
Newton McConnell, 1914
“Esgotando-se hoje o prazo para o MP emitir parecer e passando já das 18 horas, abstenho-me de o fazer.”

“Esgotando-se hoje o prazo para o MP emitir parecer e passando já das 18 horas, abstenho-me de o fazer.”
“Todo o arguido se presume inocente até ao trânsito em julgado da sentença de condenação, devendo ser julgado no mais curto prazo compatível com as garantias de defesa.”
Artigo 32.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa
Hugo “está em vias de ser admitido a frequentar o curso de auditor de justiça do Centro de Estudos Judiciários.” Sendo membro do júri, admitia-o?
[Via Coutinho Ribeiro]

O extraordinário Sérgio Lipari não deixa de nos surpreender. A surpresa de hoje respeita à contratação, durante o período de cerca de três anos em que foi director-geral da Gebalis, de 112 pessoas, 64 das quais admitidas na famosa empresa municipal pelo seu próprio punho. Bolas, com um computador na sede de Benfica do PSD, a rapaziada nem sequer precisaria de suspender o jogo da sueca para dar uma olhadela pelas rendas dos bairros sociais. Lipari não se lembrou desta medida para não incomodar de mais aquela rapaziada da Secção A? Há chefes incapazes de ver longe.
O Expresso on-line anuncia que a comissão de serviço de Paulo Macedo não será renovada, pois o Governo não terá encontrado forma de lhe continuar a pagar, sem infringir a lei, o principesco vencimento que exige. Não sei se a notícia corresponde à verdade. Admita-se que sim e faça-se um pequeno exercício retrospectivo.![]()
Se perguntar não ofende, pergunto aos sindicalistas que ficaram muito preocupados com a apresentação feita hoje pelo Ministério da Justiça sobre o estado da justiça em Portugal:
• É verdade ou não que diminuiu a pendência processual, invertendo-se, pela primeira vez desde há longos anos, a tendência que se vinha verificando?
• Como explicam esta situação?
• Consideram-na positiva ou negativa?
• Como representantes sindicais dos magistrados, não acham que os seus representados têm uma quota-parte na responsabilidade do êxito alcançado?
• Por que razão só sabem dizer mal, quer quando as coisas correm bem, quer quando correm mal, arriscando-se a perder toda a credibilidade?
Seria bom que os sindicatos das magistraturas respondessem a estas questões. Até lá, tenho de tomar por boas as explicações dadas pelo Ministério da Justiça.

Fixe-se este nome: Lipari. Depois de enfiar a secção de Benfica do PSD na Gebalis, contratou 32 assessores. Melhor, só Marques Mendes, nos seus tempos áureos.






O ministro que tutela os Transportes esteve bem: (1) mandou instaurar um inquérito à contratação dos “consultores” da Refer, (2) deu instruções para que tais contratos fossem suspensos e (3) estendeu o âmbito do inquérito a todos os organismos e empresas tutelados pelo Ministério, para averiguar da eventual existência de outros casos semelhantes.

A Mafalda, depois de ter redigido pelo seu próprio punho alguns dos muitos posts inesquecíveis da campanha do “Não”, desapareceu. Mais uma vítima da cultura da morte — é o que é.


