terça-feira, fevereiro 28, 2006

A palavra aos leitores

José Ferreira Marques, autor do blogue A Forma e o Conteúdo, escreveu, a propósito deste post, o seguinte comentário:

Parece-nos que o leitor não terá razão no que diz. Procuraremos amanhã, porque hoje é dia de Carnaval, avançar com alguns dados sobre os cartões de débito e de crédito que evidenciam o contrário. São elementos que se encontram disponíveis na Internet.

A avaliação do desempenho dos juízes é uma brincadeira de Carnaval?


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Passe por cá mais tarde. O CC dar-lhe-á umas pistas. Depois tire as suas conclusões.

Por que é o insulto improfícuo?

O insulto dá uma sensação repentina de alívio, mas não se faz acompanhar da solução dos problemas. Os comentadores mais exuberantes e dotados, que recorrem a esta forma superior de luta, prestariam um serviço de maior qualidade às corporações de cujos interesses são intérpretes se, em lugar das costumeiras convulsões, discutissem o teor dos posts, pontuando a sua prosa com exemplos do que afirmam.

Exemplifiquemos. O CC acha indecoroso que os magistrados jubilados continuem a receber o subsídio de habitação compensação como se ainda estivessem a exercer funções nos tribunais. Se, em vez do insulto na ponta da língua (que não impede que o problema se arraste), os críticos mais agitados fundamentassem por que sustentam dever ser mantida esta regalia, não estariam a dar um contributo inestimável para o esclarecimento daqueles que não dispensam a leitura do CC?

A falta de comparência é sempre punida — também no debate de ideias.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Os grandes mistérios do Universo [17] (em repetição)

Taxa Multibanco

Uma vez mais, a banca equaciona a possibilidade de obrigar os clientes a suportarem uma taxa pela utilização do Multibanco. A primeira tentativa ocorreu em 1994. A Deco promoveu então uma jornada de protesto, incentivando os clientes a boicotarem o Multibanco, o que levou as instituições bancárias a recuarem no seu propósito. Mais tarde, a banca voltou à carga, tendo novamente recuado.

Em declarações ao DN de hoje, Jorge Morgado, secretário-geral da Deco, afirma: “Se descobrirmos que existe aqui uma posição concertada por parte dos bancos, iremos certamente defender os consumidores”. Acreditamos que sim. Mas não seria melhor começar pelo princípio, ou seja, pela análise das actividades da Sociedade Interbancária de Serviços, SA, a conhecida SIBS, que detém o monopólio dos cartões de débito (cartões Multibanco)? Conhecem alguma situação análoga na União Europeia?

A SIBS foi criada quando a banca ainda era dominada pelo Estado. Com a privatização da maioria dos bancos, a SIBS representa hoje em dia um verdadeiro cartel dos bancos. Talvez a Autoridade da Concorrência se devesse pronunciar sobre este assunto.

LER OS OUTROS

Coutinho Ribeiro, no Incursões, fala dos seus tempos de Coimbra, explicando por que acabou por não optar pela magistratura. Transcreve-se Uma vida de equívocos:

    “A reflexão de fim de semana leva-me a reconhecer que a minha vida tem sido uma sucessão de equívocos. Equivoquei-me em relação a várias pessoas em quem confiei e em relação a alguns dogmas, porque acreditei piamente em certezas absolutas que se revelaram um logro e que estouraram nas minhas mãos como bombas de carnaval. Em todos os casos saí magoado.

    A última mágoa é talvez a mais prosaica. Quando estudei direito, nunca coloquei a hipótese de ser magistrado, ainda que o meu pai tivesse gostado que eu fosse. Mas eu achei que não estava talhado. Os meus colegas que apontavam para a magistratura eram pessoas bem comportadas, e eu era um boémio na boa tradição coimbrã. Eles iam às aulas e estudavam, eu ia pouco e estudava pouco (estudei muito depois de acabar o curso). Eles viam livros de direito apenas e eu andava já pelos jornais. Eles fugiam da política a sete pés e eu andava na agitação política. Eles namoravam muito certinho e eu praticava crimes de invasão de lugar vedado ao público (quando entrava nos lares pelas janelas). Em suma: eu sentia que não estava em estado de pureza bastante e que era um miúdo demasiado rebelde para ser o magistrado impoluto, ponderado e inatingível que preenchia o meu imaginário.

    Olho para trás. E para a frente. Olho para o país descrente. Olhos todos os dias para os meus clientes descrentes, pessoas que já não olham para os magistrados como uma casta em que se pode confiar cegamente. Tento persuadi-los do engano, não porque sim, mas por convicção. Uma convicção que, dia-a-dia, se vai diluindo. Não porque tenha razão de queixa nos problemas concretos (as excepções são poucas), mas porque, indo por aí abaixo, no blog, vou lendo o que magistrados pensam de magistrados e pela forma como se assume que há promiscuidade entre o poder político e os magistrados. Não sou eu que digo. São os próprios. Pelo menos alguns. E a minha sensação de uma vida de equívocos regorgita.

    Afinal, eu era suficientemente puro para ser magistrado (não estou arrependido de não ter ido por aí). Afinal, eu sou é demasiado crédulo. E um ingénuo...

    (Tudo isto faz-me recordar a minha última conversa com Avelino Ferreira Torres, esse grande vulto da democracia. No outono de 2001, adversários políticos, ele disse-me uma coisa que me aterrou sobre magistrados. Não consegui esconder a revolta. Mas, afinal, ele devia saber do que falava...)”

A palavra aos leitores – “Vai tratar-te, pá.”



Basta dar uma vista de olhos pelas caixas de comentários para verificar que o CC é devorado com um inusitado entusiasmo. Alguns leitores, arriscamos a hipótese, estão permanentemente de plantão. Ocupam o tempo a reunir letras, enviando-as para a caixa de comentários mal um novo post é editado, mesmo antes de ler o seu teor. São especialistas em ruído. Eis um extracto de um comentário que, por acaso, não é um comentário-tipo:
Da leitura deste comentário fica a ideia de que retirámos do contexto uma frase para zurzir indevidamente na corporação dos magistrados judiciais. Não corresponde à verdade.

No “Relatório Anual - 2004”, intitulado “O Estado dos Serviços nos Tribunais” (cf. Boletim Informativo do Conselho Superior da Magistratura, Julho de 2005, pp. 12-16), que faz a súmula das inspecções judiciais promovidas, considera-se que existe um conjunto alargado de tribunais (94 para ser mais preciso) que, sob uma óptica de “produtividade” e de “apreciação global”, “apresentam níveis de funcionamento notoriamente deficientes” [sublinhados do relatório]. Veja-se aqui, por exemplo.

E se dúvidas houvesse, até um proeminente membro do Conselho Superior da Magistratura, a acreditar nos media, se viu forçado a dar uma no cravo e outra na ferradura: ‘Edgar Lopes frisou, ainda, que em alguns dos Tribunais mal classificados, a culpa não deve ser atribuída exclusivamente à pouca produtividade dos juízes, mas, “em grande parte”, ao “excesso de processos”.’ [sublinhados nossos]

As classificações já nós as conhecemos: mais de 96 por cento dos juízes “avaliados” obtiveram classificações de “bom” ou “muito bom”.

domingo, fevereiro 26, 2006

Avaliação de Juízes (em maiúscula no original)

O Governo anda às voltas com a avaliação do desempenho na administração pública. Estendeu agora o sistema aos chamados corpos especiais. Ao referir-se ao assunto, o Correio da Manhã incluiu, desafortunadamente, os juízes entre aqueles que irão passar a ser avaliados de acordo com o Sistema Integrado de Avaliação do Desempenho da Administração Pública (SIADAP).

O juiz de direito de círculo Joel Timóteo Ramos Pereira não se conteve com a afronta. Rapa de toda a sua ciência e lança para a blogosfera 6.502 caracteres (quatro páginas). Depois de citar abundantemente a CRP, o EMJ e o RIJ, a conclusão do longo desabafo do Dr. Joel é demolidora:

O povo não entra nas contas do Dr. Joel. Nem o Dr. Joel, bem vistas as coisas, se atrapalha com a realidade. Apesar do esforço — o post contém, recorde-se, 6.502 caracteres —, o Dr. Joel nem uma linha dedica a estes dois aspectos:

Quando as corporações exigem respeito…

Ciclicamente, as organizações que representam professores, enfermeiros, notários, farmacêuticos, funcionários públicos, militares, juízes, magistrados do Ministério Público, polícias e guardas-republicanos, entre outras corporações, aparecem a exigir respeito. Ao Governo, subtende-se. Vamos, nos próximos dias, folhear as páginas do CC e fazer um apanhado das razões que levam as corporações a exigir respeito.

