociedade relativamente aos quais a imprensa é branda. Basta ler as entrevistas de charme feitas a alguns empresários ou a forma acrítica como são aceites argumentos de grupos de interesse, de sindicatos ou de ex-ministros, e compará-la com a agressividade das entrevistas que lhes eram feitas quando eram ministros, para perceber que assim é.

    É saudável que existam diferentes linhas editoriais, diferentes opiniões, diferentes perspectivas. Mas, em alguns casos, esta diversidade parece desaparecer.

    (…)

    Conheço demasiados jornalistas inteligentes e sérios para perceber o desconforto com que muitos vivem com uma situação pouco saudável, mas cada vez mais frequente, de haver apenas um tema, um formato, uma perspectiva ou uma opinião a dominar todo o espaço informativo.

    O facto de os meios de comunicação social se centrarem tantas vezes num tema único tem consequências. Em muitos casos aliena o público, distrai o País, deixando decisões importantes noutras áreas sem discussão. Noutros, o arrastar dos casos, mesmo sem novos dados, contribui para um desgaste pouco saudável das instituições.

    (…)

    Eu nunca quererei uma imprensa que para ser patriótica seja menos crítica ou até elogiosa do País. Esse não é o papel da imprensa. O papel da imprensa é o de dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Mesmo que essa verdade seja inconveniente. Mesmo que seja positiva. Mesmo que esteja fora da caixa do tema único. Mesmo que vá contra a corrente. Mesmo que não seja simples. Mesmo no caso em que esta possa ilibar alguém que todos tratam como culpado antes de ser condenado. Mesmo que obrigue a contradizer um pessimista.

    Hoje parece que a muitos falta coragem para o fazer. E a falta de coragem é onde começa a falta de liberdade.

♪ Réplicas [7]



Dig a Pony

Beatles → St. Vincent

Um bom tema para reflexão no fim-de-semana (*)

Os que tentam desenhar uma imagem do jornalista como uma entidade angelical e assexuada que consegue essa proeza sobre-humana de não ter nada a ver com política nem economia. Verificamos, assim, que nos querem convencer que o jornalista é aquele que, além de se manter numa castidade sobre-humana e incontestável, possui o poder divino (et quand même...) de olhar política e economia como um observador distante que contempla, altivo, o movimento de outro planeta que não o seu.


(*) para os que ainda conseguem reflectir

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Recuperação de escolas: nota máxima, diz OCDE

Do crime de atentado contra o Estado de direito

Os justiceiros desembaraçam-se dos magistrados quando estes estorvam. Os golpes de Estado não têm de ser necessariamente violentos.

A bota não bate com a perdigota

As insinuações sobre o procurador-geral da República lançadas na última edição da Sábado, replicadas de imediato pelo Público e retomadas hoje pelo Sol são facilmente rebatíveis: depois do encontro de Pinto Monteiro com os magistrados de Aveiro (e de Coimbra), surgem escutas “comprometedoras”. Foram avisados uns “meliantes” e esqueceram-se de alertar outros? Mas há um leitor que levanta uma questão interessante: se a ideia era “ludibriar” os investigadores, os “meliantes” não poderiam simultaneamente trocar de telemóveis e cartões, como foi oportunamente dito, e mudar a orientação das conversas mantidas ao telefone. A bota não bate com a perdigota.

"Há encobrimento do poder político pelo poder judicial"

Folheando o Código Penal, estou indeciso sobre qual o crime cometido hoje pelo pequeno grande arquitecto, na sua admirável prestação na Assembleia da República:

    Artigo 180.º
    Difamação

    1 — Quem, dirigindo-se a terceiro, imputar a outra pessoa, mesmo sob a forma de suspeita, um facto, ou formular sobre ela um juízo, ofensivos da sua honra ou consideração, ou reproduzir uma tal imputação ou juízo, é punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 240 dias.

    Artigo 183.º
    Publicidade e calúnia

    1 — Se no caso dos crimes previstos nos artigos 180.º, 181.º e 182.º:
    a) A ofensa for praticada através de meios ou em circunstâncias que facilitem a sua divulgação; ou
    b) Tratando-se da imputação de factos, se averiguar que o agente conhecia a falsidade da imputação; as penas da difamação ou da injúria são elevadas de um terço nos seus limites mínimo e máximo.
    2 — Se o crime for cometido através de meio de comunicação social, o agente é punido com pena de prisão até dois anos ou com pena de multa não inferior a 120 dias.
De acordo com o artigo 184.º (Agravação), a pena prevista é elevada de metade nos seus limites mínimo e máximo se a vítima for uma das pessoas referidas na alínea l) do n.º 2 do artigo 132.º (como um magistrado).

Da série "Frases que impõem respeito" [418]

Ficámos hoje a saber a posição Marques Mendes sobre as candidaturas no PSD, pelo seu porta-voz oficial, José António Saraiva no Jornal Sol.
      Luís Menezes, deputado do PSD, no Twitter

Isto anda tudo ligado

O país, o PSD e o Sporting estão iguais”, admite Santana Lopes, olhando para trás.

