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domingo, setembro 27, 2015
Verdade ou mentira?
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sexta-feira, julho 10, 2015
Da guerra «sem quartel» à pobreza e às desigualdades
- «Depois de lançar no desemprego centenas de milhares de pessoas, de convidar jovens e adultos a emigrar, de cortar nos salários, em pensões e prestações sociais, Pedro Passos Coelho diz que é chegada a hora de travar uma «guerra sem quartel às desigualdades de natureza económica e social». Não estranhem: o primeiro ministro que apresenta esta promessa eleitoral é o mesmo primeiro ministro que acha que não foram as medidas de austeridade que «aumentaram o risco de pobreza» e que os mais pobres «não foram afectados por cortes nenhuns». E de nada serve que organizações insuspeitas, como a OCDE, critiquem as políticas sociais do governo, reprovando os cortes efectuados no RSI ou o facto de a austeridade pesar muito mais para as famílias de menores rendimentos.
Do que talvez a OCDE não se aperceba, em matéria de políticas de combate, «sem quartel», à pobreza e às desigualdades, é que não se trata apenas de uma questão de cortes orçamentais mas sim, e sobretudo, do regresso à miséria moral da caridade e à sopa como política social. Os números são claros: se tomarmos como base o ano de 2010, os beneficiários do RSI passaram a representar 61% do número de beneficiários existentes naquele ano, ao mesmo tempo que as pessoas assistidas pelo Banco Alimentar Contra a Fome (BACF) aumentaram em 29 pontos percentuais. Em 2014, aliás, ocorre um facto inédito: o número de pessoas apoiadas pelo BACF (384 mil) supera o total de beneficiários de RSI (321 mil).»
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sábado, junho 27, 2015
A palavra aos leitores
Texto de José António C. Ferreira, Enfermeiro, a quem peço desculpa pela demora na publicação:
«O retrocesso do SNS ao tempo da beneficência/caridade da Misericórdia
- Declaração de interesse: sou contra as instituições de solidariedade e voluntariado pelo facto de a grande maioria ser geradora de corrupção, não cumprirem com o conceito inicialmente vertido na palavra “beneficência”, o de filantropia, mas sobretudo não proporcionarem emprego real.
Voltando ao tema a que me propus refletir:
Sou do tempo em que a Saúde era pobre, o que para a época era normal, já que todo e qualquer ato que nasce, cresce, e assim também o SNS, tinha que passar por este estádio de pobreza enquanto criança. Houve tempos, na sua fase de jovem, onde enriqueceu. Contrariando a normal evolução, na idade adulta, isto é, hoje, não a encontramos na sua maior pujança. Com o que reparo, aos tratos que o atual poder lhe está a impor, nem me permito pensar o que lhe vai acontecer quando chegar à idade de velhice.
Quando digo que a Saúde não era para pobres afirmo-o no sentido de que este bem não lhe era, e atualmente voltou a não ser, oferecido na sua plenitude, nem em recursos materiais, nem, sobretudo, em recursos humanos.
A palavra miséria em nada me conforta, não só ao escrevê-la, mas principalmente quando quotidianamente me confronto com a sua existência.
Muito me incomoda trabalhar em condições miseráveis, não por causa da miséria que a natureza perspetiva, mas porque os donos das instituições que regulam povos a utilizam como slogan, um modo de viverem e não deixarem viver, para ganharem fortunas e controlar o valor dos bens, neste caso específico o bem Saúde.
Pensado em miséria, a palavra miserável sobressai levando-me a pensar em pessoas frágeis, dependentes, não reativas, que após permanente contato com esta realidade deixam-se ficar numa letargia tal que o modo sobreviver prevalece a modo viver!
O atrás descrito serviu para dizer que passados estes anos, cerca de 40 anos, esta miséria está cada vez mais impregnada, com a agravante de que atualmente a palavra miséria engradeceu ainda mais na sua “miséria”. Passou a ser um produto intencionalmente manipulado pela atual sociedade liberal em que vivemos, que utiliza esta artimanha para se impor perante os seus cidadãos. Em termos gerais, isto acontece por culpa de o poder político-social se ter deixado subjugar ao poder económico-financeiro.
