quinta-feira, julho 31, 2008

Os momentos Maya de Frasquilho

Sobre o processo de consolidação orçamental, Miguel Frasquilho vaticinava, logo em 2005, que não seria possível reduzir o défice: “eu considero que não é razoável, em 3 anos apenas, num período de falta de dinamismo da economia, eventualmente, de recessão, corrigir este valor” [entrevista ao jornal Vida Económica de 16 de Setembro de 2005]. Não se atingiu o resultado em três anos — mas em dois.

Apesar disso, Frasquilho proferia, já no ano passado, uma sentença demolidora: “(…) um processo de consolidação orçamental absolutamente desadequado e fracassado.

Agora, subitamente, Miguel Frasquilho aparece a escrever este naco de prosa:
    «Assim, mesmo com uma segunda metade do ano claramente pior do que a primeira em termos orçamentais, e correndo todos os riscos que uma análise deste género comporta, devo referir que a possibilidade de um défice inferior a 2% do PIB em 2008 parece ser, de facto, real.

    Mas… será surpreendente?... Não!... (…) Ou seja: em cada ano da presente legislatura, até agora, o défice obtido acabou por se situar sempre (bastante) abaixo do que tinha sido inicialmente previsto – logo, a registar-se em 2008 o resultado acima referido, nada mais sucederia do que a… “normalidade” dos últimos anos.
    »
“Mas... será surpreendente?... Não!...” São apenas momentos Maya de um distinto economista e deputado do PSD.

Belém inova

O Presidente da República vai falar ao país. Aguardemos. O que à partida parece estranho é que Cavaco anuncie esta declaração ao país através de um órgão de informação — e não através de uma nota da Presidência para toda a comunicação social.

Mais estranho ainda é que a escolha tenha recaído no Público, essa voz ao serviço da liberdade, da democracia e do progresso. Já quando Cavaco estava a preparar as suas leituras de férias, deu por falta de uns estudos sobre obras públicas, tendo decidido requisitá-los através da comunicação social — no caso através do luminoso Sol.

É um contributo inovador de Cavaco Silva para garantir “o regular funcionamento das instituições democráticas”, de acordo com o que estabelece o artigo 120.º da Constituição.

Esta gente não tem emenda




Pedro Namora, uma cara habitual nas televisões, é um alto quadro do PCP, figura próxima de Jerónimo de Sousa. Descubro, através do Jumento — estranhamente acusado pelo Google (com uma filial em Portugal) de publicar posts com um “conteúdo (…) reprovável” —, que Namora tem um blogue no qual produz sucessivas “análises concretas da situação concreta”. É todo um programa político que, com a devida vénia, se transcreve:
    “A CORJA
    O governo de Sócrates é uma excrescência, um aglomerado de trapaceiros políticos, uma mentira permanente, uma corja de cobardes de peito inchado contra os trabalhadores, mas subserviente e de cócoras ante o patronato.

    Não formam um governo, são um bando. Chusma miserável sempre pronta a rosnar contra os que produzem riqueza. O único propósito que têm é destruir o que resta do que Abril possibilitou. Agora é o direito a férias. Se os deixarem hão-de colocar-nos nas galés.

    Que quem elegeu estes dejectos tenha consciência do atoleiro em que nos colocou. Eles não governam, destroem. Não há uma única coisa que tenham feito em prol dos trabalhadores que os elegeram. Com o socialismo na lapela, não passam de malfeitores ao serviço da CIP, da CAP e da CCP.

    E claro, da CIA, que os premeia permanentemente desde que apadrinhou o Mário Soares logo em Abril de 1974.”

♪ Misty Roses



Tim Hardin

Astrud Gilberto

quarta-feira, julho 30, 2008

Vale a pena votar num partido que se recusa a governar?




Louçã já disse taxativamente que o BE não quer fazer parte do arco da governação — a nível central ou local. Ricardo Sá Fernandes, que se apresenta como “um socialista sem partido, que, nos últimos anos, se reviu em muitas posições do Bloco de Esquerda”, escreve hoje no Público um artigo intitulado O desnorteamento do Bloco de Esquerda em Lisboa, no qual analisa o comportamento dos bloquistas. Eis a parte final do artigo:
    "3. Nem tudo é perfeito, nem sempre há uma completa sintonia e há ainda um longo caminho a percorrer, mas a verdade é que o acordo político celebrado entre o PS e Lisboa é gente - respeitando todos os pontos que esta considerara inegociáveis durante a campanha eleitoral - tem funcionado, no seio da CML, com eficácia e com lealdade recíproca. Lisboa está a ganhar.

    4. É por isso verdadeiramente lamentável a posição que a direcção do BE tem vindo crescentemente a assumir em relação a José Sá Fernandes e ao acordo com o PS.

    Começou, logo após a posse do executivo, com a afirmação absurda e politicamente incompreensível de que o acordo não seria repetido! Depois, têm sido os puros pretextos para desvalorizar o seu candidato e, pasme-se, para elogiar Helena Roseta, que, com a direita do executivo, inviabilizou, por exemplo, a reavaliação de todos os negócios pretéritos que envolviam a Bragaparques e não aprovou a iniciativa das reuniões descentralizadas que, a nível das freguesias, a CML tem vindo a promover.

    5. Nos primeiros meses, o cavalo-de-batalha foram os falsos recibos verdes. Resolvido tal problema, buscou-se outra fonte de ruptura. Agora, a magna questão é a exigência da imediata extinção da Gebalis, ignorando a necessidade de aguardar as investigações judiciais que a envolvem e a dinâmica geral, em curso, de reestruturação das empresas municipais. Pelo meio, ficaram campanhas de imprensa que visaram atingir o carácter do seu candidato, com falsidades e deturpações acerca do seu relacionamento com o PS.

    6. Infelizmente, os sinais são muito claros. A direcção do BE já não tem como prioridade a revitalização de Lisboa no quadro de uma união alargada com todos aqueles que, neste momento histórico, estão em condições de a levar por diante.

    Tudo submete e sacrifica ao interesse partidário — politicamente mesquinho — de, na proximidade dos actos eleitorais de 2009, não aparentar qualquer ligação ao PS, por mais justificada que seja. A direcção do BE mostra o pior da política."

A causa das cousas




O gráfico (e a notícia) é do Público. Roubei-o aqui — com este sugestivo título: Médicos, os anos de Cavaco foram negros.

O país mudou, mas ela não se deu conta




São dados do INE que demoraram um pouco a chegar: afinal, o PIB cresceu em 2006 mais do que havia sido anunciado. E as exportações subiram significativamente: aconteceu em 2006, mas também a verdade é que continuou a crescer em 2007 e, apesar da situação económica internacional, a tendência vem-se mantendo em 2008.

A líder do PSD diz que o modelo económico está esgotado e que é preciso apostar nas exportações. Por enquanto não digam nada a Manuela Ferreira Leite: deixem-na viver na ilusão de que o país ainda está como a senhora o deixou.

Como o PSD tratou as Finanças Públicas nos últimos 25 anos?

Sugere-se a leitura integral de A obra financeira do PSD, um post escrito por João Pinto e Castro. Aqui fica um extracto:




    "Não é frequente ver-se este gráfico que descreve a evolução do défice das contas públicas entre 1980 e 2004.

    Para os mais esquecidos, o Ministro das Finanças do Governo da AD, em 1980 e 1981, foi Cavaco Silva. Apesar do desequilíbrio da balança de pagamentos, valorizou o escudo, baixou a taxa de juro e congelou os preços dos transportes públicos em pleno segundo choque petrolífero. Nunca a situação financeira do país se degradou tão depressa como então.