Desta vez, o tempo, a passagem do tempo, não parece estar a ajudar. Nem o Carnaval impediu a publicação desta carta aberta ao presidente da Refer e da RAVE. Há momentos em que o silêncio não é de ouro.
Alguns leitores, incluindo José Leitão, manifestaram-se contra o post que escrevi a propósito do Conselheiro Mário Torres.
Começo por esclarecer que tenho admiração por Mário Torres, quer como jurista, quer como homem. Por isso, o meu post tem de ser compreendido como uma manifestação de decepção e não como uma acusação gratuita.
Por outro lado, tive oportunidade de referir que respeito a independência de Mário Torres ou de qualquer outro juiz. Mas, simultaneamente, recordei que ele tem uma história de vida e que foi essa história de vida que o levou ao Tribunal Constitucional.
Ora é aqui que reside alguma incompreensão por parte dos leitores do CC. Suponho que eles pensaram que eu estava a insinuar que a escolha dos juízes constitucionais deve ser feita por critérios de alinhamento político.
Vamos tornar as coisas claras. Eu acho muito mal que o juiz seja influenciado, consciente ou inconscientemente, por critérios partidários. Às vezes, fica-se com a sensação de que um juiz decidiu “assim”, mas teria decidido “assado”, se fosse outro o interesse político-partidário com que se identifica. Isto nada tem de bom.
Mas é muito diferente um juiz decidir contra as convicções ideológicas que originaram a sua escolha como juiz constitucional. Mário Torres é juiz do Tribunal Constitucional e não de partido algum. Mas foi proposto pela esquerda, tendo em conta que tem ideais que são acarinhados pela esquerda.
Em 1998, houve um referendo em Portugal que colocou exactamente a mesma pergunta que agora foi apresentada aos portugueses. Na altura, Mário Torres não era juiz constitucional. Mas não era um desconhecido. Tinha intervenção pública como jurista e nunca disse nada que fizesse suspeitar que era adepto do “Não” ou, pior do que isso, que achava o “Sim” inconstitucional.
Quando Mário Torres foi convidado para o Tribunal Constitucional, sabia muito bem que a questão do aborto se voltaria a colocar com toda a probabilidade. Sabia também que essa era uma questão verdadeiramente “fracturante” que separava aqueles que propuseram o seu nome dos que se limitaram a tolerá-lo.
Por isso, Mário Torres tinha o estrito dever de avisar quem o convidou da sua posição nessa matéria. Se não o fez, perdeu legitimidade para agora votar como lhe apetecer. Sobretudo se o seu voto implicar um inexplicável retrocesso civilizacional em matéria de interrupção voluntária da gravidez.
Compreenderam, caros leitores?
Público, 16 de Fevereiro
Souto Moura assegurou no Parlamento que as disquetes que estavam no Envelope 9 nunca haviam sido lidas. Preferiu que se colasse aos magistrados que dirigia uma imagem de incompetência a ter de reconhecer que tinha havido um manuseamento indevido de informação que não devia estar no processo Casa Pia. Agora que um dos dois coordenadores da equipa de investigação da Polícia Judiciária reconhece, no Parlamento, que essa informação foi tratada “pelos serviços técnicos da PJ”, que irá fazer Souto Moura? Escreve outro artigo delirante no Público, como aconteceu quando Sara Pina revelou a verdade acerca das “cassetes roubadas” no Correio da Manhã?

Pior do que o jornalismo desportivo — a ausência de notícias sobre o processo Apito Dourado está aí para o provar —, só o jornalismo económico. Quanto não vale uma notinha perdida numa página económica para gerar mais-valias na Bolsa?
João Paulo Meneses, jornalista da TSF, pega num caso curioso: o BES, “que todos os anos convida alguns jornalistas para uma semana numa estância de férias na neve”, conseguiu a proeza de ver as actividades que pretendia divulgar serem tratadas com o devido relevo em diversos órgãos de comunicação social. João Paulo Meneses comprova o que diz através de uma pesquisa no Google. O leitor fica com a papa feita.

Senhor Conselheiro,
Fiquei muito preocupado com a conversa de Alberto João Jardim e com uma notícia que li hoje no Semanário.
Sei que o “Sim” ganhou apenas por 7-6 no Tribunal Constitucional. Percebi também que isso aconteceu porque o Senhor foi “ultrapassado pela esquerda” pelo Conselheiro Bravo Serra. Acabo de compreender que este juiz conselheiro vai agora ser substituído e que o Senhor continua.
O que tenciona fazer? Tenciona viabilizar uma viragem na jurisprudência portuguesa sobre a interrupção voluntária da gravidez? Já percebeu qual é o significado dessa viragem em relação ao prestígio do Tribunal Constitucional e da própria democracia portuguesa? Sabe que foi proposto em nome de uma certa ideia que havia de si?
Não sei o que pensa de tudo isto. Mas sei, sem prejuízo da independência que lhe reconheço, que não tem o direito de frustrar as expectativas de milhões de mulheres e homens que confiam nas instituições. Por isso, antes de repetir a asneira que fez na fiscalização preventiva do referendo, o Conselheiro Mário Torres que pense bem.
• Sucessão de Leis Penais, 2.ª Edição Revista, Coimbra Editora, Coimbra, 1997, pp. 156 e 182;
• Direito Penal, Parte Geral, questões Fundamentais, Publicações Universidade Católica, Porto, 2003, pp. 243 e 246.