Onde estão os valores dos “maios de 68” ou os mais globais e abrangentes do não menos importante “abril de 1974”? Permito-me responder, os valores estão nos poucos “Eu’s” que por aqui vagueiam, digo vagueiam e vagabundeiam mesmo que de forma ténue.
O endividamento económico, mas sobretudo o preço a que deixamos cobrar a nossa “divida emocional”, não é compatível com a reatividade que nos é inata. O nosso património genético está a ser amarrotado, amordaçado, pelos valores adversos deste meio ambiente inóspito criado para que continuemos somente a estar em vez de ser.
Estou no tempo em que a Saúde só é para os pobres, com a indecência de que a atual sociedade nem sequer é pobre. Passo a justificar:
Quem mais utiliza o SNS? Os pobres que erradamente julgam que não pagam. Desta forma o poder instituído fá-los acreditar que o Estado Social funciona. Errado! Caso fosse verdade o franchising das instituições, intituladas de solidariedade, não crescia que nem cogumelos.
Quem menos utiliza o SNS? Os ricos que podem pagar ou têm subsistemas ou seguros de saúde para o fazer. Este dinheiro vai para os grandes grupos que atualmente controlam a Saúde. Grupos esses que se vangloriam de cobrar mais barato os seus serviços, e nós erradamente acreditamos.
Os 3 ou 7 euros nos hospitais Cuf’s, nos Trofas’s, nos Povoas’s, e at all, cobram na realidade 30 ou 70 euros. O que eles fazem com esses 100% de lucro? Sei que aos prestadores dos serviços não pagam o que deviam, e sobretudo não premeiam os cuidados de saúde.
Em jeito de conclusão, o SNS corre um enorme risco de morrer, pois a falácia que este Governo nos anda a vender, e que muitos de nós compramos, é perversa. O dinheiro que nos é muito caro está a passar para as mãos dos privados.»
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quarta-feira, maio 27, 2015
Para além do mais, a caridade sai cara
Se a imagem diz muito, o post de Nuno Serra ajuda a enquadrar a questão: A miséria moral da caridade, das políticas que a promovem e das organizações que a praticam.
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segunda-feira, maio 25, 2015
Histórias de quatro anos de sucessos [2]
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| (in Acção Socialista) |
Um inquérito a 216 instituições de assistência social revela que um em cada três utentes destas instituições passou fome pelo menos um dia por semana. Foram entrevistados cerca de duas mil pessoas que recorrem a essas instituições. Mais dados estão disponíveis aqui.
Com os cortes no rendimento social de inserção, no complemento solidário para idosos e no subsídio de desemprego, o Governo empurrou muitos milhares de portugueses para situações abaixo do limiar de pobreza. Apesar de a política do Governo conduzir a esta barbárie social, Paulo Portas tem o descaramento de dizer que tem de haver «uma ética social na austeridade», para que «aqueles que são mais fracos vulneráveis e mais pobres não sejam os sacrificados da austeridade». Veja-se o resultado:
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| O risco de pobreza continuou a aumentar em 2013 |
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sexta-feira, maio 22, 2015
Para quem é, bacalhau basta
Mãe queixou-se de leite fora de prazo e ficou sem ajuda alimentar. Da prepotência da caridade: «Por causa disto nunca mais cá vens [sic] buscar nada».Queremos uma sociedade solidária ou assistencialista? Queremos um país onde o Estado social funcione ou um país onde os mais vulneráveis fiquem à mercê dos humores de gente que tem o monopólio da caridade?
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quinta-feira, abril 30, 2015
Isto anda tudo ligado
Ontem, o Presidente da República distinguiu a Obra Diocesana de Promoção Social com o título de Membro Honorário da Ordem de Mérito. Hoje, a Polícia Judiciária tem em curso uma operação para detectar utentes fantasma na citada Obra Diocesana. Está em causa a obtenção fraudulenta de financiamento do Instituto da Segurança Social. O ministro Mota Soares, enquanto troca o Estado social pelo assistencialismo, nunca se lembrou de que é preciso exercer um controlo apertado das transferências de dinheiros públicos?
