segunda-feira, junho 30, 2008

Marcelo e a lealdade




Na edição do luminoso Sol de sábado, podia ler-se:
    “Entre os principais conselheiros da nova líder, que muito preza a discrição, sobriedade e lealdade, estão Nuno Morais Sarmento, Rui Rio, Marcelo Rebelo de Sousa, José Luís Arnault, Carlos Coelho e Pacheco Pereira. Mas também a amiga Suzana Toscano, membro da Casa Civil de Cavaco Silva, que fez questão de estar presente, ainda que a título pessoal, no encerramento do Congresso.”
Na mesma edição do Sol, Marcelo escrevia no seu querido diário, referindo-se à comissão política que Ferreira Leite conseguiu arranjar (e que foi apresentada como uma lufada de ar fresco):
    Equipa sem novidades. Praticamente todos foram dirigentes no meu tempo. Muitos passaram para Barroso. E vários para Marques Mendes.”
Utilizando o estilo de Marcelo no seu “blogue” — Ninguém deve lamentar mais a clamorosa derrota do professor/comentador na Faculdade de Direito do que Ferreira Leite. A intriga vai continuar. Em surdina, por enquanto. Impublicável.

Marcelo e a lavoura no campus da Clássica




Causou grande perplexidade que o sulista, elitista e liberal Marcelo se tenha começado a dedicar à lavoura com tanto afinco.

Depois de ter pedido a demissão do ministro da Agricultura, houve mesmo quem pensasse que lhe estava a cobiçar o cargo. Mas por que cobiçaria tal rural cargo um professor/locutor politico preparado para os mais altos voos?

A resposta é simples: o Prof. Marcelo anda desgostoso com a (sua) Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa.

Candidato a presidente, recebeu apenas oito votos dos seus 29 pares, sendo clamorosamente derrotado por um seu antigo aluno, nada mais nem menos do que o jovem professor Martinez, filho de um ex-ministro de Salazar. Como consolação, Marcelo apenas se pode gabar de ter recebido um voto para secretária (do Conselho) dado com cinismo por um colega menos sensível aos seus dotes.

É também esta a razão por que Marcelo, sempre tão disposto a escrever o seu querido diário no Sol, já não fala das suas peripécias na Faculdade de Direito.

Caso da fruta

Depreende-se da notícia que a equipa especial do Ministério Público cometeu erros de palmatória. Foram disponibilizados todos os meios que Maria José Morgado pediu para investigar este e os outros processos do Apito Dourado. Aparecendo por tudo e por nada nos media (até com direito a foto-reportagens), é a altura de a directora do DIAP e o procurador-geral da República darem uma explicação do que andam a fazer.

Uma grande vitória da esquerda europeia


Espanha, 1 - Alemanha, 0

Aritmética de Lilliput ou o regresso do PREC




Há pouco tempo, a CGTP quis fazer crer aos mais crentes que pôs 200 mil pessoas a desfilar entre o Marquês de Pombal e os Restauradores (em Lisboa). Esqueceu-se de um pormenor: nos Restauradores não cabem mais de 80 mil pessoas e é necessário, mesmo assim, estar-se à beira do assédio…

Neste fim-de-semana, a CGTP organizou novas manifestações em todas as capitais de distrito. A coisa não correu lá muito bem, mas ainda assim os mesmos contabilistas garantem que, à manifestação de Lisboa, fizeram deslocar 30 mil manifestantes, que percorreram o trajecto entre o Largo do Camões e o Rossio.

Trata-se de uma nova impossibilidade física: no Largo do Camões, e mesmo juntando-lhe o Largo do Chiado, caberão 10 mil pessoas e o Rossio, com muito jeito, comporta no máximo 20 mil.

Será que quem mente tanto a fazer contas pode dizer a verdade aos trabalhadores? Valha-nos que, por coincidência, ia ali a passar Jerónimo de Sousa e aproveitou para dizer umas palavrinhas aos associados da CGTP.

♪ The Be Good Tanyas



Scattered Leaves

domingo, junho 29, 2008

A tal classe média lê o Expresso?


— Ora cá estou eu de novo para vos azucrinar.



Manuela Ferreira Leite quebrou o seu longo e inexplicável silêncio no Expresso de ontem: “De acordo com os últimos dados do Banco de Portugal, o crédito malparado das famílias está a crescer a uma taxa que não se verificava desde 2003”, era então ela precisamente ministra de Estado e das Finanças, a n.º 2 do Governo de Durão Barroso.

Ferreira Leite mostra-se preocupada com “a dívida de Portugal ao estrangeiro”, ou seja, com os empréstimos que a banca contrai nos mercados internacionais para financiar o mercado interno.

Qual é a solução que a líder do PSD preconiza? Sem meias palavras, a imediata asfixia da economia :
    Ora, não há forma de corrigir este desequilíbrio a não ser pela restrição à concessão de crédito com o consequente agravamento dos respectivos encargos.
Ferreira Leite tem consciência dos efeitos das medidas que quer ver aplicadas: “Qualquer destas consequências implica um desincentivo ao crescimento económico.” Está no seu direito defender este ponto de vista. Só não se percebe como é que, com o agravamento das taxas de juros, designadamente ao crédito à habitação, pode prometer o céu à classe média.

Não é isto a versão recauchutada do “país de tanga”?

Grandes mistérios do Universo [49]

Por que será que há tantas virgens escandalizadas com a realização de julgamentos em instalações impróprias e ninguém pergunta a razão pela qual o tribunal de Santa Maria da Feira teve de se mudar de armas e bagagens para aquele local?

Leituras

• Ferreira Fernandes, MERECER SER MERITÍSSIMO:
    “Um juiz que suspende julgamentos porque durante um julgamento se cometeu um crime, é um juiz que não acredita que os julgamentos servem para combater os crimes. E, já agora, do ponto de vista do criminoso: se um crime num julgamento acaba temporariamente com os julgamentos numa comarca, porque não mais crimes desses para prolongar a suspensão de julgamentos? E porque não estender a táctica a todos os tribunais portugueses?”
• Nuno Brederode Santos, AS FACES DA LEI:
    “E vem de longe, do mais remoto da memória que ainda guardo. De tempos em que o juiz partilhava as dificuldades materiais da classe média e só dela sobressaía pelo prestígio social que a independência funcional lhe dava. Não seria, claro está, a independência que a democracia lhe confere: tinha por óbvio limite o que fosse caro à ditadura (num exemplo extremo, um juiz que aceitasse funções no Tribunal Plenário bem sabia o que vendia e a que preço). Mas, contido no crime ou no cível, ele pairava por sobre todas as cabeças da comarca, no pobre Portugal de então. Onde isto vai. Em bem menos de três décadas, julgando que os espíritos são linearmente tão mais livres quanto mais os corpos estiverem a salvo das contingências materiais do dia-a-dia, o regime democrático tomou a classe nos seus desvelos e deu-lhes um estatuto de excepção: os melhores ordenados do Estado e as mais singulares regalias (no activo e na reforma). E o que é mais: o silêncio das instituições, enquanto na classe iam grassando as piores ilusões - como a de a independência ser um direito seu (em vez de um dever para connosco), ou a de, substituindo a sujeição ao sufrágio por um rápido curso no Centro de Estudos Judiciários, se tornarem titulares de um órgão de soberania (em vez de estarem ao seu serviço). É verdade que muitos magistrados houve a alertar-nos para estes e outros riscos. Mas também o é que a vontade profissionalmente organizada e o desleixo do Estado democrático consentiram que se chegasse aos protagonismos que costumam prenunciar a república dos juízes. Com a singular agravante de, nem por aspirarem a ar fresco na cabeça, renunciarem aos pés devidamente aquecidos. E daí o permanente ziguezague - por vezes, numa sobreposição que nem sequer se interroga - entre o impulso de co-autoria das leis e a reivindicação corporativa dos seus direitos adquiridos.”