“PROFESSORES EXIGEM RESPEITO!”

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‘Durante os últimos meses e de modo crescente tem a ministra vindo a tornar públicos planos para reorganizar a escola. Parece pensar tanto na escola como na sociedade. Ainda não lhe deu, felizmente, a vertigem da “grande reforma da educação”. Por enquanto, selecciona problemas e indica o modo como pretende resolvê-los. Ou antes, diz qual é a sua solução. Os exemplos são vários. Procura manter as escolas abertas até ao meio ou fim da tarde. Quer fechar as escolas com menos de 10 ou 15 alunos. Deseja criar um sistema permanente de substituição dos professores faltosos ou com baixa. Pretende assegurar a estabilidade do corpo docente. Tenta garantir uma estabilidade razoável dos manuais escolares. Muito bem! Cinco vezes muito bem.

Os professores estão divididos quanto a estas matérias. Os alunos também. Os pais parecem, pelo que se ouve, mais satisfeitos do que críticos. Curiosamente, ou talvez não, os sindicatos de professores estão praticamente todos contra quase todas estas medidas. Eles não se enganam. Sentem, justamente, que estão a perder poder e que a sua soberania na escola e no sistema de educação está a ser posto em causa. Perceberam que a ministra tem um programa de reforço da disciplina e que deseja que a escola sirva melhor a comunidade, não exclusivamente os docentes. A ministra deve ouvir as críticas dos sindicatos como um elogio. E deve afastar qualquer ideia de “chegar a um consenso” com aquelas organizações: se o fizer, é porque perdeu.’

António Barreto, Público de hoje

sábado, fevereiro 25, 2006

LER OS OUTROS

aqui havíamos exposto a nossa opinião sobre a gestão do património imobiliário do Estado. Leia-se também a opinião de Vital Moreira num post intitulado Contar os custos:

    “O Ministro das Finanças admitiu que os serviços públicos possam vir a ser obrigados a pagar rendas pelos espaços ocupados. Trata-se de uma medida que já estava incluída no programa de racionalização da despesa pública da ECORDEP (2002). Há dois argumentos a favor desta solução: (i) tornar mais transparentes os custos dos serviços públicos; (ii) incentiver à racionalização da ocupação dos espaços.
    Mais um passo positivo na boa gestão financeira do sector público administrativo.”

Populismo: caso prático [2]

Os ingredientes estão lá todos: o estímulo à aversão a pagar impostos, um “parecer jurídico” [sic] a demonstrar uma alegada inconstitucionalidade por se pretender tributar a não utilização de imóveis, uma prosa confusa em que, da primeira à última linha, se diz o mesmo, sem dizer grande coisa… Tudo isto porque um secretário de Estado teve a ousadia de querer travar a contínua degradação dos imóveis situados em áreas urbanas e animar o mercado de arrendamento.

Eis o post do juiz de direito de círculo Joel Timóteo Ramos Pereira (incluindo a deliciosa imagem que é todo um compêndio sobre cidadania):

    Imposto pelo não uso

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    Segundo Martins Alfaro (in Impostos.net), o direito de propriedade do proprietário de um imóvel dá-lhe o direito a gozar o bem, mas concede-lhe igualmente o direito a não o gozar. A Constituição não impõe aos cidadãos o dever de usar os imóveis e muito menos de os arrendar, caso não os habitem".
    Este parecer jurídico surge a propósito da polémica suscitada pelo facto de os fogos devolutos passarem a ser duplamente tributados em sede de Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI). A pretensão do Governo "vem sancionar o não-arrendamento de imóveis e, por esta via, cria um 'dever de arrendar', ou mesmo um arrendamento compulsivo, que diminui gravemente o direito de cada cidadão dispor livremente do bem". Segundo Martins Alfaro, esta forma de arrendamento compulsivo é uma norma punitiva de comportamentos concretos e, por essa razão, "não conforme à Constituição". Com efeito, diz, "os cidadãos não podem ser castigados apenas por exercerem o seu direito de propriedade dentro dos limites normais desse direito". Martins Alfaro alerta para o facto de o IMI ser um imposto sobre o património e não um imposto sobre o modo como se utiliza o património.”

Caro Joel Timóteo Ramos Pereira: em lugar de se socorrer de Martins Alfaro, um fiscalista momentaneamente alçado a constitucionalista, dê uma vista de olhos pelo Código do Imposto Municipal sobre Imóveis. Para não perder tempo, vá directamente ao n.º 8 do artigo 112.º, sob a epígrafe “Taxas”, que estabelece:

    “8 – Os municípios, mediante deliberação da assembleia municipal, podem majorar até 30% a taxa aplicável aos prédios urbanos ou às suas fracções autónomas que se encontrem devolutos.

    (A presente redacção foi dada pela Lei nº 55-B/2004, de 30 de Dezembro, e entrou em vigor no dia 1 de Janeiro de 2005)

Como vê, a possibilidade de agravar a tributação dos prédios devolutos está prevista na lei. É caso para perguntar se se pode confiar nesta forma de fazer política sob o pretexto de pretender esclarecer questões jurídicas?

Um serão no Martinho da Arcada

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Temos uma vaga ideia de que haverá assuntos mais aliciantes para passar um serão. Mas o das escutas telefónicas também serve para dois dedos de conversa. Foi do que se lembrou o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) para promover uma tertúlia no Martinho da Arcada.

João Ramos, membro do SMMP, começou por questionar como é que se investiga um tipo de crime que é "cada vez mais oculto", caso se aperte a malha legislativa para as intercepções telefónicas. Vários outros intervenientes puseram em relevo a indispensabilidade de existência de escutas, muito embora o DN não refira se algum dos presentes questionou o recurso às intercepções telefónicas.

O advogado José António Barreiros preferiu colocar a tónica no controlo efectivo das escutas por parte do juiz de instrução, tendo em conta as conversas que não são transcritas para os processos e uma eventual utilização que se faça das "sobras". Barreiros disse ainda que o recurso às escutas é uma forma relaxada de se fazer investigação criminal. Porque fica-se sentado com um auscultador no ouvido à espera que o suspeito confesse o crime ao telefone.

Rui Pereira, coordenador da Unidade de Missão para a Reforma Penal, terá protagonizado o momento mais agitado da noite, quando afirmou que o ministro da Justiça pediu ao procurador-geral da República o número de escutas telefónicas realizadas por ano, mas este número ainda não foi entregue "porque não existe". "Existe, existe", foi a reacção dos vários procuradores presentes no café Martinho da Arcada. Mas, até ver, Souto Moura ainda não confidenciou o número de escutas ao ministro. Talvez porque haja telefones sob escuta.

PS — Fernando Pessoa não esteve presente, mas enviou uma mensagem:

"Mas o hóspede inconvidado
Que mora no meu destino,
Que não sei como é chegado,
Nem de que honras é digno.

Constrange meu ser de casa
A adaptações de disfarce.
"

A independência da justiça: Souto Moura tem a palavra

No DN de hoje:

Desempregados sem direito a conta bancária

Rui Pena Pires, no Canhoto, retoma a questão de as instituições bancárias estarem a recusar a abertura de contas a clientes “pouco rentáveis”, ou seja, a desempregados, relacionando a situação com a posição assumida pelo Banco de Portugal. Veja aqui a perspectiva de Rui Pena Pires, que analisa as orientações transmitidas pelo banco central.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Populismo: caso prático [1]

Joel Timóteo Ramos Pereira, juiz de direito de círculo, escreve:


Existe a figura do controlador financeiro em vários países, nalguns casos com um estatuto superior ao de director-geral. Trata-se de um cargo que existe também nas grandes empresas privadas. Incumbe-lhe “garantir a satisfação do princípio da economia, eficácia e eficiência na utilização dos fundos públicos”, em particular no que respeita às despesas de elevado montante. Pode discutir-se a bondade da medida, mas não nestes termos. É um mau princípio escrever posts como se estivéssemos num táxi no meio de um monumental engarrafamento.

A palavra aos leitores

A propósito deste post, escreveu António Almeida Felizes o seguinte comentário:

    “Estávamos todos muito felizes, se as dívidas à banca por parte dos governos regionais e municipios fossem só 286 milhões.

    Os 286 milhões é o valor de 2005 a somar aos mais de 1500 milhões entretanto acumulados até então.

    Mas o quadro negro não se fica por aqui, a todas estas dívidas à banca temos ainda que adicionar as várias centenas de milhões de euros a fornecedores - Lisboa (+100 milhões) Porto (50) Gaia (60) etc etc.”