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domingo, fevereiro 08, 2015
O misericordioso Dr. Lemos e a sua moral de sacristia
• Nuno Saraiva, O misericordioso Dr. Lemos e a sua moral de sacristia: - «A convicção do presidente da União das Misericórdias, Manuel Lemos, de que "em Portugal só passa fome quem quer" é todo um programa ideológico e toda uma visão da sociedade que devia revoltar e envergonhar qualquer pessoa decente.
Explica o bem-aventurado Dr. Lemos que há quem não coma por ignorância, isto é, porque desconhece a existência das cantinas sociais. Talvez o Dr. Lemos não saiba, ocupado que anda a praticar a sua caridadezinha serôdia e bafienta, dos últimos dados do INE sobre a pobreza em Portugal. Talvez ignore, por exemplo, que a taxa de risco de miséria, já depois de realizadas as transferências sociais, é hoje, feitos alguns contorcionismos estatísticos, de 19,5%. Ou seja, considerando este indicador há 1,95 milhões de pessoas em Portugal em perigo de carência, por disporem de um rendimento inferior ao limiar de pobreza. Mas este universo é ainda maior se eliminarmos os efeitos da quebra de rendimentos. Isto é, as consequências do empobrecimento punitivo, à bruta e conformado à matriz do "custe o que custar" indicam que, além do que as estatísticas oficiais revelam, existem mais 640 mil cidadãos em situação de pobreza.
É pois com facilidade que se conclui a evidência: ao contrário do que diz o sapiente Dr. Lemos, em Portugal não se passa fome por ignorância ou desconhecimento. É mesmo por falta de dinheiro. Por isso, afirmar que "só passa fome quem quer", além de desonesto é, como afirmou um corajoso dirigente regional da Cáritas, um atentado contra a dignidade das pessoas que, por terem os bolsos vazios, nem sequer uma refeição conseguem fazer todos os dias.
Não faço ideia se haverá confissão ou ato de contrição que valha ao católico Manuel Lemos, depois de exibir tamanha aleivosia. Mas sei que não gosto da moral de sacristia inscrita no seu discurso nem tão pouco de generalizações, quando se trata de dramas sociais. (…)»
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sábado, outubro 18, 2014
Malabarices orçamentais
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| Hoje no Expresso (via Nuno Oliveira) Clique na imagem para a ampliar |
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sexta-feira, agosto 22, 2014
Seguro e Costa: diferenças ideológicas?
• Ana Rita Ferreira, Seguro e Costa: diferenças ideológicas?: - «(….) quando analisamos os documentos estratégicos de Seguro e de Costa no que toca a estas áreas, o que primeiro nos salta à vista é o facto de Seguro, na sua moção, não dedicar nenhuma linha ao tema das políticas sociais. (…)
A moção de António Costa é, a este respeito, mais clara. Afirma, logo no início, que, actualmente, “para os socialistas, o desafio é, portanto, travar esta dinâmica de retrocesso social e reduzir as desigualdades” (p. 2) e, por isso, também sublinha que um dos seus objectivos principais será “o reforço da coesão social” (p. 10). Posteriormente, enfatiza esta questão, dizendo, por exemplo, que “é essencial uma política de redução das desigualdades económicas e sociais que inclua a correcção na repartição do rendimento, bem como uma intervenção activa do Estado enquanto elemento corrector das insuficiências do mercado em matéria de equidade” (p. 13), ou indo mesmo mais longe considerando que “o combate à pobreza e à exclusão social não pode ser alheio às políticas de correcção das desigualdades sociais, porque as desigualdades sociais geram e acentuam a pobreza e a exclusão social” (p. 22). Poderíamos citar vários outros exemplos.