♪ Aidan John Moffat



Super Sexxxy Real Live!

sábado, junho 28, 2008

Para lá da gestão patriótica da Operação Furacão




Nunca transpirou nada que sugerisse que, nos longos tempos mortos entre os jogos, Scolari se entretinha a fintar o fisco para se manter num pico de forma. Encerrada a participação no Euro e com o ex-seleccionador ainda a caminho do Chelsea, a informação cai na rua. É o que se pode apelidar de gestão patriótica da Operação Furacão.

Recorda o Sol: “O processo começou em finais de 2005, com buscas a quatro bancos: BCP, BES, BPN e Finibanco. Estas entidades, através dos seus departamentos private disponibilizavam aos clientes uma espécie de ‘pacote fiscal’ muito atractivo, centrado em representações offshore, por onde o dinheiro é ‘limpo’ e desviado da contabilização fiscal das empresas, dos empresários ou de clientes.

Ainda segundo o Sol, “[d]epois dos bancos, foi a vez dos escritórios de advogados, empresas de consultadoria, grandes construtoras e outras empresas serem alvo de buscas.” E políticos não há ou estão abrangidos nas citadas “categorias”?

É que, fazendo minhas as sempre clarividentes palavras de António Borges no congresso do PSD, do que o país precisa é de “gente nova, competente, patriótica, empenhada”. Mas corremos o risco de que assim não aconteça: aqueles que praticaram “crimes de fraude fiscal, falsificação de documentos e branqueamento de capitais, com recurso a zonas offshore (‘paraísos fiscais’)”, mas que, entretanto, tenham regularizado a sua situação fiscal, vão poder continuar a explicar-nos, como se nunca tivessem estado metidos em sarilhos, o que é melhor para o país.

São os alçapões da lei que os escritórios de advogados conhecem — mas ao pobre Filipão só lhe leccionaram a lei do fora-de-jogo.

Da série "Frases que impõem respeito" [175]

    "Nos últimos tempos tenho rezado muito".
      Paulo Rangel, confessando-se ao Expresso de hoje

Leituras

• Ferreira Fernandes, A PIOR DAS RESPOSTAS:
    «Suspender julgamentos porque os criminosos abusaram equivale a remeter a justiça portuguesa para a Guerra de Solnado: "Sargento, fiz um prisioneiro!" - "Onde é que ele está?" - "Não quis vir."»
• José António Lima, DITO & FEITO (no Sol):
    “(…) Manuela Ferreira Leite avisou desde logo, a abrir o Congresso do PSD: «Não tenciono perder tempo a esclarecer pensamentos, nem estratégias que me atribuem». O problema é que não tem sido fácil, passado um mês desde a sua eleição nas directas, conhecer-lhe quaisquer pensamentos ou estratégias. Passos Coelho ainda se esforçou a desafiá-la: «Não tenha medo de dizer o que pensa. Nem o partido, nem o país têm obrigação de adivinhar».

    Mas Manuela não se comoveu, nem se demoveu. (…) Não especificou que investimentos ou que tipo de apoios aos mais pobres tinha em mente. Mas avisou, ainda, que «o Estado não pode ser apenas uma máquina eficaz de cobrança de impostos». Uma mudança na sua imagem de marca, talvez um pouco forçada mas sem dúvida surpreendente.

    ESTE estilo austero em palavras e avaro em propostas tem, entre outras, uma vantagem: a de, não sendo Ferreira Leite deputada eleita, não ter que se confrontar quinzenalmente com Sócrates no Parlamento, sobre as mais variadas matérias. Mas tem, em contrapartida, alguns riscos. Como o de começarem outras figuras do PSD a dizer o que ela não quis dizer. Morais Sarmento já veio sugerir que um dos investimentos a abdicar é a linha de TGV para Madrid, «uma brincadeira de mau gosto de não sei quantos milhões de euros» (traçado de TGV que, por sinal, foi acordado com Espanha por um Governo do qual ele, Sarmento, e Ferreira Leite eram ministros qualificados...). A seguir virá Aguiar Branco propor que se desista da linha de TGV Lisboa-Porto? E António Borges alvitrar que se abandone a construção das ruinosas SCUT em parcerias público-privadas? Neste PSD, cada um fala por si perante o silêncio da líder?”

Qual é a surpresa?



Em Abril, no regresso de uma visita a Angola, Jerónimo de Sousa já havia explicado que não tolerava que se pusesse em causa a postura democrática de Mugabe. Qual é então a surpresa por o PCP não aprovar no parlamento o voto de condenação pela crise no Zimbabué?

“Só dois projécteis acertaram na cobertura do recinto…”

No Público: “Seis tiros foram disparados ontem à noite, em Portimão, acertando na cobertura do Pavilhão Arena, de onde saíra meia hora antes o primeiro-ministro, José Sócrates. Só dois projécteis acertaram na cobertura do recinto (…)”.

Ou como contava O’ Neill, reproduzindo uma quadra do tempo da Guerra Civil de Espanha:
    “Na noite em que a mataram
    Rosita teve muita sorte.
    Das três balas que apanhou
    Só uma é que foi mortal.”

♪ The Mamas & The Papas



Twist and Shout

sexta-feira, junho 27, 2008

Grandes mistérios do Universo [48]

A política é cruel, mais ainda quando nos deparamos com cenas de humor involuntário: anda Pacheco Pereira apressurado a anunciar que o país não tem governo e a líder do seu partido está desaparecida em combate desde que foi eleita há quase um mês (salvo nos dias do congresso, em que fez figura de corpo presente). Que se passará com Manuela Ferreira Leite: regressou a Londres ou está à cata de obras supérfluas?

Há dias em que os posts não nos saem nada bem

1. Nas vésperas da manifestação dos professores, dois ou três polícias resolveram cirandar por umas tantas escolas para assim melhor poderem dar vazão ao trânsito local. Era tudo demasiado ridículo para ser levado a sério. Mas serviu à Fenprof (e à oposição) para explorar até ao tutano a aparente singeleza dos zelosos guardas.

O Governo ordenou um processo de averiguações, que, segundo os media, aponta para a instauração de processos disciplinares aos polícias envolvidos. Sem se perceber bem porquê, Vital Moreira considera que há excesso de zelo por parte do Governo. Se respondesse às seguintes questões, talvez se pudesse perceber o seu ponto de vista:
    • Se a Inspecção-Geral da Administração Interna, dirigida por um distinto juiz desembargador, entendeu que, para esclarecer tudo, é necessário a instauração de processos disciplinares, o Governo deveria ter recusado essa recomendação?
    • Se tivesse recusado a recomendação, não se diria agora que o Governo estava a querer abafar tudo?
    • O processo disciplinar não é a sede para se apurar se houve algum ilícito?
    • Vital Moreira conhece as conclusões de um inquérito que não é público?
2. Já em relação ao caso de Santa Maria da Feira, Vital Moreira quer fazer sangue: “não se justificaria um inquérito sobre a falha policial de garantir a segurança dos juízes no caso de Vila da Feira?”