    Não admira que Cavaco Silva tenha fugido rapidamente do governo e que Balsemão o tenha também abandonado em 1982. Em 1985 Cavaco voltou, já como primeiro-ministro, e isso nota-se imediatamente no gráfico. Nos anos subsequentes, a entrada dos fundos comunitários atenuou o défice do orçamento geral do Estado, que desceu para os 4% em 1989.

    Mas era preciso conquistar nova maioria absoluta em 1991, de modo que as despesas correntes voltaram a crescer em flecha. A massa salarial dos professores, por exemplo, cresceu 98% entre 1989 e 1991.

    Novo recuo temporário pós-eleitoral, novo disparo em seguida, de modo que, ao chegar ao Governo, o PS recebeu um défice de quase 8%. Pode-se ver no gráfico como ele diminuiu continuamente até 2000. Em 2001, ano em que se inverteu a tendência, subiu um pouco acima dos 4%, registando uma descida mínima em 2002.

    Regressado em 2002 ao governo, o PSD retomou prontamente a sua tradição despesista, atirando o défice para perto dos 6%. Sabemos como, com Sócrates, regressou entretanto para perto dos 2%.

    Ouvimos às vezes dizer que o trabalho feito pelo actual governo poderia ter sido feito pelo PSD, mas é difícil entender-se em que se baseia esta crença. Nada - mas mesmo nada - no currículo do PSD sugere que saiba ou queira pôr na ordem as contas públicas. Na sua última passagem pelo governo, agitou a crise financeira como justificação para reduzir despesas sociais, mas jamais revelou vontade de atacar os problemas de fundo, fosse reduzindo despesas, fosse aumentando receitas."

♪ Dory Previn


i was born left-handed
but the nuns where i went to school
they said it wasn't right so they
broke me of it
and now i'm right-handed
just like i'm supposed to be
and now
i'm fine
i'm just fine
really

Left Hand Lost

terça-feira, julho 29, 2008

A ERC é que anda desatenta

Entrevista do DN a Pacheco Pereira (referida aqui):
    DN — Escreve num jornal onde há uma cruzada declarada contra José Sócrates?
    JPP — Sim, com que eu, na maioria dos casos, estou de acordo, defendendo o Público.

“Estou além”




O Estatuto Político-Administrativo dos Açores foi aprovado por unanimidade pela Assembleia da República — também, portanto, pelo PSD. Quando Cavaco Silva decidiu suscitar a fiscalização preventiva da constitucionalidade do diploma, Manuela Ferreira Leite saiu de coma para descobrir que o PS (e só o PS) quis “arranjar um conflito” com o Presidente da República [a ouvir aqui com a fluência habitual].

Uma cabeça mais simplista poderia dizer que a líder do PSD vive obcecada e em função do Presidente da República. Ou que Ferreira Leite veio ver a bola e não tem nada a ver com nada — assim a modos que pairando acima das coisas terrenas como o António Variações de Estou além.

Vital Moreira tem uma explicação mais elaborada para explicar a reacção desatinada de Ferreira Leite: “O que é preocupante nisto tudo é mais esta cedência de Manuela Ferreira Leite (depois do precedente dos custos das obras públicas) à tentação oportunista de instrumentalizar partidariamente as posições do Presidente da República.”

Já é mais difícil de aceitar a conclusão final extraída por Vital Moreira, sobretudo quando se assiste a uma tão grande sintonia entre ambos (o Presidente e a regente): “É fácil ver que esta conduta seguidista não pode agradar a Belém...” Parece-me, antes, que é fácil ver que esta conduta seguidista não vai acabar bem…

Maioria absoluta

Como Eduardo Pitta sublinha, a arrogância atribuída ao PS é, afinal, algo exagerada: a maioria dos diplomas foi aprovada com votos favoráveis de outros partidos representados no Parlamento, em especial do PSD.

Pode então concluir-se que há um "bloco central"? O DN não faz a coisa por menos: «Existe de facto um 'bloco central' na aprovação parlamentar das leis oriundas do Governo. Os números são indesmentíveis. A maioria dos diplomas (30 em 55) obteve luz verde da bancada social-democrata. Segue-se o CDS-PP. À esquerda, o panorama é exactamente o oposto».

Aqui já parece haver precipitação por parte da jornalista que extrai esta conclusão. Com efeito, convém fazer uma análise mais fina para não se ser levado ao engano pelos números. Sem sequer procurar ser exaustivo, eis um conjunto de leis "estruturais" que foi votado só com os votos do PS, tendo os restantes partidos votado contra:
    • Reforma da Segurança Social (que Ferreira Leite agora elogia, mas queria que tivesse ido "mais longe");
    • Programa de Estabilidade e Crescimento;
    • Orçamentos do Estado;
    • Sistema de Avaliação de Desempenho na Administração Pública;
    • Lei da Mobilidade na Administração Pública;
    • Alteração da Contribuição dos Beneficiários da ADSE;
    • Regime Jurídico do Ensino Superior;
    • Vínculos, carreiras e remunerações;
    • Mapa judiciário.
Olhando para o que foi feito pelo PS desde 2005, poderiam ter sido tomadas estas medidas estruturais sem a existência da maioria absoluta?

♪ Weekend


A View From Her Room

segunda-feira, julho 28, 2008

À conversa com os leitores

Tinha prometido voltar hoje à entrevista de Ferreira Leite, mas estou cansado. E não prometi, mas tinha a intenção de também voltar à entrevista de Pacheco Pereira. Começo a ter assuntos de mais em carteira (como a necessidade da maioria absoluta para governar, questão que foi discutida entre Eduardo Pitta e Paulo Gorjão, ora regressado à blogosfera). Também alguns elementos enviados por leitores não foram ainda publicados, mas procurarei fazê-lo nos próximos dias.

Vamos ver se a silly season cumpre o seu dever, para eu ter tempo de pôr os assuntos em dia.

Segredo de justiça e outras histórias

No país em que a Inquisição durou até mais tarde, não é de estranhar que as propostas de Cravinho sejam acolhidas tão calorosamente. Em que assenta o êxito destas propostas? Eu acho que assentam em três pilares essenciais:
    1.º Entende Cravinho que é decisivo criar um crime de riqueza inexplicável para punir a corrupção;
    2.º Entende também Cravinho que, nos casos de corrupção, o segredo de justiça deveria durar para sempre e, se calhar, não deveria haver prescrição nunca;
    3.º Entende, finalmente, Cravinho que os políticos são especialmente suspeitos e que nunca se pode presumir a sua honestidade.
Quanto ao primeiro pilar, importa perceber que o tal crime de riqueza inexplicável constitui um sofisma para tornear as dificuldades da investigação e da prova. Não duvido de que alguns corruptos fossem punidos dessa forma indirecta, mas estou certo de que à mistura seriam também punidos alguns inocentes.

Imagine-se que, para ultrapassar as dificuldades do caso Maddie, se puniriam os pais pelo crime do desaparecimento inexplicável. Deixaria de ser necessário provar o homicídio e todos ficávamos contentes por a culpa não morrer solteira.

Relativamente ao segundo pilar, importa lembrar que os prazos do “segredo interno”, ao fim dos quais as partes podem consultar o processo, são uma garantia de que este não se converte numa perseguição arbitrária.

Além disso, os prazos para a criminalidade complexa, que inclui a corrupção, podem ser prorrogados. O que não se admite é que, à boa maneira da Inquisição, o processo se arraste ilimitadamente, sem o arguido saber de que é acusado e como se pode defender.

Em relação ao terceiro pilar, Cravinho mostra bem o que pensa, ao criticar o presidente do Tribunal de Contas por dirigir uma comissão especialmente criada para o combate à corrupção. Afirma que fazem parte de tal comissão inspectores-gerais que estão na dependência do Governo. Admita-se que, por isso, essa comissão claudicava: há alguma norma que impeça o Tribunal de Contas de tomar em mãos a tarefa de apurar os factos?

