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quinta-feira, outubro 04, 2012

Moções de censura

A dimensão da manifestação de 15 de Setembro não abriu apenas um colossal rombo na maioria de direita. Deixou também a esquerda radical à nora, que se viu ultrapassada pelos acontecimentos: convocados a dizer “não à troika”, os manifestantes corrigiram espontaneamente a mira, apontando-a à demissão do Governo. As moções de censura apareceram como um atalho para recuperar a iniciativa — tanto mais que coincide com a realização do Congresso Democrático das Alternativas, no qual o PCP não se fará representar.

Em todo o caso, o que é diferente não pode ser observado de forma igual. Quando as primeiras palavras são uma referência aos “36 anos de política de direita”, a moção do PCP não está à procura da unidade da esquerda. Está apenas a dividir para procurar reforçar as suas próprias hostes. Justificaria a sua rejeição liminar.

segunda-feira, agosto 20, 2012

A IV Internacional vencerá…

Da acefalia à bicefalia?

• Tomás Vasques, Está o Bloco bloqueado?:
    ‘Francisco Louçã, o mais antigo dirigente partidário português no activo (LCI, PSR e BE), por iniciativa própria ou por pressão interna, vai abandonar a liderança do seu partido, cargo que, entre os bloquistas, se designa eufemisticamente de “porta-voz”. Esta anunciada saída só pode ser entendida como o reconhecimento de que o antigo líder trotskista, depois de ter protagonizado o crescimento eleitoral do Bloco, passou a ser um estorvo para o seu partido, como o demonstrou a estrondosa derrota eleitoral nas últimas eleições legislativas, que reduziu os bloquistas a metade dos votos e dos deputados.

    O Bloco de Esquerda é uma das duas inovações que arejaram o quadro partidário saído do 25 de Abril, ambas com o mesmo objectivo: disputar o “espaço” eleitoral do Partido Socialista. A primeira inovação – o Partido Renovador Democrático, confeccionado no Palácio de Belém por Ramalho Eanes – conseguiu obter 18% dos votos e 45 deputados nas eleições legislativas de 1985, quase igualando o PS. Contudo, este resultado foi o “canto do cisne” que antecedeu o “desastre” eanista: anos depois, após obter 0,65% dos votos, em 1991, o PRD foi comprado – literalmente – por um grupo de extrema-direita, o Movimento de Acção Nacional. Nesta altura, as tentativas de Francisco Louçã para afirmar eleitoralmente o “socialismo de esquerda” resultaram em grandes fracassos eleitorais. Em 1983, o seu partido de então – o PSR – coligou-se com a UDP e obteve 0,44% dos votos expressos. Foi preciso esperar 15 anos para que, em 1999, aparecesse o Bloco de Esquerda – a velha coligação do PSR e da UDP, a que se juntaram alguns dissidentes do PCP agrupados à volta de Miguel Portas. O novo partido elegeu, então, dois deputados. Em dez anos, de 1999 a 2009, o Bloco cresceu de 2,4% para 10%, ultrapassando os comunistas.’

domingo, agosto 19, 2012

Crónica de uma demissão anunciada


Pode ter graça ver Francisco Louçã, seguindo as pisadas de Cavaco, a recorrer ao Facebook para falar aos portugueses, no caso “aos activistas e ao povo do Bloco”, o que revela a incipiente organização interna de um “movimento” que é alimentado pela comunicação social.

Pode ter graça ver o “porta-voz” do Bloco de Esquerda a condicionar a sua “sucessão”, revelando que os métodos internos de trabalho do “politburo”, herdados das organizações que estão na sua génese, não foram abandonados — antes foram aprimorados.

Pode ter graça ver que a solução imposta, procurando conservar o frágil equilíbrio entre os órfãos de Enver Hodja, Trotsky e Brejnev (sem esquecer a quota dos “independentes” representada por Fernando Rosas), está já a ser contestada, pondo a nu a falta de democraticidade interna.

Pode ter graça ver que João Semedo não serviu para presidente do grupo parlamentar (candidatura chumbada em 2009), mas é útil nesta fase em que o “movimento” está pouco menos do que destroçado.

Estes e muitos outros aspectos podem ter graça, mas é chegada a altura de recordar que o BE (e o PCP) é responsável pela entrega do poder à direita, essa direita que lançou um fortíssimo ataque aos direitos do trabalho (com medidas que não constavam do memorando inicial assinado com a troika), que está a tomar decisões para a destruição do Estado social e que não descansa enquanto não rasgar a Constituição.

As disputas pelo poder no seio do BE podem servir às mil maravilhas para nos entreter na silly season, mas não podem servir de cortina de fumo para ocultar o que esteve na origem da barafunda por que passa agora o “movimento”: a “coligação negativa” entre o BE (e o PCP) e a direita durante seis anos, que foi subindo de tom até à apresentação da moção de censura, e atingiu o seu ponto culminante com o chumbo do PEC 4 e a entrega do poder à direita.

Foi, então, que muitos “activistas” do Bloco se insurgiram contra o tacticismo suicida do “politburo”. Louçã conseguiu evitar que fosse discutida a questão da liderança na “convenção” “mesa nacional” que se seguiu às últimas eleições legislativas — para ganhar tempo para preparar a “sucessão”.

A saída de cena (?) de Louçã não deixa de ser o resultado — ainda que ao retardador — de um cartão vermelho mostrado pelos eleitores. Resta, agora, saber se o BE quer continuar a ser objectivamente uma arma de arremesso da direita contra o PS. Se a liderança do BE vai ser “a meias” (ou não) é pouco relevante (salvo quando houver debates, em que será preciso fazer um intervalo para entrar em campo a outra metade).

sexta-feira, agosto 03, 2012

Da série "Frases que impõem respeito" [710]

    É um desperdício a forma autoritária como Louçã exerce a liderança.
      Rui Tavares, deputado europeu eleito como independente na lista do BE, ao outrora luminoso Sol (p. 16)