Tratando-se de um aditamento ao post sobre o “excesso de zelo” do Governo, ficamos todos sem saber o que pensa Vital Moreira que poderá ter corrido menos bem por parte da polícia:
    • Não estavam três polícias dentro da “sala de audiências”?
    • Não é verdade que estavam mais uns quantos polícias lá fora, mas dentro do tribunal, por instruções do colectivo de juízes, que entendeu que eles não cabiam na sala?
    • Não é verdade que os polícias conseguiram de imediato deter os autores da agressão?
    • Não é verdade que, decorrendo o julgamento em instalações provisórias, não havia uma barra a separar o arguido dos juízes (aspecto que não referi em post anterior)?

Então tinha 16 casos em carteira e só agora os revela por atacado?




O presidente do sindicato dos juízes, António Martins¹, passou o dia a cavalgar a onda de Santa Maria da Feira, calcorreando os media a apregoar que tem conhecimento de 16 situações em que terá havido agressões a magistrados.

Ou seja, António Martins recebeu uma queixa… e depois outra… e mais uma… e ainda outra… e a sua reacção foi sendo sempre a mesma: — Ó Manuel Soares [secretário-geral da associação sindical], arquiva aí, que um dia isto ainda nos vai dar jeito…” Deu jeito agora.

Sendo qualquer agressão a um magistrado inaceitável, é admissível o comportamento do presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, que não denunciou de imediato as situações de que diz ter tido conhecimento? Só ao 16.º sopapo se lhe fez luz?!

__________
¹ António Martins é esse mesmo que entrou de braço dado com Fernando Negrão na PJ e se demitiu de braço dado com o deputado do PSD quando se soube que este havia transmitido ao DN elementos em segredo de justiça do caso Universidade Moderna.

“Grupos de trabalho” em análise

Numa acção de promoção da Nike, o Sporting aparece representado por Miguel Veloso, o Porto por Bruno Alves e o Benfica pelo director desportivo, Rui Costa. O SLB não tem nenhum jogador em condições de satisfazer os critérios de selecção da Nike?

Alcochete aqui tão perto

É esta a operação que irá transformar, num prazo de cinco anos, o Sporting num clube europeu, ou seja, numa sociedade anónima em que os sócios do clube atiram os foguetes (e até vão buscar as canas) e os accionistas fazem a festa?

Operação Tufão (com resultados)

Estando à procura do valor da transferência de Quaresma para o Inter de Mourinho, para saber se Pinto da Costa havia cumprido a promessa de não o "vender" por um montante inferior ao fixado na "cláusula de rescisão", encontrei aqui o seguinte:
    "Nuno Espregueira Mendes, administrador da FC Porto Multimédia e ex-administrador da SAD, foi condenado hoje, no Tribunal de S. João Novo, no Porto, a 6 anos de prisão efectiva por burla qualificada. O seu advogado, Gil Moreira dos Santos, vai recorrer da sentença, pelo que o cumprimento da pena fica suspenso.

    O colectivo deu como provado que Espregueira Mendes, na qualidade de gerente do balcão do banco Mello nas Antas, usou avultadas quantias depositadas por clientes, desconhecendo estes os factos, para aplicações bolsistas, usando as mais valias também para uso próprio e para conceder empréstimos com juros abaixo dos concedidos pelo banco.

    Por exemplo, emprestou ao FC Porto 2,5 milhões de euros à margem normas do banco e emprestou a Joaquim Oliveira um pouco mais de 10 milhões de euros. A Adelino Caldeira, administrador da FC Porto, SAD, também foi concedido um empréstimo de 2,1 milhões de euros, enquanto António Oliveira, principal accionista individual da SAD portista, foi contemplado com empréstimos na ordem dos 2,5 milhões de euros."

O silêncio A ausência de ideias tem um preço

Já são conhecidos os dados de Junho do Barómetro Político da Marktest:


Neocons + incompetência + redução de custos = Público

Se os problemas do Público resultassem apenas do estado de alucinação em que vive o seu director, a gente dava o desconto e a coisa ainda passava. A questão está em que a qualidade do jornal se tem vindo a deteriorar a olhos vistos. Basta dar uma vista de olhos pelo blogue do provedor do leitor para nos apercebermos da bagunça em que se transformou o jornal: para além das sucessivas campanhas de manipulação dos leitores, há cada vez mais textos mal escritos, alguns deles incompreensíveis, e desleixo até nas questões mais insignificantes.

Hoje, para ilustrar uma afirmação de Elza Pais, presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, aparece uma fotografia de uma sorridente Leonor Beleza. Sabe lá a estagiária que escreveu a notícia que Leonor Beleza é uma ex-ministra com um processo às costas que, entretanto, prescreveu…

A estratégia do PSD e a (in)dependência da cobertura jornalística


“Este episódio que se desenrola perante os nossos olhos é quase um estudo de caso sobre a (in)dependência da cobertura jornalística em Portugal, a forma como se cria "opinião" política e a importância do spinning.”



Ainda a propósito da atarantada defesa de Manuela Ferreira Leite por parte de Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo, vale a pena voltar ao artigo intitulado O “Regresso” do PSD, escrito pela politóloga Marina Costa Lobo no Jornal de Negócios:
    “É certo que o perfil e a carreira política de Manuela Ferreira Leite são substantivamente superiores aos de Luís Filipe Menezes. Além disso, a nova líder do PSD tem sabido distinguir-se em alguns pontos importantes, tanto do seu antecessor como do próprio governo e de José Sócrates. Mas também se tem pautado por alguns silêncios injustificados. E, mais fundamentalmente, ainda não conseguiu comunicar uma estratégia política para o país que seja alternativa à do PS. Não o fez durante as eleições directas do PSD nem no recente Congresso. Finalmente, ainda não há sondagens consistentes que assinalem uma recuperação nas intenções de voto e justifiquem o optimismo de um fortalecimento do PSD.

    É precisamente para isso que as elites mediáticas afectas ao PSD estão a trabalhar afincadamente. Este episódio que se desenrola perante os nossos olhos é quase um estudo de caso sobre a (in)dependência da cobertura jornalística em Portugal, a forma como se cria "opinião" política e a importância do spinning. Mais do que um Regresso do PSD, estas últimas semanas assinalam o Regresso das Elites do PSD. E comprova um facto com que Luís Filipe Menezes amargamente se confrontou quando foi líder. As eleições directas no PSD permitiram-lhe ingenuamente pensar que bastava ganhar uma maioria de militantes para ser líder do partido e, quem sabe um dia, Primeiro-Ministro. A verdade é que de nada adianta vencer o partido se não se contar com esta gente.”

♪ Pearls Before Swine



Another Time

quinta-feira, junho 26, 2008

A reposição das férias judiciais

É inaceitável a agressão a um juiz do tribunal de Santa Maria da Feira. Mas a decisão dos 28 juízes de suspenderem a sua actividade é igualmente inaceitável — embora fosse previsível.