Patrão fora, dia santo na loja (até ter ligado a net)




Esta manhã, o destaque que o Público on-line costuma dar a um dos artigos de opinião publicados na edição em papel ia para a seguinte passagem do artigo de Francisco Sarsfield Cabral:
    Ao contrário da ideia corrente de que o Estado-providência é coisa do passado, ele irá afirmar-se mais na América, onde a sua presença é reduzida.
Entretanto, a censura funcionou. O extracto foi retirado e não há, neste momento, nenhuma frase em destaque no lado esquerdo da página.

Leituras

• Francisco Sarsfield Cabral, Os limites do mercado:
    “Os EUA estão no centro do furacão não só porque são os campeões do mercado livre mas também porque vão à frente na invenção de novos produtos financeiros. As regras e, sobretudo, as práticas nos mercados financeiros europeus têm-se mantido bem mais prudentes do que nos EUA.

    Por isso, os americanos têm agora algo a aprender com os europeus no plano financeiro. E não só nessa área. Ao contrário da ideia corrente de que o Estado-providência é coisa do passado, ele irá afirmar-se mais na América, onde a sua presença é reduzida.

    Decerto que o Estado-providência está em crise financeira na Europa, por causa do envelhecimento da população, agora quase toda abrangida pela segurança social, e do fraco crescimento económico. Mas não vai desaparecer - apenas se tornará menos generoso, como já acontece, incluindo em Portugal.”
• Rui Moreira, Mau perder:
    Naturalmente, os seus patrões [de José Eduardo Mniz], da Prisa, estarão desencantados. Prefeririam que a RTP não tivesse audiências e que estas fossem disputadas entre a TVI e a SIC. Mas o mercado não pode ser talhado no alfaiate de Moniz, à medida de interesses particulares. E, das duas uma: ou se defende uma regulamentação, em que a RTP participa, ou se propõe um mercado aberto a todos os novos concorrentes, em que os "monizes" que têm unhas tocam a guitarra...

    Para o contribuinte, o que interessa é que a RTP lhe preste um bom serviço público e cumpra o seu orçamento. Algo que tem, como se sabe, melhorado nos últimos anos. Desta vez, será fácil verificar se, tal como Guilherme Costa garantiu, a proposta respeita os limites orçamentais definidos.

    O que é intolerável são os comentários de Morais Sarmento, que, tendo sido o ministro responsável pela informação no tempo de Barroso, veio dizer que suspeita ter havido batota no leilão. Gostava, e desafio-o aqui, a dizer tudo o que sabe. Já agora, gostaria que nos explicasse se foi ele - e se não foi ele quem foi - que, há quatro anos, ordenou à RTP que cedesse, sem mais-valias, a transmissão de dois dos jogos da selecção, no Europeu de 2004, às duas estações privadas. É que, por acaso, a RTP tinha ganho esse leilão e podia, legitimamente, capitalizar esse negócio... E não foi seguramente por acaso, nem por masoquismo, que, depois, prescindiu da transmissão doméstica, em sinal aberto, dos segundo e terceiro jogos de Portugal...
Rui Tavares, Ideias perfeitas:
    “Para Rui Ramos, pelo contrário, a única ideia genial para a pobreza é não fazer nada. Pensará ele que nunca foi experimentada?” [a ler amanhã no 5 Dias]

A festa do Chão da Lagoa é…



… uma festa “folclórica” quando o convite para nela participar (e discursar) não chega.

Viagens na Minha Terra

♪ Jonathan Richman


That Summer Feeling

domingo, julho 27, 2008

Um silêncio que se justifica


— Más notícias, Manuela, o preço do petróleo desce e desce e desce.



A entrevista ao Expresso de ontem (mais uma) e o artigo que escreve no mesmo semanário parecem dar razão a Manuela Ferreira Leite. Tem tudo a ganhar em se conservar em silêncio.

É certo que a líder do PSD, digamos assim, não pode abrir o jogo, mas no pouco que disse ao Expresso revela que a sua cabeça está numa desordem inesperada para quem está apenas a um ano das eleições. Sobre a prometida quebra do silêncio, o qual a vai mantendo ligada à máquina (partidária), responde assim: “Não é quando se chega lá, mas é quando se conhecem a fundo os dossiês.” Ou mais à frente, como quem se dispõe a frequentar as Novas Oportunidades: “à medida que os dossiês vão sendo trabalhados, falarei, com um conhecimento profundo.”

Apesar de tudo, é bom comprovar que o jornal do militante n.º 1 não pode fazer milagres. E a verdade, verdadinha, é que Manuela Ferreira Leite não tem vida para “isto”: “Continuo a ir às compras e a ter acção social [sic] quando é preciso”, diz em resposta à questão de saber se as mulheres pensam 24 horas por dia em política.

Amanhã, a gente volta à entrevista.

Diferenças ideológicas entre cavaquistas e Portas? Não são grandes, mas convém lembrar o óbvio...

Santana Lopes ao Sol: “Tem-se dito que Manuela Ferreira Leite nunca poderia coligar-se com Paulo Portas, dadas as conhecidas distâncias entre os ‘cavaquistas’ e o líder do CDS-PP. Mas, também aqui, não estamos perante grandes diferenças ideológicas.” Há apenas um pequeno problema, como sublinha Santana: “A questão está em que, primeiro, é preciso ganhar as eleições.

Estratégia do PSD: “Quanto pior, melhor”




Pacheco explica, uma vez mais, a estratégia do PSD — ter esperança num agravamento da crise económica internacional (e muita fé em Deus):
    DN — Vamos ter eleições brevemente. A "direita" vai tirar a maioria à "esquerda"?
    JPP — Pode tirar-lhe a maioria e pode ganhar as eleições. Eu acho que as pessoas estão a menosprezar uma circunstância fundamental, que é o clima em que as eleições de 2009 se vão realizar, numa altura em que os portugueses mais estarão a sofrer com a crise económica e social. E o que é que vai pensar o português que vota nessa altura? Vai votar sem grandes expectativas, cansado de promessas, farto que lhe prometam que há luz ao fim do túnel e de perceber que não sairá tão facilmente dele.

    DN — As próximas eleições vão, então, decidir-se pela bolsa e não pelo mérito do PSD?
    JPP — Eu acho que isso não é uma distinção sem sentido, porque quando uma pessoa vota numa eleição vota sempre com o coração e com a bolsa. E ambos são mecanismos muito legítimos para votar. Mas a verdade é que a bolsa, em período eleitoral, transporta política. É verdade que o coração, em período eleitoral, transporta política e eu não vejo que o facto de as pessoas votarem pela bolsa tenha menos dignidade, particularmente num país pobre em que as pessoas estão a conhecer dificuldades. Espero que votem pela bolsa, de uma forma que tenha significado político.

Pacheco já não está só



O intelectual Jaime Ramos, esse coronel-empreiteiro da pérola do Atlântico, também já faz política à moda da Marmeleira.

Da série "Frases que impõem respeito" [190]

    “O que deve ser feito, no essencial, é aquilo que o Governo está a fazer.”

Indoor Fireworks


Elvis Costello

Elvis Costello with Lucinda Williams

sábado, julho 26, 2008

Leituras

• Emídio Rangel, Quem quer bolota, trepa:
    «O meu bom amigo Pacheco Pereira, com a perspicácia e a inteligência que se lhe reconhecem, não deixa de usar, consoante as conveniências, dois pesos e duas medidas na análise da nossa realidade política. É evidente que o faz com uma enorme habilidade, fazendo passar, cada uma a seu tempo, duas mensagens contraditórias.