• Efectuada até às dez semanas;
• Por opção da mulher;
• Em estabelecimento de saúde legalmente autorizado.
Carlos Abreu Amorim, Há vencedores e vencidos
Carlos Abreu Amorim, Há vencedores e vencidos (2)
Carlos Abreu Amorim, Há vencedores e vencidos (3)
Daniel Oliveira, Sobe e desce
João Pinto e Castro, Voto e razão
João Pinto e Castro, Abstenção e democracia
João Pinto e Castro, Amadorismo
Luís M. Jorge, Do outro lado
Marta Rebelo, Sim, ainda…
Miguel Vale de Almeida, A chave simbólica
Paulo Pedroso, As duas maiorias políticas em Portugal
Paulo Querido, Aborto: um país um tudo-nada menos atrasado
Shyznogud, Tempo de acabarem as merdas
Vital Moreira, Clandestino é que era bom...
… e Mafaldinha, Venceu a cultura da morte!
«Foi a percentagem do “não” na freguesia de Nevogilde, a única em todo o concelho do Porto onde o “sim” perdeu. Com 4773 eleitores inscritos, é uma das freguesias portuenses menos populosas e, a julgar pelo preço das casas, com melhor nível de vida. Abrangendo parte da zona balnear, apanha ainda o Parque da Cidade e os troços finais das avenidas de Marechal Gomes da Costa e da Boavista. Os 60 por cento que o “não” obteve no referendo coincidem quase exactamente com a soma dos resultados do PSD e do CDS nas legislativas de 2005.»

«La amplia victoria del sí (59% contra 40%) en el referéndum sobre el aborto celebrado el domingo en Portugal supone, nueve años después del ajustado triunfo del no en la primera consulta, un histórico paso adelante para el país vecino. Al dar su respaldo a la despenalización del aborto por decisión de la mujer en las primeras 10 semanas de embarazo, Portugal ha dicho no al miedo, la humillación y la persecución judicial de las 20.000 mujeres que cada año toman la decisión de abortar, ya sea clandestinamente o en el extranjero. Portugal ha querido dejar atrás su ley de 1984, una norma de supuestos casi idéntica a la española que jamás pudo ser aplicada racionalmente por la presión social de la Iglesia y la cerrazón médica.
La victoria del sí está llena de significados políticos. El debate ha movilizado por primera vez a amplios grupos ciudadanos y ha sido ejemplarmente democrático y civilizado. La voz del Portugal laico y moderno se ha elevado sobre el silencio del país atrasado. Aunque el no sigue triunfando en casi todos los tradicionales feudos rurales del norte y en las islas, los dos grandes núcleos urbanos, Lisboa y Oporto (donde ganó el no en el 98), apoyan sin ambages la reforma, con un 71% afirmativo en la capital y una participación próxima al 50% en ambas. En el cinturón de Setúbal, el Alentejo y el más avanzado Algarve, el sí alcanza mayorías escandalosas.
Es cierto que 1,5 millones de votantes se han opuesto a la despenalización y que la participación del 44% está lejos de la mitad más uno del electorado necesario para aprobar automáticamente la ley. Pero que el referéndum no sea jurídicamente vinculante no significa, como se ha dicho, que más de la mitad de los ciudadanos esté en contra de despenalizar el aborto. Y tampoco que la consulta haya quedado desvirtuada. Muchas semanas antes, el primer ministro socialista, José Sócrates, y la mayoría de los partidos habían dejado claro que respetarían la decisión popular, ganara el no o el sí, aunque la abstención superara el 50%.
Excepto el ultraderechista CDS/PP y la Iglesia católica, las demás fuerzas políticas y sociales han reaccionado ya en el sentido de que la nueva ley se hará en el Parlamento. Sócrates, pragmático y moderado durante el proceso, ha prometido incorporar algunas peticiones del no y elaborar una reglamentación basada en las mejores legislaciones europeas. Ahora sólo cabe esperar rapidez en la tramitación y la aplicación de la nueva ley que deberá sacar a Portugal de la infame pesadilla del aborto clandestino.»
“As grandes transformações tecnológicas e económicas que nos habituámos a designar por "revoluções industriais" trazem consigo um enorme progresso material, mas também choques fortíssimos sobre a organização da actividade económica e da sociedade, sobre a distribuição do rendimento e mesmo sobre os aspectos mais profundos da vida das pessoas, como o aumento da esperança de vida e a redução da natalidade bem ilustram. Por isso, embora a posteriori poucos sejam os que teriam preferido prescindir dessas transformações, isso não significa que, à medida que elas ocorrem, não haja um grande número de indivíduos sobre os quais o primeiro efeito do choque seja profundamente negativo.”