Neste âmbito, a moção de Costa põe a tónica na igualdade de acesso a serviços de educação e saúde públicos e de qualidade (pp. 12-13) e às prestações sociais (p. 22), tal como Seguro, mas não só é mais descritivo, como apresenta uma nova linha de combate à pobreza e às desigualdades, que parece herdeira das anteriores políticas socialistas, uma vez que prevê uma nova prestação para um novo público-alvo específico: “o governo do PS assumirá como objectivo prioritário a redução do número de crianças e jovens em situação de pobreza e de precariedade social”, dado que esta “meta incontornável em termos de justiça social, é, além disso, instrumento para uma redução sustentada das desigualdades” (p. 23). E acrescenta mais uma fórmula ideologicamente marcada: “O combate à pobreza e à exclusão social não pode ser adequadamente servido por políticas casuísticas ou assistencialistas” (p. 22).
Costa dedica efectivamente mais espaço ao tema da necessidade de redução das desigualdades por via das políticas sociais na sua moção e, além disso, é mais taxativo no diagnóstico deste problema e apresenta mais soluções para o resolver. É certo que, com base nestes documentos, não podemos colocar os dois candidatos socialistas em linhas ideológicas divergentes, pois as diferenças detectadas são ténues. Mas encontramos já um sinal que poderá indicar que Costa e Seguro não dariam a mesma prioridade às políticas sociais redutoras do fosso entre ricos e pobres. (…)»
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sábado, junho 21, 2014
Refundar or reformar o Estado?
• Augusto Santos Silva, Um Estado amigo da iniciativa:- «(…) Até começo pelas funções sociais. Não se pense que está tudo bem aí. Pelo contrário: quem defender o Estado social deve ser o primeiro a enfrentar dois problemas sérios: os abusos e a ineficiência. A raiz dos abusos está na assimetria entre direitos e responsabilidades e na conversão de direitos em privilégios. O fenómeno dito de "ir à boleia", beneficiando sem contribuir proporcionalmente ou manipulando o direito como se fosse uma benesse, corrói o pilar mais importante do Estado social, que é o apoio das classes médias. Por isso, a exigência da condição de recursos para as prestações não contributivas (que está ainda por fazer nas pensões mínimas), a contratualização de obrigações para os beneficiários da proteção social e uma fiscalização apertada, são elementos essenciais de melhoria do Estado.
Coisa análoga se diga da eficiência, a relação entre os recursos investidos e os resultados obtidos. No Serviço Nacional de Saúde, ela tinha chegado, imediatamente antes da crise, a um nível bastante aceitável. Está regredindo agora, infelizmente. Mas, pesem as melhorias registadas na segunda metade da década passada, ainda precisa de progredir muito na educação. Querem os leitores o exemplo de um custo altíssimo e completamente desnecessário? Olhem para os 250 milhões de euros que custa ao país, anualmente, o insucesso escolar.
Diz-se por vezes que o gasto principal do Estado é com salários e pensões. Quanto às pensões, é uma falácia: as contribuições dos trabalhadores e empregadores é que as pagam. Quanto à despesa com a função pública, Portugal esteve mas já não está acima da média europeia, em percentagem do produto. Nesse termo de comparação, nem temos funcionários a mais nem gastamos de mais com eles. Os mecanismos de progressão automática e de gestão laxista da força de trabalho - que aliás vêm, no essencial, do Governo Cavaco Silva - foram corrigidos (já agora, e no essencial, pelo Governo José Sócrates). Neste campo, reformar é não voltar atrás. (…)»
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domingo, junho 15, 2014
«É bem capaz de vir aí um golpe baixo»

- «A reforma do Estado começa por ser um mito. Assim a tratam as pessoas que, depois de uma qualquer catilinária contra qualquer política, rematam invariavelmente que o que se devia fazer era reformar o Estado. Como biombo para a falta de ideias, rivaliza com outras bandeiras populares, como mudar a maneira de fazer política ou combater a corrupção.
Mas também quer dizer coisa mais séria. Na parte compreensível do guião preparado pelo vice-primeiro-ministro, é o programa político de redução das funções e peso do Estado (emagrecendo-o ou desmantelando-o, os leitores escolherão a seu gosto). O pressuposto é que o Estado gere mal e o encargo que representa para os cidadãos impede-os de usar formas mais eficientes de consumo e aforro. Assim, quanto mais confinado estivesse o Estado ao papel de garante, deixando aos mercados a provisão dos bens sociais, melhor seria. É a teoria do Estado mínimo, ou do Estado-garantia (para os seus adversários, Estado assistencialista).