O cantinho do Roland Barthes da Brandoa (© RAP)




Os amigos são para as ocasiões. Hoje, no Público, Eduardo Cintra Torres sai em defesa de uma tal Manuela Moura Guedes para poder zurzir em Miguel Sousa Tavares. Aparentemente, ao comparar o Jornal Nacional de 6.ª com o Sinais de Fogo, é pior a emenda do que o soneto:
    «Tavares, que não apreciava o Jornal Nacional de 6.ª (JN6.ª), leva agora mais longe na SIC o "crime" de que Manuela Moura Guedes foi acusada, incluindo pelo Estado (ERC): apresenta jornalismo factual para ele mesmo anexar a sua opinião. Não há diferença quanto ao carácter de ambos os programas: se Guedes tinha uma agenda preferencial, também Tavares a tem, como o provam os temas que abordou na primeira edição: dois (Portela e segredo de justiça) são recorrentes nos seus artigos no Expresso ou nos comentários da TVI.»
Então, para o antigo crítico de televisão, um suposto jornal noticioso tem a mesma natureza que um programa, ainda que este seja de informação? Valha-nos que confirma que "Guedes tinha uma agenda preferencial".

O "principal suspeito"

Em todos os Jornais de Sexta da TVI era repetida a expressão "José Sócrates, principal suspeito da Justiça inglesa no caso Freeport".

Como se sabe, esta alegação é falsa. Foi falsa SEMPRE.

Ela baseava-se na famosa Carta Rogatória das autoridades inglesas que, no que respeitava a José Sócrates, se limitavam a citar as autoridades portuguesas. Acresce que essa informação das autoridades portuguesas citava, tão simplesmente. uma carta anónima.

Mas, se dúvidas restassem, a justiça inglesa, sempre citada pela TVI como algo de superior, encerrou o caso, sem qualquer acusação, em Novembro de 2009.

E agora é a Justiça portuguesa que se prepara encerrar o caso Freeport, sem mácula para José Sócrates.

Perante ISTO, o que havia para desmentir nas notícias da TVI sobre o caso Freeport? A realidade, apenas a realidade, que teimava em não se subjugar ao Jornal de Sexta.

Pequeno grande arquitecto: ler no Twitter a audição que não vi

Como não pude acompanhar a “audição” do pequeno grande arquitecto do luminoso Sol, fiz uma pequena pesquisa no Twitter à hora do almoço, que aqui deixo:
    João Galamba — a tragédia da Madeira "ja se desvaneceu"? só assim se entende que o pequeno grande arquitecto esteja na comissão de ética.

    André Miranda — a transmissão está a dar em directo na RTP N (e não na AR TV)

    Tiago Tibúrcio — @JMF1957 sim, e é por isso que a SIC-N não está a passar. Ou a TVI 24. Estão todos a conspirar, menos JMF.

    Filipe Santos Costa — A TVI24 cortou as declarações do Saraiva durante as respostas à segunda pergunta - e logo as mais duras, do PS.K critério editorial é este?

    Tiago Tibúrcio — "Só para manter o ritmo da reunião". Marques Guedes parece achar-se uma espécie de DJ da Comissão de Ética.

    André Miranda — O problema do jornal Sol é que é um projecto falhado. JA Saraiva não venha agora queixar-se da falta de solidariedade dos accionistas.

    André Miranda — Mas se o BCP só tinha 16% do capital social, porquê dar tanta importância ao BCP? E os outros accionistas maioritários?

    André Miranda — E já agora, quais são os contactos próximos do accionista JVC (Joaquim Coimbra)? Só interessam os alegados contactos do Vara?

    Tiago Tibúrcio — O Arq. Saraiva está neste momento a explicar à comissão de Ética porque é que queria vingar-se do Governo PS. É o chamado móbil do crime.

    André Miranda — JA Saraiva: "fazer contraditório com os visados é pura burocracia, não adiantava nada para o esclarecimento dos factos"

    André Miranda — JA Saraiva diz que não pode nem nunca se envolveu na administração, mas já pode envolver-se na negociação da estrutura accionista.

    Tiago Tibúrcio — "Vara falou com Sócrates sobre o Sol" (JAS). "Como sabe?" (CDS). "Estou convencido. Demoraria muito a explicar. Certeza quase absoluta" (JAS).

    André Miranda — "Pessoa muito próxima do Primeiro-Ministro"? Poderá ser o vizinho da frente?

    Tiago Tibúrcio — JAS diz que não divulga conversas privadas em público. O descaramento deste homem é assombroso

    André Miranda — Depois do Gov, do BCP, agora também a Cofina de Paulo Fernandes queria decapitar o arquitecto do pedestal.

    André Miranda — Alguém que pegue nas edições de Janeiro e Fevereiro de 2009 vs. 2008 do Sol e veja quem anunciou no pasquim do JA Saraiva.