Salvo a questão simbólica de os julgamentos estarem a ser realizados em instalações de uma corporação de bombeiros, que pretendem os juízes com a suspensão de actividades, sabendo-se que na “sala de audiências” estavam polícias? Que os réus sejam levados em jaulas? Do ponto de vista da segurança, não estarão todos os tribunais nas mesmas condições?

Só quem não acompanhou a inenarrável campanha na blogosfera contra a redução das férias judiciais levada a cabo pelo juiz Joel Timóteo (por sinal colocado em Santa Maria da Feira) é que pode estar surpreendido com o aproveitamento da situação. Estando previsto que as obras em curso estejam concluídas em Setembro, a decisão dos 28 juízes traduz-se numa coisa muito simples: a reposição das férias judiciais… com juros.

Quadratura do Círculo

É mais fácil estar na oposição do que no “poder”: Pacheco Pereira está, neste preciso momento, manifestamente em dificuldades para defender Manuela Ferreira Leite. O novo visual, com a barba rala, empola os traços da face que revelam um misto de atrapalhação com aflição.

O momento mágico foi aquele em que, encostado às cordas, prometeu que, “depois de ter sido feita a inflexão, haverá a concretização…” Por outras palavras, repetiu o que havia dito Marques Guedes há três dias: pedir “compreensão, lembrando que o partido acaba de sair de um Congresso”, pelo que ainda anda à cata das obras supérfluas. A Sr.ª Presidente sabe que há, só não sabe quais.

ADENDA — Tenho quase a certeza de que, contrariamente ao que disse Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo, Sócrates elencou um conjunto de medidas, a que chamou "choque tecnológico", num artigo publicado antes de ser primeiro-ministro num jornal que, nessa época, era um diário de referência e com uma razoável circulação paga: o Público.

Afinal, há cada vez menos leitores dispostos a serem manipulados pelo Público



Ontem, fiz esta pergunta. A resposta não podia ter sido mais célere: no que respeita aos jornais diários, a Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens revela que, em Março e Abril deste ano, «apenas o "Público" viu a sua circulação paga diminuir, recuando 8% para os 40.034 exemplares.» Agora, atrás do jornal superiormente dirigido por José Manuel Fernandes, só se encontra «o "24 Horas" [que] subiu 8% para os 37 470 exemplares

Escusado será dizer que o Público on-line nem se apercebeu hoje que a Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens tinha publicado este trabalho. Já havia estado distraído no bimestre anterior.

PS — O Sol já só vende 46.298 exemplares. Começa a estar ameaçado pelo pacato Semanário.

Que a ERC mande no contenente!

Sinto-me algo embaraçado. Já discordei por diversas vezes do juiz Paulo Pereira Gouveia, o que não o impediu de, numa das situações [1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8], escrever por duas vezes ao CC para procurar explicar uma decisão que havia tomado.

Apesar dessa atitude simpática, não posso deixar de dar conta de mais uma situação estranha em que aparece citado novamente o juiz Paulo Pereira Gouveia — e, mais uma vez, num caso envolvendo o Jornal da Madeira, que pertence ao Governo Regional da Madeira e à Diocese do Funchal.

Platini entrevistado…

… no Mundo Deportivo:
    ¿Y el Porto?
    Michel Platini — Como presidente de la UEFA no estoy nada contento con su inclusión en la Champions League. Lo digo así de claro. La UEFA, bajo mi mandato, va a luchar a muerte contra la corrupción. Puede estar sujeto a derecho, pero me parece que ese no es el espíritu. Si un equipo ha sido sancionado por su federación, por la UEFA, por corrupción no puede disputar una competición europea.

“Venham daí todos que eu pago uma jantarada ao pessoal”




Governo paga novos empregos antes das eleições, diz hoje o Jornal de Negócios em manchete. A gente assusta-se com a possibilidade de um aumento intempestivo do número de funcionários públicos ou até com a hipótese de os custos com pessoal das empresas privadas serem suportados pelo Orçamento do Estado, mas, afinal, não se trata de nada disto.

O Jornal de Negócios refere-se tão-só a “uma das medidas contempladas no acordo para a revisão do Código do Trabalho ontem fechado”. Em concreto, e ainda segundo o mesmo jornal, o que está em causa é o seguinte:
    “As empresas que durante o primeiro semestre de 2009 contratem, para os quadros, desempregados há mais de seis meses ficarão isentas do pagamento das contribuições para a Segurança Social durante os três anos seguintes. A medida faz parte de um pacote que o Governo decidiu negociar em simultâneo com o Código do Trabalho e que vai funcionar como uma terapia de choque para reduzir o desemprego que no primeiro trimestre do ano atingiu uma taxa de 7,6%.

    Este regime transitório - apenas válido para contratações entre Janeiro de Junho de 2009 — vai aplicar-se ainda às empresas que durante aquele período coloquem nos quadros os trabalhadores com menos de 30 anos — os mais afectados pela precariedade - que agora estão a recibos verdes ou a prazo.

    Mas os incentivos ao emprego e o combate à precariedade não se ficam por aqui. Entre Janeiro e Junho, o Governo compromete-se ainda a reduzir para metade, durante três anos, as contribuições para a Segurança Social suportadas pelas empresas que integrem outros trabalhadores a recibos verdes, durante os primeiros seis meses de 2009.”
Miguel Carvalho desmonta com humor a manchete do Jornal de Negócios:
    «Algo como eu dizer à malta do Jornal de Negócios "eu pago uma jantarada ao pessoal todo", quando na realidade apenas os quero fazer ver que tenho um vale promocional que oferece dois ou três cafés no fim do jantar.»

Da série "Frases que impõem respeito" [174]

    “A verdade é que de nada adianta vencer o partido se não se contar com esta gente.”
      Marina Costa Lobo, explicando que, com o afastamento de Menezes, não se deu “um Regresso do PSD”, mas “o Regresso das Elites”

♪ David Bromberg & John Sebastian




Demon in Disguise

quarta-feira, junho 25, 2008

Você gosta de ser manipulado pelo Público?

Aguiar-Branco apelidou hoje de “faraónicas” as obras previstas pelo Governo para os próximos anos. No entanto, num artigo equilibrado¹ ontem publicado pelo Jornal de Negócios, fica a saber-se o seguinte:
    Todo o investimento público realizado em 2007 pelo Estado, Autarquias e Regiões autónomas correspondeu a menos de 13% das transferências sociais realizadas pelas administrações públicas.

    A diferença de montantes gastos numa e outra função evidencia o impacto limitado que a redução do investimento poderá ter num eventual aumento das despesas sociais. Isto até porque uma redução total do investimento é um cenário meramente teórico: por um lado, muito desse dinheiro é gasto em projectos essenciais para o funcionamento do país e do Estado (escolas, serviços públicos, estradas, hospitais, modernização administrativa, etc.) e, por outro, uma parte importante do investimento co-financia projectos aprovados por Bruxelas.
O Público saltou em defesa da desastrada estratégia de Ferreira Leite, não se coibindo de falsificar de forma grosseira a realidade, como se pode ver na caixa que se reproduz:



Ou seja:
    1. O Público compara uma estimativa de investimentos para o período global de 2008 a 2017 (valores acumulados para dez anos) com a dotação de um só ano (2008 ?) no que respeita às despesas sociais;
    2. O Público omite que a fatia maior dos investimentos não será suportada pelo Estado, sendo comparticipada por fundos da União Europeia e por capitais privados.
A manipulação, para ser eficaz, não pode recorrer a esquemas tão grosseiros.