    É o caso agora das movimentações, aparentemente bem sucedidas, do primeiro-ministro a três países com quem Portugal já vinha reforçando ligações económicas mais fortes (antes da crise) e que, perante o caos internacional, justificava uma actuação mais eficaz para suprir a baixa das nossas exportações nos mercados tradicionais em dificuldades. Já ouvi Pacheco Pereira defender que, no contexto internacional, o único critério válido é o das relações Estado a Estado. Muitas vezes vi Pacheco Pereira validar acções e omissões da NATO quando era um fervoroso cultor das actividades desta estrutura militar.

    Tenho ainda presente o que disse sobre a intervenção americana no Iraque, onde o seu discurso aparecia impregnado de um enorme pragmatismo a favor da paz e contra o terrorismo internacional, quando hoje está provado que não havia razões para aquela catástrofe, que tinha pressupostos falsos. Não entendo como verbera o primeiro-ministro por não seguir a doutrina de Manuela Ferreira Leite quando defende uma política de braços caídos. Julgo que todos os países que Pacheco Pereira estabelece como paradigmas de uma boa actuação política, todos eles, mantêm o mesmo pragmatismo e têm relações muito diversas, sobretudo económicas, na África ou na Ásia, com governantes pouco escrupulosos que "prosseguem acções internas pouco democráticas e políticas externas agressivas".»
• José António Lima, DITO & FEITO (in Sol):
    “NÃO É fácil, passados quase dois meses, por muito boa vontade e esforço de compreensão que se tenha, entender o que quer, ao que vem e para onde vai a liderança de Manuela Ferreira Leite no PSD.

    (…) O que levou Ferreira Leite a quebrar o silêncio e a sair do seu retiro partidário foram, no passado fim de semana, as políticas de ajudas e subsídios à juventude. Que considera «assistenciais e totalmente desadequadas». Um tema e uma prioridade, no mínimo, perplexizantes.

    NO QUE respeita ao conteúdo, Ferreira Leite levantou, até agora, duas questões. A dos «investimentos astronómicos» do Estado, que não foi capaz de concretizar (É o TGV para Madrid? A ligação Lisboa-Porto? As novas auto-estradas? - Ninguém sabe). E a da «emergência social», que não soube explicar nem substanciar a nível de propostas. Como ideias, uma única: a de que o país está outra vez de tanga. Convenhamos que, como contributo político, é pouco.

    NO QUE respeita à estratégia, Manuela diz que a função do PSD é fiscalizar o Governo e não dar-lhe sugestões e propostas alternativas. É uma concepção minimalista e redutora do espaço e da intervenção do principal partido da Oposição. Reduzir o PSD ao papel de ASAE de Sócrates e seus ministros só pode ter consequências eleitorais desastrosas. Ao nível dos resultados de Santana Lopes em 2005.

    Com Menezes era o populismo desenfreado e bacoco. Com Manuela, a santinha da Ladeira que o PSD em aflição tirou do pedestal, é o formalismo etéreo e politicamente oco. A caminho da não-existência.”
• Vasco Pulido Valente, A táctica do silêncio:
    «(…) Ferreira Leite desapareceu de cena. Consta (por Marcelo Rebelo de Sousa) que se está a guardar para o próximo Orçamento do Estado (em Outubro), para mostrar o que essencialmente a separa de Sócrates. Talvez sim. Só que não basta. O Orçamento não resume a sociedade portuguesa, nem uma intervenção ocasional, por muito importante que pareça, ganha à candidata Ferreira Leite a confiança do país. Falta o resto e o resto é tudo ou quase tudo.

    Em 2009, o PSD corre o perigo óbvio de uma cisão definitiva. Se Sócrates chegar a maioria absoluta, fica provada a impotência intrínseca do partido: do populismo, do "liberalismo" e, principalmente, da social-democracia, que Ferreira Leite à sua maneira representa.

    Se Sócrates não passar da maioria relativa, e apesar de enfáticos protestos de virtude, a perspectiva (ou a ideia) do "Bloco Central" vai dividir o PSD de cima a baixo. Para evitar o pior, Ferreira Leite precisa de transmitir uma convicção que se não sente (nada que se aproxime, por exemplo, do fervor de Cavaco por si próprio) e precisa de injectar um novo espírito no velho eleitorado do PSD, já que a unidade interna é hoje pura fantasia. Mas não se inspiram três milhões de pessoas com silêncio e uma aula ou outra de finanças públicas

♪ Caetano Veloso (hoje)


Sozinho

sexta-feira, julho 25, 2008

Viagens na Minha Terra

Populista era o outro que queria ir para a porta das fábricas

Manuela Ferreira Leite ao Expresso: “preferia ter visto o primeiro-ministro a fazer um périplo pelo país a apoiar as pequenas e médias empresa que são o coração da economia nacional”, em vez do périplo pelos grandes países do petróleo.

Afinal, de que ramo é que Marcelo é especialista?





Não me refiro obviamente à baixa política, na qual Marcelo não tem rival: no que é infinitamente pequeno ele demonstra toda a sua grandeza.

Refiro-me apenas ao Direito (com maiúscula e tudo). Ao longo das suas homilias dominicais, Marcelo vem revelando lacunas imperdoáveis. Eis algumas, ao acaso, das que fui anotando no CC: no terreno do Direito Constitucional, comete erros que envergonhariam qualquer aluno médio; o Direito Penal também não é manifestamente o seu ponto forte, ou não afirmaria, todo sorridente para as câmaras, isto ou isto; relativamente ao Direito Internacional Público é o que se .

Mas, ao ouvi-lo recentemente dissertar sobre o conflito no seio do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, convenci-me de que o Prof. Marcelo se havia dedicado em exclusividade ao Direito Administrativo: “as decisões do Conselho de Justiça da FPF são nulas” porque o presidente [do Conselho de Justiça] tem razão em tudo, excepto em relação à acta [Ouça-se aqui e aqui].

Hoje, o maior especialista português em Direito Administrativo, o Prof. Diogo Freitas do Amaral, tornou público um parecer no qual arrasa tudo o que comentador Marcelo disse, com a sua habitual ligeireza, sobre o conflito no Conselho de Justiça.

Percebe agora, caro leitor, por que Marcelo foi, há dias, clamorosamente derrotado (21-8) nas eleições da Faculdade de Direito de Lisboa? Nós temos de o aturar ao Domingo. Os professores de Direito entendem que não é seu dever ter de o aturar durante a semana.

O Zé (já não) faz falta


♪ Steeleye Span


Hard Times of Old England

quinta-feira, julho 24, 2008

Quem manipulou grosseiramente Cavaco em 1990?

Vamos aguardar pelo luminoso Sol do próximo fim-de-semana para saber se o secretário de Estado da Cultura “da época” pode dar um contributo para esclarecer mais esta polémica interna do PSD.

"Vale muito, mas muito mais"

Paulo Morais, ex-vice-presidente de Rui Rio na Câmara do Porto, sobre a demolição do bairro do Aleixo:
    “(…) o negócio revela-se desastroso para a cidade, sob o ponto de vista económico. Com efeito, a troco do realojamento de 300 famílias, que custaria à câmara cerca de sete milhões de euros, está a entregar-se a um privado um terreno, em zona privilegiadíssima do Porto, que vale muito, mas muito mais.” [no JN, via Blasfémias]

Da série "Frases que impõem respeito" [189]

    “A falta de médicos em Portugal tem origens claras e tem responsáveis claros”.
      Mariano Gago, que explica o que quis dizer: “Aconteceu um fenómeno trágico em Portugal, de total irresponsabilidade social. Se em 1977 entravam nas cinco faculdades de Medicina do país em conjunto cerca de mil estudantes, em 1986 [Governo de Cavaco Silva], foram autorizados a entrar nas cinco faculdades de Medicina portuguesas – por decisão manifestamente política – 190 estudantes”.