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Pacheco Pereira e a rusga feita a um jornal - A ninguém escapa a ideia de retaliação contra o ‘24 Horas’

As declarações de Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo de ontem, resumidas por Sena Santos para o DN:

    “A rusga ao 24 Horas é muito grave e suscita esclarecimentos que devem ser dados imediatamente. Em causa está uma questão que tem a ver com a qualidade da nossa democracia. A questão de, no aparelho da justiça, e em particular no Ministério Público, haver utilização dos recursos legais, eventualmente com expedientes inteiramente legais, que configura um determinado tipo de abuso de poder e a utilização desses recursos legais para conduzir perseguições a quem ponha em causa o funcionamento da Procuradoria. É muito importante e tem que ser inteiramente esclarecido. Há, porém, um facto do qual não nos devemos desviar que é o seguinte: aqueles registos {de comunicação telefónicas} não deviam estar no processo, como aliás muitos outros. A rusga ao jornal, ao criar uma questão secundária gravíssima, desvia-nos dessa questão central.

    Recordemos os factos: o Presidente da República pediu ao procurador-geral da República um inquérito para esclarecer porque razão uma listagem dos telefonemas de personalidades do Estado estava anexa num envelope ao processo Casa Pia. Aquela listagem funcionou como a gota de água {que poderia levar ao afastamento do PGR?} É óbvio que o PR considerou que se trata de matéria de grande gravidade. Mas, ao fim de três ou quatro dias, com toda a gente a falar do inquérito que o PR pediu urgente, como é habitual em Portugal, deixou-se de saber o que se passava. Qualquer pessoa de bom senso – a justiça também tem de estar sujeita ao escrutínio da opinião pública – pensa que não deve ser muito complicado saber o que se passou com os ficheiros que estavam lá e não deveriam estar. Deve haver um rasto de papel que permita saber o que foi pedido e o que foi enviado e o que foi recebido, justificando todos os actos. Ninguém percebe como é que tudo demora tanto tempo. A não ser que o inquérito tenha passado de esclarecer porque é que o ficheiro estava no Tribunal, para saber como é que chegou ao 24 Horas. A ninguém escapa uma ideia retaliatória: que o 24 Horas é sujeito a uma rusga, em condições de legalidade duvidosa, porque divulgou um acto que, para não ir mais longe, foi de negligência do Ministério Público. Isto tem que ser claramente esclarecido. Tem que haver inteiro esclarecimento sobre se a rusga ao 24 Horas se destina a saber como é que o documento que está no tribunal foi parar ao jornal. A melhor explicação de uma politica não é nenhuma estratégia de comunicação, é fazer as coisas bem. As más práticas estão a pôr em causa a eficácia da justiça. O modo como houve abuso das escutas, objectivamente, pode pôr em causa as escutas – e estas são necessárias. Demos, nos últimos anos, muitos instrumentos à justiça e o facilitismo geral conduziu a casos, alguns de negligência, outros de abuso.”

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Quem disse que era fácil ser prior nesta freguesia?

O Banco de Portugal revelou os dados do endividamento bancário das autarquias e regiões autónomas:

Deve a administração pública estar instalada, em Lisboa, na Av. da Liberdade?



De telex da Lusa:


Não andaremos longe da verdade se dissermos que não existe um inventário exaustivo do património imobiliário do Estado. E se defendermos que o Estado não faz uma gestão racional dos edifícios que cede ou toma de arrendamento.

Não conhecemos o que o ministro das Finanças pretende fazer, mas a verdade é que há boas razões para se mexer no património imobiliário do Estado. E a angariação de receitas [200 milhões de euros?] nem é uma das razões prioritárias. Eis algumas boas razões para o Estado olhar para o seu património:

    1. A reestruturação dos espaços é uma alavanca para a reforma da administração pública, pelo que ambas devem ser efectuadas de uma forma articulada.

    2. O custo do espaço, mesmo quando se trate de edifícios de que o Estado é proprietário, deve ser relevado nos orçamentos dos serviços públicos, de modo a que os seus dirigentes sejam impelidos a fazer uma gestão racional dos recursos colocados ao seu dispor.

    3. Salvo casos excepcionais, designadamente quando haja contacto com o público, os serviços públicos não devem ocupar edifícios nas zonas mais caras das cidades onde se situam, ao contrário do que sucede actualmente.

É o Banco de Portugal uma agência da APB?


Marinus van Reymerswaele, The Banker and His Wife,
Musée des Beaux-Arts, Valenciennes


Escreve-se no DN: “Alguns bancos portugueses estão a recusar a pessoas desempregadas a possibilidade de abrir uma conta bancária. Ao Banco de Portugal "têm chegado reclamações e pedidos de esclarecimento relacionados com recusas de aberturas de contas de depósitos por algumas instituições de crédito", alerta a autoridade de supervisão, numa carta-circular emitida a 15 de Fevereiro.

Que se passa? Há um regime de prestação de serviços mínimos bancários [Decreto-Lei n.º 27-C/2000, de 10 de Março], que só é aplicável às instituições bancárias que a ele adiram voluntariamente. Entretanto, o Banco de Portugal emitiu um aviso [Aviso n.º 11/2005, de 21 de Julho], no qual define os elementos necessários para a abertura de uma conta bancária, medida que visa prevenir situações de branqueamento de capitais e financiamento de actividades terroristas.

Entre os elementos exigidos, está a indicação da profissão do candidato a abrir uma conta e a sua entidade patronal. Agarrando-se a este artifício, vários bancos têm recusado a abertura de conta a desempregados. Vem agora o Banco de Portugal esclarecer [Carta-Circular nº 5/2006/DPG, de 15-02-2006] que, “sem prejuízo da liberdade contratual que assiste às decisões de abertura de contas de depósito, o simples não desempenho de profissão, designadamente no que respeita a donas de casa e a desempregados que não aufiram o subsídio respectivo, não deve constituir motivo de recusa de abertura de contas de depósito, bastando que os próprios declarem aquelas situações, independentemente de eventuais diligências complementares de comprovação de identificações, que, sopesado cada caso, as instituições de crédito entendam realizar”.

Ou seja: o Banco de Portugal deixa ao livre arbítrio das instituições bancárias a possibilidade de aceitarem clientes “pouco rentáveis”. E nem sequer se digna a divulgar os nomes dos bancos que se recusam a aceitar como clientes pessoas desempregadas. Eis como a supervisão exercida pelo banco central também contribui para a exclusão social.

LER OS OUTROS - Quando os professores fazem gazeta

A mais recente luta da Fenfrop tem a ver com as aulas de substituição. Se estamos a ver bem a questão, só há aulas de substituição quando há docentes que faltam às aulas, havendo necessidade de outros professores substituírem os faltosos para que os alunos não se arrastem pela escola durante o imprevisto "furo". Vital Moreira escreve no causa nossa sobre as aulas de substituição. O post intitula-se Os "amigos" da escola pública:

    "Os sindicatos da Fenprof decidiram convocar mais greve de vários dias contra as medidas governamentais relativas às "aulas de substituição" e ao alargamento do horário das escolas do ensino básico.
    É evidente que os sindicatos têm todo o direito de defender os interesses dos seus membros e de lutar contra as medidas que os possam afectar. O que não se compreende é que procurem justificar a sua greve em nome de "uma escola pública de qualidade", como dizem os cartazes da referida força sindical, pois é evidente que neste caso os interesses privativos dos professores não coincidem com o interesse público na promoção da qualidade da escola pública, pelo contrário.
    Com "amigos" destes, aliás, a escola pública não precisaria de inimigos!"

terça-feira, fevereiro 21, 2006

“Isso dos desentendimentos é uma pecha comum entre entendidos”

Image hosting by PhotobucketCaro Paulo Gorjão, estive fora no fim-de-semana e depois tenho estado mergulhado em trabalho. É por isso que só hoje dou sinal de vida.

Após a divulgação do teor do “Envelope 9”, o Presidente da República exigiu ao procurador-geral da República, há mais de um mês atrás, o seguinte:

    “(…) Entendo que a natureza e o conteúdo dos factos noticiados permitem e exigem que essas averiguações estejam ultimadas a curtíssimo prazo. Violações à reserva da vida privada, seja através de escutas telefónicas ilegais, seja através de registos de chamadas telefónicas ou de outras formas igualmente intoleráveis de intromissão na reserva privada dos portugueses não podem passar em claro. Independentemente da responsabilidade disciplinar e criminal a que, concluídas as urgentes averiguações em curso, possa haver lugar pelos factos hoje noticiados, também delas tirarei, se for o caso as adequadas consequências no exercício das minhas competências constitucionais.”