"Raro, raríssimo até, é um homem que, como Marcelo Rebelo de Sousa, falhou em quase tudo no plano executivo conseguir ocupar tão elevado posto. O de professor Marcelo."
Helena Matos, no Público de hoje
O Correio da Manhã dá conta de que o ex-procurador-geral hesitou largos segundos (30, mais precisamente) antes de votar no referendo, quando se apercebeu de que o presidente da mesa da sua secção de voto era Jorge Sampaio.
O CC sabe que, ao contrário do que afirma o jornal, a motivação de Jorge Sampaio não foi mostrar a sua humildade democrática. O Dr. Sampaio quis encontrar-se frente a frente com Souto Moura para lhe perguntar pelo Envelope 9. Ora foi mesmo isso que levou a que as pernas de Souto Moura fraquejassem naquele momento. Mas, depois, lá foi, com o seu ar singelo, depositar o piedoso “Não” na urna.
O CC sabe que o Dr. Sampaio lhe perguntou pelo Envelope 9, ao que Souto Moura terá respondido, uma vez mais, que não sabia o que queria dizer Excel. Perante o ar confundido do antigo presidente da República, terá acrescentado: — Pensei que Excel queria dizer Excelência e era uma forma cerimoniosa de a PT se dirigir aos magistrados do Ministério Público.
Se isto é verdade, aconselha-se Souto Moura a perguntar às gerações mais jovens o significado de tecla 3, para evitar ser surpreendido.
Um artigo do DN chamou a atenção para um inenarrável parecer da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (subscrito pelos juízes Pedro Soares de Albergaria e José Mouraz Lopes):
O parecer da ASJP mereceu então vários posts no CC: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e, finalmente, aqui.
O Correio da Manhã (de Domingo) publicou um extenso artigo sobre a questão da violência entre os casais gay. Alguém o poderá fazer chegar aos juízes Pedro Soares de Albergaria e José Mouraz Lopes?
• Confrontado com o cenário de as disquetes terem sido esquecidas, quando, de acordo com o depoimento feito por um funcionário da PT à comissão, foram entregues em mão aos procuradores que investigavam o processo Casa Pia, Souto Moura disse desconhecer o que diz a PT sobre este aspecto em concreto.
• Ontem questionado pelos deputados sobre a existência de códigos de acesso à informação constante das disquetes - que não existiria inicialmente, mas foi detectada no suporte que foi disponibilizado aos deputados, Souto Moura disse desconhecer o porquê desta situação.
• Ao longo de quase duas horas, os deputados questionaram o ex-PGR sobre como terá sido possível que uma informação, pedida pela equipa de investigação do processo Casa Pia com carácter de urgência e entregue em mãos no Departamento de Investigação e Acção Penal, nunca tivesse sido visionada mas acabasse por ser apensa ao processo, em vez de ser destruída por conter informação excessiva.