♪ Leonard Cohen


If It Be Your Will

quarta-feira, julho 23, 2008

Trabalhadores do Continente mal pagos impõem subsídio em espécie

Eis a manchete do Público:




É com alguma ansiedade que se folheia apressadamente o jornal para encontrar a página 29. Afinal, os dados respeitam a 2007, ainda o Público não falava em crise.

E se calhar não é a crise responsável pelos roubos, já que “produtos pequenos e caros são os mais furtados”. Quando supus que o jornal relataria que o desbaste dos stocks se tinha verificado nas embalagens de carne ou de leite, lê-se que os amigos do alheio estiveram mais atentos aos cosméticos e aos perfumes.

Mais, para além de existir “uma percentagem pouco expressiva de actos isolados”, o que revela que não é consequência de dificuldades económicas como sugere a manchete, o estudo a que se refere o Público adianta que “os furtos são cometidos, em fatias iguais, por trabalhadores e por consumidores”. Assim sendo, talvez a manchete que mais se adequasse à situação teria sido esta:
    “Trabalhadores do Continente mal pagos impõem subsídio em espécie”.
Mas o objectivo do estudo promovido pela Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) é outro: “calcula” que os amigos do alheio se apropriam de 0,53 por cento da facturação, pelo que está a pressionar o Ministério das Finanças para “a necessidade de rever a lei fiscal”. Ou seja, a APED pretende que seja “admitido como custo dedutível, a título de perda desconhecida, um valor não inferior a 0,6 por cento da facturação.”

À partida, pelos cálculos da APED, o Continente já estaria a lucrar à custa dos amigos do alheio (0,6 – 0,53). É mais lucrativo do que ter de reforçar a segurança nos hipermercados. Aguarda-se, a todo o momento, um inflamado editorial de José Manuel Fernandes a defender que os contribuintes não têm de suportar mais encargos.

O cavaquismo caiu na rua: “começar a enviar sms para todo o lado”

Vasco Graça Moura fez hoje uma revelação surpreendente: na sua cruzada contra o acordo ortográfico, o intelectual do cavaquismo arrebanhou, já após a ratificação do tratado que o institui, mais um apoiante. Nada mais, nada menos do que Aníbal Cavaco Silva.

O Dr. Moura dá conta de que o Presidente da República — embora “não tivesse outro remédio formal que não fosse o de ratificar o segundo protocolo modificativo do Acordo Ortográfico” — “está ciente de tudo isso [“um cancro incurável na ortografia da língua portuguesa”] por ter mandado estudar a abundante documentação que lhe foi entregue oportunamente.

Não esboce um sorriso, caro leitor, para o facto de Cavaco ter subscrito o acordo nos idos de 90. Aqui é o Dr. Graça que elucida: “o Governo tentará comprometer pessoalmente o Presidente da República com toda esta situação vergonhosa, já que o Acordo Ortográfico foi subscrito em 1990 quando o prof. Cavaco Silva era primeiro-ministro. Simplesmente, há indícios de a chefia do Governo da época ter sido grosseiramente manipulada.”

Há “indícios”, diz o paradigma do intelectual cavaquista, de que “a chefia do Governo da época” [Cavaco himself] foi “grosseiramente manipulada”.

18 (dezoito) anos depois de Cavaco ter subscrito o acordo ortográfico como primeiro-ministro, e após ter ratificado o tratado como Presidente da República, aparece um porta-voz encartado do cavaquismo a alertar de que ele foi, primeiramente manipulado, e, agora, só apôs a sua assinatura porque está manietado.

Graça Moura enlouqueceu ou é o cavaquismo que caiu na rua?

Más notícias para a estratégia de Pacheco Pereira

Há duas semanas que o preço do petróleo está a descer.

A vida em ambientes inóspitos

Pacheco Pereira editou um folheto sobre a chamada extrema-esquerda. João Gonçalves compareceu no lançamento da obra e ficou desiludido com a “família laranja”, que preferiu aparentemente tomar um refresco no Tamariz: «Do PSD , "actual" ou menos "actual", estava o dr. Arnaut e a editora, Zita Seabra, evidentemente na condição de editora. Seria de elementar cortesia, para dizer o menos, que alguns membros da "família laranja" celebrassem a saída de um livro de um "dos seus" marcando presença.»

Gonçalves conclui: «O PSD, que já teve à sua frente um ilustre maoísta, possui um negativo lastro "anti-intelectual". É o resultado, em parte, da própria história do partido, forjada num "registo" mais pragmático do que ideológico e de uma presença assídua no poder. No poder, por natureza, pensa-se pouco e tende-se a desprezar quem pensa.» E, na oposição, pelos vistos, também.

Mas há um aspecto que, infelizmente, Gonçalves não foca. É que o único membro da “família laranja” que marcou presença é o ex-ministro e ex-secretário-geral Arnault, cujo nome apareceu envolvido nas trapalhadas da Somague e do Casino Lisboa.

A verdade é que a presença de Arnault pode não ter a ver com um súbito interesse em conhecer as revelações de Pacheco acerca dos extremófilos. Pode ter tido um propósito mais prosaico: simplesmente aproveitar o evento para prestar os esclarecimentos que Pacheco Pereira exigiu no dia em que ocupou a cadeira de José Manuel Fernandes. Para o ano, quando reassumir as funções de director do Público por um dia, logo saberemos o que Pacheco tem a reportar aos estimáveis leitores do jornal.

Da série "Frases que impõem respeito" [188]

    Durão é um carreirista politico muito bem sucedido.”

Leituras




Baptista-Bastos escreve sobre António Borges. Mas o outro artigo que cito também o poderia ser. É verdade que ambos os textos poderiam ter por musa inspiradora várias outras figuras da política doméstica, embora assentem bem neste descendente de Carlos Magno e Hugo Capeto:

Baptista-Bastos, O GÉNIO DOS CORREDORES:
    “Num curioso artigo editado no Público de anteontem, o dr. António Borges aplicou, como refrigério para a nossa crise, a extraordinária indicação: "Um grande desafio para o PSD: relançar a economia privada." O dr. Borges, ao que me dizem, é o resultado de uma adição entre conhecimentos gerais de economia e absolutos desconhecimentos da realidade concreta. Não está só, neste campo. Porém, é tido e havido como uma espécie de génio que veio de longe e, pois, marcado pelo toque de civilizações preciosamente trabalhadas.

    Com perdão da palavra, não me parece que o artigo em causa seja o produto de uma meninge propensa a grandes elucubrações. Redigido num português medíocre e um pouco confuso, nada diz de novo nem de relevante. O dr. Borges poderia escrever que o grande desafio para o PSD seria relançar a educação ou relançar a justiça ou relançar a saúde ou relançar as pescas ou relançar a agricultura ou relançar a auto-estima - a consequência dava no mesmo: inutilidade redonda.

    O dr. Borges possui (haja Freud!) ar grave e pose imponente. Poder-se-ia atribuir-lhe, com tal apresentação, a espessura de um pensamento incomum, a densidade de uma ideia inovadora, a eficácia de uma doutrina que fizesse estremecer de emoção os espíritos expectantes, a crença de um patriota que resgatasse esta atonia desequilibrada e mórbida. Nada. Além do mais, emaranha empresários com empreendimentos, as Descobertas com empresas, ignorando que, neste último caso, a grande empresa foi constituída pelo Estado: os "empresários" de então não arriscaram numa aventura de improváveis lucros. Um módico entendimento da História impediria o dr. Borges de cometer o desatino.”
• João Pinto e Castro, Contra o pensamento ocioso:
    “Insistir na ideia de que, se os portugueses se resignassem a consumir menos, o país entraria nos eixos é, nas actuais circunstâncias, uma piedosa intenção votada ao insucesso. Certos comentadores recusam-se a aceitar que algumas formas de ajustamento dos mercados são mais difíceis do que outras; mas todos sabemos que é mais fácil aumentar salários do que baixá-los, empregar pessoas do que dispensá-las e aumentar o consumo do que baixá-lo.