O Presidente foi claro: em primeiro lugar, exigia “urgentes averiguações”; depois, poderia haver lugar a “responsabilidade disciplinar e criminal”. Sampaio apontou um caminho, o procurador-geral ignorou-o e seguiu outro. Em lugar de se socorrer do estatuto disciplinar dos funcionários públicos para promover as “urgentes investigações”, atirou-se para o colo do Código de Processo Penal.

Por outro lado, o raid ao 24 Horas parece indiciar que não é apenas a metodologia adoptada nas investigações a matéria em que o Presidente da República e o procurador-geral da República divergem. Com efeito, o Presidente considerou intolerável a intromissão na vida privada dos portugueses, pretendendo saber como foi possível verificar-se tal situação. No entanto a investigação parece mais preocupada em saber como é que tais informações caíram na redacção do 24 Horas. Um dos mais destacados consultores do Presidente da República, Nuno Brederode Santos, reconhece-o na crónica que escreveu para o DN (e que aqui reproduzimos):

    “(…) o PGR, desde as portas de Belém e da comissão parlamentar até agora, tem perfilhado o entendimento de que o que importa apurar é como é que um ou mais jornalistas tiveram acesso às referidas listas.”

E mais à frente, conclui Brederode Santos:

    “Claro que a interpretação que a PGR faz de qual é a matéria em investigação tem inegáveis vantagens. A começar pelo facto de que seja qual for a resposta que se vai apurar, nada a salpicará com quaisquer culpas funcionais. E a culminar na circunstância de o normal decurso do inquérito judicial agora ordenado apontar para além do termo de alguns mandatos em curso. Porque, ao contrário do que normalmente se pensa, há circunstâncias em que cortar a cabeça do mensageiro resolve mesmo o problema da mensagem.

    O Millôr Fernandes já nos tinha avisado que isso dos desentendimentos é uma pecha comum entre entendidos.”

Ainda ontem, Souto Moura, em declarações transcritas pelo Público, afirmava com uma candura de ir às lágrimas: “Está em curso um inquérito-crime, está-se à espera que o inquérito esteja terminado o mais rapidamente possível mas não posso dar uma data, não se pode dizer que é uma questão de dias”. E quando os jornalistas lhe perguntaram se estava a responder a Jorge Sampaio, que lhe exigiu resultados “a curtíssimo prazo, retorquiu: “O Senhor Presidente da República teve a delicadeza de não estabelecer prazos.” E esta, hein?!

Várias situações protagonizadas pela Procuradoria-geral da República já teriam justificado a intervenção Jorge Sampaio. Não tendo agido, por que o faria agora, quando anda em despedidas de Minho a Timor?

Em todo o caso, não há nada que possa impedir Sampaio de demitir Souto Moura. Só discordamos de Paulo Gorjão num ponto: se o Presidente demitir o procurador-geral, tem a responsabilidade de nomear o substituto. Pode ter contornos diferentes uma situação em que o procurador-geral decidisse sair pelo seu pé.

Águas de Março

Já se tornou um hábito da casa: dar conta aos leitores das pensões de aposentação superiores a 4.000 €. A lista de Março de 2006 da Caixa Geral de Aposentações já está disponível e a nós cabe-nos fazer a selecção dos montantes mais elevados, que respeitam naturalmente aos “corpos profissionais” mais prejudicados pelo Estado.

Não costumamos mencionar os nomes dos beneficiários, porque nos parece irrelevante. Abra-se uma excepção para o Juiz Desembargador Adelino Salvado, envolvido numa série de peripécias rocambolescas que culminaram no arquivamento de um processo contra si movido pelo Conselho Superior da Magistratura por quebra do segredo de justiça. Aposentou-se e, felizmente, vai em paz com um razoável pé-de-meia: 5498.55 €, a que há a somar o extraordinário subsídio de habitação compensação no valor de 700 €.

Eis a nossa selecção de Março:

    Ministério dos Negócios Estrangeiros
    • 4030.05 € — Embaixador — Secretaria Geral

    Ministério da Justiça
    • 5498.55 € — Juiz Desembargador — Conselho Superior Magistratura
    • 5182.91 € — Procurador da República — Procuradoria-Geral República
    • 5498.55 € — Juiz Desembargador — Conselho Superior Magistratura
    • 5498.55 € — Procurador-Geral Adjunto — Procuradoria-Geral República
    • 5498.55 € — Juiz Desembargador — Conselho Superior Magistratura

    Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações
    • 4289.35 € — Investigador-Coordenador — Lab Nacional Engenharia Civil

    Ministério da Saúde
    • 4382.97 € — Assistente Graduado — Hospital De São João, E.P.E.
    • 4740.56 € — Chefe Serviço Carreira Médica — Adm Reg Saúde Lx Vale Tejo
    • 4465.76 € — Director Serviço de Medicina — Centro Hospitalar Coimbra
    • 4405.45 € — Assistente Graduada — Administração Regional Saúde Norte
    • 4544.39 € — Chefe Serviço de Ortopedia — Hospital de Santo André, E.P.E.
    • 4856.95 € — Chefe Serviço Medicina Interna — Hop Infante D. Pedro, E.P.E.
    • 4161.07 € — Assistente Graduado Med. Interna — H N S Conceição Valongo
    • 4357.14 € — Assistente Graduada — Maternidade Dr Alfredo Costa
    • 4710.42 € — Chefe Serviço Anestesiologia — Centro Hospitalar Coimbra
    • 4386.20 € — Assistente Hospitalar Graduado — C H Barlav Algarvio, E.P.E.
    • 4265.21 € — Assistente Graduado Hospitalar — Adm Regional Saúde Norte
    • 4758.73 € — Chefe Serviço — Hospital Geral Santo António, E.P.E.
    • 4261.98 € — Assistente Graduado — Admin Reg Saúde Lisboa Vale Tejo
    • 4314.18 € — Chefe Serviço Hospitalar — Centro Med Reabilitação Alcoitão
    • 4094.86 € — Assistente Graduado — I P Oncologia Lx Franc Gentil, E.P.E.
    • 4498.45 € — Chefe Serviço Medicina Interna — Ctro Hosp Lx (Zona Central)
    • 4383.43 € — Assistente Graduada — I P Oncologia Lx Franc Gentil, E.P.E.
    • 4740.53 € — Chefe Serviço Hospitalar — Hospital Santa Maria, E.P.E.
    • 4159.41 € — Assistente Hospitalar Graduado — Hosp São Sebastião, E.P.E.

    Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
    • 4491.47 € — Professor Catedrático — Fac Ciên Sociais Hum Un Nova Lisboa
    • 4899.79 € — Vice-Reitor — Universidade Algarve

    Empresas Públicas e Sociedades Anónimas
    • 4053.16 € — Engenheiro R — CTT Correios Portugal SA
PS – Há deputados aos quais ainda aproveitam os privilégios do antigamente: depois de, no mês passado, João de Deus Pinheiro, chegou a vez de Fernando Gomes. Não se trata do futebolista.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Domínio da PT é um entrave à concorrência em Portugal

A Comissão Europeia alertou hoje que a posição dominante da Portugal Telecom (PT) constitui um entrave à concorrência do mercado das telecomunicações nacional, sobretudo no acesso à Internet em banda larga.

"A operadora dominante continua a gozar de uma forte posição em todo o mercado, e ainda mais no mercado de banda larga", destaca o relatório "Mercados e Regulação de Comunicações Electrónicas Europeias 2005", elaborado pela Comissão e divulgado hoje. Segundo o relatório, a posição da PT no mercado português é uma das mais fortes entre as empresas com posições dominantes nos vários mercados da União Europeia.

Em 2005, a PT dominava 85 por cento do mercado de ADSL - ligação rápida à Internet de banda larga que reserva um espaço da linha telefónica para o tráfego de informações - e 78 por cento do mercado de banda larga (ligação acima da velocidade padrão dos modems analógicos).

Sugestão de leitura –Eis, pois, o crime a apurar: quem fabricou o punhal com o qual matei meu pai?

Nuno Brederode Santos escreve no DN sobre a estranha investigação do “Envelope 9”. O artigo intitula-se "Desentendimentos":

    "A aparatosa invasão das instalações de um jornal veio revelar que subsiste, entre a PGR e o país, um mal-entendido que era razoável julgar sanado. Ou seja, os muitos críticos e os porventura alguns apoiantes da PGR nesta matéria gostariam de saber como é que foi possível existirem num processo, que já não estava em segredo de justiça, listagens de tráfego telefónico dos titulares de altos cargos públicos (todos eles abrangidos pela "conta Estado" da PT), assim escancaradas à curiosidade de qualquer um. Por seu lado, o PGR, desde as portas de Belém e da comissão parlamentar até agora, tem perfilhado o entendimento de que o que importa apurar é como é que um ou mais jornalistas tiveram acesso às referidas listas.