____________
¹ O artigo, intitulado Economistas recomendam cautela a Manuela Ferreira Leite, foi escrito por António Larguesa. Saiba-se que os economistas ouvidos, que deitaram as mãos à cabeça com a estratégia de Ferreira Leite, são todos do PSD: João César das Neves, António Nogueira Leite e Miguel Beleza.

O singular caso do empresário de Tondela

Joaquim Coimbra é um empresário de Tondela. Talvez o seu interesse pela política tenha sido algo tardio, pois é o militante n.º 33.736 do PSD. Que tenha revelado uma vocação para a política ainda mais tardia só há registo do caso do militante n.º 92.006, António Borges de seu nome (descontada a situação atípica de Paulo Rangel, cujo número de militante é um mistério guardado a sete-chaves).

A verdade é que Joaquim Coimbra, desde que lhe tomou o gosto, tem sido de uma assiduidade exemplar (levando a crer que se poderá ter esperança no futuro dos jovens de Cavaco): já fez parte, pelo menos, das comissões políticas de Barroso, Marques Mendes e Menezes e, em Guimarães, Manuela Ferreira Leite não prescindiu do seu saber, alçando-o ao relevante cargo de conselheiro nacional.

Mas o que verdadeiramente merece destaque é a responsabilidade social de que Joaquim Coimbra dá provas, aspecto de que nem todos os empresários se podem orgulhar: deita a mão aos fustigados pelo infortúnio. Isso é que não tem preço.

Leituras

Very Important Posts

♪ Damon & Naomi



Within These Walls

terça-feira, junho 24, 2008

Quanto pior, melhor — Ferreira Leite nas mãos de Trichet e El-Bradi


Jean-Claude Trichet


Abdalla Salem El-Badri



A estratégia de Pacheco é linear: NÃO AGITAR, NÃO ESTREBUCHAR — AGUARDAR. Ao jeito das sábias palavras de Espada sobre Wimbledon: simplesmente aguardar.

Com efeito, não conseguindo sequer despertar o próprio PSD, só resta a Manuela Ferreira Leite a esperança de se poder vir a verificar um agravamento profundo da crise internacional — financeira, energética e alimentar.

Daqui para a frente, a São Caetano à Lapa transformar-se-á num centro de operações para acompanhar as tendências dos mercados internacionais. Sempre que se ouvir dizer que o preço do crude bateu um “novo record” ou que a taxa de juro de referência da Zona Euro subiu, haverá festa da grossa:





O milagre está nas mãos de Jean-Claude Trichet e de Abdalla Salem El-Badri. O baronato que se vire para Meca.

Grandes mistérios do Universo [47]

O Banco Central Europeu pretende conter a inflação na Zona Euro. Faz bem. Mas quando a sua principal causa é a inflação importada dos Estados Unidos, da China e da Índia, como é que Jean-Claude Trichet quer atingir tal objectivo através da política monetária?

Estratégia Manuela Ferreira Leite



“No congresso, essa estratégia teve consequências: ao mesmo tempo que provocou torpor e agravou o fosso afectivo entre a líder e o conjunto do partido, ajudou a dar lastro à ideia de que o PSD de Ferreira Leite não é uma alternativa ao Governo de Sócrates (…)”

O Dr. Cluny tem graça quando quer

Durante anos, o presidente vitalício do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) fez finca-pé na questão da avaliação: os seus associados eram sujeitos a inspecções extremamente rigorosas. A gente sabia que isso não acontecia (e várias vezes o CC falou disso).

O Rádio Clube revela hoje que, “no último ano, o número de sanções disciplinares aplicadas a magistrados do Ministério Público quadruplicou em relação a 2006. Foram sancionados 40 magistrados, o que levou a 7 suspensões de actividade.”

O mesmo Cluny, que sempre negou o que era evidente, reaparece de imediato a exigir mais meios para a “fiscalização” dos magistrados do Ministério Público…

PS — As funções de capataz de que agora aparece investido o presidente vitalício do SMMP devem deixar encantados os seus associados.

Leituras

Pedro Adão e Silva, A estratégia de silêncio:
    «Tal como havia acontecido na campanha interna, Ferreira Leite apostou tudo numa estratégia de silêncio, em que fala o menos possível. Nas eleições internas, a ausência de discurso político ajudou a fazer com que a candidata invencível – que, à partida, traria atrás de si todo um partido sedento de virar a página de instabilidade associada às lideranças anteriores – terminasse com uma pequeníssima vantagem perante os seus adversários. No congresso, essa estratégia teve consequências: ao mesmo tempo que provocou torpor e agravou o fosso afectivo entre a líder e o conjunto do partido, ajudou a dar lastro à ideia de que o PSD de Ferreira Leite não é uma alternativa ao Governo de Sócrates, mas, sim, ou uma solução de alternância ou uma promessa de ‘bloco central’.

    Os silêncios de facto – basta recordar que durante o Sábado, o dia nobre do congresso, Ferreira Leite não usou da palavra – e os silêncios das entrelinhas nas suas intervenções, dão margem para todas as interpretações. Por um lado, sugerem que o programa político do PSD assenta na expectativa que a popularidade do Governo se desgaste e que isso seja suficiente para os portugueses se virarem para o maior partido da oposição; por outro, podem indiciar que não sendo apresentadas nenhumas linhas programáticas, ainda que genéricas, o que o PSD tem é um “programa escondido”, que não revela com temor de, em lugar de capitalizar o descontentamento social, afaste os eleitores.»
Wolfgang Munchau, O erro da Irlanda:
    Veja-se como, num subtítulo, se pode atribuir ao autor uma posição completamente diferente da que ele defende no texto.

O silêncio como acto de cobardia

    “MFL aposta, aparentemente, na gestão do silêncio. Falará pouco. Convém dizer que nada há de mais cobarde na política do que a gestão do silêncio. Estar calado é fácil - basta estar calado. E é tão fácil como anti-democrático: não se expõem ideias, não se é sujeito a escrutínio, ninguém pode dizer se concorda ou discorda, porque ninguém sabe do que substantivamente discordar ou concordar. A gestão do silêncio parte do princípio de que o país não passa de uma manada de ignorantes que só vive de imagens e de "carisma". O país pode ser inculto; mas não é burro.”

♪ Beth Gibbons



Resolve

segunda-feira, junho 23, 2008

Pretexto para uma singela homenagem




Ao fazer a habitual ronda dos blogues, vejo sublinhada a imagem de desleixo que o PSD deu neste fim-de-semana, com filas inteiras vazias no pavilhão onde decorriam os trabalhos. Também reparo no facto inacreditável de a líder recém-eleita ter saído de Guimarães mais enfraquecida do que quando entrou, ao não ter sequer conseguido consolidar os resultados das directas: 20 conselheiros em 55, correspondentes a 33,8% dos votos expressos, menos 4 pontos percentuais que os obtidos nas Directas de 31 de Maio. Igualmente observo que a presidente do PSD suscitou questões de uma forma desastrada, nuns casos, e revelou uma inconsistência de que não se estava à espera, noutros casos. Confirmo, por outro lado, que é convicção profunda de Ferreira Leite que as mulheres não estão disponíveis para a política 24 horas por dia, pelo que devem ser, por regra, poupadas a esse martírio. Ela, que se dispõe a se submeter ao martírio da política, virá ou não a fazer oposição ao Governo que está.