    E se, em vez de batermos com a cabeça nas paredes, encarássemos antes a coisa de uma perspectiva igualmente verdadeira, mas incomparavelmente mais útil? E se, em vez de dizermos que gastamos acima das nossas posses, sublinhássemos antes que produzimos abaixo das nossas capacidades? Onde a primeira formulação cria um muro psicológico que fomenta o medo e paralisa a vontade, a segunda oferece uma orientação positiva e mobiliza o esforço colectivo. A forma como se diz as coisas tem consequências. Temos um problema de produtividade que não se deve, nem a trabalharmos pouco, nem a investirmos de menos, antes a tirarmos medíocre partido dos recursos produtivos, em boa parte por os concentrarmos em actividades económicas de reduzido potencial. A boa notícia é que, na presente década, a nossa estrutura produtiva tem vindo a sofrer uma rápida transformação, sem paralelo desde os anos 60.

    Em poucos anos, a natureza do turismo alterou-se e os têxteis foram substituídos, na liderança das exportações, por máquinas e aparelhos eléctricos e serviços às empresas. A balança tecnológica tornou-se positiva (…).

    Os desafios superam-se potenciando a capacidade transformadora das nossas forças, não carpindo as fraquezas. É mais produtivo mobilizar as pessoas para fazerem coisas do que para se queixarem. É mais fácil mobilizá-las com uma visão coerente do futuro do que com ameaças de empobrecimento e resignação.

    Entre nós, o nível do debate económico é frequentemente rebaixado por insistentes prédicas acerca dos vícios e virtudes dos nossos concidadãos, porque esse tipo de abordagem não exige nem estudos nem conhecimentos especializados, apenas requer capacidade retórica.

    A mudança de perspectiva que recomendo não equivale a privilegiar o optimismo sobre o pessimismo, mas a valorizar o pensamento produtivo em detrimento do pensamento ocioso.”

♪ Matching Mole (Robert Wyatt)


Signed Curtain

terça-feira, julho 22, 2008

Viagens na Minha Terra

Leituras

• Edmund Phelps, Economia mais dinâmica:
    «Quando o preço dos activos desce, a quebra na procura de equipamento e no consumo acaba por enfraquecer a taxa de câmbio real. Ora, os preços mais elevados no petróleo importado e nas matérias-primas, por sua vez, enfraquecem directamente a taxa de câmbio. O problema não é os estímulos às exportações aumentarem. O problema é as empresas nacionais, hoje melhor protegidas contra os rivais estrangeiros, agirem como monopolistas, aumentando as margens e encurtando a oferta. Resumindo, o emprego vai sofrer.

    Ainda ninguém reflectiu muito bem sobre este efeito na taxa de câmbio. No passado, as políticas monetárias visavam aumentar as taxas de juro e não descê-las – quando a taxa de desemprego se encontrava abaixo do seu “destino” a médio prazo. Hoje, tudo parece voltar ao seu lugar. Ou seja, vamos ser atingidos por uma vaga de inflação, o emprego vai diminuir, a maioria do investimento vai para o estrangeiro e a inovação corre o risco de estagnar. Acredito, porém, que precisamos de uma economia muito mais dinâmica para retomarmos o caminho da prosperidade.»
• Pedro Adão e Silva, Um jogo de culpas:
    «Depois do bloqueio dos camionistas, das manifestações da CGTP, da subida do petróleo e das taxas de juro e da eleição de uma nova liderança no PSD, não deixa de ser surpreendente que o PS continue, de acordo com a sondagem do CESOP da Universidade Católica, a liderar as intenções de voto. Tendo em conta a percepção de que o “estado de graça” do actual executivo terá terminado, como explicar esta situação?»

♪ The Thrills


Restaurant

segunda-feira, julho 21, 2008

Da série "Nunca o fiz, não faço, nem façarei" [3]

Belém anda numa enorme azáfama. Cavaco tem sempre uma deixa engatilhada (mil vezes ensaiada); fontes de Belém, nunca desmentidas, animam e alimentam as redacções com recados que fazem lembrar os tempos em que o ex-primeiro-ministro Balsemão se viu forçado a exigir a Eanes que as reuniões entre ambos fossem gravadas para atalhar à constante intoxicação da opinião pública; e, agora, é chegada a hora da assessoria do Presidente da República estabelecer, por escrito, como quer que prossiga a governação.

Escreve, no Jornal de Negócios de hoje, João Borges de Assunção, “Consultor para os Assuntos Económicos” do Presidente da República:
    “Já no Estado existe um activismo preocupante. As regras e leis são mudadas com frequência excessiva. A opinião pública parece valorizar políticos com muitas ideias mesmo que sejam mutuamente inconsistentes. A justificação, muitas vezes conjuntural, para criar novas regras, medidas e instrumentos é muito pobre e percebe-se que há uma reflexão insuficiente em muitas medidas propostas.

    O que me leva a uma segunda característica comum entre nós. Há também um elevado défice de análise prévia de decisões. Quando alguém no sector privado toma decisões que põem em causa o seu próprio património merece certamente a nossa admiração pelo risco que assume e a coragem que demonstra. Porém, se não usa de forma criteriosa o conhecimento que já existe, há também um elemento de irresponsabilidade e imprudência nessas decisões. Ainda assim, tendo em conta a actual apatia económica na sociedade portuguesa, a coragem e iniciativa são admiráveis para mim.

    Já quando se trata da coisa pública a situação é diferente. Muitas vezes os riscos mais importantes que estão em jogo não são assumidos pelos seus proponentes mas são suportados pela sociedade em geral. A possibilidade do Estado assumir riscos elevados sem a devida ponderação não é algo para ser admirado mas sim uma prova da fragilidade das nossas instituições democráticas. Que aparentemente ainda não conseguiram incorporar os critérios da racionalidade e do conhecimento técnico e científico nos seus processos decisórios.”
Como acontece quando o objectivo é apenas o de promover a intoxicação da opinião pública, convém proclamar coisas que soam bem, evitando no entanto precisar quais as “decisões” cujos “riscos elevados” são assumidos “sem a devida ponderação”, revelando a “fragilidade das nossas instituições democráticas”.

Razão tinha um amigo meu, quando, perante o meu espanto por Manuela Ferreira Leite não ter constituído uma equipa para concorrer às directas no PSD, me respondeu de imediato:
    Não precisa. Tem os assessores de Belém.
Qualquer pessoa tem o direito de presumir que o que o “Consultor para os Assuntos Económicos” do Presidente da República escreve reflecte o pensamento de Cavaco Silva. Só não se percebe que o Presidente não imponha um mínimo de reserva aos seus colaboradores directos. Aquilo a que se chama sentido de Estado.

"Num país onde o valor da liberdade fosse minimamente valorizado..."

Escreve José Manuel Fernandes no seu editorial de hoje, a propósito da colocação de chips nos automóveis para permitir a operação de um sistema automático de portagens em Portugal:
"Num país onde o valor da liberdade fosse minimamente valorizado [sic], o chip nas matrículas teria levantado um sobressalto cívico. Em Portugal, suscitou pouco mais do que um encolher de ombros."
Um país onde o valor da liberdade fosse minimanente valorizado? Tipo quê? Inglaterra, por exemplo?

Informem-se aqui como funciona o sistema de portagens automáticas em vigor em Londres e noutras cidades inglesas.

Decididamente, o sectarismo deu-lhe a volta ao miolo

ISP

Afinal, Portas não tem ideia do que andava a reivindicar.