• Questionado sobre se tinha conhecimento da existência de reuniões entre as quatro operadoras telefónicas e o juiz de instrução, Rui Teixeira, que se fazia acompanhar de um técnico informático da PJ e de outras pessoas, eventualmente procuradores, Souto Moura garantiu que não. Como também não sabia quem, no DIAP, poderá ter recebido em mãos as disquetes em causa.
• No final, alguns deputados mostraram-se surpreendidos com a aparente "rebaldaria" do processo. Na próxima semana serão ouvidos os responsáveis da PJ na equipa de investigação do processo Casa Pia, Rosa Mota e Dias André.
Não é aqui que pode conhecer o andamento do processo Apito Dourado, ao contrário do que os media noticiaram. É aqui, com actualizações diárias, que pode, efectivamente, acompanhar a par e passo as investigações.
“Mesmo as crianças que começaram a viver no ventre materno e morreram ou aquelas que, tendo acabado de nascer, passaram pelo mundo sem o sacramento do Santo Baptismo, serão punidas com a tortura do fogo eterno.”
São Fulgêncio escreveu esta pérola no séc. VI. A condenação do aborto, nas mentalidades retrógradas, que compreende a morte dos primogénitos do Egipto, mas não a história da “mulher adúltera”, encontra esta explicação simples. A mulher grávida teve oportunidade já de conquistar a vida eterna. O feto, não. Só pode ser baptizado depois do nascimento. Por isso, até deveria dar-se prevalência à vida do feto em relação à vida da mulher grávida no caso de indicação terapêutica (saúde física ou psíquica da mãe em risco).
Deixo duas perguntas:
• Compreendendo-se que São Fulgêncio pensasse assim no Séc. VI, como se entende que César das Neves, Mário Pinto e Bagão Félix digam o que dizem no Séc. XXI?
• Se existe uma pessoa desde o momento da concepção, o que impede que o feto seja baptizado antes do nascimento?
[Publicado no Sim no Referendo]
• Vital Moreira, Qual é o efeito jurídico e político do referendo?
• Elisa Ferreira, Evolução do número de Interrupções Voluntárias da Gravidez (IVG) na Europa
• Leonor Areal, verdade e mentira dos números
• Vasco M. Barreto, Ventos do Norte
• Jorge Sequeiros, Ciência, convicções, fraude e a dor fetal
• Carlos Fiolhais, Cientistas pelo SIM - Um novo Galileu?
• J. L. Pio Abreu, A palavra decisiva
• Entrevista a Mário de Sousa
• João Pinto e Castro, É tão fácil sair da cauda da Europa...
• Fernanda Câncio, as notícias sobre esta morte não foram exageradas
• Pedro Lomba, Um compromisso, não uma adesão
• José Mattoso, As razões do meu Sim
• José Miguel Júdice, «As sociedades podem mudar as leis, mas devem sempre aplicá-las»
O penalista Rui Pereira escreve hoje um artigo, no Público, intitulado “Enriquecimento ilícito”. Sustenta o Autor: «Sem criminalizar o “enriquecimento ilícito”, que constitui um ardil para punir, sem prova, a corrupção (e alguma não corrupção), é possível sancionar quem exiba uma fortuna inexplicável.”