    André Miranda — A questão essencial é a seguinte: o Sol não vende e ninguém coloca publicidade numa coisa que não vende. As pessoas preferem o Expresso.

O cantinho do Manolito



“Eu digo aqui peremptoriamente que não estou nessa corrida. (…) Os eleitores não compreenderiam isso”.

♪ Réplicas [6]



No Expectations

Rolling Stones → Tim Ries ft. Ana Moura

Liberdade de expressão e funcionamento do mercado

Há duas horas que José António Saraiva está a prestar informações aos deputados da Comissão de Ética acerca do insucesso do projecto editorial a que se abalançou.

Liberdade de expressão (outro ângulo)


Esta notícia foi escrita por uma jornalista com relações familiares muito próximas na indústria farmacêutica, um lóbi concorrente do lóbi das farmácias.
Estes bastidores não devem igualmente ser escrutinados? Em nome da transparência e da liberdade de expressão.

Importam-se de ler…

… este post intitulado Guerra civil?

Os factos, os malditos dos factos

O ex-director de Informação da TVI, João Maia Abreu, repetiu hoje perante os deputados da Comissão de Ética a balela do costume: o Jornal Nacional de Sexta "relatava factos que nunca foram desmentidos".
Trata-se, evidentemente, de um equívoco resultante de um conhecimento deficitário da Língua Portuguesa.
Vejamos, por exemplo, o que nos diz o Houaiss [é um dicionário, caros jornalistas da TVI]:

facto (s.m.) - acção ou coisa que se considera feita, ocorrida ou em processo de realização.
Ora qualquer pessoa minimamente razoável admitirá que factos, factos, por ali não havia, sendo, por isso, desnecessário qualquer esforço para desmentir. Bastava desligar a televisão - a realidade era o desmentido permanente daquele "noticiário".

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Rangel saiu do PP mas a lavoura não saiu de dentro dele



PSD: Rangel defende modelo económico baseado na agricultura

O candidato a presidente do PSD Paulo Rangel defendeu hoje, em Torres Vedras, que a agricultura deve deixar de ser vista apenas do ponto de vista económico e passar a ser encarada como um «sector de defesa nacional» e «estratégico».

«O que é importante é um novo modelo económico que rompa com o modelo que o PS trouxe», afirmou aos jornalistas, à entrada para a apresentação da sua candidatura aos militantes da Distrital Oeste, em Torres Vedras, defendendo uma «ruptura» com o passado.

De acordo com o social-democrata, «ao fim de 15 anos de governo socialista, o país está numa situação de emergência».

Ao falar aos militantes, Paulo Rangel defendeu uma «mudança na agricultura», que deve passar a ser vista como um «sector de defesa nacional» e «estratégico».

A necessidade de o país ter reservas agrícolas «é uma questão estratégica de defesa nacional, por isso temos de valorizar os agricultores já não como produtores mas como soldados da soberania nacional, encarando a agricultura como um sector fundamental para a sobrevivência do país», referiu.

«Precisamos de um D. Dinis para repensar a agricultura em Portugal», frisou.

Da série "Frases que impõem respeito" [417]

Portugal não vai nem morrer da doença nem morrer da cura. O que manifestamente parece que já não tem cura é a liderança do PSD, mas parece que ela está já nos últimos dias.
      Pedro Silva Pereira, numa alusão a mais uma brilhante intervenção de Manuela Ferreira Leite (na Câmara do Comércio Luso-francesa)

Espírito do tempo: a manipulação

[copyright Rafael Marques]

Por absoluta falta de tempo, Pacheco Pereira ainda não está em condições de nos fornecer mais dados sobre a "manipulação profissional da opinião pública".
Pela amostra que já podemos ver no seu "poemário" (ou será "bancário"?), tem muito trabalho pela frente.
Então não é que um blogue não pode falar na "claustrofobia democrática" na Madeira sem citar a fonte? (mas qual fonte? terei sido só eu a perder-me no argumento?).

Confissões do pequeno grande arquitecto

Se o novo jornal avançasse, teria necessariamente por objectivo liderar o mercado, o que implicaria bater o Expresso e destroná-lo do lugar ‘histórico’ que ocupava”, lembra-nos José António Saraiva nas suas Confissões ( p.91), a propósito do momento em que se desliga do Expresso e congemina com outros colegas a hipótese de fundar um semanário concorrente do jornal que havia liderado por mais de 20 anos.

Pois bem, para quem procurava “bater” o Expresso, o Sol, enquanto projecto, só pode ser qualificado de enorme flop. Basta, para isso, comparar a tiragem e a circulação dos dois jornais entre a segunda metade de 2006 (o Sol viu a luz do dia pela primeira vez em Setembro deste ano) e 2008 (informação retirada daqui).