    Eis, pois, o crime a apurar: quem fabricou o punhal com o qual matei meu pai?

    Talvez por falta de imaginação, tenho muito pouca curiosidade no que toca ao mistério que parece apaixonar a PGR. Se as listas foram copiadas no "local do crime" ou alhures; se o pérfido ia mascarado e roto ou de barba feita e gravata de seda; se a "fuga" se fez em transporte particular ou colectivo - serão excelentes exercícios de investigação detectivesca, mas nada dizem à matéria da nossa legítima curiosidade. Que é esta: houve ou não negligência ou incompetência em manter nos autos desonerados e abertos elementos de informação confidencial? E não essa outra: quem foi o patriótico delinquente que pôs a nu essas hipotéticas negligência e incompetência?

    Claro que a interpretação que a PGR faz de qual é a matéria em investigação tem inegáveis vantagens. A começar pelo facto de que seja qual for a resposta que se vai apurar, nada a salpicará com quaisquer culpas funcionais. E a culminar na circunstância de o normal decurso do inquérito judicial agora ordenado apontar para além do termo de alguns mandatos em curso. Porque, ao contrário do que normalmente se pensa, há circunstâncias em que cortar a cabeça ao mensageiro resolve mesmo o problema da mensagem.

    O Millôr Fernandes já nos tinha avisado que isso dos desentendimentos é uma pecha comum entre entendidos."

domingo, fevereiro 19, 2006

A palavra aos leitores – “Nada têm para dizer, mas dizem-no com tanta graça…”*

Madalena Salgueiro, advogada, escreveu o seguinte comentário, plantando-o aqui e aqui:

    É a primeira vez que aqui vim a este blogue e tenho estado a ler os posts e os comentários.
    Sinceramente, acho indecente como só sabem dizer mal, conspurcar, achincalhar toda a gente e mais alguém.
    Sou advogada e conheço o verbojuridico desde há quase oito anos e tenho aprendido muito com o site, com o blogue e com os livros do Dr. Joel.
    Acho que enveredar pela via do achincalhar fácil a quem não está aqui para se defender é mais do que indecente, é impróprio de pessoas civilizadas.
    As pessoas (mesmo aquelas de que vocês não gostam) também têm direito à sua opinião.
    Ou acham que só vocês é que sabem tudo e o resto não presta ?
    Ainda bem que li estes posts. Esta foi a primeira e a última vez que aqui vim.
    Aprendam boa educação.
    É o que vos falta.
    Madalena Salgueiro

A Dr.ª Madalena apareceu de rompante no CC. Sabe-se lá se por obra e graça do Espírito Santo. Leu-o de fio a pavio e compromete-se a não voltar a maçar-nos. A experiência diz-nos que estas promessas costumam conduzir a um estádio superior de luta: uma mãozinha anónima pelas paredes dos urinóis. A Dr.ª Madalena ficou muito mal impressionada com os autores do CC, mas não teve tempo para explicar os motivos. A Dr.ª Madalena, depois de ter enfatizado o facto de ter aprendido muito com o "Dr. Joel" [sic], sentencia:

    “ Acho que enveredar pela via do achincalhar fácil a quem não está aqui para se defender é mais do que indecente, é impróprio de pessoas civilizadas.
    As pessoas (mesmo aquelas de que vocês não gostam) também têm direito à sua opinião.”

A Dr.ª Madalena não percebeu que, na blogosfera, Joel Timóteo Ramos Pereira é um blogger e não um magistrado judicial. Quando emite as suas opiniões, sobretudo as mais extravagantes [“Mais um golpe constitucional?”], está exposto ao contraditório. De resto, a Dr.ª Madalena esqueceu-se de um pormenor: o comentário de Joel Timóteo Ramos Pereira foi puxado dos confins da caixa de comentários para o blogue. Quer privar-nos de podermos dar a nossa opinião quando discordamos do que um blogger escreve? Não violámos qualquer “convenção” da blogosfera. O mesmo não se poderá dizer de Joel Timóteo Ramos Pereira, que já por diversas vezes comentou posts nossos — designadamente sobre os espantosos privilégios fiscais dos magistrados — sem fazer o link que a mera cortesia impunha.

Dr.ª Madalena, nós não somos muito de dar conselhos. Mas, uma vez sem exemplo, por que não cria um clube de fãs do "Dr. Joel"?

________
* Oscar Wilde

Mictórios

Depois de um fim-de-semana fora, até nós ficámos surpreendidos com o pandemónio que vai pelas caixas de comentários. As corporações não dormem. Mas valerá a pena manter caixas de comentários, assunto que, de resto, está em discussão noutros blogues?

Pensávamos que o debate enriqueceria os temas tratados. Acontece que as caixas de comentários foram capturadas por espontâneos, que actuam como se estivessem a grafar nas paredes dos urinóis públicos. É divertido, mas não estimula o debate de ideias, como se compreenderá. Mas nem tudo se perde. Se as atitudes destes comentadores pudessem ser extrapoladas para o universo, que ideia das corporações projectariam para a sociedade os autores de tais façanhas?

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Ele há coincidências…


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Brandão de Pinho, vice-presidente conselheiro do Supremo Tribunal Administrativo, indica para seu secretário pessoal Brandão de Pinho, com efeitos a partir de 1 de Fevereiro de 2006. Transcreve-se o despacho do presidente do Supremo Tribunal Administrativo, hoje publicado na II Série do Diário da República (p. 2378 na edição em papel e p. 42 na edição electrónica) para comprovar que não é lapso:


SUPREMO TRIBUNAL ADMINISTRATIVO

Despacho n.º 3849/2006 (2.ª série). - Nos termos do disposto no artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 354/97, de 16 de Dezembro, e nos artigos 1.º, 6.º e 7.º do Decreto-Lei n.º 188/2000, de 12 de Agosto (com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 74/2002, de 26 de Março), nomeio secretário pessoal do vice-presidente conselheiro Domingos Brandão de Pinho, e por indicação deste, o licenciado Tiago Filipe Pereira Brandão de Pinho, com efeitos a partir de 1 de Fevereiro de 2006.
1 de Fevereiro de 2006. - O Presidente, Manuel Fernando dos Santos Serra.

Sampaio e Souto Moura: a inversão de papéis

Sampaio não quis manchar a carreira de Souto Moura, forçando-o a demitir-se na sequência da divulgação do teor do “Envelope 9”. Engendrou uma situação de compromisso: — Ó Senhor Procurador, proceda lá a averiguações, mas apresente-me resultados a curtíssimo prazo. Para dar cumprimento à exigência do Presidente da República, o procurador-geral deveria ter-se socorrido do art. 88.º do estatuto disciplinar dos funcionários públicos [Decreto-Lei n.º 24/84, de 16 de Janeiro], instaurando um processo de averiguações, que “é um processo de investigação sumária” que “deve concluir-se no prazo improrrogável de 10 dias”. Souto Moura preferiu refugiar-se no Código de Processo Penal como quem se agarra a uma garrafa de oxigénio. Não há fim à vista, portanto. Agora é Souto Moura que poderá ajudar Sampaio a acabar o mandato com dignidade. Se estiver para aí virado. Quem disse que o “Gato Constipado pura e simplesmente não existe” quer fazer o favor de repensar a sua opinião?

