Eis a
manchete do
Público:

É com alguma ansiedade que se folheia apressadamente o jornal para encontrar a
página 29. Afinal, os dados respeitam a 2007, ainda o
Público não falava em crise.
E se calhar não é a crise responsável pelos roubos, já que “
produtos pequenos e caros são os mais furtados”. Quando supus que o jornal relataria que o desbaste dos
stocks se tinha verificado nas embalagens de carne ou de leite, lê-se que os amigos do alheio estiveram mais atentos aos
cosméticos e aos perfumes.
Mais, para além de existir “
uma percentagem pouco expressiva de actos isolados”, o que revela que não é consequência de dificuldades económicas como sugere a
manchete, o estudo a que se refere o
Público adianta que “
os furtos são cometidos, em fatias iguais, por trabalhadores e por consumidores”. Assim sendo, talvez a
manchete que mais se adequasse à situação teria sido esta:
“Trabalhadores do Continente mal pagos impõem subsídio em espécie”.
Mas o objectivo do estudo promovido pela Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) é outro: “calcula” que os amigos do alheio se apropriam de 0,53 por cento da facturação, pelo que está a pressionar o Ministério das Finanças para “
a necessidade de rever a lei fiscal”. Ou seja, a APED pretende que seja “
admitido como custo dedutível, a título de perda desconhecida, um valor não inferior a 0,6 por cento da facturação.”
À partida, pelos cálculos da APED, o
Continente já estaria a lucrar à custa dos amigos do alheio (
0,6 – 0,53). É mais lucrativo do que ter de reforçar a segurança nos hipermercados. Aguarda-se, a todo o momento, um inflamado editorial de José Manuel Fernandes a defender que os contribuintes não têm de suportar mais encargos.