Com ele foram condecorados três chefes militares. Tinham ar grave e o peso da pátria nos olhos. Ele estava mais leve. Sorria e olhava para o céu. O CC sabe que ele perguntou mentalmente a Deus: ― O que fiz eu para merecer esta honraria? Mas o CC sabe também que Deus não o deixou sem resposta: ― Nada.
— O meu primeiro [vídeo] ainda está à frente!

“As declarações e posições pouco católicas de certos movimentos, personalidades e de alguns padres dão a impressão de quererem entregar à repressão do Estado, do Código Penal, dos tribunais, da polícia, da cadeia, as suas convicções morais — isto é, parece que não confiam na consciência das mulheres, na sua capacidade de discernimento, para percorrerem todos os caminhos necessários até chegarem a uma decisão bem informada, responsável, prudencial, no sentido que a virtude da prudência, virtude da decisão bem informada, tem em Aristóteles e Tomás de Aquino.”
Frei Bento Domingues, no Público de hoje (a ler aqui)
«No debate entre adeptos do ‘sim’ e do ‘não’ à ‘despenalização da interrupção voluntária da gravidez, praticada por iniciativa da mulher, durante as primeiras dez semanas’, o conflito tem prevalecido sobre o diálogo. As teses em confronto extremaram-se. E, todavia, há questões relevantíssimas em que todos dizemos estar de acordo.
Em primeiro lugar, reconhecemos o valor da vida intra-uterina. Se assim não fosse, nem sequer poderíamos condenar o aborto praticado após a vigésima quarta semana de gravidez (quando o feto já é viável) ou imposto por políticas eugénicas ou de natalidade.
Em segundo lugar, pressupomos que a vida intra-uterina não tem o mesmo valor que a vida de uma pessoa já nascida. Ninguém rejeita, no mínimo, o aborto terapêutico. Ora, se a vida da mãe e a vida do feto valessem o mesmo, seria lícito sacrificar, indiferentemente, uma ou outra no caso de conflito.
Em terceiro lugar, defendemos que as mulheres não devem ser punidas. A punição – sobretudo, a pena de prisão – não configura uma resposta justa, necessária e adequada para quem enfrentou um drama existencial terrível e sofreu a provação do aborto clandestino.
Em quarto lugar, consideramos que o problema não é religioso. Argumentos como o carácter sagrado da vida, desde a concepção, por ter sido criada por Deus, não podem ser tidos em conta num Estado democrático, de inspiração liberal e configuração laica.
Com tal comunhão de pontos de vista, é de estranhar que a polémica persista. Se os ‘pro lifers’ não clamam pela punição das mulheres e os ‘pro choicers’ aceitam o valor da vida intra-uterina, não será possível construir uma ponte entre as suas posições pretensamente antagónicas?
O consenso é possível. Já hoje tratamos o problema a partir de um acordo tácito: o aborto clandestino é crime, mas não tem sido punido. Porém, trata-se de um consenso negativo, que degrada a autoridade do Estado, perpetua um problema de saúde pública e causa sofrimento às mulheres.
Mas há alternativa. Ela consiste em não punir o aborto praticado pela mulher durante o primeiro estádio da gestação. A escolha de um limite de dez semanas exclui os casos em que o feto já haja iniciado a actividade cerebral superior, possa sentir prazer e dor e seja, em certo sentido, “sujeito de uma vida”.
Objectar-se-á que o feto será sacrificado ao puro arbítrio da mãe. Mas a crítica é injusta. Nenhuma mulher aborta por capricho. E cabe ao Estado continuar a proteger a vida intra-uterina – promovendo o aconselhamento, favorecendo a maternidade e punindo o aborto praticado durante as primeiras dez semanas sem o consentimento da mulher.»
“Tem sido dito, até dos dois lados em confronto, que o que está em causa é um problema de consciência. Oxalá fosse, mas não é. A questão da interrupção voluntária da gravidez, hoje e em Portugal, é um problema com dimensão política, porque de saúde pública. E é um problema de pobreza, incultura, menorização preconceituosa da mulher e medo. Nada disto faz com que a mulher que não pode (ou responsavelmente não quer) ser mãe aceite o filho indesejado. Tudo isto apenas a empurra para o aborto clandestino. A consciência tem o seu espaço de respiração na liberdade e na responsabilidade. Se o "sim" ganhar, então, de facto, levar por diante uma gravidez indesejada ou aceitar, livre e responsavelmente, dar vida passará a ser um problema de consciência.”
• Helena Matos, Os limites de cada um [via Logicamente, sim];
• Pedro Lomba, A moral do Estado;
• Rui Tavares, Uma pergunta directa para uma resposta honesta [via Logicamente, sim].
1.º Começa sempre por fazer uma profissão de fé contra o legalismo;
2.º Depois, vai à lei buscar umas normas que interpreta mal e não enquadra sistematicamente;
3.º Conclui triunfantemente o silogismo, defendendo um princípio geral.