PS — Veja-se como o José anda encantado a dissertar sobre as formalidades (e os prazos) a observar no Código de Processo Penal. Bem esticadinha, a coisa dá para duas encarnações. Com uma vantagem adicional: tratando-se de um processo-crime, está coberto pelo segredo de justiça, pelo que Souto Moura nem pode dar dicas ao dr. Sampaio do estado das investigações.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

LER OS OUTROS

Pacheco Pereira escreve sobre o Envelope 9 e o direito a criticar a Procuradoria-geral da República:

    “Quando escrevi para a Sábado (número que saiu hoje) levantando a dúvida sobre se o inquérito que foi pedido à Procuradoria , não se teria desviado do objectivo explícito para se centrar no 24 Horas, não fazia a mínima ideia das buscas que justificariam plenamente essas palavras. A busca na redacção do 24 Horas abre uma nova página nas relações entre a PGR e os jornais, que eram, até ao processo Casa Pia, de quase colaboração. A história do Independente de Portas na sua cruzada contra os políticos, abrindo caminho para uma República dos Juízes á italiana, só foi possível pela transformação dos magistrados em justiceiros, função que a politização dos magistrados do Ministério Público e a cobardia do poder político facilitou. Com o processo Casa Pia tudo mudou. Por razões nem sempre muito nobres, as sucessivas fugas de informação revelaram claros abusos do poder, negligências e ambiguidades, que comprometiam os métodos da investigação. Depois, a partir daí, cada cavadela, sua minhoca. O caso revelado pelo 24 de Horas, em que é incontornável existir pelo menos negligência no tratamento da informação reservada que nunca deveria estar no processo, tornou-se a gota de água para toda a gente. Na realidade, como já não havia mais margem de manobra para desculpar a actuação da PGR, esta respondeu usando todos os seus poderes e virando uma página na responsabilização dos jornalistas. Que essa responsabilização era de há muito tempo devida, é verdade. Mas mudar a complacência para com a comunicação social nos seus abusos (e que não encontravam no sistema judicial uma protecção capaz porque os tribunais raras vezes protegiam os direitos ofendidos), num processo em que um elemento de retaliação pode sempre ser suspeito, coloca de novo a questão de liberdade de informação... E lá voltamos ao mesmo.

    *

    A auto-censura está a crescer exponencialmente na nossa sociedade. Já não bastava a história das caricaturas, começa-se agora a policiar o que se escreve. Eu próprio me pergunto sobre se o que escrevi atrás me leva a cometer algum crime que justifique qualquer busca, tão fluída está a fronteira da criminalização da opinião. Mas de uma coisa tenho a certeza: se eu não posso livremente criticar a PGR e os seus agentes, sem correr o risco de cometer algum bizarro crime que, mesmo que não me leve à condenação, me leve a viver uns tempos miseráveis e humilhantes, não há genuína liberdade de expressão.”

Envelope 9: a primeira vítima

A palavra aos leitores

A propósito deste post, o Juiz de Círculo Joel Timóteo Ramos Pereira colocou o seguinte esclarecimento na respectiva caixa de comentários:

    Deram-me conhecimento que neste blog teriam utilizado o meu nome para fins que ainda não percebi, razão por que vim confirmar.

    Parece-me que o responsável por este blog não entendeu a razão do título aposto no artigo (título esse que é o único elemento da minha autoria relativamente ao post).

    É que um dos princípios consagrados na Constituição é precisamente o da inamobilidade dos titulares do poder judicial, os Juízes.

    Por conseguinte, quando se fala em deslocalização o citado princípio constitucional pode ser posto em causa. E, isto, constitui um golpe na Constituição. Se não quer chamar de golpe, chame de atentado ou violação.

    Por isso, agradeço que quando faça utilização dos direitos autorais dos outros, não os desvirtue nem aplique a considerações que não constam nem expressa nem indirectamente no seu texto.

Julgamos que, quando se refere a “inamobilidade”, o Juiz de Círculo está a pensar na inamovibilidade dos juízes, conforme estabelece a Constituição [art. 216.º, n.º 1] e o Estatuto dos Magistrados Judiciais [art. 6.º]. Ora, salvo melhor opinião, o Juiz de Círculo está a ver a questão de pernas para o ar.

Que se pretende com a inamovibilidade dos juízes? Um objectivo muito simples: garantir que o poder político não possa escolher um determinado juiz para julgar uma dada causa, por recurso à demissão, à suspensão, à transferência ou à aposentação do titular do cargo. Ou por outras palavras, impedir que um juiz possa ser, sem critério, retirado do tribunal onde está colocado.

É óbvio que, por exemplo, se um tribunal for extinto, ou se for alterada a sua competência, ou ainda se houver lugar a uma rearrumação do quadro de juízes (situações que, na hora actual, a desertificação do interior recomenda), invocar a inamovibilidade dos juízes não faz nenhum sentido — porque não se está a atentar contra os motivos para que foi prevista tal norma. Trata-se, tão-só, de introduzir medidas que melhorem a eficácia da justiça.

É por tudo isto que o esclarecimento elaborado pelo Juiz de Círculo Joel Timóteo Ramos Pereira é relevante. Põe em relevo a confusão que grassa no seio da magistratura judicial. Mostra também até que ponto pode ir a cegueira de uma corporação. E dá razão à pergunta colocada no post que esteve na origem do esclarecimento: É possível reformar a justiça a partir de dentro?

É possível reformar a justiça a partir de dentro?

É certo e sabido: a mera possibilidade de adopção de uma qualquer medida para melhorar a eficiência do sector da justiça provoca um motim imediato nos tribunais, com cenas eventualmente chocantes.

As intervenções públicas da Juiz de Direito Fátima Mata-Mouros puseram em relevo que os problemas da justiça só por acaso têm algo a ver com as reivindicações de caserna da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP). E como o Conselho Superior da Magistratura apenas abre um olho quando intui que o subsídio de habitação compensação dos magistrados jubilados pode correr perigo, as guerras dos juízes ficam à mercê da imaginação avulsa dos intervenientes mais arrojados. Mas sem estratégia ou enquadramento.

Não é segredo de Estado que a distribuição geográfica das comarcas está profundamente desajustada da realidade actual: há uma reconhecida subutilização de recursos nalguns tribunais e uma evidente sobrecarga de trabalho noutros. Os próprios juízes o confirmam (cf. comunicações ao VII Congresso). Mas agora que foi anunciada a reformulação do mapa judiciário, o presidente da ASJP deu o mote para a contestação: os magistrados não são “caixeiros-viajantes”. Mesmo que não haja processos em Penamacor, o tribunal da comarca é parte integrante do património histórico — e o juiz aí depositado deve poder apodrecer em paz.

As lutas pelo aumento do pré ou pelas regalias de natureza social são justificadas como batalhas pela independência dos juízes. Veja-se, a este propósito, um post no Verbo Jurídico, em que o Juiz de Círculo Joel Timóteo Ramos Pereira reproduz uma notícia sobre a reformulação da distribuição dos tribunais, com o sugestivo título de Mais um golpe constitucional ?*

E mais interessante do que o título apocalíptico do post, são os comentários dos leitores, que, tudo o indica, são, na sua maioria, magistrados. O primeiro que se pronunciou considera que o novo mapa judiciário configura “só mais uma machadada na independência do poder judicial” ou “[d]ito de outra forma: a extinção de mais um privilégio...” Um outro leitor, mais versado na história do Século XX, interroga-nos: “Não era o partido de Hitler que se chamava nacional-SOCIALISMO?...” [sic].

É neste quadro peculiar que nos vêm à memória as palavras escritas por Saldanha Sanches, no Expresso de 10 de Dezembro de 2005, de que reproduzimos este extracto:

Pois é capaz de ser.

_____________
* O ponto de interrogação está a bailar sozinho por conta e risco do juiz de círculo.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Sugestão de leitura

Ivan Nunes, n’ A Praia, reproduz parte de Direitos Sagrados, artigo de Francisco Teixeira da Mota no Público de domingo:

    “É preciso lembrar a facilidade com que são aceites as restrições à liberdade de expressão no nosso país. Na revisão do código penal, em 1995, por exemplo, criou-se o crime de "ofensa a pessoa colectiva, organismo ou serviço" que pune com a pena de prisão até 6 meses ou pena de multa, quem "sem ter fundamento para, em boa fé, os reputar verdadeiros, afirmar ou propalar factos inverídicos, capazes de ofenderem a credibilidade, o prestígio ou a confiança que sejam devidos a pessoa colectiva, instituição, corporação, organismo ou serviço que exerça autoridade pública".
    Esta disposição que nega o espaço público à "crítica injusta" ou a "acusações erradas" no domínio da discussão das actividades das autoridades públicas, reforça o poder, até de "serviços" (!), no campo da defesa da sua "credibilidade, prestígio e confiança" e constitui um evidente entrave à liberdade de expressão e de opinião. As críticas e os "ataques" verbais às autoridades públicas ou à sua actuação devem ser o mais livres e irrestritas possíveis. A "credibilidade, prestígio e confiança" desses organismos ou serviços não podem sobrepor-se à liberdade de expressão.
    (...) nos EUA, por uma decisão do Supremo Tribunal em 1989, o "queimar da bandeira" como forma de protesto e de exercício da liberdade de expressão, apesar de considerado profundamente ofensivo para muitos cidadãos, foi consagrado como um direito constitucional.
    No nosso país, manda o "respeitinho": o código penal prevê e pune como crime, o "ultrajar a República, o hino nacional, as armas ou emblemas da soberania portuguesa, ou faltar ao respeito que lhes é devido"...”