São três as consequências práticas. Uma é a concentração da ação do Estado na soberania (por exemplo, a segurança) e no fomento (por exemplo, o apoio fiscal ao investimento privado). Outra é a redução das funções sociais ao mínimo possível, isto é, à proteção dos grupos ou à prevenção das situações mais vulneráveis (daí o labéu de assistencialismo). A última é a participação ativa do Estado na expansão dos mercados privados nas áreas da segurança social, da saúde, da educação e dos transportes, através de mecanismos como o plafonamento contributivo, o tratamento fiscal favorável do segundo e terceiro pilares do sistema de pensões, a substituição da lógica do serviço nacional de saúde pela lógica de um seguro público de saúde, o cheque-ensino, ou os modos de concessão de transportes e outros serviços públicos que garantem sempre um certo nível de rentabilidade aos concessionários.
Não surpreende, pois, que, algumas reformas que se orientaram por esta ideologia tivessem provocado aumento (leu bem: aumento) da despesa pública. Basta pensar nos custos de transição, na previdência, da repartição para a capitalização, ou no montante adicional de financiamento que exigiria o cheque-ensino, isto é, o financiamento das famílias independentemente de os seus filhos frequentarem o ensino público ou o privado. Mas também se deve ter em mente que, em regra, esta ideologia do Estado mínimo nas funções sociais anda associada à do Estado máximo nas funções de soberania. E, portanto, como o caso norte-americano tão bem demonstra, a mesma administração que se mostra avara na despesa social pode não poupar meios nas despesas de segurança e vigilância, ou na fiscalidade "amiga" do património e riqueza.

- O ponto principal não reside, porém, aqui. Os programas de reforma do Estado por minimização dos serviços públicos e das funções sociais fazem-nos correr riscos ainda mais graves.
O primeiro é a deslegitimação democrática. Especialmente agudo na Europa, onde a integração das pessoas de todas as condições em sistemas comuns (a cidadania democrática, as instituições políticas, o Estado social) foi a linha condutora do pós-guerra.
O segundo risco é a degradação irreversível dos serviços públicos que restem, isto é, aqueles que garantem os mínimos sociais, isto é, aqueles cujos clientes serão cada vez mais apenas as classes pobres.
O terceiro é o agravamento do risco moral para o Estado. Quando os sistemas privados (de pensões, de depósitos, de seguros, de transportes...) colapsam, é o Estado que tem de intervir. Mas agora depois do mal consumado e enfraquecido na capacidade de regulação e ação.
Quer isto dizer que não se deve reformar o Estado? Claro que não. E, se nenhuma urgência se interpuser, cuidarei do assunto na próxima semana. Aceitem, contudo, caros leitores, este conselho: quando ouvirem grandes trombetas anunciando a "reforma do Estado", ponham-se em guarda; é bem capaz de vir aí um golpe baixo.»
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sábado, abril 12, 2014
O Estado paralelo
• Pedro Adão e Silva, AINDA O ESTADO PARALELO [hoje no Expresso]:
É bom ter presente que «as IPSS recebem todos os anos 1,2 mil milhões de euros (não, não estou enganado - são mesmo 1,2 mil milhões de euros) para desenvolver actividades de solidariedade social em nome do Estado. Digamos que não é pouco. E digamos que pouca gente sabe que as IPSS recebem esta verba para fazerem o que o Estado deveria fazer.»
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É bom ter presente que «as IPSS recebem todos os anos 1,2 mil milhões de euros (não, não estou enganado - são mesmo 1,2 mil milhões de euros) para desenvolver actividades de solidariedade social em nome do Estado. Digamos que não é pouco. E digamos que pouca gente sabe que as IPSS recebem esta verba para fazerem o que o Estado deveria fazer.»