Depois de um início prometedor nos últimos meses de 2006, a circulação do Sol caiu para menos de metade do Expresso em 2007 e 2008. E embora os dados de 2009por trimestre não estejam disponíveis no site da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação, sabe-se que no ano passado se manteve a enorme distância entre os semanários: o Expresso vendeu em média 102.976 exemplares, enquanto o Sol não ultrapassou os 36.453. Ou seja, 35 por cento.

Tudo caminhava para que o Sol estivesse por esta altura a vender cerca 1/3 do Expresso. Isto, claro, antes do caso “Face Oculta” e da bandalheira das escutas.

♪ Réplicas [5]



Powderfinger

Neil Young → Cowboy Junkies

A coerência da líder inventada pelo filósofo da Marmeleira



Há uma qualidade que ninguém, no seu perfeito juízo, pode deixar de reconhecer à Dr.ª Manuela: a coerência. Do primeiro ao último dia da sua liderança, a presidente do PSD nunca desiludiu: sempre que abre a boca, sai asneira — da grossa, não raras vezes.

Tendo voltado a falar para estrangeiros, não disse desta vez que a coisa só lá ia com a suspensão da democracia por seis meses, mas comparou a situação do país à da Grécia.

Repare-se no entanto que as suas famosas gaffes contêm uma boa dose de manha — ao dizer sempre as coisas de forma esquinada. A presidente do PSD diz que sabe que as contas de Portugal não têm nada a ver com as da Grécia, mas, se as agências de rating não entendem assim, não há nada a fazer… É como aquela outra célebre frase da Dr.ª Manuela: “Eu não quero saber se há escutas ou não, eu não quero saber se há retaliações ou não, o que é grave é que as pessoas acham que há”. São as agências de rating, são as pessoas… a líder inventada pelo filósofo da Marmeleira nunca se compromete — apenas aproveita o trabalho de sapa feito por outros.

“outros direitos”

Uma descoberta recente:

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

O atirador furtivo

Passos Coelho sobre Manuel Ferreira Leite:
    «“Matérias relacionadas com a comunicação social não dizem respeito nem ao Governo nem às estruturas partidárias” e essa é uma regra de aplicação geral a todo o sector privado. Palavras de Passos Coelho depois de ser confrontado com o facto, reconhecido pela própria, de que Manuela Ferreira Leite foi sendo informada das etapas que marcaram a tentativa de compra da TVI por parte da PT
Passos Coelho sobre Paulo Rangel:
    “Ele é militante do PSD, não vejo nenhum problema em que possa ter sido filiado noutros partidos. O PSD foi sempre um partido muito aberto e teve pessoas com origens partidárias diferentes da do PSD. Espero que ele se sinta bem no PSD e que esteja cá com convicção, que estará com certeza - senão não era candidato à liderança do PSD. Teve alguns problemas de memória, mas creio que já passaram”.

Jornalismo: o mito da neutralidade

Este post não poderia ser mais oportuno. E os deputados da Comissão de Ética deveriam agradecer ao Autor estar a fazer-lhes o trabalho de casa:
    (...) cada vez que um jornalista nos quer convencer da sua virgindade cognitiva — "olhem para mim a dar-vos um ponto de vista que não podem contestar" —, acontece uma mentira. Não necessariamente factual, mas ontológica.

Da série "Frases que impõem respeito" [417]


Nunca ninguém comprou uma televisão em Portugal sem o conhecimento de um primeiro-ministro.

Henrique Monteiro, director do Expresso. Uma afirmação fácil de demonstrar estatisticamente, pois, como se sabe, o mercado da compra e venda de televisões em Portugal tem sido uma animação nas últimas décadas

Criemos uma, duas, três… muitas comissões

Pacheco anda acabrunhado com os resultados das audições na Assembleia da República. Na Quadratura do Círculo, mostrou-se desanimado, triste e descrente do trabalho dos seus colegas da Comissão de Ética. Não é caso para menos:
    1. Leite Pereira arrasou Mário Crespo (e nem se referiu aos números de circo em São Bento). Munido de documentos (v.g, a facturação detalhada do telemóvel), o director do Jornal de Notícias desmentiu, uma a uma, as patranhas ditas com a maior desfaçatez por Crespo no parlamento.

    2. Vara desmentiu Felícia Cabrita (e o Sol), que o acusava de ter falado ao telefone com Sócrates do negócio da TVI. O procurador-geral da República confirmou que nas conversas entre ambos não é feita nenhuma alusão à TVI.

    3. José Manuel Fernandes, que se apresentou na Comissão de Ética como uma vítima de Sócrates, foi desmentido pelo seu próprio patrão, que já explicou que, a partir de certa altura, o ex-director do Público já não dava conta do recado nem tinha condições, pelo clima instalado na redacção, de inverter a situação. Depois, um administrador da empresa proprietária do Público censurou a forma como Fernandes se comportou ao longo da audição.