Da série "Frases que impõem respeito" [187]

    “É preciso ter muito cuidado com o coração ao pé da boca. Sei do que falo.”

Leituras

• António Correia de Campos, Como vencer a crise e fazer amigos:
    “(…) Rangel apareceu com pompa e substância, corrigiu excessos verbais da dr.ª Manuela, a qual aproveitou a sua nótula económica para lançar o receio, historicamente real, de que a partilha do risco nos grandes investimentos, se faça contra o pagador de impostos. Vai ter que se preparar para nos explicar a sua cedência de créditos que nos custa os olhos da cara.

    Mas a líder do PSD tem um problema comunicacional: apesar de voluntariosas ajudas de Rangel, Pacheco Pereira e Capucho, não consegue convencer que não disse que o país não tem dinheiro para nada, que para si o casamento anda sempre associado a procriação, que a proposta de Constâncio sobre o nuclear deu jeito ao Governo por abafar as más notícias económicas, que o PSD deve apenas criticar sem ter que propor, pelo menos antes da campanha eleitoral (…).

    Borges apareceu a dizer coisas tão óbvias que pareciam sensatas, mas fugiu-lhe o pé para a chinela: que nestes três anos se haviam realizado investimentos públicos insensatos. Caro professor, quais? Se passar os olhos pelos três últimos PIDDAC verá que foi baixando a parte pública do investimento em estradas, portos, aeroportos e hospitais, onde pode ser substituída por investimento privado e subiu de forma espectacular em ciência e tecnologia, em educação e na protecção social, onde o privado ainda se não interessa. Se tiver a paciência de ler os maçadores relatórios que Bruxelas exige ao QREN, verá que se inverteu o foco do betão para a formação.”
• Camilo Lourenço, Cavaco mostra as garras?:
    “Primeiro foi a referência às vias de comunicação no interior (associada à falta de informação, do Governo, sobre o plano de estradas). Depois foi o encorajamento ao estudo da energia nuclear. A seguir veio o desabafo sobre a publicação tardia do Boletim do Banco de Portugal: "no meu tempo creio que o relatório anual era divulgado mais cedo" (Constâncio deve ter as orelhas a arder).

    Na 6ª feira foram as alusões ao endividamento excessivo do país e às saídas para a crise (exportações).”

"Não percebo que Portas continue a permitir uma falsidade"

Santana Lopes no Sol:
    "Tem sido muitas vezes referido que o então empossado ministro da Defesa e dos Assuntos do Mar não saberia que iria ter esses referidos Assuntos à sua responsabilidade. Já tive ocasião de esclarecer o caso. Mas, que eu saiba, Paulo Portas nunca o fez. E, ao longo destes quatro anos, tenho-me perguntado porquê.
    Apesar de tantas vezes já ter ouvido essa falsidade, nunca falei com Paulo Portas sobre esse silêncio. E, sinceramente, continuo sem entender o que justificará que uma pessoa com princípios, como é o caso, admita que essa mentira possa vingar."

“Uma solução de olhar para trás”, ou seja, uma “alternativa frouxa”

A entrevista de Maria Flor Pedroso a Campos e Cunha, presidente da SEDES, está parcialmente reproduzida no JN. Um extracto:
    MFP — Uma coisa que o documento da SEDES diz é que "no maior partido da Oposição poderá ter-se iniciado um ciclo de estabilidade quando isso é necessário à afirmação de uma alternativa credível". Acha isso verdade?
    CC — O que nós dizemos é que "pode ter-se iniciado..." É possível que se tenha iniciado.

    MFP — (...) Disse há dois meses: "julgo que se a dra. Manuela Ferreira Leite ganhar as eleições no PSD é uma solução de olhar para trás"(...).
    CC — É verdade.

    MFP — Como é que olhando para trás se pode iniciar um ciclo de estabilidade (...)?
    CC — A estabilidade num partido pode-se construir suscitando algumas pessoas do passado, isso é um problema interno do PSD. (...) Aquilo que eu disse, e mantenho, na entrevista é da minha inteira responsabilidade. O outro é um documento colectivo. (...) Penso que é provável que esta direcção do PSD vá até às eleições, mas porque as eleições estão relativamente perto. Se fossem daqui a dois anos já não seria Manuela Ferreira Leite. (...) À medida que surgirem entrevistas e debates, as pessoas vão perceber que a alternativa é relativamente frouxa.

♪ Jonathan Richman & The Modern Lovers



Morning of Our Lives

domingo, julho 20, 2008

Quando a precariedade é positiva

O atabalhoado discurso de Manuela Ferreira Leite sobre o “empreendedorismo dos jovens”, analisado aqui por João Miranda, compreender-se-á melhor se nos lembrarmos do que disse aquando das directas no PSD:
    “Questionada sobre que medidas pretende apresentar para combater o desemprego, Ferreira Leite afirmou que «qualquer trabalho que se arranje tem sempre um aspecto de precariedade» e que esse aspecto é «positivo».”
Pois, a receita da líder do PSD é fomentar o “empreendedorismo” através da precariedade do trabalho, que é por isso positiva.

Estão a ver por que o Dr. Pacheco quer que a Dr.ª Manuela se mantenha em silêncio no recato do lar, onde “as mulheres não pensam 24 horas por dia em política”?

Da série "Nunca o fiz, não faço, nem façarei" [2]




Cavaco convidou um grupo de deputados para um repasto em Belém. Com o sentido de Estado que se lhe reconhece, disparou sobre o governador do Banco de Portugal: “No meu tempo do Banco de Portugal creio que o relatório anual era divulgado mais cedo.”

Segundo o Expresso, «a leitura do relatório [anual do Banco de Portugal] tinha sido agendada para dia 15 Julho, "de forma consensual", entre o governador do Banco de Portugal e o presidente da Comissão Parlamentar de Finanças, Jorge Neto, curiosamente um social-democrata

Por isso, e ainda segundo Expresso, “a surpreendente declaração de Cavaco apanhou desprevenidos os parlamentares presentes no almoço que assinalou em Belém o fim da sessão legislativa.

Depois de ninguém se ter incomodado com as palavras de Manuela Ferreira Leite, que afirmou que Constâncio falara na energia nuclear para desviar a atenção do relatório do Banco de Portugal, Sua Excelência o Presidente da República veio a correr dar uma mãozinha.

Cavaco parece apostado em ser o presidente de um terço do PSD.

Da série "Frases que impõem respeito" [186]

    "O que o Presidente [Cavaco] tem que fazer é gerir a progressiva degradação do PS¹ e a gradual afirmação estratégica do PSD".
      Joaquim Aguiar, conselheiro político da candidatura de Cavaco à presidência da República e administrador do Grupo Mello
__________
¹ Já antes das eleições legislativas, o olho clínico de Joaquim Aguiar detectara a "progressiva degradação do PS". Para ser rigoroso, ele já pensa isso desde 1973, quando o PS foi constituído e Aguiar andava a explicar o marcelismo aos Mellos.

Viagens na Minha Terra

Relembrando o papel da violência na história




Já aqui havia contado a história de um cidadão da República que, com dois sopapos bem medidos, amassou as bochechas do valente Alberto João. O episódio é relembrado no Expresso de ontem [Política à moda da Madeira, p. 10], através de Sara Moura, a corajosa correspondente na Madeira:
    «Logo no início da emancipação política madeirense, em meados de 1978, Alberto João Jardim mostrou ao que vinha. Num discurso inflamado na festa anual do partido, o histórico líder madeirense disse que os militares se tinham "efeminado". O comandante do Regimento de Infantaria da Madeira, coronel Lacerda, não gostou. Vestiu a farda de gala, pediu uma audiência a Jardim e, sem mais palavras, ofereceu-lhe um par de estalos na cara. O presidente do Governo Regional (GR) levou o caso ao Conselho da Revolução, onde Vasco Lourenço terá dito: "arquive-se na casa de banho".»