Só não percebo por que não foi dado o devido destaque à eleição das elites que tanto ansiavam retomar o poder, que já fora de seus pais e de seus avós. Aqui fica a minha singela homenagem às elites, na pessoa do Conselheiro Nacional António Preto, eleito na lista de Manuela Ferreira Leite, o qual, só por manifesta má vontade, os tribunais (açoitados por Rui Rio) insistem em sentar no banco dos réus.

O estudo segue dentro de momentos

Manuela Ferreira Leite condenou, no congresso do PSD, a “vaga avassaladora de propostas de infra-estruturas que este Governo anuncia”. Parece que isso deixou curioso Mário Lino, que endereçou à presidente do PSD a questão que qualquer pessoa gostaria de lhe ter colocado:
    “Talvez fosse bom, para clarificar, que a Drª. Manuela Ferreira Leite esclarecesse os portugueses quais são os investimentos que ela acha que são supérfluos”.
Dada a veemência das suas palavras, era expectável que Ferreira Leite tivesse na ponta da língua as obras descartáveis. Mas a presidente do PSD remeteu-se ao silêncio, que é a sua imagem de marca, e mandou o secretário-geral fazer umas declarações extraordinárias: pedir “compreensão, lembrando que o partido acaba de sair de um Congresso”, pelo que ainda anda à cata das obras supérfluas. A Sr.ª Presidente sabe que há, só não sabe quais.

"Eu cá sou séria"

Helena Garrido, no Visto da Economia:

Veja as diferenças

«Comigo não haverá novo aeroporto internacional enquanto houver crianças que esperam três anos para serem operadas", Durão Barroso, 17 de Fevereiro de 2002, em campanha eleitoral

«Esta situação de emergência [social] pode justificar que se abdiquem de alguns investimentos para afectar recursos aos casos mais prementes», Manuela Ferreira Leite, 22 de Junho de 2008 no encerramento do congresso do PSD

domingo, junho 22, 2008

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [13]



Aprovado o fim da progressividade do IRS (moção D)



Marques Guedes — Dr.ª Manuela, a parte em que se referiu ao sistema fiscal estava um bocado atabalhoada. Quando falou em simplificar, porque há pessoas que não pagam impostos devido à sua complexidade, o que fica a zumbir no ouvido é que quer mais receitas…
Manuela — Se vierem, tanto melhor. Mas foi o Dr. Pacheco que colocou umas dicas do contabilista dele, porque também não percebe nada disso…
Marques Guedes — O Dr. Pacheco? O 24 Horas quase que o apanhava por ele pôr como direitos de autor as conversas com o Lobo Xavier na SIC!
Manuela — Era eu ministra. Foi preciso afinar a doutrina. Eu também apanhava por causa do meu programa na Rádio Renascença. Agora somos todos artistas para efeitos fiscais.
Marques Guedes — Santo Deus, se o Fernandes sabe, ainda manda avançar o Cerejo.
Manuela — Não se preocupe por aí, embora tenha havido um do Público que reclamou e levou sopa.
Marques Guedes — Dr.ª Manuela, o que me está a preocupar é a aprovação da flat tax. Vão já dizer que é o lobby do Dr. António Borges a querer pagar menos IRS à custa da classe média que a Senhora disse que ia defender.
Manuela — Eu aprovei isso? Ai que o Pacheco anda a fazê-las pelas costas…

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [12]



O candidato-mistério


Passos CoelhoEntão, até 2009…
ManuelaO menino não se esteja a rir que não sobra nada para si.
O… ai não posso dizer o nome… já anda a fazer a rodagem ao carro.

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [11]



Como é a ética da política?


— Deixe-o palrar, Dr.ª Manuela, que agora estamos nós montados no cavalinho.



A pergunta foi feita por um Santana Lopes agastado, recordando a Ferreira Leite que “pelos nomes já anunciados sabe-se como estão entre os seus membros muitos dos que contestaram a liderança de Luís Filipe Menezes desde o início”, para logo deixar outra questão: “Será que aqueles que não concordarem com a actual direcção terão a mesma legitimidade para dar entrevistas sobre alterações a regulamentos?”

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [10]



Região Autónoma dos Concelhos Fronteiriços (moção H)



O companheiro Nelson Montalvão, militante n.º 16405, soube, sabe-se lá como, que as regiões autónomas usufruem de regimes fiscais mais brandos. Lembrou-se, então, de propor a aprovação de um regime análogo para o IVA nos concelhos fronteiriços. Assim surgiu a moção H, que não foi aprovada por um triz.

O ecrã gigante lá ia sugerindo o sentido de voto, mostrando em cada votação a posição assumida pela presidente do PSD. Estava Manuela Ferreira Leite entretida à conversa com o seu inner circle e lá votou favoravelmente a moção H. Foi preciso o presidente da mesa do congresso socorrer-se do seu patuá de feira para, à quarta votação, convencer os congressistas de que um partido que quer governar o país não pode aprovar moções destas.

Escusado será dizer que, na votação das restantes moções, o ecrã gigante não voltou a mostrar como votava Manuela Ferreira Leite.

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [9]



Outro homem que Marcelo não queria


ArnaultOra deixa cá ver… Se a Somague é dos espanhóis, vai continuar no meu pelouro…

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [8]



Um homem que Marcelo não queria


ArnaultPaaaaulo, só por acaso a política se aprende nas sebentas de direito constitucional. Estuda as estatísticas do INE para não te saírem disparates pela boca fora nos debates…
RangelMas o Carlos Magno diz que eu vou longe…
Arnault Não digo o contrário, mas vai estudando e falando comigo...

Simplesmente aguardar

Na última edição do Expresso, João Carlos Espada, um dos gurus do nosso José Manuel Fernandes:


Imagem

♪ Low




I started a joke, which started the whole world crying,
but I didn't see that the joke was on me, oh no.

I started to cry, which started the whole world laughing,
oh, if I'd only seen that the joke was on me.

I looked at the skies, running my hands over my eyes,
and I fell out of bed, hurting my head from things that I'd said.

Til I finally died, which started the whole world living,
oh, if I'd only seen that the joke was on me.

I looked at the skies, running my hands over my eyes,
and I fell out of bed, hurting my head from things that I'd said.

'Til I finally died, which started the whole world living,
oh, if I'd only seen that the joke was one me.



Lá para o meio do vídeo, pode ouvir-se uma versão acústica de I Started a Joke, conseguindo os Low a proeza de nos fazer ter saudades dos Bee Gees. Quem gostar, pode ouvir uma outra cover de I Started a Joke no CD (triplo) A Lifetime of Temporary Relief: 10 Years of B-Sides & Rarities.

sábado, junho 21, 2008

Sempre que lhe cheira a seriedade e credibilidade, ele aparece

Desperdício

A notícia mais relevante sobre o Congresso do PSD deste fim de semana é que não foi lá ninguém.