Existe, sim, condicionamento da informação em Portugal

Existem em Portugal, de facto, fortes restrições à liberdade de imprensa, de circulação de notícias.
Pacheco Pereira e a Comissão de Ética, em boa hora, estão a debruçar-se sobre o assunto. O primeiro, presume-se, na qualidade de "historiador", como assina os seus artigos no jornal de José Manuel Fernandes.
Com toda a humildade, aqui se juntam mais dois casos, ambos ocorridos ontem, terça-feira, dia 23 de Fevereiro de 2010.

1. José Leite Pereira foi ouvido na Comissão de Ética sobre a liberdade de expressão. Entre outras coisas interessantes - como a pulsão de Rui Rio para a censura - ficámos a saber (!), pela boca do director do Jornal de Notícias, que Mário Crespo mente.
Pois o Jornal da Noite (20 horas, na SIC), que tão diligentemente tem informado a nação sobre as outras audições, ignorou liminarmente as declarações de Leite Pereira.
Já às 9, no cantinho do Crespo, as mesmas declarações tiveram direito a Editorial.

2. A manchete do Público desse dia (23 Fev.), embora da forma "intoxicante" que já assinalámos, deixava claro que José Sócrates nada teve a ver com o caso Freeport.
Pois a TVI, televisão oficial do caso Freeport, decidiu ignorar o assunto no seu principal noticiário (20 horas).

Eis, então, dois flagrantes casos de condicionamento da informação a merecer análise na Comissão de Ética. Ou na Marmeleira.

Problemas de ego? Problemas de euros (perdão, kuanzas)?


Na carta que enviou aos deputados e na qual, à boleia da tragédia na Madeira, reprogramou a sua deslocação ao Parlamento para o dia de saída do Sol - vender papel, vender papel... -, o pequeno grande arquitecto faz o seguinte:
a) num parágrafo, diz que não é altura de "falar de problemas particulares";
b) no parágrafo seguinte, alega que as questões de que pretende falar são "relevantíssimas".
Problemas particulares relevantíssimos. Já tinhamos percebido...

A liberdade de expressão é tanta que até dá para desinformar



A notícia, obviamente, não era verdadeira. Aliás, lá dentro, a certeza da manchete passava para o habitual: Governo estuda reforma aos 67. No fundo, trata-se de vender papel e isso a manchete já fazia...

Obviamente, a notícia não era verdadeira. E até o site da Bola a desmentiu:
Imagine agora o leitor a maneira com o mesmo Correio da Manhã trata outras "notícias" alegadamente mais importantes.

O condicionamento da liberdade de expressão

Talvez seja a isto que Pacheco Pereira faz constantes referências:
    1. O DN conta hoje que Manuela Ferreira Leite não apenas estava ao corrente dos negócios da PT como ainda se mostrava agradada com a estratégia adoptada de a fortalecer. O que tem acontecido até agora é que qualquer notícia sobre este tema publicada num jornal — a que o Sol e o Correio da Manha — é logo replicada em todos os restantes jornais.

    Até agora, que se visse, as notícias do DN não foram citadas pelo Público, pelo Expresso ou pelo i, e muito menos pelo Sol ou pelo Correio da Manha, que não têm regateado esforços para esclarecer o povo. Não tem sido o procedimento habitual.

    2. O Sol e o Correio da Manha, que parece estarem na posse das escutas de meio mundo, não publicaram estranhamente aquelas a partir das quais se depreende que a Dr. Manuela acompanhava com assinalável empenho as peripécias dos negócios da PT.

Salada de polvo e manobras de diversão



Segundo o Diário de Notícias, as “escutas envolvem Ferreira Leite no negócio da PT/TVI”. Mais, a líder do PSD seria das pessoas que mais sabiam deste negócio e que terá chegado “a estar de acordo com a compra da estação televisiva”. Aparentemente — escreve ainda o DN —, José Eduardo Moniz andava a fazer jogo duplo ou triplo, instrumentalizando uns e fornecendo a outros a informação respeitante ao negócio, nomeadamente à líder do PSD.

Se esta notícia se referisse a algum dirigente do PS, não faltariam acólitos desta direcção do PSD a pedir, furiosamente, o esclarecimento de toda a Verdade, numa audição parlamentar — de preferência numa comissão de Ética —, onde tudo seria revelado: como teve conhecimento do negócio, por quem, por que o aprovou num determinado momento e o que a fez mudar de ideias.

Estaríamos a promover a crucificação pública do carácter da senhora, que andou a esconder dos portugueses esta informação tão relevante.

Há muito tempo que toda a gente percebeu que a Verdade é apenas mais um slogan de propaganda da São Caetano à Lapa.

Quando se esperava que Ferreira Leite viesse esclarecer a notícia do DN, veio dizer esta coisa inacreditável e de uma irresponsabilidade sem nome: “A presidente do PSD considerou hoje que Portugal está "rigorosamente no mesmo caminho" da situação da Grécia em termos económicos e que, se nada for feito, em dois anos poderá ficar em situação idêntica ou pior.

Face a esta manobra de diversão, ficámos, pelo menos, a saber que a notícia do DN incomodou muito mais do que se previa.