♪ Leonard Cohen

Ontem, foi como em Glastonbury: com mais gente, mas sem o ecrã gigante. Começou às 21 horas em ponto, ainda a noite não tinha chegado:




Dance Me to the End of Love




Hey, That's No Way to Say Goodbye

♪ Leonard Cohen




Who by Fire




Bird on a Wire

♪ Leonard Cohen




Tower of Song




First We Take Manhattan

sábado, julho 19, 2008

Da série "Frases que impõem respeito" [185]

    “Ao ouvir Demétrio Alves, ex-autarca de Loures, dar uma entrevista à TVI, todo bronzeado e com vista para o mar a justificar os incidentes de Loures com o aumento desemprego¹ , repetindo os argumentos de Jerónimo de Sousa percebi logo que aquele bairro maravilha foi uma invenção do PCP.”
_________
¹ Isto só podia ser uma nota de rodapé.

Felizmente há dinheiro




Passos Coelho é que, com tantas reviravoltas, já está a aproveitar a desorientação reinante para meter a cabeça de fora: “Um partido como o PSD não pode viver só do que a dra. Manuela [Ferreira Leite] acha no curto-prazo.

Daí que esteja em preparação um movimento contra a “cultura do silêncio”. O ex-líder da JSD, que quer “trazer de volta a discussão de questões estratégicas”, desabafa: “Não temos essa cultura no PSD. Temos mais a cultura do silêncio do que da discussão de ideias e de estratégias”. Já suspeitávamos.

♪ Leonard Cohen


The Guests

♪ Lou Reed (& Companhia)


Berlin

sexta-feira, julho 18, 2008

Da série "Frases que impõem respeito" [184]

    “O silêncio pode ser de ouro, quando não se tem nada para dizer é preferível não dizer nada.”
      António Capucho, conselheiro de Estado, presidente do Conselho Nacional do PSD e presidente da Câmara Municipal de Cascais, sobre o silêncio ensurdecedor de Manuela Ferreira Leite

Judas, Capucho & Companhia Limitada

Vale a pena ler esta notícia sobre os avanços e recuos de António Capucho, conselheiro de Estado, presidente do Conselho Nacional do PSD e presidente da Câmara Municipal de Cascais, em relação ao processo Judas: “Aparentemente, agora Capucho deixou cair as acusações contra o construtor civil porque este ameaçou processar vários altos funcionários camarários que foram testemunhas no processo.”

O CC já se referiu ao assunto várias vezes:

Sob o guarda-chuva do Citigroup




Coisa rara: nos últimos dias, Manuela Ferreira Leite apareceu em público três vezes. Primeiro, quando foi apresentar cumprimentos a Sócrates e se evadiu pela porta dos fundos, deixando os jornalistas a jogar dominó em São Bento. Depois, quando jantou com o grupo parlamentar do PSD, já na presença de jornalistas (momento em que se baralhou e julgou que o relatório do Banco de Portugal era o programa do Governo). Por fim, quando foi a Bruxelas apresentar cumprimentos a Durão Barroso, de novo perante uma assistência composta por jornalistas.

Em nenhum destes momentos, algum jornalista ousou questionar a ex-ministra de Estado e das Finanças Manuela Ferreira Leite (ou o ex-primeiro-ministro Barroso) sobre o negócio com o Citigroup. Anda por aí uma certa claustrofobia (democrática ou não).

O PCP e o Citigroup




António Vilarigues escreveu o seguinte comentário a propósito deste post sobre o negócio com o Citigroup:
    “Caro Miguel,
    Recorda-se da oposição frontal do PCP a este «negócio»? Recorda-se do que o PCP então disse e escreveu? Dá para publicar neste blog, ou nem por isso (basta ir a http://www.pcp.pt e pesquisar...)?”
Como vê, dá para publicar neste blogue. Os leitores que quiserem conhecer a posição do PCP podem seguir as instruções dadas.

Mas, caro António Vilarigues, a forma como coloca a questão parece que, embora concorde que se tratou de um negócio ruinoso para o Estado, olha para aquilo como uma coisa do passado. A verdade é que não é. O Estado português continua a pagar muitos milhões de euros por ano ao Citigroup e há vários aspectos do negócio por esclarecer.

E aqui é que a porca torce o rabo. Tendo o PCP aparecido, não raras vezes, ao lado do PSD durante a presente legislatura, estará em condições de contribuir para esclarecer o negócio do Citigroup, mesmo que isso possa pôr em causa o PSD, o seu aliado objectivo?

Em Setembro, na reabertura do Parlamento, a gente verá.

Da série "Frases que impõem respeito" [183]

    “(…) o PSD nasceu com uma matriz ideológica difusa, privilegiando sempre a metodologia de ascensão ao poder, em detrimento do discurso substantivo que faça de cada ascensão um modo de reformar a comunidade.”
      Luís Filipe Menezes, em artigo de opinião denominado DEPOIS DE MIM VIRÁ..., no qual se queixa de uma campanha orquestrada contra a sua liderança (“Dos actuais vice-presidentes e apoiantes de topo da actual maioria, foram vários os que deram a cara em 50 (!) entrevistas televisivas nos primeiros 60 dias do meu mandato.”)

Leituras

• Áurea Sampaio, Cheques em branco [Visão, 17 de Julho, p. 46]:
    “Vem isto a propósito do último debate do Estado da Nação e da postura do PS e do PSD, na sequência, de resto, das entrevistas de José Sócrates (à RTP) e de Manuela Ferreira Leite (à TVI). O País (como o mundo) esta em crise, já se sabe. O primeiro-ministro, não interessa se por eleitoralismo, se por erosão nas sondagens, se por estar realmente preocupado com a situação dos portugueses, apresentou medidas e exibiu a atitude proactiva de quem quer resolver os problemas.

    E o PSD o que disse? Que «não há dinheiro para nada». Ou seja, deu a ideia de que não há nada a fazer a não ser cruzar os braços e esperar que, miraculosamente, alguma coisa aconteça. A imagem foi péssima, a mensagem passiva, a alternativa nenhuma. Assim não vai lá.

    Para não sermos injustos, há que considerar que Ferreira Leite ainda agora chegou, está a formar equipas e, espera-se, a forjar um programa credível. Mas, até para quebrar este ciclo infernal de silêncio e de ausência de debate a sério - e o debate a sério ajuda a mobilizar inteligências e energias -, é bom que o mostre, que o submeta à discussão pública bem antes da campanha eleitoral. Para que os eleitores distingam projectos e saibam quais as opções. É fundamental que o PSD diga claramente ao que vem, pelo menos em cinco áreas essenciais: impostos, saúde, educação, justiça e obras públicas.

    Se o não disser, isso significa que quer chegar ao poder com margem de manobra para utilizar todos os subterfúgios capazes de justificar medidas contrárias a tudo o que apregoou. Desengane-se, porém, quem joga nesta táctica déjà vu. Com eleitores escaldados e cada vez mais espertos, é difícil obter Cheques em branco.”

O taxista da Marmeleira

Cada vez se torna mais claro que a táctica de Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo passa por não deixar falar (ou sistematicamente interromper) António Costa, ao mesmo tempo que baixa o nível da conversa.

Esta noite, a grande acusação que Pacheco fez a Sócrates foi a de que, há três meses, já se falava da subida do preço do petróleo, pelo que o primeiro-ministro teria tido tempo para preparar o país para enfrentar a crise.

Quer Pacheco Pereira dizer aos portugueses que medidas Sócrates poderia ter tomado nos tais três meses para enfrentar a crise? Uma só medida de curto prazo já nos ajudava para perceber a incompetência do Governo.