Manuela Ferreira Leite, a Presidente eleita, falou essencialmente para uma plateia de jornalistas, sobre os quais despejou toneladas de credibilidade.

Teria ficado muito mais barato fazer a coisa num estúdio de televisão dotado de um modesto anfiteatro. Este não é o momento apropriado para o país delapidar recursos desta maneira.

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [7]



A cisão escondida

RioTou com a justiça à perna e preciso de investimentos no Porto para ganhar a câmara.
ManuelaFaça lá as suas pressões, mas hoje não me fale da regionalização que eu fico sem tropas.

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [6]



Guimarães fora de horas


Este congressista pode estragar a paz podre reinante? Então, o baronato convida-o a falar, como às bases, fora de horas.

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [5]



A política é uma roleta

ArnaultE se o Pacheco Pereira pede a palavra para falar do Casino Lisboa?
Sarmento Ele está proibido de andar por aí até à votação. E não te esqueças de que vou ser eleito presidente do Conselho de Jurisdição Nacional…

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [4]


Credibilidade e firmeza

ArnaultE eu?
Manuela Zé Luís, você fica responsável pelo investimento estrangeiro no PSD.
Arnault Não sei se o presidente da Comissão Europeia aceita.
ManuelaVocê vai aplicar o que aprendeu com a Somague num cargo que nem existe nos estatutos.

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [3]


O congresso nos bastidores

ArnaultÓ Miguel, a gente não pode espantar a caça.
RelvasO Passos apoia-a incondicionalmente, mas ela vai ter de dizer que privatiza a saúde ou a educação ou as pensões… Qualquer coisa que mostre o futuro...
ArnaultEla fará isso e muito mais, mas o Pacheco não a deixa abrir a boca agora, para não afugentar a malta.

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [2]


Com o meu vestidinho preto, nunca me comprometo

Ferreira LeiteLá vou ter de engonhar esta treta
sem dizer patavina. O Pacheco garantiu-me que chega
para o Público proclamar que eu arrasei o Sócrates.

O XXXI Congresso do PSD em banda desenhada [1]


Um congresso emotivo virado para a sociedade civil

Ângelo CorreiaPorra que, enquanto aquele melro
estiver na sala, não posso ir dar uma cachimbada.



Esta série de posts pediu de empréstimo fotos de Gonçalo Fernandes Santos para o Sol.

Lobbying em directo

Rui Rio, o 1.º vice-presidente de Ferreira Leite, está a criticar violentamente a justiça no congresso de Guimarães, em especial a incongruência das decisões dos tribunais. Os congressos são os locais apropriados para fazer lobbying no sentido de conseguir o levantamento do termo de identidade e residência. Imagine-se o que vai sair daquela Comissão Política quando começar a funcionar em bloco.

Espera-se a todo o momento a reacção da sensível Associação Sindical dos Juízes Portugueses (e do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público por arrastamento).

Isenção

A esmagadora maioria dos membros dos órgãos sociais de todos bancos está ligada ao PSD, alguns dos quais estão a exibir-se a esta hora em Guimarães. Bastou que dois administradores do BCP tivessem o cadastro manchado por uma alegada ligação ao PS — sentença não transitada em julgado — para que fossem apontados a dedo numa manchete do Público:




Hoje, soube-se que o Banco Português de Negócios (BPN) está numa situação crítica, com “níveis elevados de crédito malparado não reconhecido, transferência de perdas do BPN para off-shores e accionistas que adquiriram títulos da holding com financiamento do BPN, via off-shores.”

Esperava-se que o Público fizesse a ligação entre a finança e a política, dando o devido destaque ao facto de os accionistas conhecidos do BPN serem militantes activos do PSD.

Para além de Dias Loureiro, que foi secretário-geral do PSD e ministro da Administração Interna do Buzinão, sendo hoje conselheiro de Estado escolhido por Cavaco Silva, aparecem ligados ao BPN Daniel Sanches (também ex-ministro da Administração Interna), Arlindo Carvalho (ex-ministro da Saúde), Amílcar Theias (ex-ministro das Cidades), Joaquim Coimbra (membro das comissões políticas de Marques Mendes e Menezes, actual patrão de Marques Mendes), José Oliveira e Costa (ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva, que ficou conhecido por “polémicos perdões de dívidas fiscais”), etc., etc..

Veja-se a manchete do Público de hoje e tirem-se as conclusões sobre a sua isenção:




PS —Durante as directas no PSD, o Público apresentou, num inquérito diário aos candidatos, Passos Coelho como gestor e Santana e Patinha Antão como deputados (ou coisa assim). A Manuela Ferreira Leite colaram-lhe como profissão a circunstância de ser conselheira de Estado — omitindo que a presidente do PSD é aposentada do Banco de Portugal, reformada da política e administradora do banco Santander. A profissão de agiota deve estar muito mal vista para o Público a empolar quando lhe convém e a esconder quando se trata de proteger o pessoal amigo.

Cebola resgatado




O telejornal da RTP da hora do almoço, feito nos estúdios do Porto, acabou de garantir que o Cebola, que jogou este ano no Benfica, foi resgatado pelo F. C. do Porto. Ou seja, Cristian Rodríguez foi libertado do cativeiro, tendo sido pago o inevitável resgate.

♪ Bon Iver


Flume

sexta-feira, junho 20, 2008

Da série "Frases que impõem respeito" [173]

    "Não tenho ambições políticas fora de Cascais. Ela insistiu e eu dei-lhe o meu nome para ela usar se quiser".
      António Capucho, citado de cor, momentos antes do início do congresso do PSD, revelando um enorme enfado com as insistências de Ferreira Leite para ter o autarca nos órgãos dirigentes do partido

Onde pára o cavaquismo?

A mensagem poderia escapar a um olhar menos atento se não fosse tão exagerada no modo. Mas a verdade é que o Público acha que pode tratar os seus leitores como débeis mentais:
    Só por preguiça mental ou desfasamento é que se pode falar de cavaquismo no PSD de hoje. Pode-se falar em cavaquismo, mas hoje ele está apenas em Belém.”
Onde pára o cavaquismo? Claro, está em Belém, onde se refugiaram os últimos moicanos após a queda de Menezes, com pavor de iminentes represálias por parte de Ferreira Leite & Pacheco Pereira.

♪ Neil Young & Willie Nelson




Four Strong Winds

quinta-feira, junho 19, 2008

Clonagem




Seriam cómicas, se não fossem trágicas, estas sucessivas tolices sobre o “anal sex [in] Africa” ou a “ligação entre a prática de sexo oral com [o] cancro da garganta”. Mas, parecendo haver preocupações com a saúde pública, seria oportuno que este blogue animado pelo Opus Dei se pronunciasse sobre matérias verdadeiramente relevantes — como a clonagem —, tendo em conta a situação descrita nesta notícia:
    “O doente, um homem de 52 anos, tinha um melanoma renitente à cirurgia e aos tratamentos, que já se tinha espalhado para a virilha e os pulmões. Ia morrer em breve. Os médicos colheram o seu sangue, extraíram daí certas células do sistema imunitário, multiplicaram-nas no laboratório e injectaram-lhas de volta. Dois meses mais tarde, as metástases tinham totalmente desaparecido. E hoje, quase três anos mais tarde, o homem continua ao que tudo indica, de boa saúde.