Dominar os assuntos não é preciso



Marcelo Rebelo de Sousa foi ontem ao Trio d’ Ataque. Falou de Moissoró e do penalty não assinalado com o mesmo estilo que usa para comentar a situação política. E deixou também a ideia de que o desconhecimento dos assuntos nunca será obstáculo que o impeça de emitir opiniões.

A palavra aos leitores

O leitor Fernando B. escreveu-me um e-mail em que sugere que, com base nos dados que fornece, faça um texto sobre o programa das 21 horas da SIC-N. Desta feita, não aproveito os dados para fazer um post, dado que poderia perder-se a riqueza e a vivacidade do conteúdo do e-mail do leitor:
    Quero chamar-lhe a atenção para umas bocas do Mário Crespo, no caso de não ter visto o jornal das 9, de 23/2, que gravei.

    Depois de uma pequena reportagem sobre a audição de José Pereira Leite, feita pela jornalista Anabela Neves, ele terminou o assunto com as frases seguintes, sem mais:

      • “A liberdade de expressão é um valor absoluto que só tem sentido quando integralmente cumprido, custe o que custar.
      • A liberdade de expressão e a liberdade de informação não toleram entendimentos parciais porque não há meias verdades.
      • A liberdade de expressão não se compadece com providências cautelares ou censuras, sejam de que tipo forem as razões invocadas.
      • Não admite pactuações [sic] e não concedem entendimentos
      .”

    E terminou, como para valorizar o que acabava de dizer:

      Como disse o prof. José Gil aqui neste mesmo jornal, a liberdade de expressão... portanto... a democracia.”

    Acho extraordinário. O Código Penal, com as suas interdições sobre difamações, calúnias, insultos e outros mimos, precisa de grande vassourada. O pequeno arquitecto pode estar tranquilo, e até o prof. Charrua estará mais à vontade para recomeçar a exprimir o seu brilhante pensamento.

O cantinho do Manolito



A negação da militância no CDS PP por parte de Paulo Rangel não é de agora. Paulo Gorjão desenterra uma declaração do afilhado da Dr.ª Manuela, na qual ele, a propósito da colaboração com Rui Rio em 2001, jurava a pés juntos que só aí se deixou seduzir pela política: “Foi aí que eu entrei na política.

Entretanto, Ricardo Alves, num post intitulado Rangel não se lembra de entrar no CDS, mas recorda-se de sair, mostra as manifestas dificuldades de Paulo Rangel em lidar com o seu passado (no caso, a militância no CDS PP):
    1. «Chegou a fazer parte do CDS? Sim, participei nuns conselhos? Mas foi mesmo militante? Isso é que eu também não sei? Eu tenho um problema com as militâncias (risos). Mas assinou um cartãozinho? Não sei se assinei. Não me lembro bem. Estou a dizer a verdade? A sério que não se lembra? Não me lembro!» (Paulo Rangel, entrevista ao i, 19/5/2009)
    2. «Afinal, foi ou não foi militante do CDS? Paulo Rangel - Não sei. Eu apoiei de forma informal e muito activa a candidatura de António Lobo Xavier à presidência do CDS contra Manuel Monteiro. E isto porque tínhamos uma proximidade muito grande. E nessa altura não sei se assinei alguma ficha ou não. Não me lembro.» (Paulo Rangel, entrevista ao Correio da Manhã, 24/5/2009)
    3. «Paulo Rangel foi militante do CDS durante cerca de três anos. A ficha de admissão no partido – então liderado por Manuel Monteiro, a que o CM teve acesso – foi assinada em Outubro de 1996 (...) O pedido de renúncia surgiu só em Março de 1999.» (Correio da Manhã, 22/2/2010)
    4. «"Nunca escondi a ligação ao CDS, apenas disse que não me recordava de me ter filiado" (...) "Escrevi a carta de renúncia no dia em que Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Portas romperam com o acordo para a Alternativa Democrática (AD)", esclarece. E enviou-a a 30 de Março de 1999, recorda agora com clareza o candidato a líder do PSD.» (Diário de Notícias, 23/2/2010)

Orlando Zapata Tamayo




O operário Orlando Zapata Tamayo, que estava preso em Cuba por delito de opinião e manifestação, morreu ontem após 85 dias em greve de fome.

Esta foi a primeira vez que um opositor do regime castrista morreu durante uma greve de fome, desde que Pedro Luis Boitel, um dirigente estudantil que combateu os governos de Fulgencio Batista e de Fidel Castro, perdeu a vida na prisão em 1972.

A Ana Matos Pires publica um vídeo com a reacção da Mãe de Orlando Zapata Tamayo quando soube da morte do filho.

Os amigos do castrismo, que barafustam em Portugal pela falta de liberdade de expressão, mantêm-se em silêncio.