LER OS OUTROS

João Gonçalves escreve no Portugal dos Pequeninos sobre o Envelope 9:

    “(…) Foi por causa deste "envelope 9" que o dr. Sampaio falou ao país, indignado, há cerca de um mês, prometendo levar a coisa até às últimas "consequências". Foi igualmente por causa do "envelope 9" que o sr. PGR estimou "inquirir" tudo rapidamente e, por o não ter feito, apareceu a "dar explicações" no Parlamento em que o titubeante contraditório político permitiu que "brilhasse". É, pois, aparentemente no âmbito do tal processo de investigação "rápida" que esta investida contra o 24 Horas se insere. Eu detesto o 24 Horas, naturalmente. Todavia não posso deixar de relevar como "extraordinária" a "reacção" dos órgãos de investigação criminal, "apenas" quase um mês depois dos factos consumados. Se o tablóide publicou aquilo, alguém lho fez chegar. (…)”

LER OS OUTROS

Eduardo Pitta escreve no Da Literatura sobre o Envelope 9:

    "Faz hoje um mês o senhor Presidente da República falou ao país. Em síntese, disse que estavam em jogo «direitos fundamentais dos cidadãos», razão que o obrigara a exigir do procurador-geral da República um esclarecimento cabal, a prestar em «prazo curtíssimo». Estribado no prazo, o PGR adiou por três dias a ida à comissão parlamentar que o convocara. Afinal, o prazo do presidente tinha precedência. Passou um mês. Ninguém se lembra das listas da PT. Ninguém se preocupa com o prazo. Há quem argumente que o esclarecimento não era para nós, era para o dr. Sampaio. Ou que tudo não passou de um equívoco. Em qualquer dos casos, quem deve exigir um esclarecimento são os cidadãos cujos «direitos fundamentais» foram ofendidos, sem que se perceba porquê, e por quem."

Os grandes mistérios do Universo [19]

Pasquim por pasquim, porque é que, quando o Expresso escarrapachou em manchete conversas escutadas “no âmbito” do caso Casa Pia, não foram efectuadas buscas à sede do semanário nem o saudoso Saraiva foi constituído arguido?

Sem mensageiros não há más notícias

Envelope 8½: quem disse que a culpa morria solteira?

Acabar com as férias judiciais

A Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) propõe que se acabe “de vez com as férias judiciais”. Tem lógica: se os juízes só vão poder gozar um mês de férias no Verão, então querem poder escolher o período que lhes convier mais. Veja-se:

De que está à espera o ministro da Justiça para abraçar esta proposta (mesmo sabendo-se que haverá a oposição dos advogados, que terão de introduzir mudanças para se adaptar à situação)?

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Envelope 8 ½ e a “leviandade” de Souto Moura

Eurico Reis*, juiz desembargador do Tribunal da Relação de Lisboa, não está cá com meias medidas. A propósito do inquérito ao caso do “envelope 9”, cujo início ocorreu há um mês, considera que o procurador-geral da República “está a brincar com todos nós”. Eis a notícia da TSF:


__________
* Eurico Reis não colabora no CC.

O poder local atrapalha-se com as contas

O follow up de uma recomendação

As queixas eram mais do que muitas. Perante um tal volume de reclamações contra a lentidão de navegação na Internet, o Instituto do Consumidor recomendou às entidades prestadoras de serviços de acesso (ISP – Internet Service Provider) o seguinte:

    “1 - A publicitação dos serviços de acesso à Internet, quando incida sobre a velocidade de navegação, deve tomar como referência a velocidade média de navegação realmente observada nos tipos de acesso propostos e não uma hipotética velocidade máxima de navegação (download ou upload), mesmo que pontualmente atingível;
    2 - A disponibilização ao consumidor, em momento prévio à celebração do contrato, de informação detalhada, em suporte reproduzível, de forma clara, acessível e inequívoca, incidindo sobre as características técnicas - entre as quais a velocidade média de navegação - e as cláusulas contratuais aplicáveis, elementos indispensáveis a uma escolha consciente e fundamentada por parte do consumidor;
    3 - A maior celeridade no tratamento das reclamações dos consumidores e a melhoria dos serviços de atendimento, sem prejuízo de se encorajar a adesão dos ISP à arbitragem voluntária de conflitos de consumo.”

A recomendação estabelecia ainda o seguinte:

    “Todas as entidades prestadoras de serviços de acesso à Internet a operar no mercado nacional devem informar o Instituto do Consumidor, no prazo de dez dias úteis a contar da data de recepção desta Recomendação, sobre as medidas que irão adoptar para dar seguimento à mesma.”

Tendo a recomendação sido elaborada em 25 de Janeiro do corrente ano, e considerando o prazo de dez dias úteis para os ISP se pronunciarem, mesmo contando com eventuais atrasos dos CTT, não deveriam os consumidores, em geral — e os reclamantes, em particular —, ter sido informados das medidas que tais entidades se propõem adoptar? E se tais medidas foram aceites pelo Instituto do Consumidor?

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

A vindima no ordenamento jurídico interno



Há uma razão ancestral para a extensão das férias dos magistrados: as vindimas. Recrutados nas zonas rurais, a primeira quinzena de Setembro era o momento de reencontro com a terra, ao mesmo tempo que os homens das leis retocavam a contabilidade caseira. Os tempos não estão propícios à modorra, mas os direitos adquiridos conservaram-se.

Este governo teve uma lembrança que não lembrava ao diabo: reduzir as férias judiciais (que se espraiavam pelo Verão, pelo Natal e pela Páscoa) para aumentar a produtividade dos tribunais. Houve um levantamento de rancho. Baptista Coelho, o ainda presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, assaz agastado, disse ao DN: “Esta lei [que reduz as férias judiciais] é uma aberração”. António Cluny, o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, visivelmente animado, garante: "Vai ser a confusão total." Até Edgar Lopes, porta-voz do Conselho Superior da Magistratura — órgão que, note-se, representa o Estado e não os sindicatos —, após aturados estudos, é mesmo capaz de precisar o pico da calamidade que aí vem: “a maior confusão "vai dar-se na segunda quinzena de Julho"”.

Parece que os magistrados têm estado nos últimos tempos ocupados. A fazer contas. Os próprios “conselhos superiores [o da Magistratura e o do Ministério Público] já fizeram as contas e depararam-se com o facto de a lei ser "inaplicável".

E porquê? Porque os magistrados este ano podem, por mero acaso, desatar todos a marcar férias sem interrupção, o que comprometeria a realização de turnos. Os magistrados, naturalmente preocupados com a situação da justiça, concluem que haverá outras formas de aumentar a produtividade sem reduzir as férias judiciais. Quem, no seu lugar, não defenderia com unhas e dentes esta posição?

Ainda é cedo…


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— Sr. Ping, como é que fazem escutas sem ter problemas?


Segundo a TSF, o PGR ainda não tem conclusões para apresentar sobre o inquérito ao “Envelope 9”. “O Procurador-geral da República tinha prometido uma «investigação rápida», mas esta segunda-feira confessa que não vai precipitar conclusões em nome da rapidez.”

Rogério Alves, bastonário da Ordem dos Advogados, comenta a situação: “Tenho pena que o inquérito ainda não esteja concluído, e que não possamos conhecer qualquer tipo de conclusão, embora não me parece grave que a investigação prossiga, até porque o assunto em causa é muito importante”. E deixa um alerta: “é preciso que o assunto não caia no esquecimento e, se em 30 dias não foi possível chegar a nenhuma conclusão, era importante interpelar o Procurador-geral da República para que seja definido um novo prazo para as respostas às questões que ficaram no ar”.

Ainda alguém se lembra do prazo para a conclusão do inquérito, a que aludiu o Presidente da República na que terá sido a sua última comunicação ao país?

Os grandes mistérios do Universo [18]

Marques Mendes dedicou a semana passada à justiça. Pretendia “«aprofundar a agenda sobre a justiça», tema que levou ao Parlamento em Janeiro, e que deverá culminar com algumas propostas concretas, no final da semana.” As “propostas concretas” não chegaram. Deveremos culpar Marques Mendes por não ter cumprido a promessa de apresentar “algumas propostas concretas” ou os recados que lhe fizeram chegar as corporações eram de tal forma inexequíveis que o líder do PSD se viu obrigado a esquecer rapidamente a semana dedicada à justiça?

Baptista Coelho, volta que estás perdoado!