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sexta-feira, julho 26, 2013
A nona remodelação do Governo
- “Está na altura de racionalizar a dimensão do Estado. Mas não é só o Estado em sentido lato — das empresas públicas, dos institutos e das fundações. Esse exemplo tem de ser dado pelo próprio governo. Um governo que atribui absoluta prioridade à reconfiguração do Estado e ao seu peso financeiro tem de começar a dar o exemplo de ser um governo seco, enxuto, disciplinador e frugal. Desde logo na sua composição. Não podemos ter um governo que tenha 16 ministros, mais o primeiro-ministro, e dezenas de secretários de Estado. Nós temos de ter um governo que se possa sentar à volta de uma mesa e que, com o primeiro-ministro, possa responder pelas decisões que são tomadas. E isto pode-se fazer com um governo muito mais pequeno e com um número de ministros não superior a dez.”
- Passos Coelho (vídeo), em 7 de Abril de 2011
O “governo seco, enxuto, disciplinador e frugal”, “sem dezenas de secretários de Estado”, acabou de dar entrada no Palácio de Belém para a nona recauchutagem. Após estas constantes remodelações, o governo de Passos & Portas tem mais secretários de Estado do que o anterior governo, sendo globalmente maior do que o executivo tão criticado por Passos Coelho pela sua dimensão. Veja-se: em dois anos, a lista de ministros subiu, assim, de 11 para 14 ministros (mais três), enquanto o número de secretários de Estado subiu de 36 para 42 (mais seis), num movimento inverso ao da espiral recessiva.
Ao contrário do que acontece com a carcaça dos pneus, susceptível de reparação se não contiver danos estruturais, a recauchutagem do Governo, sob o alto patrocínio de Belém, revela-se uma missão impossível, como a seu tempo se verá. É que a coligação de direita parece capaz de todas as acrobacias, mas não pode ir contra a sua própria natureza: o propósito de reduzir o “custo do trabalho” e de transformar o Estado social num Estado assistencialista. Por isso, o “novo ciclo” ficará à porta da São Caetano e do Caldas.
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quarta-feira, fevereiro 27, 2013
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quarta-feira, dezembro 12, 2012
Jonet e o Governo, a mesma luta
• João Cardoso Rosas, Caridade e solidariedade:
- ‘Quando Isabel Jonet vem agora dizer que a caridade é preferível não podemos desligar-nos de um contexto político no qual o Governo pretende impor um corte devastador no Estado social, em especial nas prestações sociais. Ou seja, os discursos de Jonet e do Governo funcionam em tandem. Eles fazem cada um por si aquilo que Nozick fazia em simultâneo na sua sala de aula. Ao dizer que a caridade é preferível, Jonet está também a dizer, de forma sub-reptícia, que o Governo tem razão em cortar na solidariedade.’
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terça-feira, dezembro 11, 2012
Quando a caridade disfarça o ataque ao Estado Social
- “Sou mais adepta da caridade do que da solidariedade social…”
- Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar
Não é de excluir liminarmente que a posição de Isabel Jonet resulte da necessidade de defender o negócio que tem em mãos. Mas a senhora, ao reconhecer na estrevista ao i que o seu negócio não chega para as encomendas, está a fazer um elogio involuntário às políticas públicas.
Que seria dos pobres deste país sem os apoios do Estado? Veja-se: de acordo com o Eurostat, a taxa de risco de pobreza foi de 19% em 2007 e de 18% entre 2008 e 2010. Se não tivesse havido apoios sociais, a taxa de risco de pobreza teria subido para mais de 40%.
Mas Jonet prefere a “caridade” — um acto que pode ser meritório, mas que depende da vontade e da disponibilidade de cada um — à “solidariedade social” — que resulta da redistribuição dos rendimentos através dos impostos.
Ao revelar esta sua preferência, a presidente do Banco Alimentar está a fazer o que sempre faz nas suas constantes aparições na comunicação social: aproveitar o palanque da caridade para o seu persistente combate contra o Estado Social. Seria bom que os defensores da caridade estivessem mais atentos à praxis teórica de Isabel Jonet, sempre em sintonia com as posições mais retrógradas da sociedade.