    Não foi fácil cultivar in vitro e clonar o tipo de células que foram aqui utilizadas – os linfócitos T CD4, ou T4 para abreviar, cruciais nas respostas imunitárias do organismo. Para mais, como os cancros são feitos das próprias células do doente, o organismo não se defende bem contra eles.”

Viagens na Minha Terra

Se não podes vencê-los, junta-te a eles

Terminado o foguetório e acalmada a euforia, Manuela Ferreira Leite congeminou, no avião que a trazia de volta a Lisboa após mais uma visita ao neto, uma estratégia que não exige ideias nem dá muito trabalho: aguardar que o PS falhe a maioria absoluta e propor-lhe em seguida um governo de Bloco Central.

Não era bem isto que os seus apoiantes esperavam, pois não?

♪ Leonard Cohen

A propósito de um texto que Ivan Nunes cita:




Dance Me to the End of Love

quarta-feira, junho 18, 2008

O regresso do ornitorrinco




Os agricultores de Setúbal protagonizaram um protesto muito original. Queriam ir de tractor para dentro da cidade protestar. As “autoridades fascistas” não os deixaram entrar em Setúbal de tractor e eles conformaram-se: foram ao Governo Civil de carrinha.

Dentro de Setúbal, e em frente do Governo Civil, protestaram por não os deixarem entrar em Setúbal! Mas não entregaram à governadora civil um comunicado de protesto. Quer dizer, iam entregar um comunicado de protesto, mas, para melhor protestarem, acabaram por não o entregar…

Entretanto, para desagravo, pediram ao Governo explicações sobre o comportamento “fascista” de que foram alvo: não os deixaram entrar de tractor na cidade. O Governo talvez possa dar uma resposta muito simples: não consta que Setúbal seja uma área rural…

Os rostos da credibilidade vão subir ao palco no fim-de-semana

Tenho uma particular afeição pelo discurso laudatório em geral, sobretudo quando o entusiasmo do escrevinhador faz estragos involuntários:
    «Com a credibilidade não se brinca, é a máxima de Ferreira Leite, que leva muito a peito o sentido de Estado e o triste desempenho do PSD nas sondagens. A gestão da imagem da primeira mulher a liderar um partido político em Portugal será, também ela, feita com pinças. Ferreira Leite não estará todos os dias nas televisões (uma estratégia muito em voga no tempo de Marcelo Rebelo de Sousa) e vai apostar em segundas linhas fortes e credíveis (….). Por um lado, "poupa-se" de desgastes desnecessários, por outro lado, mostra um partido capaz de gerar várias alternativas.»
As “segundas linhas fortes e credíveis”, ou seja, as “alternativas” são, entre outros, Morais Sarmento e José Luís Arnault, esses aos quais Pacheco Pereira pedia há pouco tempo explicações cabais sobre várias situações não explicadas.

E a regionalização aqui tão perto

    "Inicia-se esta quarta-feira, dia 18, um ciclo de debates sobre a regionalização na Câmara Municipal do Porto (CMP), com a presença de Alberto de Castro, António Figueiredo e Ernâni Lopes. O moderador será o próprio presidente da edilidade, Rui Rio, um conhecido defensor da separação do país em regiões administrativas. Recorde -se que Rio foi um dos principais apoiantes de Manuela Ferreira Leite - uma feroz opositora da regionalização - na corrida à liderança do PSD. O autarca deverá recandidatar-se à CMP em 2009."
      Focus, Rio contra Manuela (p. 31)

O BE na UE

    “Miguel Portas defendeu há dias, em nome do Bloco de Esquerda, que o próximo Parlamento Europeu, a eleger em 2009, deverá ser investido de poderes constituintes. Mas como podemos levar a sério uma tal declaração vinda de um partido que não só tem uma atitude ambígua em relação à União Europeia, como recusa por princípio dois dos seus traços centrais, a saber os princípios do comércio livre e da livre circulação dos trabalhadores?

    Entre nós, os comunistas e os bloquistas fazem todos os dias propaganda contra a própria ideia da União Europeia, quando é absolutamente evidente que são os trabalhadores quem mais tem a ganhar com uma Europa federal e democrática.

    É também esta falta de seriedade e esta estreiteza de vistas que, de momento, nos impede de ir mais longe.”

♪ Silver Jews




Candy Jail

terça-feira, junho 17, 2008

Repor em cena o Buzinão da Ponte





Os últimos acontecimentos em que as empresas de transporte de mercadorias surgiram como protagonistas provaram que os Estados democráticos têm de se preparar para reagir a movimentos mais ou menos espontâneos e desorganizados que podem pôr em causa valores essenciais: o abastecimento de aeroportos, de hospitais e de mercados e a satisfação das necessidades básicas da população.

Os profetas da desgraça descobriram que, como sempre, a culpa é do Governo, que não negociou ou não soube usar a força.

Verdadeiramente engraçado é, neste caso, o papel do Dr. Portas. Sempre à espera da sua oportunidade, começou por atacar o Governo por não negociar e ceder aos patrões das transportadoras e acabou a berrar contra a falta de autoridade do Estado.

Mas o PSD também não se portou de forma diferente. Depois de revelar, num primeiro momento, uma incontida compreensão pelos vândalos, acabou depois por criticar o Governo por alegada falta de firmeza.

No meio disto tudo, a oposição mostrou, tristemente, o seu populismo e a sua demagogia por não ter sido capaz de condenar com clareza e sem sofismas o movimento das empresas de camionagem. Acontece que, no contexto das sucessivas notícias sobre os feitos das transportadoras, algumas verdades parecem submergir:
    • Não é verdade que nenhuma estrada foi cortada?
    • Não é verdade que não ocorreram tumultos graves comparáveis aos que se viram em Espanha e em França?
    • Não é verdade que não foi preciso mobilizar o Exército, como aconteceu no Reino Unido e na Itália?
    • Não é verdade que o problema foi resolvido em três dias?
    • Não é verdade que a negociação não implicou cedências no único aspecto que era, de facto, importante — o gasóleo profissional?
Dizem agora os peritos em previsões póstumas que o Governo deveria ter começado por negociar mais cedo. Será que não perceberam que o Governo negociou com o único interlocutor válido, que o problema é que, à semelhança do que sucedeu em vários países, a própria ANTRAM foi ultrapassada por proprietários “não alinhados”, cujas motivações são em alguns casos bem conhecidas, ao não quererem sequer negociar nada com o Governo?

Dizem também os treinadores de bancada que as polícias não malharam suficientemente nos energúmenos. Mas todos puderam ver polícias a escoltarem camiões, a assegurarem que não havia cortes de estrada.

Igualmente se ouviu no Parlamento, sem ninguém o desmentir, que foram identificados mais de 50 suspeitos e que estão em curso mais de 15 processos-crimes.

A minha conclusão é simples. O que os críticos gostariam de ter visto era uma situação insurreccional, com uma declaração de estado de sítio ou de emergência à mistura, e o Governo numa situação de impotência. Parece que se enganaram redondamente. Falhou a tentativa de repor em cena o Buzinão da Ponte.