Vai haver eleições na Associação Sindical dos Juízes Portugueses. Baptista Coelho recandidata-se, mas aparece uma outra lista. A oposição é encabeçada por António Martins, que já deu uma entrevista ao seu blogue, na qual, relativamente ao “quadro de vencimentos dos Juízes”, “perspectiva” o seguinte:

O leitor, se estiver interessado, poderá consultar alguns posts do CC para verificar, por exemplo, que:
    • O nosso país está entre os países da Europa que pagam melhor aos magistrados, em especial aos do Ministério Público [Pode conferir os vencimentos aqui e compará-los com os praticados noutros países europeus aqui.];
    • Os magistrados em início de carreira ganham mais (contando com o subsídio de habitação compensação) do que um licenciado da função pública no topo da carreira;
    • Um certo achatamento da pirâmide remuneratória fica a dever-se à circunstância de o subsídio de habitação compensação ser igual para a turba da 1.ª instância e para os lugares de topo do poder judicial (cf. aqui).
Os juízes, como titulares de um órgão de soberania, querem auferir remunerações superiores às do Presidente da República? E os magistrados do Ministério Público, que não são titulares de um órgão de soberania, também querem?

"O grande embuste do preço das obras públicas"

Artigo (referido aqui) cuja leitura é indispensável. Destacamos este extracto:

    "Os preços de boa parte das obras públicas em Portugal são feitos com base numa sucessão de mentiras. A começar no preço inicial ditado pelo dono da obra e a acabar nas propostas das construtoras.

    A derrapagem dos custos das obras é um dos "emblemas" da administração pública portuguesa. Há descontrolos para todos os gostos, desde os já lendários do Centro Cultural de Belém ou da Casa da Música, até aos mais comezinhos das obras municipais. A regra é a derrapagem, a excepção é a coincidência entre o valor posto a concurso e o preço real da empreitada.

    Toda a gente sabe que é assim: desde os organismos do Estado e as câmaras, aos projectistas e construtoras. E todos aprenderam a viver num sistema em que a simulação, a hipocrisia e a mentira constroem uma nebulosa de interesses e conluios onde tudo é possível e o rigor orçamental sai de rastos."

sábado, fevereiro 11, 2006

Proposta em cima da mesa*

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Encontro de trabalho, na sede do PSD, entre Marques Mendes e Baptista Coelho, presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses:

Ó dr. Marques Mendes, e se, para impor um pacto de regime na justiça, os juízes passassem a sair dos tribunais às quatro horas da tarde? Apoia-nos?

Marques Mendes, voltando-se para Paula Teixeira da Cruz, segredou:

Mas de quem foi a ideia de chamar este tipo à São Caetano?

Veio a saber-se mais tarde que a ideia partira de Vasco Rato.

* Ficção, é claro.

"Caixeiros-viajantes"? O pacto de regime é já a seguir...

Da desertificação do interior resulta que são precisos menos professores, médicos ou juízes em Freixo de Espada à Cinta. Está, por isso, em estudo um novo "mapa judiciário", através do qual o quadro de juízes e funcionários será reforçado em algumas comarcas e reduzido noutras, para dar resposta ao problema de haver uma manifesta subutilização de magistrados e funcionários nalguns tribunais e uma grande sobrecarga de trabalho noutros.

Baptista Coelho, presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, mostrou-se de imediato contra esta hipótese: “os juízes são titulares de tribunais e não são juízes itinerantes a ser transferidos de forma aleatória como se de caixeiros-viajantes se tratassem.” [em declarações ao Diário Económico]

Ontem, à saída da sede do PSD, onde esteve a tratar do pacto de regime para a justiça com Marques Mendes, o dirigente sindical voltou a mostrar uma grande abertura para reformas na justiça:

Não interessa se há tribunais quase sem processos. Não interessa que, consumada a nova distribuição geográfica dos tribunais, continue o Conselho Superior da Magistratura incumbido de fazer a “gestão” dos juízes. Baptista Coelho está contra — e prontos! Eis o pacto da justiça no seu esplendor… É como no futebol: as corporações são mesmo assim.

Justiça sem avaliação do desempenho?

Marques Mendes comprometeu-se a apresentar, no termo da semana dedicada à justiça, propostas concretas para a melhoria da justiça. O silêncio a que, entretanto, se remeteu parece indiciar que a semana não lhe correu de feição — e que terá, ele próprio, ficado perplexo com as exigências das corporações. A verdade é que as corporações dos juízes e dos magistrados do Ministério Público, através do Conselho Superior da Magistratura e do Conselho Superior do Ministério Público, capturaram as funções do Estado no âmbito da justiça.

Como acontece na maioria dos países europeus, tem de haver um órgão de avaliação dos magistrados — que não pode ser constituído maioritariamente por magistrados. Numa semana em que se soube que os juízes estão em “greve de zelo”, abandonando os tribunais às cinco horas da tarde, Marques Mendes parece ter ficado em evidentes dificuldades para descalçar a bota da semana dedicada à justiça:

    • Ou se mantém em silêncio, não fazendo quaisquer propostas, como está a suceder;
    • Ou denuncia os privilégios dos magistrados, o primeiro dos quais é a inexistência de uma avaliação séria do seu desempenho;
    • Ou assume uma posição populista de defesa das corporações.

A palavra às corporações

Somos provavelmente as únicas pessoas ao cima da Terra que manifestámos interesse em acompanhar, a par e passo, a semana dedicada por Marques Mendes à justiça — além das personagens com interesses óbvios na matéria. A peregrinação decorreu assim: o presidente do PSD percorreu as capelinhas que lhe permitiram os 15 minutos de fama da praxe e mostrou abertura para receber na São Caetano à Lapa os restantes dignitários das corporações da justiça.

Marques Mendes foi em romaria ao Largo do Corpo Santo, onde se reuniu com José Moura Nunes da Cruz, na sua qualidade de presidente do Conselho Superior da Magistratura, órgão do Estado incumbido de “gerir” os juízes. O segundo “encontro de trabalho” realizou-se na Rua da Escola Politécnica com José Adriano Souto Moura, na sua qualidade de procurador-geral da República. O terceiro “encontro de trabalho” realizou-se, nas instalações da Ordem dos Advogados, com o bastonário Rogério Alves. O quarto encontro teve lugar na Rua de São Pedro de Alcântara, sede do Supremo Tribunal Administrativo, com o presidente Manuel Santos Serra.

Na São Caetano à Lapa, sede do PSD, foram sucessivamente recebidos, para “encontros de trabalho”, António Cluny, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Gomes da Cunha, presidente da Câmara dos Solicitares, Fernando Fernandes, presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais, e Alexandre Baptista Coelho, presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses.

A informação disponível é omissa relativamente aos motivos por que Marques Mendes não se reuniu com José Moura Nunes da Cruz, na sua qualidade de presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Igualmente não se apuraram as razões por que Marques Mendes não se reuniu com o presidente do Conselho Superior do Ministério Público, José Adriano Souto Moura.

Especialistas contactados pelo CC não souberam também justificar a ausência de “encontros de trabalho” com os presidentes do Tribunal Constitucional e do Tribunal de Contas. Admitiram porém que o presidente do PSD tivesse querido privilegiar os contactos com as cúpulas das corporações, de que só destoa aparentemente o encontro com Manuel Santos Serra.

Quem julga o julgador?

“Importa combater, na magistratura como na função pública, uma avaliação de desempenho laxista e permissiva, implementando mecanismos como as classificações quantitativas ou o sistema de quotas, de modo a premiar o mérito e a penalizar a incompetência. É imperioso desenvolver mecanismos que permitam uma magistratura de excelência, a qual só emergirá, decidida, quando, realmente, se afinarem critérios exigentes de avaliação.”

Juiz José Igreja Matos, no VII Congresso dos Juízes

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Entretanto, a comissão de vencimentos do Banco de Portugal não se descose…

Image hosting by PhotobucketJá falámos por diversas vezes da situação de excepção de que gozam os membros do conselho de administração do Banco de Portugal (por exemplo, aqui). Acontece que a Resolução do Conselho de Ministros n.º 155/2005, de 6 de Outubro, estabeleceu, no ponto 14, que, “(…) no prazo de 30 dias a contar da data da entrada em vigor da presente resolução, os órgãos de direcção, as comissões de vencimentos e os órgãos ou grupos de trabalho similares existentes no âmbito das entidades sujeitas à presente resolução devem informar o Governo, através do Ministro de Estado e das Finanças, das medidas a adoptar com vista ao efectivo cumprimento das disposições da presente resolução.”

Miguel Beleza, presidente da comissão de vencimentos do Banco de Portugal, ouvido pelo Público no dia 1 de Dezembro, afirmou que ainda estavam a estudar o assunto. Continuará, agora que estamos em Fevereiro, a estudar o assunto?