Leituras [3]

• Ferreira Fernandes, Olha, outro animal feroz:
    A BBC diz-me que pessoas que trabalham directamente com o primeiro-ministro telefonaram para a linha aberta para as vítimas de bullying (maus tratos físicos e verbais) no local de trabalho. Se um assessor desses tivesse trabalhado com o truculento Churchill talvez tivéssemos tido um discurso mais curto em 13 de Maio de 1940. Em vez de "sangue, sofrimento, lágrimas e suor", teríamos "água de malvas". Seria mais suave? Seria. Mas teríamos também tido outra História.

Leituras [2]

• Baptista-Bastos, Misérias portuguesas:
    O escabroso espectáculo no Parlamento, fornecido por Mário Crespo, José Manuel Fernandes e Felícia Cabrita, tidos como apreciáveis jornalistas (enfim: a estimativa não é generalizada, bem pelo contrário) desacreditou, ainda mais, o já azarento ambiente em que vive a Imprensa. Todos eles atingiram o grau mais elevado do grotesco, ao mesmo tempo que demonstraram quão frágeis e esburacados foram os seus argumentos. Afinal, existe mesmo liberdade de expressão e de informação, e esta sofre as mesmas ameaças e perigos existentes nas sociedades modernas. A vitimização pode ser sedutora, mas resulta sempre numa transparência que os factos tornam obrigatória.

    A presença dos três sujeitos chegou a ser aflitiva por declaradamente arrogante, e apenas revelou o verdete que alimentam por José Sócrates. É pouco. É nada. O ódio não se confessa, mas nota-se, e marca o desejo inconsciente de destruir do outro. Haja Freud!

♪ Réplicas [4]



I Am a Rock

Simon & Garfunkel → Red House Painters

Leituras [1]

• Nuno Azinheira, O papel de Mário Crespo (no DN):
    Que Mário Crespo não perceba que, a partir do momento em que se tornou co-protagonista da novela O Polvo, e que andou a mostrar T-Shirts na Assembleia da República e a distribuir fotocópias pelos deputados da Comissão Parlamentar de Ética, não tem condições para moderar um debate sobre José Sócrates já é grave. Mas que na SIC ninguém acima dele tenha essa percepção é pior.

    O pivô da SIC Notícias não perdeu obviamente o direito ao seu trabalho. Portanto, para que fique claro, não acho que a cena de entertainment no Parlamento o iniba de continuar a ser o rosto do principal jornal da estação.

    Há, porém, um bom senso, uma capacidade de discernimento que a sua experiência profissional, e a de quem o comanda, deveria recomendar: a partir do momento em que se sabe o que ele pensa de Sócrates, a partir do momento em que ele fez o que fez na Assembleia, Crespo não é seguramente a pessoa indicada para moderar um debate de análise à entrevista do primeiro-ministro a Sousa Tavares.

Quando a 'golden share' da PT mandava efectivamente na informação


Houve um tempo em que a PT interferiu, de facto, na informação em Portugal.

José Leite Pereira, director do Jornal de Notícias, recordou-o na Assembleia da República: "Granadeiro pediu-nos para, antes de publicarmos artigos sobre a PT, o avisarmos".
E José Leite Pereira lembrou ainda que, nessa altura (o director do JN escusou-se hoje a adiantar mais pormenores, mas a história já foi contada mais que uma vez), Rui Rio tentou afastar a direcção do jornal.


Ora o militante social-democrata Henrique Granadeiro foi presidente da Lusomundo Media (resultante da compra da Lusomundo pela PT), entre 2002 e 2004.
E quem estava no governo nessa altura? Precisamente: Durão Barroso e Santana Lopes, não menosprezando Paulo Portas.
E quem fez parte desses governos? Por exemplo, Luís Marques Mendes, José Pedro Aguiar-Branco e Paulo Rangel.
Sim, os mesmos que hoje se rebelam contra a golden share do Estado na PT nunca se incomodaram muito com a sua existência nesse tempo.
E, pelos vistos, a golden share da PT foi-lhes muito útil para controlar a informação. Sim, porque para além das tentativas de afastar a direcção do JN, foi ainda nesse tempo que Fernando Lima saiu directamente da assessoria de imprensa do ministro Martins da Cruz para a direcção do Diário de Notícias e que a direcção de Carlos Andrade foi demitida na TSF para dar lugar a uma rádio com noticiários de dois minutos e canções melosas dos anos 60. Tudo à sombra da golden share da PT.
Não têm saudades desse tempo, drs. Mendes, Aguiar-Branco e Rangel?

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Lição de intoxicação



Voltemos à manchete da edição de hoje do Público. A primeira página é um dos melhores exemplos de manipulação jornalística de que há memória. Sem exagero, o título e os subtítulos seriam dignos de figurar em qualquer curso de intoxicação da opinião pública ou de contra-informação. Veja-se então qual é a mensagem:
    1. Em primeiro lugar, diz o Público que José Sócrates não foi acusado. É claro que o primeiro-ministro nunca poderia ser acusado, porque jamais foi constituído arguido no processo. Por isso, não tem nenhum sentido dizer que Sócrates não foi acusado. Para existir o dilema processual de acusar ou não acusar, era necessária a prévia constituição de arguido.