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sexta-feira, dezembro 07, 2012
Da série “Considerações intempestivas” [13]
Os cantineiros.
Há neste governo e nesta maioria quem utilize como exemplo de política social aquilo a que chamam - sem corarem de vergonha – as “cantinas sociais”.
O uso desta expressão é, em si mesmo, revelador de uma política esvaziada de valores e de um comportamento político destituído do ‘ethos’ que inspira o sentido de justiça e o respeito pelos direitos e pela dignidade das pessoas.
Nada que deva surpreender-nos. Como explicou um dos pais fundadores do pensamento liberal,
De facto, a direita que infesta este governo e esta maioria e que se julga liberal, e até mesmo neoliberal, é apenas um destroço do pensamento reaccionário e antiliberal que, esse sim, é a marca d’água da direita portuguesa.
Há neste governo e nesta maioria quem utilize como exemplo de política social aquilo a que chamam - sem corarem de vergonha – as “cantinas sociais”.
O uso desta expressão é, em si mesmo, revelador de uma política esvaziada de valores e de um comportamento político destituído do ‘ethos’ que inspira o sentido de justiça e o respeito pelos direitos e pela dignidade das pessoas.
Nada que deva surpreender-nos. Como explicou um dos pais fundadores do pensamento liberal,
- [The] disposition to admire — and almost to worship — the rich and the powerful, and to despise or at least neglect persons of poor and mean condition, is (…) the great and most universal cause of the corruption of our moral sentiments.
- Adam Smith, The Theory of Moral Sentiments, I.3.iii.
De facto, a direita que infesta este governo e esta maioria e que se julga liberal, e até mesmo neoliberal, é apenas um destroço do pensamento reaccionário e antiliberal que, esse sim, é a marca d’água da direita portuguesa.
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domingo, dezembro 02, 2012
A PALAVRA DO SENHOR
À empresária da caridadezinha que anda por todas as televisões a exibir-se com indisfarçável vaidade é preciso que alguém lembre o comando de Jesus:
- Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. (Mateus 19, 21.)
- Acautelai-vos dos falsos profetas que se vos apresentam disfarçados de ovelhas mas que por dentro são lobos vorazes. (Mateus 7.15.)
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quarta-feira, novembro 21, 2012
AMI, AMI, negócios à parte!
Fernando Nobre poderia ser a esta hora o presidente da Assembleia da República. Se tivesse passado o teste do algodão, a sua receita para o fortalecimento do Estado Social passaria por assegurar “um Estado organizado, reduzir o número de deputados de forma significativa, reduzir as juntas de freguesia e reduzir alguns concelhos, porque temos concelhos com 7.000 habitantes”, para além da “reestruturação das empresas públicas” e do "corte de gorduras [do Estado] acumuladas ao longo de décadas”.
Fernando Nobre fala com o à-vontade de quem está seguro de que não lhe será solicitado que concretize os seus desabafos de taxista. É um homem de sorte, como, de resto, se deduz da circunstância de ter sido candidato à presidência da República e à Assembleia da República sem que nunca ninguém se tivesse lembrado de lhe pedir que fizesse o favor de explicar por que, ao observar o organograma da AMI, qualquer um de nós se pode convencer que há mais Nobres do que Silvas em Portugal. O Estado Social, do qual em tempos foi um ferveroso defensor, não permite uma gestão tão flexível como as obras de caridade.
Fernando Nobre fala com o à-vontade de quem está seguro de que não lhe será solicitado que concretize os seus desabafos de taxista. É um homem de sorte, como, de resto, se deduz da circunstância de ter sido candidato à presidência da República e à Assembleia da República sem que nunca ninguém se tivesse lembrado de lhe pedir que fizesse o favor de explicar por que, ao observar o organograma da AMI, qualquer um de nós se pode convencer que há mais Nobres do que Silvas em Portugal. O Estado Social, do qual em tempos foi um ferveroso defensor, não permite uma gestão tão flexível como as obras de caridade.
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