    À falta de melhor, o Público recorre ao conceito de suspeito, que não é sujeito processual nenhum e só interessa na medida em que é o substrato material da constituição de arguido. Mas, ao refugiar-se nessa figura, o jornal não corre o risco de ser desmentido. Como não há constituição de suspeito, Sócrates é suspeito porque o Público acha que sim.

    2. O primeiro subtítulo é ainda mais malicioso. Diz o Público que houve arquivamento dos indícios conta Sócrates. Nem é preciso ser jurista, basta ter apenas o mínimo respeito devido à língua portuguesa para compreender o alcance deste disparate.

    “Arquivamento de indícios” é coisa que nunca houve, não há, nem haverá em tempo algum, de acordo com a lei e a natureza das coisas. Só se arquivam processos. Se existisse um processo contra Sócrates, é claro que poderia ser arquivado. O problema é que não houve e, portanto, a tese do arquivamento é absurda — para não dizer pior.

    3. Para terminar o bouquet, o Público afirma que “outros suspeitos” vão ser acusados. A insídia continua presente. A expressão “outros suspeitos” serve para reafirmar que Sócrates é suspeito, mas não esconde o truque da operação. É que só os arguidos, nessa qualidade, podem ser realmente acusados.
Por tudo isto, sinceros parabéns ao Público pelo belo exercício de manipulação e contra-informação. E sentidos pêsames ao jornalismo por esta inqualificável instrumentalização.

Do gato



Em entrevista ao Jornal de Negócios de ontem, Cândida Almeida, procurador-geral adjunta e directora do DCIAP, defendeu que os magistrados também deviam poder ser colocados sob escuta para se detectar quem está na origem das violações do segredo de justiça:
    Jornal de Negócios [JdeN] - Como resolveria então o problema?
    Cândida Almeida [CA] - Aumentando as penas, por forma a permitir outros meios de investigação, isso sim. E essas penas superiores seriam aplicadas a todos, desde o magistrado ao funcionário. Porque com as penas previstas actualmente não são possíveis meios especiais de investigação.
    JdeN - Como por exemplo?
    CA - Escutas telefónicas. O que agora não está disponível.
    JdeN - E aí teríamos magistrados sob desconfiança a serem escutados...
    CA - Não por nós, mas pelo tribunal da Relação ou pelo Supremo, como prevê a lei nesses casos. Mais fácil, mais rápido e mais eficiente. E assim se resolvia o problema.
A direcção do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), depois de se mostrar “incrédula e estupefacta”, reagiu assim: “A Direcção do SMMP lamenta profundamente aquelas declarações, e afirma a sua firme convicção na seriedade, no empenho e na competência da generalidade dos magistrados do ministério público deste país, negando-se, sequer, a admitir que possam ser responsáveis pela violação do segredo de justiça”, referindo ainda o comunicado do SMMP que manifesta “sérias reservas quanto ao aumento da pena prevista para o crime de violação de segredo de justiça”.

Veja-se o caso da revelação do despacho do procurador-geral da República que estava em segredo de justiça. Segundo o DN de hoje (p. 13), tiveram acesso ao despacho o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, o vice-procurador-geral da República, Gomes Dias, o procurador-geral distrital de Coimbra, Braga Temido e procurador João Marques Vidal, para além de duas secretárias. De quem é a culpa da publicação do citado despacho? Do gato, evidentemente.

Adenda — PGR exige que jornais «reponham a verdade».

Leituras atrasadas

Frei Bento Domingues, De que falamos, quando falamos? [citado no Jugular]:
    Quando, hoje, vejo a insistência ridícula na falta de liberdade de informação, em Portugal, tenho muita dificuldade em entender "de que falamos, quando falamos". O que existe, de facto, são modelos e métodos de jornalismo em que vale absolutamente tudo, em que os fins justificam todos os meios, mesmo os mais condenáveis. A obsessão pela instantaneidade leva, por vezes, a noticiar, antecipadamente, o que ainda nem sequer aconteceu.

    A falta de distância para a reflexão e avaliação da importância de cada situação - só interessa dizer quem arrasou quem - produz uma atmosfera que leva os próprios comentadores a supor que eles pensam o pensar de todos, como se tivessem uma delegação para representar o povo português na sua totalidade. A chamada crise política seria, talvez, bem diferente sem as suas irresponsáveis encenações mediáticas.
• António Marinho e Pinto, A bufaria [via O Jumento]:
    O caso Mário Crespo não é um problema de liberdade de informação, mas (mais) um sintoma da degradação a que chegou a comunicação social.
• António Correia de Campos, O falso crime [via Hoje Há Conquilhas]:
    Os abutres vão ter que partir à procura de outros cadáveres. Voaram em círculos durante semanas, aproximaram-se agressivamente da presa, mas não a conseguiram isolar dos seus pares. A alegoria da lei da selva justifica-se, tal a agressividade dos protagonistas.